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79ª Leva - 05/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

 

Desenho: Bárbara Damas

 

Uma orquestração de coisas rege todos os instantes. E tudo vai se moldando aos dias, erguendo cenários, tingindo com tons difusos cada lugar que se acredita possível. Mas a força maior talvez esteja naquilo que não conseguimos vislumbrar de imediato, ao que corre paralelo à passagem meramente visível do tempo e das situações. Enxergar nos ambientes menos usuais não é privilégio apenas de quem produz arte sob suas mais variadas formas. O leitor de diversos suportes possui a capacidade de intentar janelas de observação e, com isso, interagir com as obras. Não se trata de um comportamento apenas passivo, como quem olha e internaliza sentidos, mas sim o de alguém que efetivamente pode ser ator do processo. Em lugar de guardar o produto de seus olhares nos recônditos mais íntimos de sua individualidade, o amante das artes também se torna um criador na medida em que desenvolve mecanismos próprios de interpretação e, quiçá, certa dose de intervenção. No entanto, a obra é aberta, mas não escancarada, já disse alguém. O receptor tem a faculdade de redimensionar palavras ou imagens segundo, bem sabemos, suas expectativas e repertório pessoais. Por outro lado, é também interessante perceber o quanto de cumplicidade se opera entre criadores e leitores quando do ambiente de aproximações gerados pela leitura. E é comungando desse pensamento que as aparições poéticas de autores como Virgínia do Carmo, Demetrios Galvão, Stefanni Marion, Fabiana Turci e Ronaldo Cagiano geram espaços de um especial compartilhar lírico.  Assim também o é com os contos de Andréia Carvalho, Jacques Fux e Yara Camillo, todos eles a trafegar intensamente pelas vias de nossas humanas idades. O escritor Sérgio Tavares nos convida à leitura do belo e denso “Carta a D.”, romance de André Gorz. Nosso sabatinado da vez é o poeta Heitor Brasileiro Filho, que além de falar sobre seu novo livro, reflete sobre valiosas questões do universo literário. As escutas de Larissa Mendes apontam para o disco de estreia de Clarice Falcão. No caderno de teatro, Augusto Cavalcanti presta um singelo tributo ao dramaturgo Nelson Rodrigues. O filme dinamarquês “A Caça” é tema das percepções de Guilherme Preger. Entre os verbos desta edição, reinam delicados e sublimes os desenhos de Bárbara Damas, devidamente apresentados pelos olhares de Carla Diacov. É a você, caro leitor, a quem destinamos esses novos percursos. Boas leituras!

 

Os Leveiros

 

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79ª Leva - 05/2013 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Fabiana Turci

 

Desenho: Bárbara Damas

 

QUEDA

 

I.

te sonhei Dionísio
em teu abandono.
e te esperei,
lasciva,
por três ciclos lunares.
é a inteirez da tua presença,
quando me tomas,
que guarda o corpo
nos enquantos.
é esse estar
inteiramente
em mim mesma
e ainda assim alheada
que faz com que eu construa,
do meu corpo,
tua morada.

 

II.

e por te querer Dionísio
fiz-me templo
de chorar e louvar
loucura e grandeza.
os olhos, arrebatados,
não inventam:
é o peso de quem se fez
máscara e Deus
o que, ao corpo-casa,
retorna, refazendo-se.
por ti mesmo ocupas
desde o pequeno eu
ao universo meu ampliado,
entoando cantos de recusa
enquanto invades,
com tuas palavras,
o que as mãos do deus
já não tocam.

 

III.

te exigi Dionísio
em teu rigor.
meu ventre suplicando
fluxo, a por em curso
vento e águas.
da minha lucidez
fingi voo cego
abrindo campo para o mergulho,
de um outro azul, mais intestino.
fechava os olhos para os teus escuros
fazendo-me noite e esquecimento.
da tua dor, fui o gesto mesmo,
suspenso em teus extremos.
e dormi sobre a tua vergonha,
mesmo me querendo
sol e grito.
pensava-te assim,
inteiro,
descortinando o teu pior
entre a cama
e o ocultamento.

 

IV.

te percebia Dionísio
em cadências.
tu devolvias o olhar,
sendo.
e porque não te quis fixo,
modulavas existência,
passeavas sentimento,
em melodia densa e vivaz.
conheci fugas em
fragmentos escalares.
nos instantes, fomos
tempo
e contratempo.
do teu corpo, toquei
desníveis, falésias, falhas abertas
como se o próprio som
do terrível anjo.
do labirinto,
veio à tona
a tensão latente
e me percebi
versão pulsante
do teu tema.
queria ter sido uma nota
menor
entre a tônica e a dominante.
quem sabe o corte nas incumbências.

 

 

***

 

 

NOTURNO

 

o chão da casa range
os dentes da noite.
tábuas, esquadrias,
abrem frestas vagueando
vozes melancólicas: uma
composição. o vento
por trás das estantes
a folhear palavras
imprecisas ditas na mudez
dos toques. A noite
e suas bocas enormes.

o prédio respira o mesmo sono
dos bichos adormecidos
de humanidade. o céu caído
sobre o mundo, sem promessa.
e o mar distante ainda farfalha
o tempo, que progride como o som,
entre o que não se vê, até
amanhecermos.

 

(Fabiana Turci é formada em Filosofia e mestranda em Educação, Arte e História da Cultura. Presa entre a palavra e o silêncio, escreve para incomunicar. Publicou o livro de poemas Desobjetos (Ibis Libris, 2009) e organiza a coletânea História íntima da Leitura)

 

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68ª Leva - 06/2012 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Juh Moraes

 

 

 

No ofício de travar o combate pelos terrenos culturais, quiçá o imprevisível seja o que de melhor possa acontecer. No caso específico da Diversos Afins, pensamos em tal perspectiva, sobretudo quando temos de fazer convergir signos oriundos de imagens e palavras. Nunca há uma fórmula exata para promover a harmonia entre estas duas linguagens. A ciranda das colaborações gira alheia a critérios herméticos de classificação das perspectivas, e o melhor de tudo é podermos aproveitar cada autor e artista num processo de “cumplicidade involuntária”. Tentar perceber o que criadores trazem em si enquanto elemento fomentador de diálogo com outras expressões é, certamente, o que mais perseguimos em termos de conjunto. E é só depois de entrever os horizontes vislumbrados pela obra de cada colaborador que é possível consolidar um desejável caminho de unidade na diversidade. Hoje, a 68ª Leva é regida pelos arremates delicados contidos nas fotografias de Juh Moraes. Através delas, um bailar de signos convida os textos para a composição de um cenário no qual viver é mais do que urgente. E assim, tomados por tal ânimo, vamos descortinando sabores pelos versos de Fabiana Turci, Aline Aimeé, Vitor Nascimento Sá, Viviane de Santana Paulo e Helena Figueiredo. Numa entrevista, o poeta José Inácio Vieira de Melo fala sobre seus sensíveis percursos literários. Os dedos de prosa da vida andam intensos nas linhas de Daniel Faria e Regina M. A. Machado. Depois de alguns anos de espera, a banda OQuadro lança seu primeiro disco, e os efeitos disso giram nas agulhas do nosso Gramofone. Com propriedade, o escritor Jorge de Souza Araújo enreda caminhos em torno do novo livro de Antonio Nahud Júnior. Noutro ponto, os poemas de “Sísifo desce a montanha”, a mais recente obra de Affonso Romano de Sant’Anna, são tema das densas observações de W. J. Solha. A percepção cada vez mais aguçada de Larissa Mendes nos conduz até a produção cinematográfica “O Futuro”. O ator e diretor Rafael Morais relata os desafios envolvidos na montagem de um espetáculo teatral, enaltecendo a arte do encontro com o público. Munidos pelos imperativos da diversidade, abrimos as veredas de uma nova edição. Seja bem-vindo, caro leitor!

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68ª Leva - 06/2012 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

 

Foto: Juh Moraes

 

VOO

Fabiana Turci

 

I.
te sabia Ícaro
em altura e desejos.
num azul impossível,
a curvatura delicada,
de pasmar gaivotas,
tramava no meu corpo o curso das alturas,
no desejo de ver-te sob esta claridade de meio-dia.
a superfície crescente impunha-se aos ombros
fazendo verdade da fantasia
e, do sonho,
corpo.
fiz-me pássaro,
seguindo-te,
a dividir o azul.

 

II.
que te pedi, Ícaro,
para que cuidasse
da queda.
que nas margens
nuas
da praia
não restasse o meu corpo,
abandonando ardências.

 

III.
e me destes essa casa
de pedra e paredes
onde o céu desaba,
pelas manhãs,
nos corredores
fazendo caminho do meu cansaço.
o teu olhar, desde dentro,
me ofertando o infinito.
se já era teu o azul
– dentre os muros
de onde te fizeste –
tive de ti
o sol mesmo,
transfigurado pelas artes
do teu desejo.
perdoe-me, Ícaro,
se me faltou ver o artifício.
se reconheci a incandescência
e na iridescência me fiz inteira,
irradiando teus sonhos de cera.

 

IV.
foi de asas, Ícaro,
o meu erro.
de supor que o corpo,
entre o voo e a permanência,
encontraria seu contorno.
e porque te quis mais terra
fiz-me, adolescente, ideia
para que intuísses dissipação.
por me querer contradição
que me fiz celeste.
e me entreguei a ti
como casa.

 

V.
sei que foram muitas as
vezes em que me ofereceste
o fio de Ariadne.
eram os pés, antiquíssimos,
que negavam partida.
os pés soldados à terra
como quem ouvisse,
feminino,
os apelos do que é
só possibilidade.
a terra úmida,
fértil.
o novelo em minhas mãos.
mas é o azul, Ícaro,
que é irresistível.

 

(Fabiana Turci é formada em Filosofia e mestranda em Educação, Arte e História da Cultura. Presa entre a palavra e o silêncio, escreve para incomunicar. Publicou o livro de poemas Desobjetos (Ibis Libris, 2009) e organiza a coletânea História íntima da Leitura (no prelo))