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71ª Leva - 09/2012 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

 

Pintura: Sylvana Lobo

 

AFAGO

Fábio de Souza

 

Ele ressonava, de modo que pude surpreendê-lo com o afago delicado na nuca suada. Parecia ser sempre assim: quando ansiávamos algo, vinha a tal necessidade do corpo do outro, como se daí fosse provável extrair não o calor, ou a aspereza da pele, mas um pouco da nossa própria subsistência, do afeto que nos garantiria um pouco mais de tempo, sim, essa urgência toda a nos impelir ao toque. Da janela, todas as tardes, era possível sentir o dia inflamar-se de um calor que segregava essas horas insondáveis à beira do sono, quando tudo o que tínhamos era que aguardar que esses corpos aí arrancassem um do outro um certo gozo sofrível, quase às raias da inanição. Para então desabarmos, como se ruísse a carne. Nessas horas me esquecia de quem eu era, se homem ou mulher, para experimentar daquele ranço à beira do sono. Ali mesmo. E desconfiava se de mim não se esvaia a vida, sem que eu sequer a sentisse. Beijei-lhe a fronte, então. Um gesto providencial, como se a reafirmar minha própria existência ao seu lado. E notei que ele ainda dormia. Num timbre aveludado, quase um sopro a afetar-lhe naquela iminência insuspeita, tão imerso que ia: “vamos, acorde”, eu disse…

 

 

***

 

 

ESTRANGEIRO

 

No pesadelo da noite anterior eu morria nessas paragens. Velho e só, feito agora. Uma tarde igual a essa, quente e de brisa nenhuma, o ar como que estagnado. Um mal que me acometia num desses repentes. Me levava até a última memória. E lá ficava eu, oco por dentro, minguando sob aquele deserto todo, azul e ofuscante, qual esse que já me assola o juízo. Piso o cimento, ensaio palavras numa língua que mal sinto o gosto. Tarde de domingo, acho. Caminho a passos omissos. A estação rodoviária deserta. Penso se chegaria ao fim de tudo. Esqueço o propósito de minha viagem até ali. Deixo de buscar o endereço horas depois, mais ou menos quando me perdi. Mais ou menos nesse instante, quando resolvi entregar os pontos e ceder. Sim, mais ou menos aí, quando eu já não tinha mais forças para exigir coisa alguma de minha vida àquela altura. De modo que sentei. O banco de pedra de meu pesadelo. E esperei, sobre o dorso das horas. Esperei que algo me ocorresse. Uma puta dor no peito…

 

(Fábio de Souza é escritor. Nasceu em Cuiabá, MT, em 1987. É colaborador dos coletivos literários “Dona Zica tá braba” e “Filacantos”. Reside atualmente em Brasília)

 

 

 

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68ª Leva - 06/2012 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Foto: Juh Moraes

Viviane de Santana Paulo

 

acredito no ocaso das tempestades no copo d’água
depois das ondas presas no mínimo oceano
dos relâmpagos azuis nas bordas das palavras
da borrasca no reverso dos gestos
acredito no zéfiro alisando o esgar dos rochedos
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxno cimo do dia seguinte

 

 

***


quantas frações de instantes até o felino
abater o antílope e enfiar os dentes afiados
no pescoço macio e morno do pulsar exasperado
da fuga    curta
a liberdade que era de  um
passa a ser do outro que se satisfaz
com o andamento prescrito das coisas
com o manejo das mandíbulas
e o rosnar faminto da Natureza dualística
tanto cruel como generosa   e sempre política

 

 

(Viviane de Santana Paulo (São Paulo), poeta, tradutora e ensaísta, é autora dos livros Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Integra as antologias Roteiro de Poesia Brasileira – Poetas da década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009) e Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007). Participou, em fevereiro de 2012, do VIII Festival Internacional de Poesia em Granada, Nicarágua)