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148ª Leva - 03/2022 Destaques Olhares

Olhares

Um performático bailado de vida

 Por Fabrício Brandão

 

Foto: Gilucci Augusto

 

Dos estados do ser. Vê-lo desfiando, dentro do tecido das horas, gestos de contemplação e inquietude. Corpo-templo é corpo-abrigo, vastidão de sonhos que atravessam o caminho concreto dos dias todos. Onde a mescla das imagens fantasiadas com a suposta ideia do real? Onde o nosso desejo de verdade naquilo que tomamos posse diante da visão primeira das coisas?

O ser que evoca o corpo denota movimentos que vêm das entranhas humanas. Nesse ínterim, as investidas reverberam como se expressassem o incontido em sua dimensão mais amplificada possível. Por vezes, o clamor das formas encerra um ato a ecoar poderosamente nas consciências. São vozes que se insurgem contra qualquer forma de encarceramento dos anseios mundanos.

Quando o corpo é porta-voz daquilo que somos, sentimos que a vida mesma se expande para todas as direções. É ele o invólucro das efusões, contemplações, dores, confusões, desvios, júbilos e toda a sorte de cotejos da alma. É ele também o mensageiro duma ancestralidade que nos atravessa a todos, permeando gerações e gerações, suas linhagens, traçado originário das rotas consagradas pelo ato não menos espantado e corajoso que é o existir.

Então, por que mencionar tamanhos contornos do humano nas linhas dos parágrafos acima? Diria que para exprimir um pouco do encantamento que a arte de Gilucci Augusto é capaz de nos proporcionar. E tal sensação se consolida à medida em que mergulhamos mais e mais nas searas propostas pelo artista.

 

Foto: Gilucci Augusto

 

E falei tanto sobre as paragens do corpo que mister se faz desfilar mais razões para tal. Nas fotografias de Gilucci, a corporalidade humana transcende as dimensões tangíveis da existência. Dito isso, podemos perceber que o gesto performativo que encerra suas imagens encontra, no nível do corpo, um elo entre as esferas interna e externa do indivíduo. É dizer que, para além da matéria em suas marcações de concretude típica da sina dos nossos desígnios mortais, um enlace abstrato se agiganta e proporciona um universo expandido de apreensões sensoriais.

O resultado da coexistência do que vai por dentro e por fora desemboca no efeito poético que as fotografias do artista têm também por atributo.  É, sobretudo, uma atmosfera conduzida pelo bailado das formas, através do qual as porções femininas e masculinas traçam rotas de expressão. Durante todo o trajeto proposto pelo artista, mais parecemos arrebatados pelos mínimos detalhes ofertados. E não são poucos, diria. Desde o contraste entre luz e sombra, passando pela nudez reveladora dos sentimentos, pela mescla de cores, intervenções e hibridismos imagéticos, tudo é vontade de comunicar mundos no mundo.

Profundamente interessado pela poesia que emana do Recôncavo Baiano, olhar eivado de relações com a tradição, diversidade e contemporaneidade, Gilucci Augusto nasceu em Santo Antônio de Jesus, na Bahia, e hoje reside na capital soteropolitana. Atualmente, cursa doutorado em Artes Visuais na UFBA e traz, em sua trajetória acadêmica, pesquisa sobre a poética da imagem fotográfica relacionada ao imaginário das mulheres do Quilombo Kaonge, localizado na região do Vale e Bacia do Iguape, no interior baiano. Com tais predicados, o fotógrafo se revela um alguém que possui em sua bagagem o equilíbrio entre sensibilidade e conhecimento teórico no seu caminhar criativo, feições que demonstram habilmente se complementar.

O corpo em Gilucci Augusto não é apenas vetor de signos e seus respectivos significados possíveis, mas antes é chama viva de nuances do inquieto espírito que povoa nossas humanidades. Tal travessia suscita revoluções internas do ser, modulando nossas visões rumo ao horizonte enigmático da existência. Para atingir esse efeito, é mais do que necessário ousar com as imagens, promovendo outros arranjos sobre os quais podem transitar a fértil andança das subjetividades.

 

Foto: Gilucci Augusto

 

* As fotografias de Gilucci Augusto são parte integrante da galeria e dos textos da 148ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam autobiograficamente pelo mundo virtual. Hoje, entre acertos e tombos, parece estar perdendo o medo de errar.

 

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146ª Leva - 01/2022 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

A trajetória de um artista não se mede apenas pela quantidade de feitos construídos em sua caminhada, mas principalmente pela capacidade que seu trabalho tem de impactar a audiência que lhe interessa. Ao longo dos anos, as vivências pela arte vão engendrando saberes e sabores, moldando os ímpetos criativos, impulsionando novas ideias. E quando falamos especialmente de teatro, supomos de imediato a força que se estabelece na relação entre obras e o público.

A arte teatral prima pela captura do instante, momento em que as atenções do espectador se voltam para todo o conjunto que lhes é ofertado. Seu efeito é instantâneo, um gozo do efêmero em quem está experimentando a recepção da mescla entre texto e encenação. Assim, o legado maior desse múltiplo território de sensações busca abrigo na memória, sua relevante aliada. Sobretudo agora, no período pandêmico que nos acomete, nunca fez tanta falta vivenciar o ato de estar diante de um espetáculo teatral.

Não são poucos os nomes que historicamente edificaram o teatro brasileiro, fizeram desta nobre arte um território rico em possibilidades e, acima de tudo, ideias que movimentam sensações das mais diversas. No contexto baiano, é impossível falar de teatro sem lembrar de alguém como Paulo Atto. E falar desse dramaturgo é reverberar sua potência criativa para além dos espaços regionais e brasileiros, posto que sua contribuição para a arte cênica encontra também abrigo em paragens internacionais.

Mas o teatro a que Paulo Atto se propõe fazer perpassa a reflexão pungente sobre a condição humana em suas variadas formas de acepção. Interessa ao artista apresentar em seu trabalho a visão multifacetada que a humanidade pode sugerir. Combinando elementos oriundos da poesia a um forte eixo filosófico, Paulo marca sua obra com o signo da inquietude diante de um mundo que nos oferta mais dúvidas que certezas. Para mencionar apenas alguns aspectos, vemos brotar em seu ofício o traçado da sofisticação textual, a agilidade e inteligência dos diálogos de seus personagens.

Seja como diretor, dramaturgo e produtor cultural, dentre outras atribuições, Paulo trilha seu caminho na seara artística há quase 40 anos. Em sua trajetória, dirigiu mais de 30 espetáculos, muitos deles também apresentados nos Estados Unidos, América Latina e Europa, além de ter participado de inúmeros festivais, seminários e programas em vários países. São de sua autoria os livros “Até Delirar”, “Desmontando Shakespeare” e, mais recentemente, “Atto em 3 atos & memórias da censura”, este último assinalando pontos marcantes de sua carreira. Pelo texto dramático “A Travessia do Grão Profundo”, foi agraciado com o Prêmio Selo João Ubaldo Ribeiro – Ano III. Seu engajamento como diretor artístico do Núcleo Caatinga da Cia de Teatro Avatar e do Festival Internacional de Teatro da Caatinga revela um espírito incansável em seus propósitos. E é este personagem mobilizador quem protagoniza agora uma conversa com a Diversos Afins. Nela, fica registrado um recorte sensível e inteligente sobre a caminhada de Paulo, esse artífice que, principalmente a partir das exposições contidas no seu mais recente livro, fala de suas experiências, percepções do presente, além de dar sentido renovado ao ato de resistir através da arte.

 

Foto: Waldson Alves

 

DA – Para além de uma nuance autobiográfica, “Atto em 3 atos & memórias da censura” é um verdadeiro recorte histórico do teatro baiano. Ali estão relatos pessoais, matérias jornalísticas e três peças fundamentais de sua carreira. A predileção pelo registro dessa memória vem também marcada por um impulso de sobrevivência da arte?

PAULO ATTO – O teatro é uma arte milenar, que já sobreviveu a revoluções tecnológicas, a guerras, a pestes, mesmo com seu caráter eminentemente fugaz e efêmero. Em parte, pela força do encontro essencialmente humano que promove tocando em muitos aspectos da vida e da alma humanas; por outro lado, pelo registro que dele ficou, primeiro em livros, os textos dramáticos gregos são um grande exemplo disso; também pelos registros e memórias que muitos artistas de teatro nos legaram. Acredito que tudo isso me mova no sentido de produzir esse registro  num país que despreza a memória em geral e a arte em particular, sobretudo neste momento constrangedor, obscurantista, no qual a ignorância ganha espaço. É um projeto ambicioso de, nos próximos anos, quando completarei 40 de ofício, poder deixar registrada toda a memória do meu trabalho e o contexto no qual ele aconteceu, na medida do possível. No Brasil estamos passando por um momento terrível para os artistas. Em geral, é necessário primeiro que os artistas sobrevivam para que a arte seja produzida e permaneça. Então, nesse sentido, sim, é também um impulso para a permanência da arte. 

 

DA – Um aspecto importante do seu livro é a reprodução integral do texto de algumas de suas peças, produções naturalmente marcadas por um determinado contexto criativo e temporal. Em que medida esse gesto pode ser entendido como um estímulo à produção de sentidos por parte do leitor de hoje? 

PAULO ATTO – Totalmente. E esse é o meu desejo como autor,  que o leitor  desempenhe um papel ativo com suas inferências e percepções, com seu entendimento sobre a obra. Portanto, cada leitor tem um papel relevante na ampliação de seus significados, gerando novos sentidos no momento desta interação leitor/autor. Considerando ainda que juntamente com os textos, que por si só já representam um universo a ser desvendado com seus personagens e enredos, eu publico um memorial de imprensa, todo o material gráfico das montagens com os programas, convites, cartazes e diversos outros registros que denomino de memorial afetivo. Onde também se encontram uma carta que Paulo Autran me escreveu sobre “A Confissão”, certificados de censura, um bilhete da atriz Andreia Elia no encerramento de uma temporada, um texto que escrevi para a Diversos Afins quando Paulo Autran morreu, anotações sobre minhas ideias e vivências sobre as montagens. Acredito que o leitor fica ainda mais estimulado a construir novos sentidos sobre os aspectos relacionais entre a obra literária, a montagem produzida naquele tempo/lugar e a memória que trago através de todos estes registros. Além de oferecer a minha contribuição para a  construção de uma memória do teatro na Bahia, acredito que levo o leitor a entender estas produções no seu tempo e a imaginá-las com todos estes estímulos e registros,  produzindo significados para si mesmo neste nosso momento, nessa nossa atualidade. Assim, falamos de hoje através do registro sobre a nossa vivência naquele tempo. Nossa, digo, minha como dramaturgo/diretor, com meus atores e equipes de criação.

 

DA – Por falar em produção de sentidos pelo leitor, ao lermos, por exemplo, o texto de “A Confissão”, sentimos que o eixo temático da peça não se desbota, pois vemos ali assuntos que se perpetuam no tempo. Um deles é perceber os aparatos de poder atuando para limitar as liberdades individuais no nível do corpo e dos desejos. O fato é que nossa sociedade não deixou de efetuar tais controles e não tem como não pensar em Foucault numa hora dessas. O que dizer sobre essa atmosfera? Alguma vez passou pela sua cabeça remontar esse espetáculo e ofertá-lo ao público dos dias atuais?

PAULO ATTO – Acredito que “A Confissão” seja um texto atemporal pois toca exatamente na questão do Poder e seus mecanismos de controle, seus aparatos de vigilância e punição, afinal a última fronteira que o poder quer chegar é ao nível dos corpos, do controle da relação dos corpos na interação social, cultural, biológica, com uma profunda carga de sexualidade e religião. “A Confissão” é o resultado de uma imensa pesquisa, de muitas leituras, de muitas fontes. Foucault foi, sem dúvida, de fundamental importância, fizemos também uma leitura psicanalítica do texto norteada pelas ideias e visões de Freud e Lacan.  Há uma influência, ainda que em segundo plano, do chamado Teatro do Absurdo em sua linguagem. A atmosfera do espetáculo traduziu a claustrofobia do texto, o jogo de espelhos dos personagens, o vazio da retórica dos discursos de dominação, a tortura como estratégia da verdade a qualquer preço, a desumanização das relações e a morte como destino inescapável para todos. Eu tinha 24 anos quando escrevi, e hoje, lendo o texto, às vezes penso: “O que se passava na cabeça deste jovem?” (risos). É um texto muito forte com um traço clássico, o que inclusive foi apontado na época pelo jornalista e crítico Marcelo Dantas. Jamais pensei em remontá-lo. Na verdade, chegamos a trabalhar num projeto audiovisual com nossa saudosa atriz Regina Dourado, no papel de A Morta, e um elenco maravilhoso. Infelizmente, por uma série de razões de produção e recursos o projeto não avançou apesar de termos gravado praticamente 70% das cenas no Castelo Garcia D’Ávila à noite. Agora pensando no nosso momento, percebo como este texto é atual, ele não envelheceu mesmo depois de 34 anos. Acredito que ele possa falar da realidade brasileira hoje e toda a sua estupidez, seu atraso, essa pretensa moral tenebrosa, essa postura retrógada e obscurantista. Acredito que hoje ele teria uma repercussão imensa. Acho que “A Confissão” hoje causaria muito mais incômodo porque tocaria fundo na essência do nosso engano.

 

Foto: Waldson Alves

 

DA – Esse mesmo jovem que foi capaz de criar um trabalho importante em “A Confissão” também era reconhecido num determinado momento como alguém dedicado à poesia. Diga-se de passagem, o texto de “Até Delirar” e “O Banquete” evidencia esse caráter poético de sua escrita. Há ainda um Paulo poeta em torno do qual podemos esperar algo em matéria de versos?

PAULO ATTO – Realmente eu comecei a minha aventura com as palavras pela poesia. Eu continuo cometendo poemas embora não os venha publicando. Digo que o dramaturgo é um poeta ao avesso. A poesia exige síntese e a dramaturgia  o excesso. Mas o dramaturgo não deixa de ser um construtor de poéticas. Tenho vontade de voltar a publicar poemas depois de tantos anos, na verdade essa vontade me perseguiu durante todo esse tempo e acho que o canal da poesia verteu no oceano do drama, mas continuo sim experimentando a poesia na construção de poemas sempre. Acredito que avançando nesse projeto editorial de lançar toda a minha obra dramática, que já é um esforço imenso,  haverá espaço para publicar sim um novo livro de poemas, quem sabe até mais de um (risos). Na verdade, foi o meu primeiro livro de poemas chamado “Até delirar” que originou um roteiro cênico que veio a se constituir no espetáculo “Até delirar” e também na obra teatral “O Banquete”, como está apresentado no livro.

 

DA – Um outro ponto importante de seu novo livro são os relatos das suas experiências com a censura. Na sua impressão, os censores eram figuras totalmente apartadas do conhecimento sobre a arte ou pairava alguma espécie de cinismo ideológico que correspondia meramente aos ditames do regime vigente?

PAULO ATTO – A censura de que eu falo no livro é uma censura institucional onde funcionários públicos eram pagos com o dinheiro dos nossos impostos para cercear a liberdade de expressão, impedir a realização de qualquer atividade artística ou cultural que, na cabeça dos censores, fosse uma ameaça ao regime, à ordem instituída ou a algum valor moral. Os critérios eram muito nebulosos porque, quando você tinha uma censura ou um corte, os censores explicitavam os motivos e quando você examina as razões dessas ações de censura verifica que são muito difusas,  que não são critérios objetivos, ao contrário, depende muito da impressão daquele indivíduo, então são as razões mais disparatadas e absurdas. De um lado, você tem uma falta de critérios objetivos e do outro tem a extrema ignorância desse corpo de censores, que eram pessoas sem absolutamente nenhum conhecimento nem de cultura nem de arte, nem de nada. Eram às vezes funcionários de carreira colocados naquela função ou mesmo contratados para exercer o papel de censor. Portanto, você tinha a união de dois fatores muito ruins: de um lado, um temor infundado e quase sempre paranóico e, do outro, a total falta de conhecimento, chegando muitas vezes à incapacidade de interpretação de texto. O que de outro modo às vezes era positivo,  porque como eles não conseguiam entender o que se apresentava, passavam coisas que, pela sofisticação da construção poética ou da linguagem empregada na cena, eles não conseguiam apreender o sentido real do que se queria dizer, e em alguns casos era uma crítica direta ao regime ou à situação política daquele momento. Acho que para as novas gerações de artistas do teatro essa seja uma experiência que eles não consigam nem mensurar, embora nós vejamos nesse momento uma volta, um ensaio de retorno de uma censura, ainda que não seja totalmente institucional, digo claramente institucional, mas uma censura velada com orientações sobre programações. Isso tem acontecido e tem sido noticiado pela imprensa, inclusive espetáculos de teatro que haviam sido programados para espaços geridos por órgãos ligados ao governo e que foram impedidos de entrar em cartaz por causa de alguma temática. Isso é censura. Vemos também o movimento de algumas pessoas da sociedade, cidadãos que se arvoram em defensores da moral e dos bons costumes. Isso é um asco. E justamente empregam os mesmos termos que foram muito utilizados nas alegações dos censores daquele período. Sem dúvida, nós temos aí um retrocesso imenso.

Foi quase impossível para mim falar desse período de início da minha trajetória teatral sem tocar no ponto da censura, porque ela esteve muito presente. As peças eram submetidas à Polícia  Federal, pois existia dentro do ministério da justiça uma divisão de censura de diversões públicas, o famigerado DCDP, e nós tínhamos que enviar com muita antecedência o texto que era lido por algum censor, que já poderia determinar cortes ou mesmo a proibição do texto.

Depois eles iam assistir ao ensaio antes da estreia, e novamente poderiam decidir por novos cortes ou mesmo a proibição daquela peça em todo território nacional. É uma coisa inconcebível para os artistas de hoje, os jovens sobretudo, imaginar que você teria que fazer um ensaio para um censor ou uma dupla de censores que poderiam decidir que isso aqui não vai poder ser apresentado ou que você tem que cortar uma cena inteira.  Eu não cheguei a ter peças proibidas, mas tive entraves e narro isso no livro, os problemas que enfrentei com a censura que foram complicados de administrar. Pense que eu estou falando no período de redemocratização. Em 1988, foi promulgada uma nova constituição onde a censura institucional foi extinta com todos os seus departamentos. Por isso, mesmo falando de algo que aconteceu há mais de 30 anos, eu termino falando do nosso momento atual, como um alerta para essa situação de obscurantismo imenso que a gente está vivendo e de uma tentativa de censurar os meios de comunicação e a expressão artística. Então, infelizmente o meu discurso foi atualizado pelos fatos que estamos passando, a realidade brasileira atualizou o meu discurso de 30 anos atrás. O que é lamentável e extremamente perigoso. Inclusive porque conta com o apoio e a anuência de uma parcela significativa da nossa sociedade que se sente representada em sua ignorância, em seu atraso e em sua estupidez. Poderia ser apenas um documento histórico, um retrato daquele momento, mas infelizmente estou falando também da nossa realidade hoje.

 

DA – Nosso teatro também carece de uma atenção para o quesito formação de plateia?

PAULO ATTO – Aí está uma pergunta simples de resposta complexa. O teatro enquanto linguagem precisa de uma aprendizagem, de uma vivência, de ser experienciado. Há gente que diz que não gosta de teatro sem jamais ter visto uma peça (risos). Eu trabalhei em algumas oportunidades com crianças, tanto ministrando oficinas, em projetos infanto-juvenis como em espetáculos infantis que dirigi, não foram muitos, acredito que uns sete espetáculos. Escrevi três textos para crianças: Colombo, A incrível viagem do Curupira e a Aventura da Descoberta. As crianças naturalmente se expressam através da mimesis, constroem muito de sua expressividade através de jogos teatrais, ainda que sem perceber. Falando tudo isso, deveríamos pensar que o teatro teria um público imenso. Entretanto, isso não acontece. Acredito mesmo que nas últimas décadas houve uma perda substantiva deste público que incluía o teatro naturalmente em seu cardápio cultural, devido a uma série de fatores: a violência nos centros urbanos gerou uma insegurança, o enfraquecimento da imprensa escrita que sempre foi o principal veículo de nossa divulgação e diálogo com o público; por outro lado, a perda de espaço para divulgação nas redes de televisão, os serviços de streaming cada vez mais sofisticados e disponíveis a preços baixos, o fechamento de vários teatros, a migração de artistas para fora do estado, que é um fenômeno que, acredito, ainda não foi totalmente compreendido e mensurado. E ainda temos um tripé perverso que vem do distanciamento do teatro do público, a qualidade do que é apresentado, o amadorismo de diversas produções e os editais públicos em que houve e há um certo dirigismo cultural, onde muitas vezes o resultado do trabalho está muito aquém do discurso e da proposta do projeto. São espetáculos de qualidade bem questionável com um discurso lindo. Em todo este processo houve uma dissociação do espetáculo teatral com o seu público. Tudo isso como introdução para responder a sua pergunta “Nosso teatro carece de uma atenção para o quesito formação de plateia?” A resposta é sim. Mas não podemos imaginar que um programa de formação de plateia, ainda que seja amplo e bem construído, será suficiente para fazer o público retornar aos teatros. Sem ser saudosista, sou de um tempo em que ficávamos em cartaz de quarta a domingo, na temporada de Morangos Mofados na Sala do Coro do TCA, em 1988, tínhamos filas para comprar ingresso e cambistas, um espetáculo baiano com cambistas, a direção do TCA chegou a  limitar a venda de ingressos por pessoa. Ficamos três anos em cartaz, realizamos uma turnê nacional por Belém do Pará, Fortaleza, Goiânia, Aracaju, Recife, Maceió e ainda uma temporada de um mês em São Paulo com casa cheia todos os dias, na última semana foram duas sessões por noite para dar conta do público. Não tínhamos edital e nem financiamento público, a bilheteria nos mantinha. Fiz outros espetáculos com propostas para um público mais restrito como KAO, mas o espetáculo nos levou para o mundo em sucessivas turnês e apresentações em festivais em mais de 10 países por 16 anos. Foram muitas outras questões que deixaram esta relação teatro x público extremamente complexa.

Nós temos uma experiência incrível de formação de plateia com a realização, desde o ano de 2012, do Festival de Teatro da Caatinga, na cidade de Irecê, sertão baiano. Cidade onde existe um movimento teatral pequeno, mas significativo, cidade que não possui teatros, e está distante da capital (500 km). Nosso festival é realizado através do edital setorial de Teatro da Funceb há seis edições e conta com apoio da Prefeitura Municipal de Irecê. Em 2018, tornou-se internacional e tem um público cativo, que foi sendo construído ao longo dos anos. É uma mostra de teatro a portas abertas que tem superlotação todos os dias com imensas filas na porta do Auditório do Colégio Modelo, adaptado para converter-se numa sala de teatro. A repercussão é tão grande que o prefeito Elmo Vaz, atualmente no segundo mandato, em 2018 anunciou no palco do festival que iria solicitar junto ao governo do Estado da Bahia a construção de um teatro. Este ano o governador Rui Costa assinou a ordem de serviço para construção e provavelmente em 2022 teremos um teatro na cidade. Outro lado é o investimento na formação e qualificação profissional dos atores e técnicos. Muitos dos atores que participaram dos projetos de formação do festival buscaram se aprimorar em cursos acadêmicos de teatro na UFBA e na UNEB e mesmo em outros estados. Nosso programa de formação de plateia está consolidado e apresenta resultados. Acredito que este seja um bom exemplo, mas muitas outras iniciativas vêm acontecendo neste sentido em outras regiões da Bahia. Formar o público é fundamental, mas oferecer um trabalho de qualidade também.

 

Foto: Waldson Alves

 

DA – Agora nesse período de pandemia, testemunhamos experiências de espetáculos online, sem público nos espaços. Até certo ponto esse gesto é compreensível, pois estamos falando também de formas de sobrevivência para artistas e suas companhias. Há quem veja essa alternativa se perpetuando mesmo após as restrições pandêmicas. Não seria nocivo ao fazer teatral, em condições de normalidade, ter isso como alternativa já que a arte é feita muito fortemente da proximidade com sua audiência?

PAULO ATTO – O chamado teatro online, telepresença, web encenação, teatro digital ou qualquer nome que se queira dar, dada a falsa importância de um rótulo na nossa “desmodernidade”, não é Teatro. Não foi uma opção que nós, realizadores, tivemos dentre outras, foi a única possível. Não havia outra saída. Há quem defenda que sim, apenas pelo gosto de dizer que é Teatro e ponto. Vi coisas interessantes e lamentavelmente produções pavorosas, recheadas de antigas ideias modernosas. Temos um audiovisual com uma linguagem teatral, porém há uma câmera por intermédio, direcionando nosso olhar, temos as edições, a seleção de cenas, os cortes, algo que não existe no Teatro, ainda que se alegue que a montagem teatral e a iluminação possam de alguma forma dirigir o olhar do espectador.  E isso pode realmente acontecer. Entretanto, a liberdade do espectador no teatro é total para estabelecer os focos e os centros de sua atenção. E ainda poder ler os diversos planos, camadas, signos e sentidos que coexistem  no palco, sem mediação nenhuma a não ser a sua, ainda que tentemos fazer isso, nada supera a presença e o encontro de dois seres humanos, máquina nenhuma, tecnologia nenhuma, pode suplantar ou oferecer isso. Falta a sensorialidade.  Aqueles que defendem o tal “teatro digital” estão sem saber desejando o seu fim, a perda de sua autonomia e de sua essência. Pode ser que esta “defesa” seja por interesse próprio, para promover algo que possa parecer uma moda, ou pela incompetência em realizar o teatro de fato.  Já ouvi com muita arrogância a frase: “é teatro porque eu estou dizendo”. Sim, mas quem é o interlocutor para dizer isso ignorando mais de 2 mil anos de história? Ignorando o que é a linguagem do teatro. Cada linguagem foi sedimentada por séculos, possui cânones, possui memória e técnica especifica. No final é muito barulho por nada. Eles serão superados pelo próprio Teatro, que não sucumbiu ao cinema, nem a TV, nem às guerras, e nem sucumbirá à tecnologia. Se não se encaixam em nada disso, é apenas imbecilidade pueril (risos). Os perdoo: eles não sabem nem o que fazem, e fazem mal. Não pretendo desenvolver este tipo de proposta como teatro. Como audiovisual, acho interessante. Porém, é certo que ganhamos uma ferramenta de divulgação, de interação com o público, de novas possibilidades de reunião, de estudo, de comunicação. Devemos aproveitar isso ao máximo, mas o que mais fez falta neste período pandêmico é justamente a  ausência do humano, do contato entre as pessoas, e é sobre isso, em sua essência, que trata o Teatro.

 

DA – Voltando a seu livro, o texto de “As Máquinas” parece dialogar muito com o que notamos hoje nessa era de excesso de informações e também de reprodução padronizada de comportamentos. Podemos perceber muito disso a partir do “eu” espetacularizado que brota das redes sociais, por exemplo. Como é que você observa esse sujeito contemporâneo?

PAULO ATTO – Quando eu escrevi o texto de As Máquinas ou A Tragédia em desenvolvimento, era aluno do curso de Filosofia da UFBA e estava profundamente influenciado por temas ligados à Lógica da linguagem. Meu professor João Salles, atual reitor da Universidade, além de professor excepcional, era um amigo com o qual repartia tardes em animadas conversas, das quais também participavam o meu querido e saudoso mestre professor Ubirajara Rebouças e meus colegas e alunos Sandrinha Santana e Ricardo. Eram papos interessantíssimos regados à cerveja num boteco ali da Federação. Tenho muitas saudades dessas conversas. Ali foi gerada a semente desse texto. Quando fui convidado para abrir o projeto de leituras dramáticas da Escola de Teatro da UFBA, o  Contexto Cênico, escrevi o texto muito rápido quase como se fosse um ensaio sobre aquelas ideias. Outra influência foi novamente o chamado Teatro do Absurdo, por excelência um teatro sobre a incomunicabilidade humana. Certamente me assombra a atualidade do texto, é atualíssimo. Muitos leitores do livro já apontaram isso para mim. O filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman, o qual admiro muito as ideias e reflexões, fala de uma “náusea da informação” e acredito que estamos vivendo isso de maneira muito profunda. Os algoritmos, as chamadas “fake news”, o grau de desinformação com o paradoxo de tanta informação disponível, o obscurantismo, os retrocessos políticos, talvez tenham como raiz essa náusea e o perverso jogo dos algoritmos dominando as nossas escolhas. Outra ideia muito interessante está presente no livro de Bauman “Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadoria”. É incrível como ele nos traduz nesta obra. Chegamos ao ponto em  que a principal mercadoria, diria até a mais comum disponível no mercado agora,  são as pessoas. Nos tornamos o principal produto do mercado de consumo, somos enfim a mercadoria. Isso vai desde os sites de encontros, de grupos, até as redes sociais onde as pessoas vendem a farsa de uma vida ideal,  utópica, irreal. Fonte de angústia e de frustração. A cultura das artes também sofre muito com isso. Tudo é cultura, há uma vulgarização das artes, Arte e indústria cultural de massas estão perigosamente sendo confundidas. Enfim, estamos vivendo apenas para o consumo. Acho que no texto essas ideias vão se desenhando a partir da falência da comunicação, dos modelos repetitivos e sem sentido do trabalho, das convenções mais absurdas, do sectarismo generalizado e da dissociação entre a vida e a sociedade.

 

DA – O fazer teatral em que você acredita tem algum compromisso?

PAULO ATTO – O Teatro, sempre digo, é a vida mesma, é um ensaio vivo sobre o humano por excelência. Existem muitos teatros. O teatro no qual acredito, aquele que me dá prazer em fazer e justifica a existência dele nas minhas trajetórias pessoal e profissional,  é aquele em que eu possa falar para as pessoas do meu tempo, para esta humanidade, para este momento histórico e social. Nada para mim está dissociado deste mundo no qual vivemos. Quando encenei Shakespeare, nos espetáculos “A Tempestade”, logo depois “A Terra de  Caliban” (inspirado na mesma peça), “A Herança de Macbeth” (a partir de Macbeth), com a Cia de Teatro Avatar,  e ainda “Antônio e Cleópatra: o desencontro do olhar”, na Espanha, com a Cia Quasar Teatro de Astúrias, em todos esses espetáculos estava dialogando com meu tempo através das histórias de Shakespeare. Me nego a fazer um teatro museológico, desligado da nossa realidade. Quando escrevi e dirigi “A Travessia do Grão Profundo”, meu último espetáculo, mergulhei no sertão e sua realidade, sua simbologia, sua riqueza, seu imaginário, para falar de nossa diversidade cultural, da riqueza que a caatinga apresenta e esta história de perda do pai, também ainda presente nessa dimensão sertaneja. Apresentar o humano em suas múltiplas faces é o que me interessa, e é com isso que estou comprometido.

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

 

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145ª Leva - 05/2021 Destaques Olhares

Olhares

Cores e expansões: a vida em Paula de Aguiar

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Paula de Aguiar

 

Pensar as cores que contornam tudo. Ter as formas como horizonte de perspectivas num campo aberto de observação. Sorver da existência mundana a experiência dos gestos, os idiomas do tempo e as múltiplas faces da condição humana. Vislumbrar rostos embotados de silêncio, expressão e rotina. Percorrer a ciranda dos tons para depois enaltecer a pulsação que anuncia a vida.

Viver pela Arte é um estado de atenção, ver-se desperto para flagrantes e voltar o olhar também para o que parece imperceptível. O artista é esse alguém de espírito inconformado, posto que ousa  perscrutar até mesmo o insondável e trazer dali lampejos e mergulhos. No retorno dessas imersões, o apreciador da obra sabe que os trajetos ofertados lhe causaram toda sorte de revoluções internas. Nós, espectadores ávidos, somos parte da construção almejada pelo criador quando ecoamos por dentro de nosso âmago os impactos saboreados.

E como é bom desfrutar de possibilidades da descoberta ao nos depararmos, por exemplo, com a arte de Paula de Aguiar. Nas ilustrações da artista, as formas regem os caminhos. Suas cores acusam a aurora do humano sobre corpos que transbordam sentimentos dos mais variados. Mas eis que a temática do corpo ganha uma dimensão especial quando o alvo passa a ser o universo feminino.

Em Paula de Aguiar, o ser mulher é tido em amplitude, posto que carrega em si cenários de manifestação que vão desde o recolhimento íntimo até a expressão mais efusiva de suas personagens. No bailado das formas, pairam ante nossos olhos corpos alargados como se tal escolha refletisse uma necessidade de marcar posições contundentes diante da vida que inevitavelmente nos toma de assalto. Trata-se de um verdadeiro trajeto por onde desfila a face plural das emoções, caminho que denota a predileção pelo olhar poético sobre as mulheres ali pensadas. Nesse caldeirão de rostos e gestos, há um misto de delicadezas, silêncios, inquietações e enigmas.

 

Ilustração: Paula de Aguiar

 

Um dos pontos altos das ilustrações de Paula está no uso das cores. Nelas podemos notar um sentido de expansão das sensações gozadas através de uma experiência estética que contempla o diálogo com os mundos interno e externo. O efeito dessa coexistência entre o íntimo e o exterior não opera dissonâncias entre essas duas esferas de percepção do tempo e da vida; pelo contrário, mais parece harmonizar dimensões que naturalmente sugeririam algum tipo de oposição ou confronto.

A pernambucana Paula, que é formada em computação gráfica e atualmente estudante de artes visuais, viu no aprendizado e manejo com as ilustrações digitais uma valiosa estrada a ser trilhada profissionalmente, tanto que vem atuando como freelancer nos últimos tempos.

As veredas percorridas pelo trabalho da ilustradora recifense mostram uma especial relação entre o real e o imaginário. São imagens que sugerem também uma interposição entre os caminhos do sonho e da fantasia com a visão do mundo que não cessa de acontecer debaixo de nossos narizes. O resultado de tudo isso é também a ideia de que um todo orgânico paira sobre a obra da artista, fazendo com que os elementos constituintes se mostrem interligados, seja pelos laços humanos de nossa vivência terrena, seja por projeções que decorrem diretamente duma capacidade de reinvenção sensível da existência.

 

Ilustração: Paula de Aguiar

 

* As ilustrações de Paula de Aguiar são parte integrante da galeria e dos textos da 145ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

 

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145ª Leva - 05/2021 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

O ofício poético é esse debruçar sobre a vida que acontece, constatação dos instantes, explosão de sentidos e mistérios. É dado ao poeta pensar sobre seu tempo, sua realidade, seus desvarios. É dado ao poeta, também, esculpir em palavras o espanto e o estranhamento que perpassam o ato de existir. Quem escreve sabe que o tempo impõe desafios, modulando cargas que se equilibram ou não na dinâmica das emoções, ora fugidias ora permanentes.

Por mais que especulemos sobre as razões do engenho com os versos, empreendendo toda sorte de análises particulares sobre uma determinada obra, nada substitui o diálogo direto com o autor. Nesse gesto de escuta, talvez o melhor resultado seja aquele que opera dentro da lógica da provocação. E o que seria isso? É um deixar que o escritor transite livre pelas suas ideias, mas não sem antes ser estimulado a movimentar territórios inquietantes em matéria de pensamento.

Aquele que entrevistamos por agora na revista não tem o perfil de fugir às provocações e parece estar bem à vontade quando um eixo filosófico se desenha no horizonte das falas. Trata-se do poeta capixaba Jorge Elias Neto, a quem poderíamos definir como uma espécie de artífice da palavra. E dizer isso do autor é ir além da ideia de que nele está o cálculo arquitetado para fazer eclodir a forma em seus versos. Um olhar para sua obra nos permite dizer que seus poemas emanam epifanias abundantes da vida.

Jorge é, de fato, um poeta de inquietações. Quando um tema o assola, é capaz de mergulhar fundo em toda sorte de leituras adicionais que o façam movimentar compreensões mais robustas. Está atento aos sinais da existência e, tanto em suas falas aqui presentes quanto em seus poemas, notamos um caminho de busca: sentir a experiência humana como um protagonista face aos cenários. Dessa maneira, ele é um alguém que não se furta em saborear os enfrentamentos da vida, refletindo sobre nossa condição de seres que interferem a todo tempo no transcurso da história.

Dono de uma trajetória que contempla a escritura de livros como “Verdes Versos” (Flor&Cultura, 2007), “Rascunhos do absurdo” (Flor&Cultura, 2010), “Glacial” (Patuá, 2014), “Sonetos em crise” (Mondrongo, 2020), dentre outros, Jorge Elias Neto atravessa agora nossos sentidos com o seu pungente e provocador “Manual para estilhaçar vidraças”, recentemente lançado pela Editora Cousa. Seu novo rebento poético é verdadeiro roteiro para cutucar uma coleção de sobressaltos da contemporaneidade com vara curta. Ou, como o próprio poeta nos diz, “uma alternativa de salvação”. De todo o dito, a entrevista serviu, sobretudo, para também mostrar um autor que presentifica o seu lugar no mundo.

 

Jorge Elias Neto / Foto: arquivo pessoal

 

DA – “Manual para estilhaçar vidraças” é uma verdadeira reunião de modos de existir. Sob o manto da provocação, a obra desfila cenários distintos da experiência humana. O que dizer de tais caminhos?

JORGE ELIAS NETO – Fabrício, esta nova oportunidade de ser entrevistado por você, para publicação nesta que foi a primeira revista eletrônica que divulgou minha obra e uma entrevista, isso no ano de 2009, quando eu me encontrava finalizando o meu segundo livro, ”Rascunhos do absurdo”, me despertou a necessidade de reler a nossa conversa da época. Foram poucas as entrevistas que dei nestes quase 20 anos de produção poética e a releitura que ora acabo de fazer me causou algumas surpresas. A primeira foi descobrir o momento no qual iniciei a abordar um tema específico para escrever poemas e, como no caso do “Manual para estilhaçar vidraças”, um livro. Naquela época, após a finalização do livro, ocorreram os eventos em Gaza e o poeta, e atualmente editor da Mondrongo, Gustavo Felicíssimo, me propôs um desafio: escrever uma trilogia sobre o tema. Foi algo que fiz com muito prazer e se transformou no embrião para algo que se mostra recorrente em minha obra. Depois veio o convite do saudoso Pipol, editor do Portal Eletrônico Cronópios, que resolveu convidar 50 poetas brasileiros para escrever um poema para um livro em homenagem ao Éder Jofre. Sentei, estudei o tema e, de impulso, escrevi 43 poemas. Enviei para o Pipol, que me propôs incluir como um caderno especial dentro do livro. Infelizmente ele faleceu. Mas Eduardo Lacerda, editor da Patuá, resolveu publicá-lo com o título de “Breve dicionário (poético) do boxe”. Depois vieram “Glacial”, “Cabotagem” e agora o “Manual”… Trago para o “Manual para estilhaçar vidraças” questões rotineiras, irrelevantes, executadas, muitas das vezes, de forma mecânica por todos nós. Já alguns poemas lidam com conflitos existenciais, abordam as questões que norteiam e creio permanecerão ao longo dos meus escritos. Boa parte dos poemas foram escritos em um curto espaço de tempo; escrevi 11 poemas em uma noite.  Alguns temas foram enumerados antes da escrita. Outros partiram de imagens que me ocorreram ao longo das horas que fiquei imerso na busca da estruturação dos poemas. Quando escrevo tenho como primeiro objetivo o leitor que sou. Desta forma, o intrincado das imagens, um certo grau de hermetismo involuntário  (e que, creio, afasta muitos leitores de minha escrita) e a proposta de trabalhar muito com as ideias acabam prevalecendo. Como “tenho uma ideia” do local que cada palavra ocupa em meu inconsciente, sinto-me confortável quando revisito os poemas. Já o leitor, e isto aprendemos com o tempo, tem suas leituras particulares e muitas vezes, com convicção (e isso já é sabido de todos), nos sinaliza interpretação imensamente distantes do que busquei no poema. E é isso, no “Manual”, ora falando sério, ora com ironia, proponho uma reflexão sobre o cotidiano, tento usar da palavra para dizer da irrelevância dos nossos atos, da insignificância relativa de nossa vida e, como nos diz o poeta e psicanalista Ítalo Campos no posfácio do livro:   Para ler bem o Manual Para Estilhaçar Vidraças é preciso fazê-lo sem pressa e com cuidado. Em muitos casos ele apenas “prega uma peça”. Ele é ora um espanto, ora um acalanto, mas em ambos os casos seu propósito último é o de estilhaçar sentidos. O leitor se surpreende ora com o inusitado, ora com o humor, deixando-se flagrar pela trapaça que o poeta faz com o senso comum, embora nada esteja desarticulado. O poema é minha forma de rebeldia contra o cotidiano. Este livro é uma proposta alternativa que somente o olhar poético para a vida é capaz de nos dar, uma alternativa de salvação.

 

DA – Rebelar-se contra o cotidiano através do engenho poético é desacomodar certezas?

JORGE ELIAS NETO – Aqui se impõe discutir duas questões fundamentais: o papel da arte em minha vida e algo muito mais prático neste momento histórico, a relação entre certeza e dúvida. Costumo dizer que cumpro com os pés o que é devido e cubro com sonhos o desmedido. Penso que todo percurso é uma ilusão necessária, e a arte é meu ato, sim, de rebeldia; a arte é o cosseno, o obsceno e outras peripécias. A minha experiência como médico ao longo dos últimos 30 anos me fez ver e ouvir muito e construir uma certa paz no remendar das imagens e das palavras. Eu vou apreendendo as palavras e guardando-as no silêncio. E chega o dia que o poema se faz dos fiapos destas recordações, ajeitadas aqui e ali com algum enchimento, com algum artifício adquirido, ou mesmo com algum vício repetido. Talvez  este “Manual para estilhaçar vidraças” seja a tradução deste meu “ato de rebeldia”, como você bem diz. Por isso digo que primeiramente escrevo para mim. Sei que serei um dos poucos, talvez o único, que terá o interesse em folhear o manual no futuro. Nada como uma cartilha para iluminar e evitar que nos desgarremos ainda mais neste cotidiano de ilusões multimidiáticas. Passando já para o segundo ponto, acho que você foi muito feliz quando utilizou a expressão “desacomodar certezas”. Quando jovem, sempre me senti inferior aos demais por não ter certeza de nada. Hoje digo que a dúvida é o alicerce de minhas convicções. Penso ser necessário resgatar o valor da dúvida… Mas isso valeria se a dúvida não fosse algo anacrônico para a sociedade atual. Existe uma suposta razão, uma “verdade” que encobre as dúvidas dos homens. Vivemos um tempo de desperdícios e de bandeiras. No meu caso, aprendi que a ciência é um divino manancial de  verdades fluidas e dúvidas eternas. Também aprendi que a certeza é estática e a dúvida é dinâmica. Fico então com a dúvida. E como “desacomodo a certeza”? Convivendo com a ideia que, do útero à morte, seguimos renascendo. Afinal, o principal conflito humano é mediado pelo nada. A morte é parteira dos desesperados e desespero dos inocentes. E a paz é um corte na carne da convicção, o osso aparente na trincheira criada pela força da humildade. Tento, com os meus poemas, como no caso do “Manual”, lembrar ao homem que ele é um deus que se perde na encruzilhada da ausência. Daí o poema que dá nome ao livro dizer da sombra e da escuridão. Proponho ao leitor o confronto com a sombra, pois ela é a experiência diária da morte, o ato introdutório do homem no esquecimento. A sombra sinaliza ao homem o poder da luz que não nos deixa esquecer que estar de pé é uma circunstância, uma transitoriedade. A sombra é a seta que o céu projeta sobre a soberba da consciência bípede.

 

DA – Ao que parece, temos alguma dificuldade em nos compreendermos como sendo simultaneamente luz e sombra. Seguimos engendrando verdades e inventando versões para narrar nosso imperfeito trajeto no mundo. Na sua visão, quem é esse sujeito contemporâneo? 

JORGE ELIAS NETO – Há alguns anos li um livro que me intrigou muito, “A negação da morte”, parecia que eu conseguia estabelecer uma ligação tão procurada com minhas leituras da obra de Nietzsche, Camus e Emil Cioran.  Nele, o antropólogo Ernest Becker me apresentava a obra de um dos grandes discípulos de Freud, Otto Rank. Busquei os livros de Rank e encontrei uma interessante descrição do papel da sombra na história da humanidade. E a sombra passou a ser tão importante que me ocorreu escrever um livro que denominei “XXI – Diálogo das sombras”, ainda inédito. Nele trato especificamente do sujeito contemporâneo e este diálogo com a sua sombra, esse duplo Rankiano. E para estabelecer uma ligação entre sua pergunta e minha opinião deixo aqui um aforismo poético que escrevi: Não identifiquei entre os destroços nenhuma sombra de dúvidas. No meu entendimento, mantendo sempre como lastro a dúvida, tem sido fundamental a leitura das obras produzidas a partir da segunda metade do século XVIII e, principalmente, a obra do século XIX. E não posso deixar de sinalizar a minha admiração pessoal pelos autores russos. Ler Gogol, Turguêniev, Tolstoi e Dostoiévski tem sido fundamental para entender a transição para o século XX e fazer uma ligação com a produção da obra de Marx, Engels, Feuerbach, com a efervescência de Darwin, as proposições de Freud e por aí em diante. Foi a partir daí que busquei entender toda a frustação quando ficou claro que, por detrás de todas as propostas de uma sociedade mais justa, existia o homem, e que os “leões” insanos rugem mais forte… Adoro reticências… Elas dizem do inacabado das dúvidas… Nesse momento, muitos, como Octávio Paz, indagaram se adiantavam essas pedras empilhadas apoiando precipícios? De que vale a rosca e o parafuso no vazio? Entenderam perfeitamente que o ódio não é fonte, é desperdício. Era o momento do homem medir os seus fantasmas pela hora do dia que admirava a sua própria sombra. E esta sombra tornou-se imensa. Só que a visita das sombras tem um pio ingrato, é a cor branca da culpa nos delatando por nossas atrocidades, nossa vaidade, nossa hipocrisia. É difícil aceitar que existe um lado obscuro na fronteira imposta pelos que buscam o paraíso terrestre. Mas, no meu entendimento, na volta devemos percorrer o caminho da sombra. Mas a mentira seguiu sendo um tônico revigorante… Um assunto tão denso tomaria muito tempo do leitor, por isto prefiro deixar aqui um poema inédito que talvez sintetize meu olhar sobre este “sujeito contemporâneo” e sua sombra. Afinal, o poema é o um esforço de silêncio de meus olhos cansados.

 

Retorno ao rascunho do mundo

Eis o inerte,
o sucumbido,
aquele antes do instante
em que se dissipou a paz.

Desperta homem,
vê a grandeza do seu nome
e o Não, imposto ao seu destino.

A página leve não tem a tessitura do seu caminho
e o que lhe resta é o estampido
ou um pilar qualquer que te convide ao abismo.

 

Madeixas das sombras

O Eu apagado, descrente,
o crucifixo do outro
e toda nudez
do medo.

Meu martírio:
esta fogueira que não vesti.

Se restam fagulhas,
são versos roubados,
pés trocados
de outros passos
no silêncio das cinzas.

 

Jorge Elias Neto / Foto: arquivo pessoal

 

DA – No atual estado de hiperconexão em que estamos mergulhados, talvez tenhamos perdido a capacidade de nos recolhermos em nós mesmos, de sermos silêncio para  fruição das coisas e sentimentos. Em que medida tamanha absorção com consequente efeito de dispersão interfere, por exemplo, na prática literária de leitores e escritores? 

JORGE ELIAS NETO – Nos últimos anos tenho escrito alguns pequenos ensaios abordando, dentre outros temas, este “tempo sem tempo” que permeia a realidade das relações interpessoais e consigo mesmo do homem contemporâneo. Sempre digo de minha condição de alternância entre um pessimismo e um realismo entusiasmado (uma migração que faço entre um olhar mais cético de Cioran e do brasilianíssimo Suassuna). Isto me levou ao “Ornitorrinco do pau oco”, nome do meu livro publicado pela editora Cousa em 2018. Tomo a liberdade de incluir aqui alguns esclarecimentos sobre esse ser inusitado:

 

Há que se entender ou não o ornitorrinco do pau oco?

É chegado o tempo em que o silêncio e a contemplação passaram a fazer parte do comportamento de um transgressor. É o que conclama a balbúrdia multimidiática de nossos dias.

………………………..Na verdade, nada mais efêmero que o conceito numérico dos dias: um ou dois dígitos não preenchem o vazio do homem pós-moderno.

………………………..E os “vencedores” propõem: Falemos do caos binário, já que se tornou “feio” falar do Sol e da Lua.

……………………….O choque. O homem e o tempo, com seus instantes vendidos em módulos. Uma overdose de estímulos de duração efêmera. Eis a droga que carece ser discutida, esta que alimenta o corpo fluido e seus receptores cerebrais carentes de imagens.

 

Ou seja, se faz necessário estender o conceito de silêncio para a visão. E isso serve para os leitores e, infelizmente,  também para muitos escritores. O homem se esqueceu que o silêncio é o ponto de partida e de chegada. É o nosso “buraco negro” individual. E imerso neste caos se incluem também escritores e leitores. Tenho a sensação de uma “bolha” literária. Algo como grupos de whatsapp, de Facebook, onde se posta e se aguarda, com urgência, o reconhecimento de nossa obra. Uma busca constante de feedback positivo. Mas conviver com os homens é a forma mais popular de isolar-se de si mesmo. Somos indivíduos comuns ambicionando a glória do instante. Mas este tempo desperdiçado hoje, essa busca da glória diária, é o tempero da fome de amanhã. É uma “verdade” requentada dia após dia. Perdemos muitas vezes o senso crítico, maximizamos nossos desejos e potencializamos nossas frustações. Entretanto, o Mundo é regido de tal forma que ficou fácil estender as coisas no sem tamanho da ambição humana. O mutilado se satisfaz com uma miragem da perfeição. Vejo uma linha do tempo que já teme o rastilho do fogo, um presente como uma presença perdida no instante, um sufocamento da poesia. Mas a palavra tem seu tempo e as horas sorriem durante o sono dos homens. Acredito que o nada resplandece no silêncio e que há de se buscar a paz em algum ponto impreciso entre a contemplação e a convicção da conquista. À paz da inércia sou mais o atropelo do silêncio. E o que pode fazer um ornitorrinco nestas circunstâncias? Trabalhar, silencioso, o naufrágio do homem.

 

DA – Seria apocalíptico demais dizer que, em escala global, estamos experimentando um processo de desumanização?

JORGE ELIAS NETO – Não tenho pretensão de conseguir com palavras dizer de minha visão apocalíptica para o futuro da humanidade. Por mais que eu insista, os dias são mais irônicos que as palavras. Mas agradeço que assim seja e que eu perceba a limitação de que elas, as palavras, reproduzam a realidade humana. Trabalho com tecnologia, realizo procedimentos em minha profissão que utilizam recursos altamente sedutores, com imagens impressionantes e, principalmente, com alto grau de resolutividade e de segurança. Ora, então eu deveria ser um porta-voz incondicional dos avanços científicos. Outro ponto, não tenho religião. Então eu deveria ser um herdeiro natural da visão positivista e materialista. Devia acreditar, em termos sociais, na morte de Deus. Mas a necessidade me fez ambidestro. Hoje mantenho o hábito de usar ambas as mãos para escrevinhar minhas dúvidas. E, como disse acima, elas me levaram a buscar entender esta transição fundamental do século XIX para o século XX. E antes de falar minha impressão sobre o mundo atual, gostaria apenas de dizer o nome de um poeta que me ajudou a ver toda angústia contida na dicotomia inserida naquele momento histórico: Augusto dos Anjos. Não. O punhal tem duas faces: a que brota e a que geme. Não vou recorrer às minhas anotações, às minhas leituras, vou recorrer ao meu descontentamento. Como ambientalista e como defensor dos preceitos da responsabilidade propagados por Hannah Arendt e Vaclav Havel, só consigo ver com muita tristeza o futuro, não só do homem, mas, principalmente, para o Planeta. Onde começa o fio? No novelo ou na farsa dos dias? A farsa cuidadosamente lapidada pelos ditos “engenheiros do caos” já se desgarrou do novelo da história e estes veem crescer, exponencialmente, o seu poder, e já ocupam o lugar vago deixado por Deus e pelo Estado. Muitos já escreveram sobre a terceira revolução industrial. Outros, neste momento de pandemia, sinalizam para a quarta revolução. Informação, imagem, consumo, efêmero, que palavras dúbias. É por isto que penso que um retorno ao triplo transcendental (o bem, o belo e a verdade), uma retomada da religiosidade, seria uma possibilidade, uma alternativa mais realista, mais acessível aos homens, em geral, de evitar um futuro distópico para a humanidade. Da mesma forma não creio que o pós-humanismo ou mesmo o neo-animismo sejam uma visão aglutinadora. Não acredito que o “big-data” seja uma panaceia para a humanidade. Fosse o pó o essencial da escultura, a matéria valeria mais que a arte e o vazio seria a verdade celebrada por todos. Mas essa visão míope aliciou uma parte significativa da humanidade. É preciso entender que dentro do absurdo existe um reino de perdas.

 

DA – No que se refere a pensar o escritor como leitor de seus próprios poemas, haveria uma espécie de margem para, numa mirada autocrítica, mudar aquilo que já foi publicado? A atitude revisionista não causaria certa instabilidade à obra do autor?

JORGE ELIAS NETO – Sabe, Fabrício, a palavra tem seu tempo, tem seu espaço na vida das pessoas. E no poema, quando ela se instala de forma definitiva em um livro, seja com perfeição ou meio impositiva, empurrando para os lados as demais, o poeta deve respeitar esta disposição como definitiva. Publicado o livro, passo a ser leitor. E mesmo, como acontece muitas vezes, ao me deparar com uma palavra ou mesmo versos que me pareçam imperfeitos e desagradem, raramente os altero. Pois já é outro o poeta, já é “outra” a palavra. Se a ordem, os versos, não se alteram, prevalece o impulso criativo do momento da criação do poema; ou o de sua lapidação. Em suma, eu me sentiria desonesto alterando um poema. Posso roubar um verso antigo, ou usá-lo como epígrafe, isto faço sem pudor, mas respeito as palavras. Alterar o poema seria, no meu entendimento, uma tentativa artificial de torná-lo atemporal. Talvez tudo seja uma busca de estetização da vida  ̶   retorno aqui ao que disse acima sobre a urgência de resultado  ̶ , um superdimensionamento de nossa obra, o que traduziria o quão brilhante e singulares somos enquanto indivíduos. Mas o meu sentimento é que o poder da flor está no voo da pétala. É neste desgarrar da beleza que se atinge a amplidão do infinito, é um distanciamento que tento alcançar. É esse voo, que independe de nós, que dará alguma relevância a nossa obra. As pedras marroadas sempre guardam um espaço para os nossos pés. Segue abaixo um poema que trata da relação obra e autor. Coloca, em verso, como tento entender esta questão.

 

A obra

Do artista
……………– a obra,
o todo
…………..– da obra.

Mesmo que um segundo
apenas, seja o tempo
para a derrocada do homem,
cabe o feito
…………..definitivo,
traduzindo o gesto, o
desfecho do combate.

Não se apegue
ao herói erguido aos céus
na glória do instante,
reafirmo:
………….– veja a obra.

A arte,
as mãos,
também se expressam
fechadas, sufocando
o ar no exíguo espaço
da tensão dos dedos.

O artista do palco,
do ringue,
persiste na imagem
que desaba
e se rasga.

Atenha-se ao diálogo
……….– com a obra.

 

Jorge Elias Neto / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Há limites para o autobiográfico no horizonte da poesia?

JORGE ELIAS NETO – É na prosa que o autobiográfico habitualmente se apresenta. O poema é território do “eu lírico”, um rebelde, fingidor, um subversor da sintaxe (como sempre diz o linguista e amigo José Augusto Carvalho). Mas toda grafia tem um recorte da alma de quem escreve e não me cabe julgar os poetas que se mantenham na primeira pessoa em seus poemas. Afinal, cada ilhéu traz uma concha guardada a sussurrar saudades. De início, para discutir essa questão como leitor de poesia, deixo de lado aqueles poetas que se confundem com a sua obra. Autor e obra não coexistem em equilíbrio de perfeição, quando o autor não se apercebe disso, geralmente a obra perde. Brinco com meus amigos que a biografia mais fiel deveria ser escrita pelo psicanalista… Agora, quando o poeta consegue dizer do “eu universal”, equilibrando entre os versos todos os recursos de linguagens que tem a sua disposição, é possível resgatar no seu passado memórias que permitam um diálogo com o leitor. Os grandes poetas podem tudo em seu “eu lírico” – esse “ser de papel”. O que podemos dizer no “Eu” de Augusto dos Anjos, e na obra imensa de Fernando Pessoa e seus heterônimos. Drummond e Minas Gerais, Adélia Prado e a religiosidade, Ferreira Gullar e o seu retorno ao mercadinho no Maranhão… Como nos diz o Antônio Miranda citando Lejeune:

 

Pode haver uma coexistência da biografia do autor na medida em que o poeta faz do “eu” da poesia lírica o “eu” da autobiografia. Por outro lado, ainda diz Lejeune, a poesia torna-se uma escritura segunda, isto é, aquela na qual o escritor reconverteu, ao voltá-la para si mesmo, a escritura que ele havia anteriormente elaborado para “dizer o mundo”. Não haveria, por isso, a possibilidade de a experiência poética ser contraditória com o projeto de uma “narrativa” autobiográfica.

 

Quando falo de minha produção poética, este diálogo com o passado está mais presente nos meus dois primeiros livros: “Verdes versos” e “Rascunhos do absurdo”. Em “Glacial”, o “eu” que se apresenta é uma caminhante que atravessa os Andes em uma busca pelo sentido da existência. Já em “Cabotagem” resgato a cidade de Vitória de minha infância e adolescência. Mas se eu tivesse de escolher um poema no qual vejo um equilíbrio entre a palavra, o passado e o Universal, é o poema “Cristo de pão”. Um evento ocorrido na mais tenra infância que ficou guardado e serviu como uma metáfora de minha, da nossa, relação com Deus.

 

Cristo de pão

Herdei de meu pai
esse Cristo forjado em miolo de pão.

Esse crucifixo que, pacientemente,
foi moldado no almoço de domingo;
em seus dedos, amassado,
em seus lábios umedecido.

Um Deus criado
pelo provedor de minha casa
durante o eterno silêncio
comigo repartido.

E eu aprendi que da bolinha de massa
se forja um ídolo.

Ao final da refeição, meu pai me estendeu
o Cristo na cruz.

Eu o peguei
e ele se partiu.

Foi duro para mim
ver Deus quebrar-se em minhas mãos.

 

DA – A Literatura é um perfeito território de ilusões?

JORGE ELIAS NETO – Guimarães Rosa escreveu que “… livro, a ser certo, devia de se confeiçoar da parte de Deus, depor paz para todos, virtude de enganar com um clareado a fantasia da gente, empuxar a coragens”. Sempre senti na arte a possibilidade de um legado sem tragédia; o mais próximo que posso chegar, talvez com menor risco, do legado humano e do porvir. Uma perspectiva de alguma sanidade. A grande literatura é uma das grandes fontes possíveis de ilusão. E com as suas coirmãs: música e artes plásticas são a maior possibilidade de nos levar próximos à perfeição da Natureza. Sabemos que, em graus variáveis, o disfarce da órbita é desviar-se do óbvio. E que “a arte existe pois a vida não basta”.  Afinal, em que pernas poderíamos apoiar esta existência no sem sentido? Como disse em um ensaio que escrevi sobre Augusto dos Anjos, “(…) hoje, faço parte dos poetas que procura este olhar insubornável, perdido na ausência. Procuro a nobreza desse olhar entardecido de uma ilusão”.

 

O que se arrepende é o avesso do nome

A morte é zelosa em sua força,
e aprecia a fragilidade no arremate do erro,
no estampido do verbo,
no testemunho do assombro,
no lento embuste dos passos catados.

Digital falsa
no contorno das letras
que se desprendem nas entrelinhas.

O flerte do verso com o abismo,
o encantamento da bruma sobre os lençóis,

……………………o suborno do medo.

 

DA – Afinal, por que escrever?

JORGE ELIAS NETO – Eu poderia usar da escrita como um lamento, parodiando o grande poeta, dizendo do drama existencialista pós-moderno, mostrando assim uma das facetas do por que escrever:

 

De que vale a vida se a tela é pequena, e de que vale o Mundo se não para viajar e registrar em um Smartphone a minha felicidade fluida e postar no Instagram, no Facebook e nos meus grupos de zap…

 

O exercício crítico da vida é uma das minhas justificativas para escrever. Poderia dizer que, por vezes, escrever é um ato de desespero, um vício que assombra. Na verdade, ao longo de minha vida, a escrita paira, e sua razão de existir se apresenta de várias formas. E confesso que tenho um ghost-writer, o hemisfério cerebral direito com suas pinguelas sobre a maré alta vazante… Escrever é um refugiar-se na síntese contornando a sintaxe, é uma terapia, é um jogo de videogame com possibilidades infinitas. A eternidade é uma metáfora que já não me ilude. Mas como me disse certa vez um psicanalista e amigo “há de se relativizar a morte, de tangenciá-la”. E embora saiba que a esperança é uma simples questão de instinto de sobrevivência, todo artista persiste vasculhando sua particular caixa de pandora. Em 2013, ingressei na Academia Espírito-santense de Letras. Naquela oportunidade, em meu discurso de posse, tentei trazer o porquê da escrita e a questão da imortalidade para o centro de minha fala. Tomo a liberdade de reproduzir aqui alguns trechos.

 

……….Digam-me, com a experiência humana no século XX, quanto nos afastamos deste deslumbramento com a capacidade humana de criar, descobrir – desse potencial do homem para atingir os céus com seu gênio, tornando-se o centro do Universo. Um deus a servir-se do inesgotável entornado em seus pés?

……….É certo que muito ocorreu ‒ perdemos a inocência ‒ , mas nada foi capaz de alterar a condição primeira da existência consciente: o desejo de transcendência da alma.

………E como reagir quando Albert Camus nos lança na face que “A razão não explica tudo, mas não existe nada além da razão”. Isto atordoa. E resplandece perante os nossos olhos – a Morte. O que faz a consciência com sua extrema maleabilidade, sua capacidade de se moldar perante o abismo? O que faz, como se justifica o indivíduo, em especial aquele mais cético e realista, aquele que se intitula um homem do absurdo, com sua existência lançada no rosto?

……. E o poeta responde a Albert Camus:

Parte-se do esquecimento.
Caminha-se para o esquecimento.
Disso dou testemunho.

Tamanha consciência da morte vindoura
nomeia encantamentos
em cada trecho de aurora.

E, se, em algum momento,
falta ao punho o sustento,
recolho-me ao verso que apoia.

Eis a dura lida que ao poeta condena.
Mas apesar do tormento da finitude certa,
tem no poema – pulsão de vida – rumo ao esquecimento.

 

É possível, trabalhar e sonhar. É possível a convivência do cientista com o poeta. Afinal, a quanto dista o zelo do cientista do abuso apaixonado do poeta com a palavra? Pois a poesia começa assim:

 

Emprenhar-se de miudezas;
deixando as mãos rendidas aos gestos costumeiros.

E quando a luz se aperceber, desmembrada
pelo estalo da palavra,
jogar-se nos trilhos
para salvar a flor.

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

 

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144ª Leva - 04/2021 Destaques

Olhares

De corpos, espaços e suas cores

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Lu Brito

 

Vida é sopro que circula, povoa seres e lugares, atravessa as dimensões da concretude para depois aportar no indizível mistério. Esta senhora, pois, aninha suas crias e as envolve com seus destinos de ser pelo desejo atravessado dos tempos. Na espiral dos instantes, há sempre uma faísca a movimentar tudo, ideias, laços, ímpetos, tons, gritos, dores, êxtases e paixões. E ser artista em meio a tanta coisa que mobiliza o olhar é missão sem par, desatino que se traduz em exercício de presença no mundo.

Há um infindável número de adjetivos que podem ser utilizados para esboçar alguma definição sobre o que representa o trabalho de uma fotógrafa como Lu Brito. Suas imagens podem ser desejo de liberdade, anseio de existência plena, clamores, preces, lampejos de prazer, gestos contemplativos, arremessos de serenidade ou mesmo algum anseio de conexão com o todo que nos rege.

Nos interstícios do cotidiano, Lu Brito sonda as expressões do humano através das sinalizações emanadas pelo corpo. Nas capturas da fotógrafa, eis que testemunhamos olhos sinceros de pessoas no enleio das suas rotinas pessoais, mãos que afagam o engenho das horas, rostos que trafegam entre o sonho manso e os delírios da realidade. Nesse vasto abrigar de sentimentos, habitar um corpo também é se deparar com as zonas fronteiriças da solidão, é mirar o horizonte posto nas paisagens buscando respostas em meio ao silêncio. Gente, para Lu, é motor que principia ações, as tais investidas sobre tempos e espaços dos seres que se equilibram entre a quietude e o alvoroço.

A arte imagética de Lu concebe os espaços físicos como verdadeiros mananciais de sensações. Desde o que remonta às paisagens naturais até aquilo que marca acentos urbanos, o voo da artista percorre cenários ricos em temáticas, todas elas a assinalar um olhar que se curva aos desígnios do instante observado e, por assim dizer, também experimentado em sua fruição. Em quaisquer desses universos, a chama da vida resta anunciada em gestos de presença e ausência humana.

 

Foto: Lu Brito

 

Mas eis que o apelo das cores transborda a dinâmica dos sentidos expostos, chama atenção pela necessidade da ênfase, daquilo que pretende ser marcado por sua vivacidade espontânea. São múltiplos tons que estão ordenados segundo uma lógica própria e inerente a cada ser ou lugar retratados. Seja operando na via dos contrastes ou na harmonização com os ambientes e corpos, as cores em Lu Brito inauguram a poética das marcações e nos fazem lembrar que muita coisa conflui para a vastidão das peculiaridades.

Confessando-se uma amante incondicional da fotografia, Lu Brito já desbravou muitos cantos do Brasil à procura de imagens. Com a mesma intensidade, também esteve em algumas dezenas de países aprimorando o seu ofício com a imagem. Muitos trabalhos seus podem ser encontrados em várias galerias de arte e casas de decoração e arquitetura de Salvador. Seu currículo abarca exposições individuais e coletivas nacionais e internacionais, bem como algumas premiações, dentre elas, Menção Honrosa na Bienal Brasileira de Fotografia 2016, Primeiro Lugar e Menção Honrosa, na categoria PB, no VII Salão Internacional de Fotografia de Ribeirão Preto (2019), além de Menção honrosa no Concurso Photonature Brasil 2020.

Com seu olhar ávido por captar o mundo e suas singularidades, Lu nos oferta instâncias especiais de contemplação da vida. E esse exercício de observar os trajetos humanos e de se deter pelos mais difusos espaços torna a experiência visual um tanto mais completa. Para além do que se vê numa primeira mirada, outros tantos sentidos se desdobram em favor da poesia que se refugia nos instantes flagrados pelas lentes da artista, mostrando que o mundo não é somente um palco de subjetividades, mas também de fenômenos espontâneos sobre os quais talvez jamais exerçamos alguma espécie de controle.

 

Foto: Lu Brito

 

* As fotografias de Lu Brito são parte integrante da galeria e dos textos da 144ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

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143ª Leva - 03/2021 Destaques Olhares

Olhares

Do tempo que não coagula

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

O mundo e seus sinais. Gestos por todas as direções apontam um pouco do que somos, esse misto de espanto e estranhamento no terreno desavisado das descobertas. O vento carrega tudo, desacomoda poeiras, certezas e segue seu curso de transformações. Somos esquina quando divisamos um rumo e outro das escolhas a serem sentidas e executadas. Somos substância fluida, tal como águas que apontam sempre para a mudança, ainda que esta se manifeste à revelia de nossos desejos mais profundos.

A ideia de se estar vivo vem como sopro que atravessa bem mais que o organismo que possuímos. O corpo, por si só, é expansão, morada que projeta a liquidez do sonho ante a visibilidade e concretude da matéria. Cada passo dado é sintoma da consciência, muitas vezes submersa em razões imprecisas. E o que pode a arte diante dos nossos lampejos e arroubos existenciais?

Tentar achar respostas parece não ser tarefa que esgote as possibilidades. É olhar para todas as direções e também para o que está em nossos arredores e perceber ali correspondências com o que pulsa dentro de nós. A arte se materializa a partir de um estado de atenção sobre as coisas, o mundo e seus fenômenos. É esse tipo de percepção que atravessa o trabalho de Marjorie Duarte, artista que ressignifica o caos interior a ponto de forjar a partir dele condições de produção.

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

Falar do caos que assoma alguém é também perceber que um novo sentido é dado às coisas e situações. Um turbilhão, quando não paralisa, conduz à aparição de outros rumos. E foi justamente esse tipo de movimento que norteou a trajetória artística de Marjorie. Sob o ponto de vista das tensões urbanas, o motor da ansiedade foi capaz de fazer com que, por exemplo, a artista desse azo à invenção de uma personagem muito cara em seus trabalhos, a menina-mulher Síndrome.

Um olhar detido em Síndrome parece nos revelar que sua materialização em imagens vem constituída por um conjunto de sensações que transbordam os desdobramentos do real. Ela é, então, a porta-voz de uma existência inquietante e crítica, mas também o reflexo da busca de uma ternura enevoada pelos desafios da vida prática. E a saída para as tensões da personagem é pensada por Marjorie através dos usos poéticos que a autora não abre mão de utilizar.

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

Em Marjorie Duarte, a imagem é vontade da palavra e vice-versa. Na interface entre desenhos, textos e colagens, a artista remonta a seu modo os fragmentos de um mundo acelerado, prenhe de verbos que saltam aos olhos pela urgência em comunicar. Seja na conjunção de frases ou na solidão das palavras, o imperativo de dizer algo sobre o ato espantado de existir é gênero de primeira necessidade para a ilustradora. E tal gesto se abriga na poesia dispersa da vida, condição de olhar a tudo com a avidez da descoberta.

Professora de Literatura e Artes no ensino fundamental, Marjorie também se dedica a ilustrar livros. Adepta do que chama de pensamento acelerado, que é esse estar perceptível ao instante, ela abraça a tudo com o ímpeto de agarrar o presente e aquilo mais que tal investida pode gerar. E deixar o agora se esvair pelos desvãos da memória parece uma perda incalculável para a criadora. Nessa dinâmica de uma atenção permanente aos sintomas do mundo, verdadeira recusa em dissipar o laço com a vida, o compromisso com a arte é exercício que revela um extremo teor de sensibilidade,  epifania com causa pungente que abriga as paisagens mais íntimas da artista.

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

* As ilustrações de Marjorie Duarte são parte integrante da galeria e dos textos da 143ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

 

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142ª Leva - 02/2021 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

         

Um autor é esse ser que engendra mundos a partir do mundo, mobiliza cenários, personagens e narrativas capazes de corresponderem aos desígnios da palavra gestada. Aquele que tece histórias, posto que é observador, cúmplice ou até mesmo o que vive as situações transpostas para o texto que brota do branco, por vezes angustiante, duma página nascente.

Mas eis que escrever pode ser resistir ou capitular, como disse certa feita o escritor Julián Fuks aqui pelas bandas da revista. Quiçá para muitos seja ímpeto de uma espécie de sobrevivência que intenta suplantar os efeitos da realidade em nossas vidas. Pode ser enfrentar antigos e comezinhos fantasmas, mergulhar em outras personas ou simplesmente inventar tudo a partir do absoluto nada. Pode ser um desejoso exercício de liberdade, instância em que criadores abandonam certos fardos que atravessam suas trajetórias pessoais. Indo mais além, talvez escrever não careça mesmo de explicação alguma.

Alguns escritores acendem em nós uma instigante vontade de compreendermos um pouco dos seus processos criativos. Nesse ínterim, importam tanto aspectos ficcionais quanto aqueles que guardam alguma correspondência com a explosão da chamada vida real (se é que podemos classificá-la assim). Um autor como Renato Tardivo nos provoca, com sua obra, a pensarmos um pouco sobre tais questões, sobretudo no território das experiências que podem servir como alimento às narrativas materializadas em livro.

Tendo na bagagem os livros de contos “Do avesso” (Com-Arte/USP) e “Girassol voltado para a terra” (Ateliê), o momento presente reserva a Renato o experimentar dos desdobramentos tidos com seu primeiro romance, “No instante do céu”, recentemente lançado pela editora Reformatório. Em seu novo rebento, o escritor chama atenção para alguns sintomas de nossa contemporaneidade, principalmente aqueles que perpassam o território complexo das relações afetivas. Com sua narrativa ágil e que dialoga com uma espécie de legado das memórias, a temática do amor aparece marcada pela própria noção da instabilidade do sujeito diante da compressão tempo-espaço e de outros fatores mais.

Renato Tardivo também é professor colaborador do Instituto de Psicologia da USP e atua como psicanalista. De forma bastante gentil e atenciosa, ele acolheu a Diversos Afins para uma conversa sobre seus caminhos literários, especialmente aqueles relativos ao novo livro, além de refletir em torno de algumas questões que também implicam num breve olhar sobre o mundo. O resultado do diálogo ganhou substância e corpo na entrevista que agora segue.

 

Renato Tardivo / Foto: arquivo pessoal

 

DA – “No instante do céu” apresenta uma estrutura que chama a atenção logo de imediato. São três instâncias narrativas que se entrecruzam, embora em tempos de ocorrência distintos, e que se prestam a dar corpo e ritmo ao romance. O que dizer dessa escolha?

RENATO TARDIVO – Eu vinha perseguindo a escrita de um romance já há algum tempo. Mas as narrativas terminavam em conto ou novela – e foram publicadas (o conto “Silente”, do livro de mesmo nome, em 2012, e a novela “Castigo”, que saiu em e-book, em 2015). Uma das instâncias narrativas de “No instante do céu”, em sua primeira versão, foi escrita antes das demais, também com o intuito de resultar em romance. Quando a concluí, notei que poderia ter no máximo uma novela – e nada contra esses gêneros, muito pelo contrário, mas queria mesmo experimentar o romance. Daí, aproveitei um aspecto dessa primeira instância (de onde aquele narrador em segunda pessoa escreve e revisita suas memórias, no presente, no instante da escrita) e mergulhei nesse outro tempo, desenvolvendo uma segunda instância. Concomitante a isso, já que seria um livro fragmentado, intuí que o eixo das redes sociais e mesmo a inclusão de textos literários produzidos pelo narrador (que também é escritor) poderiam fazer parte dessa unidade fragmentada que, entre outras coisas, tematiza separações, atravessamentos entre biografia e ficção e o próprio tempo.

 

DA – A ideia de fragmentação, por sinal, é muito associada às experiências que vivemos hoje, sobretudo no terreno da interação através das mídias sociais. E você lança mão desse recurso no livro, quando, por exemplo, insere na narrativa conversas de whatsapp. Acredita que, numa era influenciada pelo excesso de informações e outras tantas urgências, a noção de sujeito aparece desestabilizada sob o ponto de vista emocional?  

RENATO TARDIVO – Creio que sim. Há, por um lado, o excesso de informações, as muitas janelas, o tal encurtamento das distâncias, mas, por outro, via de regra majoritário, a desimplicação dos sujeitos, a banalização das experiências, algo que talvez seja, a um só tempo, causa e consequência dessa desestabilização emocional a que você se refere. Nesses tempos pandêmicos, aliás, temos vivido essa tensão como nunca, não é? Retornando, então, ao romance, acredito que a fragmentação da narrativa, aí incluídas as interações via mídias sociais, se insere tanto na crise que o narrador vivencia – ele se fragmenta – como também em seu processo de reconstrução. Ir encontrando esse narrador à medida que escrevia o livro foi uma experiência bastante interessante. De certo modo, o narrador procura ir contra a corrente, quando tenta inserir comunicações autênticas, carregadas de afeto, em postagens de Facebook ou mensagens de WhatsApp, por exemplo. Há nesse movimento uma procura por diálogo, tanto que ocorre uma inversão importante para a trama ao final, envolvendo a instância narrativa das mídias sociais… Mas se falasse mais a sobre isso, daria spoiler.

 

DA – É no entrelaçamento das memórias que o seu romance encontra uma boa medida para seu fluxo e encadeamento. Isso sugere uma provocação, qual seja a de vislumbrar como lidamos com  nossos sentimentos no território volátil das lembranças. Podemos supor que o sujeito contemporâneo é este ser que vai se dissolvendo diante das situações vividas e das traições da memória? 

RENATO TARDIVO – Obrigado pelo comentário sobre o fluxo e o encadeamento do livro, bem como sobre a provocação que a narrativa pode sugerir. E talvez haja aí um paradoxo interessante: o fato de nos constituirmos no território volátil das lembranças implica o reconhecimento dessa circunstância, de modo que possamos desenvolver recursos para lidar com isso sem que nos dissolvamos. A noção do “instante do céu”, esse tempo que já não é, mas por meio do qual as relações se estabelecem, também toma essa direção. De resto, o reconhecimento das traições da memória é, também, assumir que a vida em certa medida se constitui enquanto ficção. E isso não significa que biografia e ficção devam ser tomadas uma pela outra, o que seria muito problemático, mas que a mera oposição entre os dois registros é tão problemática quanto.

Renato Tardivo / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Pensar autobiografia e autoficção, por exemplo, sempre rende debates nada pacificados. Acredita que as fronteiras que perpassam tais termos são bastante tênues e ao mesmo tempo problemáticas?

RENATO TARDIVO – É isso. Há quem afirme que toda ficção é sempre uma autoficção. Analogamente, há quem diga que toda biografia se constitui enquanto ficção. A obra cinematográfica de Eduardo Coutinho, que venho pesquisando nos últimos anos, é um prato cheio para encaminhar essa questão. Seus documentários, sobretudo a partir de “Santo forte” (1999), parecem transmitir a impossibilidade de se filmar a verdade. O que se pode tentar fazer, dizia Coutinho, é explicitar a verdade da filmagem. No filme-ensaio “Jogo de cena” (2007), ele levou esses questionamentos ao limite, por meio da própria linguagem do cinema. Creio que o mesmo vale para a discussão sobre autobiografia, biografia, autoficção e ficção. Devem-se respeitar as fronteiras – há, evidentemente, especificidades entre os gêneros -, mas mesmo a mais respeitosa biografia (ou autobiografia) passará pelo filtro de quem a escreve. E se toda apreensão da realidade é atravessada pelo ponto de vista, pelas fantasias, em suma, pelo lugar de quem a apreende, sempre haverá algo de ficção no processo. Da mesma forma, toda ficção guardará em alguma medida correspondências com a realidade material, histórica, de quem a cria. Talvez por isso eu procure trabalhar os mecanismos de construção da minha ficção no âmbito dos próprios textos. “Ah, mas isso de metalinguagem já está tão batido”, dizem alguns. Eu tenho cá minhas dúvidas quanto a isso.

 

DA – Sua lembrança em torno de Eduardo Coutinho é bastante pertinente. No documentário “Santo Forte”, por exemplo, o cineasta tem uma sacada genial sobre como representar depoimentos que narram manifestações espirituais ocorridas em alguns lugares. Ele simplesmente filma os ambientes vazios, ou seja, sem a presença humana, onde tais fatos ocorreram. E isso não deixa de ser uma provocação sobre a representação da verdade em situações que demandam um suporte imagético aos relatos que estão sendo expostos diante de lembranças debruçadas sobre o intangível. Essa, digamos assim, saída pela linguagem é reveladora tanto para o cinema quanto para a literatura, não? 

RENATO TARDIVO – Concordo com você, ainda mais no cinema que Coutinho praticava, um “cinema de conversa”. A cena antológica do quintal, em “Santo forte” (1999), é a filmagem do invisível. Não por acaso esse filme marca o início da última e, para mim, mais interessante fase da obra dele – evidentemente, não podemos desconsiderar filmes excelentes anteriores a esse período: “Cabra marcado para morrer” (1984), a propósito, é um dos filmes mais importantes do cinema brasileiro de todos os tempos. Mas, de fato, esses momentos de silêncio são muito reveladores. A sequência final de “Peões” (2004) – quando após alguns intermináveis segundos de silêncio o entrevistado, Geraldo, emerge de uma espécie de poço de angústia e pergunta, triunfante, a Coutinho: “Você já foi peão?” – também toma essa direção. O plano final (um contracampo) de “Jogo de cena” (2007), idem. No caso da obra de Coutinho, tratava-se de uma combinação entre uma série de contingências que ele se impunha na filmagem e um sofisticado trabalho de montagem. O efeito que ele buscava era a descoberta de “personagens reais”. Acredito, dessa forma, na potência da linguagem, como dizia Merleau-Ponty, enquanto silêncio: a palavra que diz ao renunciar a dizer as coisas mesmas. Essa potência indireta e alusiva da linguagem tem a ver com a renúncia de Coutinho a filmar da verdade e pela opção pela verdade da filmagem, ou seja, por abrir-se ao novo, ao inesperado, à alteridade radical, cuja apreensão, no limite, é impossível. É nesse sentido que acredito na potência – poética e expressiva – da metalinguagem também na literatura.

 

DA – Na sua avaliação, tendo em vista o panorama contemporâneo de superexposição da intimidade em que o público e o privado aparecem um tanto diluídos entre si, a figura do autor foi bastante redimensionada?

RENATO TARDIVO – Uma coisa é a diluição do público e do privado; outra, atentar para sua correspondência, suas especificidades e seus limites. Há uma passagem do meu livro em que o narrador transcreve e-mails que seus pais, personagens do romance, teriam lhe enviado. E no mesmo capítulo o narrador diz algo como nem essa troca de mensagens se pode garantir que ocorreu. Quer dizer, enquanto autor, eu estava interessado em exacerbar as ambiguidades entre realidade e ficção, e não em diluí-las. Cristovão Tezza, em “O filho eterno” (2007), e Michel Laub, em “Diário da queda” (2011), para citar apenas dois casos, construíram narradores sólidos, consistentes mesmo, em romances que vieram para ficar. Nesse sentido, o redimensionamento em curso da figura do autor tem menos a ver com a (ou o que se costuma chamar de) autoficção, e mais com a volatilidade das experiências, o trânsito banalizado entre o público e o privado, a vaidade, a necessidade do mercado em eleger o autor ou a autora da vez, para no ano seguinte ninguém mais se lembrar deles, enfim, tendo a pensar por aí…

 

DA –  Em alguma medida, a sua vivência com a psicanálise auxilia seus processos de criação literária, principalmente no que se refere a pensar personagens e comportamentos? 

RENATO TARDIVO – Eu diria que ocorre o oposto: é a minha vivência com a literatura que me auxilia na psicanálise. Nunca me inspirei em um paciente para a criação de uma personagem e sequer preciso me autocensurar nesse sentido: simplesmente não é da clínica que me vem a inspiração literária. São meus fantasmas, os vínculos de minha vida pessoal, enfim, o olhar voltado para dentro e para fora, é daí que surgem minhas tramas. É certo que o sigilo e os cuidados que envolvem a relação tão específica entre terapeuta e paciente contribuem para que eu não faça da clínica uma espécie de laboratório para as minhas narrativas. Mas é, também, inegável que a influência da psicanálise em minha forma de ler o mundo, a cultura, de me ler, enfim, está presente na minha literatura. E isso é meio intuitivo, quase automático – não paro para arquitetar uma trama psicanaliticamente orientada. Por outro lado, a inspiração e sensibilidade literárias, nas condições de leitor e autor, atravessam a minha escuta na clínica, minha forma de ler e procurar compreender o ser humano. Tentando resumir: não parto da psicanálise à literatura, mas da literatura à psicanálise.

 

DA – O mundo como está hoje lhe causa mais desassossego? 

RENATO TARDIVO – Sim, causa muito desassossego, medo, angústia. Mas, por outra perspectiva, estamos vivendo um momento que demanda – e propicia – a introspecção, a reflexão. Caso consigamos suportá-lo, o desassossego pode justamente ser canalizado para a ampliação de representações e para a criatividade. Apesar de tudo, tive um 2020, em isolamento, muito produtivo. Vou citar de novo Merleau-Ponty: “toda tentativa de elucidação traz-nos de volta aos dilemas”. Se encaminharmos o desassossego nessa chave, enfrentando os dilemas e encontrando novas formas para encaminhá-los, então teremos aprendido algo com essa experiência tão dolorosa que estamos atravessando.

 

Renato Tardivo / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Seria insuportável conceber a realidade sem a Arte? 

RENATO TARDIVO – Acredito que sim, como de resto seria insuportável – e mesmo impossível – o contato com a realidade sem mediações. Podem-se incluir aí a religião, o entretenimento, a prática esportiva, enfim, são muitas as modalidades a que podemos recorrer para que a vida seja suportável – e possível. O que me parece central nesse aspecto são a qualidade das escolhas e a sua pertinência de acordo com as especificidades de cada pessoa. É comum ouvir que há quem busque nas artes um respiro. Eu tendo a achar bastante válida essa busca. Mas a questão é: respirar que ares? Nesse ponto, as artes me interessam porque promovem reflexão, movimento, pensamento, e não alienação. Então, se por um lado as artes podem anestesiar um pouco a porrada que é a vida, elas podem também, colocando-nos em contato com a dor, ser um atestado de que a porrada às vezes é suportável e – por que não? – desejável. Sem essa dialética, a realidade seria, sim, inconcebível.

 

DA – O Renato Tardivo que agora publica seu primeiro romance é muito diferente daquele que construiu seus outros livros de contos?

RENATO TARDIVO – Com certeza é diferente. Cada livro tem sua história e seu tempo próprios. O primeiro, “Do avesso” (Com-arte/USP), que ficou pronto em 2010, reúne contos escritos nos anos anteriores, bem como alguns produzidos já para o projeto do livro. Mas a experiência com a sua repercussão foi fundamental para que eu tomasse contato, ali, com o nascimento de um escritor. De lá para cá, houve um amadurecimento natural. Desse amadurecimento é que surgem os narradores, as tramas e as experimentações com a linguagem. Nesse sentido, sou hoje bastante diferente do que era quando escrevi os primeiros livros. Há, no entanto, temáticas que me acompanham desde o início e que procuro encaminhar de formas diferentes. Em um dos livros mais importantes da minha vida, “Lavoura arcaica” (1975), de Raduan Nassar, lemos que se pode “de uma corda partida, arrancar ainda uma nota diferente”.

 

DA – Afinal, por que escrever?

RENATO TARDIVO – “Não sei”, eu poderia começar respondendo, e constato que já comecei respondendo dessa forma, não é? Ocorre que esse “não sei” não significa que não haja motivos importantes para escrever e seguir escrevendo. Posso ter, no mínimo, algumas pistas sobre esses motivos. Descobri a necessidade de escrever na mesma época em que a leitura deixou de ser algo maçante (como era durante boa parte da minha vida escolar) para se tornar, além de necessária, prazerosa. A partir daí, creio que retornamos à linha traçada pela pergunta sobre o mundo sem as artes ser insuportável. Escrever é uma forma de me manter vivo. Como já ouvi de Raduan Nassar algumas vezes, ao comentar sobre o tempo em que escrevia, a literatura era uma espécie de “tábua de salvação”. Eu me identifico com essa perspectiva. E, se essa “tábua de salvação” fizer sentido a outra pessoa, a uma outra pessoa que seja, é porque houve diálogo, correspondência. E isso é vida. Agora, se essa forma de sobrevivência (escrever ficção) vale a pena, vou recorrer de novo a Raduan. Em uma de suas raras aparições públicas, na Balada Literária de 2012, organizada por Marcelino Freire em São Paulo, da qual Raduan era o autor homenageado, perguntaram da plateia: “Valeu a pena escrever?”. Raduan fechou os olhos, pareceu buscar a resposta dentro de si e, após alguns segundos de silêncio, disse resignado, voltando-se ao homem que havia feito a pergunta: “Não sei”.

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

 

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142ª Leva - 02/2021 Destaques Olhares

Olhares

No corpo do mundo

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Joice Kreiss

 

Dizer das coisas em imagens: eis uma definição possível para o ofício de um fotógrafo. Representar um universo de seres, objetos e lugares, tendo a luz como norte da criação. Ter a fotografia como o flagrante da vida que se manifesta em cada desavisado instante, propondo a quem contempla o resultado dos registros um mergulho também sobre o indizível.

Talvez o maior desafio para quem se proponha a captar a luz de um tudo seja o de apresentar recortes que mobilizem em nós algo de diferente. E aqui explico melhor para considerar que tal manifestação artística, quando foge da gratuidade e do óbvio, parece repercutir nos apreciadores o gesto da surpresa e de algum arrebatamento. Já que o mundo tem nos oferecido uma enxurrada de possibilidades imagéticas, podemos arriscar que os artistas que costumam sair do lugar comum produzem mais impacto com suas obras, pois se recusam a ter suas expressões diluídas no marasmo uniformizante dos excessos.

 

Foto: Joice Kreiss

 

O que chamo neste texto de corpo do mundo é, na verdade, todo um conjunto de possibilidades a alvejar sentimentos e percepções em torno de pessoas, gestos, coisas, lugares e fenômenos da natureza. E é nestas frentes vastas de observação que se espraia o trabalho de Joice Kreiss, artista sobre a qual ouso me debruçar agora e que evidencia em sua criação o ímpeto poético das representações.

Joice é fotógrafa de temática abrangente, pois perpassa o humano e também tudo o que o constitui interna e externamente. É, como ela mesma nos diz, alguém que tenta contar histórias através de suas lentes. No percurso narrativo proposto pela artista, temos uma profusão de movimentos ligados ao corpo humano, sinais que emanam de formas e gestos, de um ser e estar captado em meio ao turbilhão da rotina.

 

Foto: Joice Kreiss

 

Há também a Joice que vislumbra poesia e encantamento em diferentes paisagens do mundo, sejam elas urbanas ou marcadas por uma noção de bucolismo. Nesse seu trajeto, a fotógrafa parece eleger o silêncio dos lugares como algo que transborda para além das imagens captadas. Nos domínios da abstração, o olhar sobre a fisicalidade das coisas ganha contornos de reflexão sobre aquilo que parecemos enxergar como concreto, mas que nos é devolvido sob a forma do algo intangível.

Vivendo em Montenegro, no Rio Grande do Sul, Joice Kreiss sempre foi marcada pela fotografia e tem colecionado em sua trajetória participações em exposições, bem como premiações por alguns de seus trabalhos. A artista confessa que, nos últimos três anos, o estudo da fotografia se tornou algo mais consolidado em sua vida.

E assim temos a fotografia que enaltece variadas apreensões da luz. Há a luz que baila através dos corpos, outra que atravessa recantos de cidades. Vem à tona a luz que comunica o alvorecer dos dias e o fluxo das águas naturais. Também nos é permitido vislumbrar a luz que contempla as palavras esquecidas num canto qualquer da vida. Cada um destes fragmentos é instrumento da poesia de Joice Kreiss.

 

Foto: Joice Kreiss

 

* As fotografias de Joice Kreiss são parte integrante da galeria e dos textos da 142ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

 

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141ª Leva - 01/2021 Destaques Olhares

Olhares

O legado das linhas de Vinha Oliveira

Por Fabrício Brandão

 

Desenho: Geometria da palavra

 

Há um universo de coisas que se abrigam na tessitura dos dias. É dizer de formas que compõem mínimas partes de tudo o que pode ser representando pelas mãos de quem se dedica a mostrar o mundo pelas vias da arte. Nesse sentido, cada contorno e traçado se movimentam em favor da aparição de seres e objetos dos mais diversos aspectos, tendo em vista retratarem porções imaginadas da existência.

Na cabeça de uma artista como Vinha Oliveira, podemos supor resgates de memória, flagrantes cotidianos, delicadezas do ser, constelações de afetos e outros tantos sintomas da vida. Seus desenhos anunciam, de modo especial, uma miríade de mergulhos místicos que reverenciam a contemplação de mistérios inerentes à trajetória humana. Sobre este último aspecto, notamos que a criadora entrega seu ofício à sondagem do nosso âmago, trajetos internos que sugerem um diálogo com aquilo que transcende a materialidade das coisas.

Basta um percurso mais detido pelos desenhos da artista em questão e logo percebemos o efeito marcante que se inicia no engenho das linhas. A partir destas, Vinha desenrola os fios de cada gesto, face, objeto ou cenário apresentado. E tudo gira de modo impactante em tal perspectiva, pois é como se uma espiral de manifestações produzisse um resultado perene de possibilidades. Percebe-se, por exemplo, uma roda vida de expressões das personagens mostradas no enleio dos dias, na pulsação de hábitos, crenças e recortes íntimos.

 

Desenho: Geometria da palavra

 

A desenhista, que nasceu no Rio de Janeiro e mora na Bolívia há cinco anos, também é antropóloga e poeta. E foi no que chama de “exílio andino” que Vinha Oliveira, num modo de reencontrar elementos da cultura carioca que mais aprecia e tem saudade, se enveredou por caminhos autônomos do desenho. Estão marcados na memória dela, em especial, o mar, o samba, a música e as festas populares. Como a artista confessa, seus desenhos procuram a essência geométrica das palavras, percorrendo letras de músicas e também os poemas que escreve. Diga-se de passagem, tudo isso foi impulsionado no contexto da pandemia, sendo que o isolamento social levou-a a criar, no Instagram, o perfil Geometria da Palavra, espaço no qual divulga seus trabalhos.

A confissão de Vinha nos põe a pensar também que tudo principia no poder das palavras, pois estas geram a vontade das imagens. Mas é interessante notar que palavra aqui é matéria-prima, alicerce, estrutura sobre a qual se constroem as dimensões da vida representada em linhas, contornos, cores e contrastes. A palavra pensada em sua gênese primeira, que é dentro da mente de quem cria, estimula, projeta, engendra a materialização das formas no produto artístico. Palavra-faísca que dinamiza sensações, observações dos instantes e se constitui também como testemunho dos cenários experimentados na tênue linha entre saberes e sabores.

É de se imaginar porque Vinha Oliveira sustenta que na arte estão todas as respostas. E talvez a artista esteja querendo nos dizer que viver pela Arte é também se lançar num caminho permanente de descobertas, resgates, libertações e outras tantas epifanias íntimas. É renovar o impulso da vida, criar sensações, habitar dimensões outras, ver florescerem os enigmas e emblemas da condição humana. Mais ainda, pode ser forjar um outro indivíduo em nós, aquele que pende mais para as levezas do que para os abismos da realidade.

 

Desenho: Geometria da palavra

 

* Os desenhos de Vinha Oliveira são parte integrante da galeria e dos textos da 141ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.