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89ª Leva - 03/2014 90ª Leva - 04/2014 Destaques Olhares

Olhares

A poética dos intervalos

Por Fabrício Brandão

 

Arte: Leonardo Mathias

 

No diapasão tempo-espaço, a matéria apresenta suas diferentes formas de estar no mundo. Revestida com seus tons aparentes, ela ora explicita muitos de seus significados, ora cumpre um ritual que permanece oculto diante do nosso imediatismo questionador. Quando a margem para a revelação se processa além das esferas físicas, algo marcante instaura-se em torno das nossas percepções. Nesse novo e enigmático território, resiste o verbo segredado e habitante de uma morada regida pelos imperativos do ser.

A busca pela essência é em muito representada pelo enfrentamento dos mistérios, sobretudo quando adentramos um ambiente que desafia nossa mais primitiva capacidade de compreensão das coisas. Assim, vislumbrar cenários contidos nas entrelinhas do ser é como se voltar ao eu tentando captar dele seus sinais genuínos. Noutros momentos, pode também ser uma espécie de déjà vu por entendermos que certas paisagens nos soam curiosamente familiares.

Em meio a tais caminhos, feitos de delicada e inexplicável substância, Leonardo Mathias deixa correr soltas suas visões da existência. Entre desenhos, ilustrações e aquarelas, inscreve-se um tempo marcado pelo sabor dos intervalos. No jogo que permeia a visão imediata de pessoas e objetos, esse artista elege os recônditos como sendo os símbolos preferenciais de seu trabalho. Interessam-lhe desvãos e sendas, elementos que protagonizam o indizível.

 

Arte: Leonardo Mathias

 

Ao passo que sua arte preconiza um recorte intimamente compartimentado das coisas, Leonardo também prefere a antevisão dos cenários e ações, característica que torna robusta a sua perspectiva de conceber a um tudo com olhares de experimentação. Dentro dessa ótica, a vida mesma pode ser recriada segundo uma ordem que equaciona saberes e sabores. O mecanismo que antecipa sensações não é apenas uma tentativa de enxergar o essencial nas entrelinhas do mundo, mas, principalmente, um modo de vivenciar as nuances complexas que se abrigam no interior dos dias.

Outro aspecto que merece ser destacado na obra de Leonardo é o modo como se processam as intervenções humanas nos ambientes.  Aqui, o interessante é notar que se opera uma convergência entre corpos e lugares permitindo a ambos uma espécie de translucidez não somente física, mas também algo abstrata. Nesse hiato de territórios que se fundem, o artista encontra a poesia capaz de engendrar recortes da alma.  A luz que atravessa os pontos de observação do criador redimensiona o caráter conceitual das coisas e, como ele próprio confessa, intenta consolidar uma matéria de encantamento.

 

Arte: Leonardo Mathias

 

As frentes de atuação de Leonardo Mathias não se restringem apenas ao campo das artes visuais e do design. Na seara literária, tem devotado especial atenção à poesia. Seu livro “De Pé” foi recentemente reeditado pela Editora Patuá. Possui colaborações em jornais como O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo, bem como nas revistas ZUPI e InPrint Magazine. Participou de várias mostras coletivas, sendo que, em 2012, realizou sua própria exposição individual, intitulada As Janelas de Rilke, premiada pelo ProAC Artes Visuais (Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo). No meio editorial, sua participação tem sido bastante expressiva, pois ilustrou e assinou projetos gráficos de mais de uma centena de livros.

Dada a aguçada sensibilidade do artista, suas imagens estão à serviço de uma compressão na qual tempo e espaço se conjugam de modo a transmitirem uma peculiar noção de unidade. O olhar que vislumbra o viés orgânico de corpos e objetos transcende a materialidade e nos faz contemplar um universo densamente etéreo. Seu porta-voz, Leonardo, se encarrega de nos ofertar os códigos da sutileza para um deleite autônomo.

 

Arte: Leonardo Mathias

 

* Os desenhos e ilustrações de Leonardo Mathias são parte integrante da galeria e dos textos da 89ª Leva.

 

 

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88ª Leva - 02/2014 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

GRAVEOLA E O LIXO POLIFÔNICO – 2 e ½ – VOZES INVISÍVEIS

 

 

Inventariar fragmentos da memória, esta ciranda de lembranças que recende a pó da estrada. No meio do trajeto, também não se deve esquecer de cultivar raízes e frutos duma cumplicidade. Se a vida é feita de momentos compartilhados, os sentidos da amizade revelam muito mais do que meras marcas do tempo. É o gosto primevo das coisas quem deixa a face de coadjuvante e atua com destaque no palco duma existência que pode ser mais leve do que se supõe. Mas por que carregar mais fardos do que suportamos quando nada na vida pode ser mais urgente do que apenas respirar os instantes?

Talvez o parágrafo acima ouse definir uma pequena parte do ambiente de sensações que pairam pelo mais novo disco do grupo Graveola e O Lixo Polifônico. Tal como a vida nem sempre nos dá a chance de reescrevermos através das suas vacilantes linhas, assim o é quando vivemos saboreando o gosto incerto dos esboços. E esse sentimento de permanente incerteza parece reinar nos arremates poéticos do álbum 2 e ½ – Vozes Invisíveis. Certo mesmo é que em seu quarto disco, os mineiros da Graveola depositam suas impressões sutis sobre o tecido inexplicável dos dias sem buscar razões que se dignem a qualquer tipo de exatidão.

Se a própria vida jamais será uma equação matemática, é porque os caminhos não formam desenhos lógicos. E como saber disso nos serve de alento para continuarmos respirando sem os achaques científicos. Definitivamente e em matéria de sentimentos, a orientação meramente cartesiana das coisas é algo pronto a ser repelido. Assim, ao ouvirmos as composições musicadas da Graveola, temos a mínima noção de que estar no mundo é, acima de tudo, reverberar os acordes dissonantes dos devaneios que nos acometem por todos os cantos da mente. Para cada ouvido, uma experiência de percepções próprias se instala. E é justamente isso que faz de 2 e ½ um disco incompatível com bulas e manuais de instrução.

 

Graveola e o Lixo Polifônico / Foto: Flávia Mafra

 

A julgar pela escolha do título, o álbum já nos traz certa atmosfera de provocação e algum questionamento, pois as ações humanas, travestidas que estão pelo jogo das emoções e das ínfimas certezas, cabem num espaço de incompletude absurdamente colossal. É nesse momento que o novo trabalho da Graveola ganha proporções que flertam com traçados existencialistas.

As vozes invisíveis da banda evocam uma poesia que se situa no plano das ruas, dos becos errantes ou em sinas mergulhadas na rotina do tempo. Ao passo que revisitam afetos compartilhados, cantam a saudade, a transformação dos caminhos, as escolhas, o lado sublime das coisas e o gosto incessante pelo mistério. Numa tentativa de autodefinição, o próprio grupo se considera uma comunidade em movimento, repleta de investidas não necessariamente finalizadas. Pelo somatório de cenários, conduzidos pelos laços das afinidades em vida, fica a impressão de que ouvimos a expressão moderna de um outro clube da esquina.

Da escuta de faixas como Vozes Invisíveis, Cafeína, Canina Intuição, Escadaria, Maquinário e Da Janela, percebe-se que os caminhos percorridos não são nada uniformes. Refletem elementos rítmicos e melódicos bem típicos duma brasilidade carregada de pluralidade sonora. Assim, vocais e instrumentos estão a serviço de um verdadeiro mosaico de intenções puramente comprometidas com um certo ímpeto de acolher a porção sublime e indescritível da vida. Noutros momentos, há referências explícitas ao legado da MPB, como é o caso da canção Envelhecer, que entoa um “preciso aprender a ser só”, frase presente na composição dos bossanovistas Marcos e Sérgio Valle.  Em a Lenda do Homem Pássaro, há um pungente sentido de reflexão sobrevoando resultados de algumas escolhas nossas.

Quando o Graveola resume seu novo rebento como sendo fruto de andanças entre amigos, é porque o melhor significado é resultado direto e inexplicável da arte do encontro. A despeito de se levar em conta a capacidade que temos de alimentar o jogo das complementaridades, reconhecemos que a inteireza do ser não passa de uma quimera. Entramos e saímos dos inefáveis cenários da existência sem ocuparmos todos os espaços eterna e teimosamente vazios. A vida não passa de uma obra em construção.

 

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88ª Leva - 02/2014 Destaques Olhares

Olhares

O relógio imponderável de Ozias Filho

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Ozias Filho

 

No coração do mundo, pulsam sentidos hesitantes. Sob o efeito das cores e formas, somos tomados por epifanias que nos relembram a perspectiva cíclica do tempo. Mas eis o tempo e seus matizes. Majestoso em seus domínios, este senhor, que governa os ímpetos dos instantes todos, lança seus dados ao léu, arregimentando preces múltiplas daqueles que intentam lutar contra os ardis da resignação. Como conceituar a palavra destino? O que nos conforta face o correr das horas impensadas? Algum paraíso nos espera repleto de dádivas compensadoras para apaziguar nossa ansiedade?

Quem sabe ao contemplarmos os registros da luz, tidos em Ozias Filho, possamos esboçar algumas mínimas reações em face de tamanhas indagações? Sim. Ao fotógrafo cabe a sutil percepção das coisas que flutuam entre os dias. Ele, por si só, não profetiza amanhãs. Pelo contrário, pestaneja como os demais mortais. No entanto, ousa sondar as esferas que dividem a rotina agastada dos homens e dela põe em evidência a delicada película que envolve a tudo.

O que busca Ozias Filho? O paraíso por entre as conturbadas paisagens humanas? Talvez. Mas o fato é que seus alvos de observação transcendem urbanidades, trincam as vitrines intocáveis aos olhos e duvidam das nossas zonas de conforto pretensamente civilizadas. A Pasárgada de Ozias é feita de concreto e de sonho, do jogo dos extremos, de uma ponta qualquer de infinitude e, acima de tudo, do testemunho de que a existência é uma dama cujo manto é exponencialmente sensível. Nela, as cidades são vias de acesso para a aclimação das dúvidas. Não se busca uma terra prometida ou se vislumbra a morada da perfeição. Apenas subsiste a constatação de que as horas desmontam qualquer ilusão vã.

Foto: Ozias Filho

Carioca de berço, Ozias Filho foi buscar noutras paragens, mais precisamente em Portugal, a edificação de uma nova morada. Em todos os sentidos, diga-se de passagem, pois lá desenvolveu suas feições de escritor, editor e fotógrafo. Do seu envolvimento com a literatura, nasceram as obras Poemas do dilúvio (2002), Páginas despidas (2005) e O relógio avariado de Deus (2011). Algumas de suas imagens foram publicadas em revistas brasileiras, portuguesas e alemãs. Recentemente, o fotógrafo criou imagens a partir de versos de Iacyr Anderson Freitas. A obra, intitulada Ar de Arestas (2013), promove um diálogo entre duas poéticas que se fundem, harmonizando linguagens corporais em torno de um ambiente onde densas travessias da alma governam os sentidos de nossa tenra existência.

Um olhar detido pelas fotografias de Ozias nos permite atestar que o resultado poético é o grande alvo das pretensões do artista. Se há um caminho através do qual os fluxos da vida assumem uma dimensão diferenciada, sem dúvida alguma é a poesia quem determina tal escolha. Desse modo, o fotógrafo ignora os limites circunstanciais do tempo e não volta suas atenções para a mensuração cronológica dos momentos. Pelo contrário, deixa-se levar por motivações de ordem interna, catando verbos ao vento e os unindo a um painel que sabe a fragmentos de valor inexorável.

 

Foto: Ozias Filho

* As fotografias de Ozias Filho são parte integrante da galeria e dos textos da 88ª Leva.

 

 

 

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88ª Leva - 02/2014 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

A primeira coisa que nos vem à cabeça quando pensamos em maturação é todo um conjunto de mecanismos e processos que dão suporte ao ato contínuo de um amadurecimento. Ao longo da vida, somos tomados, mesmo que forçosamente, pela necessidade de empreendermos passos decisivos rumo a algum tipo de evolução. E evoluir seria apenas uma das facetas da maturidade, embora nem sempre signifique uma renovação completa daquilo que supomos, sentimos ou desejamos. É de se desconfiar, então, que a transformação substancial do ser humano surge à custa de rupturas tanto no campo do pensamento quanto da ação.  No que se refere à literatura, alguns percursos próprios se apresentam. Um deles está na capacidade que um determinado criador tem de vislumbrar sua obra como uma janela de projeção para o mundo. É o caso de gente como a escritora Ana Peluso, que, profundamente envolvida pelas marcas de seu tempo, faz de sua expressão literária um voraz instrumento de lucidez.

Companheira inseparável do espanto e do estranhamento, Ana faz com que sua poesia transite por um lugar onde muita coisa pode ser posta à prova. Desde os sentidos mais elementares até os mais complexos, a autora revela-se intensamente movida pelos signos da inquietude. Seus versos movem moinhos de indagações, chacoalham as fronteiras do óbvio e, ao mesmo tempo, refletem uma sutil busca pela delicadeza oculta das coisas.  Sem sucumbir a bandeiras da moda ou apelos ideológicos voláteis, essa paulistana se vê agora diante de seu primeiro rebento poético, o livro “70 Poemas”, publicado através da Editora Patuá.

Nascida em 1966, Ana Peluso, além de escritora, agrega em sua trajetória os perfis de jornalista, editora e web designer. Integrou diversas antologias, dentre as quais: deZamores, pela Editora Escrituras em 2003, resultado do encontro de alunos de diferentes oficinas literárias virtuais do SESC SP, sob orientação do escritor João Silvério Trevisan; É que os Hussardos chegam hoje, também pela Editora Patuá, 2014; e de Hiperconexões : Realidades Expandidas, primeira antologia poética sobre o pós-humano, com organização do escritor Luiz Bras, pela Editora Terracota, 2014.  Tem textos publicados em diversas mídias impressas e eletrônicas, como é o caso do extinto jornal O Pasquim, revistas Coyote, Germina, Musa Rara, Cronópios e outras mais. Aqui na Diversos Afins, Ana é uma velha conhecida que, tendo participado com seus escritos de várias edições, agora retorna à casa para falar um pouco sobre o seu momento de saberes e sabores em torno do nascedouro de seu primeiro livro. Como se não bastasse, desfila também algumas pungentes opiniões acerca do laborioso e nada facilmente exprimível ato de escrever.

 

Ana Peluso
Ana Peluso / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Sua trajetória é íntima das palavras, sobretudo pelas feições de jornalista, editora e escritora. Depois de um bom tempo, seu primeiro livro vem ao mundo.  Quais travessias foram determinantes nesse lapso temporal? 

ANA PELUSO – Eu não chamaria de travessia o que me levou a publicar, mas de incursão interna. Hoje em dia se escreve muito para o outro, para agradar o outro, seja esse outro o mercado editorial, um amigo poeta, um editor de revista, de jornal, ou até um crítico. A minha travessia se travestiu de incursão porque escrevo, antes de tudo, para mim mesma. Sob esse prisma, e de um ponto de vista meramente material, talvez eu seja egoísta, mas não acredito na arte que não dialogue antes de tudo com o interior do artista, com seu mundo particular, que, por sinal, é vasto. Caso contrário, ele ainda não é um artista de fato, mas alguém que necessita da atenção dos demais, e talvez por isso se vê tanta gente escrevendo igual a tanta gente. Em muitos casos, é natural que, ainda que o poeta tenha optado por trilhar esse caminho a que me propus, a obra chame atenção, mas aí a atenção é mera consequência, e não o estopim para que a arte aconteça, porque para mim é necessário que ela se distancie do criador a ponto de pertencer aos demais, e, ao mesmo tempo, que ela se mantenha como um mundo muito particular ao criador, muito pessoal e peculiar. Se o leitor encontrar o objeto da criação com outras feições, melhor. Sempre digo que “a terceira margem de um livro é o leitor”, justamente porque a primeira e a segunda pertencem ao autor, pelo diálogo interno que precisa acontecer para ele poder chegar ao ato da criação. Como se fôssemos híbridos, é necessária a contradição interna, pessoal, uma segunda leitura feita, talvez por alguma camada da consciência a que não temos acesso reconhecido, mas que está lá, apta a esse diálogo. Eu acho que todo bom autor é dialético por natureza.
Ai das coisas que não se contradizem.

 

DA – Em “70 Poemas”, há um vasto painel de olhares e percepções que não congratulam com o estado de coisas em que vivemos. O mundo sempre foi um lugar estranho? 

ANA PELUSO – Acho que sim. Eu poderia responder que fizeram do mundo um lugar estranho, mas se a gente imaginar o homem das cavernas e sua luta pela sobrevivência, vai ser obrigado a concordar que o mundo só é estranho à sensibilidade de alguns homens. Matar um semelhante pela supremacia da tribo é tão apavorante quanto administrar a desigual distribuição de renda. Para mais além, o mundo é tão estranho, que nascemos berrando, o que não foi exatamente o meu caso, mas não me pauto jamais pelas exceções, até porque o “nascimento de um natimorto” deve ser infinitamente mais doloroso. Pena que não me lembro. Adoraria narrar uma ressuscitação.

 

DA – Sua poesia tem uma marca substancial, que é uma atitude desperta e incomodada diante da vida. E você consegue equacionar as doses sem se perder em desvios ideológicos.  Em que medida o caos interior é um aliado de quem cria?

ANA PELUSO – O que você chama de caos interior, e eu de infinito interior, é matéria-prima. E tem uma ideologia lá dentro, sim, só que ainda desconhecida. Sem contar que tudo o que fazemos, fazemos por um ideal.

 

DA – No sentido lato da palavra, o seu ideal faz com que sua poesia seja algo engajada?

ANA PELUSO – Se há engajamento, é orgânico, não panfletário. Não adianta levantar uma bandeira se quem a pega não distingue cores. Então, a gente enterra a mão e fertiliza uma raiz interna. É como dizer ao coração porque o sangue corre nele, fazer pele falar com pele, é um engajamento sutil, quase impossível de um ponto de vista prático, racional. Mas é uma poesia feita de perguntas.

 

DA – É interessante quando você diz que escreve para si mesma. Esse pensamento parece colocar criador e leitor numa situação de autonomia compartilhada, através da qual cada um demarca seus territórios de vivência dentro de uma determinada obra. Leitores são seres realmente livres?

ANA PELUSO – Eu tenho que escrever para mim mesma. Para quem mais eu poderia escrever no momento da escrita? A quem o poema deve agradar de pronto? Escrevo sobre/tudo para mim mesma. E, sim, pode chamar isso de autonomia compartilhada (excelente termo), a questão é que para mim, como disse acima, o leitor é sempre a terceira margem de um livro, não adianta eu escrever poesia achando que o texto chegará aos olhos do leitor na forma que eu penso ter escrito a poesia, e, ainda, se chegará como poesia. Eu não gosto do óbvio, apesar de estar trabalhando em alguns textos óbvios, eu gosto de mistério, do que aquelas linhas podem me proporcionar de possibilidades, novidades. Recriar é laborar diretamente com a novidade, é rever, redizer. Quando escrevo uma frase que é minha por epifania, mas cuja alma, a ideia, pertencem já a alguém, digo que é do “dito-redito”. Também gosto de literatura de corpo honesto. É muito tentador dizer o que já foi dito como se não se visse que já foi dito, ou se fingisse não ver, mas é feio, é pequeno. A não ser que o autor desconheça mesmo a autoria – essas coisas acontecem – trata-se de um mecanismo de auto-engano voluptuoso. E um escritor não pode carregar um peso desses. Ele já carrega o mundo, na vertical, das costas para a cabeça. Aí é peso demais, e ele acaba largando o mundo, e ficando com o auto-engano.

 

Ana Peluso / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Hoje presenciamos a aparição cada vez mais frequente de autores desembocando suas expressões em diversos meios. No seu entender, há um novo espaço de concepção criativa surgindo? Podemos falar em uma nova geração?

ANA PELUSO – Sim, acontece um movimento feito de outros movimentos, e que vivencia a arte, a própria escrita, de forma plural e constante. Acho que podemos falar em uma geração de gerações. É extremamente rico o momento. Cria-se convergência para um ponto comum: o reconhecimento de que somos vários, e somos variados, mas de forma alguma isso pode equivaler à total qualidade.

 

DA – Vez por outra, percebemos discursos inflamados numa defesa bastante firme da tradição literária. Apesar dos novos tempos instaurarem outras perspectivas, o purismo subsiste. Não é um exagero imaginar que tradição e modernidade não podem se harmonizar?

ANA PELUSO – Acho que tem que existir harmonia, sim. Reconhecer o diferente faz parte da prática da vida, mas por outro lado entendo os puristas, há que se resguardar uma certa tradição. Nem toda arte, nem toda literatura, será exatamente a mesma com o decorrer do tempo. O novo sempre surge, e sempre surge subvertendo o paradigma, mas acho de bom tom que os tradicionalistas estejam de olho. Nem tudo é mar só porque é água. Eu mesma não sei até hoje se o que escrevo é poesia de fato. Talvez comparado ao rigor da tradição, não, mas há um trabalho com a palavra, há uma preocupação em criar um universo poético, ou seja, não se trata de prosa na vertical. Mas isso, de trabalhar uma linguagem (mais) carregada de significados (Pound), não coloca ninguém no patamar de poeta, ou mesmo de escritor. Ao mesmo tempo em que há escritores de correntes tradicionais sem verve, há novatos que operam fora dos paradigmas tradicionais com um brilho literário inquestionável. Perceber e reconhecer isso é o que falta.

 

DA – Há quem defenda uma “fronteirização” da literatura. Nesse ínterim, bandeiras de gênero são erguidas, a exemplo de distinções criadas em torno do que seja literatura gay, feminina, dentre outras. Mais do que nichos de afirmação, essas ações não seriam ilusões de uma frágil tentativa de inclusão?

ANA PELUSO – Não acho que seja “frágil tentativa de inclusão”, mas tentativa de inclusão, e não é necessária. A obra fala pelo autor, com ou sem bandeira, de gênero, cor, classe social, mas aí é preciso ver se a luta é pela inclusão da literatura ou da classe. E isso é ponto relevante a ser apreciado porque dialoga com a história, com o momento histórico, que é de carnaval e toda fantasia tem sua cor, e quer se mostrar. O que não pode acontecer é o poeta engajado em uma causa ceder aos interesses políticos. Por mais política que seja a sua postura, com a vida até, a partir do momento em que a obra se torna um veículo meramente político que não seja de oposição, deixa de ser carnaval e a marcha é outra.

 

DA – Como ser de espanto que é, o que você não endossa na dita pós-modernidade?

ANA PELUSO – Se você fala da pós-modernidade no campo das artes, endosso tudo. E falo de arte, não de entretenimento. Se você se refere ao campo de ação do homem comum, me preocupa a falta de interesse pelo que está realmente acontecendo. E não está acontecendo direita e/ou esquerda, está acontecendo nesse exato instante o controle total do ser humano pelos mais variados tipos de comando. Desde a escravidão devotada voluntariamente, vício já na tecnologia, como a implantação de chips no pulso de cidadãos norte-americanos para validar o Obamacare, até as mulheres muçulmanas que vivem sob uma burca, passando pelas protestantes do “Cinturão da Bíblia”, nos EUA, e seus maridos violentos, até o controle do que eu devo ou não assistir na tv, ler nos livros, e ouvir nos discos. Eu não endosso o controle. A liberdade já é produto da utopia, ninguém precisa lembrar disso a todo instante.

 

DA – Somos incorrigíveis?

ANA PELUSO – Sim, para o bem e para o mal.

 

DA – Saberia dizer o que a literatura espera de você?

ANA PELUSO – Não, não saberia dizer, mas sei o que eu espero de mim em relação à literatura. Gostaria de ter tempo para escrever mais e melhor. E para poder levar adiante projetos antigos, como escrever para crianças. Também gostaria de ter fôlego, tempo e meios para me dedicar a um pequeno romance. Se eu tivesse condições, só escreveria. O livro ’70 Poemas’ não contém nem 1% do que eu tenho a dizer, a escrever. Mas infelizmente a literatura no Brasil é um artigo de luxo, principalmente para o escritor, e, sobretudo, se ele é obrigado a exercer outras funções que o mantenham como um bom pagador perante os banqueiros e o mercado. É uma via de mão única: ou se escreve verdadeiramente, e se come pão com água, ou se paga as contas, e se escreve pouco, muito pouco o que se tem a escrever. Ouvi certa vez de uma acadêmica em Letras: “Você é muito boa, mas não tem pé de meia”. Aquilo foi um choque para mim. Porque ela está coberta de razões. Não dá para parar um poema para dar sequência a um trabalho, por pura necessidade, e voltar ao poema depois com o mesmo espírito. O capitalismo é o maior assassino de pessoas no mundo, incluindo os escritores. Vejo muitos autores vivendo puramente da literatura com oficinas, workshops, palestras e performances, mas comigo não é assim que funciona. A literatura, para mim, é uma arte feita principalmente de burilamento e silêncio. Eu não teria cabeça para dar uma oficina e voltar a um texto em seguida. Seria como parar um poema para dar andamento num trabalho qualquer, quando a própria literatura já é um trabalho, que exige muito da gente. Só falta o mundo reconhecer isso.

 

 

 

 

 

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87ª Leva - 01/2014 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

TONO – AQUÁRIO

 

A possibilidade de ressignificar estados da alma é uma das grandes benesses proporcionadas pela música. No caso da banda carioca Tono, isso parece ganhar um sentido ainda mais amplo. Basta observar a trajetória do grupo para perceber que os caminhos sempre estiveram voltados ao modo sublime de olhar e sentir as coisas da vida. Em Aquário, mais novo trabalho da banda, prova-se não somente do sabor dos temperos do tempo, que só fez bem aos músicos, mas principalmente da afirmação de um jeito muito particular e consistente de se fazer música.

A moçada da Tono chega a seu terceiro rebento sendo fiel a tudo o que fez até aqui.  Ressalte-se, sobretudo, a força autoral de letras e músicas, traço marcante deles. E tudo ali se harmoniza favoravelmente ao conjunto da obra. O que se vê nas onze faixas do disco é uma verdadeira profusão de melodias, arranjos cuidadosamente pensados e um preciso equilíbrio entre vocais e instrumentos. O saldo disso é que cada canção, além de possuir roupagem própria, funda em si um microuniverso de sensações. São mundos num mundo, fazendo do disco um organismo único, porém com onze momentos autônomos.

O jeito suave e delicado da voz de Ana Cláudia Lomelino é uma verdadeira marca da banda. E ela não está sozinha nesse quesito, pois a presença vocal do baterista Rafael Rocha, compositor de boa parte das canções, é outro ponto de destaque. Diga-se de passagem, os dois artistas já são fiéis representantes da proposta sensível e poética da trupe carioca. Só para se ter uma ideia da sintonia musical dessa dupla, prestemos atenção no modo como eles passeiam sublimes pelas vias delicadas da bela Sonho com Som, canção que discorre tanto sobre levezas quanto densidades do amor.

Pelos quatro cantos do disco, fala-se de amor e outros tantos temas que absorvem a natureza humana sem, no entanto, pesar a mão nas questões da alma, o que fatalmente poderia tornar mais labiríntica a tarefa da banda, com sérios riscos de algo essencial se perder no caminho. Para a felicidade de quem aprecia a boa música, os rumos aqui não se desorientam. Ao contrário, observa-se a vida sem deixar que a consciência das coisas se atole num fundo de poço qualquer.

Tono / Foto: divulgação

Por ser um álbum completo em todos os seus arredores, é bem ingrata a ideia de eleger faixas que se destacam em Aquário. Instantes como os de Murmúrios, Como vês, Leve e Do Futuro (Dom) dão uma boa mostra da viagem musical vislumbrada pelo grupo. Diluído pelo jogo sonoro das palavras em Tu Cá, Tu Lá, emerge um caminho feito de ímpetos filosóficos. Merece também atenção a roupagem especial dada à canção Chora Coração, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Aqui, a banda trouxe sua identidade para interpretar e viver a música do maestro soberano. Nesse sentido, a composição ganhou novo ambiente, mantendo a carga lírica que lhe é peculiar.

A flauta de Danilo Caymmi (Sonho com Som e Como Vês), a percussão de Gustavo Di Dalva (Leve e Do Futuro) e a voz e violão de Gilberto Gil (Da Bahia) acrescentam um ingrediente a mais no consistente caldo sonoro de Aquário. Marcado por elementos do rock, jazz, samba e música eletrônica, o álbum conta com a produção do experiente Arto Lindsay.

Pensar o disco é imaginar uma morada onde coabitam versos, sons e imagens dotados de uma estética pura e que prima por um sentido descomplicado para celebrar a existência.  Assim, pegando o gancho da canção A Cada Segundo, tudo pode se condensar num único e fugidio instante, inclusive nossa mais tímida percepção da beleza. Ana Cláudia, Rafael Rocha, Bruno Di Lullo, Bem Gil e Eduardo Manso são valiosos mensageiros dessa ainda espantosa constatação.

 

 

 

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86ª Leva - 12/2013 Destaques Olhares

Olhares

Delicados sopros

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Bruno Kepper

 

Em qualquer recanto de nossa tenra existência, há sempre espaço para o sublime e toda a sua intrincada dose de mistérios. A tenacidade dos dias, longe de representar uma mera contagem temporal, mostra que a dinâmica das coisas abriga a teimosa ciranda das revelações. Assim, nossos estados de alma costumam governar as veredas do olhar, apontando modos de se experienciar essa colossal aventura intitulada vida.

Talvez seja dada a poucos a façanha de percorrer as entrelinhas do mundo e enxergar para além de toda carga aparente.  Conduzido pelos caminhos do fotojornalismo, Bruno Kepper transita à vontade nessa perspectiva de perceber seres e lugares. Muito do olhar desse jovem fotógrafo se alimenta dos traços do cotidiano, arregimentando histórias presentes em universos particulares de vida.

Seja nos recônditos de uma metrópole qualquer ou na captura de aspectos da natureza, Bruno traz em si uma vigorosa via de contemplação das formas. É como se cada lugar, pessoa ou animal ganhassem amplos e novos significados. A possibilidade de apresentar um mundo sob suas mais variadas nuances posiciona os olhares do fotógrafo numa especial condição de observador paciente de um tudo.

Foto: Bruno Kepper

Sem a interferência que agride a naturalidade das coisas retratadas, Bruno prefere trilhar um passeio incólume, compactuando paulatinamente com a fidelidade que emana de tudo aquilo que lhe move a visão. Com tal atributo, o artista nos apresenta algumas séries bastante especiais, como a sua incursão pela vida selvagem das ilhas Galápagos e os registros de pessoas dormindo no berço abissal de São Paulo.

Nascido na capital paulista, Bruno Kepper vivencia outras tantas formas de expressão. Em sua trajetória, desenvolveu trabalhos ligados a eventos, viagens, retratos e vídeo. Formado em jornalismo, ingressou também na Escola Panamericana de Artes, onde estudou fotografia.

Cada temática explorada pelo fotógrafo demonstra que o subjetivismo do olhar é capaz de descortinar outras esferas da percepção. Ao passo que traz à tona seu peculiar modo de vislumbrar a vida, Bruno instaura em nós uma profunda identificação com a simplicidade das coisas, todas elas diluídas nas densas ranhuras do cotidiano.

Foto: Bruno Kepper

* As fotografias de Bruno Kepper são parte integrante da galeria e dos textos da 86ª Leva.

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83ª Leva - 09/2013 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

RODRIGO BEZERRA – TEMPO ILUSÃO

 

 

 

Cultivar os arremates do tempo como se eles fossem fiéis companhias. Se cada instante encerra uma surpresa, o que seria de nós sem o sabor de certas revelações trazidas com o vento que circula entre nossos devaneios? Há um sentido avarandado na porção serena da vida. Isso traz calma, cor e luz para o sopro que alimenta nosso caminhar de mortais.

Como materializar um pouco toda esta sensação? Talvez abrindo as escutas para o disco de Rodrigo Bezerra. Apegando-nos de imediato ao nome de batismo do álbum, ficamos imaginando qual signo melhor acolhe o teor cronológico da existência. E não se está a falar aqui duma mera feição concreta das coisas, algo que busque elementos sequenciais de uma trajetória de vida qualquer. Pelo contrário, a ideia de Tempo Ilusão sugere uma perspectiva a mais imaterial possível, sobretudo pelo fato de o que presenciamos no fluxo cotidiano poder ser tão fugaz quanto uma lembrança perdida.

Deixando de lado as divagações, o ponto é que o ambiente sonoro criado por Rodrigo não deixa dúvidas quanto ao caráter sublime de suas canções. Para perceber isso, basta se deixar levar pela letra e música de Mais é menos, cujo jogo de oposições dos sentimentos acaba por flertar com o equilíbrio entre certas tensões que suportamos. Ao ouvirmos Circular, fica a impressão de que o dinamismo que conduz a existência torna tudo passível de renovação. Mesmo se insistirmos em revisitar começos, ainda assim somos impelidos a avançar rumo ao desconhecido e vislumbramos nisso algum sentido de libertação.

Na canção Esperar, reforçamos o ato impreciso de sempre aguardarmos que o intangível afague nossos ombros e retire a sobrecarga deles. Para quando o tempo com seus ardis nos oferte respostas, estaremos sempre a apostar que tudo se explica de algum modo. Se a jornada parece angustiante, o cenário pueril de A criança vem nos sussurrar que a liberdade é um recurso para quem não se deixa levar por questionamentos excessivos e inúteis.

 

Rodrigo Bezerra / Foto: Diego Bressani

 

Tempo Ilusão é um disco que enaltece a formação musical de Rodrigo Bezerra, principalmente no que se refere aos arranjos regados a violão e guitarra, instrumentos bem íntimos do artista. Além disso, a conjugação de outros aparatos como bateria, saxofone, trompete, flauta e flugenhorn traz uma pegada jazzística bastante interessante. Aliada à concepção do jazz, a brasilidade do álbum ganha corpo com elementos que derivam do samba.

Afora o time de músicos que emprestam vigor ao trabalho, reunindo nomes como Felipe Viegas, Renato Galvão, Bruno Patrício e Westonny Rodrigues, não há como ignorar também a bela participação vocal de Ana Reis na faixa Além de acordes, composição que enaltece o espírito do jazz presente ali.

Segundo trabalho solo de Rodrigo Bezerra, que foi o primeiro aluno formado pelo departamento de guitarra Elétrica da Escola de Música de Brasília, Tempo Ilusão apresenta uma proposta bem definida, que é a de harmonizar sentimentos que nos atingem indistintamente a todos rumo a um caminho sonoro marcado pela simplicidade. Sem pretensões e arroubos vazios, o artista deixa a impressão de que a estrada da música pode ser trilhada sem o tradicional peso da espetacularização das coisas. Na leveza das ações, um grande trabalho funda seu próprio território.

 


 

 

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77ª Leva - 03/2013 Destaques Olhares

Olhares

TRAVESSIAS

Por Fabrício Brandão

Ilustração: Thaís Arcangelo

Um instante partido no tempo e alguns passos rumo ao infinito. No meio do caminho, a sutileza das cores flagrando a vida, atenuando-lhe certo peso da alma. Existir, somados os seus imperativos, precisa se configurar um flerte com os tons sublimes que governam o espaço abstrato através do qual desfilamos nossos rompantes. Existir, nos desenhos e ilustrações de Thaís Arcangelo, é pacto de escutas, rompendo a redoma da grande noite que insiste em nos abraçar.

No limiar entre o real e o inventado, a artista funda territórios e instaura entre nós a percepção marcantemente poética sobre uma delicadeza que esquecemos nalgum ponto da jornada. Assim, viver torna-se um arremesso incerto, porém desejoso de uma transformação a mais humana possível. Ao nos revelar dimensões por vezes etéreas, Thaís desafia zonas de conforto, rejeitando-as e nos impelindo a reescrever nossas errantes trajetórias.

Ilustração: Thaís Arcangelo

Em seus trabalhos, a artista devota especial atenção a uma múltipla representação do universo feminino. A partir daí, surgem personas das mais variadas possíveis diante de nossos olhos, todas elas inscrevendo seu traçado numa tentativa serena de redenção. Nessa perspectiva, Thaís caminha para além da materialidade das coisas, erguendo um vasto e denso painel de sensações.

Se por um lado somos seres reconhecidamente duais por natureza, por outro, nos é dada a chance de revermos nosso velho e desgastado costume de repetir. E isso nos é lembrado a todo tempo nos cenários propostos por Thaís. Com sua ciranda de sentimentos pueris e ao mesmo tempo também maduros, a artista recria mundos no mundo, fazendo do atributo onírico de suas criações uma passagem permanente para o centro de nós mesmos. Nesse trajeto de autoconhecimento, talvez a única certeza que carregamos seja a da dúvida, essa sedutora senhora a nos acalentar insistentemente em todo tempo e lugar.

 

 

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

 

* As ilustrações de Thaís Arcangelo são parte integrante da galeria e dos textos da 77ª Leva.

 

 

 

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75ª Leva - 01/2013 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

DA CARNE E SEUS SUBTERRÂNEOS

Por Fabrício Brandão

 

 

Para quem se embrenha pelo pantanoso terreno da criação literária, talvez não haja desafio maior do que adentrar as alamedas do erotismo. E não é simplesmente isso. O dilema que é posto aqui remonta à hercúlea tarefa de se transpor as muradas do óbvio e da gratuidade, construindo uma narrativa que se firme apartada de elaborações banais e, por assim dizer, descartáveis.

Se serve de consolo, há quem ainda consiga materializar em palavras impulsos valiosos numa literatura que se digne a decifrar certos esconderijos da carne. É quando um autor, utilizando-se de recursos cuidadosamente arquitetados, consegue efeitos que redimensionam a experiência de se estar vivo. Exemplo disso é o que acontece com Carnebruta (Ed. Apicuri/ Oito e Meio), livro de contos de Rodrigo Novaes de Almeida. Nele, o escritor, mais do que nos apresentar situações e cenários envoltos numa forte carga sexual, propõe um percurso por outros tantos becos do homem.

Conduzindo uma obra esculpida em carne e palavras, Rodrigo não nos conta boas novas nem tampouco atiça descobertas próprias do instinto humano. Se a cada um de nós é dada a faculdade de conhecer do próprio corpo um receptáculo portentoso do prazer, por outro lado, a mera representação de um desfrutar dos sentidos dá lugar a uma constatação de que o gozo maior se instala na crueza do ser.

Em Carnebruta, a pulsão sexual deixa de lado o simplismo da contemplação e canaliza suas forças para cruzar certos labirintos. E, assim, seu autor aposta em narrativas decididas, muitas vezes diretas, viscerais e ácidas, como se a intenção fosse golpear as percepções dos leitores mais desavisados. Não há espaço para devaneios, tampouco delírios baratos. Nesta viagem, somos convidados a perceber alguns aspectos que põem em xeque nossas vãs convicções, chacoalhando quaisquer enquadramentos que se pretendam moralistas.

Rodrigo é, antes de tudo, um provocador, tanto em seu modo de desarrumar os móveis da secular “casa dos costumes” quanto pelo fato de celebrar as pequenas epifanias da carne nossa de cada dia. Um jogo cênico vibra por entre seus contos, fazendo-nos crer que estamos diante de um livro de imagens. Numa aproximação com o cinema, os relatos desfilam arremates dignos de um bom curta-metragem. Seus personagens sabem tão pouco de suas imprecisas trajetórias como qualquer mortal que se preze.

Engana-se quem pensa que Rodrigo Novaes de Almeida, soando, alguns momentos, pornográfico, concentra seus esforços apenas numa frente. O percurso em Carnebruta visita todo tipo de paisagem, desde a mais cotidiana possível até aquela que é fruto de nossa projeção imaterial. Nesse ínterim, há espaço para uma curiosa nostalgia do futuro, marcada em passagens como as do conto inicial Valete-de-espadas. Nele, a “oportunidade única de uma segunda vida” contrasta com as inúmeras mortes que podemos experimentar quando nos achamos absolutamente vivos e respirando.

Com doses muito bem aplicadas de sarcasmo, algumas passagens do livro têm um arremate que lembra Nelson Rodrigues, sobretudo quando o assunto é a surpresa de certas revelações, encerradas no porão da consciência dos personagens. No confronto com o mundo de aparências ao qual estamos acostumados, Rodrigo posiciona o homem em toda a extensão de sua autofagia, traído que está pelos sentidos e pela miopia inerente à existência.

Carnebruta é um roteiro de percursos que retiram da vida seu véu sobejamente pudico. Demovendo excessos, seu autor forja os idiomas da pele e os converte em instrumentos hábeis das diversas e malfadadas travessias que fazemos. Mais do que desnudar a matéria que habitamos, é a alma quem aparece, arranhada e nada impune, a flutuar nas águas turvas do existir. Melhor assim, pois ao menos em parte estamos quites com nossos subterrâneos.

 

 

 

 

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72ª Leva - 10/2012 Destaques Olhares

Olhares

SOBRE VESTÍGIOS E AUSÊNCIAS

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Mercedes Lorenzo

Deter a visão por sobre as esferas de mundo que nos acometem é missão das mais homéricas. Na tentativa de compreender cada modesta ou intensa epifania que se nos apresenta diante de nossos frágeis domínios, por vezes deixamos passar traços ímpares da existência. E o esforço hercúleo por respostas costuma trair sentidos acostumados à sofreguidão dos efêmeros instantes. Como, então, não deixar passar incólumes as marcas de nossas intervenções?

Quem se permite envolver pelos percursos sugeridos pela fotógrafa Mercedes Lorenzo, quiçá encontre algumas consistentes pistas e, com isso, solucione a indagação levantada acima. De posse disso, é bom estar ciente de que a artista em questão não ousa, sob hipótese alguma,  colaborar com uma leitura rasa e superficial das coisas e seres captados pela luz de seu ofício. Muito pelo contrário, a densidade aqui é verdadeira matéria de ordem.

Qual um feixe luminoso que tenta cruzar pelos vãos de uma matéria qualquer e dali retira a substância impensada, o olhar de Mercedes é hábil instrumento de redimensionamento das situações. Se há o objeto primeiro e concreto a ser flagrado de imediato, por outro lado, existe também a sorrateira sensação de que planos invisíveis acontecem sob o efeito de um paralelismo de universos. Da coexistência entre o vivido e o imaginado, a fotógrafa deixa despontar a centelha que faz operar o fenômeno da convergência entre o ser e o não-ser.

Foto: Mercedes Lorenzo

Seja no retratar de ambientes ou no representar dos percursos humanos, a fotografia de Mercedes Lorenzo funda uma precisa poética dos vestígios. Daí, decorre uma curiosa sensação de que os homens deixam impressas suas marcas no espaço onde transitam suas sinas e, também, por ambientes nunca dantes ocupados. É quando a artista se utiliza com maestria do poder das ausências, conferindo teor àquilo que habita a órbita do intangível. E, assim, seduzidos pelos dotes do mistério, nos é dada uma relativa onisciência dos cenários.

Filha de imigrantes espanhóis e paulistana de nascimento, a fotógrafa, desde cedo, manifestou seu interesse pela imagem, tendo iniciado seu contato com a arte por meio de desenhos. Além disso, Mercedes também se dedica à escrita de poemas, através dos quais o elemento visual é ponto marcante. Para ela, pensar a fotografia como ponto de partida ou uma porta para desdobrar os conteúdos mentais de cada indivíduo que a vislumbra, parece ser uma função mais profunda e mais nobre do que um simples “clicar” de acontecimentos. A via humanista norteia seu trabalho de maneira que a percepção de um mundo e sua vastidão acontece, principalmente, no átimo de nossas hesitações.

 

 

Foto: Mercedes Lorenzo