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116ª Leva - 01/2017 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Eu, Daniel Blake. Bélgica, França, Reino Unido. 2016.

 

A propósito de Eu, Daniel Blake, último filme do diretor inglês Ken Loach, ganhador da Palma de Ouro de Cannes em 2016, o ex-Secretário do Trabalho do governo conservador britânico, Iain Duncan Smith, disse que o filme era injusto com os trabalhadores do serviço social inglês.

Certo ou errado, o secretário do Partido Conservador julgou o filme pelo que poderíamos denominar de “preconceito mimético”: existiria um protótipo real do qual o filme é apenas uma cópia ou representação de segunda mão. O preconceito mimético repousa na crença de que o cinema pode ser apenas uma imagem mais ou menos fiel de outra imagem primária, mais original.

O cinema sempre foi uma vítima preferencial desse preconceito, embora sua história tenha sempre sido de uma arte construtiva da imagem, arte menos de representação e mais de criação e de transformação. As operações básicas do cinema, o corte e a sutura, são técnicas de incisão e excisão da imagem pelas quais a montagem compõe um procedimento: o cinema é um aparelho através do qual as imagens são diferenciadas, transformadas, alteradas e metamorfoseadas tecnicamente.

O cinema de realismo crítico de Ken Loach habita perigosamente a zona estética desse engano centenário que confunde a imagem prototípica e a imagem secundária. Que realidade é essa que o diretor traz ao espectador para que ele reflita e critique? Nos anos 60, o teórico Roland Barthes afirmou, em relação à literatura, que não havia romance ou escrita realista, mas apenas a escrita que gera um “efeito de real”. Por isso, a pergunta a respeito do cinema de Loach precisa ser deslocada: que efeitos de real nos trazem as imagens que suas câmeras operaram?

Daniel Blake (vivido pelo ator Dave Johns), carpinteiro, em sua meia idade tardia, fica desempregado após um ataque cardíaco e se candidata a um beneficio social de saúde, porém a perícia o considera apto, apesar de seu médico lhe ter proibido de trabalhar durante a recuperação. Enquanto espera recorrer do resultado da perícia, Blake é obrigado a se candidatar ao estipêndio de salário-desemprego, mas para receber esse outro benefício, ele precisa passar por uma qualificação para entrevistas, montar e distribuir currículos e comprovar que está procurando emprego, embora clinicamente esteja incapacitado para trabalhar.

Com esse roteiro, o filme guarda semelhanças fortíssimas com o filme francês O valor de um homem, de Stephane Brizé (2015).  A semelhança entre os cenários inglês (em Newscastle) e francês reforça a impressão de estarmos assistindo a uma reprodução fiel do contexto trabalhista europeu: a escassez de trabalho de um sistema econômico que produz desemprego e a destituição de uma ideia de Estado de Bem-Estar social que deveria bancar o sistema de seguridade para acolher desempregados e incapacitados.

O filme de Ken Loach (cujo roteiro foi escrito por seu colaborador frequente Paul Laverty) é a narrativa de um giro em falso. Circulando entre a má vontade dos assistentes da seguridade, as esperas longas, irritantes e desmobilizadoras do serviço de teleoperadoras e as complicações do mundo digital com as quais é incapaz de lidar, Daniel Blake parece dar voltas sem sair do lugar.  China, seu jovem vizinho, lhe adverte que o sistema fará de tudo para que ele desista de solicitar aquilo que tem direito.

No entanto, Daniel Blake cumpre seu caminho pacientemente. A certa altura, ele desabafa à única assistente que o escuta. Ambos estavam se enganando mutuamente: ele estava procurando empregos que não existiam e ela oferecia serviços que o Estado não quer ou não pode mais oferecer.

Dave Johns na pele de Daniel Blake / Foto: divulgação

O contexto subjacente de Eu, Daniel Blake é a da capitulação do Estado frente ao Capital.  Estado que não quer mais cumprir seu papel de proteção social e quer despejar sobre os ombros dos trabalhadores a culpa por esta capitulação.  Com isso, surge a farsa da procura por empregos que não existem, das perícias que não periciam, da qualificação dos desqualificados ou incapacitados. O protagonista do filme, no entanto, é aquele cuja dignidade é a de não desejar participar dessa farsa.

Contra a ficção dos empregos que não existem e do Estado que é apenas um subsidiário subalterno de um poder econômico maior e invisível, Eu, Daniel Blake apresenta a narrativa do trabalhador que quer valer sua dignidade de cidadão e da solidariedade cotidiana entre os trabalhadores. Daniel oferece sua ajuda, seu apoio e seus dotes de carpinteiro a Katie (Hayley Squires), mãe solteira homeless de dois filhos que também procura emprego. Numa das cenas mais pungentes do filme, ele a ajuda e a incentiva num momento em que Katie sucumbe de fome num centro de distribuição de cesta básica. Ele lhe diz que a fome não é motivo para vergonha e que há dignidade em buscar alimentos para os filhos e em lutar por sua subsistência.  Nesse momento também aparecem as agentes sociais que realmente se mobilizam pelos necessitados.

Assim, à farsa fictícia agenciada pelo conluio entre o Estado e o Mercado, Loach opõe o realismo do coração debilitado de Daniel, da fome de Katie, e de uma solidariedade subterrânea que se mantém viva sob os escombros da própria classe trabalhadora desmobilizada. No entanto, esse realismo é antes alegórico, pois o coração solidário de Blake é também a imagem metafórica e contrastante do coração ausente do sistema social desumano. E a solidariedade entre os trabalhadores é o negativo do acordo espúrio entre Capital e Estado.

E há o fato de Daniel Blake ser um carpinteiro, o que projeta no filme uma forte ressonância religiosa cristã. Mas antes da sugestão religiosa, há a evidente caracterização de Blake como um trabalhador hábil com as mãos, com um saber ancestral e essencialmente analógico, mas tendo que lidar com um mundo digital, imaterial e aparelhado por corporações que se escondem atrás de sistemas informatizados. Não é um gap geracional que o filme aborda, mas um contraste de mundos e modos de existência radicalmente diferentes. Assim, a solidariedade trabalhista que surge nesse filme parece ser remanescente de um mundo que se extingue.

No novo mundo do capital digitalizado e da capitulação do Estado, os sindicatos sequer são lembrados e os trabalhadores estão entregues à própria sorte. Por isso, o filme de Ken Loach não é o retrato realista de uma época, mas uma fábula humanista de feições kafkianas, por suas armadilhas circulares e procuras absurdas. Fábula que faz aparecer as imagens que estão excluídas das configurações de poder dominantes, digitalizadas, algorítmicas e programadas, antes que essas imagens se tornem completamente esquecidas ou absolutamente ignoradas.

A questão final é: haverá lugar para o humanismo cinematográfico de Ken Loach? O efeito de real dessa fábula será capaz de mexer com o coração de silício do sistema? Numa cena emblemática do filme, Daniel Blake faz seu protesto na rua pichando o muro do prédio da seguridade social com seu nome e o de sua luta. É aplaudido pelos transeuntes como um novo herói. Se essa mesma cena ocorresse no Brasil, não faltaria talvez quem o acusasse de vandalismo. Estamos em tempos difíceis para o humanismo. Por isso, as imagens precisam se emancipar do presente para propor versões de mundos com outras relações de afeto e de sociabilidade e dar nomes às lutas que engendrarão novas configurações de espaço-tempos.

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor. É autor de Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Ed. Oito e Meio/2014), e um dos organizadores do coletivo literário Clube da Leitura no Rio de Janeiro, tendo participado como autor e editor das três coletâneas lançadas pelo grupo. Atualmente, é doutorando em Teoria Literária da UERJ, onde realiza pesquisa sobre a aproximação entre Literatura e Ciência. Escreve sobre cinema desde 1995, quando recebeu um prêmio de crítica literária do Grupo Estação e do Jornal do Brasil num ensaio sobre o filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.

 

 

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109ª Leva - 03/2016 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

 

Doses exageradas de estranheza

Por Sérgio Tavares

 

eucowboy

Um exercício de porra-louquice é o que rege o processo de construção de “Eu, Cowboy”, de Caco Ishak. Em seu livro de estreia, o escritor goiano empenha-se na radicalização da forma e do estilo, concebendo uma colagem frenética, um “brainstorming”, uma metralha narrativa que esfacela qualquer conceito instituído de gênero, ação temporal e estrutura temática.

De fato, uma classificação mais adequada ao resultado final seria “um romance de subversão desconstrutiva”. Para se ter uma ideia, somente na página vinte e cinco é que se começa a prestar esclarecimento de quem protagoniza a trama.

Este é Carlo Kaddish (ou assim parece ser). Um sujeito inescrupuloso, hedonista à terceira potência, com queda por (pré-)adolescentes, cujos dias se tencionam numa roleta-russa existencial. Ao seu redor, orbitam amigos também adeptos ao comportamento desbragado e, da mesma maneira, medíocres perante suas responsabilidades. São todos losers, conformados de que “cresceram ficando para trás”. “Continuo andando com os mesmos frustrados de sempre e só porque eu me sinto bem ao lados deles”, confessa Carlo, assumindo o fracasso na condição de um mal congênito.

A culpa estaria na “geração que perdeu o medo de envelhecer” e, assim, ficou suscetível a uma crise extemporânea de meia-idade. “(…) a graça disso tudo é que, mesmo podendo viver até os trezentos, a sensação geral é de que, passou dos trinta, já era”. Portanto, o que resta é se lançar numa incursão de excessos, sem compromissos, incitando “o prazer pelo prazer de carregar um vazio nas costas, já fora do peito, trancafiando nada”.

Os únicos poréns, no caso de Carlo, seriam o afeto pela filha mantida à distancia pela mãe e o gosto pelas artes plásticas. Ou talvez não, quem sabe? Por certo, mesmo a descrição acima tem grande chance de estar equivocada. Isso porque foi montada através de cacos de informações desbaratados por todo o livro. Alguns, inclusive, contraditórios, devido ao jogo verborrágico de encavalar trechos de momentos distintos, sem conexão entre si.

Ishak empreende esse efeito aleatório no desenvolvimento (ou esboroamento) da narrativa, coadunando maciços de texto, diálogos longos e curtos, e-mails, palavras em caixa alta, verbetes de dicionário e trechos de música em inglês. A voz, em primeira pessoa, por vezes rompe os limites internos e se dirige diretamente ao leitor, mostra consciência de que está numa obra de ficção. Passado e presente se intercalam de maneira incessante (quando não se sobrepõem), em saltos temporais que se localizam nos anos 90 e no começo dos anos 2000.

O entender corrosivo destas duas décadas, aliás, é o ponto alto do livro. Embora não deixe de desfilar, por meio de seu protagonista, reflexões carregadas de uma filosofia torta, o autor constrói sua ambientação por meio de referências que vão da cultura pop a fatos históricos. Informações sutis, sugestões, o que hoje é conhecido, na cartilha cinematográfica, como easter egg. De nomes de bandas a títulos de canções que evocam bandas, da MTV ao 11 de setembro, do grunge à uma ressaca permanente, um ressaibo de que tudo se podia, ainda que não se quisesse nada, há iscas para interpretações por todo o romance. É um recurso estimulante, mas que, por conta de outra decisão, vem a se tornar um problema.

Ishak ergue sua história com a pulsão de detalhes, contudo aferrada a um ritmo vertiginoso, uma prosa resfolegante que impede que a leitura se detenha a esses pormenores, tenha tempo para decifrá-los. Tudo vem num jorro, como que arrevessado, sem preocupação em estabelecer um fio condutor, tampouco uma lógica. Isso acaba forçando várias pausas que, por fim, só incrementam a sensação de desbarate.

Outro aspecto contraproducente é a opção pela autossabotagem, a autodepreciação das próprias escolhas, não deixando muito claro se a intenção é sobrepesar a acidez, constituir uma paródia ou destilar doses cavalares de crítica. O autor planta aqui e acolá palavras como “cópia”, “plágio”, brinca com os clichês narrativos, reconhece que escrever é “chupar” o que já foi feito, que escritor é “copiar e colar diferente”.

Em dado momento, quando Carlo sugere largar tudo e cair na estrada a la Kerouac e seu clássico “On the road”, ele mesmo aponta que é uma ideia nada original, ainda que seja, na verdade, uma pose de “tô cagando pro Kerouac”. Essas sacadas, ainda que divertidas, dependem de uma bagagem extraterritorial ao livro, que não está em todo leitor, e acabam soando como um tipo de piada interna, a piada que anula a própria piada.

Enfim, “Eu, Cowboy” é uma experiência mobilizada por sensações, vozerio e muita fúria que se assemelha a uma locomotiva em pleno movimento que, tal uma locomotiva em pleno movimento, não é fácil de embarcar.

 

Sérgio Tavares nasceu em 1978. É autor de “Queda da própria altura”, finalista do 2º Prêmio Brasília de Literatura, e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o inglês, o italiano, o japonês e o espanhol. Participa da edição seis da Machado de Assis Magazine, lançada no Salão do Livro de Paris.

 

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105ª Leva - 08/2015 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Larissa Mendes

 

Eu, Você e a Garota que Vai Morrer (Me and Earl and the Dying Girl). EUA. 2015.

Poster

Esqueça seu preconceito com a temática adolescente (principalmente americana): bullying, baile de formatura, busca de popularidade (ou falta de) e tudo que assombrou o colegial de todos nós. Baseado no livro homônimo de Jesse Andrews – que também assina o roteiro do filme – e vencedor de público e júri no Festival de Sundance deste ano, Eu, Você e a Garota que Vai Morrer estreou no Brasil na 17ª edição do Festival do Rio e deverá entrar em circuito nacional em novembro. Apesar de soar à primeira vista como um mix de Rebobine, Por Favor (2008), As Vantagens de Ser Invisível (2012) e A Culpa é das Estrelas (2014) – os dois últimos também adaptações literárias –, o novo longa-metragem do cineasta Alfonso Gomez-Rejon – mais conhecido por dirigir episódios das séries Glee (2009-2012) e American Horror Story (2011-2014) – bebe mesmo é da fonte de Wes Anderson, vide a utilização de enquadramentos não-convencionais, fotografia ensolarada e divisão em atos, com subtítulos espirituosíssimos.

A trama conta a história de Greg Gaines (Thomas Mann, não confundir com o homônimo escritor alemão), aluno do último ano do colégio Schenley, em Pittsburgh (Pensilvânia). Greg e “sua cara de marmota”, como se autodeprecia, não se encaixa em nenhuma “nação”, como ele denomina as tribos de alunos, porém transita com superficialidade entre todas. Tudo para passar despercebido pelo 2º grau, sem arranjar inimizades ou maiores constrangimentos. Seu único amigo (ou “colega de trabalho”, como gosta de retificar, uma vez que são parceiros na [re]produção de curtas-metragens de clássicos do cinema) desde a infância é Earl Jackson (o promissor RJ Cyler), adolescente negro e suburbano com quem almoça todos os dias na sala do tatuado professor de História, Mr. McCarthy (Jon Bernthal) – o único adulto sensato da escola, segundo eles. A vida de Greg muda quando sua mãe (Connie Britton) o obriga a procurar e consolar Rachel Kushner (Olivia Cooke, a Emma da série Bates Motel, novamente fazendo papel de enferma), colega de classe diagnosticada com leucemia.

cena do filme
Rachel (Olivia Cooke) e Greg (Thomas Mann) assistindo uma de suas produções cinematográficas / Foto: divulgação

O que inicia como um martírio – a tomada de câmera no quarto de Rachel que ilustra o abismo que há entre os personagens é sensacional – gradualmente assume um papel de amizade, diversão e cumplicidade. Logo Earl é introduzido ao novo relacionamento, e só assim Rachel – dona de uma enigmática coleção de tesouras – descobre mais detalhes sobre o sarcástico Greg e o hobby favorito deste fã de Werner Herzog. E é através dos remakes bizarros de Rashomon (1950), O Sétimo Selo (1957), Laranja Mecânica (1971), Morte em Veneza (1971), Apocalypse Now (1979) e tantos outros, que a personagem preenche as agruras de seus dias [pós-quimioterapia], sem saber que em breve também ganhará uma produção da dupla, sugerida por sua amiga Madison (Katherine Hughes). Narrado por Greg, Eu, Você e a Garota que Vai Morrer dosa cirurgicamente drama e humor e escapa praticamente ilesa aos lugares-comuns do argumento. A la Michel Gondry, acrescenta elementos fantásticos e animações graciosas – como a teoria de que garotas são alces e garotos, esquilos – e reverencia os grandes diretores da sétima arte.

O longa cativa pela desenvoltura do enredo e carisma do elenco (destaque para o pai de Greg, professor universitário apaixonado por gatos e comidas exóticas, interpretado de forma magistral por Nick Offerman, e para Molly Shannon, atuando como Denise, a ébria mãe de Rachel), mérito de uma direção precisa de Alfonso Gomez-Rejon (que já foi assistente de Martin Scorsese e Alejandro González Iñárritu), ancorado pelo escritor/roteirista e grande conhecedor da história, Jesse Andrews. A narrativa contempla amizade e solidariedade, presente e futuro, vida e morte. Impossível não se emocionar e desejar a recuperação de Rachel, imaginar Greg na faculdade ou até mesmo torcer por um romance entre os protagonistas (ok, desculpe o clichê). Mas como não se trata de um filme previsível, jovens e adultos: preparem o sorriso, o lencinho e a pipoca. Independente da idade, também vamos querer integrar a trupe de Greg, Earl e Rachel.

Larissa Mendes também forja cenas em condição sub-humana.