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134ª Leva - 01/2020 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

De quantas travessias é feito o caminho com as palavras? Certamente de uma infinidade delas. No entanto, há algo na jornada de um escritor que confere um sentido especial às experiências vividas. Esse algo não está na busca meramente exasperada por melhores soluções criativas; tampouco reside no terreno das exposições de uma personalidade que se mostra incensada e cultuada na esfera pública, arena que também alimenta vaidades de ocasião. Estamos a falar aqui do vigor que uma obra ganha quando volta suas atenções para perceber o humano em suas mais diversas acepções.

A noção de que as paragens literárias são instrumento de comunicação e expressão das nossas humanidades é ponto de destaque para uma literatura que fratura apagamentos sociais. E não somente a denúncia de nossas mais comezinhas e seculares mazelas aflora nesse percurso que incomoda, mas também a ideia de que é preciso mostrar universos de existência que trazem suas peculiaridades, seus modos naturais de ser e estar no mundo sem que tal matéria seja reduzida aos cínicos requintes do exotismo.

Refletir sobre certas invisibilidades e inscrevê-las na pele do texto demonstra ser um relevante objetivo para um alguém como o escritor baiano Itamar Vieira Junior. Dono de uma escrita segura e atenta às questões de seu tempo, Itamar vem construindo sua trajetória literária de modo deveras consistente. Desde livros de contos como “Dias” (Caramurê, 2012) e “A Oração do Carrasco” (Mondrongo, 2017), este último finalista do Prêmio Jabuti, já era possível perceber como o autor acenava com um domínio técnico e criativo afinado com a qualidade.

Se Itamar já nos chamava atenção com seus livros anteriores, é com seu último trabalho, o romance “Torto Arado” (Todavia, 2019), que sua obra parece atingir uma espécie de apogeu das percepções. E falar desse ponto alto não significa apenas abordar a ótima repercussão que o livro obteve, incluindo aí uma premiação internacional, mas referendar a continuidade de um processo que é marca registrada do escritor, sua capacidade de olhar para o povo negro e mostrá-lo protagonista diante das reiteradas investidas de invisibilidade patentes em nossa história. A partir da impactante atmosfera de seu recente livro, pudemos conversar com o autor sobre os processos atinentes à escrita de tão significativa obra, além de transitarmos sobre questões fundamentalmente relacionadas à condição humana e algumas de suas implicações no trato social. De todo o dito, Itamar Vieira Junior é um nome de relevância no contexto atual da literatura brasileira, não apenas pela qualidade de seus escritos, mas também pela propriedade do seu pensamento crítico e desperto diante da realidade.

 

Itamar Vieira Junior / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Lendo “Torto Arado”, é impossível não pensar no Brasil profundo que ali está, principalmente se considerarmos tensões que envolvem as populações quilombolas e seu, digamos assim, permanente desterro. De que maneira você mergulhou no cotidiano dessas comunidades e dali retirou subsídios para a feitura do livro?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Sou geógrafo de formação e há quase 14 anos eu trabalho com as populações do campo. Primeiro no estado do Maranhão, onde conheci comunidades quilombolas, indígenas, ribeirinhos, sem-terra, e depois no estado da Bahia. Anos mais tarde fui fazer meu doutoramento em Estudos Étnicos e Africanos, que estava intrinsecamente relacionado com o meu trabalho como servidor público, e pude aprofundar minha pesquisa. A história de “Torto Arado” me acompanha há mais de 20 anos. O título, inclusive, remanesce dessa minha primeira tentativa de escrevê-lo – sem êxito – na adolescência. A história das irmãs, a relação com o pai que fala com os espíritos, todo esse núcleo central da trama permaneceu. Com o passar dos anos a história incorporou questões de ordem sociológica que refletem a minha formação, a minha ancestralidade e o interesse pela história do Brasil. Ao longo de anos – eu que nasci numa grande cidade -, tive o privilégio de conviver com camponeses, escutá-los, aprender sobre a vida no campo e conhecer suas histórias. Era o que eu precisava para retomar esse antigo projeto de escrita.

 

DA – Nessa sua aproximação com as comunidades, certamente foram inúmeras as narrativas escutadas. Ao mesmo tempo em que você teve contato com esse manancial de depoimentos, percebeu também uma necessidade de visibilizar tais grupos no seu mister de escritor? Indo mais além, diria que “Torto Arado” encerra um clamor consciente?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Primeiro acho que é desejo de qualquer escritor contar uma boa história. Embora esteja previsto no meu projeto literário percorrer caminhos diferentes para refletir minimamente a grande diversidade da nossa sociedade, o que me levou a escrever “Torto Arado” foi a vontade de contar uma história que contemplasse o anacronismo dos nossos processos sociais, a herança da escravatura, a luta pela terra como o direito mais elementar da existência porque sem chão não há vida, movimento, não há alimento. O romance trata de um grupo de trabalhadores que, em contato com outros grupos que travam lutas por melhores condições de trabalho e por terra, se identifica como quilombola. Mas poderiam ser indígenas, ribeirinhos, geraizeiro, sem-terra, qualquer agrupamento humano que detivesse este elo de coexistência com a terra que nós, ocidentais e urbanos, parecemos ter perdido.

 

DA – As irmãs Belonísia e Bibiana são algo emblemáticas na medida em que expressam, dentro de duros enfrentamentos sociais, o vigor do universo íntimo que as atravessa. Pelo olhar de cada uma delas, o livro ganha uma pulsação narrativa diferenciada, evocando o duplo interno/externo a partir do modo como ambas pensam e vivem suas trajetórias. Diria que tal escolha narrativa lhe foi mais desafiadora?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Concebi a história inicialmente narrada por uma única irmã, a Belonísia.  A determinada altura da escrita eu percebi que a diferença e a complementaridade de suas vivências só poderiam ser transmitidas ao leitor de forma plena se conhecemos as suas perspectivas individuais. E por que são as mulheres, as narradoras, e não os homens? Pelo simples fato que nesta região, no interior do Nordeste, encontrei mulheres que pela ausência do homem por diversos fatores – morte por baixa expectativa de vida ou violência, emigração para o trabalho ou mesmo o abandono da família -, as mulheres assumem um protagonismo que precisava ser visibilizado. Por isso são elas a narrarem a história. E são três narradoras que contam as suas perspectivas sobre o que aflige a população de Água Negra: seja pelo olhar infantil e sonhador de Bibiana, ou pelos gestos duros de quem não sabe viver além da terra de Belonísia, ou pelo olhar de quem pôde atravessar a história para contar que o passado não nos abandona, por mais que tentemos nos afastar. Na nossa trajetória social quase sempre iremos alcançar as respostas sobre o presente em um passado aparentemente distante, mas que se perpetua em práticas vigentes que refletem uma segregação secular e colonial.

 

DA – A atmosfera de “Torto Arado” também nos lembra a existência daquilo que podemos chamar de invisibilidade em camadas, ou seja, de experiências de apagamento que, num efeito cumulativo, agregam simultaneamente a condição da negritude, da pobreza, do ser mulher, dentre outras. O que dizer desse delicado território de humanidades?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Com a tecnologia que dispomos acho que essa invisibilidade só persiste porque é interessante ao sistema. A literatura reflete também as diferenças deste mesmo sistema: quem tem acesso à educação de qualidade? Quem pode ler bons livros, escrever conforme a norma culta ou experimentar novas formas? E durante as últimas décadas, com honrosas exceções, a literatura não refletiu a nossa diversidade étnica e cultural. Esteve durante muito tempo voltada para os conflitos da classe média branca. Esse é um ponto crucial quando me proponho a escrever: quero que a literatura se volte para as clivagens sociais, os cantos esquecidos do país. Talvez nessas experiências limites de humanos ocultados por um sistema esteja a chave para entender o todo. É o que eu gostaria de capturar com a escrita: o mais profundo dessas existências, que consequentemente será nossa também.

 

DA – A fixação do homem do campo à terra também levanta reflexões para quem lê seu livro. E estamos falando aqui duma noção de pertencimento ao solo ancestral, mesmo que não se tenha, por sucessivas gerações, a posse formal dos territórios em que tais pessoas habitam desde sempre. Na sua opinião, de que modo continuamos nos equivocando quando o assunto é pensar e viabilizar uma reforma agrária no país?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – O atual problema fundiário brasileiro reflete as questões da formação do país: a primeira diz respeito à exploração do solo brasileiro imposta pela colonização em modelo de sesmarias, que legou grandes extensões de terra a particulares que gozavam de status ante à Coroa. A segunda foi quando esse modelo de sesmarias foi substituído pela lei de terras de 1850, que firmou a compra como a única forma de acesso à terra. E quem poderia comprar? Foi assim que se consolidou parte da nossa desigualdade social, que poderia ter sido corrigida pela reforma agrária, que foi, nos últimos governos, incipiente, e agora se encontra definitivamente abandonada como política pública. Esta é a nossa mais elementar questão social, porque um país não pode prescindir de alimentar a sua população de forma extensiva e ambientalmente correta, protegendo a natureza. Não pode querer que sua população renuncie o direito à terra, porque sem a terra não há vida. Ainda não temos asas para vivermos suspensos na atmosfera, e mesmo os que têm, os pássaros, precisam descer para comer o que nasce do chão. Daí a importância dos muitos movimentos que lutam por seus territórios: indígenas, quilombolas, dos atingidos por barragem e ribeirinhos. Para essas populações, a terra não é um bem econômico, mas, sim, a sua história. É a extensão de seu corpo. É a sua morada. E o modelo neoliberal em curso privilegia as grandes corporações que não têm nenhum vínculo com a terra, que a usa como um recurso sem vida, sem passado ou qualquer esperança de futuro. Não há conciliação quando se tem os graves problemas fundiários, que não são somente fundiários, mas fundantes da nossa desigualdade social.

 

Itamar Vieira Junior / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Nos últimos anos, o meio acadêmico tem sido cada vez mais palco de pesquisas, dissertações e teses que buscam discutir e repensar os diversos apagamentos sociais que enfrentamos cotidianamente. Você mesmo é egresso de um doutorado em Estudos Étnicos e Africanos, por exemplo. De que forma tais esforços podem romper o confinamento universitário e ser algo efetivos na sociedade?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – As pesquisas e o pensamento decolonial que encontraram abrigo nos centros universitários têm chegado de muitas formas à sociedade. A literatura é apenas um dos caminhos que tem sido percorrido. De forma pragmática, essa produção acadêmica tem sido atravessada pelo pensamento decolonial: da arquitetura às ciências humanas e sociais, passando pelas artes. Ela tem possibilitado a construção de uma sociedade menos desigual, onde se discute e se pensa formas de reduzir os danos de nossa própria história. Principalmente quando as pesquisas estão voltadas para fora da universidade, quando não se encerra nos gabinetes e salas de aula, e tenta pensar o mundo com os próprios sujeitos da história. É claro que essa evolução não é permanente, nem mesmo constante, um exemplo é o estado de regressão das pautas sociais em que o Brasil e o mundo mergulharam nos últimos anos. Mas a produção universitária continua, mesmo sob ataque, e será um farol para reconstruirmos o que está sendo destruído.

 

DA – Em escala global, acredita que estamos vivendo um processo de desumanização?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Não creio. Se olharmos a trajetória da humanidade, cercada de violência e grandes calamidades, vivemos uma época de ouro. Houve avanços para os direitos humanos no século XX, muitos surgidos a partir de grandes tragédias, como o holocausto nazista. É claro que vivemos em um mundo conservador, pouco afeito às mudanças, então elas quase sempre vêm acompanhadas de reações, como as que vivemos atualmente com a ascensão política da extrema-direita e dos regimes autocráticos em alguns países. Mas a humanidade tem ganhado consciência, humanidade, e nosso século promete mais avanços em relação aos direitos humanos.

 

DA – Sua carreira literária hoje assinala uma visibilidade bastante significativa, com sua obra sendo reconhecida e atingindo repercussão dentro e fora do país. O que mudou, de fato, em sua trajetória em face dessa projeção? O homem Itamar hoje é sujeito de ânimo renovado em face dos aprendizados? 

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Acho que o mais interessante disso tudo foi o contato que pude estabelecer com escritores e leitores, seja no Brasil ou em Portugal. E também o fato do livro ter sido editado por um grande grupo editorial me fez conhecer o trabalho dos editores de carreira, as estratégias de marketing e a profissionalização da escrita. Tenho aprendido muito, mas, de fato, pouca coisa mudou. Porque o que continua a me mover é a paixão pela literatura, e para tanto não precisei estabelecer uma carreira ou obter um prêmio, apenas dei liberdade à minha intuição.

 

DA- Há quem sustente que mergulhar nos caminhos da arte seja também uma alternativa para suportar o peso que a realidade das coisas nos impõe em certa medida. É razoável considerar essa espécie de fuga diante do universo oceânico e desafiador que é o autoconhecimento?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Não considero a arte uma “fuga”, ela é parte da experiência humana. Desde as pinturas rupestres, que datam de 40 mil anos, aos nossos dias, o que existe e persiste é a necessidade do homem criar e comunicar a sua existência. Concordo que dentro do conjunto de expressões humanas, a arte talvez seja a que nos permita “suportar o peso da realidade”, porque está intrinsecamente relacionada à nossa dimensão subjetiva. É nela ou a partir dela que nos autoconhecemos: o medo, os afetos, as grandes questões da vida, ainda que num plano subjetivo. Por ser subjetivo, talvez nos permita emular a nossa própria vida e enfrentar os problemas que estejam por vir. A literatura, em especial, é generosa neste sentido: quando pegamos um livro para ler nós estabelecemos um “contrato” com o autor e as personagens de que, durante um período, no processo silencioso e íntimo da leitura, “viveremos” aquelas vidas. Assim, nos colocamos no lugar do outro num denso movimento de humanização. É o que chamamos de empatia.

 

DA – Afinal, por que escrever?

ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Esta é uma pergunta interminável, porque não se encerra em nenhuma resposta. Lembro de ainda adolescente ter lido uma entrevista da escritora Rachel de Queiroz e fiquei muito intrigado com a resposta à mesma pergunta, onde ela dizia que escrevia porque não sabia cozinhar. Anos depois vi uma lendária entrevista do jornalista Jaime Lerner à escritora Clarice Lispector que devolvia a pergunta com outra pergunta: “e eu sei?”. Eu imagino que esse imenso desejo humano de se comunicar e legar para as gerações futuras um registro é que nos move a ler e interpretar o mundo através da arte. Penso nos homens e mulheres que nos deixaram registros da arte rupestre, quais eram as suas intenções ao pintar as paredes das cavernas que habitavam? Certamente queriam comunicar algo aos seus pares e legar, quiçá, registros para as gerações que viriam. O que me move a escrever é a vontade pessoal de registrar o meu tempo, de comunicar aos que se interessarem o meu olhar sobre o mundo, que reflete por sua vez os olhares dos que me influenciaram. Ao mesmo tempo, escrever reflete uma fé inabalável na literatura, não de que ela possa mudar ou alterar nada, mas de que possa ser um exílio, confortável ou não, para os que buscam conhecer a si mesmo.

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre em Letras e doutorando.

 

 

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133ª Leva - 05/2019 Destaques Olhares

Olhares

A reinvenção do humano em Canato

Por Fabrício Brandão

 

Pintura: Canato

 

Revisito os arquivos do tempo e chego até o ano de 2008. Na ocasião, pude me deparar, pela primeira vez, com as pinturas de Cláudio Canato, artista plástico paulista. Mas esse seria apenas um mero relato de uma descoberta não fosse o impacto que as obras do artista causaram em mim àquela época. Chamava atenção naquele momento o modo como o artista reproduzia as formas humanas, deixando entrever a naturalidade de gestos e expressões das figuras retratadas.

Foi, então, que promovemos na Leva 21 uma pequena exposição com alguns trabalhos de Canato. Era possível perceber ali que havia toda uma peculiar forma de se lidar com as construções figurativas do humano. E como o próprio artista sustenta, ele desenvolveu uma maneira própria de pensar a representação humana em suas pinturas, engendrando um modo de conceber pessoas como resultado direto de sua imaginação, ou seja, sem o uso de modelos como ponto de partida para a criação. O especial nessa atmosfera criativa é pensar que a obra de arte eclode a partir do âmago de quem a cria, dinamismo de epifanias interiores.

Canato não nega o mundo. Ainda que seus corpos e rostos sejam marcados pelo traço inaugural da descoberta, há uma comunhão com signos universais de nossa existência. Por não negligenciar aquilo que também somos enquanto espécie, o artista em questão ressignifica as experiências humanas a seu modo.

 

Pintura: Canato

 

A anatomia do corpo tem seu idioma específico no conjunto da obra desse paulistano. São contornos e formas que exalam tensões da natureza humana, revelando também contrastes entre a celebração do gozo das vivências e os embates questionadores da nossa jornada. Mas eis que o corpo, em sutis jogos de luz e sombra, é pensado pelo artista como algo sacralizado não por constituir matéria de perfeição idealizada dos homens, mas como o próprio retrato da dualidade e das oposições entre o físico e a aspiração espiritual. A despeito disso, estão os murais pintados por ele, bem como as obras que compõem tetos de algumas capelas em São Paulo.

Há uma diversidade de possibilidades nas frentes que o artista atua. São exemplo disso não apenas os murais e capelas já mencionados, mas também retratos, desenhos, séries e um olhar voltado para a literatura infantil, na qual Canato ilustra e redige textos de alguns livros. No que tange aos murais, há um em específico que vem se destacando como um dos trabalhos mais significativos do artista na atualidade. Trata-se de “El Quijote”, que foi pintado no Colégio Miguel de Cervantes, em São Paulo. A importância dessa obra certamente está no modo como, num ambiente escolar, a arte se insere de maneira natural na construção do saber, instigando a curiosidade dos alunos não apenas em torno do processo criativo, mas da temática abordada.

Mesmo tendo sido influenciado por componentes estéticos advindos, por exemplo, de movimentos como o Renascimento e o Barroco, Canato não abre mão de pavimentar seu próprio caminho no quesito criação. Para tanto, promove seus mergulhos pessoais nos temas pensados, retirando deles construções que advogam pelo exercício de sua individualidade artística. É de se considerar que rupturas com o passado não são obsessões do artista, tampouco constituem alguma espécie de peso. Com leveza e percebendo seus chamamentos interiores, Canato ressignifica o humano com aquilo que tem de melhor, sua assinatura.

 

Pintura: Canato

 

* As pinturas de Canato são parte integrante da galeria e dos textos da 133ª Leva

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista e mestre em Letras.

 

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132ª Leva - 04/2019 Destaques Olhares

Olhares

A permanência da poesia

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Luiz Bhering

 

Quem somos nós em meio a tudo? Quantas vidas cabem no registro da paisagem, no olhar preciso e poético do mais atento observador? São perguntas que surgem quando pensamos no ofício do fotógrafo, este sujeito que, nalguns momentos, mais parece habitar uma dimensão da existência paralela ao que vivemos. Desse tipo de artista é esperado que capte o instante e suas frestas, sensações que por vezes deixamos passar em meio ao imediatismo dos dias.

Entre minúcias, recantos e gestos humanos, paira contínuo o desfilar da vida, palco que sabe a descobertas, embates, contemplações e denúncias. Ao mesmo tempo em que nos deparamos com o Belo, também somos confrontados com as mazelas que engendramos em nós e na relação com o Outro. Assim, a existência vai se configurando entre os limites do materializado e do intangível. No entanto, os olhos sempre podem mais, posto que transcendem a fisicalidade das coisas e apontam para direções outras, percepções ligadas aos sentimentos que carregamos dentro e fora de nós.

No transitar de experiências que permeiam o traçado cotidiano, estamos diante do trabalho de um artista como Luiz Bhering, alguém que traz em seu engenho variados modos de acepção da realidade. Suas imagens demarcam um amplo território de possibilidades cujo potencial narrativo encerra a trajetória de pessoas e lugares. Mas abordar gente em seu enleio diário requer muito mais do que apenas registrar gestos rotineiros, ou seja, exige do fotógrafo que este permaneça o tempo todo atento ao que pode suplantar o gesto banal da vida. Tal resultado de rasurar as margens do óbvio faz da arte de Luiz Bhering algo que provoca nossas percepções mais sublimes, pois eleva a dureza dos dias ao patamar de delicadeza e sensibilidade, atributos por demais caros diante do turbilhão coletivo de vivências que nem sempre se conciliam.

 

Foto: Luiz Bhering

 

Luiz observa os homens e seus incessantes rituais, vê-los interagir com seus iguais nos mais difusos espaços de convivência, retira dos gestos daqueles seres o substrato simbólico de muitas imagens. Desse modo, eis que o fotógrafo testemunha o quanto a intervenção humana foi capaz de marcar decisivamente a paisagem urbana, com a explosão de grafismos, arquiteturas, cores, todos eles assemelhados a uma coletânea de vestígios que sugere a genuína expressão duma vontade de permanência. Do mesmo modo, nos é dado também pensar que os homens inscrevem seus papéis no mundo pelo legado do silêncio e da ausência. Tal sentimento as imagens de Luiz não se furtam a representar, tendo em vista que lugares hoje esvaziados de ocupação foram, outrora, palco de substantivas ações dos homens. Diante da emergência do presente, podemos vislumbrar que esses ambientes ocultam em si narrativas de eras pretéritas, enredos agora clandestinos.

Natural do Rio de Janeiro, Luiz Bhering confessa que toda a sua vida está devotada ao envolvimento com a fotografia, reconhecendo nela não somente seu ofício e sustento, mas a fonte fundamental de sua expressão, espécie de idioma próprio. Segundo o artista, ela é seu passaporte para a vida, pois permite que até mesmo um simples transitar pela rua signifique uma experiência repleta de descobertas. Formado em Fotografia pela City Polytechnic School of Arts and Designer de Londres, Luiz traz em seu vasto currículo vivências artísticas e exposições dentro e fora do Brasil.

A partir do olhar que não negligencia possibilidades de descoberta, por mais singelas e inusitadas que estas possam lhe parecer, Luiz engendra seus caminhos de artista. É, como podemos pensar, um estado permanente de atenção, mas sem a ideia de que tal disposição represente o peso de se viver sôfrega e insistentemente alerta. E quando um artista revela interesse em estar desnudo e atento à simplicidade da existência, posto não temer o que surge sem aviso, é ele mesmo um alguém em estado permanente de poesia.

 

Foto: Luiz Bhering

 

* As fotografias de Luiz Bhering são parte integrante da galeria e dos textos da 132ª Leva

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista e mestre em Letras.

 

 

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132ª Leva - 04/2019 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Não calar a voz diante da vida, seus desígnios, chamados, imperativos e desafios. Não se curvar a toda sorte de vaticínios propalados pelo pensamento autoritário e totalizante. Não deixar de ser parte nos processos que compreendem o entendimento de nossas humanas idades. Tomadas assim, em doses contínuas de arremessos, tais negativas resumem em si o gesto mobilizador de uma existência que não se furta a travar inalienáveis combates com o Tempo. Ah, o Tempo, este senhor de domínios difusos, majestoso disseminador dos mistérios nos trajetos que cada ser experimenta. Se saber e sabor caminham juntos, o ato performativo de viver parece se perder na amplidão do mundo, arranca deste a marca poética do sopro vital.

De todo o acima dito, o agregar de tenacidade, vivacidade, paixão e intensidade serve bem para apresentar uma pessoa como Rita Santana, Mulher, Poeta, Professora, Atriz e Artista. Todos esses atributos, assinalados aqui em iniciais maiúsculas, são mera tentativa de enfatizar atuações de relevância diante da constatação de que os papéis desempenhados pela artista em questão são feitos com a vivência apaixonada da verdade. Mas o exercício da verdade aqui é, dentro dos mergulhos pessoais, a noção de que uma pessoa como Rita pensa para além dos seus domínios, engendrando em seu ofício de escritora a manifestação ativa da preocupação com o coletivo, com o Outro. São percursos reflexivos que denunciam violências e tiranias, mas que também sabem ofertar, sobretudo em versos e opiniões, proposições necessárias de delicadeza e sensibilidade.

Autora de obras impactantes como “Tratado das Veias” (Letras da Bahia, 2006) e “Alforrias” (Editus, 2015), dentre outras, Rita Santana compartilha agora conosco toda a pungência lírica que habita seu mais novo livro de poemas, o emblemático “Cortesanias” (Caramurê, 2019), cujos versos desnudam significativas tensões e encantamentos da condição humana. Na conversa que agora segue, Rita acolhe a Diversos Afins para manifestar não somente confissões em torno do impacto de seu novo rebento, mas principalmente para falar de si, dos processos individuais que desaguam na sua criação de modo determinante. Perseguidora da Beleza, estamos diante de uma artista profundamente marcada pelos desatinos que testemunhamos no presente. São reflexões que fazem com que cada recanto desta entrevista contenha em si demonstrações de lucidez e entrega.

 

Rita Santana / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Seu mais novo livro, “Cortesanias”, mostra uma Rita Santana no apogeu de sua maturidade poética. E dizer isso não significa que todos os aprendizados estejam postos e encerrados em si mesmos, mas refletem uma consciência de mundo bastante expandida. Como você percebe esse momento?

RITA SANTANA – É um momento de muita liberdade, mais ousadia, menos freios.  O Tempo tem sido generoso comigo, pois ando mais feliz, mais disposta aos erros, aos desafios, às alegrias. Busca! Sou uma mulher de buscas! Hoje, quero alegrias, curto alegrias, vivo as alegrias. Menos preocupada com aquela felicidade idealizada de outrora. Vivo uma Solidão prazerosíssima! Quando tenho tempo livre, estou sempre assistindo coisas, lendo, ouvindo música. Sinto falta do Mar. Sinto uma falta tremenda do Mar! Vivo a minha maturidade, ainda povoada de pequenos equívocos, mas com uma consciência maior sobre tudo que me atinge, tudo que atinge o outro. Dou um foda-se muito mais intenso a qualquer um que tente atropelar minhas opções, meu caminho, meu estilo, meu jeito, minha obra, minha vida. O mundo exterior, as opiniões importam cada vez menos. Gosto de mim pra caralho e de tudo que construí, o meu universo. Assim,  chega Cortesanias, em plena maturidade! A proximidade da velhice me permite ser com uma fluidez deliciosa. Ser com mais verdade. Ando mais disposta à vida, enquanto envelheço. Completei 50 anos! Não sei se o livro revela ou não uma maturidade poética, mas revela certamente a minha disposição para ousar, para ser fiel ao meu desejo de expressão. Tudo convergia para uma situação de plenitude e de felicidade.  Arrisquei assumir minhas paixões que fervilhavam naquele momento: a pintura, as artes plásticas, a Música – de maneira sub-reptícia, pois não entendo tecnicamente nada de música, sofro com uma desafinação congênita e constrangedora, mas amo a Música! Não vivo sem Ela. É ela quem busco quando escrevo prosa ou verso. Cortesanias reflete esse momento de assunção dos desejos. Sou uma escritora comprometida com o meu Tempo e tento acompanhar suas demandas, mesmo que de uma forma às vezes anacrônica, com a minha linguagem arcaica, modos arcaicos, estilo distante desse Tempo que eu persigo. Ideologicamente, abordo no livro questões que me afetam profundamente e que sacolejam meu equilíbrio no mundo. Vivemos tempos de desmoronamento absoluto de todas as certezas. O que você chama de expansão talvez seja um momento de muita contemplação que vivi de forma intensa naquele período que antecedeu e encontrou a feitura do livro. Me sentia drogada, como se estivesse alterada o tempo inteiro. Uma sensação sinestésica que me atravessava – e ainda atravessa de outra forma – a minha vida, o meu olhar.  Calhou de receber minha licença-prêmio e ter tempo para viver com mais intensidade aquele momento. Há algo muito especial que influencia o livro: o plantio e a espera da germinação das sementes. Compro sementes e aguardo a surpresa das flores, acompanho o processo e essa atividade me dá um prazer terrível! O livro é fruto dessa paixão pela beleza! Persigo a Beleza! Durmo com as cortinas abertas e observo o movimento dos astros! Fotografo os amanheceres e os versos expressam essas experiências. Sou louca! Eclipses, planetas, o Cosmos, tudo isso me atinge em cheio e o livro é a revelação dessas paixões, obsessões. Talvez daí essa sua afirmação de expansão, pois Cortesanias é fruto desse processo de observação, descoberta, pesquisas. Cortesanias é o meu olhar e a minha oferenda à Beleza.

 

DA – “Cortesanias” abarca também um sentimento de partilha social, do envolvimento com as questões vividas coletivamente. Isso, por exemplo, aparece com força num poema como “As Comedoras de Batatas”, o qual também exorta uma comunhão do feminino, traço forte de sua caminhada enquanto poeta. Que tipo de reflexões essa atmosfera movimenta em você?

RITA SANTANA – Eu sou uma artista de esquerda e sempre convivi com petistas e comunistas. Tenho um sentimento de que precisamos tornar o Brasil menos excludente, mais justo, melhor.  A tela de Van Gogh toca essa sensibilidade, pois estamos diante da miséria, da pobreza e da exploração, no entanto, há uma mesa em torno da qual se compartilha o alimento, comem batatas. Van Gogh fez-se um deles, viveu como eles para experimentar a alteridade com mais verdade. Isso trouxe para mim, diante da tela, a consciência de que, mesmo na Literatura, travamos embates de gênero, de classe, racismo, intolerância, pensamentos excludentes. Vivenciei um conflito coletivo com mulheres no qual essas questões explodiram de forma danosa para o coletivo ou os coletivos envolvidos, forjaram rupturas irremediáveis dentro de mim, mas, principalmente, possibilitaram um olhar ainda mais arguto para uma multiplicidade de interesses, omissões, posicionamentos e posturas nesse meio literário especificamente – éramos mulheres e escritoras! Daí, convoco as mulheres escritoras que comem batatas comigo, que compartilham o pão – como companheiras, camaradas. Mas também resolvo a querela real, através do recado simbólico que deixo ali, também para mim que sofri reformulações e aprendizagens. Faço uma analogia com o MST, o lado em que estou e o outro lado, o lado de mulheres que são donas de vastas terras improdutivas e não estão dispostas à empatia! Apesar do discurso pomposo de coletividade, de igualdade, permanecem alheias ao outro, às outras e suas idiossincrasias, sua realidade de exclusão, invisibilidade. Na hora H o que preponderará será o pensamento das brancas, classe média, legitimadas como escritoras. O momento é de deslocamento. Saio desse embate mais forte, mais combativa e mais corajosa. Com perdas, muitas perdas.  Às vezes, também sofro de prepotência e julgo o meu discurso perfeito, corretíssimo, sem observar o lugar de fala; sem atentar que há um discurso muito mais pertinente que o meu, o discurso de quem sofre na pele a dor. Estou muito disposta a aprender e essa disposição é indispensável para a transformação que almejamos. Hoje, sofremos a morte de Ágatha Vitória Sales Félix, fuzilada no Rio de Janeiro, hoje foi o seu sepultamento. O poema me conecta com uma coletividade de mulheres negras que perdem seus filhos, filhas; com uma gente que teme o retrocesso político que vivemos com censuras impensadas na arte, na cultura, através de discursos absolutamente deploráveis que foram legitimados pelo povo brasileiro nas urnas. Os coletivos são difíceis! A minha forma de atuar no coletivo é através da minha atitude pedagógica como professora, promovendo sonhos, reflexões e transformações sociais e como escritora denunciando injustiças, criando imagens e delírios, fazendo arte. Sou cada vez mais combativa! Estou entre todos, todas e todes que sonham um mundo melhor. Aprendendo com Malala, Greta. O diálogo com Van Gogh é um sonho porque como artista também sou vulnerável, confusa, desejosa, débil, o oposto do que acredito, contraditória, insana e sonhadora. Uma feminista aprendiz cheia de conflitos com a velha Rita. Mas tenho 50 anos e estou mais disposta aos enfrentamentos comigo mesma e com esse mundo escroto que temos que enfrentar diariamente.  Um mundo velho demais para tantos desejos lindos!

 

DA – Estamos vivendo um processo de desumanização, através do qual também perdemos esperanças, seja aqui ou em outras partes do mundo?

RITA SANTANA – Desumanização plena! As máscaras caíram. Falar em direitos humanos hoje virou uma piada, é preciso ter coragem, inclusive na escola, espaço que sempre foi de respeito aos direitos humanos, à Democracia. É preciso exercer uma verdade muito plena interna para se dispor a Ser e exercer a liberdade de cátedra, expondo e revelando a sua formação humanista, humanitária, respeitosa às leis. O discurso das armas venceu as eleições no Brasil, no Rio de Janeiro. Vivemos um pós-golpe, onde uma mulher foi destituída do poder por crápulas, alguns presos, com discursos absolutamente ridículos, violentos, desumanos. A sociedade se mostra violenta, homofóbica, racista. A elite brasileira se sentiu ameaçada com a nossa ascensão em universidades, em ministérios, em espaços de poder: mulheres, negros, gays, lésbicas, indígenas. As elites não suportaram! Aqui, vivemos ainda uma sociedade colonial, com pensamento escravocrata, excludente. No entanto, tenho esperanças! Sempre terei esperanças! Ainda temos leis que respaldam a sociedade e temos a nossa voz. Há artistas! Ainda temos muitos professores e professoras decentes em nosso País. Retomaremos o nosso País! Retomaremos o caminho da busca por uma justiça social, sim. Sou das Utopias! Cresci ouvindo os tropicalistas e nasci em 1969, um ano de transformações e sonhos. Convivo com muitos alunos e alunas que sonham e que mantêm um olhar crítico e sensível, portanto, há Esperança! Aqui e acolá temos decisões judiciais que retomam a Democracia. O Intercept revelou o que já supúnhamos e transformou o olhar de muita gente sobre  Moro e sua turma. É óbvio que meu coração anda susceptível e a tristeza diante desse quadro político é perturbadora. Óbvio que tudo é desalentador diante do retrocesso que vivemos. Estamos adoecendo! Mas há a Poesia, a Arte e jovens atentos. Há Glenn e suas denúncias! Há reações contundentes contra os fascistas. Somos muitos! O mundo está conosco contra o discurso misógino de Bolsonaro e sua família! Há Resistência! Há a Literatura e ela humaniza.

 

DA – Avançamos um pouco no que se refere à participação dos segmentos minoritários na literatura brasileira?

RITA SANTANA – O Brasil é racista! A Literatura não é uma ilha alheia ao País. Nossas vozes hoje são mais ouvidas, indubitavelmente. Entretanto, é como se estivéssemos em compartimentos específicos, em gavetas que são abertas em horas apropriadas para razões específicas, interesses. Durante os eventos, sinto que nos apartam das escritoras e dos escritores consagrados, como se um abismo nos separasse dessa camada olímpica. Quando há mesas de escritores, geralmente são os mesmos nomes de sempre. Nossas mesas são dedicadas às mulheres, às mulheres negras, às vozes divergentes. Acho ótimo participar e estar entre os meus, entre as minhas, mas constato também que o confronto de vozes e experiências tão absolutamente diversas seria ainda muito mais rico para os eventos, para os possíveis e futuros leitores. Sempre que posso, denuncio e registro esse incômodo. Durante uma edição da Flica, Aidil Araújo Lima esteve numa mesa com Julián Fuks, sou apaixonada pela escrita de ambos e só perdi aquele encontro porque a minha mãe adoeceu. Essa possibilidade de diálogo me interessa muito. Fiz o prefácio do livro de Aidil , “Mulheres Sagradas”, e li “A Resistência” de Fuks. Imagino como deve ter sido lindo o instante em que ambas as delicadezas se tocaram. Não importa a disparidade midiática que corta e separa seus nomes e suas vivências. Espero que esse seja o novo momento: o momento dos encontros improváveis, dentro da velha perspectiva canônica. Assim, os abismos culturais são atenuados. Ou não?! Há um movimento de Leitoras de mulheres, Leitoras de mulheres negras que mobiliza muita gente por todo o país e, principalmente, leitoras qualificadas, envolvidas, politizadas. Além disso, as universidades se abrem – mesmo que com alguma resistência – às vozes que destoam/diferem/ou não são canônicas/ do canônico, para eventos importantes, tradicionais, com reconhecimento histórico; há uma divulgação das nossas poéticas nas graduações e se torna cada vez mais frequente o estudo de nossas obras na academia, o que considero uma das maiores riquezas que o Universo nos proporciona, pois, simbolicamente, é preciosa demais a dedicação em torno de nossa escrita, o registro permanente nas faculdades, ou seja, a inserção de nossos nomes em um dos mecanismos canonizadores mais vigorosos da sociedade. Legitimidade! Apesar dos avanços, percebo que são poucos e poucas os eleitos negros para que se destaquem no mundo literário e as razões me parecem quase sempre extraliterárias! Não sei! As pesquisas revelam e observo uma preponderância branca, classe média, masculina entre os escolhidos. Mulheres e homens do eixo Rio/São Paulo, quase sempre. O resto do Brasil parece resistir em reconhecer os nomes que temos, como se não houvesse talento ou vida literária no Nordeste e no Norte! São minhas impressões, minhas inquietações, observações.  Elegem alguns escritores negros e algumas escritoras negras para que o abismo não se torne um vexame ainda mais explícito. O desconhecimento, a falta de circulação de nossas obras não significa que não tenhamos tesouros preciosos em nosso território. Portanto, vivemos uma segregação! Nossos textos ainda são medidos com referências pautadas nos preconceitos arraigados numa sociedade com padrões eurocêntricos, com referenciais projetados por processos midiáticos, e razões que nem sempre passam apenas por critérios literários. São muitos os dados que movimentam o universo literário, o mercado. É um campo que reflete tantas de nossas exclusões. As minorias sociais ainda precisamos de muita luta, resistência e insistência para que um dia a História seja outra e tenha muitas faces, reflita a nossa diversidade em gênero, etnias, classes, origens… A inserção dessas minorias nas universidades brasileiras certamente será e é um agente de profundas transformações em todos os campos e esse movimento é irreversível e pungente. Há revoluções no cinema negro, no cinema de mulheres negras e tudo isso é fruto de um projeto político de inserção social que tomou conta do País e transtornou a elite brasileira. A revolução está em curso e é poderosa!

 

DA – Você é bastante ativa nas mídias sociais, sobretudo no que se refere a divulgar sua obra e aspectos de seu processo criativo. Vivemos na contemporaneidade uma tendência de que o autor cuide de sua produção e também a faça circular, espécie de curadoria de si mesmo. Como equilibrar as ações num tempo em que a superexposição da vida privada, nalguns casos, parece adquirir mais relevância do que a obra?

RITA SANTANA – As redes sociais são utilizadas por mim primeiramente porque, como professora, preciso me atualizar e fiz alguns cursos pelo estado em que aprendíamos a utilizar algumas ferramentas. Uma necessidade de acompanhar o meu tempo e, desde sempre, divulgo a minha escrita, a escrita de outras escritoras. O próprio blog surge assim, após aprender o básico, criei Barcaças com o  propósito de divulgar meus interesses, de forma tosca, amadora, e acabei gerando uma rede de conhecimentos e trocas que se tornaram importantes para a escritora. O blog está desativado por algumas razões: escassez de tempo para alimentar suas páginas e completa incompetência para resolver problemas técnicos. Nunca paguei a um profissional para alimentar minhas páginas, infelizmente. O Facebook promove uma série de prazeres e satisfaz algumas necessidades. Além das trocas intensas entre escritoras e escritores, leitura de textos e oportunidade de conhecer muita coisa e autores bons que circulam na rede,  muitas vezes facilita contatos profissionais importantes que seriam abortados, caso eu não estivesse lá, exposta. Há o aspecto político, fundamental, da informação que circula por lá. É uma ferramenta de militância política, onde explicito opiniões e posicionamentos, e faço camaradagem virtual com intelectuais de esquerda. Há divergências e convergências importantes para resistir aos tempos atuais. É fortalecedor saber que há muitos de nós no mundo dispostos ao Belo e à Justiça. Há uma teia de notícias que circulam na rede e que têm uma qualidade que não constatamos em velhas estruturas midiáticas. Há embates, perdas. Serve também como uma peneira ideológica que me guia sobre confiança, admiração e respeito. Exercito generosidades e aprendo com as generosidades alheias. Faço alguns filtros para não adoecer com tanta gente violenta e perversa. Não exponho minhas dores ou pelo menos não o faço de forma escancarada. Não sinto necessidade de que a rede se torne um confessionário, tento apenas dividir beleza, quando possível, literatura ou impressões políticas. Não estou no mercado e não sou uma criatura midiática; sempre me assusto quando alguém me diz: estou te seguindo! Sou velha demais para certa semântica. A  entrada no instagram se deu primordialmente por causa de Cortesanias, do seu lançamento. Sempre tenho uma responsabilidade com os meus livros, principalmente no período de lançamento e, como  sou tosca, muito ilhada no meu universo pessoal, torno-me uma senhora que busca se atualizar para acompanhar tantas mudanças e não me sentir – como me sinto – tão incapaz de vivenciar tantas experiências, linguagens e ferramentas que se tornam obsoletas a cada segundo. Faço reflexões sobre a exposição excessiva e ainda não cheguei a um termo, mas sinto necessidade de um certo afastamento, às vezes, sem fazer alarde, sem proclamar a minha ausência futura, enfim! Quando preciso de férias, eu busco férias. Há também o aspecto lúdico! As redes são um jogo interativo, de trocas, perdas, duelos, guerras, máscaras, egos, ilhas paradisíacas onde encontramos conhecimento e beleza, aprendizagem. A sua revista é uma prova disso e há outras tantas possibilidades de experiências profundas assim. Não sou uma celebridade, por isso  me sinto tranquila no que exponho; número de seguidores ínfimos e completamente incompetente e indiferente às disputas. O que realmente me faz feliz é tocar sensibilidades com o que escrevo. É o sentido maior. Resisti ao instagram, mas estou gostando da coisa: moda, arquitetura, designers, notícias de artistas que gosto, imagens. Quando me sentir adoecida com tudo isso, procurarei – e talvez já seja a hora – a cura, o afastamento ou um equilíbrio maior. 

 

 

DA – E a porção atriz de Rita Santana? Algum retorno pensado ou em curso?

RITA SANTANA – A atriz é cada vez mais um retrato na parede. Hoje, estou cheia de vontade mesmo é de me aposentar e ter mais tempo vago para mim e meus projetos, prazeres. Estou afastada do universo do teatro e isso é muito sério, quase irrevogável. Às vezes, penso que, após a aposentadoria, farei oficinas de voz, dança, dramaturgia e assim me aproximarei da atriz. Mas não sei. Quero Tempo para o sossego, a paz. Pretendo evitar o trânsito, pois ele é infernal e me adoece. Quero ler os livros que me esperam, retomar velhos projetos de escrita e criar novos. Quero ver o mar mais vezes, ir muito à praia. Tudo, hoje, requer muita coragem. Até ir à praia requer coragem. Cheguei aos 50 anos e sou muito fiel ao que eu sinto. Não sei o que sentirei nesse processo de construção de novas identidades, novos desejos, novos lugares, deslocamentos.  Recentemente, vivi uma tragédia familiar e isso também macula os projetos futuros, macula um pouco o brilho dos desejos. As perdas profanam os desejos, os sonhos. A vida é muito séria, assustadora. Quero ir mais ao cinema, frequentar exposições. Tudo isso é tão caro e me dá tanto prazer, que talvez a atriz deva ir mais ao teatro, simplesmente. Ler mais dramaturgia, escrever talvez, peças de teatro. O estado sombrio do país também causa um pânico interior, um medo, um estado de insegurança. Todo o cotidiano está muito feroz, selvagem. Os projetos pessoais perdem a importância diante do risco que corre toda uma coletividade. Sem exageros! O país me afeta! O país me afeta muito. Sou essencialmente política. Enfim, há uma melancolia pairando no ar.

 

DA – A Literatura tem algum compromisso?

RITA SANTANA – O professor Antônio Cândido escreveu “Direito à Literatura”, onde ele explora o caráter imprescindível da Literatura para o ser humano. Ele diz: incompressível! Outro dia, li que um país inseriu o livro entre os direitos básicos do cidadão, como mais um dos itens de uma lista que envolve alimento, moradia, água, educação. E é isso! A Literatura é essencial para o processo de humanização, de sensibilização. A Arte é libertadora! Quem faz Literatura deve ter um compromisso com a sua Arte, com a sua expressão, a expressão dos seus sentimentos, das suas inquietações, do que deseja revelar ao mundo ou decifrar com o mundo, compartilhar. A partir desse compromisso com sua própria verdade interna, outros compromissos se firmam com as pessoas, com a sociedade, com a transformação do outro. Se o artista tem compromisso social, responsabilidades políticas com a sociedade, ele vive esse compromisso sempre, portanto, sua literatura terá esse teor de engajamento, sendo ou não panfletário. Caso não tenha um compromisso político ou social, a sua obra cumprirá o seu papel de reflexão e transformação, provavelmente, porque o tecido da obra é sempre o humano, a humanidade. Como somos seres políticos, aprecio obras críticas, perturbadoras, que me inquietam. A Beleza é transformadora! A Arte provoca – mesmo sem que haja uma militância política da sua autora, do seu autor – transformações: ela modela a alma, lapida a nossa rudeza, nosso lado animalesco, nossa selvageria aniquiladora. Em Cortesanias, dedico muitas páginas à contemplação da Arte, mas sinto a necessidade de olhar para o mundo de hoje, suas conturbações sociais, as injustiças, movimentos migratórios, a onda obscurantista que vivemos hoje. Não poderia deixar de olhar para o Brasil sombrio dos tempos atuais. Censura, perseguições, exílios, prisões políticas e arbitrárias, cortes, perseguição às pesquisas, tudo é muito terrível para que eu permaneça contemplando apenas – e isso já é grandioso! – a beleza das telas, da música. As grandes autoras que li e os grandes autores são artistas que me provocaram emancipações, portanto, o compromisso social, político, crítico é necessário para mexer com as estruturas dos homens, das mulheres, dos jovens. Às vezes, não há esse engajamento, mas a beleza provoca uma sensibilização, um olhar mais delicado para o mundo, e isso também é libertador.

 

DA – Que tipo de relação você estabelece com o silêncio?

RITA SANTANA – Outro dia, ouvi um cara dizendo que o silêncio não existe! É física acústica! (risos) Eu tenho uma relação muito íntima com o silêncio, mas sempre um silêncio que tem som. Antigamente eu tinha um sonho – um sonho primordial – que se repetia: umas esferas que levitavam, gigantes, e o ruído eu sempre associei ao barulho do útero. Nunca mais tive esse sonho, mas ele me acompanha na memória. Moro sozinha! Passo muito tempo só e isso me liga à possibilidade de ficar muito livre comigo mesma, num solilóquio profundo e divertido. Sim, eu me divirto muito comigo e com minhas loucuras! Ouço muito música clássica, e fico muito tempo envolta no silêncio da música, no silêncio da Casa, em meu silêncio interior. Sofro com o barulho dos ventiladores em todas as salas em que leciono; acho perturbador; acho que parte do cansaço e stress do cotidiano vem daí; os alunos ficam excitados demais, enfim. Professores gritam na hora do intervalo, enquanto conversam, e isso me perturba profundamente. Nós, professoras, falamos muito alto! Então, estar em silêncio, em Casa, é como estar num santuário, num monastério ou recolhida num terreiro de Candomblé, que também deve ser assim, imagino, com muitos momentos de silêncio, silêncio interior.  Os livros são fonte de silêncio! Ler é mergulhar em silêncios; escrever é imergir em silêncio! O meu silêncio conversa muito com o silêncio das minhas plantas, com o silêncio das minhas paredes, o silêncio dos meus botões. Isso, esse contato com os silêncios, aprofunda a consciência e a crítica, a exigência sobre mim mesma. Mas isso não me torna uma pessoa melhor! Aliás, isso aprofunda a crítica sobre mim mesma e minhas ações! Hoje, por exemplo, descobri que não sou uma heroína! Não sou uma mulher de atitudes diante das injustiças que tanto proclamo detestar! Vivo o tempo inteiro num jogo de acusações, investigações e perdões comigo mesma! Não tenho paciência com quem perturba a minha Paz e o meu Silêncio! Busco equilíbrio! Há pessoas muito perversas, barulhentas e desequilibradas que podem desestruturar toda a construção perene em que vivo para não enlouquecer. É possível enlouquecer, diante desse ruído político, diante da masculinidade tóxica agressiva que nos cerca, diante da falta de caráter das pessoas. A busca pelo silêncio é também uma forma de permanecer com uma sanidade mínima para se manter viva, em convívio social. A loucura anda à espreita! Eu rezo! Rezar é também se conectar com o Silêncio! Dormir e sonhar me ajudam muito a resolver os eloquentes dramas da existência! Apesar de tudo ser tão dramático, eu rio muito e sou muito leve – acho! (gargalhadas)

 

DA – Enquanto mulher e escritora, que tipo de reflexões a passagem do tempo apresenta para você?

RITA SANTANA – Cheguei aos 50 anos! Como escritora, permaneço em processo de aprendizagem e leitura, carecendo de organização para ter tempo de escrita, mas sem exasperações. Respeito muito o meu Tempo. A leitora anda mais sequiosa de Tempo: quero ler os livros que me aguardam, minhas preciosidades, meus tesouros. Sinto algumas inquietações em relação a minha escrita, mas essa situação agônica sempre me acompanhou e talvez esteja sempre comigo. Inquietação que me faz crescer, promove deslocamentos. Peso muito a minha realidade, minhas circunstâncias quando pondero acerca da minha escrita no mundo. Trabalho 40  horas como professora, assim sobrevivo e não gosto de sacrifícios ainda maiores, não gosto de sofreguidão e esgotamentos, além dos que já tenho. Gosto de respirar, ter tempo para o nada, descansar. Espero que a aposentadoria seja produtiva para a escrita, para a leitura. Espero também fazer bastante sexo durante a aposentadoria e, quem sabe amar com mais leveza; encontrar parceiros mais leves e resolvidos, enfim, mais maduros. Exercitar orgasmos. Quem sabe encontrar parceiros mais amorosos… e continuar, principalmente isso, no meu caminho muito particular de paz, de serenidade, de equilíbrio. Nada nem ninguém poderá desequilibrar essa minha busca, minha conquista! Sou muito feliz sozinha! A mulher de 50 me encontra mais disposta a dar um foda-se para os impertinentes, os tóxicos! Não temo as perdas porque já vivi grandes perdas e estou preparada para continuar vivenciando essas situações, onde a minha sobrevivência deve falar mais alto; a minha dignidade e a minha paz interior. A minha verdade sobrepõe-se a qualquer tirania! A escritora pretende retomar velhos projetos, mas se sabe cada vez mais fiel a si mesma, quase indiferente ao anonimato, ao silenciamento. Fico feliz em ter pesquisadoras lendo e aprofundando a minha obra; fico feliz com as mesas especiais em que dialogo com meus pares, minhas companheiras de escrita. Estou muito mais tranquila como Mulher e como Escritora. Sou uma pessoa muito mais livre, mais corajosa para ser, para assumir minhas vontades. Observo, experimento, vivencio e – após pesar – decido por aquilo que não me fira, não me atinja. Sou nobre demais, deusa demais para aceitar situações indignas, ultrajantes, mesquinhas. Sou inteireza e só posso viver inteirezas, em todos os planos. Gosto muito da construção que fiz de mim mesma; gosto muito de conviver com uma Rita que eu admiro muito. Estou em processo, em crescimento. Pela escritora e pela mulher, pretendo viajar, conhecer lugares e situações, namorar homens que me façam rir bastante, adoro rir bastante. Ver exposições, ouvir orquestras, ver o Grupo Corpo mais vezes, o Balé do TCA, ver o Balé Folclórico da Bahia, ir às feiras literárias como escritora e como leitora, turista. Quero reler e ler livros fascinantes, participar de festivais gastronômicos, visitar museus. Pretendo ter disciplina para aprender idiomas, coisa que nunca tive. Pretendo continuar conhecendo poetas latino-americanos, países da nossa América, enfim! Conhecer pessoas da minha tribo, que amem esse universo que eu amo. Estou muito disposta à Vida! Cinema! Ir mais ao Cinema! Dançar! Quero dançar mais! Quero continuar aprendendo, conhecendo! Triste demais com o derramamento do óleo nos mares do Nordeste! Quero passar muitas tardes e manhãs vendo o mar e andando nas praias. A escrita vem desse movimento! Quero ter disciplina para caminhar. A Mulher e a Escritora estão de mãos dadas.

 

DA – Qual o sentido da vida para você?

RITA SANTANA – Não sei! Não tenho uma religião, mas acredito na fé, acredito em deuses e deusas. Acredito que a Ciência se cruza e dialoga com os mistérios espirituais, cada vez mais. Acredito nos mistérios. Há metafísica bastante em não pensar em nada! “O Guardador de Rebanhos” toca ou desperta a minha necessidade de ver, tocar, observar, contemplar o mundo. Aprendi muito cedo a perceber a divindade que há nas árvores, nas flores. Os poetas e as Poetas são faróis que nos guiam no caminho. Os grandes artistas são guias! “O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!” Busco um sentido para a minha vida! Já que estamos aqui e expostos ao mundo, precisamos construir sentidos; eu preciso construir sentidos. Fico tentando me modelar, me aprimorar. Vivemos num período de recrudescimento das liberdades, um tempo perigoso, tempo de homens partidos! Sinto a responsabilidade que tenho com o agora. Sinto que posso interferir. Isso é construção de sentido: ter responsabilidade com seus alunos, seus amores, com os meninos da Síria, com todo o processo migratório que está matando a nossa gente da África. Também vivemos – paradoxalmente – um período de pensamentos e ações coletivas em torno de um bem comum: a proteção ao meio ambiente, a busca por medidas que reduzam o aquecimento global, um presidente ameaçado por retaliações internacionais devido ao seu discurso e suas ações retrógradas em relação às liberdades e ao meio ambiente, aos nossos povos originais, à Amazônia. Temos Malala, Greta e o Nobel da Paz  – Abiy Ahmed – que luta por diálogos em territórios inimigos na África, pois tenta solucionar conflitos na Etiópia, o próprio Papa se posiciona como um dos nossos, em muitos momentos. Vivemos um período bonito de assunção da diversidade dos gêneros,  onde o feminino, tão fortemente atacado, é assumido por corpos e vozes que o desejam, o sentem e o assumem. “E quem irá dizer que não existe razão nas coisas feitas pelo coração?!” O sentido da vida é ser melhor! Amar mais e expandir os horizontes, pois a vida pede amplidões. As certezas já não são. Estar sintonizada com a dignidade humana e com valores nobres, humanistas. Estar sempre ao lado de uma evolução do pensamento, do sentimento. O que não descarta o ser absolutamente humana e explosiva, arrogante, e ter sentimentos vis. Estou em processo! Aprender sobre Solidariedade. Assisti o “Coringa”! Completamente apaixonada pela interpretação de Joaquim Phoenix. A Arte é esse lugar da reflexão, da emancipação! É parte desse capital simbólico que temos e precisamos para refletir e aprender. O “Coringa” nos põe diante de uma sociedade midiática que expõe o sem voz, o sem poder e a audiência aplaude a ridicularização de si mesmo, do pobre, do desprovido de voz e de lugar. O “Coringa” expõe o quão a nossa sociedade é perversa, abusiva, violenta e indiferente às dores alheias. Estarei sempre, como educadora e como artista, atenta para minhas atitudes e para o outro, que também sou eu.  Tenho refletido muito sobre alteridades. A nossa televisão é tão podre quanto aquela exposta na tela. A exposição de homens e mulheres e crianças e jovens negros pela TV brasileira é acintosa; é como se vivêssemos num país sem lei, vivêssemos na barbárie. Tenho responsabilidade com tudo isso. Somos grosseiros demais! Professores arrastam cadeiras como os alunos e não se sentem deseducados por isso. Arrastamos um ignóbil à presidência e um homem tentou matá-lo. Não é fácil ter saúde mental num mundo tão dantesco.  Os Coringas existem. O presidente acaba de vetar psicólogos nas escolas públicas, o que permitiria assistência a inúmeros jovens deprimidos que estão cometendo mutilações, cortes, suicídios.  O presidente diz que não assinará o diploma do nosso prêmio Camões – Chico Buarque – e isso é aviltante num país de homens e mulheres que primam pelo respeito, pelos acordos, pela palavra, afinal, viver em sociedade requer atitudes assim. Num país que possui Chico Buarque não se pode admitir ações tão indignas dos nossos representantes. Viver pra mim é continuar a busca interior para ser melhor, ser menos arrogante, menos distante das pessoas, menos ególatra, menos radical talvez! Ao mesmo tempo em que me sei humana e odeio me atropelar, por isso, assumo rudezas, desinteligências, deselegâncias às vezes. Busco errar menos! Sou muito intuitiva, muito observadora por causa da professora, da atriz, da escritora. Mas isso me leva a certezas absurdas que preciso evitar. Sentido: ser feliz com minhas conquistas, meu universo. Contribuir com a construção de uma sociedade melhor. Continuar na luta! Eu me sinto muito rica, muito privilegiada no lugar onde estou. Não busco grana! Ao contrário! Quando a grana significa sacrifício do meu tempo, sacrifício da minha paz, abdico facilmente! Odeio burocracias burras! Não preciso de muito para viver e acho isso sábio. Música, livros, silêncio. Não perturbar os vizinhos, tentar ouvir música e cantar mais baixo por respeito às paredes alheias.  O sentido final é cuidar das pessoas, da vida em sociedade, dos direitos humanos e da Democracia. Nesse difícil diálogo com o mundo, ouvir música boa, ler livros, escrever, cuidar de plantas, organizar a casa e o universo pessoal, evitar o contato ou a permanência do contato com pessoas abusivas, tóxicas. Ler mulheres, ler mulheres negras, ler feministas, ler bons autores. Buscar equilíbrio. Ler colabora com o encontro de sentido, a vida fica mais plena. Ser uma artista é a busca de sentido da vida. É o desejo de transcendência, de deixar marcas da sua Existência.  Mas, principalmente, é buscar sentidos para a vida que é tão sumariamente cotidianizada, vulgarizada em regras, rituais, exigências que não acreditamos. Daí, questionar através da Arte. Ser artista é ser uma espécie  que desvia, que contraria e tem afinidade com os estranhos aos olhos da normalidade porque também se sabe e se reconhece estranho. Por isso, ficamos tão felizes quando estamos entre os nossos, os da nossa tribo. A busca por uma vida mais ética! Talvez resida aí todo o sentido. Mirar-se sempre ao espelho para perceber os desvios e buscar novamente o caminho da dignidade. Conversar com você e ler a sua revista, construída com Leila Andrade, é construir sentido para a Existência. O sentido da vida seria então encontrar sentidos. Sair do cinema e trazer o “Coringa” pra casa para dialogar com você porque você é responsável por tantos coringas sociais. Sair do cinema e saber-se Coringa. Quem busca sentido para a vida nunca está em paz, pois é responsável pelo mundo e isso é terrível e imprescindível.

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista e mestre em Letras.

 

 

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131ª Leva - 03/2019 Destaques Olhares

Olhares

O corpo, o cosmo e o caos

 Por Fabrício Brandão

 

Desenho: Felipe Stefani

 

São linhas que transpassam a existência. Contornos que anunciam o alvorecer de gestos e movimentos como se tudo coubesse num universo de beleza e mistério. É preferível assumir que a vida é ela mesma a assunção de mistérios, desses que se embotam na trama dos destinos. Imaginemos, pois, tudo como consequência de um permanente entrelaçar de ações na medida em que o que somos espelha os reflexos das investidas de outrem, nossos semelhantes e suas difusas trajetórias e repertórios. Assim, reconhecemos nossa humanidade a pulsar imperiosa no turbilhão de corpos e mentes que nos atravessam a visão dos dias que carregamos conosco. Sim, somos um amalgamado e complexo organismo que é fruto das trocas e intervenções do Outro em nossa caminhada.

Ah, o corpo, esse receptáculo de intenções! O corpo enquanto a expressão mais pura da nossa sina terrestre. O corpo como essa estrutura física a compor o bailado dos dias, posto que tentamos nos equilibrar diante das demandas racionais e afetivas tão nossas. Pensando a arte de Felipe Stefani, os trajetos corporais são os mais autênticos representantes das nossas condições de ser e estar num mundo em que habitamos de forma errante. Ao mesmo tempo em que nos incita ao mergulho denso, Felipe relembra certo caos que nos acomete em matéria de experiência humana. Vale considerar que a cartografia caótica sugerida pelo artista em questão não é um banal engenho de desordens, mas, antes de tudo, a síntese orquestrada de nossos espantos e estranhamentos. Na confusão entre desejos e equívocos de nossa natureza, as imagens se expandem compondo um complexo painel de desassossegos.

 

Desenho: Felipe Stefani

 

Felipe Stefani deixa entrever um sentimento de cosmovisão em muitos de seus desenhos, algo abrigado na noção de que múltiplos saberes e cenários da existência humana aparecem profundamente associados entre si. Tal percepção é, ao mesmo tempo, a constatação de que os homens e suas investidas encontram terreno favorável para a expansão no solo comum e enigmático das expectativas. Desse modo, o artista observa as partes que, ao fim e ao cabo, integram um todo em incessante construção, organicamente engendrado pelo flerte com a dúvida.

O corpo em Felipe Stefani também é casa que acolhe delicadezas. É nesse momento que a bagagem de poeta empresta seus atributos ao artista, movendo seu traçado sob a imagética de um lirismo que se pretende intenso. Dentro desse caminhar, seus desenhos harmonizam desejos, crenças e epifanias humanas com uma indelével  marca emotiva, fazendo-nos refletir sobre temas como a solidão, os afetos e o amor.

 

Desenho: Felipe Stefani

 

Paulista que vive em bandas cariocas, Felipe também se dedica aos versos e à fotografia. Seus primeiros contatos com o desenho derivam da infância, principalmente por intermédio da mãe, a também artista plástica Sandra Lagua. Confessa que suas principais influências vêm de gêneros da cultura de massa, tais como o cinema e o rock. Desde 2002, vem atuando como ilustrador, com trabalhos voltados para o cinema e literatura. Como poeta, possui dois livros publicados: O Corpo Possível (Dulcineia Catadora, 2008) e Verso Para Outro Sentido (Escrituras, 2010).

Essencialmente, a arte de Felipe Stefani é um convite ao sublime. E tomemos aqui tal atributo não com um sentido de exaltação estética de perfeição. Mais vale considerar o potencial de representação humana de sua obra como sendo aquele que expõe a carne viva de nossos atos, anseios e projeções, misto de coisas que refletem um estado permanente de poesia, essa dimensão de abismos íntimos e compartilháveis.

 

Desenho: Felipe Stefani

 

* Os desenhos de Felipe Stefani são parte integrante da galeria e dos textos da 131ª Leva

 

Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e Mestre em Letras: Linguagens e Representações (UESC), aliando Literatura, Comunicação e Cultura.

 

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131ª Leva - 03/2019 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Mirar a vida, observar seus fenômenos mais detidamente. Deparar-se com os territórios do humano sem deixar de levar em conta o olhar reflexivo e transformador, esse algo capaz de movimentar rotas sem se perder no campo limitador das retóricas. Frases, quando ditas ao léu, não demarcam a substância das ideias, posto que sequer ensaiam mudanças ou vislumbram auroras. No meio disso tudo, um poeta rasura os postulados disfarçados de razão, engendra nos seus versos a tradução de um estado de espírito que transcende a materialidade das coisas. Tudo isso sem se embriagar pela fácil sedução das travessias meramente contemplativas ou daquelas que se limitam a ver tudo como um jogo puramente estético.

Não existe poesia fora do humano: eis a impressão que arrisco em colocar quando o artífice das palavras é um alguém como Alberto Bresciani. É ele um autor não somente envolvido com a construção textual dos seus versos, mas especialmente com o impacto que tais escritos terão em quem os lê. Não se trata aqui de uma preocupação com a adesão de simpatias, e sim de um diálogo vivo sobre o qual estão apoiadas bases de nossas tenras e complexas existências. Acima de tudo, Alberto nos incita ao enfrentamento de questões cruciais à nossa percepção enquanto humanos, erigindo um universo poético que se fundamenta em doses de emoção, lucidez e estranhamento.

Autor de livros como Incompleto movimento (2011) e Sem passagem para Barcelona (2015), ambos editados pela José Olympio Editora, o carioca Alberto Bresciani vive hoje em Brasília. E o momento atual desse escritor aponta para os desdobramentos em torno de sua mais recente obra: Fundamentos de ventilação e apneia, lançada este ano pela Editora Patuá. O livro apresenta um sofisticado emprego da linguagem, denotando profunda sensibilidade e entrega a temas que correm imbricados a tudo o que vivemos. As incursões do poeta por elementos que constituem certa dinâmica do mundo animal correm paralelas ao que somos enquanto espécie dita racional. Dentro do delicado mecanismo que descreve os fenômenos de outros tantos seres vivos, Alberto nos conclama a mergulhar intensamente em nossos próprios percalços como se necessitássemos de um resgate.

Para falar um pouco sobre seu novo momento com as palavras, o poeta, de modo extremamente gentil e atencioso, concede a entrevista que agora segue. Na conversa, abordou-se de um tudo: os impactos do novo livro, reflexões sobre o papel da arte, o fazer literário e seus desafios, entre outros temas. De todo o dito, nada é mais valioso do que perceber, pulsando com vivacidade, o aflorar de uma sensível consciência de mundo, notadamente preocupada com uma ampla noção de humanidade.

 

Alberto Bresciani / Foto: arquivo pessoal

 

DA – “Fundamentos de ventilação e apneia” faz uso de mecanismos pertencentes ao mundo animal, uma sensível construção poética cuja linguagem corre paralela às questões humanas. Diante do que somos hoje enquanto espécie, seu livro pode ser tomado também como um grito de alerta?

ALBERTO BRESCIANI – Observar animais e estudá-los, na medida do possível, sempre foram atividades interessantes para mim. Observá-los com prazer e, ainda, com assombro. Tive animais de estimação de todos os tipos e, quando criança, gostava de os tornar personagens de histórias que inventava. Em regra, é difícil resistir à tendência de antropomorfizar o comportamento dos animais. Fazemos isso quase involuntariamente. Embora diferentes enquanto espécies, partilhamos, todos os seres vivos, um mesmo mundo e, em situações várias, a luta pela sobrevivência na natureza se iguala ao esforço que, entre homens, fazemos para enfrentar os dias. Há momentos em que os animais parecem saídos de um Éden criacionista. Também temos nossos espaços de paz. No entanto, a violência está à solta. O ritmo é assustador. E isto remete à violência presente nos enredos naturais. Perceber e sentir as injustiças da contemporaneidade, as ameaças de retrocessos civilizatórios, a devastação que causamos no meio ambiente e traduzi-los, como conceito, pelo instante, por exemplo, em que o predador impiedosamente abate sua presa apavorada, foi um dos recursos metafóricos que utilizei. A poesia é, a todo tempo, um sinal de alerta. Alerta que vai desde as situações mais íntimas que afligem o poeta até as questões maiores que sacodem o planeta. Os poemas de Fundamentos de ventilação e apneia surgem nesse contexto.

 

DA – Caberia, então, dizer que a arte, sobretudo pelos caminhos da palavra, seria capaz de operar em nós alguma possibilidade de transformação ou reinvenção?

ALBERTO BRESCIANI – Sim. Não tenho dúvidas. A arte estimula a reflexão sobre o mundo em que vivemos, dialoga com a filosofia. E se habilita a fazê-lo, em sua essência, para além dos círculos das regras, da ética e da moral, dos paradigmas vigentes em um dado momento da história e dos preconceitos. Era o que dizia Adorno. O artista está – e deve estar – livre para se expressar, para entender o que acontece e pregar suas denúncias, noites e luzes em cada porta. No caminho das palavras, como diz, encontramos, individualmente, quando lemos ou ouvimos, possibilidades de habitar outros eus e corpos, de outras vidas e experiências. Podemos perceber os erros de circunstâncias históricas e de falsas verdades impostas pelos interesses de plantão. Podemos também alcançar nossas verdades. Há livros que nunca acabam, personagens que nunca nos deixam, frases tatuadas na lembrança, poemas que nos alimentam e advertem. Do ponto de vista do artista, a descoberta de sua vocação pode construir uma vida nova, uma vida plena, reconstruir o que parecia ruína. É importante, no entanto, ressaltar que, antes de tudo, é necessário que se tenha acesso à arte. E isto só é possível com a educação. Com alimentos na mesa e cidadania. Não somos um povo ilustrado. Poucas mudanças favorecem imensa parte da população, que se mantém dentro de uma bolha isolante da cultura – e de tanto mais – desde o período colonial. Alguns projetos pioneiros, sabemos, têm grande sucesso, levando livros, música e dança a comunidades carentes. Que se multipliquem, prosperem. Seremos assim, um dia, quem sabe, uma sociedade melhor e mais feliz.

 

DA – Esse tema do acesso à arte é deveras interessante quando pensamos que, na contemporaneidade, a contribuição de autores e artistas contra-hegemônicos vem ganhando cada vez mais relevância. Muitos desses criadores, periféricos ao mainstream, encampam, através de suas obras, uma defesa afirmativa de suas identidades, de suas visões de mundo. Como você vislumbra a força que emana de tais subjetividades?

ALBERTO BRESCIANI – Com interesse, reconhecimento e muita simpatia. Somos diferentes em múltiplos sentidos. Infelizmente, a intolerância e o desrespeito sempre desaguaram na edificação de nichos e no aprisionamento, nesses nichos, de diferentes grupos, recusados pela compreensão dominante. São porções de matizes variados, separadas por hemisférios, circunstâncias históricas e sociais, gêneros, etnias, crenças. Todas têm legitimidade e direito à sobrevivência e ao acatamento pelas demais. Há também aquelas violências que a sociedade, como um todo, prefere ocultar. A literatura é o espaço da denúncia. Autores que não se moldam àquela compreensão dominante ou ao protótipo consagrado traduzem, com a força de sua escrita, experiências de vida muitas vezes desconhecidas ou nunca pensadas com atenção. Por alienação, pelo impacto da grande mídia ou por lacunas de vivências, verdades são esquecidas. Ao pronunciá-las, esses autores permitem a tomada ou a renovação de consciência, com a possibilidade, após alguma decantação, de construção de novas regras de convívio, de alargamento da razão. Se há liberdade de expressão, é de valor extremo toda contribuição que permita a evolução do que se compreende como “o humano”. Mesmo que a prática da literatura, dentro do mainstream, não seja, necessariamente, condenação eterna ao último círculo da desqualificação, romper seus limites, como efeito da forma ou da temática, por si, já é coisa boa.

 

DA – Voltando ao seu novo livro, é possível perceber nele a ideia de que sua poética está mergulhada nos imperativos colocados pelo presente em que nossas humanidades estão mergulhadas. Enquanto escritor, em que medida você assume a condição de dar um testemunho de seu tempo?

ALBERTO BRESCIANI – A literatura fotografa o momento histórico em que acontece. Aliás, é uma fonte de pesquisa histórica fabulosa. É impossível não reagir ao que o mundo nos oferece ou empurra garganta abaixo. Vivemos em um país de diferenças sociais inimagináveis. Isto me incomoda a vida inteira. Sou juiz do trabalho já há muito tempo. Não direi que, entre erros e acertos, o trabalhador sempre está com a razão. Mas também não posso ignorar a enormidade de horrores que a experiência me apresenta. São humilhações impostas a quem não vende a quantidade de produtos desejada pelo empregador, com castigos que ultrapassam o absurdo, acidentes do trabalho em volume trágico, com perdas de vidas e mutilações, crianças trabalhando e longe dos estudos, pessoas escravizadas, a miséria que nos assola desde tempos coloniais. Além da bagagem profissional, um caminhar pelas ruas das grandes cidades, conhecer zonas de extrema pobreza de nosso país-continente trazem marcas desoladoras. Ao lado disso, o noticiário nos abarrota de visões catastróficas da fome, dos abusos, da falta de compaixão no mundo inteiro. Somos testemunhas de uma época terrível. Algumas dessas situações transparecem em Fundamentos de ventilação e apneia e tendem a estar ainda mais presentes em meus próximos livros.

 

DA – Qual o seu maior incômodo diante do cenário de retrocesso que experimentamos hoje no nosso país, sobretudo nos matizes culturais?

ALBERTO BRESCIANI – Sinto espanto, sobressalto. O pasmo segue em uma escadaria de Escher, pelo que está mais próximo e pelo que acontece em tantas partes do Globo. Circum-navegação do espanto e pela conivência. Uma amiga de muita inteligência diz que a humanidade e o país já passaram por provações tão diversificadas e, ao final, tudo foi superado. É preciso, nem que seja no fundo da alma, manter alguma esperança de ressurreição dos valores.

 

DA – Atualmente, é possível perceber que o mercado editorial vem se reconfigurando no que se refere às possibilidades de participação. No cerne desse processo, está a atuação das editoras independentes, as quais inauguraram modelos alternativos de negócio, oportunizando espaços para novos e anônimos escritores. Na sua avaliação, acredita que esse novo panorama veio para permanecer e transformar efetivamente as práticas de publicação e circulação das obras?

ALBERTO BRESCIANI – Percebo essa democratização da possibilidade de publicação com muita alegria. A realidade da internet, com seus portais e blogues, e das redes sociais, com a comunicação em tempo real, já fez muita diferença. Não consigo enxergar mérito nenhum em um sistema no qual somente grandes editoras podem consagrar vozes ou em que apenas determinados autores são os escolhidos. Todos que escrevem merecem espaço e algum crédito. Quem decidirá se terão direito à leitura e à permanência serão os leitores. E, aqui, vale lembrar que há públicos diferentes, que elegem seus estilos e gêneros. Pensando em poesia, há quem prefira textos fáceis, doces. Há quem prefira os que desafiam um pouco mais. As pequenas editoras têm permitido o acesso de autores e leitores à boa literatura, que, de outro modo, estaria condenada à gaveta eterna. Editoras como a Patuá – e não posso deixar de me referir ao  Eduardo Lacerda, com seu heroísmo todo -, como a Penalux, de Tonho França e Wilson Gorj, tantas outras, são vias maravilhosas para a publicação de novos escritores de qualquer idade. Os livros têm qualidade editorial e circulam o suficiente para concorrerem aos maiores prêmios literários do país. Sei de jovens escritores acantonando editores e se esfalfando para merecer atenção das grandes editoras, e não vejo sentido. É muito bom ser publicado. É muito bom ser publicado por uma grande editora. No entanto, uma editora menor, com toda certeza, será mais atenciosa para com o autor e lhe poderá trazer muita sorte. Penso que, no momento, é um modelo que veio para ficar. Digo “no momento”, porque o mundo se tornou uma metamorfose permanente, com tecnologias que nos atropelam quando menos se espera.

 

Alberto Bresciani / Foto: arquivo pessoal

 

DA – O curioso, dentro dessas tecnologias que nos atropelam, é perceber que alguns papéis se modificam nesse contexto de aparições digitais. Com certa frequência, autores deixam de ter a sua importância atrelada à obra e passam a ser incensados como celebridades apenas pelo que representam em matéria de performance pública. À reboque disso tudo, também há o fenômeno da superexposição da intimidade, no qual aspectos da vida privada dos escritores assumem um lugar de destaque, sobretudo em mídias sociais.  De que modo esse estado de coisas pode comprometer as práticas literárias?

ALBERTO BRESCIANI – A chegada da internet e das redes sociais trouxe uma quantidade muito grande de questionamentos e alterações sensíveis no comportamento das pessoas. Há muitos estudiosos, como Castells, que se dedicam ao tema. Não sou especialista e respondo como expectador interessado.  A performance como meio de promoção pessoal não é um fenômeno contemporâneo às redes sociais e peculiar aos escritores. Existia antes. Existia e existe em outras áreas de atuação. Convenhamos que já não há tanto espaço para o escritor recolhido, misterioso, recluso. Ou há, mas o alcance de sua literatura será, muito provavelmente, restrito. As editoras não têm tempo ou energia para a divulgação de todos os autores que publicam. Vale para as grandes editoras também. É necessário que o autor se ocupe com a sua própria divulgação, com a divulgação de seu trabalho. Isto, porque, exatamente pela quantidade de autores no mercado, outro feito do presente é colocar maior foco no leitor e no que lê do que nos autores propriamente ditos. As redes sociais facilitam aquele trabalho. Também é preciso considerar que o conceito ou o valor da privacidade não tem o mesmo feitio para as gerações mais jovens. Assim, há quem transforme sua vida em um livro aberto, um relato ou uma autoficção online. E com sucesso. Conquistam milhares de seguidores e vendem milhares de livros. Há quem adoeça nesse processo e adquira obsessão pelo monitoramento de seus perfis nas redes sociais e deixe de produzir ou, então, rebaixe a qualidade de sua produção ao que é mais palatável para as redes. A performance – e é preciso ter talento para isso –, como eu dizia, por si, não é necessariamente má, quando busca a divulgação de obra de qualidade. Causará algum prejuízo quando representar o exemplo de trabalho sem qualidade literária. Como o exemplo arrasta, notaremos – e notamos – outros escritores, com grande potencial artístico, tentados a reproduzir o comportamento e aquele formato menor em sua produção. De qualquer modo, a literatura ainda é maior e mais do que tudo isso. Ainda.

 

DA – Há quem sustente que a crítica literária perdeu sua força no Brasil, a ponto de praticamente não mais existir. Concorda com essa percepção?

ALBERTO BRESCIANI – Pelo viés tradicional e canônico, concordo. Com a quase extinção dos cadernos especializados e com as dificuldades por que passam jornais impressos, os espaços até então reservados aos críticos desse molde diminuíram. A crítica, com características mais convencionais, migrou, de certo modo e em parte, para a academia, com menor alcance em termos de público e sob formato mais técnico e, assim, hermético. A própria natureza e as exigências do trabalho acadêmico, ao lado do extenso número de livros hoje publicados, também impedem a velocidade, a atualidade e, em consequência, o debate mais vivo. É evidente que os trabalhos assim produzidos têm qualidade e importância. Em contrapartida, um novo modelo de crítica surge com a atuação contemporânea de jornalistas, de escritores, pela via da resenha, de matérias e da concessão de visibilidade às obras que esses formadores de opinião – e também o mercado – decidem que merecem destaque. Ressalvados poucos jornais literários e revistas impressas que ainda resistem bravamente, a avaliação, que se poderia talvez dizer mais suave, é publicada em periódicos virtuais, o que, apesar de  limitar seu alcance a usuários habituados a endereços eletrônicos e às redes sociais, repele filtros que a grande mídia costuma impor. Torna-se mais democrática.

 

DA – Somos apenas um corpo com finitude decretada? 

ALBERTO BRESCIANI – Pergunta delicada. A sobrevivência (e a morte em paralelo) é um dos temas centrais de Fundamentos de ventilação e apneia. A compreensão da morte tem movimentado mentes privilegiadas. De Platão a Todd May, passando por Schopenhauer, Montaigne, Sartre e tantos outros. Vejo a morte como parte da vida. Mas não, não somos apenas um corpo com a finitude decretada. Todos os seres vivos morrem. Não há dúvidas. Nisso, irmanamo-nos. Os outros animais, no entanto, enxergam a morte somente quando ela os ameaça, como o meu porco-espinho, acantonado pelas feras. Os humanos, diferentemente, são capazes de pensar a respeito, mesmo que saudáveis e protegidos. A morte dá sentido à vida, nubla o tédio da eternidade física ainda impossível, faz com que desafiemos o destino, como antílopes que atravessam rios repletos de crocodilos, buscando o futuro, um novo presente, logo ali na outra margem. A morte amplifica o valor do presente. Assim como killifishes, nunca teremos a certeza de uma nova chuva que nos permita (sobre)viver. Somos, assim, corpos destinados às experiências e repletos de possibilidades enquanto conservarmos a consciência. Se a perdermos, o fim antecederá o perecimento do corpo. De maneira sincrética, acredito em Deus. Do mesmo modo, sinto que a morte do corpo não representa absoluta finitude.

 

DA – O quanto Alberto Bresciani conhece Alberto Bresciani?

ALBERTO BRESCIANI – Eu pediria alguns anos para responder melhor. Sei ou tento saber do que se passou comigo, do que testemunho agora. Para o futuro, insistir é o que posso. Sou, normalmente, silencioso, melhor com a escrita do que com a voz. Verbalizar é sempre um risco de exageros. O silêncio me obriga à minha companhia com intensidade, a conviver com toda a perplexidade do que não consigo compreender, com o maravilhamento das coisas belas que alcanço, com todas as boas e más memórias, erros e acertos. Tenho o vício da busca de informação, com o desassossego que vem no estojo. Sou um “olhador”, um contemplativo. Posso me esquecer do mundo e da vida diante de uma planta que desafia o cimento da calçada. Gosto da eloquência silenciosa dos livros. Gosto das palavras e dos livros, do poder da música, de ficar em casa, de chocolate, terra, vegetais e animais, de abusar do conforto e do abrigo da minha família.

 

DA – Afinal, por que escrever?

ALBERTO BRESCIANI – Catarse, coragem ou covardia, justificativa? Copio René Char, é como se houvesse um atraso em relação à vida, que compele à superação. Porque é preciso dizer mais do que a voz permite.

 

Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e Mestre em Letras: Linguagens e Representações (UESC), aliando Literatura, Comunicação e Cultura.

 

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130ª Leva - 02/2019 Destaques Olhares

Olhares

Sob o signo da espontaneidade

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Almir Bindilatti

 

Uma nesga de sol invade a paisagem enquanto meninos brincam desfilando sua liberdade. Noutro ponto, uma canoa vermelha repousa suas memórias na calmaria da noite que adentra. Do alto de alguma porção litorânea, um pequeno grupo de pessoas é silenciosamente observado enquanto ensaia sua entrada no mar. Um aglomerado de bovinos revolve a poeira de seu confinamento. O menino atravessa a água com seu gesto pueril descortinando dimensões do sabor de viver. As cores e formas passeiam em meio à rotina de indivíduos que transitam por ambientes urbanos diversos.

Tudo o que foi descrito acima é apenas uma pequena parte daquilo que compõe a arte do fotógrafo Almir Bindilatti. E apresentar tal recorte de imagens captadas pelas lentes de seu autor significa prestar atenção para o trabalho de um alguém que, de forma marcantemente poética, consegue fazer da captura do cotidiano algo diferenciado. Por vezes, deixamos escapar inúmeras possibilidades de apreensão do real em razão de que nosso olhar acomoda-se pelas zonas de conforto do óbvio. No entanto, a experiência ganha outro fôlego quando vislumbramos sentidos alternativos para as imagens com as quais nos deparamos.

O grande desafio de Almir Bindilatti com seu ofício de registrar a luz é nos apresentar a pulsação da vida tal como ela é. Haveria, então, algum artifício mágico para obter tal resultado? A resposta é negativa. Daí que o fotógrafo em questão confessa não ser adepto da manipulação das imagens, ou seja, de qualquer tratamento que seja capaz de alterar tudo aquilo que foi capturado com naturalidade. Assim sendo, o artista vai mais além, buscando em seu trabalho um resultado que se pretende orgânico, evidenciando, como ele mesmo nos diz, um elo entre câmera e figuras humanas que atenta para o respeito com as culturas urbanas, principalmente à luz de aspectos étnicos.

Na busca pelo flagrante natural dos gestos humanos, Almir intenta a plenitude abrigada nas manifestações de seus personagens. Tal percepção aponta a todo instante para uma noção de alteridade que implica no respeito e na preservação dos domínios íntimos do Outro, então mostrado pelas lentes. Penetrar na esfera alheia requer também certo tempo de maturação, permitindo com que as pessoas continuem vivendo suas sinas com o crivo da espontaneidade. É um hiato preciosamente marcado pela espera e pelo silêncio, no qual o trunfo do fotógrafo é colocar em evidência o momento que melhor retrate a existência humana.

 

Foto: Almir Bindilatti

 

Sem dúvida alguma, o viés antropológico permeia o ofício de Almir, qual seja o que denota o respeito a culturas e modos de articulação do ser e estar distintos na complexa paisagem urbana observada. Cruza-se a linha do Outro primando pela sutileza das investidas, sem que se pretenda a desconfiguração das vivências e práticas imersas na trajetória dos mais variados atores sociais. O saldo das escolhas do artista é deveras significativo na medida em que os diferentes cenários e seus respectivos protagonistas contemplados reproduzem a fluidez ininterrupta da existência.

Nascido no interior de São Paulo, mais precisamente em Tupã, Almir Bindilatti mudou-se para Salvador e lá viveu por bastante tempo, inclusive executando projetos editoriais sobre história, cultura e arte. Desde o começo de 2018 reside em Lisboa, inaugurando uma nova fase em sua vida, o que significou a possibilidade de se dedicar completamente ao seu ofício autoral. Seu trabalho lhe rendeu o Prêmio Leica de Fotografia no Brasil em 2010. É autor dos livros fotográficos Photo Bahia (2008), Mosteiro de São Bento da Bahia (2011), Um Sertão entre tantos outros (2015), tendo participado também de obras coletivas. No ano de 2013, ainda integrou uma exposição coletiva de artistas brasileiros em Xangai, como parte das ações do “Ano do Brasil na China”.

No exercício de captar a vida do modo como ela se mostra, o fotógrafo é testemunha não apenas de um conjunto de rituais e práticas sucessivas ou aleatórias, mas também de revelações associadas ao campo do inusitado. Diante de suas lentes, um pacto constante resta estabelecido: o da coexistência harmoniosa entre a presença do artista e seu objeto. Esse silencioso contrato representa o esforço de não se alterar as rotas contempladas pelo olhar de quem as mira de fora. É com a pungência da poesia que habita os arremessos cotidianos que Almir consolida tal relação.

 

Foto: Almir Bindilatti

 

* As fotografias de Almir Bindilatti são parte integrante da galeria e dos textos da 130ª Leva

 

Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e Mestre em Letras: Linguagens e Representações (UESC), aliando Literatura, Comunicação e Cultura.

 

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129ª Leva - 01/2019 Destaques Olhares

Olhares

O fluxo natural de uma leveza

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Joana Velozo

 

Certamente, muitas existências estão abrigadas em nosso íntimo. Há aquelas que se expandem rumo ao contato com o mundo exterior; outras, como num movimento de retração, voltam-se para o confinamento interior dos mistérios pessoais que carregamos conosco. Temos o poder de decidir qual das nossas esferas de vivência deve vir à tona sob o olhar alheio. No território da alteridade, carecemos da troca que advém do Outro, este alguém que, mesmo não estando próximo, contribui para que tudo o que expomos seja compreendido também como sendo o resultado dos encontros humanos.

Talvez a melhor experiência que possamos adquirir com a Arte seja aquela que aponta para o entendimento sobre quem somos. Por óbvio, esse não é um mecanismo tão simples de se apreender e quiçá exija até mesmo certo engajamento filosófico para sua compreensão. Num misto de contemplação e lucidez, o universo artístico é capaz de desacomodar estruturas e promover também observações mais críticas sobre a realidade. O artista, reconhecendo-se parte integrante do mundo que registra, passa a ser alguém envolvido com as tramas do seu tempo.

Pelos delicados traços da arte de Joana Velozo, o ato de existir pode ser tido como um lampejo poético diante do mundo que nos apresenta incessantemente suas complexidades. Por entre as frestas do cotidiano, surgem vívidas as imagens construídas pela artista, processo criativo a engendrar facetas humanas.

Brasileira radicada em Barcelona, Joana nos apresenta em seu trabalho todo um painel de cores e formas devotadas ao sublime exercício das constatações. E quais seriam elas? Todas aquelas que simbolizam gestos pertencentes a certas andanças humanas. Nesse contexto, impera vigorosa a representação do universo feminino, especialmente alicerçado em contornos que expressam o lado orgânico e substancial do ser mulher. Tais incursões nos remetem a uma conexão que estabelece laços telúricos com a condição feminina disposta numa permanente transformação. Ser mulher aqui dialoga com a ideia de que emergem subjetividades no seio cotidiano das libertações individuais.

 

Ilustração: Joana Velozo

 

Nas ilustrações de Joana Velozo, vislumbramos também interfaces da natureza. Da confluência entre fauna e flora, emanam representações de vidas que correm paralelas ou até mesmo harmonizadas com a interferência dos homens. Assim, animais e vegetais contribuem para a construção de todo um imaginário que, divisando as fronteiras do real e do fantástico, proporcionam uma viagem amplamente sensorial a partir das imagens da artista. Nesse trajeto de percepções, homens e natureza surgem intimamente conectados.

A utilização das cores é outro ponto de destaque nos trabalhos de Joana. Os variados tons e intensidades ali dispostos revelam camadas distintas de apreensão, todos eles a tratar a passagem humana pela Terra como algo essencialmente marcado pela leveza. As cores sugerem um contrabalançar de sentimentos que marcam a expressão dos personagens e ambientes simbolizados. Mesmo diante de certas intempéries, os seres que protagonizam as ilustrações da artista têm suas tensões atenuadas pelos contrastes cromáticos escolhidos. Desse modo, tons de diferentes escalas não se prestam a um mero jogo de oposições; pelo contrário, advogam por papéis específicos dentro da narrativa visual proposta.

Mesmo sabendo que o mundo em que vivemos não nos permite mergulhar em estados de encantamento permanente, talvez a mensagem mais significativa do trabalho de alguém como Joana Velozo se apoie na ideia de que o lado sereno das coisas precisa emergir com mais frequência diante de nossas práticas usuais. É possível suportar a realidade com requintes necessários de quietude e reflexão.

 

Ilustração: Joana Velozo

 

* As ilustrações de Joana Velozo são parte integrante da galeria e dos textos da 129ª Leva

 

Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e, atualmente, mestrando em Letras pela UESC, aliando Literatura, Comunicação e Cultura.

 

 

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128ª Leva - 06/2018 Destaques Olhares

Olhares

Nas dobras do cotidiano

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Adelmo Santos

 

Num recanto qualquer do mundo, a vida acontece e se expande em seus microuniversos. São possibilidades de existência que emanam das faces múltiplas do cotidiano. Enquanto estas linhas são escritas, o aqui e o agora são delineados pelo olhar de alguém e revestidos com a propriedade de observação diferenciada que cada artista carrega consigo. Diante da oportunidade de se mirar potenciais cenários, o ofício de fotógrafo engendra muito mais do que percepções flagrantes. Ousa além: oferta-nos revelações.

Mas por qual razão nos embalamos às multidões do dia a dia e deixamos de ver muita coisa? Há um sentimento perene de dissipação quando vemos as imagens de nossa real existência no mundo se confundirem com pontos perdidos e quiçá genéricos de observação. É como olhar para tudo e nada ao mesmo tempo. Na tentativa talvez de absorvermos freneticamente o rumo acelerado das coisas que nos são apresentadas, a sensação de se esvair numa torrente informe parece não passar.

A arte é capaz de fazer frente à ideia de que somos uma turba desorientada e, portanto, avessa aos pormenores mundanos. E falar aqui de detalhes significa remontar à perspectiva de se poder olhar e sentir a dinâmica da vida sem perder experiências relevantes de serem vivenciadas. Mesmo que não haja interferências por parte do artista que está a mirar os cenários, ainda assim ele se fez personagem do que acaba de testemunhar e reproduzir em sua obra.

No trabalho de um fotógrafo como Adelmo Santos, temos a percepção de que as revelações dispostas nos ambientes retratados emergem em meio ao caos urbano que, teimosamente, tenta desviar nossa atenção. Apartado da noção de um mero flagrante, o empenho artístico de Adelmo é no sentido de atenuar o efeito de dispersão do olhar que nos alça a obviedades. É marcante em muitas das imagens do artista o captar de um sentimento poético que se esconde por trás da rotina de homens e lugares. Mergulha-se, por escolha, no âmago das coisas.

 

Foto: Adelmo Santos

 

O fato é que Adelmo privilegia registros de dimensões da vida que passam despercebidas por muita gente. Evidencia delicadamente o canto quase que inaudível do povo de algum lugar, a rica simplicidade das pessoas, seus gestos e ritos. Nas suas fotografias, vemos uma clara tentativa de enaltecer o protagonismo às avessas que gente ocultada pela rotina exerce em seus espaços de sobrevivência. Na contramão dum complexo processo de invisibilidade, há vez e voz para os representados diante de imagens que potencializam uma possibilidade renovada de afirmação social e cultural. Nesse ínterim, todo um painel de feições populares deixa impregnadas as suas peculiares marcas.

Outro traço marcante do trabalho desse fotógrafo baiano está no modo como a dinâmica urbana é pensada e reproduzida. Fazendo transitar o seu olhar por lugares de passagem e pelas mais distintas vias de acesso, Adelmo testemunha e nos apresenta indícios humanos de transformação dos espaços. Alveja a configuração arquitetônica das cidades e nos põe a refletir sobre as variadas formas de intervenção espacial propostas pelos sujeitos que se movem e se deslocam através dos mais difusos ambientes.

Quando se utiliza da técnica de superexposição de imagens, Adelmo traz à tona uma curiosa coexistência entre mundos. Nesse aspecto, é como se uma interação entre o vivido e o imaginado pude se estabelecer de tal maneira que um efeito de realidade se fizesse determinante.

Impera na arte de Adelmo Santos a procura um tanto visceral pela construção de seus temas. No início do texto, falou-se em revelações, palavra que pode até mesmo abrigar uma infinidade de alternativas. Mas importa destacar que dar vazão a faces e cenários marcados por certa clandestinidade é também rasurar a imagem limitada que se tem sobre pessoas e seus entornos. Por entre vestígios do labor humano captados em luz e sombra, resistem vigorosos modos de existir.

 

Foto: Adelmo Santos

 

* As fotografias de Adelmo Santos são parte integrante da galeria e dos textos da 128ª Leva

 

Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e, atualmente, mestrando em Letras pela UESC, aliando Literatura, Comunicação e Cultura.

 

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127ª Leva - 05/2018 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

LUEDJI LUNA – UM CORPO NO MUNDO

 

 

Qual é o nosso verdadeiro lugar no mundo? Certamente somos seres capazes de refletir sobre nossa própria condição em meio a tantas demandas e atravessamentos cotidianos. O fato é que temos essa possibilidade nas mãos, mas nem sempre o fazemos de modo a compreendermos quem realmente somos no complexo jogo da vida. Quando tal conexão com a realidade é negligenciada ou perdida, estamos distantes de nós mesmos e dos laços que podemos estabelecer com nossos semelhantes, sobretudo no que toca ao entendimento das diferenças.

De algum modo, nosso corpo é um instrumento de afirmação do ser/estar no mundo. E não há como fugir disso. Podemos ser o todo orgânico que, aliando mente, alma e fenótipo, se projeta ao ambiente universal das experiências sociais proferindo mensagens que intentam demarcar o território inalienável de nossa identidade. Diante do que falamos e executamos, temos potência quando alçamos nossas ideias em meio ao vento que dispersa vozes, este senhor que carrega as mensagens de um lado a outro das relações humanas, antevendo reações ou sendo tomado pelas surpresas de quem acolhe ou até mesmo rechaça os sinais emitidos. Paira sobre nós a noção de que falamos não apenas para nós mesmos e, a todo tempo, o exercício da compreensão da alteridade se impõe como desafio permanente.

Diante da vastidão de cenários que a vida nos apresenta, pode ser que não nos encaixemos em nada que signifique reduzir a níveis rasos demais nossa inteligência e coração. Ninguém passa impune pela vida em se tratando de mostrar sua face verdadeira. No esteio da voz que clama por se apresentar desnuda, haveremos de encontrar amparo em alguém como Luedji Luna, artista que nos provoca a repensar a responsabilidade que temos diante dos caminhos que escolhemos, frente a frente com o Outro que nos apresenta o vigor da diferença, ritmo pulsante de individualidades que nem sempre se conciliam naturalmente.

Parece ser cada vez mais necessário que alguém venha a nos lembrar que existir é colocar sempre em voga o entendimento de nossa trajetória, principalmente o que desejamos profundamente para nós mesmos e para os outros. Diante disso, temos algo em mãos, o primeiro disco de uma cantora e compositora baiana cuja trajetória é deveras promissora. Um Corpo no Mundo, eis o nome de batismo que, apenas sendo pronunciado, já é capaz de sugerir uma miríade de possibilidades. E a canção homônima ao título do álbum é uma preciosidade a definir o espírito do trabalho. Fala de ancestralidade, do lugar do sujeito no mundo, da condição de quem toma posse da própria existência sob a égide de uma marcante herança cultural. O indivíduo que fala por si, constrói suas rotas, afirma seus caminhos, seu rosto, mesmo que não queiram alguns, mesmo que outros se oponham e insistam em restringir a liberdade de quem deseja transitar pela vida sendo o que se é. Um corpo sem amarras. “Je suis ici”, canta Luedji num sonoro marco presencial de quem, lutando contra as negativas e contra a invisibilidade, insiste em dizer que está aqui. “Je suis ici, ainda que não queiram não/Je suis ici, ainda que eu não queira mais”. É o ser também dizendo que quem pode até mesmo determinar o seu não lugar no mundo é ele próprio, e mais ninguém.

Ao adentrarmos pelas faixas do disco, notamos que fica extremamente difícil eleger algo que seja um destaque isolado e, portanto, superior às demais escutas. Tudo demonstra se encaixar numa proposta que concilia os imperativos da lucidez com as vivências de uma contemplação leve e capaz de escutar o coração sem denotar mais do mesmo.

 

Luedji LunaFoto : Danilo Sorrino

 

Banho de Folhas é uma dessas canções que tomamos como bastante representativa no que se refere a mostrar quais referências são caras ao álbum. A busca pelo Outro em meio à cidade que esconde rostos diversos na multidão vem luxuosamente contemplada pela força mística dos ritos africanos que purificam e protegem os caminhos da procura.  Em Asas, vigora uma presença poética do vento, daquele que aponta rotas para quem se permite. A canção funciona como uma espécie de prece para que tudo se ordene por dentro. Mesmo advindo tempestades, há possíveis renovações, acalmando sentimentos, engendrando bons presságios.

Noutra porção do disco, mais precisamente em Iodo, Luedji deixa aflorar a consciência de um corpo político que se projeta em meio às intempéries cotidianas assomadas pelo desrespeito às mulheres, marcantemente as negras, pobres e homossexuais. Nela, há o clamor e o espanto que se insurge contra o rolo compressor de uma barbárie teimosamente cotidiana e naturalizada, aquela que violentamente nega a humanidade plena do Outro. “Eu sei ser/Trovão/E nada/Me desfaz”, arremata a voz que não se subalterniza.

“Quem vai pagar a conta?/Quem vai contar os corpos?/Quem vai catar os cacos dos corações?/Quem vai apagar as recordações?”, entoa Luedji em Cabô, diante do dizimar de um povo que se materializa em estatísticas. São questionamentos que nos provocam e assombram. E o cinismo com o qual temas como a violência contra o pobre e o negro são tratados atualmente aparece travestido no perene e tão danoso costume de relativização dos fatos.

Dentro Ali é uma forma sublime de falar de amor, sem incorrer nas obviedades do sentimento. Predominam nela gestos simples que reformulam a rotina da vida, equilibrando fardos e depositando esperanças no desejo mais sincero e puro de que uma leveza consolide sua morada em meio aos dias. Ao mesmo tempo, a vontade aqui presente é a de compartilhar a vida com o Outro com menos peso possível. Já Notícias de Salvador vem com a referência das memórias, duma ancestralidade que remonta a afetos e que impulsiona para os dias futuros. “Essa é a sina de nós todos/Janta, sobremesa, guerras e acordos de paz/ Plantar, regar, colher/Monossílabos de agouro, infernos astrais”, diz a canção conformando um espaço de ação diante das dificuldades da vida com o aconselhamento maternal que nos impele a atar os nós.

Um Corpo no Mundo é um belo começo de caminhada. Valioso por demais sob a ótica do discurso ali contido, mas também pelos elementos rítmicos e percussivos que delineiam seus arranjos. Não há melhor forma de se mostrar ao mundo do que falar de si, suas crenças, esperanças, do seu entorno e do que está além dele. Não há nada de mais verdadeiro do que mencionar que se é beleza e dor ao mesmo tempo. Lembraremos sempre de Luedji Luna a partir de agora.

 

 

Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e, atualmente, mestrando em Letras pela UESC, aliando Literatura, Comunicação e Cultura.