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102ª Leva - 05/2015 Destaques Olhares

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Indeléveis dimensões

Por Fabrício Brandão

 

Ana Pérola

 

A cada passo dado, as sandálias do caminhante desgastam-se num ciclo irreversível. É o tempo com suas investidas e artimanhas. No mesmo instante em que se olha para trás, os rastros deixados já não são mais os mesmos. Inexplicavelmente, nossa capacidade de perceber o exíguo prazo de duração de um estar no mundo é inversamente proporcional ao que podemos reter de fato. Assim, anda-se muito. Assim, fala-se em demasia. Assim, perde-se o essencial da viagem.

É possível a fuga do mundo quando ele nos apresenta a sua face mais cruel? Nem sempre. Muitos dirão haver saída nos incontáveis manuseios da abstração. Outros verão a tudo com certa resignação e tentarão ressignificar viciadas paisagens. Alguns mais darão um beijo de língua nessa divindade chamada caos. Seja qual for a alternativa elegida, em tudo haverá um pacto, o qual, silencioso ou não, adentrará dias e noites convidando corpos e almas a refastelarem-se no grosso caldo da incerteza.

De toda sorte, há combates entoando seus cantos por todas as frentes. Se guerreamos, consentimos em deixar partes nossas nos vãos devastados e tentamos conviver com o saldo dos vestígios. Se nos omitimos, duras revoluções implodem nosso ilustrado castelo de cartas falivelmente projetadas. Por tudo isso, a desordenação das coisas até pode assustar hordas de desavisados, mas haverá quem vislumbre nela a oportunidade de olhar a tudo como uma outra dimensão da existência.

 

Ana Pérola
Foto: Ana Pérola

 

O que dizer, então, quando nos deparamos com as fotografias de Ana Pérola Pacheco? Arriscar na resposta uma ideia de que o caos nosso de cada dia é um lugar de aproximações. Se o mundo afugenta por suas complexas questões indecifráveis, a artista estreita os laços com o seu tempo, seu espaço e, sobretudo, sua gente. É uma predileção que não ressalta escolhidos, mas sim alça os seres a um patamar de igualdade entre si.

Numa dinâmica de comunhão entre pessoas, lugares e esferas intangíveis, Ana desfila seus olhos ante o girar da vida. O resultado é uma delicada apresentação do real segundo uma ótica que não negligencia as hesitantes intervenções humanas. Afinal, somos um barro cujos moldes apontam para sabidas imperfeições.

Quando a constatação das visões da vida nos revela a pungência das adversidades, aí então notamos o caráter essencial da expressão de Ana Pérola: poder observar as tensões mundanas e retirar delas saídas poeticamente imagéticas. Tal perspectiva não vem acometida por uma necessidade de redenção ou purificação diante de um mundo declaradamente conturbado. O viés adotado pela fotógrafa também intenta uma leveza que seja capaz de minimizar a solidão dos homens, propondo-lhes caminhos de aproximação.

 

Ana Pérola
Foto: Ana Pérola

 

Nascida no Rio de Janeiro e vivendo atualmente em Florianópolis, Ana também se dedica à literatura, tendo publicado poemas e ensaios. Mantém o blog Sentidos e é colaboradora do site Poesia: Falsidade Ideológica.

De mãos dadas com a poesia, a fotógrafa promove suas imersões num mundo que, por vezes, todos julgamos conhecer. Mas será que o sabemos de fato em sua inteireza? Melhor confessar que não, pois a pretensão é superior à concretude de nossas constatações. Assim sendo, Ana crê num caminho que constrói perspectivas, valorizando um ambiente no qual nossas humanas idades representem menos turbilhão e mais serenidade. E no âmago dessa busca, ela mesma nos diz:

 

Há quentura na sombra
E há também frieza no vazio.
Os pés que te levam
É o meu retorno para o lado contrário
Nossa estação de passagem
Transborda fantasia
Aguça a alegria do sonho
Esquenta
E danço, como o fogo quando queima a lenha
Voo pr’um mundo que não sei, que não vi
Desafio-me no olho do desconhecido, vibro
Talvez eu ame algum dia. Talvez.
E até dê flores aos Amigos
Talvez eu me encoraje e abra a porta
Dê descarga, deixo ir a sobrecarga
Me banho na água do rio e vou
Correnteza. Ser oceano.

 

Ana Pérola
Foto: Ana Pérola

 

* As fotografias de Ana Pérola Pacheco fazem parte da galeria e dos textos da 102ª Leva

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90ª Leva - 04/2014 Destaques Olhares

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AMPLITUDES

Por Fabrício Brandão

Foto: Nathalia Bertazi

 

São infindos os espaços ao redor. E há dois tipos deles a mover seus cursos de aparição frente a uma hesitante natureza humana. O mais aparente desfila a todo instante numa tentativa quase fugaz de impedir que se perca no oceano dos dias. O outro requer um pouco mais de atenção, quiçá uma percepção que deva vencer as primeiras barreiras de um olhar tão vilipendiado pela rotina.

Acontece que esses dois mundos atravessam nossos sentidos cumprindo um tácito acordo. Enquanto a dimensão que se pretende intensamente física denota cores, formas, gestos e traçados mil, a outra esfera de vivências requer que o tempo seja percebido como uma tênue cortina, na qual um painel de densidades da alma encontra vistoso refúgio. Mas eis que a simultaneidade entra em cena e nos sugere possíveis zonas de convergência entre o que representa a matéria e tudo aquilo que a transcende.

No momento em que um artífice da luz, comumente intitulado de fotógrafo, traz à baila a conjunção do físico com o etéreo, é porque carrega no seu íntimo todo o entendimento de que não há imagem sem um sustentáculo essencial que a configure. Assim, o que vemos de imediato não é apenas uma mera camada evidente das coisas, mas sim o primeiro passo para se experimentar o que alimenta o delicado mecanismo da existência.

Apreender os percursos de Nathalia Bertazi muito se assemelha a um mergulho num enigmático eixo espaço-temporal dos fenômenos mundanos. Com ela, vislumbramos uma espécie de sentimento do locus humano quando nos deixamos guiar pela investigação arquitetônica das cidades. Desse olhar que mira fachadas de prédios, tetos, catedrais, casarios e também ruínas, submergem as vontades abrigadas dos homens. Muito mais do que edificações do concreto, os ambientes ali registrados documentam um ritual diário de sentimentos incontidos.

Foto: Nathalia Bertazi

Como se não bastasse, a mesma Nathalia se reveste de outras personas e amplia sua visão para tatear a tez da própria vida. Assim o faz quando promove um sensível recorte sobre o gestual emblemático da passagem do tempo. Aqui, a fotógrafa vislumbra a poesia encerrada nas marcas travestidas de maturidade. O estado de coisas ao qual poderíamos apressadamente nomear de velhice é sobejamente percebido como um retrato ativo da existência, demarcando contornos que extrapolam a simples constatação dos anos já vividos.

Confessando-se uma verdadeira apreciadora de cidades, linhas, curvas e janelas, Nathalia Bertazi traz de longa data a sua paixão pela arte de captar a luz. Desde a infância, a fotografia se apresentou como uma companheira inseparável. Os anos se passaram, ela aprimorou sua formação na área, e hoje dedica a integralidade de seu tempo ao ofício, trabalhando como editora de imagem na Revista GQ.

Seja na captura de atmosferas de convívio ou na forma como apresenta os arcabouços físicos que nos envolvem, a visão de Nathalia definitivamente aponta para uma rota de transcendência. E o ingrediente que torna a sua arte muito próxima de um flerte com o teor sublime é justamente a perspectiva de assimilar alguns vestígios humanos como elementos indispensáveis de um processo original de construção imagética. Se ainda resistem múltiplas zonas de conflito a povoarem nossa capacidade de enxergar o substancial das coisas, é também porque não nos permitimos afugentar certos vícios domesticados.

Foto: Nathalia Bertazi

* As fotografias de Nathalia Bertazi são parte integrante da galeria e dos textos da 90ª Leva.

 

 

 

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89ª Leva - 03/2014 90ª Leva - 04/2014 Destaques Olhares

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A poética dos intervalos

Por Fabrício Brandão

 

Arte: Leonardo Mathias

 

No diapasão tempo-espaço, a matéria apresenta suas diferentes formas de estar no mundo. Revestida com seus tons aparentes, ela ora explicita muitos de seus significados, ora cumpre um ritual que permanece oculto diante do nosso imediatismo questionador. Quando a margem para a revelação se processa além das esferas físicas, algo marcante instaura-se em torno das nossas percepções. Nesse novo e enigmático território, resiste o verbo segredado e habitante de uma morada regida pelos imperativos do ser.

A busca pela essência é em muito representada pelo enfrentamento dos mistérios, sobretudo quando adentramos um ambiente que desafia nossa mais primitiva capacidade de compreensão das coisas. Assim, vislumbrar cenários contidos nas entrelinhas do ser é como se voltar ao eu tentando captar dele seus sinais genuínos. Noutros momentos, pode também ser uma espécie de déjà vu por entendermos que certas paisagens nos soam curiosamente familiares.

Em meio a tais caminhos, feitos de delicada e inexplicável substância, Leonardo Mathias deixa correr soltas suas visões da existência. Entre desenhos, ilustrações e aquarelas, inscreve-se um tempo marcado pelo sabor dos intervalos. No jogo que permeia a visão imediata de pessoas e objetos, esse artista elege os recônditos como sendo os símbolos preferenciais de seu trabalho. Interessam-lhe desvãos e sendas, elementos que protagonizam o indizível.

 

Arte: Leonardo Mathias

 

Ao passo que sua arte preconiza um recorte intimamente compartimentado das coisas, Leonardo também prefere a antevisão dos cenários e ações, característica que torna robusta a sua perspectiva de conceber a um tudo com olhares de experimentação. Dentro dessa ótica, a vida mesma pode ser recriada segundo uma ordem que equaciona saberes e sabores. O mecanismo que antecipa sensações não é apenas uma tentativa de enxergar o essencial nas entrelinhas do mundo, mas, principalmente, um modo de vivenciar as nuances complexas que se abrigam no interior dos dias.

Outro aspecto que merece ser destacado na obra de Leonardo é o modo como se processam as intervenções humanas nos ambientes.  Aqui, o interessante é notar que se opera uma convergência entre corpos e lugares permitindo a ambos uma espécie de translucidez não somente física, mas também algo abstrata. Nesse hiato de territórios que se fundem, o artista encontra a poesia capaz de engendrar recortes da alma.  A luz que atravessa os pontos de observação do criador redimensiona o caráter conceitual das coisas e, como ele próprio confessa, intenta consolidar uma matéria de encantamento.

 

Arte: Leonardo Mathias

 

As frentes de atuação de Leonardo Mathias não se restringem apenas ao campo das artes visuais e do design. Na seara literária, tem devotado especial atenção à poesia. Seu livro “De Pé” foi recentemente reeditado pela Editora Patuá. Possui colaborações em jornais como O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo, bem como nas revistas ZUPI e InPrint Magazine. Participou de várias mostras coletivas, sendo que, em 2012, realizou sua própria exposição individual, intitulada As Janelas de Rilke, premiada pelo ProAC Artes Visuais (Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo). No meio editorial, sua participação tem sido bastante expressiva, pois ilustrou e assinou projetos gráficos de mais de uma centena de livros.

Dada a aguçada sensibilidade do artista, suas imagens estão à serviço de uma compressão na qual tempo e espaço se conjugam de modo a transmitirem uma peculiar noção de unidade. O olhar que vislumbra o viés orgânico de corpos e objetos transcende a materialidade e nos faz contemplar um universo densamente etéreo. Seu porta-voz, Leonardo, se encarrega de nos ofertar os códigos da sutileza para um deleite autônomo.

 

Arte: Leonardo Mathias

 

* Os desenhos e ilustrações de Leonardo Mathias são parte integrante da galeria e dos textos da 89ª Leva.

 

 

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81ª Leva - 07/2013 Destaques Olhares

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PARA ALÉM DAS ÁGUAS

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Mario Baratta

 

 

Deixar que o tempo manifeste seus desígnios livremente, apontando direções a seguir. Intuir o curso das águas rumo ao mar que espelha a relativa eternidade das coisas. Um pouco de nossas infinitudes marca o pensamento, e navegar adiante é, sobremaneira, atracar o barco da esperança num cais onde impere a serenidade. O tão projetado porto seguro insiste em ser a grande metáfora da busca imprecisa que carregamos em vida. A partir disso, existir é tão somente uma questão de reter os sinais da odisseia que frequentemente empreendemos.

Há quem nos sirva de guia numa jornada que sabe ao desejo de chegada, e divide conosco o aportar em cada novo lugar como sendo uma experiência de profunda descoberta de si mesmo. São peregrinos como Mario Baratta, que, superando procelas, instauram em nós um sentido sublime para a existência.

Ilustração: Mario Baratta

Ao trilharmos uma rota comum à do artista, percebemos que o fluxo das coisas resiste às intempéries, fazendo com que outros cenários se mostrem com todo o vigor da simplicidade. Se o caminho da revelação é tortuoso por natureza, a arte de Mario subverte as limitações impostas e pretende reinvenções. É, então, que águas bravias sucumbem diante da beleza, esta senhora que apazigua os caminhos do mundo.

Natural de Belém, no Pará, Mario Baratta é íntimo do mistério das águas. Desde a mais tenra idade, acostumou-se a enxergar além das paragens físicas do Rio Amazonas, absorto que estava pela curiosidade de tentar entender a simbologia incontida das águas.

Ilustração: Mario Baratta

Assim, deixou-se conduzir pelos ensinamentos do pai, primeiro cicerone na sua lida com tintas e papéis.  Formou-se em arquitetura e, no meio do trajeto, apaixonou-se pelo ato de lecionar na área, missão da qual não mais se apartou. Entre os feitos de seu currículo, o artista considera como especiais as ilustrações criadas para livros infantis. Aquarelas inspiradas em barcos também são outro ponto importante de sua carreira.

Com uma temática que agrega a arquitetura, as cidades, os rios, o mar, os barcos (batizados por ele como arquiteturas flutuantes), pescadores, trabalhadores urbanos e pessoas, enfim, traços da simplicidade da vida, o artista é testemunha cabal de que tudo se traduz num dinamismo incessante.  Nele, percebemos que o muito de que se precisa para viver é estarmos atentos às manifestações singulares que nos cercam. Um sentido de liberdade está impregnado em sua obra, a tal ponto que partidas e chegadas da permanente viagem humana são faces duma mesma moeda. Parafraseando Milton Nascimento, a arte de Mario Baratta inventa um cais e sabe a vez de se lançar.

 

 

Ilustração: Mario Baratta

 

 

*As ilustrações de Mario Baratta são parte integrante da galeria e dos textos da 81ª Leva.

 

 

 

 

 

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78ª Leva - 04/2013 Destaques Olhares

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NA LIQUIDEZ DA PAISAGEM

Por Fabrício Brandão


 

Foto: Rosa De Luca

 

Pensar novos moldes aos contornos do mundo. Observar com plasticidade cada nuance que se afigura passível de ser vislumbrada. Propor dimensões e, com isso, poder demarcar novas paragens para as andanças sobre a terra. Os dias, com toda a sua carga de signos distintos, sucedem desafios ao olhar de um alguém capaz de transformar a luz em matéria eivada de poesia. Assim, somos conduzidos através dos ímpetos propostos pela fotografia de Rosa De Luca.

Paulista por nascimento, Rosa enxerga a existência como um delicado ato de reinvenções. Seus registros são a prova de que sempre podemos perceber as coisas que nos cercam com status de singularidade. Por mais banalizados que possam ser os lugares que nos abraçam cotidianamente, a artista nos sugere a descoberta de outros modos de experimentar a vida.

Uma temática muito cara ao trabalho de Rosa é, sem dúvida, a forma como concebe a representação das águas. O dinamismo embutido no captar dos espaços líquidos representa muito mais do que um ponto de contemplações. Ali, a capacidade de abstração potencializa as ações derivadas de uma feição etérea das paisagens tanto físicas quanto humanas. Desse modo, parecemos acalentados pela invisível mão da serenidade.

Foto: Rosa De Luca

A fluidez do tempo aparece como outro grande elemento destacado pela fotógrafa. Na ciranda que empurra os instantes sempre adiante, vê-se a terna presença duma atmosfera cujo ritual maior abriga o silêncio, como se este fosse uma curiosa forma de oração.

Com uma carreira iniciada em 1984, Rosa De Luca abriga em sua trajetória uma série de exposições dentro e fora do Brasil, tendo também desenvolvido trabalhos em revistas e publicidade. Nos seus percursos com a fotografia, aprendeu, sobretudo, a pensar a imagem como uma importante fonte de criação de linguagens. Sua atuação como web designer também foi fundamental para a abertura de novas perspectivas visuais.

Considerada a possibilidade que temos de rever os cenários que nos são tão íntimos, Rosa traz à tona tal condição. Se somos acometidos pelo girar frenético da vida que escolhemos, muitas vezes nos esquecendo de vislumbrar necessárias entrelinhas, também nos é permitido reger os movimentos a nosso favor. A pressa, a superficialidade e outras espécies de desatinos nem sempre são capazes de nos furtar as virtudes. Em torno disso, a novidade inerente ao fluxo das águas jamais deixará de nos refrescar a memória.

 

 

Foto: Rosa De Luca

 

 

 

* As fotografias de Rosa De Luca são parte integrante da galeria e dos textos da 78ª Leva.

 

 

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77ª Leva - 03/2013 Destaques Olhares

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TRAVESSIAS

Por Fabrício Brandão

Ilustração: Thaís Arcangelo

Um instante partido no tempo e alguns passos rumo ao infinito. No meio do caminho, a sutileza das cores flagrando a vida, atenuando-lhe certo peso da alma. Existir, somados os seus imperativos, precisa se configurar um flerte com os tons sublimes que governam o espaço abstrato através do qual desfilamos nossos rompantes. Existir, nos desenhos e ilustrações de Thaís Arcangelo, é pacto de escutas, rompendo a redoma da grande noite que insiste em nos abraçar.

No limiar entre o real e o inventado, a artista funda territórios e instaura entre nós a percepção marcantemente poética sobre uma delicadeza que esquecemos nalgum ponto da jornada. Assim, viver torna-se um arremesso incerto, porém desejoso de uma transformação a mais humana possível. Ao nos revelar dimensões por vezes etéreas, Thaís desafia zonas de conforto, rejeitando-as e nos impelindo a reescrever nossas errantes trajetórias.

Ilustração: Thaís Arcangelo

Em seus trabalhos, a artista devota especial atenção a uma múltipla representação do universo feminino. A partir daí, surgem personas das mais variadas possíveis diante de nossos olhos, todas elas inscrevendo seu traçado numa tentativa serena de redenção. Nessa perspectiva, Thaís caminha para além da materialidade das coisas, erguendo um vasto e denso painel de sensações.

Se por um lado somos seres reconhecidamente duais por natureza, por outro, nos é dada a chance de revermos nosso velho e desgastado costume de repetir. E isso nos é lembrado a todo tempo nos cenários propostos por Thaís. Com sua ciranda de sentimentos pueris e ao mesmo tempo também maduros, a artista recria mundos no mundo, fazendo do atributo onírico de suas criações uma passagem permanente para o centro de nós mesmos. Nesse trajeto de autoconhecimento, talvez a única certeza que carregamos seja a da dúvida, essa sedutora senhora a nos acalentar insistentemente em todo tempo e lugar.

 

 

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

 

* As ilustrações de Thaís Arcangelo são parte integrante da galeria e dos textos da 77ª Leva.

 

 

 

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76ª Leva - 02/2013 Destaques Olhares

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RITOS SILENTES – A SÃO PAULO DE SILVIO CRISÓSTOMO

Por Fabrício Brandão

Foto: Silvio Crisóstomo

 

Tudo um mar de saliências e reentrâncias. Tudo a cortina invisível que paira sobre almas. Na vastidão da matéria, um imperceptível fio das horas vai alimentando espaços, perscrutando os becos do homem. Há uma curiosa ordem no silêncio ruidoso da metrópole. Ainda uma São Paulo que desampara e repulsa os seus. Ainda uma cidade que apascenta sonhos, fugas, delírios e bebe os prazeres da cosmovisão. Em meio a isso tudo, o olhar do fotógrafo, num contínuo ato poético, varre as alamedas do despercebido.

O andarilho da luz em questão é Silvio Crisóstomo, dono de um olhar que subverte o óbvio e o torna caminho viável da criação. Sua trajetória na construção das imagens nem de longe se presta a representações exasperadas do real. Interessam-lhe mesmo as esferas sutis que seres, lugares e atmosferas de abstração ousam descortinar por entre os dias.

Foto: Silvio Crisóstomo

Silvio é um ser de espanto na medida em que transita errante por uma cidade e seus tons repletos de mistérios. Ele mesmo revela não ser um apaixonado por São Paulo. O resultado disso é um comportamento que lhe rende uma observação isenta de afetações e deslumbramentos. Por suas lentes, a lira colossal paulistana compõe um vasto painel de estranhamentos. E é assim, com resignado afastamento afetivo, que a selva de pedra reina sublime e nada usual nos registros do artista.

Nascido em Maceió, Alagoas, Silvio reside em São Paulo desde a mais tenra idade. Atraído pelo imprevisível, seus trabalhos assumem um caráter essencialmente intuitivo, sem amarras pré-definidas e com o gosto incessante pelo mistério encerrado nas coisas. Admirador de fotógrafos como Andreas Gursky e Thomas Farkas, revela que suas maiores referências estão nas artes plásticas e no cinema. Em seu caminhar, estão inclusas diversas exposições e eventos.

Foto: Silvio Crisóstomo

Ao percorrer a maior cidade da América Latina, Silvio Crisóstomo fala-nos também de uma megalópole estrangeira a muitos de seus naturais. Uma espécie de vazio impresso pela dinâmica corriqueira dos habitantes emerge dos rastros civilizatórios. E em meio à sinfonia de concreto, regida pelas mais variadas perspectivas de intervenção arquitetônica, pulsa, ainda desconhecida e neglicenciada pela voracidade da pressa e do imediatismo, a poesia escondida das horas. A cada um, por seu curso, é dado lê-la.

 

 

* As fotografias de Silvio Crisóstomo são parte integrante da galeria e dos textos presentes na 76ª Leva

 

 

 

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73ª Leva - 11/2012 Destaques Olhares

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AS CARTAS AO MUNDO DE FAO CARREIRA

Por Fabrício Brandão

 

 

Arte: Fao Carreira

 

 

Pensar a expressão artística de Fao Carreira é trilhar uma via onde as representações da existência estão marcadas, acima de tudo, pela poesia.  De posse de tal condição, o artista inscreve na pele dos dias os laços que o atraem para o jogo das veleidades humanas, da presença sorrateira daquilo que nos seduz e, ao mesmo tempo, nos escapa volátil entre as mãos.

 

 

Arte: Fao Carreira

Indagar o que povoa a infância da criação, se a palavra ou a imagem, não nos parece relevante no caso desse paulista de Botucatu. Em Fao, as feições de desenhista, pintor e poeta harmonizam-se de modo a conferir à sua obra um caráter de unidade. Essa “contaminação” de uma arte pela outra opera a comunhão de linguagens distintas, cujo resultado possui um decidido teor filosófico. Nessa perspectiva, o porquê de se estar num mundo no qual os excessos nos saltam aos olhos parece instigante questão de ordem.

Cada desenho ou tela produzido por Fao Carreira é verdadeiro exercício de correspondência com o que explode lá fora. Seja em traçados, rostos ou profusão de cores, o artista remete ao mundo seus anseios e inquietações. A despeito disso, não é em vão o nome de batismo de seu blog. Suas missivas são direcionadas a todos nós como o registro mais puro do espanto que é estar vivo.

 

 

 

Arte: Fao Carreira

Da sua paixão pela literatura, Fao consolida um diálogo especial e denso com quem se debruça na contemplação de sua arte. Isolada ou conjuntamente, seus versos e imagens ousam sondar a fina camada que envolve o tecido das horas. Na passagem dos instantes, lacunas ganham corpo e nos relembram que o ato contínuo de respirar é pedra fundamental da criação. Por isso, um artista a relatar marcas do tempo. Por isso, somos cativos leitores do mistério que povoa suas cartas.

 

Arte: Fao Carreira

 

 

* As imagens de Fao Carreira são parte integrante da galeria e dos textos presentes na 73ª Leva.

 

 

 

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68ª Leva - 06/2012 Destaques Olhares

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O INTANGÍVEL EM JUH MORAES

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Juh Moraes

Bem sabemos que a fotografia encerra uma vastidão de possibilidades. No entanto, o que seria capaz de guiar nossos sentidos rumo a veredas desabitadas pelo óbvio? Como extrapolar a barreira física e evidente do algo primeiro a ser flagrado por nossas retinas?

Certamente, não são perguntas com soluções tão imediatas. Por mais que tentemos emprestar significados ao ofício de um fotógrafo, delimitando-os numa ótica que remonte a uma noção racional das perspectivas abraçadas, acabamos envolvidos pelas razões que integram o universo íntimo de cada criador. E assim, distantes de extrairmos a seiva da psiqué humana, somos tentados a desvendar camadas por vezes etéreas reveladas nas imagens.

Quem deitar olhares em torno da expressão fotográfica de Juh Moraes perceberá o quanto pulsa viva a presença do intangível, de um ambiente no qual mistérios do corpo e da alma humanas estão fundidos a um só tempo. Para a artista, não basta que formas, gestos, tons e expressões difusas impliquem num recorte precisamente definido de mundo. Pelo contrário, cada ser ou objeto captado exprime uma espécie de balé da transcendência.

Ao nos ofertar seus signos repletos da conjunção entre matéria e espírito, Juh ousa nos convidar a atravessar um cenário que sabe a percursos do tempo e seus desígnios. É como se cada contorno, tez ou cor pudessem reter o essencial dos instantes vividos, pondo-os em delicada suspensão. Assim, comungamos com a artista um ritual que confere sentido a ambientes e seres, todos eles marcados pelas sutilezas da existência.

Foto: Juh Moraes

Natural de Curitiba, a fotógrafa traz no sangue a mescla nordestina e espanhola. Apesar de ter cursado a faculdade de Belas Artes, foi nas searas da Moda onde encontrou terreno favorável para suas escolhas. Os pincéis deram lugar à câmera e a um desejo de promover uma integração entre Comunicação, Moda e Imagem. A captura das cores em seu trabalho deu-se através de influências percebidas em artistas plásticos como Delacroix, Caravaggio, Monet, Manet, Frida Kahlo, Cezzanne e Bosch. Admiradora confessa de Van Gogh, Juh demarca o artista como sendo uma grande fonte de inspiração, a ponto de se considerar “refém” de tal influência.

Além das marcas indeléveis das artes plásticas em sua trajetória, o olhar de Juh Moraes abraça aprendizados fotográficos em torno do trabalho de enquadramento e da concepção de luz de Annie Leibowitz e Sally Man; a visão artística de Richard Avedon, Guy Bordin e Mary Ellen Mark; e Robert Mapplethorpe, pela completa ousadia.

Ao lado da também fotógrafa Viviane Rodrigues, Juh desenvolve um trabalho especial no site Fotografia Orgânica, projeto que denota um comprometimento com a imagem em seu estado mais puro possível, longe das intervenções de edição meramente tecnológicas.

Em uma só palavra está condensada a relação de Juh Moraes com seu ofício: ar. E é com a noção desse sopro vital que a artista leva adiante a sua sublime missão de captar instantes, lugares e pessoas, abraçada ao que de melhor eles podem oferecer: a verdade de suas expressões.

Foto: Juh Moraes

 

 

 

 

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67ª Leva - 05/2012 Destaques Olhares Outras Levas

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ASSIMETRIA, ESBOÇO E PROJEÇÃO: A ARTE DE FELIPE STEFANI

Por Hilton Valeriano

Desenho: Felipe Stefani

Pode a arte apreender o movimento primevo do nascer das coisas e dos seres, de seus gestos, acontecimentos, vivências? Antes do fato, os sonhos; antes do anseio, os projetos; sempre a possibilidade.  Os desenhos de Felipe Stefani, artista convicto em seu ofício, parecem demonstrar o fluxo premente da existência antes de sua realização nas dimensões da temporalidade. Uma obra marcada por traços assimétricos, onde início e fim confluem, onde o desfecho paradoxalmente inconcluso expressa formas vindouras, repletas da instabilidade característica do movimento, e que revelam um intento permanente de criação. Longe de uma mera abstração sintética, seus desenhos manifestam a forma, isenta de toda matéria, em seu prenúncio. Sua subjetividade de artista busca o instante nascedouro, o esboço humano de concretização, o que nos leva à questão da definição de um ser em sua essência.

Se as ações do homem não o definem como um ser estático, mas sim como um ser sempre projetado, o espaço aberto, espaço esse constitutivo da liberdade em suas múltiplas escolhas, ou seja, o futuro, evidencia o campo de possibilidades nunca definidas, nunca concretizadas, a continuidade da vida como fluxo de projetos a se realizarem como significação provisória.  Assim, podemos pensar os desenhos de Felipe Stefani nas suas dimensões estéticas em três planos analíticos: assimetria, esboço como forma inconclusa e espaço de projeção.

Desenho: Felipe Stefani

Assimetria

Tendo a ação humana como realização de seu intento a possibilidade ou não de concretização, transposta para o âmbito da arte como subjetividade criadora, seus traços, simbolicamente representados como projeções, só podem ter a assimetria como apreensão do movimento intencional característico do humano em sua manifestação.

Esboço como forma inconclusa

A possibilidade de concretização da ação humana revela o projeto como significação, como instaurador de sentido, mas sendo possibilidade, só pode manifestar o esboço em seu anseio de realização, ou seja, sua forma inconclusa porque não determinada.

Espaço de projeção

Apreender a ação humana em seu intento e simultaneamente mostrar toda a dimensão provisória de sua realização, toda a possibilidade ou não de concretização de seus anseios, revela a principal característica do homem: a liberdade. A liberdade como dimensão definidora do homem, como sua essência, só pode ser percebida nos desenhos de Felipe Stefani se prestarmos atenção na relação estrutural, semântica existente entre os seus desenhos e a folha branca, que se apresenta como espaço de projeção. Seus desenhos parecem nascer, brotar da folha branca como um sentido a clamar pelo homem.

A estética de Felipe Stefani ecoa as palavras do poeta Murilo Mendes: “O homem é um ser futuro. Um dia seremos visíveis.”

Desenho: Felipe Stefani

(Hilton Valeriano é professor de filosofia. Edita o blog Poesia Diversa)