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155ª Leva Destaques Olhares

Olhares

O gesto silente das transformações

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Nicole Marra

 

A vida em seus diferentes modos de uso: universos que coexistem na arena das singularidades e que nos fazem atentar para as delicadezas que habitam esferas íntimas do ser. Desde o recorte daquilo que há de mais cotidiano, passando pelos detalhes abrigados nas mais diferentes sinas, nossas humanidades despontam na paisagem diluída pela sucessão dos dias que trilhamos sobre o planeta.

E há quem esteja alerta a tudo isso com o toque marcado pela atenção aos pormenores que escapam diante da fugacidade imposta pelo imponderável deus tempo. Nesse ínterim, o olhar sobre o mundo revela seus pontos de ênfase, descortinando imagens que traduzem um vasto panorama de sentimentos. É assim que Nicole Marra lança mão de sua condição de artista para evidenciar a poética da existência que sabe a gestos e formas de uma intricada cartografia de afetos.

De imediato, não há como deixar passar a marcação do feminino como fio condutor da obra de Nicole. Nesse painel através do qual transitam múltiplas expressões, é o corpo quem rege o destino das formas exploradas, pois ele, em larga medida, funciona aqui como catalisador de sensações e ímpetos. Assim, a artista nos oferta vertentes de apreciação que flutuam entre a dimensão física e imaterial das personagens apresentadas, sugerindo um equilíbrio entre as tensões internas e externas do ser mulher.

 

Ilustração: Nicole Marra

 

Diria que a particularidade do traço de Nicole Marra é também capaz de harmonizar o caos interior que mobiliza as paixões humanas. E nesse fio delgado que molda seres e lugares, está fundamentada a percepção de que estamos por um átimo limítrofe, seja para a contenção dos arroubos ou a explosão daquilo que precisa ser manifestado aos olhos do mundo.

Residindo em Berlim desde 2017, Nicole destaca que a arte é um instrumento que auxilia sua compreensão sobre a condição de migrante, algo decorrente de uma trajetória de vida que mescla adaptação e introspecção. É, por assim dizer, a busca pelo entendimento do que seja construir sua própria identidade enquanto pessoa e artista, porções amalgamadas pelos efeitos das escolhas e movimentos.

 

Ilustração: Nicole Marra

 

De posse dessas confissões dela sobre os fatores que impulsionam seu trabalho, é preciso assinalar que as ilustrações levadas a cabo por Nicole Marra simbolizam as metamorfoses pelas quais experimentamos no transcurso da vida. As personagens femininas retratadas pela artista exprimem seus diferentes estados de fruição do viver, arregimentadas especialmente pelo experimentar silencioso do recolhimento, sendo que o emprego das cores parece redimensionar os mapas da solidão tão caros ao exercício do autoconhecimento e da individualidade.

Em seu curso, as ilustrações de Nicole delineiam sublimes maneiras de expansão da consciência da mulher diante de seu corpo-território. Mas eis que essa assunção daquilo que emana de tal corporalidade transcende os aspectos meramente materiais, fluindo da linguagem expressa pelos contornos e formas em direção ao ambiente abstrato das emoções saboreadas. É na apreensão das revoluções internas que o salto acontece, pois elas noticiam lúcidas epifanias de feminilidade.

 

Ilustração: Nicole Marra

 

* As ilustrações de Nicole Marra são parte integrante da galeria e dos textos da 155ª Leva

 

Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais. 

 

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Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

O meu entrevistado é sabidamente uma figura prolífica no campo literário. E dizer isso não se alinha a uma ideia de que há em seu modus operandi uma busca desenfreada pelo volume das coisas, ou seja, por uma maquinação que, a qualquer custo, grafe palavras no corpo dos livros. Há nele o interesse aguçado na matéria que emana da vida, vislumbrando cenários, objetos e personagens diluídos naquilo que tanto denominamos de realidade. Acima de tudo, é um alguém confessadamente imbuído de confeccionar seus escritos através de um engenho esmeradamente arquitetado, mesclando estudo e pesquisa, dentre outros importantes atributos.

Falar de Marcus Vinícius Rodrigues, a quem já entrevistei noutras oportunidades, é também pensar o quanto sua obra, largamente situada no terreno da prosa, reflete uma predileção criativa que trata a própria Literatura como uma entidade organizadora de tudo, quiçá o que ele mesmo chama de mistério da criação, esse algo que provavelmente convoca autores a lidarem com os chamados do mundo que os abraça e constitui. É assim que esse autor vai nos envolvendo em livros como 3 vestidos e meu corpo nu (2009), Cada dia sobre a terra (2010), Café molotov (2018), A eternidade da maçã (2016),  O mar que nos abraça (2019), dentre outros que engendram sinais de nossas humanas idades.

Mas a conversa que travamos agora para a Diversos Afins, em meio a uma entusiasmada troca epistolar de e-mails, coloca no centro o mais recente rebento de Marcus, o instigante Motel Mustang (2024), livro de contos que elabora, a seu modo, narrativas marcadas pelos efeitos de uma tragédia ocorrida em Salvador no fim da década de 1980. Nesta entrevista, é possível perceber o quão compromissado está o escritor em estruturar o seu ofício a partir de um projeto literário consciente e maduro, revelando pormenorizadamente ao leitor algumas estratégias que mobilizam e formulam suas criações. Mostra-se, pois, um alguém profunda e gentilmente disposto a compartilhar o universo que o faz seguir adiante, cultivando não somente palavras, mas também inquietudes.

 

Foto: Danilo Alves

 

DA – Partindo de uma tragédia real, você constrói o seu Motel Mustang. E é interessante perceber ali que a ficção ocupa um espaço privilegiado quando oferta aos leitores visões sobre personagens que perfeitamente poderiam ter existido, todas elas com trajetórias singulares, mas entrelaçadas pelo destino comum e fatídico. Na sua perspectiva de autor, a realidade também clama por alguma espécie de reinvenção?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Você inicia sua pergunta assumindo que eu parti de uma tragédia real para produzir um livro que privilegia a ficção. Na verdade, o processo foi o inverso e talvez eu possa dizer que tenha sido um acidente, um acaso, ou, quem sabe, um sopro de uma musa em meus ouvidos. Espíritos? Apenas o mistério da criação. Em maio de 2023, eu me dirigia à sede da Editora P55 para uma reunião. Já há algum tempo eu dizia a André Portugal e Marcelo Portugal, os editores, que eles deveriam fazer um livro coletivo (antologia ou coletânea). Vários escritores. Propus um livro erótico, que acabou sendo lançado e se chama Eros sobre os abismos, com Clarissa Macedo, Dênisson Padilha Filho, Kátia Borges, Rita Santana, Suênio Campos de Lucena, Victor Mascarenhas e eu. No caminho, no carro, me veio a ideia de fazer um livro sobre o Motel Mustang. Cada autor escreveria um conto que se passasse na noite da tragédia. Imediatamente, achei a ideia muito boa e resolvi escrever. Na reunião, apresentei os dois projetos. Na semana seguinte eu estava no centro de documentação do Jornal A tarde fazendo pesquisa.

Eu lembrava da tragédia ocorrida em 1989. É uma lembrança de ouvir dizer, de conversas das pessoas. Não lembro de ter visto as matérias nos telejornais. Devo ter visto, mas não lembro. Era uma lembrança sem imagens. A partir de 1991, eu passei a trabalhar na Avenida Suburbana. No trajeto, eu sempre lembrava do motel. Eu não sabia onde exatamente tinha sido e ficava imaginando onde ele ficava. Outra lembrança marcante foi que uma professora minha do ensino médio tinha perdido o marido na tragédia. Evidentemente, ele estava com uma amante. Essa é uma lembrança que também ficou enevoada. Não lembro se foi ela mesma quem falou ou se alguém falou dela. Com o tempo, eu passei a duvidar da história porque outras histórias semelhantes surgiram. Se todo mundo que dizem ter morrido no motel em situação de adultério tivesse mesmo morrido, teria sido muito mais que nove vítimas. Essa história de minha professora inspirou o último conto do livro (“O que se vê do alto”), primeira história pensada, já com a ideia de ir limpar a igreja para vender. Enfim, respondendo a sua pergunta: desde o começo eu pensei em usar a ficção para me aproximar dos acontecimentos. A minha pergunta íntima era: como as pessoas se sentiram. Eu quis entender o que é viver uma tragédia dessas; como é descobrir uma traição nessas circunstâncias; como é ver gente morrendo, como é morrer… e o que buscavam os clientes, quais suas histórias. Ao longo do processo de escrita e pesquisa, eu fui me aproximando mais e mais da realidade. Falo escrita e pesquisa, e não pesquisa e escrita porque, sim, comecei com ficção e fui adentrando aos poucos na realidade. Eu só consegui achar o inquérito policial no meio do processo. Mas eu já tinha o livro planejado e já sabia que a realidade, a tragédia em si, seria retratada no conto “O peso de tudo”. O livro foi escrito na ordem em que foi publicado, embora as duas histórias finais tenham sido as primeiras a serem pensadas. Na primeira pesquisa em jornal, eu li a frase “toalhas foram encontradas nas casas da vizinhança”, e essa notícia gerou o penúltimo conto, “A maciez da vida”.

 

DA – Interessante saber desses detalhes do processo de criação de Motel Mustang, pois eu já ia lhe indagar sobre como foi exatamente a pesquisa histórica que ele evoca, ainda mais em razão da obra apresentar trecho do inquérito policial, bem como o recorte de jornal que noticiava, em matéria de capa, a tragédia. Isso confere também certo reforço documental ao livro, uma sinalização ao leitor do seu embasamento na realidade. Ao mesmo tempo, é libertador saber que a Literatura não precisa ter compromisso com uma ideia de verdade comprovável?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Como você pôde ver, minha aproximação com o fato real foi quase por acaso. Ela não começa com uma pretensão de lidar com a realidade. Apenas aconteceu. Eu estava vasculhando na minha cabeça uma ideia sobre erotismo. A lembrança do motel foi um acidente. Uma pedra no meio do caminho. Peguei a pedra e transformei em uma direção a seguir. A escrita deste livro foi um processo único. Lá estava eu diante de um material real a ser trabalhado com minhas próprias realidades internas. Eu digo na orelha que é um livro escrito sob o signo da compaixão. É verdade. Aos poucos, eu fui me aproximando das pessoas reais que morreram, dos sobreviventes, das histórias íntimas vislumbradas nos depoimentos. Isso me fez olhar para minhas personagens com compaixão porque elas representam aquelas pessoas reais e todos sabemos o final trágico. É isso: eu tinha uma moldura trágica, ou seja, um destino inexorável, o desabamento. Quem entra no livro sabe disso. Então, coube a mim ficcionalizar, não a tragédia, mas os dramas particulares de cada um. Trabalhei muitos anos naquela região de Salvador, o Subúrbio ferroviário, como advogado de empresas de transporte coletivo. Naqueles anos, aprendi que, quando a tragédia chega, ela é obrigada a dividir espaço com dramas anteriores. Uma pessoa atropelada não é uma pessoa que vivia feliz e foi atropelada, é uma pessoa que antes já tinha seus dramas e suas infelicidades. Eu queria, no Motel Mustang, mostrar esses vários universos particulares que foram atingidos por aquele soterramento: o jovem e sua primeira vez; a mulher insegura do amor de seu namorado; o homem que quer ser aceito no trabalho; o casal gay que enfrenta a homofobia e o medo da AIDS; a mulher com seus conflitos religiosos; o menino que deseja se impor aos colegas; a mulher que redescobre sua libido; a mulher que descobre a hipocrisia da religião. Em meio a tudo isso, vislumbres da realidade: o garçom que ia se casar; o motorista e seu desamparo; o heroísmo do faz tudo; a camareira que não consegue salvar os hóspedes; o gerente que se sente impotente para resistir à opressão econômica. Até mesmo a dona do motel e sua crença em seres extraterrestres me interessa.

Eu fiz uma pesquisa extensa. Há muitos fatos reais interessantes e há, também, muitos fatos ficcionais. Eu lidei com aqueles que se me apresentaram inteiros, aqueles que acenderam primeiro, as primeiras cintilações de ideias. Ah! Se eu tivesse tendência à mistificação, diria que as personagens me escolheram. Muitas histórias reais e inventadas ficaram de fora. O fato de serem seis contos naturalmente exercia uma pressão para mais um, o sétimo, o tal número cabalístico. Resisti porque, desde o começo, tinha um desenho claro, uma partitura: a chegada ao motel, sua apresentação; os casais nos quartos na busca do amor no sexo; o momento do desabamento com todos os seus problemas reais e todos os sentimentos de morrer ou ver a morte; os saques do dia seguinte e o luto dos que perderam alguém. Não caberia mais nada além disso.

 

DA – Qual foi a sua maior sensação depois do livro ficar pronto?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Nossa! Deixa eu pensar. Vou elaborando enquanto escrevo. Sabe, tem uma coisa que estão falando ultimamente. As pessoas criticam quem diz que o filme ou o livro é baseado em fatos reais porque todo fato é real. Eu discordo e já mencionei isso acima. Existem fatos ficcionais, eventos inventados que são tão fortes que jamais poderão ser mudados em uma adaptação. Capitu tinha olhos de ressaca. Isso é um fato. Quando eu terminei o livro, eu tive essa sensação. Tudo que estava ali inventado era fato. Ou seja, eram pessoas e acontecimentos imutáveis. Alguns morreram outros sobreviveram. Eu sei quem são, embora não conte. E isso é um fato.

Essas personagens eu as vou descobrindo durante a escrita.  Esta semana eu estava numa oficina de escrita para romance de Davi Boaventura e o exercício era dizer tudo da personagem, criar a personagem. Eu me dei conta que a personagem vai me aparecendo com o tempo de escrita. O próprio ato de narrar é quem me faz entender a personagem. Quando tudo dá certo, a personagem fica completa e viva. Elói, Iranice, Marta, Torres, Jackson, Terêncio, Luciane, Dinho, os pais de Dinho, Dona Mira, o pastor, Janaína… todos são reais para mim. As pessoas reais também se cristalizaram. Eu tive muito cuidado em retratá-las. Omiti os nomes e as mencionei pela função. Ao mesmo tempo, fiz um tratamento ficcional. Eu queria que o leitor sentisse a dor que eu senti com a morte do motorista e do garçom, por exemplo. Eu queria que houvesse uma conexão com eles. A dona do motel era uma personagem pronta. Sua crença em ETs declarada à imprensa jamais poderia ser inventada. Soaria inverossímil, mas a realidade é assim, não é?

As pessoas reais: sei que familiares do motorista compraram o livro. Foram à editora pessoalmente para isso. Não tive contato. Localizei um filho de minha professora. Ele não quis falar sobre. Foi educado e distante. Ouvi muitas histórias de pessoas que frequentaram o motel, tive notícias dos donos. Até meu irmão conhecia o dono porque as contas do motel eram da agência bancária em que trabalhava. É um evento conhecido pela cidade. Muita gente lembra. É estranho lidar com um material tão sensível, uma responsabilidade ainda maior.

Do ponto de vista literário, Motel Mustang é um livro que resume minha escrita. Estão lá todos os temas, todas as preocupações, os meus modos de fazer e algumas descobertas. É um livro com tantos assuntos: sexo, amor, morte, descobertas da juventude, a pobreza de Salvador, as crianças, o homoerotismo, a AIDS dos anos 1980. Há um olhar a respeito da mulher; há a crítica à religião, assunto que me interessa. E há os assuntos que interessam às caixinhas das pautas atuais. O livro já foi resenhado a partir do ponto de vista da catástrofe ambiental. As pessoas falam da crítica social. Enfim, tem de tudo.  Mas para mim são pessoas.

 

Foto: Danilo Alves

 

DA – Essa sua última resposta é de uma profundidade significativa, pois trata dos seus mergulhos genuínos no engenho criativo. E não há como deixar de falar do modo como as suas personagens ganham vida ali no livro especialmente pela construção dos diálogos, pois você poderia apenas escolher ter narrado as histórias. Qual a dimensão do potencial que essas interações produzem na sua escrita na medida em que os protagonistas falam?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – É tão bom falar de literatura assim: os modos de fazer, os truques de escrita. Gosto de falar truques e não técnicas, concepções, poéticas. Apenas truques. Hoje em dia as falas de escritores ou são o marketing do livro ou são os grandes temas da pauta contemporânea: a emergência climática, o racismo, a violência contra as mulheres, os lugares para as mulheres pretas, a visibilidade trans, a visibilidade lésbica (homens gays estão fora de moda), a periferia, “O tal Brasil profundo”, a discussão se existe “O tal Brasil profundo”. Dei muitas entrevistas no lançamento do Motel Mustang. O soterramento é um evento que desperta a atenção. Um bom marketing. Mas eu não pensei nisso quando tive a ideia. Já disse acima que eu estava vasculhando a cabeça atrás de uma ideia para livro erótico e acabei tropeçando na lembrança da tragédia.

Depois do lançamento, o livro encontrou a caixinha da tragédia climática e está ali perto da onda de histórias reais que vem junto com a autoficção. As histórias particulares reais. Toda a indústria da narrativa está voltada para histórias com um tempero de real. Eu chamo isso de “Literatura Gourmet”. Explico. Cozinha gourmet é assim: o cozinheiro (ou chef) diz no cardápio que aquela é a receita de sua avó italiana, que está na família há gerações, ou que aprendeu com sei lá quem. O caderno de receitas de minha mãe tem isso: umas receitas que levam o nome da amiga que lhe passou. Aí eu aprendi que tinha a Torta de Dona Nereida e sei lá mais o quê. Um dia a gente descobre que aquela receita é só um pavê igual a tantos e que não tem nada de especial. Mas ser de Dona Nereida, ser da avó italiana do cozinheiro “agrega valor”. A avó italiana é um clichê clássico e, claro, ser descendente de italiano nesse país parece ser alguma coisa. Ai, meu Deus, estou aqui arrumando inimigos. Deixa eu arrumar mais alguns: pra competir com a avó italiana, temos agora a avó filha de escravizados ou ela mesma escravizada. É importante uma memória mais palpável da escravidão. Acho justíssimo. Se os italianos e os judeus podem, por que não os descendentes de povos africanos? E são histórias nunca contadas.

Um parêntesis: acho que toda essa onda de literatura não urbana está ligada, também, a essa reconstrução da história perdida das pessoas descendentes de africanos. São histórias apagadas. Dou um exemplo da minha família: minha mãe, negra, sabe muito pouco de sua família biológica; sobre a família de meu pai branco tem um livro caseiro de um primo que recupera a história a partir do final século XIX. Acho muito estranho ser a partir do final, já depois da abolição. Como há muita lacuna, as narrativas de escritores negros e negras acabam se voltando para gêneros que estavam esquecidos. Não é por acaso os romances de sagas e de formação que passam por histórias rurais com ar de romance de 30. São essas narrativas construtoras que são necessárias agora. No futuro, os escritores negros também vão entrar na desconstrução. Antes que alguém me aponte o dedo, eu sei que há literatura desconstruída agora. O tempo todo tem de tudo acontecendo. Estou falando do que está em evidência. Só para que não me acusem de coisas, repito que são literaturas necessárias e de excelente qualidade. O que estou falando é outra coisa. Estou falando da recepção dessa literatura que leva em conta elementos externos ao livro. É isso que chamo de “literatura gourmet”.

O Motel Mustang caiu nessa. Ele interessa por fatos externos ao livro. A tragédia real agrega valor. Ainda são poucas as pessoas que querem conversar comigo sobre literatura, sobre a linguagem que eu usei… essas coisas que escritores gostam de falar, mas que pouco falam em público porque nas festas literárias querem que a gente fale das pautas do dia, com o agravante de falarmos — nós os escritores não tão conhecidos — para pessoas que não nos leram e jamais lerão. Eu quero falar das personagens falando. Os diálogos. Eu tinha narradores mais distantes, mais neutros, e acho que minhas personagens também eram mais introspectivas. Falavam pouco. Com o tempo, fomos ficando mais extrovertidos, eu, os narradores e as personagens. Se antes o jeito lacônico dos narradores contaminava as personagens, acho que agora são as personagens que, extrovertidas, contaminam o narrador.

O livro tem narradores em terceira pessoa. Ou melhor, tem um narrador em terceira pessoa que vai se contaminado pelas personagens. No primeiro conto, “O sol no meio da noite”, o narrador Elói e Miguel se misturam, às vezes na mesma linha de texto. Tudo muito coloquial. Há um vai e vem no tempo. Elói e Iranice, estão no presente, na entrada do motel. Miguel está com Elói no passado e em sua cabeça o tempo todo. Há quem diga que são três pessoas naquele casal. Enfim, tudo misturado e nervoso como é próprio da juventude das personagens. No lado oposto do livro, no final, o conto “O que se vê do alto”, tem personagens evangélicas. A linguagem, do meio para o final, é muito contaminada por isso. Quem cita trechos inteiros da Bíblia? O narrador, Dona Mira ou Dona Neide? É um conto com um final melodramático. Sofri muito para escrever a cena da vassoura. Na primeira versão ela batia no pastor com o cabo. Achei demais. Estava muito Walcyr Carrasco. Limpei, limpei, mas ela precisava varrer a cara do homem. Ainda acho muito melodramático, mas Dona Mira é assim. Esse é outro momento em que o escritor diz que a personagem tomou as rédeas. Na verdade, é a constatação de uma lógica interna da personagem. Dona Antônia, personagem do conto “A fresta”, que eu escrevi para a Diversos Afins, também é evangélica, cita a Bíblia, mas não faria esse gesto tão largo de varrer a cara de alguém. Bem, ela não perdeu o marido no soterramento de um motel. Ele está dormindo em sua cama com a barriga ocupando todo o espaço.

Outro conto que merece destaque é “O peso de tudo”, em que o narrador está próximo a Luciene, uma funcionária do motel muito católica e que tem aversão ao pecado do lugar. É a partir do ponto de vista dela que vemos a tragédia. Quando é preciso mostrar a encosta desabando, o conto é interrompido e entram alguns minicontos que mostram o desabamento por um ponto de vista objetivo, além de detalhes que aconteceram com as pessoas reais. Depois, o conto retorna de onde parou. Neste momento, o livro assume que não é um mero livro de contos, mas, sim, uma grande narrativa fragmentada em que o motel é o protagonista. Ainda sobre diálogos: o terceiro conto, “A face encoberta”, com o casal de homens, é todo em diálogos com um narrador quase inexistente para que o leitor descanse. Ele vem de dois contos de estilo muito enrodilhado e vai, depois, ler o conto sobre o desabamento, o mais pesado. Então, um conto em estilo simples dá um descanso. E ainda tem humor, apesar do tema ser homofobia, AIDS, morte. Pensei o livro como uma unidade. Por isso o terceiro e o quinto conto são mais suaves; o terceiro, suave na forma; o quinto, suave no tema. “A maciez da vida” é um conto esperançoso, um amortecedor entre “O peso de tudo”, com sua tragédia, seu horror, e “O que se vê do alto”, que é sobre luto e decepção.

 

DA – Bem sabemos que um motel é também um lugar de vivências clandestinas, tanto na questão do adultério quanto no explorar de horizontes libertários do desejo sexual, dentre outras possibilidades. Como é que você lidou com essa perspectiva na sua criação?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Neste momento em que escrevo, Salvador acaba de passar por três dias de chuvas muito fortes. Ontem uma pessoa morreu num deslizamento de encosta. Imediatamente, algumas pessoas próximas lembraram do Motel Mustang. Um repórter da TV lembrou do episódio ao vivo. Digo isso como quem prova que a camada de tragédia climática e social é bem evidente no livro. Mas, como já dito, é um livro de muitos temas, dentre eles, também como já dito, o sexo. O sexo é aquela centelha, aquele grão de areia que entrou na ostra e em torno do qual, camada por camada, se formou a pérola. Afinal, trata-se de um motel. Motel leva a sexo; ou melhor, sexo leva a motel, literalmente e do campo das ideias. Eu investigava sexo e a memória do motel se acendeu na minha cabeça.

Você falou de vivências clandestinas, do adultério e de outras. Sim. Há um adultério no livro e na história real. Ele não chega a ser encenado na página. O leitor é exposto apenas às suas consequências. Há um casal de homens gays que evidentemente se encontram às escondidas. Um deles, pelo menos, tem uma vida sexual hétero. Mas há outras dimensões de clandestinidade ligadas ao sexo. Escondemos nossos reais desejos dos parceiros e de nós mesmos. O sexo é soterrado pela religião, pelo moralismo, pelos traumas particulares da infância, pelo descompasso do que se é e do que se pensa ser… e, às vezes, apenas a clandestinidade objetiva do motel é que é capaz de revelar a real forma de uma pessoa viver sua sexualidade. Motel Mustang é sobre sexo e talvez seja o aquilo que ele mais é. Vamos por partes.

A primeira personagem masculina que que me ocorreu foi Torres, do conto “O amor movediço”. Vi no jornal que, no sábado posterior ao acidente, haveria uma Corrida da Infantaria. Foi assim que me ocorreu a personagem. Um homem que vai correr e não quer transar antes, mas precisa ir para o motel com a namorada. E o que ele faz? Aquilo que nunca fez. Dedica-se a dar prazer à mulher até que ela fique satisfeita. E quem é essa mulher? Marta está acostumada a não sentir tanto prazer, está acostumada à frustração, acha que a transa acaba quando o homem goza. Quando ela se vê recebendo sexo oral de uma maneira tão intensa, todas as suas inseguranças afloram. Eu queria que o momento de perplexidade e insegurança de Marta fosse durante o sexo. Eu queria uma cena de sexo absolutamente necessária. Normalmente, as cenas de sexo aparecem simplesmente por seu apelo. Os conflitos que as envolvem geralmente ocorrem antes ou depois. A maioria das cenas de sexo podem ser uma mera elipse. Mas a verdade é que, quando a gente está transando, a gente pensa em mil coisas, outros problemas, os sentimentos contraditórios sobre o parceiro. Acontece muita coisa durante. Eu queria Marta assim, conflituada enquanto tem prazer.

Outras mulheres do livro vivem seus conflitos. Luciene, de “O peso de tudo”, é muito católica e se incomoda de trabalhar em um motel, que considera um antro de pecado. Ela está dividida entre, na semana seguinte, assistir missa de Corpus Christi celebrada pelo Cardeal Primaz ou viajar com o namorado para Pojuca. Ela sabe que o namorado pretende transar com ela na viagem. O que decidir?

Em “O que se vê do alto”, Dona Mira, viúva do marido adúltero, relembra como ele a reprimiu quando ousou revelar desejo. “Ele disse que não gostava de mulher oferecida”. Submissa ao marido pastor, Dona Mira se recolheu. Na cama, esperava a iniciativa dele. Agradar o homem, sentir-se aceita por ele, esses são conflitos que as mulheres ainda vivem.

A mãe de Dinho, no conto “A maciez da vida”, tem um momento mais feliz. A chegada de uma toalha resgatada dos escombros do motel reacende sua libido. É ela quem toma a iniciativa de seduzir o marido novamente. Ele se deixa conduzir.

Em “O sol no meio da noite”, Elói é o jovem inexperiente que leva a namorada pela primeira vez ao motel. O conto não foca nela, mas é possível perceber como Iranice está mais segura que o namorado. Os leitores veem alguma atmosfera homoafetiva entre Elói e o amigo Miguel, principalmente na cena do carro. Eu acho que, se houver algo, isso aparece mais forte no fato de a voz de Miguel estar o tempo todo na cabeça de Elói.

Por fim, Jackson e Terêncio, em “A face encoberta”. O casal vive os problemas dos homens gays da década de 1980, o que não é muito deferente do que é hoje, a não ser por um aspecto. A Aids acabara de surgir e, exatamente naqueles dias, a Revista Veja publicou a famigerada capa com Cazuza: “CAZUZA, uma vítima da Aids agoniza em praça pública”.  A presença da doença é o que provoca o afastamento do casal. O medo. O zíper emperrado é o símbolo óbvio. Há muita reflexão sobre sexo em Motel Mustang, sexo e morte, Eros e Tanatos. Pulsão de vida e pulsão de morte. No meio, toda a experiência humana. O livro se faz nessa tensão.

 

DA – Diria que, observando o conjunto da sua obra, você é uma espécie de “cronista” do cotidiano, escavador dessas minúcias que nos tornam demasiadamente humanos. É sempre desafiadora essa perspectiva?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Já algumas vezes, nos últimos anos, quiseram me relacionar com escritores cronistas da Bahia. Menções vagas. Isso ocorreu por causa de O mar que nos abraça. As pessoas se contentam em ver o que está mais aparente. No caso desse livro, havia uma Bahia na superfície. Para mim, entretanto, um aspecto menos importante que as pessoas retratadas. Serem baianas para mim foi um acaso. Aliás, no caso desse livro, a encomenda exigia que as histórias se passassem em bairros de Salvador. Acontece que, vencido esse requisito, eu quis mergulhar no íntimo daqueles adolescentes. Eu me aproximo das histórias a partir do que entendo que as pessoas estão sentindo. Foi assim que, em A eternidade da maçã, cheguei ao tema da ditadura. Ouvindo a música In the Hot Sun of a Christmas Day, de Caetano Veloso, eu me deparei com um eu poético que dizia que estava sendo perseguido, que eles já tinham matado outra pessoa. Foi essa sensação que me fez entrar neste universo. Aí eu fui tratar da ditadura, pesquisei, puxei pela minha memória, mas sempre para retratar aquelas pessoas que eu vislumbrei nas músicas de Caetano. Esse é meu método.

Eu tenho muita dificuldade de me explicar para as pessoas (ou de ser entendido por elas). Esses grandes temas sociais, políticos (que aparecem muito nos meus textos), eu não entre neles pela porta da frente, mas pela dos fundos, pelas janelas, pelas frestas. Eu não sou um escritor que se diz: oh, precisamos falar da ditadura, precisamos falar da violência, precisamos atacar a homofobia! Não. Eu miro na pessoa, na história íntima, no potencial romanesco do tal grande tema. Eu procuro a boa história e a boa personagem. Os grandes temas aparecem naturalmente, afinal não sou nenhum cretino. Mas — olha só que legal — os cretinos dão personagens incríveis. Eu não sou óbvio.

Me cobraram em Motel Mustang uma menção ao Candomblé. Eu respondi que não era o caso porque não é uma religião que tem problemas com sexo. Falei de cristianismos católico e neopentecostal. Sobre o Candomblé, acho que o nome da filha de Dona Mira foi suficiente. É um nome que aparece e se torna o estopim de uma cena forte no final do conto. Dona Mira não teria reagido como reagiu se o pastor não tivesse feito uma insinuação racista religiosa contra o nome da menina Janaína. É um livro inteiro com várias personagens negras e pretas e em apenas um ponto há um comentário sobre racismo, no caso, racismo religioso. Quem poderá saber por que um pastor chamaria sua filha de Janaína e não por um nome da Bíblia? Eu até sei, mas o leitor não precisa saber. É uma história íntima de Dona Mira.

Mais uma vez parece que não respondo sua pergunta. Respondo. Você fala de “cronista” do cotidiano, eu concordo. Cronista do particular e não da cidade. Eu olho para os pequenos acontecimentos, os pequenos gestos. Outro dia, falando na FLICA sobre algo próximo disso, dei um exemplo: “aqui desta cena, os escritores no palco e a plateia de estudantes, se eu fosse criar uma história, eu escolheria a intérprete de Libras, que está ali no canto fazendo a tradução. O que ela pensa? O que ela sente? Os braços doem? Ela tem alguém esperando? Ela acha essa conversa chata? Será que ela se atrapalhou em um gesto e disse para si mesma que não importa porque não tem nenhum surdo aqui? Ela certamente fala deficiente auditivo, mas nos próprios pensamentos deve dizer surdo, ‘os meus surdinhos’, ela dirá.” É claro que não usei essas palavras, contar uma história já é inventar. Mas que personagem rica pode ser uma intérprete de Libras, melhor que escolher um escritor. Escritores como personagens para mim são chatos. Cronista do cotidiano? Sim, talvez. Cronista do sentimento, quem sabe. Eu quero saber o que as pessoas pensam e sentem sobre o que vivem. Cronista de mentalidades.

 

Foto: Danilo Alves

 

DA – A Literatura pode ser o engenho em que o autor está para além dos domínios de certas especialidades, ou seja, ele pode discorrer sobre campos diversos do conhecimento, até mesmo inventando uma teoria a ser defendida por seus personagens. Tal prerrogativa lhe soa atraente em alguma medida?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – No meu livro Cada dia sobre a terra, no conto “Segunda-feira”, a personagem protagonista, uma jornalista branca já com alguma idade, tem um discurso em que se pode perceber o seu racismo; em “A alma do diabo”, do livro A eternidade da maçã, o Major Andrade fala da necessidade de torturar subversivos e de como entregou sua alma a Deus. São personagens com pontos de vista bem definidos. Eles defendem suas posições racistas e ditatoriais, enquanto os contos existem justamente para criticar seus comportamentos. Não aparece ninguém com uma fala antirracista ou com um discurso contra a ditadura militar. São as histórias e os jeitos como são contadas que permitem que o leitor, no processo de interpretação, perceba o quanto aquelas condutas e formas de pensar são deploráveis.

A palavra tem um poder muito interessante. A gente consegue colocar uma imagem dentro da cabeça de uma pessoa. A fotografia mostra e o observador tem de aceitar aquela imagem. A palavra faz diferente. Ela inocula uma semente na cabeça do leitor, que criará a imagem a partir de seu repertório. O mesmo acontece com a ideia, a teoria, a ideologia. A história semeia e o leitor cultiva seu pensamento. É preciso repertório. É preciso confiar no leitor. Aqueles livros de ficção que produzem discurso pronto entregam para o leitor a árvore inteira sem opção de um pensamento a ser cultivado. Ok, a pessoa aprende. Pode funcionar. Mas é como se deslocar levado por um carro. Você chega ao ponto final, mas não desenvolve músculos. Melhor é que a história faça o leitor refletir. É como andar de bicicleta. Você chega ao ponto final com mais dificuldade, mas ganha musculatura.

Na maior parte das vezes, minhas personagens são incapazes de produzir um discurso organizado sobre qualquer coisa. Elas estão experimentando a perplexidade de viver. Estão perdidas. Elas não poderiam ajudar ninguém. Não sabem as respostas e, às vezes, nem a pergunta. Eu até quero dizer certas coisas, mas entre mim e o leitor tem um narrador e suas personagens. E meu processo de escrita é um processo de sedimentação. Eu vou colocando camadas em cima da ideia inicial. É um meticuloso processo de recalque. Eu vou empurrando as coisas para baixo e amassando com os pés. Tem de cavar muito para chegar àquilo que era antes de o conto ser o que se tornou.

 

DA – A quantas anda o Marcus Vinícius poeta?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Eita, uma reviravolta na trama. A resposta é: não sei. Deve estar adormecido. A última vez que escrevi poemas foi há alguns anos. Era uma encomenda para uma antologia. Escrevi e gosto muito do que fiz, mas, na hora de publicar, me mandaram um contrato em que, praticamente, eu cedia os direitos dos poemas definitivamente. Me tiraram da antologia, amizades se desfizeram e eu escrevi um poema chamado “Quiseram roubar o poema”. Alguns desses poemas foram publicados na revista Poesia sempre, da Biblioteca Nacional. Há um livrinho pronto. Um dia lanço. Meu último livro de poesia foi o Manual para composição de vitrais, que foi escolhido para sair pelo Selo João Ubaldo Ribeiro. Eu não penso muito sobre poesia. Ela não me ocorre do nada como acontece com a prosa. O tempo todo eu tenho ideias de livros de contos e romances. Poesia, não. Se me encomendarem alguma coisa, eu acho que sai. Em algum momento vou me debruçar novamente sobre a poesia. Ou não. Ou talvez. Quem sabe?

 

DA – Nos últimos anos, você tem experimentado a faceta de entrevistador, conversando com autores de diferentes estilos, e parece estar bem à vontade com isso. Essa escuta e troca de ideias lhe ajuda a pensar também sobre sua própria trajetória?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Quem me levou à função de entrevistador foi minha amiga roteirista Carollini Assis. Ela me convidou para mediar algumas mesas do Festival SSA-ADAPTA e as pessoas gostaram muito, e eu gostei muito. Não fiz meras mediações, fiz entrevistas. O formato do festival ajudou porque era um evento sobre adaptação literária para o audiovisual. Então, estavam ali, por exemplo, dois entrevistados falando da mesma obra: o escritor e o adaptador. Entrevistei Milton Hatoum e Maria Camargo sobre o livro e a série Dois Irmãos; Marcelo Quintanilha e Heitor Dhalia sobre o quadrinho e o filme Tungstênio, entre outras entrevistas com escritores. Depois dessa experiência, peguei gosto. Fiz e faço o programa Palavra & ponto, no YouTube da Academia de Letras da Bahia; o programa Letras da Bahia, na Rádio Excelsior. Atualmente, além do Palavra & ponto, apresento o programa Livros à mão cheia, na TV ALBA.

Sobre pensar a minha trajetória a partir das entrevistas com outros escritores, a resposta é: não pensei. São posturas muito diferentes. Opostas. O escritor acaba se voltando para si mesmo. Não porque fale de si, nada disso, ainda que ocorra bastante. Vou dizer melhor. O escritor acaba se isolando na própria literatura. Ainda não está claro. É que o escritor, aos poucos, vai criando um espaço em torno de si. A cada livro, um mundo de coisas. Um mundo de mundos. Mitologias particulares, recorrências, autorreferências, estilo… essas coisas terminam por isolar o escritor. Ele vive lá dentro da própria loucura e nós, leitores e entrevistadores, os visitamos.

O entrevistador, já adiantei, é aquele que deixa o próprio mundo para olhar o do outro. Ele quer entender as leis daquele novo lugar. Claro que o entrevistador tem uma história, um repertório, mas sua postura é antinarcísica. Ele quer ver o outro, e não um reflexo. É só assim que funciona. Entrevistar é ouvir, ouvir ativamente, ajudando o entrevistado a se organizar na fala. A gente procura entender e embarca na loucura do outro. Eu estou falando de entrevistar escritores, não políticos. Com políticos a gente não pode embarcar na loucura, é preciso denunciar as incoerências. Do escritor o que se quer são justamente as incoerências e os atos falhos, senão como é que os teóricos da literatura vão ganhar pontos no Lattes? Tem de dar trabalho pra esse povo.

Eu gosto muito de ouvir. Não por acaso, no começo da vida, dos 20 aos 28 anos, fui voluntário do CVV, Centro de valorização da vida, uma instituição de prevenção ao suicídio, que se baseia na escuta. A pessoa liga e fala. O plantonista escuta sem julgar, sem aconselhar, apenas se fixando na emoção da pessoa. É um trabalho de apoio emocional. Já faço a propaganda. O número nacional é 188. Basta ligar. Minhas entrevistas têm um pouquinho desse jeito de voluntário do CVV. Só um pouquinho porque eu provoco, brinco, direciono a conversa aqui e ali, mas sempre ouço atentamente. Uma vez, um entrevistado usou uma palavra típica de uma religião e, depois que ele acabou o raciocínio, eu voltei à palavra de maneira bem discreta para ver se ele queria falar daquilo. Ele falou e isso ajudou muito a entendê-lo. Ele não falaria se eu não tivesse percebido o tipo de discurso.

Minhas entrevistas não têm um roteiro exato, fechado. É como faço na minha escrita. Eu chamo de estrutura de corrida de rally. Eu tenho uns pontos de controle, locais por onde quero passar, mas o caminho até eles é incerto, depende de muitas variáveis. Hoje, no Livros à mão cheia, esses pontos são os livros do entrevistado. O programa pretende passar por todos os livros para entender obra e autor. Às vezes, há desvios enormes e alguns livros não são tão explorados. É um programa de televisão com tempo certo. No Palavra & ponto, a conversa pode ser mais verticalizada. É isso: O Livros à mão cheia, panorâmico, visa o horizonte; o Palavra & ponto é um mergulho. Eu os concebi assim desde o título.

O que essa experiência contribui para eu pensar minha literatura? Acho que conheço ainda mais o que se produz hoje porque li livros que eu não teria lido se não fossem as entrevistas. Deve haver consequências, mas não sei dizer quais.

 

Foto: Danilo Alves

 

DA – De todo o seu tempo com a carreira literária, qual percepção você tem hoje de como ela se construiu? O autor e a pessoa mudaram muito em tal caminhada?

MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Agora vou ter de cair no clichê e dizer que é um processo de aprendizado. Eu queria ser escritor e não sabia nada. Não estou dizendo “hoje eu olho para trás e vejo que não sabia nada”. Não é isso. Eu sabia que não sabia. Na poesia, talvez não. Talvez eu tivesse essa sensação de saber. Poesia é tão abstrato. Quando eu escrevia poemas eu tinha certeza do que estava fazendo. Talvez não seja um acaso minha poesia ser irregular. Foi o que me fez estrear, é verdade, mas, olhando retroativamente, aquele não é um grande livro. Ingênuo. Na prosa é diferente. Eu sempre tive dificuldade de escrever. Escrevi poucos contos antes dos trinta. Nenhum foi publicado. Escrevi pouco porque era difícil — uma dificuldade de não saber como e uma dificuldade física, é cansativo. Eu brinco que, se não tivessem inventado o computador, eu não seria prosador. Continuaria nos poemas curtos.

O fato é que efetivamente eu estudei para ser escritor. Fiz todo tipo de oficina. Hoje noto que, embora eu seja fascinado por Lygia Fagundes Telles, meus primeiros contos publicados — e os anteriores — pareciam mais influenciados por Clarice Lispector. E falo isso no mau sentido da expressão. Sabe essas pessoas que não sabem contar uma história e ficam emulando Clarice com filosofices? Contos curtos. Eu não tinha uma noção de como fabular, inventar histórias e personagens. Acho que, aos poucos, fui melhorando. Eu não sabia fazer diálogos e não fazia porque tinha medo de fazer diálogos ruins. O conto “A omoplata”, todo em diálogos, surgiu de um exercício a que me obriguei. Eu me disse: vou fazer um conto só com diálogos.  E deu certo. O conto ganhou um prêmio nacional e fez as pessoas me notarem. Outro grande momento para mim foi o conto se tua mão te ofende, que foi publicado como uma novela. Em arquivo word tem apenas trinta e três páginas. Levei quatro anos para escrever. Eu queria que ele tivesse uma extensão suficiente para figurar sozinho num livro da Coleção Cartas Bahianas (livrinhos de 48 páginas em forma de envelope). Foram quatro anos tentando ampliar a história e construir as motivações da personagem para a cena final melodramática. Tenho voltado para esta cena ultimamente porque Dona Mira, de Motel Mustang, age de maneira melodramática contra o pastor do mesmo modo que Lúcio agiu contra a imagem de Jesus.  Não é por acaso que tema e forma reapareçam juntos. Deve ter algo aí que não me cabe investigar. Os contos, as personagens, eu, estamos todos nos abrindo mais.

A um contista sempre fazem a pergunta: e o romance? Aliás, não. As pessoas não perguntam assim de maneira sintética. Só um contista pergunta assim. Quem dá mais valor ao romance pergunta: quando você vai escrever um romance?

A eternidade da maçã e Motel Mustang são livros de contos que cumprem a função de romance. Eles estabelecem um painel social como os romances fazem. E numa época em que os romances estão sendo desconstruídos até virarem fragmentos, eu posso ser confundido com romancistas descontruídos. Talvez estejamos no mesmo lugar, mas os movimentos são no sentido inverso. Eu estou caminhando para um romance e os outros estão se afastando. Mas eu acho que meu romance, se vier, vai ser um romance de contista. A narrativa longa de quem só escreve romances é diferente de quem escreve contos. Eu não sei explicar com muitos exemplos, nem quero me comprometer. Mas há livros de contos que a gente lê e pensa: isso devia ser ampliado para um romance. E há romances que têm uns detalhes e umas estratégias que só o conto nos ensina. Não estou fazendo juízo de valor (qual o melhor). São características que eu percebo. Posso estar enganado, mas é esse engano que está na base da minha escrita.

O autor e a pessoa mudaram muito em tal caminhada? Mudei, estou mudando, tentando me parecer cada vez mais com o que sou.

 

Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais. 

 

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154ª Leva - 02/2024 Destaques Olhares

Olhares

Moradas da singularidade

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Marcelo Leal

 

A vida pode encerrar não somente aquilo que está postado na superfície imediata das nossas visões, mas também tudo o que desliza nas dimensões imperceptíveis dos dias. E esse pode ser o ponto em que as coisas passam a fazer diferença na medida em que notamos o dinamismo sobre o qual se apoia a nossa existência. Para além dos flagrantes mais óbvios que nossos olhos detectam à primeira vista, há microuniversos circundando toda a jornada humana sobre a Terra.

O mundo pode ser uma grande redoma dentro da qual confinamos e fazemos girar a roda das grandes expectativas. Nessa nuance, os sentimentos de tudo e de todos restam diluídos na força de um presente que deixa para trás seus rastros, tencionando projeções para o que denominamos por amanhã. Certamente, as imagens que apreendemos em nossas mentes e que nos lançam ao desejo do registro são a manifestação de que é o tempo presente quem assinala seu protagonismo, consubstanciando o ímpeto de reter, de algum modo, a vida e suas epifanias.

Como, então, tornar visíveis os lampejos que decorrem das searas mais abstratas do ser? Indo mais além, o que de fato inscrevemos na parede do presente quando sabemos que a existência contempla aberturas e mistérios da ordem do intangível?

 

Foto: Marcelo Leal

 

Diria que, ao observar a arte de Marcelo Leal, talvez tenhamos a sensação de que poderemos encontrar alguns indicativos para as perguntas feitas acima. De imediato, penso que o trabalho desse fotógrafo traz à baila evidências de que a melhor tradução do mundo está naquilo que simboliza o conjunto de delicadezas que ele abriga. E compreender essa miríade mundana exposta nas fotografias de Marcelo é deixar se levar pela riqueza contida nos pormenores capturados.

Em meio à profusão de ambientes, seres, objetos e manifestações da natureza, o fotógrafo gaúcho lança mão de um olhar que extrai das frestas do cotidiano o componente poético. Ao fazer isso, suspende a camada repetitiva da vida, dando lugar a uma representação imagética que privilegia detalhes dos mais peculiares, denotando a coexistência de mundos no mundo. Eis aí o trunfo maior: revelar facetas daquilo que se abriga no comum.

Se a rotina acolhe os atos mais comezinhos e outras expressões da chamada vida ordinária, os registros de Marcelo Leal dão conta de que é preciso vislumbrar aquilo que pulsa nas entrelinhas, nos recônditos que falam mesmo quando as ausências humanas perpassam os lugares retratados. Daí que, modulando luzes, cores e sombras, o resultado obtido pelo artista sugere uma sinfonia de vestígios, marcas de nossa passagem pelo planeta.

 

Foto: Marcelo Leal

 

Ao mesmo tempo, o fotógrafo também nos oferta janelas de introspecção, evocando uma viagem para dentro de dimensões que, embotadas de silêncio, nos fazem valorar o sentimento das pausas. São lugares onde os instantes não se deixaram coagular, permitindo aos seus protagonistas a medida exata da contemplação. É preciso dizer que nessas alturas as personagens, inanimadas ou não, orquestram o gesto sereno que se espraia pela vida.

Oriundo de Porto Alegre, Marcelo Leal, além de artífice das imagens, é um alguém devotado à música e faz parte de um quarteto de jazz há três décadas. Seu trabalho com a fotografia, que inclusive lhe rendeu premiações, está materializado em diversas exposições, bem como participações em livros e revistas. Nas palavras do próprio artista, seu ofício imagético tem por propósito exprimir a procura por uma identidade que possa demonstrar aquilo que ele genuinamente sente pela arte da fotografia.

Suspeito que não há como desfilar os olhos pelas capturas de Marcelo sem que os pensamentos se deixem levar pelo aceno das singularidades. Mais do que um engenho de matizes estéticos, sua arte navega por certas fatias insondáveis do mister humano, daquelas que somente a atenção desacelerada é capaz de usufruir com mais plenitude.

 

Foto: Marcelo Leal

 

* As fotografias de Marcelo Leal são parte integrante da galeria e dos textos da 154ª Leva

 

Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais. 

 

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153ª Leva - 01/2024 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

MILTON NASCIMENTO E ESPERANZA SPALDING – MILTON + ESPERANZA

 

 

A passagem do tempo vai revelando em nós camadas difusas através das quais a vida se dilui e transcorre. E se já não somos mais os mesmos de outrora, talvez consigamos preservar acesa em nós a chama de certos sonhos, estes que foram arroubos de juventude ou que ainda representam algo significativo no campo da contemplação, bastando apenas que consigamos conceder-lhes sentidos ativos.

De todo modo, a coleção de vivências que experimentamos pode estar inscrita em nós até os ossos, delineando reminiscências, o gosto de uma pretérita existência desfrutada com intensidade ou certa dose de romantismo. Pode ser também expressa num desejo de futuro a ser construído não como mera condição de espera, mas como movimento dinâmico de busca.

Imagino que as linhas acima possam traduzir um pouco do que a escuta do álbum Milton + esperanza demonstra sugerir. Se a voz já não empresta aquele vigor do passado, Milton Nascimento deixa impregnada nesse mais recente disco a sua alma, uma esfera da existência importante que, apesar das investidas limitadoras do tempo rei, não subtrai desse momento o amor pela música, senhora esta que povoa as paisagens da vida do artista desde sempre, oferecendo-lhe um manancial de imagens sensíveis e provocadoras.

A produção desse disco deveras especial é de Esperanza Spalding que, convidada pelo filho do compositor numa conversa informal quando da turnê de despedida de Milton dos palcos, topou a missão. Mas o ingrediente que se soma a essa tarefa é o fato de que a artista tem uma enorme admiração pela obra dele, tendo já gravado coisas do músico, dividido palcos, estreitando uma relação de amizade que sabidamente já dura alguns bons anos. O resultado dessa parceria materializa agora um projeto cujo apuro está tanto no esmero com a produção e arranjos, mas sobretudo pela condução vocal que os dois parceiros de jornada souberam fazer nas 16 faixas.

Os caminhos iniciais do disco sinalizam para a importância transformadora da música. Que o diga a primeira faixa, “the music was there”, que, funcionando como uma espécie de intro, mostra um Milton a revelar o quanto a sua veia compositora se vale daquilo que emana das imagens que o povoam por dentro e por fora. Esse gesto confessional é testemunhado como o registro de um diálogo em que as reações de Esperanza são marcadas por sonoras e suaves risadas e suspiros de concordância. Vale ressaltar que esse clima de conversa entre os dois artistas também se estende a outros momentos do disco, como é o caso das trocas que aparecem em “outro planeta”, parte em que Milton enaltece tudo o que o motiva a compor: amizade, amor, crianças, o mar, a vida.

Logo na sequência, difícil não se emocionar com a roupagem dada à majestosa “Cais”, cujo arranjo consegue preservar a essência definidora da canção. Na curta “Late September”, visualizamos a assinatura artística de Esperanza como se representasse uma pequena demonstração da verve jazzística contemporânea virtuosa da musicista.

“Outubro”, originalmente gravada no belíssimo Courage (1968), segundo disco da carreira de Milton Nascimento,  atravessa as dobras do tempo com um ânimo novo, mas sem abrir mão da ambiência poética que lhe é característica. Ao lado de Esperanza, Milton preserva a intensidade existencial que torna a canção uma das composições mais representativas de sua obra. Trata-se de um olhar profundo sobre o lugar do sujeito no mundo, a coleção de lembranças, ações e imagens que o permitem esboçar a partida rumo a um porvir envolto em mistério, quiçá aquilo que denominamos por morte sem ter certeza de absolutamente nada. A faixa, com seus belos requintes jazzísticos regados ao marcante contrabaixo acústico de Esperanza, bem como piano e flauta, nos lembra que, antes de mais nada, estamos ocupados mesmo é de viver.

 

Milton e Esperanza / Foto: Lucas Nogueira

 

“A Day In The Life”, icônica composição dos Beatles, vem embalada pelo suave diálogo entre violão e piano, harmonizando as vozes de Milton e Esperanza à atmosfera central da canção. Nesse sentido, a proposta original da música permanece, divisando o arranjo em esferas distintas de intensidade. E tal gesto é deveras necessário, pois as subidas e descidas da música são sua marca inalienável, como um mosaico de cenários difusos agora ainda mais recheados pela escolha de sua base instrumental.

Há um sentimento pueril rondando “Saci”, cujas gargalhadas de Milton ao final da faixa marcam o espaço brincante da canção. Diga-se de passagem, tal emblema de espontaneidade parece mostrar uma intenção deliberada de captar a atmosfera descontraída e leve que povoou a feitura do disco.

Em “Wings for the Thought Bird”, mais uma vez a marca pessoal de Esperanza, com sua potencialidade instrumental confere tons especiais ao trabalho. E o destaque aqui está principalmente nos vocalizes com os quais a cantora atravessa toda a faixa.

Mas vejamos que “Earth Song”, emotiva e, por que não dizer, filosófica letra de Michael Jackson, ganha uma roupagem mais lenta, jazzística e povoada pela interpretação de Diane Reeves cujo potencial dota a música de um lirismo especial. Assim, do ímpeto original da gravação do rei do pop, o crescendo da canção permanece até que tudo se resolva em leveza ao fim. Uma delicadeza sem par com a participação de Milton nos vocais.

Cabe lembrar que tanto a composição de Michael quanto a dos Beatles foram escolhas especiais de Milton. De resto, Esperanza teve a liberdade de selecionar o repertório do disco, imprimindo nesse rol de opções os reflexos de seu enorme apreço pelo universo sonoro do artista, atitude confessadamente amorosa da musicista.

Sem dúvida uma das maiores composições de Milton, “Morro Velho” surge revisitada com todo o requinte de piano e da luxuosa contribuição da Orquestra Ouro Preto. Nela, a voz de Milton ganha beleza e dialoga com a de Esperanza com toda a pulsação de uma entrega recheada de sutilezas sonoras. E é isso que o arranjo escolhido imprime à canção, agora contemplada com uma atmosfera marcada pela leveza.

“Saudade Dos Aviões Da Panair (Conversando no Bar)” é uma rica reunião das vozes  de Milton, Esperanza, Maria Gadú, Tim Bernardes e Lianne La Havas, todos irmanados num tom que reforça a alma fundante da composição. Aqui, a opção pela inserção dos vocalizes em coro logo no início da canção, além de subverter a ordem original da música, gravada em 1975 no brilhante álbum Minas, trouxe uma atmosfera diferenciada como se antecipasse o apogeu que se consolida no fim da música.

E que tal um Paul Simon cantando em português junto com Milton? Assim o é em “Um vento passou (para Paul Simon)”, faixa que evoca a fortuna da amizade como um legado que concede valor à vida marcada pelo impacto das memórias. “Coração se aqueceu/Agora ao lembrar de você/Amizade é um dom/Que precisa merecer/Nesta vida, nesta história/Não esquecer/O silêncio é o som/Que não cabe mais no ar/(…), diz um dos trechos.

No começo deste texto, falei um pouco sobre sonhos, essa perspectiva que todos trazemos de algum modo como sendo a ponta de um iceberg em sua quase totalidade inexplorado. E mais do que meras aspirações e preces ao porvir, eles talvez possam se configurar como o anseio de uma entrega ao oceano do desconhecido, corpos e mentes velejando pela imensidão dos mistérios humanos. E faz jus a esse complexo de sensações a última faixa do disco, a requintada e jazzística “When You Dream”, composição que prima pela abundância sonora, cujas intensidades vocais e instrumentais encerram bem a jornada aqui proposta.

Milton + esperanza é um disco muito bem cuidado, soma de energias que se integram pelo propósito mais genuíno da música, qual seja o de provocar em cada ouvinte esferas múltiplas e também singulares de percepção. Acima de tudo, é um álbum construído pela força dos encontros entre gente que tem apreço por gente, colocando no ponto mais alto das apreciações o amor e a amizade.  

 

 

Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais. 

 

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153ª Leva - 01/2024 Destaques Olhares

Olhares

Refúgios cotidianos

Por Fabrício Brandão

 

Arte: Zô

 

Mirar as coisas diante das visões que se avizinham: eis uma das características do universo criativo daqueles que se dedicam a representar imageticamente o mundo. Ou termo melhor seria o de que artistas nos apresentam a multiplicidade de fenômenos mundanos? Impasses terminológicos à parte, já nos é dado saber que não saímos os mesmos diante da experiência que nos revela signos capazes de trazer à baila horizontes pautados na matéria da vida que testemunhamos incessantemente.

Então, o gosto pelas manifestações embotadas de rotina não nos mostra a inércia dos dias. Pelo contrário, faz com que vislumbremos em tais epifanias recortes marcantes da existência. E é esse olhar humano carregado de sutilezas e atento a detalhes singulares quem pode fazer a diferença no fértil terreno artístico.

De todo o dito acima, arrisco que a produção de uma artista como Giovanna Gonzaga, paulista de nascimento e hoje radicada em Curitiba, seja porta-voz dessa noção um tanto mais atenta aos pormenores dos cenários da vida. Assinando seus trabalhos como , que é como prefere ser chamada, essa artífice das imagens demonstra que é possível reter nuances do mundo em que habitamos através de escolhas confessadamente atravessadas por certa dose de encantamento.

E Zô revela que esse olhar que prima por tal encantamento busca nas paisagens do dia a dia a potencialidade encerrada nas expressões marcadas pelo anonimato. Daí que a face oculta dos agentes que fiam o tecido dos dias ganha uma outra possibilidade, pois se desdobram em formas e cores dispostas a uma reconfiguração das cartografias humanas. Dizer isso é reconhecer que há um sem fim de alternativas delineadas pelo traçado comum da vida, mas que se mostram através de perspectivas diferenciadas, denotando sentidos peculiares de abordagem.

 

Arte: Zô

 

A arte de Zô aposta na dose agigantada de distorção das formas, com criaturas com seus corpos alongados e na representação difusa dos espaços e ambientes. Diga-se de passagem, também o uso das cores aparece aqui conjugado a essa noção multiforme e não convencional da vida, pois tal predileção criativa aponta sobretudo para a ênfase que precisa ser dada a certos clamores existenciais.

Outro importante componente do trabalho da artista é sua inclinação para o território do fantástico, inclusive engendrando contornos, seres e cenários muito típicos daquilo que habita as entranhas do extraordinário. Com isso, Zô nos prova que é possível lançar lentes de aumento sobre a realidade, subvertendo, no bailado insubmisso das formas, qualquer lógica que tente limitar as alternativas de se flagrar a vida.

Entre gravuras, animações, pinturas, tatuagens e arte sequencial, Zô desfila toda a multiplicidade de suportes sobre os quais estão apoiados seus caminhos artísticos. E esse cardápio de opções variadas diz muito sobre a capacidade da artista em poder fundar mundos no mundo, descortinando predileções imagéticas que transbordam doses de intensidade. Sua voz, antes de mais nada, se faz sentir pelo teor abundante através do qual as criações recaem. Na interface profusa  entre seres, lugares e objetos, a arte aqui está posicionada como retratadora do gesto espantado que nos constitui.

 

Arte: Zô

 

* A arte de Zô é parte integrante da galeria e dos textos da 153ª Leva

 

Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais. 

 

 

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152ª Leva - 02/2023 Destaques Olhares

Olhares

Entre enigmas e suas reconfigurações

 Por Fabrício Brandão

 

Foto: Magali Abreu

 

Sob o delicado manto das formas, há um universo embebido em mistérios que são fruto de nossas humanas idades. Nele, cabem as paisagens múltiplas que contemplam as porções interiores do ser, espaços constituintes do vivido e também do imaginado. Todo esse acervo é fonte de um manancial imagético capaz de retratar mundos no mundo, recortando possibilidades e sensações ao alcance do olhar que tem predileção pelos detalhes.

E eis que assim o faz Magali Abreu em sua travessia artística. Com um trabalho que ajunta os fragmentos sensíveis da existência, a fotógrafa nos oferta um panorama de alternativas cujas imagens simbolizam o gesto da recomposição da vida, processo este que não se descola da ideia de que o mundo pulsa intermitente entre os sentidos das dissoluções e reconstruções.

Ouso dizer que as fotografias de Magali ressignificam memórias em torno de pessoas e lugares. E na confluência entre a matéria tangível das coisas e a atmosfera das porções abstratas, forma-se um conjunto orgânico de sensações visuais que contêm afetos e também contemplam saberes e sabores particulares, desses que fazem sentido dentro da esfera líquida e secreta das imagens.

Daí que faz todo sentido se deixar guiar pelas imersões propostas pela artista, posto que ela nos atrai a um movimento que se assemelha também a um mosaico de representações. Mas para que isso se opere é preciso observar todo o véu poético que recobre as imagens da fotógrafa. É ele quem protagoniza os modos de exibição duma arte que encontra seu diferencial por não nos entregar facilmente os mapas de todos os percursos sugeridos.

 

Foto: Magali Abreu

 

Dito isso, cabe-nos o salto e os efeitos das descobertas para regiões mais profundas, zonas por onde circulam sentidos passíveis de espanto e/ou encantamento. Da mesma maneira, as fotografias de Magali Abreu parecem conter clamores em favor de uma nova ordenação para o humano, condição que retira do caos que nos acomete o fruto de eventuais libertações. Afinal, se o nosso olhar mais atento é capaz de redimensionar o modo como miramos o interno e o externo, também a arte poderia fazê-lo por intermédio de seus provocadores atributos.

Como a própria artista confessa, seu processo criativo é um se deixar levar pelos impulsos, fluxo por onde transcorrem naturalmente os estímulos dinamizadores de sua obra, a qual busca emocionar pessoas. Além disso, Magali assinala privilegiar o caráter subjetivo de seu trabalho, estabelecendo elos com suas porções íntimas, além de promover uma mescla entre o onírico e o real. Em sua trajetória, a fotógrafa baiana reúne exposições, premiações nacionais e internacionais, bem como menções honrosas.

A partir da aura enigmática que perpassa as fotografias de Magali Abreu, nos é dado perceber que a arte é fundamentalmente o encontro com a sugestão, considerando que um artista é aquele que nos conduz até certo ponto da jornada, pois o restante do percurso, muito provavelmente a sua maior parte, é feito por todo aquele que se permite mergulhar naquilo que se apresenta diante da sua visão. E é de se suspeitar que somente o mergulho não garanta a fruição da viagem, já que ninguém passa incólume pelas paragens artísticas, ainda mais quando estas desacomodam inquietudes.

 

Foto: Magali Abreu

 

* As fotografias de Magali Abreu são parte integrante da galeria e dos textos da 152ª Leva

 

Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais. 

 

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151ª Leva - 01/2023 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

O exercício da literatura é feito de atravessamentos de toda ordem. E sabemos que a escrita é também marcada pelo gesto espantado que é a existência, esta senhora cujos domínios não cessam de revelar mais e mais inquietudes. Quem escreve não passa impune pelas múltiplas imagens mundanas e seus inalienáveis efeitos, pois é variada a oferta de cenários através dos quais tanto prosas quanto versos podem se deixar engendrar.

É preciso certa dose de ousadia para enxergar além do horizonte das coisas acostumadas. Se somos, enquanto matéria humana, uma amálgama de saberes e sabores é porque também temos a prerrogativa de desbravar sentidos, sejam eles inaugurais ou não, sobretudo quando o tema é cotejar as experiências vividas ou imaginadas. No compasso do tempo, escrever pode ser também o ato de maquinar a matéria intangível da vida. Nesse ponto, complexos serão os caminhos trilhados, os resultados colhidos, demonstrando o fascínio que determinadas escrituras podem causar.

Vivian Pizzinga é uma autora que sabe percorrer territórios onde a palavra se faz possuidora dos sentidos. Em seu engenho literário, ela demonstra transitar com personalidade pelos caminhos vacilantes do ser, ímpeto que faz de sua obra um recorte vigoroso dos mergulhos humanos contemporâneos. Refletir um pouco sobre o que somos hoje e o que fizemos de nós também é a tônica das investidas dessa carioca cujas escrituras desacomodam pretensas convicções.

Além de se dedicar ao ofício com a literatura, com trabalhos em prosa e poesia, Vivian atua na psicanálise. Sua obra abarca os livros de contos “Dias Roucos e Vontades Absurdas” (2013) e “A primavera entra pelos pés” (2015), ambos lançados pela Editora Oito e meio, bem como as coletâneas “Escriptonita” (Editora Patuá, 2016) e “Cada um por si e Deus contra todos” (Tinta Negra, 2016). E mais recentemente, em 2022, publicou “Ruído nos Dentes” pela Editora Urutau, livro de poemas que inaugura os trajetos atuais da escritora.

Na entrevista que segue agora, Vivian Pizzinga fala sobre seu mais novo livro, além de alguns aspectos fundamentais que mobilizam o seu especial envolvimento com o fazer literário. Atenta às questões do seu tempo, revela-se também alguém desperta para refletir criticamente sobre condições que demandam um olhar aprofundado sobre nossas humanidades. Marcada por acenos inquietos, mostra-se uma autora cujos sentidos estão abertos ao mundo e seus movimentos, atitude que não afasta certo ensaio contemplativo da vida.

 

Vivian Pizzinga / Foto: Kariane Pontes

 

DA – “Ruído nos Dentes” traz em seu conjunto um mosaico de interioridades reveladas. São paisagens existenciais visitadas e que não se furtam em dialogar com o externo, esse outro que se detém na leitura. O que dizer desses mergulhos?

VIVIAN PIZZINGA – É interessante você pontuar esse diálogo com o externo dessas interioridades reveladas nos textos de “Ruído nos Dentes”. A leitura que fiz deles quando estava fazendo a curadoria do livro – uma das leituras possíveis – me fez compreender três conjuntos de textos, e assim separei o livro em três partes: uma delas onde há menos diálogo com o externo; a segunda parte, onde há um contato com o externo em que este é mais íntimo, digamos assim, talvez até mesmo personalizado, ainda que isso não fique tão claro; e uma última parte em que esse externo seria mais coletivo, mais amplo e também mais difuso, em alguns sentidos. De algum modo, compreendi uma espécie de percurso que parte de algo mais interior – e muito ligado a experiências sensórias também – para um contexto mais exterior.

 

DA – Nesse trajeto, onde as dimensões interna e externa do ser se comunicam, quais desafios se delinearam mais evidentes na construção do seu livro?

VIVIAN PIZZINGA – Na verdade, apesar desses itinerários que mencionei, não acho que haja possibilidade de as dimensões interna e externa não se comunicarem, suponho que elas estão sempre se comunicando e às vezes enxergamos melhor isso, outras vezes isso nos parece menos nítido. Não acho que haja qualquer possibilidade de uma dimensão existir sem a outra, não é possível saber nem mesmo se há uma precedência do interno sobre o externo ou vice-versa, realmente trabalho com a noção de interseção em tudo. Quando uso essas ideias de externo e interno, mesmo para falar de como separei os textos e os arranjei nesse percurso de três partes, é muito mais uma maneira de conseguir se exprimir sobre sensações e vivências, porque é difícil lançar mão de uma linguagem, de um léxico, em que se possa unir essas coisas que não são separadas. Então, quando faço uma leitura dos meus próprios textos e identifico ali, naquele momento, textos mais internos, mais introspectivos, mais ligados ao sensorial, na verdade estou identificando uma predominância, mas não uma separação. E por isso mesmo a própria separação nessas partes também foi um desafio, pois essa localização não é tão nítida. Ainda assim, naquele momento, eu sentia que precisava conferir alguma organização, talvez como forma de me organizar e de me situar nesses escritos. Mas outro grande desafio, na verdade o maior, foi em relação ao próprio fato de eu estar escrevendo algo com uma inclinação mais poética, uma vez que minha experiência anterior é toda da prosa. Embora eu viesse escrevendo esses textos há alguns anos e eles estivessem se tornando mais frequentes, havia uma dúvida se aquilo que eu reconhecia como poético seria mesmo.

 

DA – De fato, é possível ver em “Ruído nos Dentes” um flerte seu com a chamada prosa poética. Como é que você vislumbra essa espécie de fronteira que às vezes chega a parecer tão tênue entre os gêneros?

VIVIAN PIZZINGA – No segundo livro de contos que escrevi, “A primavera entra pelos pés”, havia já alguns textos com essa inclinação mais para a prosa poética, então essa fronteira, se muito rígida, ao menos pra mim não funciona. Por outro lado, não sou uma pessoa que estuda literatura no sentido acadêmico, não tenho leitura sistemática desses debates, venho de outra área, talvez eu pudesse ser criticada em questionar um pouco essas fronteiras. Fato é que, ao enviar a proposta de livro para a chamada, o gênero em que se encaixaria seria a poesia. Precisamos lançar mão de outras nomenclaturas para dar conta de uma certa complexidade da realidade, porque as caixas muito bem amarradas e indiscerníveis não dão conta dos múltiplos recados da vida. Acho isso pra tudo, acho que com uma seriedade e uma responsabilidade nos trabalhos, estudos e atribuições (falando de profissões) é possível rearranjar classificações muito prontas, que têm uma historicidade, não são naturais, logo, podem ser compreendidas de outra forma. Acho isso pra tudo, então não teria como eu não achar o mesmo no que se refere à escrita: os textos de “Ruído nos Dentes” talvez não sejam poesia, talvez sejam, talvez em parte. Depende da página.

 

Vivian Pizzinga / Foto: Kariane Pontes

 

DA – A segunda parte do livro é introduzida por “diatribe”, texto que parece bem emblemático se pensarmos os diferentes deslizamentos identitários presentes na contemporaneidade. Na sua opinião, o que o atual território das subjetividades tem a nos dizer de mais significativo? 

VIVIAN PIZZINGA – De mais significativo, não saberia dizer, mas algo que me chama a atenção é o fato de que, se por um lado estamos tendo uma ampla oportunidade de debates que há dez, quinze anos não tínhamos nesse nível, com discussões importantes referentes às pautas identitárias em seus múltiplos aspectos, ou seja, ao mesmo tempo em que estamos nos dando conta cada vez mais de vivências e atravessamentos históricos, sociais, econômicos que moldam, guiam, constituem nosso estar no mundo, por assim dizer, estamos, por outro lado, um pouco perdidos no que se refere à nossa autonomia face àquilo que concorre para a produção de subjetividade hoje, século XXI, 2023, para ser bem específica. Refiro-me a toda a problemática, a meu ver urgente, referente às redes sociais e ao chamado capitalismo de vigilância, temática que inclusive está sendo debatida atualmente no congresso no que se refere à regulamentação de plataformas digitais, o chamado PL das fake news. O que quero dizer é que estamos sendo muito moldados por aquilo que vemos nas redes, nossos comportamentos estão sendo direcionados, como nos têm alertado os pesquisadores desse campo de estudos, e não nos damos conta disso. Subjetividade e comportamento estão intrinsecamente ligados, para falar de modo corriqueiro. Vou dar um pequeno exemplo: ouvi outro dia alguém falando que o aplicativo de fotos do google enviou a essa pessoa umas fotos suas de alguns anos antes, aquelas típicas lembranças que acabam direcionando o rumo da memória. Essa pessoa, que não estava pensando em determinada situação, passou a pensar muito nela, o que direcionou um dado comportamento naquele momento. Será que se essa foto não fosse vista, à revelia dessa pessoa, o que se desencadeou depois teria acontecido? Será que ela teria pensado naquilo? Claro que estamos sempre sujeitos a fazer uma associação de ideias com algo que vemos no mundo, mas, quando isso acontece a torto e a direito, de modo acachapante, nas redes sociais, nos trocentos aplicativos que acabamos sendo obrigados a usar, como pensar o rumo dado à produção de subjetividades nessa conjuntura? Sendo que é sempre bom reforçar que tudo isso avança muito mais velozmente do que os debates e as regulamentações jurídicas voltadas a essas situações. O mesmo podemos dizer desses filtros de redes sociais que tiram todos os supostos “defeitos” do rosto de uma pessoa ou ainda as clássicas comparações que podemos fazer com as vidas dos outros, mesmo que saibamos que o que é mostrado numa rede social é uma edição de si (isso quando o sabemos). Tudo isso é produção de subjetividade o tempo inteiro, de modo acrítico, o que é uma contradição se pensarmos no que falei no início quanto aos debates que têm nos permitido nos dar conta das forças históricas que nos constituem.

 

DA – Por falar no universo digital, há algum tempo temos nos deparado com a superexposição do eu nas múltiplas plataformas de produção de conteúdos. Do corpo ao texto, há uma expansão do campo autobiográfico que gera mais e mais narrativas performatizadas e que também orbitam em torno da vida ordinária, sugerindo que pessoas comuns, e não somente famosos, são protagonistas desse processo no qual as existências parecem reinventadas. Nossa sociedade se acostumou com a espetacularização e, com isso, perdeu a capacidade de lidar com seus próprios dilemas e dores?

VIVIAN PIZZINGA – Pois é, é uma excelente pergunta, porque já não sei mais se há um habituar-se à espetacularização ou se estamos precisando muito nos dirigir a um outro, a alguém, se é uma necessidade de interlocução que tem a ver com esse encapsulamento das nossas vidas, o que também me parece outra contradição, porque, mais uma vez, parece – sempre parece – que estamos muito mais conectados, mas talvez a forma como isso se dê não contemple nossas necessidades mais profundas de intimidade, de trocas significativas. Talvez seja uma hiperconexão que implique alguma desconexão em outras esferas, e ficamos desesperadamente correndo atrás de alguma coisa por esse caminho do espetáculo de si, de nós mesmos, o glamour da nossa intimidade mais corriqueira. Ou pode ser que seja isso e mais um monte de outras coisas. Acho que o que você aponta na sua pergunta está relacionado com o que abordei na pergunta anterior, uma vez que parece que estamos mais cientes de tudo o que pode operar em nós, estamos talvez menos ingênuos, discutindo mais algumas coisas, e, por outro lado, parece que estamos menos conscientes do quanto seguimos de forma um tanto quanto autômata nessa avalanche de ter que mostrar tudo o tempo todo, como se a coisa não tivesse acontecido caso não a mostrássemos. São muitas as hipóteses, sempre lembrando que, ao falar disso, não estou apontando o dedo pro outro sem olhar a minha parte nesse latifúndio, eu também sou aquela que, junto com todo mundo, posta, dialoga (ou pensa que o faz), dá um tom confessional a dizeres abertos a sei lá quem e por aí vai. Não sei se é uma necessidade de se comunicar que tem assumido outras formas, mas certamente o componente da espetacularização – e isso não sou nem eu quem fala, sigo outros – está presente.

 

DA – Em tempos da expansão da chamada inteligência artificial, muito se tem discutido sobre o quanto isso poderia afetar a questão da autoria na contemporaneidade. O quão problemático seria admitir uma obra literária produzida inteiramente a partir da máquina?

VIVIAN PIZZINGA – Eu realmente acho isso tudo muito estranho. Ainda não amadureci dentro de mim os encaminhamentos disso, os desdobramentos do que isso pode gerar, uma obra literária ser produzida inteiramente a partir da máquina, e nem tenho certeza se isso é efetivamente possível. Apesar de já terem me mostrado uns testes corriqueiros, do tipo pedir para a inteligência artificial escrever um conto sobre isso ou aquilo e ver o resultado, não tenho certeza se se pode dizer que uma obra literária poderia ser produzida efetivamente a partir daí. Onde fica o estilo, por exemplo? Mas vamos que fosse possível? A questão da autoria já também não é um assunto simples, porque ela evoca uma suposta coesão de quem escreve um texto, quando, na verdade, somos atravessados por mil e uma coisas que lemos, vemos e ouvimos, muitas delas sem percebermos que lemos, vemos e ouvimos, mas, ao mesmo tempo, em algum momento, conseguimos concatenar aquilo em alguma produção, no caso, escrita. A autoria seria da inteligência artificial? Por outro lado, o debate sobre os direitos autorais, sobre a profissão do/a escritor/a, essas problemáticas antigas, tensas e nunca concluídas, estão também envolvidas nisso. Tudo o que tenho dentro de mim, no momento atual, é um grande estranhamento.

 

Vivian Pizzinga / Foto: Kariane Pontes

 

DA – De que maneira a sua vivência com a psicanálise cruza seus caminhos com a literatura?

VIVIAN PIZZINGA – Apesar de eu não deliberar enredos ou textos a partir da minha trajetória na psicanálise, a experiência profissional e os estudos, além da minha vivência pessoal, acabam fazendo parte da minha produção, quando vejo já aconteceu. Na época em que trabalhava em ambulatório de saúde mental, e que eu estava escrevendo muitos contos, naturalmente as ideias tomadas por essa pegada da psicanálise vinham para essas narrativas curtas. Alguns contos que escrevi – “Eletroconvulsoterapia”, “A loucura é uma sensação térmica”, “Uma ciência do atraso”, “Haldol Decanoato”, cujos títulos já indicam territórios de interesse do campo da saúde mental e da psicanálise, ou ainda “Término”, cujo título não dá sinal de nada mas que também traz essa influência – são exemplos de textos que acabam muito influenciados por essas vivências profissionais no campo da saúde mental e nas reflexões que a psicanálise impulsiona. “Haldol Decanoato”, por exemplo, título de um dos contos que integra “Dias Roucos e Vontades Absurdas”, é o nome de uma medicação psiquiátrica. Medicação psiquiátrica não é psicanálise, mas as coisas vão se entrelaçando em muitos dos textos que escrevi durante vários anos. Como eu estava muito imersa nessas vivências, trabalhando no Instituto Municipal Nise da Silveira (que existe ainda mas que foi um hospital psiquiátrico de referência na Zona Norte do Rio de Janeiro e que atravessou um processo de desinstitucionalização na luta antimanicomial), atendendo muitos pacientes no ambulatório, além de pacientes no consultório, esse era meu universo, e isso aparecia espontaneamente no que eu escrevia. Agora acredito que isso está menos urgente no que escrevo, menos à flor da pele, mas me constitui em muitas medidas, então não deixa de estar presente.

 

DA – O que lhe parece mais urgente nos tempos atuais?

VIVIAN PIZZINGA – Difícil, mas eu diria que me parece muito urgente a gente relembrar e reforçar os laços coletivos e sociais. A consciência de classe, a preocupação com o comum, o bem comum, a coisa pública. A lembrança ou o aprendizado de que não estamos isolados, de que nossos interesses não podem estar desvinculados dos interesses sociais, coletivos, que estamos imersos em culturas e que a nossa não é nem a única nem a melhor. E que, nisso, tudo o que defendemos tem sua historicidade, que precisa ser resgatada ao menos em parte, porque aí não nos prendemos tanto em rótulos, diagnósticos, etiquetas, estereótipos, formas de leitura de pessoas e processos estanques, enfim, autoenganos. Acho urgente que estejamos atentos e atentas a isso. Fico achando às vezes que a pandemia teve um lado de reforçar um certo individualismo. É difícil resumir, mas eu iria por esse caminho, que acho, a princípio, que abriria outros.

 

DA – O quanto Vivian Pizzinga conhece Vivian Pizzinga?

VIVIAN PIZZINGA – Eu tenho construído uma Vivian Pizzinga e tenho descoberto reações de uma Vivian Pizzinga que têm a ver com circunstâncias, porque acho que é isso, a gente só sabe se há uma Vivian Pizzinga, e o que seria isso, diante das circunstâncias, externas, internas e as que estão no meio de ambas (talvez só essas existam). Ou seja, o que a gente é ou tenta ser e faz ou tenta fazer é algo sempre relacional, é sempre um movimento oscilatório, e não garante nada, tampouco é linear. Há uma Vivian a ser conhecida? O quanto essa que está aí escrevendo é resultado de uma interseção de humores, afetos, coisas variadas de muitas espécies? São muitas, não é nenhuma? Freud já nos tirou do eixo ao apontar o inconsciente, mas certamente eu poderia dizer que Vivian tem um hábito de olhar para si e suas ações/reações/interações e se espantar.

 

DA – Afinal, por que escrever?

VIVIAN PIZZINGA – Não tenho resposta melhor a dar que não a de Blanchot: Escrever para não morrer.

 

Vivian Pizzinga / Foto: Kariane Pontes

 

Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais.

 

 

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150ª Leva - 05/2022 Destaques Olhares

Olhares

A poética do despercebido

 Por Fabrício Brandão

 

Foto: Yuri Bittar

 

Estar presente é uma condição que permanece emblemática para todos nós. Tal percepção vem da ideia de que o momento mais importante da vida seria o agora, esse instante sobre o qual estamos de fato materializando as vivências. E estar atento a isso parece redimensionar toda uma carga de coisas marcada pela dispersão contemporânea de nossos tempos. Quando estamos conectados ao presente, passamos a prestar atenção em muitos fenômenos que acontecem ao nosso redor, escutamos pessoas e tendemos, inclusive, a assimilar aquilo que se abriga no campo do despercebido.

Sem dúvida alguma, a fotografia é um dos ramos da arte que conseguem nos apresentar traços valiosos sobre aquilo que se esconde por trás da rotina dos dias. E captar o imperceptível é um dos desafios da atualidade. Ao percorrermos registros de alguém como o fotógrafo Yuri Bittar, sentimos que a concepção da imagem põe em evidência a apreensão dos detalhes da vida. Como quem congela o instante, Yuri revela uma habilidade em nos apresentar a poesia que se esconde nos recônditos do cotidiano.

Conceber a imagem de tal forma é também defender uma atitude meditativa diante de todas os seres, lugares e objetos retratados. Adepto da Fotografia Contemplativa, Yuri se mostra um artista cuidadoso em não lançar filtros sobre tudo o que capta, posto que a sua presença diante daquilo que pretende registrar é aquela que silencia para que o mundo siga seu fluxo natural. Ao mesmo tempo, essa forma de trabalhar a imagem só é possível de se concretizar quando o fotógrafo está completamente entregue ao presente.

Podemos nos surpreender se acharmos que nosso dia a dia é confundido com um turbilhão de coisas repetidas. E é justamente a arte de gente como Yuri Bittar que nos mostra o quanto estamos enganados se supormos que nada merece ser tido como especial em nosso olhar. Subvertendo a velha noção de que não há nada de novo sob o sol, o fotógrafo nos mostra que, por entre os territórios apressados nos quais habitamos, há uma outra dimensão da existência pedindo passagem. É aquela porção através da qual a poesia se revela em face da manifestação dos gestos marcados pela simplicidade, enaltecendo pausas, rastros e sintomas de nossas humanidades.

 

Foto: Yuri Bittar

 

Em Yuri Bittar, a paisagem urbana é tomada pela ressignificação dos espaços e movimentos humanos. Assim, até mesmo lugares de ausência denotam vestígios deixados pelas diferentes pessoas que circulam no ambiente frenético das cidades. É como se em cada rastro configurado o dinamismo da vida nunca fosse capaz de apagar a presença registrada nalgum momento específico. Tudo isso a serviço de uma poética que sabe a silêncios, intervalos e encantamentos.

Quiçá o ato espantado de existir, com sua carga de revelações e assimilações do real, seja atenuado pela necessidade de deslocarmos nossa atenção para muito do que teimosamente insistimos em ocultar. E eis que as fotografias de Yuri, com sua força contemplativa, nos atraem para aquela vivência do presente a qual me referi no início deste texto. Agindo assim, talvez por alguns instantes recusemos os imperativos da pressa que tanto afetam nossa capacidade de saborear a vida com mais inteireza.

Atuando como fotógrafo desde 1998, Yuri Bittar também está atravessado por influências que vêm da literatura e da história oral, dentre outras. Como ele mesmo confessa, seu trabalho se move pela crença no humano, principalmente levando em conta soluções para a melhoria da qualidade de vida das pessoas.

Mas eis que é a vida ordinária quem protagoniza a arte de Yuri. Seu interesse reside nos trânsitos engendrados por pessoas comuns, pois são estas que fazem girar tacitamente a grande roda dos acontecimentos. Através de suas lentes, seres e objetos representam organicamente um sentido de unidade para a existência, algo que sugere uma complementaridade entre partes até mesmo distintas. Pelo que se pode notar, é um todo harmônico que, sem negar as individualidades e especificidades, pede passagem para um exercício mais pleno e valoroso da vida.

 

Foto: Yuri Bittar

 

* As fotografias de Yuri Bittar são parte integrante da galeria e dos textos da 150ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam autobiograficamente pelo mundo virtual. Hoje, entre acertos e tombos, parece estar perdendo o medo de errar.

 

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149ª Leva - 04/2022 Destaques Olhares

Olhares

Sobre o que transborda

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Drika Prates

 

Nas paisagens que vão por dentro, habita uma aurora de sensações. São cenários que movimentam paixões dispersas pela vida. Observações que brotam do que há de mais genuíno quando a viagem a ser feita é totalmente aquela que atravessa o painel das interioridades do ser. Nesse mergulhar fundo, a imersão traz vestígios das passagens por momentos dos mais diversos e faz com que a memória seja uma disseminadora de rastros afetivos.

É uma travessia em que o artista volta com um legado de capturas nas mãos. Como se não bastasse, sabe reverter isso a favor de sua criação. Difícil não levar em consideração os mergulhos que alguém como Drika Prates empreende com sua arte. São ilustrações que operam no continuum entre o dentro e o fora, tornando possível a coexistência entre tais dimensões. Durante a sua abissal incursão, não sentimos ali a contraposição entre as porções internas e externas do ser que a tudo observa com seus olhares atentos.

 

Ilustração: Drika Prates

 

Drika é, antes de mais nada, aquela que no engenho de seu ofício transborda as pulsações interiores da condição humana. O resultado disso é a materialização das zonas de percepção mais oníricas e abstratas possíveis em favor de uma arte que se afigura poeticamente desperta. Assim, vão ganhando forma sentimentos, corpos e espaços diante do tão almejado ideal de verdade propalado por todos os cantos. Ao que parece, buscar a tal verdade das coisas seria mesmo uma luta vã e não é sobre essa procura que se apoia a arte de Drika. Nela, importa muito mais saber que as modelagens que constroem suas ilustrações são movidas pelo desejo pleno do existir, essa maquinação mental capaz de harmonizar os mais dignos contrastes da nossa experiência como seres tão contraditórios que somos.

Entre o afago e as durezas do caminho, as representações de mundo engendradas aqui vão além desse gesto que extravasa interiores e os põe ali, na linha de frente com o externo. E é certo que as dualidades do ser também estão na ordem do dia quando pensamos o trabalho de Drika. Mas talvez isso não roube tanto a cena quanto a capacidade sensível que a artista tem de ressignificar os corpos femininos segundo uma ótica alimentada pelos desígnios da delicadeza. Esse mesmo feminino é moldado como um imenso e variado panteão de libertações, através do qual o ideal de amor-próprio e o gesto afirmativo diante de um mundo que dizima mulheres em todos os sentidos se consolida como uma ferramenta crucial de resistência.

 

Ilustração: Drika Prates

 

Atuando com design gráfico e ilustração, Drika Prates também se diz inspirada em primazia pelas formas da natureza. E não seria prematuro concluir que muitos de seus trabalhos artísticos contemplam essa fusão entre as humanidades e a natureza. Quando o assunto é falar de si num sentido de definição, a artista nos revela que não poderia ser tomada objetivamente ou de modo deveras óbvio. Prefere ser como um alguém que, assim como outras pessoas, é portadora de interesses múltiplos, humores e projetos. E aqui, pelo que sua arte sugere, tomamos a liberdade de incluir nesse rol também outra faceta para ela, a de pessoa sonhadora.

Com sensibilidade aguçada, um dos lemas da artista é deixar que a vida siga seu fluxo sem que se possa prever o resultado dos caminhos. Quiçá tal forma de pensar seja a chave para que, por meio dos profundos mergulhos de vida, sua arte ganhe um arcabouço estético que se prolongue no tempo. Quanto a nós, apreciadores dos trajetos aqui propostos, caberá a insondável tarefa de nos deixarmos tomar pelas alamedas revigoradas do inexplicável.

 

Ilustração: Drika Prates

 

* As ilustrações de Drika Prates são parte integrante da galeria e dos textos da 149ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam autobiograficamente pelo mundo virtual. Hoje, entre acertos e tombos, parece estar perdendo o medo de errar.