No compasso do tempo, as formas brincam e teimam em ser muito mais do que aparentam. São capturas retiradas dos marcos cotidianos, representações de vidas que perpassam as tramas da rotina. O ser pode significar muito mais do que um mero elemento a cumprir o ritual dos dias. Pode se insurgir contra as repetições, contra a banalização da própria existência para desaguar num oceano de vivências outras.
A realidade emite seus alertas mesmo que não queiramos considerá-los como tais. No entanto, há em nós a possibilidade de reinvenção dos instantes, a perspectiva latente de que, a todo momento, uma nova dimensão espaço-temporal pode ser experimentada. Mas eis que tal viés surge também como produto direto da capacidade de abstração com a qual deitamos nosso olhar sobre as coisas. Nos intervalos e lugares despercebidos, muitos cenários se deixam revelar.
Na trama de rostos, corpos e movimentos, a arte de Ana Matsusaki aponta para os recortes poéticos da vida. Convida corpos e seus gestos a se harmonizarem com o bailado da existência. No lado exposto da rotina, pairam percepções de um mundo fragmentado por emoções das mais diversas. Nesse ínterim, somos levados a entender que a artista nos atrai tanto para a contemplação quanto para lugares mais ásperos de questionamento sobre a nossa condição humana.
Pelas ilustrações de Ana Matsusaki, entrevemos certa inquietação contemporânea quando o intuito é tomar o sujeito em sua perspectiva de assumir uma bagagem identitária nada estável ou fixa. Os seres que a artista nos apresenta parecem prenhes de algo que os faça mudar as rotas acostumadas. Desse modo, Ana mescla os ímpetos humanos à paisagem que os abriga, fazendo com que seus protagonistas aconteçam e sejam ativos em decorrência de certa integração com os ambientes nos quais estão mergulhados. Pessoas e seus lugares de expressão não surgem aqui dissociados de uma composição que lhes dê algum sentido de unidade.
Ilustração: Ana Matsusaki
Mas Ana flerta também com a delicadeza dos traços que denotam a puerilidade da vida. Em alguns de seus trabalhos, há o diálogo com o público infanto-juvenil, aqui contemplado por ilustrações que refletem leveza, colorido e um ideal de liberdade e sonho bem típicos das crianças. São contornos suaves a representar uma fase da vida que poderia muito bem disseminar modos serenos de nós, os tais adultos ditos maduros, sermos criaturas menos beligerantes diante do convívio com nossos iguais.
Paulistana de nascimento, Ana Matsusaki é formada pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo. Sua experiência no trabalho com direção de arte voltada para obras infanto-juvenis fez com que o interesse pela ilustração de livros se tornasse algo marcante em sua vida. Depois de algum tempo, ela abriu seu próprio estúdio e hoje tem como clientes diversas editoras de renome, além também de ministrar oficinas de ilustração de modo eventual.
Com certo tom de irreverência e requintes de reflexão, Ana também faz da sua arte um lugar de crítica dos nossos tempos. As paisagens humanas as quais a ilustradora visita com certa habitualidade vêm nos falar de como pessoas fazem dos seus espaços verdadeiros pontos de comunicação com um mundo que se mostra cada vez mais plural e multifacetado, tudo isso sem ignorar o potencial sublime dos gestos.
Ilustração: Ana Matsusaki
* As ilustrações de Ana Matsusaki são parte integrante da galeria e dos textos da 127ª Leva
Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e, atualmente, mestrando em Letras pela UESC, aliando Literatura, Comunicação e Cultura.
É relevante considerar que o trabalho de um artista ganha sentido mais vigoroso quando aparece conectado às questões de seu tempo. Na verdade, estamos a falar aqui da percepção que a arte evoca quando, imbuídos da consciência de seu lugar no mundo, aqueles que labutam com a cultura conseguem comunicar o conteúdo de seu ofício de modo a refletir aspectos comuns a toda uma coletividade. De toda sorte, falar ao mundo não pode ser uma mera atitude retórica, um jogo de cena a representar algo apenas em sua superfície e aparência. Requer propriedade para além de um discurso que reflita a vivência de quem o profere.
Mas dizer as coisas todas relatadas acima é apenas um indicativo para chegar a um ponto desejado, ou seja, abrir caminho para apresentar um projeto artístico que se converte em música da melhor qualidade. É dessa forma que a trajetória de uma banda como OQuadro pode ser referenciada. Para quem ainda não conhece, importa mencionar que estamos diante de um grupo com mais de 20 anos de estrada marcados, sobretudo, pelas vias do rap. E não é apenas isso. Esse rap praticado pelo grupo surgiu e se desenvolveu ao longo do tempo dentro de um contínuo processo de diálogo com outros ritmos, principalmente os de influência africana e latina.
A junção de Jef Rodriguez, Ricô, Victor Santana, Freeza, Jahgga, Rans, Dalua e Mangaio foi capaz de produzir um todo orgânico que hoje melhor define os caminhos do grupo. Com dois discos na bagagem, os baianos de OQuadro parecem ter encontrado um equilíbrio que, na verdade, demonstra ser um misto de independência, maturidade e engajamento. Some-se a isso o fato de que suas produções, além de expressarem o resultado de um cuidadoso e coletivo processo de criação, derivam de um amplo diálogo com parceiros valiosos na estrada musical.
Na entrevista que agora segue, Jef Rodriguez, Victor Santana e Ricô falam um pouco sobre os percursos da banda em meio a uma jornada que mescla raízes, pesquisa musical, identidade e visões de mundo. Também por aqui o foco está nos desdobramentos trazidos pelo segundo disco do grupo, Nêgo Roque, lançado em 2017. O álbum, que já foi alvo de uma matéria aqui na revista, representa todo um momento de escolhas, influências e percepções dos músicos em torno daquilo que hoje melhor define sua trajetória. Por essas e outras vias, nada mais apropriado do que conferir atenção às falas de tais artistas.
OQuadro / Foto: divulgação
DA – Nêgo Roque é um trabalho que mantém aceso todo um potencial discursivo que já se tornou uma marca forte de OQuadro. Suas letras são janelas de lucidez abertas para o mundo. O olhar que não acomoda coisas é o que faz permanecer vivos os caminhos da banda?
JEF RODRIGUEZ – Sim. Existe um filtro, um processo seletivo na confecção das letras e das músicas que vêm marcando nossa caminhada até então. Não queremos que essa seleção pareça um limite, pelo contrário, é uma escolha. A pretensão é ampliar ainda mais esse raio temático para além das questões sociais. Afinal, existem muitas coisas a serem ditas. Mas existe um fio condutor, um nível de relevância que não queremos perder de vista, tanto na forma quanto no conteúdo.
DA – Uma das características principais da banda é o modo como as criações são pensadas e executadas coletivamente. Isso é perceptível, sobretudo no novo álbum. Qual é o maior desafio de se chegar a um resultado orgânico quando há uma pluralidade de mentes convivendo?
VICTOR SANTANA – Na verdade, não tem muito desafio. Podemos até demorar para chegar no resultado que seja bom para todo mundo, que todos concordem, mas é fácil. Uns chegam com um rif, um arranjo de guitarra, baixo, teclado, bateria ou percussão e isso vai se juntando a letras ou à ideia de algum refrão já cantado; outros chegam com um tema ou ideia de letra. Vai se juntando tudo. Todo mundo muito atento à musicalidade tanto moderna quanto do próprio grupo. E chega a um resultado fácil. O maior desafio é compor. O rif pronto, o beat pronto, a letra pronta, é só juntar. Agradar a todos também não é muito difícil. Esse disco novo foi fácil de ser feito. A gente ficou só dez dias juntos, sendo que compomos dezessete músicas nesse período. Nunca tínhamos ficado reunidos antes para poder criar essas músicas. Compomos tudo quase que do zero.
DA – O novo disco traz um mergulho numa perspectiva, digamos assim, mais voltada para o experimental. De que modo a escolha dos arranjos refletiu essa aposta criativa?
RICÔ – Acho que OQuadro sempre foi experimental. Teve um momento em que criamos até um subtítulo pra gente, que era o “clube de música experimental”, pois já flertávamos com muitas outras coisas em termos de sonoridades, referências de artes plásticas, cinema etc. Então, estávamos sempre antenados com muita coisa, com estilos musicais que não fossem apenas o rap, até pra poder fazer um rap diferente. Ao mesmo tempo, tudo fluía muito natural e espontâneo. Às vezes, eu chegava com uma base pronta, daí outro complementava. Nesse último disco, acabei chegando com mais força no sentido de preparar bem as coisas antes, de vir com arranjos mais prontos, mas apontando pra questão da tecnologia que a gente não teve no primeiro. Na verdade, a gente já queria ter, mas, por algum motivo, escolhas e recursos, naquele momento ficamos mais no artesanal. Depois decidimos flertar mesmo com o eletrônico de forma mais sincera do que acreditamos, ter essas texturas, buscar essa coisa dos sintetizadores, das frequências ultra graves, enfim, e usar o rock como atitude mais do que distorção. Tem distorção no disco, mas também há várias frequências que pra gente são rock. E a postura, o nome do disco, são várias coisas que levam pra essa transgressão. Ao mesmo tempo, eu mirei muito, junto com o coletivo, a ideia de tentar um pop com conceito, inteligência. Dá pra fazer coisas sem precisar ser apelativo, fazer a galera, do mesmo jeito, entender e cantar melhor. Tivemos mais cuidado com as frases também no sentido de não ter muitos excessos, mas sim falar o que é preciso ser dito, pois às vezes falamos muito e não dizemos muita coisa, como vemos por aí. A gente tentou ficar focado na escrita e numa linguagem bem simples para que todo mundo pudesse entender o que estávamos falando. O primeiro disco tinha coisas assim, mas era muito mais complexo, mais denso, outras vivências também. Então, os arranjos refletiram justamente essa nova fase de outros contatos, outras experiências com outras músicas e pessoas. Eu, aqui mesmo no Rio, com Marcelo Yuka, vi que outros horizontes se abriram pra mim. Comecei a produzir coisas com ele e isso me deu uma abertura muito maior de música, melodia. O próprio Yuka me orientou muito pra gente, no trabalho com a banda, ir no caminho da melodia, das harmonias, da música, enfim, e não se preocupar se é rap ou se não é, sabe? Acho que vem muito daí.
DA – É perceptível nesse segundo disco da banda uma ampliação dos laços que remetem à matriz africana. Num tempo em que a temática identitária do povo negro vem sendo ressignificada e intensamente debatida, o que é relevante destacar?
JEF RODRIGUEZ – Em relação aos ritmos, posso dizer que sempre esteve presente desde o primeiro álbum em 2012. Em Nêgo Roque isso se reacendeu numa perspectiva mais contemporânea pelo acréscimo de elementos eletrônicos, além da conexão com outras células que agora tivemos a oportunidade de expandir. Mas o que gostaríamos de destacar como referência em relação à matriz africana é a questão humana. Existe um genocídio da juventude negra acontecendo nas periferias do Brasil e do mundo. Questões históricas que ainda não foram resolvidas e parecem distantes de uma resolução razoável. Estamos tocando no assunto de maneira direta sem medo de soar clichê.
OQuadro em show no Circo Voador, no Rio de Janeiro / Foto: Roncca
DA – O rap tem algum compromisso?
VICTOR SANTANA – O rap já teve algum compromisso consigo mesmo. Na verdade, o rap começa ali no Bronx, em Nova Iorque, sendo a voz daquele povo esquecido. Num lugar que era um super gueto, quase uma zona de guerra, com assassinatos e muitos incêndios. Se não me engano, em um ano aconteceram mais de doze mil incêndios no Bronx. Sabe o que é isso? Um bairro inteiro queimando, vários focos e essas pessoas pobres lá se lascando. Então, o rap começa primeiro como uma festa daquelas pessoas e, na sequência, torna-se um jeito de se falar sobre o assunto, já que eles tinham discotecagens e também o microfone na mão. Faziam rimas falando sobre a coisa. Aí começa o rap. Surge um compromisso de resgate das origens com artistas como Afrika Bambaataa, que começa a falar mais sobre África através da Zulu Nation. No Brasil, já se começa ali a falar sobre Zumbi, nosso herói nacional negro. Inicia aí esse caráter político. Um compromisso que fala sobre nós, pretos, o modo como vivemos e tal. Esse compromisso vem com certas regras. Todo mundo quer trabalhar, ganhar dinheiro, viver disso. No Brasil, tem uma máxima de que as coisas que fazem sucesso não dão certo, pois entraram na mídia. Nos Estados Unidos, o pessoal quer fazer sucesso e ganhar dinheiro. O compromisso passa a ser a questão de se ter dinheiro e poder sustentar a família. São vários compromissos e eles são: sobreviver, ganhar dinheiro, fazer a coisa pelo certo e protestar sobre coisas ruins que acontecem ao negro (a politização, o crime policial). O compromisso talvez seja o jornalismo em torno dessas coisas ruins e boas que acontecem no gueto contra o povo negro, chamar atenção sobre estereótipos. É abrir os olhos da população sobre as mazelas que existem. Agora, compromisso em manter-se pobre, em não fazer sucesso, não é compromisso. Os Racionais MC’s, por exemplo, tiveram como pauta nunca aparecer na Rede Globo e até hoje eles não apareceram lá enquanto Racionais MC’s, nunca tiveram música na novela, nem se apresentaram no Caldeirão do Huck e no Faustão. Muita gente entrou nessa coisa de imitar os Racionais, dizendo que quem entra na Globo é vendido, é ruim, mau, playboy etc. Então, confunde-se muito a coisa toda. O Edi Rock, que é um dos integrantes dos Racionais, foi ao Faustão mostrar um trabalho solo certa vez, teve até uma reportagem e tal. Isso não impede deles serem amigos e estarem juntos apresentando o trabalho do grupo. Você vê que Criolo vai à Globo, Gabriel Pensador também (contemporâneo dos Racionais MC’s), e nem por isso tira o mérito do conteúdo de contestação. Enfim, o compromisso é consigo mesmo, fazer seu trabalho, ganhar seu dinheiro e falar sobre as coisas que incomodam. O rap tem algum compromisso, claro, mas é mais uma condição hedonista coletiva, se é que é possível dizer assim (risos), do que um conjunto de regras que te impedem. Não, elas não te impedem, te motivam.
DA – Como fazer arte num país que parece cada vez mais desintegrado politicamente?
JEF RODRIGUEZ – Penso que essa desintegração sempre existiu, a novidade em relação a isso é a consciência da mesma. Em momentos de crise econômica, o primeiro corte que o cidadão brasileiro faz é no consumo de cultura. Não fomos educados a entender as manifestações artísticas/culturais como elemento fundamental no processo educativo, no exercício intelectual, na construção de referências para um jovem em formação. A retirada das disciplinas como sociologia e filosofia da grade curricular obrigatória só confirma o tipo de cidadão que se espera formar no modelo educacional vigente. No caso específico do OQuadro, fazer a música que fazemos e como a fazemos já é uma luta política por natureza. Por não ser um rap convencional, por ser do sul da Bahia, por não fazer parte de nenhum grupo de amigos do meio. É um caminho árduo, mas o resultado tem sido sincero.
DA – Vocês têm ideia de qual lugar ocupam no cenário contemporâneo da música independente?
RICÔ – Acho que a gente ocupa um espaço interessante na música, e flerta com muita coisa moderna que vemos não só no Brasil, mas no mundo mesmo, sendo modesto. Pelo que já andamos pelo mundo, em alguns festivais, pequenos e grandes, estávamos sempre sendo colocados num lance mais moderno, experimental. E sempre as pessoas descrevem nosso trabalho, pelo menos no olhar de fora, como uma coisa de vanguarda. Uns acham que é um rock de vanguarda; outros acham que é um rap de vanguarda. Isso é bom porque mostra várias facetas nossas. No Brasil, tem muita gente interessante, mas, misturando o som do jeito que fazemos, na base do rap com várias outras coisas, não há muitos artistas. Infelizmente, o reconhecimento ainda não aparece em números, palpável, em termos de público Brasil afora também. Temos a consciência da importância daquilo que estamos fazendo. Não sei se agora, mas, de repente, num futuro próximo seremos mais reconhecidos, enfim. Mas é isso, estamos trabalhando e seguindo esse mesmo objetivo.
DA – As plataformas digitais modificaram profundamente o comportamento da indústria fonográfica. Para os artistas independentes, isso representou a necessidade de uma consolidação de espaços próprios, dando-lhes certa autonomia na produção e divulgação de conteúdos. Como prosseguir nesses verdadeiros lugares de resistência?
VICTOR SANTANA – As gravadoras perderam o poder, inclusive sobre os artistas. O trabalho para o artista fica mais pessoal mesmo. Na verdade, tem que procurar divulgar seu trabalho usando as plataformas digitais, que são uma facilidade para uns e extremamente difíceis para outros. Acho que você tem que ter assunto para ser atual ou uma relevância artística muito peculiar, algo que chame atenção de todo mundo. Na época das gravadoras, eles meio que empurravam isso, pagavam o tal do jabá, botavam para tocar nas rádios, no Faustão etc. Ainda tem isso dos produtores que pegam a grana e pagam rádios para fazerem divulgação, mas, em termos de plataforma digital, ou você tem um conteúdo muito foda ou tem que estar ligado nas tendências e tal. Tem uma coisa que acontece, uma pauta justa, muito séria, que é a dos músicos LGBT, e esses músicos, hoje em dia, estão em ascensão, não necessariamente pela qualidade extrema do seu som, mas pela pauta, pelo assunto. Então, às vezes, o cara não é um bom músico, cantor ou rapper, mas a pauta está em voga. Tem a coisa do feminismo mesmo, que é necessária, mas tá acontecendo uma, não sei se posso dizer, supervalorização, algo que está além da qualidade artística. Os youtubers, por exemplo, têm textos engraçados, pessoas que falam coisas legais, de acordo com certa juventude, e aí já funcionam, ganham dinheiro logo no próprio Youtube. Um super vídeo de um rapper da moda já faz dinheiro logo no Youtube antes mesmo do artista sair pra fazer show. Então, as pessoas estão se preocupando com esses conteúdos e, de repente, esquecendo o conteúdo real de sua arte. Para quem está preocupado só com a arte é difícil se adequar a umas coisas assim, apenas pela “modinha”. É uma faca de dois gumes. Por um lado, é independência; por outro, é estar atento às novas plataformas. Não dá para ter certeza sobre nada. Você pode fazer um clipe bobo e virar uma coisa assistida por quinhentos milhões de pessoas. Ao mesmo tempo, outras pessoas nem atingem essa visualização, sendo que fazem um trabalho com a qualidade bem boa.
OQuadro em show na Concha Acústica de Salvador / Foto: André Fofano
DA – Desde o primeiro disco, vocês sempre se aproximaram de parceiros importantes, principalmente no processo de produção. Que tipo de buscas marcam esses diálogos com outros artistas?
VICTOR SANTANA – No primeiro disco, a gente procurou Buguinha Dub porque era um cara mais acessível e que tinha trabalhado com bandas que eram referência pra gente, como Nação Zumbi, Mundo Livre S/A. Tinha a proposta do dub, que é um estilo de som jamaicano, psicodélico e tal, que nem ficou tão presente assim no disco como eu, por exemplo, imaginava, mas ficou o peso do dub com os baixos e bateria pra frente, fortes. Gravamos ele num estúdio que era bom e que atendia a nossas necessidades através do projeto da Vivo. Por acaso, foi o estúdio de Guilherme Arantes e a gente não contava com esse artista lá, mas aí ele apareceu e participou do disco. Ainda nesse álbum, tivemos Lurdez da Luz, que é uma rapper de São Paulo, e que trouxe ideias para fazer um refrão ou parte de música. No primeiro disco, não houve uma busca, as coisas foram acontecendo naturalmente. A mix foi de Buguinha Dub e a master de Gustavo Lenza, que foi quem trabalhou com Chico Science e Nação Zumbi, no Afrociberdelia, um disco de bastante referência pra gente. Para o Nêgo Roque chamamos Basa para produzir porque ele é o produtor de um grande disco de rap do Brasil, que é o Babylon By Gus, de Black Alien. Já tínhamos trabalhado juntos com esse produtor num evento em Itacaré, o Conexão Vivo. A gente pensa qual artista pode contribuir com o trabalho. Nunca é pelo nome, mas pelo que pode ser aproveitado. É dizer “nessa música caberia uma rima de Snoopy Dogg” sem que se tivesse acesso a Snoopy Dogg naquele momento. Foi o que aconteceu, por exemplo, com Indee Styla, que se tornou nossa amiga, com os caras do Attoxxá, que também estiveram junto conosco. A gente pensou em nomes pra atingir certas necessidades nossas. Poderia ter sido Pablo Vittar para um agudo, Baco e Vandall numa música y, porque o beat é um trap que combina com esses dois caras. Poderia ter sido Pitty em Nêgo Roque para fazer o refrão, ou seja, uma mulher que dá uma outra tônica, BNegão, ou Yuka falando alguma coisa. E a gente sempre pensando na música e não no artista. Com quem temos acesso, obviamente entra com mais facilidade. Pensamos em muita gente pra produzir até chegar em Rafa Dias, que era quem estava mais próximo da gente e entendia nosso conceito muito mais facilmente.
DA – De que modo uma banda que se originou em Ilhéus, no interior da Bahia, hoje, tendo alcançado alguma projeção, olha para suas raízes?
JEF RODRIGUEZ – Ilhéus é e sempre será o berço d’OQuadro, temos um cordão umbilical com vínculo eterno. Mas não me identifico com a cidade enquanto instituição, ela não foi feita para pessoas como nós. Vivemos aí tempos de um amor não correspondido. Testemunhamos desde sempre gestões que se apropriam de uma cidade que é projetada pela cultura, mas não devolvem a esse setor o mínimo de investimento que possa fomentar o nascimento de novos Jorges. Quem faz arte em Ilhéus, faz por amor, sem contar com incentivos ou iniciativas que projetem trabalhos autorais com o mínimo de dignidade. Pelo contrário, desenvolvem em nós um complexo de vira-lata, onde sentimos a obrigação de ser menor diante de qualquer manifestação artística que venha da capital ou de outro estado, o que é um exercício prático de autoestima baixa, de autodestruição. Nesse sentido, prefiro olhar para Ilhéus pelos vínculos com nossa família e amigos que nos incentivam sempre.
DA – Hoje, com mais de 20 anos de estrada, é possível dizer que a banda atingiu uma maturidade musical desejada?
RICÔ – Acho que a gente atingiu uma maturidade enquanto também pessoas, seres humanos, e nas questões das vivências, tanto pessoais quanto profissionais, pois a gente fica em lugares diferentes, vivendo coisas diferentes, e quando junta isso tudo, vem essa maturidade também da relação com outras pessoas, outros músicos e artistas. Isso influi totalmente na produção do som, do disco. Então, Nêgo Roque mesmo teve muita coisa das vivências que eu tive aqui no Rio com outros artistas, outras experiências de som, de imagem, de tudo, assim como a galera também teve. Quando nos juntamos, estávamos cheios de referências. Nesse disco, conseguimos expressar melhor o que queríamos, coisas tecnológicas. Então, tivemos todo o acesso possível pra construir isso. Não tivemos tanta limitação pra conseguir as coisas, pois contamos com pessoas trabalhando conosco para que conseguíssemos tirar o som da melhor maneira. Construímos coisas do jeito que a gente pensava, com bem mais facilidade, experimentalismo, direcionamento. Então, esse é um disco com certeza bem maduro. Claro que a arte sempre te dá a possibilidade de fazer mais, depois você reflete sobre o que poderia ter feito, mas têm sempre ene possibilidades, pois a gente não termina um disco, a gente desiste dele, senão a coisa vai se transformando e não tem fim. Partindo desse princípio, foi uma desistência madura (risos).
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.
Cada vez que um artista descortina um véu de coisas ante nossos olhos, é como se outros tantos mundos surgissem com toda sua intraduzível aparência. Mas de onde partem essas novas esferas da existência em meio a uma carga pungente de invenção? A busca pela palavra certa e que melhor define as sensações pode apontar para alguma espécie de reinvenção, ainda mais se considerarmos que a novidade, debaixo do sol que nos guarnece e acalenta, pode não passar de uma quimera.
Eis que duas porções que mais parecem antagônicas teimam em habitar o mesmo espaço abstrato. De um lado, a visão onírica da vida a pulsar desejos e projeções íntimos; do outro, a concretude abraçada ao olhar que considera a porção racional uma ferramenta de constante inquietação. Parece ser possível ter em conta a coexistência de tais dualidades quando observamos detidamente o trabalho artístico de um alguém como Sadrie. Pelo modo como a artista apreende as epifanias mundanas, vemos brotar certo equilíbrio entre o intangível e o corpóreo.
Nas ilustrações de Sadrie, delineiam-se contornos de uma complexa paisagem humana, toda ela entrevendo rituais do corpo e da mente. A essa altura, convém ressaltar o modo como os desdobramentos do feminino assumem uma condição de destaque. A partir desse enquadramento, a artista direciona nossos olhares para o modo como a representação da mulher serve de guia para se perceber a pulsação de um mundo feito tanto de traços sublimes quanto de revelações incômodas. Seja sob a forma da contemplação do belo ou na disposição de um viés crítico, as nuances femininas prenunciam aqui um universo no qual podemos também vislumbrar uma noção de unidade a achar abrigo ideal no reino da poesia. Assim sendo, à figura da mulher, guardiã das dimensões que nos são mostradas nesse tipo de arte, é confiada a missão de unificar todo e qualquer sentimento, independente de quaisquer denominações que insistam em classificar pessoas.
Ilustração: Sadrie
Sadrie é, na verdade, a persona artística de Sarah Adriaenssens, uma brasileira que atualmente mora em Antuérpia, na Bélgica. Segundo ela nos confessa, um dos intuitos maiores de sua arte é poder contar histórias através das imagens criadas. Além de se dedicar a ilustrações, a artista também trabalha com quadrinhos e animações. Sua arte também está associada a uma busca pelas raízes que remontam a um resgate pessoal da identidade brasileira. Algumas de suas influências derivam de nomes do quilate de Carybé, Lygia Clark, Louise Bourgeois e Ana Mendieta.
Sadrie evidencia a presença marcante das cores como se estas provocassem um efeito de ressignificar objetos, corpos e lugares. Diante da constatação de que o mundo oferta narrativas nem sempre tão carregadas de leveza, a artista parece subverter tamanha sensação que algum desalento pode nos causar quando engendra temas pueris em alguns de seus trabalhos. Em lugar de considerar como fuga, podemos conferir a tal atitude uma tentativa de mostrar que a serenidade é uma válida maneira de se conceber as coisas que nos cercam. De resto, agigantam-se visões em torno da vida, esta mesma que pode ser tomada em plenitude por marcar em nós a valiosa imprevisibilidade das pequenas coisas e gestos.
Ilustração: Sadrie
* As ilustrações de Sadrie são parte integrante da galeria e dos textos da 125ª Leva
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.
O que são os dias senão uma soma incontável de detalhes? Somos a sucessão de uma vida constituída por recantos, sejam eles físicos ou algum produto direto de nossas construções afetivas. O mundo parece não nos revelar tão diretamente seus avisos e alertas. Carecemos de uma perspectiva que nos dê a noção dos átimos, daquilo que se abriga em recônditos diluídos nos instantes embaraçados do cotidiano.
Mas perceber aquilo que não está tão aparente requer um exercício constante de desaceleração. Alijados da pressa, aquela cruel companhia que teima em assolar nossos tempos, muito provavelmente conseguiremos compreender que a aparição de um lado sublime da vida requer alguma opção de serenidade diante do olhar que podemos lançar sobre as coisas. E é, de fato, um movimento poético o de reter da existência elementos que nos passam despercebidos curiosamente por representarem a porção humana que nos convoca para dentro de nós mesmos.
Não há dúvida de que um ritual de contemplações e minúcias faz parte do trabalho de gente como a fotógrafa mineira Tati Motta. Mais do que direcionar suas lentes para uma riqueza íntima de gestos e para a apreensão de semblantes e objetos, Tati traz à tona uma expressão da arte que dialoga com camadas muito peculiares do ser/estar num mundo que nos golpeia incessantemente com os ardis da uniformização dos sentidos. Eis um ponto fundamental: o fazer artístico utilizado como ferramenta de ressignificação e pluralidade.
Foto: Tati Motta
Quando pensamos em negar a uniformização das coisas, devemos entender que cada pessoa ou objeto retratado tem um potencial de nos revelar particularidades que só são vistas graças ao ponto de vista de quem se permite alguma paciente imersão. Com certa frequência, o ato de enxergar no turbilhão alguns requintes de leveza é atribuído aos poetas. E é com tal postura, diga-se de passagem, uma de suas feições, tendo em vista também se dedicar nalguma medida à escrita de poemas, que Tati Motta penetra com delicadeza nos detalhes que envolvem pessoas, lugares e objetos.
No que se refere a captar nossas humanas idades, Tati flagra pessoas em seu natural bailado habitual, redimensionando suas manifestações para um renovado sentido: o de mostrar quão rica é a profusão de gestos que se camuflam na paisagem rotineira dos dias. O resultado expõe o quanto determinados corpos carregam em si uma amplitude de linguagens, todas elas sinalizando alguma rota de afirmação, entrega, efusão ou até mesmo silêncio.
Certa cartografia dos lugares urbanos também atrai os mergulhos da fotógrafa. É com eles que ela repensa os vestígios deixados pelas investidas audaciosas do progresso material civilizatório. Também não menos importantes são os olhares dedicados às manifestações que irrompem do ato de quietude e paciência emanado pela observação dos eventos da natureza.
Foto: Tati Motta
Formada em Comunicação pela PUC de Minas Gerais, pós-graduada em Artes Plásticas e Contemporaneidade pela UEMG, e especializada em Fotografia pela Escola da Imagem, Tati Motta confessa que sua inquietude foi quem lhe permitiu experimentar e desbravar as mais variadas formas de arte. Tem na fotografia conceitual uma grande impulsionadora de seu trabalho. Esta última, como a própria artista sustenta, é a principal responsável pela construção de imagens, expressão de ideias, manifestação do seu imaginário e dos seus devaneios.
A vida sabe como nos ofertar seus instantes ruidosos. Com eles, podemos simplesmente perdermo-nos na paisagem, sufocados pela padronização das rotinas, ou optarmos por apreendermos algum caminho que nos revele uma conexão de singularidade com nossas existências. Nas entrelinhas do mundo, algum novo sentido pode estar à nossa espreita.
Foto: Tati Motta
* As fotografias de Tati Motta são parte integrante da galeria e dos textos da 124ª Leva
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.
Palavras parecem domar o tempo com a astúcia de suas investidas. Talvez por tal razão não sejam menos importantes que a sina dos seus criadores. Elas, as palavras, ousam mais do que representar o mundo de quem as profere, imersas que estão nas profundezas do humano. Revelam-se a complexa ponte entre o íntimo e aquilo que está exposto cotidianamente nas travessias mundanas, bem ali na face desnuda da vida.
Quem engendra o verbo tem a consciência de que sua expressão criadora não se encerra dentro de um único domínio exclusivamente pessoal. Pelo contrário, intenta o encontro com o outro, trajeto comunicativo que, podemos desconfiar, não cessa jamais. Desse modo, levar a cabo uma obra é crer que na outra ponta outros sujeitos poderão consolidar sua permanência, conferindo-lhe uma gama de sentidos multifacetados. Por certo, um escritor fica exultante quando seus leitores mantêm vivo o seu legado dadas as mais distintas possibilidades de vivência, interpretação e apropriação do conteúdo concebido.
Assim como não se passa impunemente pela vida, com a literatura ocorre o mesmo. É salutar pensar um autor como alguém que mergulha nas questões de seu tempo e delas retira elementos construtivos para seu ofício. Quem se depara com a obra de um escritor como Itamar Vieira Junior, percebe um criador de olhares atentos aos fenômenos que constituem e demarcam sua condição de estar no mundo. Mas eis que tal característica tanto se baseia num fluxo de criticidade quanto no de uma vivência que permeia uma perspectiva de fruição estética. Assim, vemos um Itamar a construir sua obra com os requintes da lucidez, mas também sem negligenciar as possibilidades de criação inerentes a um viés de assunção das coisas intangíveis.
Com dois livros de contos na sua trajetória, Dias (Caramurê, 2012) e A Oração do Carrasco (Mondrongo, 2017), além do romance Paraíso (Câmara Brasileira do Livro, 2008), Itamar Vieira Junior pode ser considerado um dos nomes relevantes do atual cenário literário brasileiro. Grande parte disso se justifica em razão de que sua escrita madura e bem construída assinala um valioso lugar de reflexão, sobretudo quando se trata de atentar para o território das alteridades.
Doutor em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia, Itamar revela-se um escritor profundamente envolvido com as temáticas que denunciam a invisibilidade do povo negro. Na entrevista que agora segue, o escritor toca em certos lugares de incômodo social, reflete sobre a representação do racismo na literatura, o papel dos novos escritores, além de lançar luz sobre o panorama editorial brasileiro contemporâneo. O resultado do diálogo mostra-nos não somente um intelectual a expor seus consistentes pontos de vista, mas um indivíduo intensamente marcado pela necessidade de mergulhar fundo na dimensão humanista da existência.
Itamar Vieira Junior / Foto: arquivo pessoal
DA – Há tantos grilhões na condição humana e certamente aqueles que se referem à opressão do homem pelo homem são dos mais cruéis. Em “A Oração do Carrasco” você traz um deles à tona, qual seja a marca histórica do racismo, fantasma que nos ronda incessantemente. Diante de um contexto de tal natureza, como você concebe a literatura enquanto instrumento de exposição e debate desse tipo de incômoda temática?
ITAMAR VIEIRA JUNIOR – A literatura como expressão artística acomoda, involuntariamente, a narrativa da experiência humana. Atravessando os séculos – de Dom Quixote ao romance contemporâneo – ela sempre trouxe como sua razão de existir o descortinar de nossa condição. Hannah Arendt em sua obra “A condição humana” diz que a política é um dos três pilares da vita activa do homem. Tanto o trabalho quanto a obra – os outros dois pilares – são executados pelo homem em sua solidão, a partir das acepções que Arendt apresenta sobre trabalho e obra. Mas a política só se dá através do homem e entre os homens. Ou seja, somos seres essencialmente políticos e a literatura carrega, invariavelmente, a exposição do que um escritor é e pensa sobre o mundo a sua volta. Sem a política seríamos amebas vagando no mar do nada.
Vamos lembrar que a literatura abriga a diversidade do pensamento humano. Que há obras como “Escola de cadáveres”, de Louis-Ferdinand Céline, ou “O presidente negro”, de Monteiro Lobato, com um teor racista inquestionável. E que muitas outras, da mesma forma, vão se debruçar sobre as nossas mais primevas questões existenciais, dentre elas o preconceito baseado na diferença de origem ou de cor. “Amada”, de Toni Morrison, ou “Um defeito de cor”, de Ana Maria Gonçalves, por exemplo, abordam o racismo pelo viés histórico e social do colonialismo. É incômodo perceber que são obras que tratam o preconceito numa perspectiva histórica e que, ao se confrontar essas narrativas com o mundo contemporâneo, percebe-se que as mudanças são sutis e as formas de discriminação resistem apesar dos avanços.
Há algo incômodo na literatura contemporânea – e digo especialmente sobre a literatura produzida no Brasil. Como é uma atividade de uma classe privilegiada, ou pelo menos os autores que estão em evidência fazem parte dessa classe, os temas são majoritariamente afeitos aos dramas da classe média branca. Proporcionalmente, há um número menor de obras com personagens que representem a imensa diversidade da nossa sociedade. O racismo também existe no próprio fazer literário, não poderia ser diferente. Isso revela que há algo brutal em nossa história se repetindo, quando vemos persistir a discriminação ao senegalês ou haitiano que chega ao Brasil contemporâneo. Ou quando as relações entre patroas e domésticas nos fazem lembrar as relações de subalternidade mais vis do Brasil escravocrata. Ou quando abrimos um livro e não encontramos representações de nossa diversidade. Esse incômodo é que me fez conceber “A oração” como um painel, não de simples histórias distintas, mas capaz de apresentar um encadeamento de narrativas que nos lembrasse de que a história se repete. Não é por acaso que “Alma” abre o livro e é impossível pensar sua história desconexa das histórias de “Foi” e “Dominique” do conto “Meu mar (Fé)”, ou de Doramar. A imigração empreendida pelos ancestrais de Alma se repete da mesma África para o Brasil do nosso tempo. Esses imigrantes estão fadados a uma história de subserviência não muito diferente dos imigrantes do século XVII, XVIII. O papel de submissão dado pelo mundo a Alma se repete com Doramar, uma empregada doméstica que vive nos dias atuais, ou com “Foi”, a imigrante que vive deslocada em um país que não consegue acolher a diferença.
DA – No conto “Alma”, apesar das agruras vividas pela protagonista, notamos que paira nela um ímpeto que a encoraja a crer numa perspectiva de que algum dia sua existência cumprirá um sentido, digamos assim, mais pleno de liberdade. Há na narrativa a presença viva dos contrastes entre o pensamento colonizador e o colonizado. Diria que essa construção textual evoca uma necessária provocação, sobretudo para o que ainda testemunhamos em sociedade?
ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Acho que o sentido a que você se refere é uma premissa humana. Ou talvez seja uma premissa dos seres sencientes, se estendermos o desejo de liberdade aos animais. Há muitos anos trabalho com as histórias de comunidades negras rurais que estão passando por processos de regularização das terras que habitam. Em um desses lugares, encontrei a história de uma mulher escravizada que caminhou de Salvador até o Sertão Baiano – quatrocentos quilômetros de distância. Ela se tornou matriarca e fundadora de um agrupamento humano que resiste por quase duzentos anos. Só se sabe isso sobre ela. Não há registros além da história oral. Uma narrativa fabulosa, a princípio, e a ficção entra para preencher o que não se sabe sobre essa mulher: as motivações de sua peregrinação e o que encontrou pelo caminho. O que faria uma mulher cativa caminhar por um ambiente hostil, desconhecido, com possíveis perigos? A revisão da história social de nosso lugar indica as circunstâncias dessa migração. E a minha experiência humana, aquilo que nos une, incluindo a personagem Alma, permite emular esse sentimento supostamente universal de não estar subjugado e ser livre. É uma narrativa em primeira pessoa que opta pelo fluxo de consciência. Alma é a voz que narra personagens, episódios históricos e ações que marcaram sua trajetória. Essa foi a forma que encontrei de trazer à literatura a contundência da oralidade, do que pode ser narrado por gerações, resistindo e se transformando, quando as circunstâncias sociais e econômicas não permitem que haja registros documentais. A oralidade é uma forma de comunicação que antecede à escrita. Transmutada, é capaz de denunciar os incômodos que a humanidade, em seu processo civilizatório, não conseguiu transpor. Recentemente, fotografias de um mercado de escravos na Líbia se propagaram nas redes sociais. Em pleno século XXI nos deparamos com imagens que poderiam ser quadros de Rugendas representando a aflição de algo que talvez julgássemos ter acabado. Pelo contrário, os fantasmas continuam a nos atormentar. Escrever sobre uma mulher que precisou interromper o ciclo de violência que sofria, devolvendo a violência àqueles que a subjugavam, reflete essa provocação. Desmistifica, inclusive, que essa subserviência foi pacífica. No Arquivo Público do Estado da Bahia há importantes referências sobre crimes cometidos por trabalhadores escravizados.
DA – Há toda uma literatura dedicada às questões da negritude e que, no entanto, permanece ainda desconhecida por muita gente. Destacaria aqui, sobretudo, obras que se enquadram na perspectiva pós-colonial, cujos autores nos falam de mundos com suas narrativas e ambientações próprias, com o vigor que demonstra que não podemos olhar a África de modo homogeneizante. Na sua visão, que universos são esses que precisam ser vistos e lidos?
ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Os universos autóctones e da diáspora. Porque não basta ler a vasta literatura produzida no continente africano, é preciso compreender o seu legado para o mundo, principalmente para o continente americano e, mais recentemente, para a Europa Ocidental. A literatura pode ser um caminho para alcançar a história e o pensamento humanos a partir da perspectiva de nossa diversidade étnica. Tanto a literatura pós-colonial com seus mais diversos temas, desde o nefasto poder do colonialismo que vislumbramos na obra de Chinua Achebe e Chimamanda Adichie Ngozi até o trágico apartheid, tema recorrente nos romances de Coetzee e Nadine Gordimer, quanto a literatura diaspórica que pulsa de norte a sul do continente americano, são narrativas que confrontam o passado com o presente e nos despertam para a crise e o fracasso, em termos, de nossa civilização. Principalmente quando permitimos que as diferenças se tornem os mobilizadores das relações de poder que estabelecemos com nosso entorno. Nesse contexto a ficção pode comunicar a universalidade da experiência humana pela simples possibilidade de nos envolver numa trama de afetos onde somos convidados a todo o momento a ler o mundo a partir da perspectiva das personagens. Sem dúvidas é um interessante exercício de se transferir para o lugar do outro e conhecer suas vivências e experiências.
DA – Nesse conjunto de representações de mundos que precisam vir à tona através de uma arte como a literária, surge um componente de alta relevância, que é o das afirmações identitárias. Como tais sujeitos podem vir a se tornar efetivamente seres de ação no quesito que amplia uma via marcantemente humanista?
ITAMAR VIEIRA JUNIOR – A identidade é e sempre será relevante em contextos onde seja preciso realçar a alteridade. Já estive em comunidades negras rurais em que o racismo não era um problema aparente em suas vidas, a não ser quando precisavam resolver algum problema na cidade. Não fazia sentido um debate entre eles sobre a negritude, a não ser quando precisaram se confrontar com o Estado ou com outros grupos. Eu prefiro não tratar a identidade como um constructo fixo e imutável. Gosto mais do conceito de identificação que coaduna com a perspectiva do devir humano. Não somos seres imutáveis. Somos devires porque existe um movimento vital no homem, no mundo e no homem através do mundo. Esse movimento é fonte de transformações constantes. A identificação está baseada na diferença, e afirmar essa diferença como legítima e parte da diversidade humana é o que mobiliza as performances identitárias. Nenhum ser humano é composto de uma única identificação, nós somos muitas identificações sobrepostas, e algumas delas certamente se relacionarão com a de alguém a sua volta. Somos mulheres, homens, homossexuais, negros, índios, ateus, católicos, candomblecistas, e na trilha de nossa existência através do mundo nos reconheceremos. Agora, imagine que na trilha da vida, sem os artifícios que dispomos para o conhecimento, isso possa levar bastante tempo. Às vezes um longo tempo se pensarmos que nossos problemas são urgentes. Imagine também o poder da literatura, da música – e enfatizo o hip hop, o funk, o samba, ritmos que têm um forte apelo popular – da televisão, do cinema, das séries estrangeiras, que chegam com uma velocidade incrível na era da informação. A arte pode ser um valioso instrumento, não o único, mas certamente o que nos envolve com mais afeto e é capaz de comunicar nossa humanidade com grandes chances de êxito. Já que falamos de literatura, imagine o poder de “Stella Manhattan”, de Silviano Santiago, para comunicar a existência queer, ou “A pianista”, de Elfriede Jelinek, sobre a violência que cerca a existência da mulher. Ou o maravilhoso The Underground Railroad, de Colson Whitehead, que acabo de ler, para expor as agruras do racismo no continente americano. São obras ficcionais capazes de gerar empatia por nos permitir interagir no campo da imaginação com essas personagens. Ninguém sai delas indiferente ou ileso.
DA – É insuficiente considerar o papel da literatura por um viés de mera fruição estética?
ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Gosto muito do Milan Kundera ensaísta, além de ser um ficcionista excepcional, justamente porque seus ensaios estão despidos de um viés analítico e acadêmico. Precisamos dos artigos e pesquisas acadêmicas para o conhecimento. Mas seu alcance é limitado. Diferente dos ensaios de Kundera que primam por uma abordagem estética e humanista da literatura. Em “A cortina”, Kundera apresenta a literatura (romance) como a arte do conhecimento que existe e sobrevive por se debruçar sobre a experiência humana. Parte dessa existência e sobrevivência deve-se à fruição, uma característica que diferencia a arte literária de outros gêneros de escrita. A fruição estética abre um leque de possibilidades que permitem interpretações e reinterpretações sobre um mesmo texto. O leitor é peça-chave nessa engrenagem por ser afetado, na experiência pessoal e intransferível da leitura, de maneira distinta. Por ser fruição estética, sem nenhum demérito, é que a literatura tem seu alcance expandido e se torna um instrumento de conhecimento do mundo-tempo que vivemos.
DA – Diria que a sua escrita reflete um processo consciente e permanente de engajamento com as questões de seu tempo?
ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Acho inevitável que quem se debruça sobre qualquer atividade intelectual, sem a arrogância ou o peso que o termo intelectual possa evocar, está refletindo de alguma forma sobre seu tempo. Desde os primórdios tem sido assim. Não escrevemos para nós mesmos e muito menos sem a esperança de que o que escrevemos altere qualquer coisa. Escrevemos porque desejamos comunicar algo. Desejamos provocar emoções. A comunicação parece ser um atributo muito caro à espécie humana, desde a pré-história com a arte rupestre até a era da informação e a revolução digital. O que não cessou durante nossa história foi a nossa urgente necessidade de nos comunicarmos. Tenho uma visão muito dessacralizada do ato de escrever e, mesmo nutrindo um profundo interesse pela literatura e por quem a faz, não creio que seja diferente, na essência, das muitas formas de comunicação que o homem elaborou ao longo de sua história. Sei também que nem todo escritor terá algo relevante para comunicar, mas ainda assim sua obra será acolhida ou não a partir dos valores que os leitores e estudiosos irão lhe atribuir. Acho que quem se debruça sobre a escrita, ou qualquer construção artística que tenha a possibilidade de resistir ao tempo, deseja no fundo comunicar e provocar a reflexão, seja da mais íntima questão humana aos problemas mais complexos de nossa civilização. Uns superficialmente, outros detidos de forma mais profunda sobre essa experiência. Não vejo a minha escrita dissociada da minha própria experiência. Pretendo-a consciente, talvez por isso engajada. Mas há arte inconsciente e que não seja engajada em seus próprios parâmetros? Essa é uma questão, não tenho a resposta. Atribuí a mim, como creio que fizeram os meus pares do passado e do presente, a intenção de dar um testemunho pessoal sobre o meu tempo. Um testemunho pequeno, mínimo, da história em face à nossa grande diversidade enquanto espécie. O que seria minha vida, e a de qualquer escritor, dentro do grande tempo da história humana? Talvez possamos narrar um átimo dessa longa jornada. Fiz essa escolha por circunstâncias que não seria capaz de explicar. Ao mesmo tempo pode parecer uma presunção considerar que somos capazes de aprisionar em uma narrativa uma versão de nosso tempo. Pode parecer soberba assumirmos esse lugar de narrar uma história. É e sempre será uma posição delicada, ainda que estejamos autorizados por nossas convicções a escrever.
Itamar Vieira Junior / Foto: arquivo pessoal
DA – O grande afluxo de novos escritores parece instaurar um outro momento para a literatura brasileira. Nesse percurso, as plataformas digitais assumem um papel fundamental como viabilizadoras de espaços dotados de considerável autonomia criativa. As produções não cessam e se avolumam num ritmo até certo ponto frenético, algo que pode comprometer a qualidade do que é escrito, pois, em alguns casos, o desejo urgente de ser publicado ignora todo um processo de maturação e profundidade necessários a uma obra. São tempos de pressa estes em que vivemos?
ITAMAR VIEIRA JUNIOR – São tempos urgentes, não só para a escrita. Talvez seja cedo para esboçar uma reflexão sobre o que está ocorrendo. A princípio vejo a democratização do acesso à publicação como um avanço por permitir que obras que não seriam acolhidas pelas grandes editoras cheguem ao público, ainda que essa circulação seja restrita. São livros que, graças às plataformas digitais e às pequenas editoras, têm tornado possível a construção de uma bibliografia que é ainda um pequeno panorama da nossa diversidade enquanto sociedade. Sobre isso não há dúvidas: obras de qualidade têm encontrado espaço no segmento das pequenas editoras. Basta observar as últimas premiações. Em contrapartida, vivemos um tempo de exposição de ideias e imagens de forma instantânea nas redes sociais. Somos a imagem que projetamos para essas janelas de comunicação. Há, sem dúvidas, uma glamorização da atividade do escritor e isso faz com que qualquer um, tendo habilidade ou não, se proponha a exercê-la. Mas isso não chega a preocupar porque se forem muito ruins não resistirão ao crivo das primeiras críticas de leitores e especialistas. O que persiste é que estamos num país com baixos índices de leitura comparado a outras nações em desenvolvimento. Dentre os possíveis leitores há ainda um grande caminho a percorrer. É preciso construir uma política pública que fomente a formação de leitores.
DA – Somos um país de leitores subestimados?
ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Somos um país em que a educação, até o presente momento, não foi encarada como um propulsor de desenvolvimento humano. Fôssemos um país que levasse a sério a educação, teríamos certamente mais leitores. Segundo pesquisa do Instituto Pró-Livro, quase metade da população não tem o hábito de ler. Um terço nunca comprou um livro. Mas quase todos carregam um smartphone, correto? Estão conectados às redes sociais e à internet. E como dispõem do tempo e da tecnologia? Certamente essas “escolhas” explicam em parte nosso retrocesso em questões de direitos humanos e nossos persistentes problemas sociais. Uma população não educada tem menos chance de participar e colaborar ativamente das instâncias de decisões. Tem menos chance de refletir criticamente sobre o mundo e seu tempo. Pode ser facilmente manipulada. Vamos lembrar, para não perdermos o hábito de falar de literatura, de “O conto da aia”, de Margaret Atwood, e “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury. Onde foram parar os livros na República de Gilead? Para onde a supressão da circulação de conhecimento pode levar a humanidade? Além dos nossos problemas estruturais de educação, há um particular desinteresse do poder público em investir em políticas de formação de leitores. Num país com mais de 200 milhões de habitantes, onde quase metade da população não tem o hábito de ler, o que poderíamos ser se compartilhássemos leitura, interesse e conhecimento de forma democrática?
DA – O que você não endossa nesse estado de coisas ao qual chamamos de pós-modernidade?
ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Sou um espectador, com participação mínima na vida ativa de meu país. Pior, sou um espectador desatento, alterno horas de pretensa atenção e horas de devaneios. Não é um lamento, digo isso conformado. Sou um leitor em primeiro lugar. Para cada mil livros que leio deverei contribuir de forma tímida com um que escrevo. E observo nosso tempo com muita confusão e poucas conclusões. Reflito diariamente, mas sem exigir de mim mesmo uma definição sobre as coisas. Sabe como vejo o mundo? Como observo nossa jornada através da história? Como se lesse algo que acabo de escrever e que vou modificando, entendendo de uma nova forma, percebendo as movimentações de palavras e sentidos numa frase, num parágrafo. Mesmo depois de ter revisado doze vezes e receber o livro da editora, se não quiser sofrer, não o lerei para não querer reescrever depois de impresso. É como leio traduções ou um livro qualquer: começo a arrumar as sentenças como se fossem minhas. Quando percebo minhas divagações retorno para meu papel de leitor novamente. Observo essa fluidez e velocidade próprias de nosso tempo com espanto. As transformações são vertiginosas e na vertigem perdemos momentaneamente o autocontrole. É como um livro novo que faz você ler e subverter todas as coisas que aprendeu até aqui sobre escrita e leitura. Mas penso que esse estranhamento deve ter existido durante toda a jornada humana com intensidades diferentes. Quando leio Lima Barreto, penso nas inquietações de seu tempo, que transparecem em sua obra, e o que remanesce até o nosso tempo de tudo que ele possa ter refletido ou não. Estar no presente, engolido pelo caleidoscópio da história e do tempo, não garante o distanciamento necessário à reflexão.
DA – Quando poderemos dizer que um autor obteve sucesso com seu ofício?
ITAMAR VIEIRA JUNIOR – Quando um único leitor vier até ele para dizer que um parágrafo do que escreveu lhe provocou alguma reflexão. Isso é o que espera quem publica, quem compartilha pensamentos e escritas com o público. Quando publicamos algo, por qualquer meio, não sabemos em que mãos irá parar. Mas se alguém que lhe desconhece escreve um e-mail ou indica a leitura de seu trabalho é porque algo pode ter ocorrido na experiência entre narrativa e leitor. A vida de uma obra só se ilumina nesse espaço “entre”. Uma obra não tem vida ao ser escrita ou enquanto está na imaginação de um único homem ou mulher. Ela ganha vida a partir do contato. É um espaço mágico onde a paixão pela experiência humana irá ocorrer. Imagino o que diria se encontrasse os escritores que me incendiaram de paixão pela leitura e escrita. O que diria sobre suas obras que não me abandonam mesmo passado tanto tempo. Como elas contribuíram para o que sou. Sei também que virão muitos autores, talvez alguns ainda por nascer, que me trarão essa mesma paixão. Um autor só obtém êxito com seu ofício quando consegue iluminar esse espaço entre a obra e o leitor.
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.
A vida dilui-se em formas. Seus contornos nos falam de mundos próximos ou quiçá distantes. Universos que abrigam seres e suas narrativas, sinas a revelarem sintomas do ato de existir. Se existir é domar o sopro vital, talvez sejamos tidos como criaturas a repetir a mecânica das coisas. Se existir for algo além, estaremos, pois, diluídos na paisagem dos instantes.
Atravessar o tempo é uma das inúmeras possibilidades de se olhar a tudo como se fosse a primeira vez. Aí reside a permanente chance da surpresa, do encontro não marcado. O maior desafio humano parece ser o de não se repetir diante da colossal jornada da existência. Quando perdemos de vista a curiosidade da descoberta, algo em nós talvez nos coloque mais próximos do fim. E o término das expectativas e buscas pode representar a própria finitude do indivíduo.
Desenho: Raquel Piantino
Mas o que fazer diante de um mundo multifacetado? O que aproveitar do banquete imagético que ele nos fornece? Talvez uma pessoa como a artista plástica Raquel Piantino tenha algo a nos dizer a respeito. Sua arte está muito próxima de um mergulho ampliado das percepções da vida. As figuras humanas por ela apresentadas em seus desenhos são parte integrante dessa tentativa incessante que empreendemos de domar os ímpetos do viver.
Ao nos debruçarmos sobre os desenhos de Raquel, podemos notar a urgência que habita a linguagem das formas. Mesmo nos contornos mais silentes, algo quer falar, invocar ao mundo a veemência de um verbo plantado desde sempre na tessitura humana. Assim, corpos e ambientes se integram e harmonizam, convocando os apreciadores da arte a uma detida incursão pelos gestos simples e ao mesmo tempo relevantes em nossa tão controvertida matéria cotidiana.
Desenho: Raquel Piantino
Para abordar as nuances complexas da realidade que nos acomete, Raquel passeia pelas rotinas dos homens como a demonstrar que ali também está o espírito irreverente das coisas. O real emerge com uma ajustada dose de humor e criticidade, fazendo-nos crer que a experiência dos dias sobre o nosso planeta equilibra efusões e precipícios. Com tamanha empresa nas mãos, a artista desvia-se de um mero jogo de oposições das forças contrastantes e não adota engenhos maniqueístas. Afinal, a nossa natureza de seres imperfeitos é um organismo através do qual as dualidades se mostram amalgamadas.
Diante do incorrigível espírito humano, é inútil o encargo de separarmos o bem do mal. Acertadamente, este não é o interesse de Raquel Piantino. No entanto, engana-se também quem possa considerar que a artista, ao navegar pelas águas de alguma fantasia ou abstração, estaria promovendo um mergulho frouxo pelas alamedas da arte. Pelo contrário, seus recortes plenos de serenidade e contemplação trazem à tona, sobretudo, um inquietante ato de provocar nossos lugares de acomodação.
Desenho: Raquel Piantino
Raquel nasceu, vive e trabalha em Brasília. Com uma formação marcantemente influenciada pelo cinema de animação, além de vertentes como quadrinhos e design, a artista já trabalhou em curtas-metragens, projetos experimentais e também comerciais. Também desenvolve animações ópticas com brinquedos mecânicos e, como ela mesma confessa, sua busca está voltada para a simplicidade do traço e o potencial simbolismo encerrado nas imagens.
Quando a arte não se furta à perspectiva de perceber a dinâmica das coisas, abre-se um valioso precedente, qual seja o de enxergar nos fenômenos mundanos uma fonte possível e inesgotável de apreensão dos sentidos. Os desenhos de Raquel Piantino são como lembretes de que estamos vivos. Mais que isso, vivos e passíveis de uma transformação que nem sempre envia seus presságios.
Desenho: Raquel Piantino
* Os desenhos de Raquel Piantino são parte integrante da galeria e dos textos da 123ª Leva
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.
Continuar os caminhos é sempre uma complexa missão quando o assunto é a criação artística. Nesse processo, o desafio maior parece ser o de desenvolver um novo projeto com consistência e uma identidade própria, capaz de comunicar algo ao mundo. É no quesito autoral que as coisas ganham corpo, sobretudo na expectativa gerada em torno daquilo que um artista pretende expressar ao seu público após ter obtido sucesso com um trabalho de outrora.
As linhas que iniciam este texto se aplicam bem à trajetória de uma banda como OQuadro. Tradicionalmente marcado pela sonoridade emanada do rap, o grupo agora traça seu novo voo através do seu segundo disco, Nêgo Roque (Natura Musical), consciente de que tem em mãos uma vasta possibilidade de enveredar também por outras vias musicais. Tudo isso, claro, sem deixar de lado a potência discursiva e sonora do gênero que marca a banda desde as suas origens, algo que remonta a pouco mais de duas décadas de estrada.
A julgar pelas escutas de cada uma das 12 canções, a aposta em Nêgo Roque rendeu bons frutos. OQuadro continua colocando em prática o viés da criatividade coletiva na concepção de seus trabalhos. Isso significa que cada detalhe que compõe letras e arranjos foi pensado de forma a contemplar a participação ampla de todos os integrantes da banda. O resultado dessa sinergia de diálogos desembocou num álbum que projeta o grupo numa condição de sempre ter algo relevante a nos dizer.
OQuadro / Foto: divulgação
Desde a faixa abre-alas, Ainda é cedo, já somos devidamente apresentados ao universo revitalizado da banda. Dizer isso representa a constatação de que os sentidos aqui estão abertos para perceber o mundo em que vivemos, lugar este que nem sempre nos transmite boas novas, atravessado que está por nossas colossais desumanidades cotidianas. Na canção que batiza o nome do disco, a qual conta com a participação de BNegão, paira a sensação de que a expressão que vem de África não pode se reduzir a um espaço geopolítico delimitado no mapa mundi, mas sim de algo maior, sentimento que atravessa fronteiras e assume seu lugar de destaque no pensamento e na ação dos sujeitos dispersos pelo mundo. Noutro momento, estamos diante de Trabalho, composição que lança um olhar de criticidade sobre a lógica perversa das relações trabalhistas, estas mesmas que ainda trazem, sobretudo num país de marcas colonizadoras como o Brasil, reminiscências e máculas da exploração do homem pelo homem segundo a estúpida ordenação capitalista.
Em Muita onda, faixa que conta com as participações de Emicida e Dj Gug, o vigor discursivo das falas não deixa nada a desejar, representa a propriedade de uma atitude inquieta que se exalta após se deparar com a avalanche de acontecimentos de uma conturbada contemporaneidade. Nesse “mar revolto” da tão propalada pós-modernidade, o sujeito da perplexidade testemunha seu tempo sem se considerar acima de qualquer regra estipulada. É ele mesmo um alguém que transita pelas vias escorregadias da sua própria identidade.
Me diz quanto vale expressa um questionamento permanente a respeito da violência, mesmo que algumas vezes simbólica, exercida sobre o Outro. Então, quem seríamos nós para mitigar nossos semelhantes em razão de qualquer suposta diferença ou pelo simples capricho de reproduzir a miopia das relações de poder? Certamente, a resposta ficará a cargo das nossas consciências e do quanto estamos imersos numa noção de controle da liberdade alheia, as tais amarras do corpo e da mente.
Se a paisagem que atravessa a vida está impregnada por uma insônia manifesta, há momentos em que buscamos algum alento. Diante do contraste entre tensões e levezas tão típicas das paisagens humanas, é salutar pensar que uma canção como Luz vem para equilibrar nossas mais opostas percepções da existência. É uma espécie de tomada de consciência que aponta para um necessário resgate do sublime em nós. Seguindo esse fluxo, a canção aqui ganha contornos de beleza pelas luxuosas interpretações de Indee Styla e Raoni Knalha.
OQuadro / Foto: divulgação
Um dos pontos altos do álbum é certamente Jahggant, um verdadeiro conjunto de referências que conciliam elementos derivados do jazz de New Orleans, efeitos eletrônicos e da pungência da cultura afro-brasileira. Nessa harmoniosa evocação de ritmos que dialogam entre si, OQuadro consegue comunicar o poder precioso da mescla de linguagens sonoras que aproxima mundos distantes. Já Pés no chão reforça a necessidade de se firmar a continuidade dos caminhos sem perder a lucidez e tampouco a capacidade de sonhar, e nos diz: “A verdade precisa de quem milite em nome dela/ e não de revolucionários de meia tigela”.
Nêgo Roque é um álbum que nasce com uma proposta de comunicar pelas vias mais enxutas possíveis e mais certeiras, é o que nos diz o baixista e também vocalista Ricô. Segundo ele, uma perspectiva de simplicidade foi buscada para os arranjos. “Em alguns momentos, esteve presente a ideia de estudar o silêncio, o barulho e o rock também. O rock é muito além de distorção, está na fala, nas frequências mais graves e sujas, e acho que a gente conseguiu usar isso de maneira minimalista e inteligente ao mesmo tempo”, sustenta.
Norteado por um viés experimentalista, o disco segue a atmosfera do rock e tem a característica marcantemente voltada para o afropunk, evidenciando uma atenção especial às temáticas ligadas ao negro e seu lugar no mundo. A banda reflete sobre a negritude como um resgate de algo pretérito, mas também direcionando um olhar para o futuro, quiçá um ambiente de ressignificação, diálogo e construção identitária. Por sua pluralidade vocal, potencialidade discursiva, arranjos cuidadosamente elaborados e um trajeto por múltiplos estilos e texturas sonoras, é possível arriscar que o OQuadro inscreve sua importância na cena musical brasileira contemporânea. Eis aí algo irreversível.
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.
Entre aquilo que consideramos realidade e o que é produto de nossos arroubos imaginativos, parece haver uma linha tênue e quase invisível. É o momento em que ousamos ir além do que nossas percepções têm como algo fácil a ser apreendido e rumamos para outra dimensão da existência. Nesse cenário, uma conjunção entre o concreto e o abstrato confere sentido às maneiras que temos de encarar a vida e seus mais distintos matizes.
Na forma como promove intervenções no universo pictórico de um mundo dotado de delicadezas é que um artista demarca um caminho singular de possibilidades. Assim parece ser quando deitamos os olhos por sobre o trabalho da fotógrafa Bárbara Bezina, criadora que chama atenção pelo modo como harmoniza distintas porções da matéria humana.
Nascida em Necochea, na Argentina, Bárbara transita entre mundos paralelos com a pungência de sua arte, sobretudo sua maneira de conceber os objetos de suas imagens como sendo frutos de um exercício marcantemente intuitivo. Fazendo uso dos recursos da fotografia digital, a artista manipula os registros tomando por base uma interação entre a materialidade da vida e seu lado alternativamente onírico.
Foto: Bárbara Bezina
E eis que há um predomínio de figuras femininas representadas sob os mais variados prismas na criação de Bárbara. São mulheres que, envoltas numa aura de plasticidade sublime, caracterizam-se por refletirem enlaces poéticos da vida. Desse modo, somos conduzidos por alamedas imagéticas através das quais rostos, gestos e corpos engendram a língua secreta dos sentimentos. As possibilidades são múltiplas diante da perspectiva de se vislumbrar uma concepção da vida como sendo adjetivada pelo viés feminino.
Ao nos depararmos com a variedade de interpretações que as personagens femininas exercem no contexto criativo de Bárbara, abrimos a cabeça para crer que o efeito operado por suas imagens não pode ser percebido de maneira uniformizada pelos nossos sentidos mais básicos. Acrescente-se aqui o fato de que pessoas certamente mergulham de modos bem diferenciados no universo de uma artista que não lhes entrega facilmente os acessos de significação de sua manifestação criadora.
Mesmo que se olhe o mundo como um lugar repleto de seres e objetos de toda a ordem, nunca é demais considerar que a experimentação da arte é também um ato solitário no qual as visões e narrativas pessoais fazem significativa diferença. Não se trata de confinar artista e público a um espaço de restritas experiências; pelo contrário, é a percepção de que nos interstícios e silêncios uma determinada obra lança sobre nós suas epifanias.
Foto: Bárbara Bezina
Mirar as mulheres captadas por Bárbara é compreender que uma noção de espanto ali se produz, ou seja, é perceber que, muito além de uma mera fruição estética, tais imagens convocam as pessoas a sentirem também certo desconforto por estarem diante de uma representação densa da existência, a qual não somente pactua efusões, mas também pesos, desatinos e perdas.
Talvez o fato de optar por uma vida relativamente reclusa faça de Bárbara Bezina uma artista em permanente estado de alerta. A escolha pessoal de viver sozinha e longe do convívio social cotidiano pode, de alguma maneira, influenciar no resultado de suas criações. Tal opção de vida, sobretudo se considerarmos o silêncio como motor fundamental das mais distintas expressões artísticas, talvez seja uma espécie de catalisador das obras. Vivendo atualmente em San Juan, também na Argentina, ela já divulgou suas fotografias em diversas exposições tanto na Europa quanto na América.
Manejando cores e explorando formas e texturas as mais diversas, Bárbara deixa entrever também um caráter místico para suas imagens. É como se tudo fosse revestido por uma energia que nos convoca a compartilhar uma atitude de mistério e contemplação diante do papel exercido pelas personagens concebidas. De tal ordem é o impacto dessas figuras femininas que os olhos parecem transpassar o lado indizível das coisas.
Foto: Bárbara Bezina
* As fotografias de Bárbara Bezina são parte integrante da galeria e dos textos da 122ª Leva
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.
Desobediência. Palavra que carrega em si um peso imediato. A uns, espanta e até mesmo repele; a outros, é frente de acolhida. Em tempos de cinismo, hipocrisia, reavivamento ultraconservador e de uma teatralizada desonestidade intelectual a nos rondar, ser desobediente pode se revelar uma valiosa e efetiva maneira de se estar no mundo.
É conveniente frisar que desobedecer não é uma atitude gratuita de simplesmente nadar contra a corrente de um ordenamento jurídico, político, social ou econômico com um banal artifício retórico. Significa entender-se como sujeito permanente de transformações, o qual luta acima de tudo para tornar presente a sua vez e voz num panorama necessário de existência pela preservação daquilo que lhe é demasiadamente humano e caro, a identidade própria.
Diante de um cenário de adversidades, o qual não é apenas secularmente constituinte de um país como o Brasil, há vozes que precisam se fazer presentes e, desse modo, marcar suas preciosas posições de existência. Aliando-se a este tipo de entendimento, uma poeta como Daniela Galdino faz do seu caminhar um permanente movimento de afirmação nos mais plurais níveis. E presenciamos esse vigor expressivo não apenas nos seus escritos, mas sobretudo nas frentes em que atua.
Dona de uma voz transgressora que demarca e expande a sua consciência do que representa ser mulher num mundo como o nosso, Daniela também se espraia pelos territórios da performance, do ensino e do ativismo cultural. Este último vem muito envolto numa noção sócio-política de engajamento frente a questões ligadas à visibilidade das mulheres, bem como aspectos importantes associados às temáticas de gênero.
A autora do emblemático livro de poemas Inúmera (Ed. Mondrongo), através do qual deixa transbordar toda a sua íntima, plural e peculiar visão de mundo, agora dedica o continuar de seus passos para a difusão do coletivo de poetas e fotógrafas Profundanças 2. Celebrando sua segunda investida editorial, esta obra privilegia as expressões de mulheres que se insurgem contra o manto da invisibilidade, o qual, dentro de uma nociva construção social, tentam lhes imputar cotidianamente.
O momento presente, pontuado nesta entrevista, pede que falemos sobre os desdobramentos de Profundanças 2, sua pungência diante dos duros cenários que pululam na atualidade. Urge também falarmos sobre Missivas, performance que Daniela Galdino tem realizado e que alerta para silenciamentos em torno da mulher. Por tudo isso, o agora se volta para ouvir uma artivista que cada vez mais abre seus caminhos para o diálogo com outras vozes. É preciso tirar os móveis do lugar, desarranjar viciadas estruturas, abrir caminho para o outro, sua verdade e inteireza.
Daniela Galdino / Foto: Ana Lee
DA – Na apresentação de Profundanças 2, você emprega o termo re-existência como um símbolo que situa as expressões das mulheres dentro de um contexto de afirmação identitária. Qual o sentido maior de fazer com que tais vozes não se calem?
DANIELA GALDINO – O sentido da desobediência, sobretudo. Em tempos tão ameaçadores à nossa sensibilidade, escrever literatura, atuar na coletividade em busca de leitoras/es, devolver os insultos cotidianos com poesia (por exemplo) é desobedecer à ditadura do pavor e do desencanto. Então, resta-nos dizer e nos associar a outres que também têm muito a dizer. É por isso que na apresentação da antologia Profundanças 2 também afirmo que “agora estamos irmanades pelo grito” e que “odiadores não representam a totalidade do mundo”. Entendo a re-existência como um intenso desafio de reelaboração de si e dos lugares que ocupamos ou pelos quais transitamos. Não podemos sucumbir à desesperança. Isso seria um total desrespeito àquelas que nos antecederam e, com luta/sonho/sensibilidade, abriram veredas para que atravessássemos. Não penso que a literatura deva se dar ao luxo de ignorar esses desafios. A palavra literária é grávida de vida, de cotidiano, de embates, de delírios, de transgressões.
DA – Da primeira edição até aqui, o que mudou fundamentalmente? O momento atual, o qual nos toma de assalto com toda sua nebulosidade, configurou uma nova tomada de consciência?
DANIELA GALDINO – A primeira edição de Profundanças é de 2014. De lá pra cá, o país foi assolado por um golpe já denunciado pela imprensa, inclusive internacional. Em linhas gerais, essa foi a principal mudança para pior. No entanto, isso não significa que as outras formas de violência, as opressões (raciais e de gênero, por exemplo) sejam recentes. Não mesmo. A consciência crítica que nos leva a combater tais opressões também não é recente. Na literatura, a genealogia dessa consciência crítica é extensa, nos leva para o século XIX, se pensarmos em escritoras/es negras/os aqui no Brasil. O problema é que os espaços de consagração ou divulgação literária (como a universidade, as academias de letras, a escola, festas/festivais literários e mesmo o mercado editorial) historicamente têm tornado invisíveis as produções literárias que revelam discursividades dissidentes. Recente é o acordar (ainda lento, por sinal) de produtores de eventos, escolas, editoras para as “outras” vozes – negras, feministas, lgbti, etc. – e suas criações literárias. Alguns espaços sequer as reconhecem, como é o caso de boa parte das academias de letras, ainda insistindo naquele discurso desgastado: literatura é literatura e se basta, não deve ser “contaminada” por outras questões. Entendo que o estético e o político não devam ser apartados. E assim tenho sobrevivido como artista que dialoga com outres fazedores de artes. Estão nos bombardeando a todo instante. À literatura cabe a “tranquilidade” de se colocar à parte disso? A minha resposta é um estrondoso não. E, em verdade, a literatura não está isolada no mundo, há intensas formas de ativismo literário, de artevismo (como se diz).
DA – Com estas vozes dissidentes a que você se referiu, uma nova perspectiva de linguagem surge, algo evidenciada sobretudo pela forma de grafar certas palavras. E, sabemos, isso potencializa uma importante vertente discursiva. Acredita que tais mudanças no trato linguístico precisam também ser incorporadas nas práticas formais?
DANIELA GALDINO – Sim. Bem sabemos que a língua é reelaborada no social, que está em constante transformação. Em Profundanças 2, por exemplo, temos a presença de duas artistas trans não binárias, sendo uma delas da fotografia. Daí, generalizar pelo masculino se torna incômodo, não só para essas artistas, como para nós que construímos o projeto na coletividade. No âmbito do projeto passamos a grafar o termo “Fotógrafes”, como uma provocação para que outros gêneros sejam representados para além do binarismo masculino-feminino. Entendemos que não se trata só de uma troca de palavras, mas de um amplo sentido relacionado às formas de igualdade de gênero, o que, desejamos, devem ser incorporadas nas práticas cotidianas.
Daniela Galdino em Missivas / Foto: Ana Lee
DA –Quando você observa o resultado de um projeto como o Profundanças, consegue vislumbrar a presença efetiva de alguma transformação no campo das representações sociais?
DANIELA GALDINO – Profundanças é um projeto que está em curso, estamos no segundo livro num período de pouco mais de dois anos. Então, transformações serão percebidas no processo. Como é um projeto que combate a invisibilidade de escritoras no cenário da literatura, já se torna provocativo, ainda mais por ter a visualidade como algo importante. As duas antologias publicadas trazem, além dos poemas/contos/crônicas, ensaios fotográficos. Isso não é aleatório. Desejamos difundir imagens dessas escritoras em seus lugares de origem e/ou atuação, evitando qualquer forma de objetificação. Importante, também, por se tratar de um projeto que traz, em sua maioria, escritoras inéditas, muitas delas negras. Então, essa visualidade, esse contato de leitoras/es com imagens dessas escritoras, é uma forma de oposição à invisibilidade a que me referi há pouco. Além disso, Profundanças provoca deslocamentos, encontros. Cito como exemplo a poetisa Dayane Rocha que, apesar de ser pernambucana, não conhecia a cidade do Recife. Foi a partir de uma atividade do projeto (uma roda de conversa realizada no Espaço Pasárgada, em agosto/2017) que Dayane esteve pela primeira vez na capital do seu estado. Eu estava com ela e presenciei uma cena profundamente tocante. Chegamos ao Recife numa quinta-feira à noite, a cidade naquele intenso movimento de rua (trânsito frenético, pessoas saindo do trabalho, ônibus lotados). Nos dirigimos ao prédio onde ficamos hospedadas e, da janela de um vigésimo andar, vi Dayane chorando muito e observando os prédios imensos que restringem a visão da paisagem. Ela me disse: “quero voltar pra Brejinho”. Na manhã seguinte, eu me acordei com um poema que ela escreveu bem ao modo da tradição do Pajeú, o seu sertão (e ainda nos deixou um poderoso mote: “Recife, tu és mais dura/ que coração sem poeta”):
Buzinas, carros, barulho
O teu céu reflete prédios
Tua gente vira entulho
Por conta dos intermédios.
Tua paz é estressada
Até mesmo a passarada
Canta uma nota incompleta
Cantando na partitura…
Recife, tu és mais dura
Que coração sem poeta.
Trago esse exemplo para dizer que os encontros têm acontecido. Encontro com outras, com nós mesmas, com as estranhezas cotidianas… e isso tem nos transformado a todo instante. Dia desses, numa conversa in box, Renailda Cazumbá (escritora baiana que está em Profundanças) me disse: “você é uma refazedora de novos lares! Lares poéticos”. Somos colegas de trabalho na universidade e, aos poucos, comecei a desconfiar que Renailda escreve. Perguntei pela primeira vez, em 2013, ela disse que não. Na segunda vez, não perguntei. Já enviei o convite para ela participar de Profundanças, em 2014. Inicialmente ela não aceitou, depois foi convencida. Dito e certo: ela me enviou arquivo com poemas datados (alguns do final da década de 80). A partir disso, Renailda tem sempre relatado como foi difícil atribuir a si o nome de poeta; como tem disso uma revolução interior: se ver ao lado de outras mulheres que escrevem. Estou falando de uma mulher negra nascida no recôncavo baiano e vivida no sertão. Uma mulher que me diz: até a minha casa deixou de ser a mesma depois disso (a sua primeira experiência de publicação literária).
Já podemos falar de abalos na representação de si. E isso também envolve leitoras, leitores que temos encontrado pelo caminho. Pessoas diferentes nos mais diversos espaços (ruas, escolas, universidades, coletivos culturais, redes sociais, eventos etc) que têm nos feito relatos sobre a importância de se reconhecer na escrita e na imagem das escritoras que estão nos dois livros. Acho que a primeira poderosa transformação a que posso me referir é essa.
DA – Você crê que a literatura voltada para o ambiente virtual encerra uma substancial dinâmica de construção das identidades?
DANIELA GALDINO – Eu entendo que a literatura divulgada em ambientes virtuais nos insere em outras dinâmicas de diálogos com leitoras/es. Para você ter uma ideia, o primeiro volume de Profundanças já foi lido em escolas públicas, tivemos notícia de que circulou em turmas de um programa de formação de educadoras/es no sertão baiano. Ao mesmo tempo, numa pesquisa na internet, descobri que uma docente da UENF e IFF, a Analice Oliveira Martins, iriá apresentar uma comunicação acadêmica em Portugal (o Seminário Mundial de Estudos da Língua Portuguesa, outubro/2017). Nesse trabalho a profa. discute antologias literárias brasileiras e ensino, dentre as obras analisadas está Profundanças 1. Imagina a minha surpresa! Outro exemplo da repercussão: em novembro deste ano a mestranda Elis Matos (UESC) estará numa congresso na Argentina, apresentando um trabalho que aborda o feminismo não binário a partir do poema “Enquanto meus pés balançam”, de JeisiEkê de Lundu, que foi publicado em Profundanças 2.
No nosso caso, publicar um livro virtual resolve uma questão: a falta de recursos financeiros. Tem mais: Profundanças é um projeto independente, já nasceu na contramão e até o momento não vislumbrei captação de recursos via edital, por exemplo. Pode ser que no futuro façamos a opção pelo livro impresso. Por enquanto, a virtualidade tem nos levado ao encontro de leitoras/es distantes e desconhecidos. Eu, por exemplo, não conheço a Profa. Analice Martins, só depois de encontrar o resumo do seu trabalho na internet, fiz contato por e-mail.
Por ser um projeto que envolve imagens (ensaios fotográficos), sei que Profundanças demandaria custos relativamente altos. Isso talvez limitasse a quantidade de exemplares a serem impressos e, consequentemente, reduziria o público que teria acesso. O livro virtual tem nos dado uma maior liberdade nesse diálogo palavra-imagem e a grande aventura é saber que a circulação é ainda mais imprevista. Talvez tudo isso influencie a construção de identidades.
DA – Sua performance Missivas traz à tona importantes reflexões sobre a invisibilidade da mulher em nosso tempo. Desde o início do espetáculo, já somos tomados de assalto pela metaforização de um peso através da melancia que você carrega e vai passando, ao longo do caminho, por mãos masculinas. O que dizer desses sinais de alerta?
DANIELA GALDINO – São incontáveis os sinais de que o patriarcado e seus tentáculos imputam a nós, mulheres: a inferioridade, invisibilidade, o aniquilamento. As violências se manifestam de várias formas e, o pior, vão se cristalizando como normalidade. A violência não tem existência por si só. É uma fabricação social e, como tal, necessita de sujeitos que movam essa roda. Por outro lado, se a violência é criada em sociedade, é nesse mesmo espaço que ela deve ser desconstruída, desfeita. Como proceder? Denunciando, (des)educando, descolonizando mentes e saberes, refazendo práticas cotidianas. O meu espaço de atuação tem sido a arte: a poesia e a performance. Como performer, tenho como prioridade sair do palco tradicional e ocupar as ruas e outros lugares aparentemente inadequados para a atuação artística. Prefiro me inserir no cotidiano das ruas, dos pontos de ônibus, dos mercados, das feiras – com seu ritmo, com seus sons, gritos e silêncios. Tem sido uma experiência fortíssima, pois a rua me traz o imprevisto, a possibilidade de interagir diretamente com desconhecides. E o contato – seja pelo choque ou acolhimento – faz de cada apresentação uma estreia. Tenho buscado esse diálogo, primeiramente, com as mulheres com as quais me encontro; mas é imprescindível deslocar, provocar e dialogar com os homens também. Só acredito em arte que potencialize as transformações (de si, de nós, do mundo).
DA – Como você percebe a reação do público masculino diante de uma performance que o põe no cerne de uma discussão?
DANIELA GALDINO – Missivas se divide em dois espaços: a rua, com um cortejo; e um ambiente que minimamente garanta condições adequadas para a trilha sonora e interpretação dos poemas. Nesses espaços as reações dos homens têm variado entre o espanto, o incômodo e até mesmo o desprezo. Explico essa última reação: na rua a performance implica em entregar uma pesada melancia para os homens, enquanto entrego cartas poéticas para mulheres e também digo frases secretas no ouvido delas. Ao mesmo tempo em que interajo com cartas e sussurros às mulheres, os homens seguram a melancia. Muitos já recusaram, teve até um, em Garanhuns (PE), que me hostilizou. Outros ignoram completamente a minha presença, desviam o caminho. A maior parte dos homens têm se incomodado, mesmo “aceitando” segurar a melancia. O desconcerto é visível, eles não sabem o que fazer com esse peso. Há, também, a reação na segunda parte da performance, quando interpreto os poemas e outras formas de interação com o público se desenvolvem. Geralmente fazemos uma roda de conversa após a performance e não houve uma só vez, desde a estreia (em março de 2016), em que não houvesse depoimentos de homens que assumem estar perturbados. Sinceramente, sinto prazer ao perceber essa perturbação que nada mais é do que o contato com as nossas palavras de mulheres dissidentes, com a ação performática e o convite para participar, acolher em si os desajustes. Importante dizer também que Missivas tem trilha sonora ao vivo e a proposta é convidar um músico a cada apresentação/temporada, que traz o seu repertório para dialogar com a proposta. Tenho feito questão de convidar homens para fazer a trilha porque dessa forma eu também os provoco, enquanto artistas, a ler/ouvir e se contaminar com o que nós, mulheres, escrevemos. Até então os parceiros musicais têm revelado incômodos e verbalizado isso nas rodas de conversa. Eles entram na performance e também percebem que, naquele instante, não são protagonistas; talvez aprendam a ouvir, não silenciar… Enfim, lógico que as transformações não são imediatas, mas só em gerar esse incômodo, já é maravilhoso pra mim enquanto artista dissidente.
DA – E o que dizer da interação das mulheres em meio às provocações sugeridas por Missivas?
DANIELA GALDINO – Tem sido uma experiência incrível do cortejo à roda de conversa que acontece pós-performance. Estou circulando com Missivas desde março de 2016 e em todas as apresentações aprendi algo forte. As mulheres têm me ensinado muito. A forma de interação é diferente. Não digo que elas sintam mais do que os homens – isso nunca poderemos medir, o território do sensível -, mas a resposta tem feito do ato performático um intenso espaço energético. Tenho várias histórias para contar sobre Missivas, comecei a elaborar o diário da performance, sempre escrevendo dias depois de cada apresentação. Na verdade, relatos curtos que me façam lembrar do que aconteceu. E esses relatos trazem as mulheres na linha de frente. São várias histórias. Cito três.
Em 2016, numa das apresentações, uma jovem teve um ataque de choro e aquilo me chamou muito a atenção. Após a roda de conversa eu notei que ela estava abraçada com dois colegas gays e que os três choravam muito. Fui lá e ouvi isso: algo na performance disparou a memória dolorosa do estupro que a jovem havia sofrido há dois anos. Fiquei paralisada, a performance não fala de estupro, mas a força de tudo o que a moça tinha presenciado e vivenciado em Missivas ativou essa dor. Chorei junto com ela e os amigos dela. Algo que não foi publicizado, ficou entre nós. Difícil esquecer o que aquela moça me disse: “quando eu fui estuprada, era inverno, eu estava de calça, botas, casaco… e ainda assim o cara me violentou… ou seja, nenhuma mulher pede pra ser estuprada, nada justifica o estupro, nem mesmo se a vítima estiver com roupas curtas. Violência é violência”.
Recentemente, em Itabuna, eu estava fazendo o cortejo de Missivas para que um professor da UFSB (o Rafael Guimarães) fizesse o registro audiovisual que vai gerar uma vídeo-performance com fragmentos do trabalho de várias artistes. No cortejo, logo de longe avistei uma mulher que me chamou a atenção, me dirigi a ela e disse a frase secreta. Ela ficou paralisada, olhando profundamente nos meus olhos. Percebi que era uma mulher com transtornos mentais, retribuí a profundidade do olhar. Segui o caminho porque nessa parte da performance priorizo a comunicação com o olhar, sem mais palavras. Só que a mulher me seguiu, me perguntou: “o que é isso que você está fazendo? Por que você me disse aquilo?”. E eu não respondia com palavras, apenas com o olhar. Mas ela não se deu por vencida, me seguiu de novo, segurava a barra da minha saia e repetia a pergunta. Ela parou na minha frente, olhou de forma profunda e falou: “Não fique assim, você está tão bonita”. Depois, segurou no meu braço (sem impor força) e de forma acolhedora me disse: “Você tá bem? Tá precisando de alguma coisa?” Aquilo me emocionou, eu chorei retribuindo o olhar profundo daquela mulher e segui o meu caminho.
O terceiro exemplo foi em Ilhéus. Também no cortejo, me deparei com essa cena numa praça: uma idosa vendendo churrasquinho. A praça fica perto de um ponto de ônibus. No momento, havia incontáveis pessoas, pois o horário era de final de expediente. Apesar do intenso movimentar, ninguém me atraiu mais do que aquela mulher de marcas profundas na face.
Performance, pra mim, é um mergulho no imprevisto. A minha guia são as energias do momento. Eu também tenho amor pela rua – esse espaço-turbilhão onde o instante se consagra no diálogo com desconhecides. Pois sim. A energia me levou até aquela senhora trabalhadora. Cheguei perto dela e disse a frase secreta. Os olhos dela ficaram inundados; os meus, cheio de marés. Por alguns segundos nos olhamos fixamente. O instante se consagrou. Segui o meu rumo, mas me virei para trás e, novamente, conversei com o olhar inundado daquela mulher. Fiquei forte. Prossegui.
A fotógrafa Izabella Valverde (a qual não conheço) consagrou o instante pela segunda vez. E a cada momento em que olharmos para essa imagem, reviveremos o instante e acolheremos em nós as lutas, as inundações e a singeleza dessa senhora. A rua me ensina a cada ato performático. Sou grata a todas as mulheres que tenho encontrado pelas veredas…
Daniela Galdino em Missivas / Foto: Izabella Valverde
DA – Em que medida a convergência entre poesia e performance amplia as possibilidades de libertação pela arte?
DANIELA GALDINO – Nessa convergência só vejo desmedida. Sou uma artista em constante reelaboração, o que significa dizer que não meço as formas de ampliação do processo libertador. Quando as fronteiras entre linguagens artísticas e entre artista e público são rasuradas, o inesperado se apresenta. Gosto disso. Demorei para desenvolver essa consciência, sabe? Primeiro me assumi poeta. Há sete anos tirei a performer que estava no armário. Já havia feito teatro universitário nos anos 90, foi uma experiência incrível. No entanto, o mergulho na criação poética foi me trazendo uns estremecimentos que inicialmente eu não soube processar. Acolher e reler em mim esses impactos redefiniu caminhos. O entrelugar, a atuação híbrida que atrai a poesia para a performance e vice-versa têm me ensinado bastante. O caminho está se construindo nos caminhares, nos encontros, desencontros (comigo mesma e com o público). Esse processo já é libertador.
DA – Quem é Daniela Galdino?
DANIELA GALDINO – Uma mulher desobediente, sonhadora, fazedora de incêndios íntimos. Sou uma incansável artista que não vê separação entre o estético e o político. Aprendente e desaprendente. Sou uma “rameira das palavras”, “uma interrogação vagando com pressa”. Sou esta que vive atenta ao mundo invisível e seus poderes; atenta às outras mulheres – seus desejos, delírios. Um poema que representa esse estado é “Arada” (publicado em Profundanças 2 e inserido no meu próximo livro, Espaço Visceral). Eis:
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.
Mirar os espaços em redor. Creditar a eles uma amplitude que atravessa as dimensões concretas da existência. Vislumbrar experiências de vida em esferas até mesmo inimagináveis. Sentir a pulsação dos dias em meio a doses cortantes de realidade e fantasia. Acreditar que o corpo é também um receptáculo de outros tantos estágios da consciência. Assim, trajamos as vestes de nossas humanidades. Assim, também navegamos, talvez um tanto à deriva, em meio às procelas de um mar que sabe a todo tempo nos acostumar a seus mistérios.
Viver é não negar o ato contínuo dos equívocos. É descortinar o véu que divisa a euforia e o sonho da dor ou hecatombes íntimas. Quando olhamos o que nos parece visível ao primeiro ato, sentimos que a matéria um dia pode se dissolver sem prévio aviso. As coisas, por mais palpáveis que sejam, desmancham-se ante nossos olhos nalgum instante futuro. É quando talvez tenhamos como companheira de jornada finita a memória e seus falhos recortes.
Mas se permitir experimentar a efusão dos instantes também pode representar uma rica constatação de que a vida não nos reserva apenas o lado aparente de seres, coisas e lugares. Há um universo de sensações e construções particulares que são percebidos no decorrer duma caminhada que contempla as possibilidades de abstração. Certamente, é ofício dos mais complexos ousar interpretar aquilo que transcende a concretude do mundo.
Todos os mergulhos relatados nas linhas iniciais deste texto talvez sirvam como um átimo de compreensão a respeito do trabalho de uma artista plástica como a portuguesa Cláudia R. Sampaio. São dela arremates de reflexão que viabilizam um espaço de coexistência para os matizes da alegria, dor, inocência e esperança. Suas pinturas, mesmo quando nos permitem vivenciar sinais de elevada densidade em torno do humano, apontam para marcantes sinais de leveza.
Pintura: Cláudia R. Sampaio
Do contraponto entre cenas cruas da vida e seus correspondentes mais antagônicos, Cláudia retira o resultado efetivo de suas apostas narrativas. Desse modo, fala-se de um mundo que nos atravessa cotidianamente, mas também de outros mais que perpassam um lapso onírico da existência. Ademais, esse paralelismo de sensações faz multiplicar uma variedade de sentimentos que, ao fim e ao cabo, são a mais pura representação das nossas inquietudes inalienáveis. No contraste entre as pulsões internas e externas, a artista reverbera uma voz que a tudo vê e sente.
Na espiral do tempo que não retrocede, as pinturas de Cláudia também se ocupam de pensar a vida como um constante painel de expressões poéticas. Há um clamor que vem da necessidade de conferir vez e voz ao canto íntimo de suas personagens, atitude que abre perspectivas em torno do desejo, da serenidade, do caos mundano e do espanto e estranhamento frente ao todo circundante.
Nascida em Lisboa, nos idos de 1981, Cláudia R. Sampaio também se dedica ao ofício de poeta, tendo publicado os livros Os dias da corja (Ed. Do Lado Esquerdo, 2014), A primeira urina da manhã (Ed. Douda Correria, 2015), Ver no escuro (Ed. Tinta-da-China, 2016) e 1025 mg (Ed. Douda Correria, 2017). Sua dedicação à pintura remonta à infância. Tem na figura do pintor Jean-Michel Basquiat uma de suas grandes inspirações no labor artístico.
Diante da presença vigorosa das cores e do contraste entre sentimentos díspares da condição humana, Cláudia lança mão da sua feição de poeta para também impulsionar a criação de suas pinturas. Sua arte mescla tanto uma observação que emana do contato com o externo, como também dos mergulhos interiores caracterizados sobremaneira por uma marca pontuada pelo lado sublime da vida. De modo especial, as incursões apontam para o âmago das coisas, esse ato contínuo e transformador de olhar tudo por dentro.
Pintura: Cláudia R. Sampaio
* As pinturas de Cláudia R. Sampaio são parte integrante da galeria e dos textos da 121ª Leva
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.