Categorias
120ª Leva - 05/2017 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

O quanto pode encerrar a potência e os caminhos de uma voz que se quer dedicada à poesia? Por certo, há mais do que uma vontade de dizer coisas ao mundo, de vociferar intenções discursivas advindas da mecânica do pensamento. Não basta intentar criações como se estas fossem um mero jogo de representação dos sintomas pulsantes da vida e seus entornos. Desconfiamos, pois, que há muito mais por trás daquele que se mostra em palavras e versos ao mundo.

O poeta a quem dedicamos atenção agora abarca uma peculiar condição de estar no mundo, qual seja a de mostrar-se inquieto e desperto diante de questões que marcam sobremaneira a seara humana no quesito das identidades. É Jorge Augusto, intelectual baiano, educador, artífice do verso, editor e, principalmente, ativista cultural quem nos oferta possibilidades de diálogo a partir de um tão complexo território que é a literatura.

O Jorge com quem conversamos está envolto nas transformações que o tempo impôs a seus escritos. Desde os primeiros poemas, cobertos pela égide do desejo, até o momento presente, o autor tem revelado uma maturidade estética que é consequência natural de um processo pessoal de busca. Um de seus mais importantes projetos aponta para a condução da Organismo Editora, coordenando a Coleção de poetas baianos inéditos, bem como a Revista Organismo. É doutorando em Literatura e crítica da cultura pela UFBA. Na área de Literatura Brasileira, o cerne de suas pesquisas está voltado para temas como decolonialidade, modernismo brasileiro e literatura negra. Hoje, integra o corpo docente do IFMA.

Com poemas publicados na Antilogia – organização de coletânea entre poetas de Bahia e São Paulo (2011), no livro de poemas do Sarau da Onça, e na antologia Enegrescência (Ed. Ogum’s Toques), dentre colaborações para sites e revistas variadas, Jorge vai deixando entre nós os indícios de uma expressão que contempla uma percepção aguçada sobre a existência. Decerto, são revelações de uma alma que tenciona desarranjar acomodações e cujo alicerce do pensamento aponta para o ato frequente de vislumbrar a crítica salutar sobre o que está posto em matéria cultural.

O Jorge Augusto que nos confessa certo e atroz desengano diante do presente não repousa seus arremates no solo estático da desilusão. Pelo contrário, evidencia uma provocação que, em última instância, sugere uma mudança de rumos situada nalguma via de renovação. Como esta se dará só o futuro pode nos asseverar.

 

Jorge Augusto / Foto: Cazzo Fontoura

 

DA – Parte de sua produção poética possui uma atmosfera marcada por elementos sensoriais que sugerem instigantes percursos através dos sentidos, sobretudo no que se refere à construção do desejo. Em que medida essa característica é constituinte do poeta que você é hoje? 

JORGE AUGUSTO – Acredito que em pouca medida hoje. Confesso que quando li/ouvi sua pergunta, fiquei pensando com o que nos meus poemas ela dialogava. Porque nenhum dos poemas publicados nas antologias, que foram as últimas publicações, têm essa presença dos elementos sensoriais, pelo menos não deliberadamente, não por vontade, e consciência. Mas logo lembrei das revistas e dos poemas que publiquei, mais ou menos  em 2007 (período que comecei a publicar), na Germina Literatura e na Diversos Afins, no projeto Uníssono, por exemplo. E sua pergunta fez sentido para mim. Então, tive que respondê-la primeiro para mim, escutar a resposta, para depois dizê-la. Mas, sobre a construção do desejo, eu acredito que, assim como a fala na psicanálise, muitas vezes na escrita, mesmo e, sobretudo, à revelia do sujeito, há um exercício infinito, talvez, de elaboração do desejo ou da consciência dele. E desejo, aqui, no sentido amplo, desejo de revolução, de mudança, de foda, desejo de estar vivo. Enfim, acho que dos primeiros poemas para cá, e creio ainda está nos primeiros (e talvez já últimos), esse lugar, esse objeto do desejo, tenha mudado, ou melhor, expandido, alargado. Deixou de estar fixo no reduto do corpo e elasteceu-se a outros muitos corpus.

 

DA – Nesse processo de expansão de sua consciência poética, há uma preocupação intencional de se fazer ouvir por uma postura ideológica diante do mundo?

JORGE AUGUSTO – A postura ideológica diante do mundo vai, em qualquer expressão de linguagem, mais ou menos camuflada, mais ou menos exposta. Mas está sempre lá, na palavra, no silêncio, ou no silêncio da palavra. Acho, por exemplo, que o que você chamou de “preocupação intencional” em demonstrar uma ideologia pode estar, muitas vezes, melhor relacionada a uma escolha formal do que conteudística. Embora, para mim, o bom poema seja aquele em que essa separação forma-fundo é o menos visível possível, ou melhor, aquele em que essa divisão nem exista. E de resto não acho que foi uma “expansão de consciência poética”, mas uma mudança de opção, uma escolha estética, porque o tema, também, compõe a forma.

 

DA – O poeta deve ter um compromisso com o seu tempo?

JORGE AUGUSTO – Eu não acredito numa função trans-histórica do poeta. Não acredito que o poeta, ou a poesia, tenham uma função. Estas perspectivas acionam uma espécie de metafísica que não agencia nenhuma potência humana. Porém, acredito no papel histórico do (a) poeta. E são duas coisas completamente diferentes. O papel que o poeta deve desempenhar em seu tempo não tem nada a ver com uma função da poesia em si, transcendental e atemporal.  Pelo contrário, diz respeito ao uso que o poeta empresta à poesia em determinado contexto histórico. Esse papel não tem necessariamente nada a ver com o desejo do poeta, nem do seu tempo, mas com o que é necessário a esse tempo. Por isso, a poesia deve ser pensada numa relação ético-estética. A forma não é meramente uma construção estética, mas ética.  Nesse sentido, inverte-se aquela equação famosa em que o “grande” (assim entre aspas) poeta é aquele que ultrapassa sua época e está além do seu tempo, o bom poeta passa a ser aquele que entende que tipo de poesia o seu tempo precisa propor, que tipo de violência sobre a linguagem é necessária àquele tempo. Tanto a revista Noigandres quanto os cadernos negros foram, como projetos literários, igualmente importantes à literatura brasileira, em suas dimensões éticas e estéticas. É por causa disso, desse papel histórico que a poesia pode ter, que hoje é tão complicado pensarmos numa vanguarda ou numa estética que represente uma coletividade grande, de forma hegemônica, porque a sociedade globalizada é multitemporal e, consequentemente, com diversas necessidades diferentes, mesmo dentro de um único território político, como é o caso do Brasil. Assim, a poesia ganha vários, múltiplos papeis, num mesmo espaço-tempo.

 

DA – Há quem defina que a literatura não precisa ser dividida em frentes de atuação, sobretudo no que se refere às vozes pertencentes às minorias, tais como negros, gays, mulheres etc. Qual olhar você lança sobre esse tema, tendo em vista que a literatura é um importante instrumento de expressão identitária?

JORGE AUGUSTO – Essa questão carrega para mim uma série de falsas tensões. Por exemplo, é comum ouvir algum crítico ou “estudioso” da literatura perguntar: “por que chamar de “literatura negra”, ou de “literatura feminina” se a literatura é universal? Adjetivar a literatura é restringi-la e diminuí-la”. Essa fala, mil vezes dita e repetida nos mais diferentes círculos de conversa sobre literatura, é exaustivamente cansativa. Esse tipo de argumento mostra, ou uma ignorância do tema, ou um mau-caratismo, porque se tem algo óbvio na literatura, é que ela sempre foi adjetivada. Chamar uma literatura de inglesa, francesa ou alemã não é adjetivá-la? Chamar uma literatura de ocidental, não é adjetivá-la? Quantos livros de história da literatura ocidental (Europa, claro) nós víamos pelas prateleiras das livrarias? O que é necessário compreender é que essa adjetivação era também identitária, pois remetia, em grande parte, a relações entre os textos e a nação, ou língua e nação, ou texto e língua. É nesse sentido que alguns críticos chamam (ou chamavam) de literatura inglesa tudo que foi escrito em inglês, e que cada nação tomava para si um conjunto de textos e adjetivava. Ora, o que aconteceu nas últimas décadas foi uma reorganização, uma reorientação das construções discursivas sobre a identidade. Uma série de formações discursivas que viviam obliteradas sob as metanarrativas nacionalistas e marxistas ganharam novo protagonismo com o fim da esperança (pelo menos por agora) em uma sociedade não capitalista. Uma nova série de sociabilidades vai ganhando fôlego e politizando suas demandas e subjetividades, e, claro, essas sociabilidades engolidas historicamente pelas narrativas nacionais totalizantes precisam agora construir-se histórica e discursivamente como as nações se construíram. E para isso usam a literatura, porque, como todos sabemos, identidade é construção de linguagem. Portanto, não há absolutamente nada que diferencie, metodologicamente, chamar uma literatura de chilena, ou de negro-brasileira, os mecanismos discursivos de construção dessas adjetivações são os mesmos.

Outro argumento, um pouco mais respeitoso, mas ainda assim muito frágil, é a ideia de que, para chamarmos uma literatura de “feminina”, por exemplo, ela teria que ter necessariamente uma inovação formal que a diferenciasse das demais literaturas que a rodeiam com outros adjetivos pátrios. Essa proposição tem equívocos. Um deles é o de que não foi uma característica estética determinante quem fez com que as literaturas nacionais ganhassem seus adjetivos. Se não, poetas como Tomás Antônio Gonzaga, Castro Alves e tantos outros não seriam considerados literatura brasileira. Mesmo nosso modernismo assinalava no plano formal vários diálogos com as vanguardas europeias, como qualquer estudante sabe. É preciso compreender coisas muito simples, como o fato de que as revoluções formais que ocorrem na literatura, como Modernismo, Concretismo, Romantismo, agenciam conjuntos de textos. Já as adjetivações literárias como literatura brasileira, literatura feminina, literatura russa, literatura homoafetiva, agenciam coletividades de sujeitos. São coisas bem diferentes, mesmo podendo eventualmente misturar-se, num determinado contexto histórico, mas que são independentes umas das outras, pois uma diz respeito a como se produz, e a outra, a quem produz.

 

Jorge Augusto / Foto: Cazzo Fontoura

 

DA – Como você observa a dinâmica da construção das identidades no contexto digital, mais precisamente no que diz respeito às novas vozes autorais que publicam seus escritos em revistas digitais?

JORGE AUGUSTO – Acho que não sei responder esta pergunta, mas gosto de especular. Primeiro, acho que quando pensamos na produção de identidades no contexto digital, partindo da escrita, e aí acho quase impossível limitar a noção de escrita a texto, não temos como restringir esses autores ao contexto de publicação em revistas digitais. Antes, a ideia, para mim, seria pensar esse autor desde o post no facebook até o poema que sai no livro, que em muitos casos é o mesmo. Nesse sentido, não consigo pensar em outra possibilidade senão de chamar performance isso que você chamou de “construção identitária”. Essa performance diz respeito diretamente à relação entre autor e leitor, pois a internet e suas possibilidades de conexão e publicação possibilitaram um circuito de afetos novos ao poeta. O poeta e a poesia, como sabemos, são os patinhos feios das linguagens artísticas na indústria cultural de massa. O poeta é o mais barato, o que põe em circuito menor circulação de capital, e, por isso, não goza das mesmas projeções de publicidade que outros artistas. O poeta e sua obra estão quase sempre restritos ao próprio campo literário. Porém, as possibilidades de interação propiciadas pela internet abrem um novo circuito de circulação dessas obras e poetas que independe de acesso direto aos grandes veículos de divulgação massiva. E o mais perto que o poeta chega de ser pop é ter uma grande quantidade de seguidores nas redes sociais. O ápice é virar letrista de músicos famosos. Até aí o que há nessa presença do poeta no contexto digital são aspectos positivos: divulgação de sua obra e interação com o público, facilidade de acesso aos poemas e poetas, construção de uma rede de contatos e discussão entre autores, público e crítica etc.

Mas, a partir daí, o que nos interessa pensar é: que efeitos esse contato íntimo com o leitor causa na identidade, na performance do poeta enquanto poeta? E estamos diante de um fato: poeta nenhum escreve um poema por dia. Entramos aí talvez num jogo meio esquizofrênico, mas muito comum nas redes sociais, que é um trabalho de manutenção dos leitores, que só pode ser feito para além do texto literário. Assim, piadas, fotos, opiniões sobre tudo e qualquer coisa, interação contínua, etc., compõem o quadro de uma performance que não é mais, em muitos casos, de um poeta, ou escritor, mas simplesmente de uma pessoa pública.  A poesia, em alguns casos, vai, pouco a pouco, ficando em segundo plano. Isso é muito mais comum do que parece. Um poeta muito pop não é necessariamente um poeta lido, embora isso possa tranquilamente acontecer.  Em suma, o perigo nessa relação performática que atravessa a visibilidade do escritor e sua obra, expondo-os ao contato direto e cotidiano com o leitor, é tudo acabar num jogo de espelho narcísico. O que a nossa época menos precisa.

 

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

JORGE AUGUSTO – O que eu não endosso na pós-modernidade é seu funcionamento como sinônimo de contemporâneo, como se o “pós-moderno fosse o contemporâneo”, isso é visto muito em um senso comum, mas também em discussões acadêmicas com pouco esforço de pesquisa. A pós-modernidade é uma nomenclatura que remete a uma proposta epistemológica, comumente filiada ao pós-estruturalismo francês, mas não apenas, que traz no campo da teoria um questionamento e uma ruptura com uma série de propostas epistêmicas que marcaram o pensamento científico até metade do século passado. Mas é apenas uma das propostas vigentes, pois temos a pós-colonialidade, a decolonialidade, o feminismo-negro, entre outras, todas propostas epistêmicas de grande fôlego e que compõem o cenário contemporâneo na produção de conhecimento. Portanto, me incomoda, primeiro, o uso do termo pós-moderno como sinônimo de contemporâneo, o que oblitera, esconde, todas as outras propostas de debate. Segundo, o pós-moderno é marcado por uma “politização da subjetividade”, de uma maneira tal que a individuação de grupos e sujeitos, suas demandas e projetos, passam a ser construídas a partir de pontos de vista específicos no plano histórico, social e político, o que me parece correto, e o é, até a página três. Há nisso, nessa arquitetura que se criou para combater a desigualdade, que é a justa luta pela autorrepresentação e pelo poder, uma esquina que em certa medida a reforça. E essa afirmação é um tanto polêmica, e é justo que seja, mas tentarei explicar. À medida que a micropolítica ocupa o lugar da metanarrativa marxista e os grupos minoritários agenciam suas próprias demandas, a política ganha uma nova potência transformadora que, vimos, deu muitos frutos positivos, nos planos políticos, epistêmicos e subjetivos. Mas eu acredito que esses frutos positivos podem ser, agora, potencializados, se restituirmos a esses discursos minoritários o desejo pela emancipação social, num plano coletivo. E não, isso não pede, em nenhuma instância, a volta da metanarrativa marxista, nem o império da superestrutura, nem o determinismo de classe. Era impossível continuar pensando a partir do marxismo, e tudo o que se fez depois disso mostra que foi uma mudança necessária, porém, igualmente acredito que pensar com o marxismo ainda pode ser útil. Então, pensar a partir de, e pensar com, é muito diferente. Creio que nossa apatia no cenário político contemporâneo, no Brasil, tem como um dos motivos, a falta de conexão, de costura entre as demandas políticas que os grupos minoritários agenciam. Temos, enquanto minorias, muita coisa incomum, mas também, em comum, todos sabemos. A fase de ruptura radical de construção discursiva da singularidade foi e tem sido fundamental. Agora creio que tecer uma rede de demandas comuns é, também, estratégico e potente no nosso atual cenário. A luta contra a violência cometida contra a mulher negra, contra sua solidão, não é apartada da luta contra o genocídio dos jovens negros nas periferias brasileiras, e ambas estão ligadas de forma mais ampla ao completo abandono da educação pública nas periferias do Brasil. O que precisamos hoje é aprender a costurar as demandas sem tirar força e singularidade de nenhuma delas. Esse é o desafio do intelectual hoje. Portanto, paradoxalmente, há uma pretensa universalização do plano epistêmico, operada pela sigla pós-moderno, que me desagrada, e uma fragmentação no plano político, da qual tenho ressalvas.

 

DA – Pensando na sua atuação à frente de uma editora como a Organismo, quais desafios surgem com mais evidência quando se trata de disseminar a produção literária no contexto de uma iniciativa independente?  

JORGE AUGUSTO – As dificuldades são muitas. Uma editora pequena tem muitos desafios. Publicar é caro, distribuir também. Os serviços, se você quiser fazer um trabalho de destaque, também são caros. Enfim, do ponto de vista financeiro, às vezes parece inexequível. No caso da Organismo Editora, o desafio é ainda maior, pois, em nossa primeira coleção “novos autores”, publicamos apenas autores inéditos, ou seja, que teoricamente ainda estão construindo um público, portanto, sem grandes promessas de vendas; e também, essa coleção publica apenas poetas e, em sua grande parte, os poetas não vendem muitos livros; por fim,  trabalhamos com uma proposta estética muito específica, pois o projeto da Organismo é pensar o livro como um objeto que produza signos e sentidos, que dialogue com os poemas, o livro como agenciamento de sentidos. Assim, nessa coleção tudo está relacionado no livro, fonte, cor, corte, poemas etc. Buscamos mitigar no maior grau possível a dicotomia forma-fundo. A proposta é pensar o livro, enquanto objeto, como organismo vivo, que não é apenas um repositório de sentidos, como uma caixa de guardar poemas, mas que está sempre em interação com o leitor e os poemas, produzindo esses sentidos. Essa característica nos isola no mercado, além de encarecer, muitas vezes, o preço de publicação do livro. A maior distribuidora de livros da Bahia se negou a distribuir nossos livros com o seguinte argumento: “da próxima vez, faça algo mais simples, essas coisas não vendem”. E olhe que eles cobram de 50 a 60 por cento pela distribuição.

 

Jorge Augusto / Foto: Cazzo Fontoura

 

DA – Temos experimentado no Brasil um crescente número de editoras pequenas que preferem elas mesmas distribuírem seus livros e, assim, cuidarem de todo o processo de comercialização. Há alguma outra saída nessa tentativa de sobrevivência editorial? 

JORGE AUGUSTO – Tenho pouca experiência nisso, quase nenhuma, mas penso que temos algumas poucas alternativas, como intensificar cada vez mais as vendas pela internet, coisa que já acontece, essas editoras alternativas produzirem feiras em conjunto (também já é feito, mas pode ser intensificado). As editoras podem visibilizar catálogos em parceria, em seus sites, e cada vez mais os lançamentos terem uma importância maior, pois é o momento no qual as pequenas editoras conseguem escoar as publicações. Uma coisa que eu acho que deve ser feita é abrir nos grandes eventos espaço para as editoras menores. Sem esse espaço para publicização dos livros, fica muito difícil que eles sejam vendidos. Esse estado de coisas cria um fenômeno que me desagrada, e que remete a uma questão anterior que você colocou, pois, somam-se dois fatores: a histórica venda comedida dos poetas, a dificuldade de distribuição das pequenas editoras, junto com a exclusão dos grandes eventos. Com tudo isso somado, os poetas acabam tendo que virar promoters de sua própria obra, o que às vezes até funciona bem, outras nos lega uma série de constrangimentos horríveis, como a onda de autoelogio e autopublicação que vemos em redes sociais.

 

DA – No quesito da criação, como você avalia o novo panorama literário nacional?

JORGE AUGUSTO – O panorama atual da literatura brasileira tem uma peculiaridade histórica. Ele é, pela primeira vez, rizomático. E acho que a palavra é justamente essa, mesmo caindo num risco de parecer muito teórico. Acho que a ideia de múltiplo, por exemplo, não resolve. É rizomático no sentido de que são muitas linhas de fuga se cruzando e seguindo. Nessas quase duas décadas de século XXI, vimos a literatura brasileira ganhar diversas revistas importantes na internet, vimos as publicações de poesia assumirem uma crescente, sobretudo a partir das novas editoras. Mas alguns eventos se destacam, como a coleção de poetas lançados pelo selo Sete Letras, o grupo de poetas (até onde sei) majoritariamente do eixo Rio-SP que se formou em torno da revista Inimigo Rumor. Concomitantemente, tivemos um movimento que se forjou no contorno da revista Zunái, de Claudio Daniel, salvo engano chamava Neobarroco. E até aí o que tínhamos ainda era uma geração que buscava se debater na sombra do concretismo que, de algum modo, buscava dar o fantasmagórico passo à frente, tão inscrito na teoria da poesia concreta. Quem se livrou relativamente dessa questão, sobretudo na sequência das publicações, foi o grupo da Modo de Usar, inclusive com produção crítica. Mas até aí havia ainda uma multiplicidade que se irradiava a partir de uma linha de fuga do rizoma mais ligada à tradição. Há nesses grupos, na minha modesta opinião, um diálogo com essa tradição da literatura brasileira oficial, seja para negar ou buscar o passo à frente. Nas outras linhas de fuga do rizoma, acho que as expressões produzidas pelas estéticas minoritárias vêm gerar desde o século passado um conjunto de fortes cenas. Podemos tomar os Cadernos Negros como marco, chegando hoje à fortíssima e consistente literatura negra feminina, mas passando por uma literatura feminina, indígena, periférica, homoafetiva, ou seja, uma série de linhas de fuga vão se criando como tema diverso e como forma. Outros núcleos vão se formando como a editora Organismo e a Ogum’s Toques, na Bahia, as Edições Cartoneiras, em Recife. As diferenças se multiplicam e seguem em linhas de fuga. Nesse cenário, a criação é diversa, e aí vem a grande questão: a diversidade é uma qualidade ética nem sempre acompanhada de força estética. Portanto, não basta ser um poema filiado às minorias, ou um poema que seja contra-hegemônico em relação à literatura oficial, nem muito menos um poema que se enquadre na tradição para que seja tomado como um “bom poema”. Haver uma ampliação gigante de formas e temas possíveis como literatura nos permite dizer que há muitos projetos estéticos diferentes, mas não implica dizer que tudo que se faz dentro dessa diferença tem a mesma potência ético-estética.  Isso parece óbvio, eu sei, mas não tem sido. Há todo um investimento teórico, de certa parte da academia e de parcela da crítica literária, para pensar esses novos corpus, e o próprio conceito de literatura, em seu sentido clássico, tem sido rasurado em muitas frentes. Desse modo, vejo o panorama da literatura nacional produtivo, diverso e muito positivo, em relação às obras produzidas, mas ainda em gestação em relação à crítica desse mesmo cenário, sobretudo em relação ao que é produzido fora do eixo Rio-SP. E ressalvamos que não se trata de uma cena acabada, na qual o múltiplo é dado como construído, há processos de mitose e meiose ainda em curso, há propostas de escritas se costurando, enquanto outras se bifurcam e seguem por si. Daí, a cena ser rizomática e não apenas múltipla, pois as multiplicidades ainda estão em pleno acontecimento.

 

DA – Somos um país de leitores subestimados?

JORGE AUGUSTO – Creio que somos um país de subleitores, e que os leitores que temos são, em boa medida, subestimados. E uma coisa tem muito a ver com a outra. Eu acredito que a equação normalmente acionada para falar de leitores no Brasil é essa: “os leitores são subestimados porque são subleitores, ou seja, leem mal, ou não gostam de ler”. Primeiro, é fundamental identificarmos o que essas pesquisas que apontam a não leitura consideram como leitura.

Um livro chamado Cultura Letrada, de Márcia Abreu, nos fornece insights valiosos sobre isso. Mostra, por exemplo, que nem todo tipo de livro é valorizado como leitura, nos processos educacionais.  Portanto, há um tipo de leitura que é cobrada, obviamente aquela que redunda ao cânone e suas adjacências. É inegável como a indústria do livro cresceu no Brasil nos últimos anos. Alguém lê os best sellers, lê os livros que são adaptados pelo cinema, porque eles vendem muito. As pessoas não compram para colocar na estante. Quando nós, nos processos educacionais mais básicos, desconsideramos uma série de leituras, de diversas vertentes (do quadrinho ao clássico) que os meninos fazem, estamos subestimando não apenas essas obras, mas, sobretudo, os leitores e, consequentemente, produzindo subleitores. E subleitores aqui está empregado no sentido de sujeitos que leem apenas o necessário para o desenrolar da vida cotidiana mais prática, que não acionam a leitura em suas potências construtivas, inventivas e subjetivas. Porque, se lá no início, no ensino básico e fundamental, tudo que você lê é desqualificado pelo projeto pedagógico, pelo livro didático e pelo professor, o que está sendo posto em xeque, mesmo que “involuntariamente”, não é a obra que você gosta de ler, é a própria prática de leitura.

 

DA – Quem é Jorge Augusto?

JORGE AUGUSTO – Dizer quem sou é um estorvo e um teatro. Digo quem estou, é o máximo que posso tentar. Estou há algum tempo um homem pesado, sinto como se carregasse meu próprio peso como um escombro. Como se arrastasse, passo a passo, meu corpo como um trambolho. Desesperançado, desiludido. Eu disse em versos: “minha mãe morreu hoje /todo esse tempo, sem por que nem pecado / sem deus ou diabo, sigo só:/ homem sem fé, mas culpado”. E não mudou ainda, isso resume esse hoje que sou.  Talvez haja certo momento, certa lucidez em que a solidão é inevitável e saber vivê-la é decisivo entre o choro e o riso. Eu devo estar, agora, nesse exercício. Acho que é um exercício de morrer para nascer de novo, como metáfora, como símbolo, acredito que tem potência nisso. O ruim é que nada quer morrer, nem a esperança, nem o passado, nem o amor, nem o cachorro, nem o corpo, tudo fica se arrastando, insistindo. O sofrimento vem muito dessa insistência em não acatar as mortes, das ordinárias às mais contundentes. O luto é tão necessário, para o sujeito quanto a luta. Mas é importante dizer que essa desilusão não é harmônica, nem apática, pois é esse homem consciente das mortes e da perenidade, justamente aquele que pode arriscar. Enfim, hoje sou um homem negro, sem esperança nem no amor, nem no país, nem no homem. Amanhã me pergunte de novo e, provavelmente, te direi outros poemas. Por enquanto, estou naquele um minuto de silêncio.

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

 

Categorias
120ª Leva - 05/2017 Destaques Olhares

Olhares

Pelas fronteiras do corpo: a imagem em Angelik Kasalia

Por Fabrício Brandão 

 

Foto: Angelik Kasalia

 

A vida se expande em infinitas possibilidades. Com ela, delineiam-se formas cuja multiplicidade de sentidos exprimem a complexa representação de uma vasta ambiência humana. Carregando no semblante a marca indelével da finitude, fazemos do ato de existir um imenso palco através do qual transita especialmente a nossa busca por algum fôlego que nos anime o espírito.

O ato de pensar a arte como uma espécie de libertação pode estar associado à necessidade que temos de tornar a realidade uma experiência outra. A explicação talvez venha do fato de que não damos conta de suportar os acessos diários da vida, com seus matizes de ápice e declínio dos sentimentos. Restaria-nos, então, o refúgio numa dimensão deslocada do real, esfera de convívio na qual recriamos não somente a nós mesmos como também aos nossos semelhantes.

 

Foto: Angelik Kasalia

 

Se cremos na harmonia entre mundos paralelos, ou seja, na tácita convivência entre o vivido e o inventado, podemos constatar que existir é avançar sobre o manto invisível das horas. Para além dos registros temporais, ousamos penetrar na zona indecifrável da vida, lugar que não se materializa de forma comum a todos os mortais. Assim, há chaves pessoais que precisam ser utilizadas para que distintos portais do autoconhecimento possam ser explorados.

Entendendo o corpo humano como um verdadeiro elo entre os mundos interno e externo, a fotógrafa Angelik Kasalia vem nos lembrar que a vida também está a serviço da arte, e não necessariamente o contrário como tanto se anuncia por aí. Suas imagens denotam de imediato o tom intimista que revela levezas e densidades dos seres retratados.

Como num imenso emaranhado embasado em requintes poéticos, o olhar de Angelik repousa sobre o sujeito tomado em sua mais delicada perspectiva de expressão. Nesse sentido, a zona de compreensão das coisas não se mostra algo determinada, pois o caráter que reveste as personagens expostas advém de um exercício de fruição abstrata das experiências. O resultado desse processo comunica tons, gestos e, acima de tudo, vozes que nos falam de mundos distantes ou próximos.

 

Foto: Angelik Kasalia

 

Não seria exagero considerar que as porções humanas expostas na criação da fotógrafa em questão exalam uma marcante esfera de imagens envolta nos apelos do mistério. Talvez porque seja extremamente difícil dar conta de submeter à racionalidade o crivo de uma tentativa de explicação direta dos fenômenos abordados. Ainda assim, parece uma tentativa pouco razoável a de estabelecer conceitos para o que se vê diante desse ritual de subjetividades abraçadas a um teor de imaterialidade. Afinal, como classificar o intangível?

Angelik é, na verdade, a persona artística de Angela Kasalia, que nasceu e vive em Atenas, na Grécia, até os dias atuais.  Seu envolvimento com a fotografia deriva da necessidade de expressar suas emoções e sentimentos. Num tom confessional, ela afirma que seus registros, mesmo apresentando pessoas as mais diversas, refletem sua própria existência. Na perspectiva de observação do outro, a fotógrafa constata que encontra a si mesma a cada imagem concebida.

 

Foto: Angelik Kasalia

 

Através de suas fotografias, Angelik ressignifica a experiência que emana do corpo. Considera este um verdadeiro agenciador de linguagens na medida em que propaga importantes efeitos potencializadores discursivos. Tomado numa acepção física, o corpo aqui exposto nas alamedas da arte aparece evidenciado pelo seu caráter transmissor de mensagens. De outro modo, e tencionando a via imaterial, vemos aquele mesmo corpo assumir proporções simbolicamente etéreas.

Os trajetos da imagem presentes nos registros de Angelik Kasalia vêm nos falar dessa linha tênue e delicada que divide corpo e alma humanos.  E tais dimensões, mesmo que sejam distintas por natureza, tendem a estabelecer uma relação de harmonização e complementaridade entre si. Os efeitos disso dependem dos mecanismos de interpretação de cada um de nós. Ao saírem de sua matriz criadora, as fotografias tomam novos aspectos, ganham impulso e chegam ao mundo como se fossem o prenúncio de uma aurora iluminada pela poesia. Ciclo que não se apaga.

 

Foto: Angelik Kasalia

 

*As fotografias de Angelik Kasalia fazem parte da galeria e dos textos da 120ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

 

Through the outlines of the body: the image in Angelik Kasalia

By Fabrício Brandão

Translation (Tradução): Luana Alves*

 

Life expands into infinite possibilities. With it, forms whose multiplicity of meanings are delineated, expressing the complex representation of a vast human ambience. Carrying in our countenance the indelible mark of finitude, we make of the act of existing an immense stage through which transits, especially, our search for some breath that animates the spirit.

The act of thinking art as a kind of liberation may be associated with our need to make of reality another experience. The explanation may come from the fact that we do not manage to withstand the daily spasms of life, with its hues of apex and decline of feelings. We would then be left with the refuge in a displaced dimension of the real, sphere of interactions in which we recreate not only ourselves but also our fellows.

If we believe in the harmony between parallel worlds, that is, in the tacit coexistence between the lived and the invented, we can realize that existing is advancing on the invisible cloak of the hours. Over and above the temporal records, we dare to penetrate the indecipherable zone of life, a place that does not materialize itself in a common way to all mortals. Thus, there are personal keys that need to be used so that different portals of self-knowledge can be explored.

Understanding the human body as a true link between the inner and outer worlds, the photographer Angelik Kasalia reminds us that life is also in the service of art, and not necessarily the opposite, as it is so usually announced. Her images immediately denote the intimate tone that reveals the lightness and density of the portrayed individuals.

As in an immense tangle substantiated on poetic refinement, Angelik’s gaze rests on the subject taken in a most delicate perspective of expression. In this sense, the area of understanding of things is not presented as something determined, since the mark that shrouds the presented characters comes from an exercise of abstract enjoyment of experiences. The result of this process communicates tones, gestures and, above all, voices that speak to us of distant or neighbouring worlds.

It would not be exaggerated to consider that the human portions exposed in the creations of the photographer exhale a striking dimension of images wrapped in the appeals of mystery. Perhaps because it is extremely difficult to submit to rationality the sieve of an attempt to directly explain the phenomena addressed. Nevertheless, it seems an unreasonable attempt to establish concepts for what is seen in the face this ritual of subjectivities embraced to a level of immateriality. After all, how to classify the intangible?

Angelik is, in fact, the artistic persona of Angela Kasalia, who was born and lives in Athens, Greece, to this day. Her involvement with photography stems from the need to express emotions and feelings. In a confessional tone, she affirms that her records, even presenting the most diverse people, reflect her own existence. From the perspective of observation of the other, the photographer states that she finds herself in each of the conceived images.

Through her photographs, Angelik re-signifies the experience emanating from the body. She considers it to be a true agent of languages insofar as it propagates important maximazing discursive effects. Taken in a physical sense, the body here exposed in the paths of art is evidenced by its message-transmitting character. Otherwise, and leaning towards the immaterial, we see that same body assume symbolically ethereal proportions.

The paths of the image in the records of Angelik Kasalia come to tell us of this fine and delicate line that divides human body and soul. And such dimensions, even if they are distinct by nature, tend to establish a relationship of harmonization and complementarity between them. These effects depend on the mechanisms of interpretation of each of us. When they leave their creative matrix, the photographs take on new aspects, gain momentum and come into the world as if they were the clarvoyants of an aurora illuminated by poetry. Cycle that does not fade.

 

* Luana Alves is a translator, graduated in Liberal Arts by UESC. Currently undertaking a master’s degree at the same university, developing researches in Translation and Post-colonial Literature.

* Luana Alves é tradutora, graduada em Letras pela UESC. Atualmente é mestranda na mesma universidade, desenvolvendo pesquisa na área de tradução e literatura pós colonial.

 

Fabrício Brandão publishes the magazine Diversos Afins, besides seeking shelter in books, records, films and in the passionate act of playing drums. Currently undertaking a Master’s Degree in Literature at UESC, and his research line brings together Literature and Culture.

 

Categorias
119ª Leva - 04/2017 Destaques Olhares

Olhares

Espirais do caos: uma vereda em Samuel Luis Borges

Por Fabrício Brandão

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

No cerne do tempo, as formas transitam. Saem do plano mental das ideias para depois ocuparem espaços plenos de significado. Flutuam por entre seres e dimensões possíveis num emaranhado de sensações que, ao fim e ao cabo, são demasiadamente humanas por natureza.

Acima de toda uma composição abstrata da vida que as linhas iniciais desse texto acabaram de mencionar, há o fino trato do entendimento das coisas pelo viés da poesia, essa colossal capacidade que um determinado artista possui de tornar perceptíveis sentimentos emanados de uma fonte intangível.

Faz toda diferença considerar que certas rotas traçadas pela arte aproximam dois polos fundamentais da acepção das coisas: o primeiro deles pensa a materialidade como instância do que nos é imediatamente visível aos olhos; o outro mergulha no âmago das interioridades, indo buscar ali um resultado subjetivamente marcado pelas construções abstratas do ser/estar no mundo.

Nessa confluência de dimensões aparentemente opostas por natureza, mais especificamente na relação entre o concreto e o impalpável, é preciso dar nome aos bois. Estamos falando de Samuel Luis Borges, artista que, na miríade complexa de seus desenhos e aquarelas, engendra um caminho marcado por uma elaboração peculiar das formas.

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

Por que não falarmos em transgressão quando o artista ao qual acabamos de aludir ousa trazer à baila contornos nada usuais para referendar a experiência humana? A resposta é afirmativa na medida em que Samuel mescla sabores e dissabores tão nossos na caracterização dos seres que advêm da sua inquieta verve criativa. Diga-se de passagem, a tais criaturas pensadas pelo artista em questão é dada uma conformação traduzida em caos e mistério.

Eis que chama atenção no fazer artístico de Samuel a caracterização espiralada de uma parte significativa dos seus desenhos. Tais delineações parecem estabelecer pontos de permanência das formas para algo além da esfera física e visível. Desse modo, a intersecção dos corpos revelados remonta a uma ideia de que os laços humanos estão atravessados por uma pungente sensação de amalgamento. Ao que fica a pergunta: novas existências brotariam dali?

Talvez a mecânica que articula os sentimentos humanos possa servir como resposta. No entanto, há, por assim dizer, o nascimento de outras tantas existências a partir desse cruzamento de traços propostos pelo artista. Dessa interligação dos seres, brota um todo orgânico capaz de nos lembrar que a espécie humana, sendo composta em essência dessa pangeia que aproxima tanto êxtases quanto espantos, delimita seu locus num limiar incessante de labirintos e precipícios. Assim, partidas e chegadas, alegria e dor, vida e morte como cenários possíveis.

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

Qualquer tentativa de tornar banal a acepção do caos parece não encontrar abrigo no trabalho de Samuel Luis Borges. Não é um trato meramente desordenado das coisas e sensações quem dá a tônica da construção imagética como se a solução criativa estivesse contemplada pelos artifícios de um rearranjo. Pelo contrário, devolve-se o incômodo, esse espantado gesto do ser, sob a forma de representações pessoais e sensíveis do laborioso ato que é viver. Daí, o artista não fugir do enfrentamento quando o mundo em toda sua complexidade o convoca a se posicionar.

A expressão artística aqui presente contempla também a impressão de que o homem contemporâneo não é detentor de uma identidade estática, tendo em vista que o caldeirão das representações culturais borbulha mudanças estruturais a todo tempo e que atingem o sujeito em sua busca por sentidos. Em face de tal cenário, difícil seria manter viva qualquer alusão a lugares pacificados pelas mãos invisíveis da uniformidade.

No seu modo autodidata de se comunicar com o mundo, Samuel confere à poesia um status de razão central de suas manifestações enquanto artista. E o fazer poético não é apenas o gesto que transborda de seus desenhos e aquarelas, mas também aquele que demanda incursões pela palavra escrita e falada.

Envolto pelas atmosferas urbanas, Samuel Luis Borges existe entre nós. Transita entre os espaços da metrópole que acolhe e repele, navega pelo insondável. É porta-voz da construção e também da desconstrução do tempo. Tenta fazer com que sua arte desacostume o arranjo natural das coisas.

 

Arte: Samuel Luis Borges

 

*Os desenhos e aquarelas de Samuel Luis Borges fazem parte da galeria e dos textos da 119ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

 

Categorias
118ª Leva - 03/2017 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

HELTON MOURA – CÍRCULO

 

Há quem considere o tempo senhor de um tudo. Entre memórias, gestos e ações, a vida vai moldando seus caminhos. E sempre fica a sensação de que jamais teremos o controle absoluto das coisas. Se de um lado está o passado com suas imagens já estabelecidas em nós, do outro surge o presente enquanto possibilidade de renovação. Diga-se de passagem, é neste último que as rotas podem ser alteradas, seja para transformar parcial ou inteiramente o imprevisível palco da existência.

Mudam as estações e chega um momento em que a nossa intensidade e rapidez acabam cedendo lugar a uma necessidade de quietude. Deixamos de lado a verborragia de outrora e passamos a uma condição de estarmos mais abertos à escuta e a uma atitude mais contemplativa das coisas. É então, que amanhece em nós, os tais seres adultos tão embaraçados com questões cotidianas, uma vontade pura de libertação. E falar em pureza implica aliviar as bagagens da caminhada até aqui. Sugere desprendimento e evoca a aparição da porção mais pueril que possa brotar de cada um.

Tudo o que acabo de dizer acima ganha sentido quando escutamos um disco como Círculo, mais novo trabalho do cantor e compositor pernambucano Helton Moura. Ora, vejamos, o artista em questão muda radicalmente seu caminhar para agora nos conduzir por vias através das quais a leveza se faz senhora. Acostumado a intensidades vocais e textuais presentes em sua trajetória, todas elas a representar uma habitual inquietude, Helton agora resolve trilhar um caminho inversamente proporcional ao seu natural desassossego.

Círculo é muito mais do que a continuidade de uma carreira. Assinala, como confessa o próprio artista, uma necessidade de dar vez e voz ao silêncio, algo que numa leitura apressada poderia soar um tanto paradoxal para alguém como Helton. O fato é que o cantor ignora o ritmo frenético e incessante que sempre fez parte de sua vida para buscar abrigo num ambiente musical marcado fundamentalmente pela leveza e serenidade.  É nesse novo momento que a matéria-prima das canções aflora suas sublimes possibilidades.

Helton Moura / Foto: arquivo pessoal

Estamos diante de um EP com cinco faixas completamente voltadas para o frescor que a redescoberta da vida foi capaz de proporcionar a um artista como Helton. De todas as composições, Canção parece resumir bem o significado do disco, pois traz a referência maior que perpassa o presente do artista, qual seja calar a voz para ouvir pacientemente o que o silêncio tem a dizer. No fluxo poético da música, os sentimentos privilegiam tudo aquilo que não foi dito ou, quiçá, ficou pelo caminho e por dizer.

Quando escutamos a canção que dá nome ao álbum, percebemos que ela é uma espécie de ode ao desejo de leveza. Algo como seguir em frente sem as amarras que teimosamente nos impomos. Mais adiante, são os apelos de Singela que tomam conta dos ambientes. Nela, um convite à reflexão aponta para o caráter cíclico da existência, este sempre envolto em perguntas e respostas, mas que, ao fim e a cabo, retoma a origem das coisas num movimento inerente à condição humana.

Ao dedicar uma das músicas a sua filha, Pra Juju, Helton enaltece a sua busca pela serenidade. E há muito mais dentro dessa atitude, cujo principal efeito é o que leva o artista a penetrar numa dimensão pueril e dela retirar um novo aprendizado para seguir vivendo. Mas eis que, encerrando o EP, chegamos até ogisnoc oãn ue euq a, faixa que é o inverso de A que eu não consigo, a qual é reproduzida de trás pra frente. O mais curioso é pensar que este último ato do disco soa realmente como uma oração. É, na verdade, um elo com o próximo álbum do cantor, que trará a canção em seu andamento normal e encabeçando o trabalho.

Falar de Helton Moura é apresentar todo um universo que compreende uma vida voltada para diversas frentes da arte. Natural de Arcoverde, o cantor também se dedicou ao teatro, à poesia e ao cinema, além de trazer em si um componente performático em muitas de suas aparições. Seu lirismo peculiar o tornou conhecido como uma espécie de trovador contemporâneo. Círculo instaura uma nova fase nessa múltipla expressividade do artista, tão acostumada a torrentes de manifestação. O que está reservado para o hoje é um misto de superação de barreiras pessoais, revelações e descobertas intimistas e, o mais importante, a afirmação de um desejo de olhar tudo com suavidade.

 

 

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

 

Categorias
118ª Leva - 03/2017 Destaques Olhares

Olhares

Em outras veredas

Por Fabrício Brandão

Foto: Kristiane Foltran

Tudo o que classificamos como sendo o real pode ser a fabricação imediata dos instantes. Pode ser o exercício patente de apreensão duma superficialidade das coisas observadas. Também pode significar o óbvio saltando com suas garras ajustadas bem em nossa direção. Diante dessas tentativas de definição, abre-se o fosso da dúvida: será que nos é dada a faculdade de invenção da realidade?

O real nem sempre é algo posto num panteão de conformidades. Por vezes, assinala perspectivas inusitadas, propondo-nos uma mudança no itinerário de nossas convicções. É quando, manipulando uma certa  ordem natural preexistente, reconstruímos os mais diversos cenários de mundo.

Em matéria de fotografia, muitos ímpetos criativos hoje intentam um caminho que, mais do que simplesmente expor a porção real das coisas, deseja ir além, inaugurando outras fronteiras de compreensão. Esse olhar que ultrapassa determinados limites do lado aparente da vida acaba por resultar num permanente estado de revelações. É, pois, a sensação que temos ao contemplarmos as imagens de uma artista como Kristiane Foltran.

Detentora de uma atitude que rompe com uma noção tradicional de concepção da imagem, Kristiane aponta um caminho de transgressão do modus operandi ao qual se debruçou por muito tempo o ofício da fotografia. Adepta da utilização de recursos como a dupla exposição digital, essa fotógrafa curitibana vislumbra apresentar um mundo norteado especialmente pela assunção de outras linguagens.

Foto: Kristiane Foltran

Ao questionar as possibilidades de utilização do suporte fotográfico, Kristiane percebeu que era necessária uma via de transcendência, ou seja, algo que desse vazão a renovadas formas de representação imagética. Essa busca fez com que a artista, lançando mão de novas ferramentas (a exemplo do Site-specific e da Performance), conduzisse uma pesquisa estética através da qual a imagem assumiria uma concepção espacial diferenciada. Desse modo, e diante da fragilidade do suporte fotográfico, a arte transborda o papel e atinge o espaço.

O fato é que a artista visual em comento não apenas propicia um ambiente de ressignificação, sobretudo pelos meios dos quais se utiliza, mas também consegue conferir uma construção poética para seu trabalho. É o que podemos constatar ao observarmos séries como In_Versos, Marés, Fragmentos e Gueixas de Outono, todas elas a nos revelar densos percursos no complexo mar de nossas humanas idades.

Kristiane Foltran traz em sua trajetória uma vasta participação em exposições individuais e coletivas, além de integrar seleções e colocações em editais, concursos e salões de arte. Com os dois pés fincados na pós-modernidade, demonstra que sua arte, assim como o seu tempo, não se assenta em bases estabilizadas e previsíveis.

Tal como foi abordado no início destas breves linhas, a apreensão da realidade é algo movido por difusos caminhos. Certamente, não acharemos respostas para toda sorte de indagações pertinentes a um percurso como este. Importa mesmo considerar que o olhar de um artista pode trazer à tona as virtudes encerradas num gesto singular de percepção. Com o passar do tempo, sentimos mesmo que a arte não admite a visão cordata das coisas.

 

Foto: Kristiane Foltran

 

*As fotos de Kristiane Foltran fazem parte da galeria e dos textos da 118ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

 

Categorias
117ª Leva - 02/2017 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

MARCELO YUKA – CANÇÕES PARA DEPOIS DO ÓDIO

Há pontos de partida e chegada nesse imenso território chamado vida. No movimento dos decisivos arremates aos quais ousamos, habita um ponto intermediário que nos permite acessar alguns retornos. Não se trata necessariamente de voltar a determinadas origens, algo que poderia remeter a um sentido de nostalgia. Definitivamente, não é isso. A ideia aqui presente é a de que certos recomeços têm muito mais a ver com superações de cenários pretéritos, assinalando, pois, etapas que inauguram novos estágios da consciência em torno de fatos, lugares e pessoas.

Quiçá a nossa passagem aqui pelas bandas terrenas não seja também um exercício constante de estarmos atentos aos sinais de toda natureza. Tudo isso talvez para entendermos quem ou o quê realmente nos tornamos. E fica a pergunta: ainda dá tempo de modificar certas trajetórias?

Ao que parece, a indagação lançada acima faz parte das novas veredas trilhadas pelo músico Marcelo Yuka. De imediato, o nome de batismo de seu novo disco, Canções para depois do ódio, assemelha-se à ponta de um gigantesco iceberg. É, de fato, um título sugestivo, impactante e provocador a nos situar em meio ao mar bravio das procelas humanas. Numa tradução mais ágil, a constatação do quanto se é possível a qualquer pessoa interferir no seu próprio destino.

Canções para depois do ódio é um verdadeiro enxergar além dos domínios mais acostumados. Aposta num porvir perfeitamente enquadrado numa noção de renascimento das pessoas. Como é de costume, não faltam a Marcelo Yuka as ferramentas discursivas capazes de evocar um caminho para as mudanças de rumo. Em todas as suas faixas, o disco promove deslocamentos de tempos e espaços que se harmonizam com a agudez do verbo de seu criador.

É justamente na potência verbal de suas composições que Yuka confere um caráter orgânico ao seu novo trabalho, pois cada uma das 16 canções do álbum aparece integrada a um complexo painel de observações sobre a contemporaneidade e seus laços. Nesse trajeto musical, há um fluxo através do qual nada se dissocia de um conjunto que carrega em si um vigoroso corpo de significados. De um ponto a outro da obra, tudo se encaixa e cada peça desse vasto mosaico de imagens não sabe viver sem o seu correspondente.

Marcelo Yuka em show no Circo Voador / Foto: Daniela Dacorso

Após percorrermos canções como O dia em que o homem se cansa, Por pouco, Myto, Agora nesse momento, A carga, Memórias artesanais e Algo mais explícito, temos uma noção mais apropriada do movimento vivo que está contido no disco. Em cada parte do álbum, restam claras as razões pelas quais Yuka se consolida como um dos letristas mais significativos de seu tempo. Como poucos, sabe transitar com pungência por matizes políticos, filosóficos e afetivos, pondo em evidência o papel desempenhado pela memória.

Um outro grande aspecto do disco são as escolhas vocais. Contando com as valiosas interpretações de artistas como Céu, Black Alien, Cibelle, Barbara Mendes, Seu Jorge, Vicky Lucato, dentre outros, as canções se apresentam com um vigoroso repertório imagético e sonoro. Em boa parte delas, está presente a voz marcante de Bukassa Kabengele, cantor belga de origem congolesa, que integra A Entidade, banda conduzida pelo próprio Marcelo Yuka (voz, programações e sampler) e em cuja formação também traz artistas como Ricô Bassito (baixo e percussão), Bárbara Ferr (voz), Tedy Santana (bateria e percussão) e Muralha (VJ). Tudo isso posto e devidamente mesclado, há na obra uma forte presença de elementos musicais africanos, além de trazer bases eletrônicas.

É perceptível que Canções para depois do ódio é um trabalho motivado por um estado de perplexidade diante de uma nefasta ordem política, econômica e social que insiste em avançar com seus tentáculos ultraconservadores por sobre o mundo. Frise-se: o Brasil de Marcelo Yuka também é parte integrante desse conturbado estado de coisas.

Por mais que carregue em sua história pessoal as marcas dos equívocos humanos, o artista faz questão de aplacar qualquer possibilidade de ira diante das adversidades. No fundo, o que ele nos diz em seu novo rebento musical é que as tensões, ruídos e conflitos podem ser repensados à luz de alguma lucidez e serenidade. É, por assim dizer, uma maneira diferente de conceber o que ainda pode fazer valer nossa existência.

Vislumbrar para além do ódio uma via movida pelo otimismo não é uma construção nem um pouco fácil de se apreender ou praticar. Tal exercício pode assumir uma ressonância utópica. No Marcelo Yuka de hoje, os caminhos da mente e do coração fluem com mais leveza, evidenciando que o amor, no seu sentido mais largo possível, não é balizado por vãs expectativas de aceitação.

 

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.

 

Categorias
117ª Leva - 02/2017 Destaques Olhares

Olhares

O enraizamento das formas em Bianca Lana

 Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Bianca Lana

 

Constantemente atravessados pela urgência exterior do mundo, somos atingidos pelo excesso das aparências. Quando definimos um objeto, tentamos primeiramente buscar referências anteriores dentro daquilo que habita o plano mental, algo determinado por uma tradição pretérita que avança no tempo. Muitas coisas, quando tomadas por um sentido de percepção material, remontam a significados construídos por elaborações já estabelecidas, delimitando ou até mesmo restringindo as possibilidades de interpretação em torno delas.

Sob o manto visível das composições figurativas, há muito mais do que uma mera acepção plástica dos temas representados. Entendendo a arte como uma ferramenta que desvela fronteiras, desconfiamos que a exterioridade não apenas de objetos, mas também de pessoas, funciona como uma via de acesso a uma outra dimensão, condição que abriga um conteúdo de caráter intangível por natureza.  Comportando-se como uma ponte entre dois mundos, o ambiente das formas aparentes prenuncia de algum modo o que está encerrado em seu interior.

Quando um artista percebe esse lugar como uma zona de transição, e não como algo fixo, intransponível e estanque, o resultado é impactante.  E o que mais chama atenção nesse momento de descoberta é entender que a visão do criador é capaz de superar determinismos do olhar. É um ir além do aspecto físico e, portanto, inicial das experiências. Movimento de se deixar invadir pela dimensão intrínseca de seres, coisas e lugares.

E assim o faz gente como a artista plástica Bianca Lana, que, apostando numa densa imersão nas mais variadas expressões humanas, faz dos seus trabalhos visuais algo pungente. Em suas linhas, cores e formas, Bianca ousa sondar territórios intimistas e que trazem em si uma minuciosa noção de profundidade do olhar. Sua arte está fundamentalmente voltada para a essência da condição humana.

 

Ilustração: Bianca Lana

Em seus desenhos, pinturas e ilustrações, predomina uma perspectiva de se conceber o que está além do ordenamento físico das coisas. É quando Bianca nos propõe um corte profundo na superfície que reveste a face dos homens. Fazendo uso desse viés, suas investidas assemelham-se a um momento de contemplação visceral, um desnudar das formas apontando para a revelação nem sempre sublime dos sentimentos.

Influenciada por nomes como Adara Sánchez, Agnes Cecile, Tonny Tavares e Nestor Jr., Bianca Lana prima pela utilização de aquarela, tinta acrílica e técnica de pontilhismo com nanquim. Em sua ainda breve trajetória, já integrou tanto exposições individuais quanto coletivas.

De modo confessional, Bianca sustenta que sua arte, além de evidenciar aspectos simbólicos, intenta representar um painel de angústias inerentes ao ser humano. Nesse vasto e complexo ambiente, seus mergulhos criativos estão direcionados para uma valorização das interioridades. E é com essa característica que lhe é peculiar que a jovem artista paulista faz do seu ofício um salto para o mistério, sobretudo se pudermos atestar que nossa existência é uma espécie de trajeto rumo ao desconhecido.

Aquilo que abrigamos na raiz de nossas individualidades costuma encerrar uma multiplicidade de sentidos. Todos eles podendo encontrar terreno fértil diante da atmosfera intangível que permeia nossas construções de mundo. Há muito por ser descoberto dentro de nós mesmos e é tão precioso quando um artista nos incita a tamanha constatação.

Ilustração: Bianca Lana

*As ilustrações de Bianca Lana fazem parte da galeria e dos textos da 117ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.

 

 

Categorias
116ª Leva - 01/2017 Destaques Olhares

Olhares

A fluidez subjetiva da arte de Antonio Paim

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Antonio Paim

Há mãos que procuram por gestos. Rostos que marcam cartografias de sentimentos por entre dias e lugares difusos. A vida, um cenário que alterna o estático e o dinâmico, a fuga e a presença das cores. Onde a capacidade de se vislumbrar além dos espaços naturais de alcance imediato? Onde um fôlego de poesia em meio à massa cotidiana de intervenções humanas?

O que um olhar genuíno é capaz de proporcionar suplanta os aborrecidos caminhos do óbvio. Vai além, penetra na camada intrínseca das coisas. O gosto pela essência rege caminhos marcados fundamentalmente por um amplo território de subjetividades. Decerto, somos todo um universo que agrega, a um só tempo, papéis aparentes e ocultos. E assim cumprimos um misterioso ritual das horas como profundos desconhecedores do destino.

O que caberia a um fotógrafo diante desse colossal ambiente de incertezas? Quiçá a rota imprecisa das navegações pessoais. Algo que denotasse indícios de que nos vãos da existência há margem para compreendermos um pouco do que somos.

No trabalho de um artista como Antonio Paim, sujeitos e objetos trafegam em planos paralelos e também distintos. A busca da imagem reflete uma peculiar maneira de tentar captar o idioma encerrado no gestual de certas epifanias humanas. Assim, fotografias transbordam sentimentos característicos de sujeitos que possuem modos diversificados de expressão diante do mundo.

Harmonicamente integrado a determinados ambientes de observação, Antonio testemunha com maestria manifestações especiais da cultura popular brasileira. Nelas, evidencia elementos místicos que apontam para um caminho de transcendência dos valores terrenos da experiência humana. É, por exemplo, o que acontece quando direciona suas lentes para registrar as intensas nuances presentes nas celebrações afro-brasileiras. O resultado é um todo orgânico, revelando uma estética que contempla fé, entrega e consagração da vida ante a representação do divino.

Foto: Antonio Paim

E o fotógrafo também volta suas atenções para contextos urbanos. Aqui, cidades significam muito mais do que aglomerados de pessoas e concreto. São a mais pura e espontânea tradução dos trajetos individuais e sua relação com a construção do coletivo. Seja a partir de uma metrópole ou pequena vila, Antonio nos mostra que é o externar das identidades singulares (e aqui tomemos o termo como sendo algo que distingue os seres em sua essência pessoal) o que de fato confere sentido a um determinado lugar.

Fazendo uso de recursos como a dupla exposição, Antonio ousa nos sugerir outras possibilidades de leitura imagética. Essa escolha criativa, baseada na sobreposição de imagens, resulta num diálogo entre diferentes tempos e espaços, o que amplia o leque de interpretações do observador. Essa, digamos assim, manipulação dos contextos serve como uma valiosa provocação, talvez uma tentativa de questionar o conceito de realidade.

O fato é que está também nos propósitos desse artista baiano fazer com que as pessoas possam vislumbrar interpretações autônomas para as fotografias que ele produz. Significa deixá-las à vontade para que recriem mundos a partir desse mundo ofertado, mesmo que este seja a mais sincera representação do nonsense ou de meros devaneios presentes no cotidiano do fotógrafo.

Natural de Salvador, Antonio Paim coleciona em sua trajetória diversas participações em exposições individuais e coletivas, tendo recebido relevantes premiações com seu trabalho. Entre seus projetos, destacam-se as séries Preces (registro especial sobre os festejos que cultuam Iemanjá na Bahia), Átimo (trabalho que enaltece a memória a partir de imagens captadas em cemitérios) e Todo carnaval tem um pouco de navio negreiro (espécie de crítica à situação dos cordeiros de blocos no carnaval de Salvador).

Certamente, a boa fotografia não é aquela que tão somente acate os ideais de beleza plástica. É algo maior, que subjaz, transpõe limites aparentes. Um pacto silente entre criador e observador, reserva do inimaginável e fonte incessante de visões. Captar a luz também é traduzir a si e a outros, eterno deslocar de sujeitos.

Foto: Antonio Paim

 

*As fotos de Antonio Paim fazem parte da galeria e dos textos da 116ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.

 

 

Categorias
115ª Leva - 09/2016 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

BAIANASYSTEM – DUAS CIDADES

 

 

Cidades são muito mais do que aglomerados de pessoas e espaços demarcados. Nelas, pululam vozes, pensamentos e manifestações conscientes de que há possibilidades diversas de representação em meio ao tecido social multifacetado. Afinal, cada recanto é porta-voz de peculiaridades por vezes ocultas diante de todo o aparato dos centros hegemônicos de poder, os quais insistem em cobrir com um manto de invisibilidade tudo o que contrarie suas agendas controladoras.

Quando as epifanias da periferia resistem, muitas alternativas podem surgir dessa atitude afirmativa. A melhor delas está no fato de que os apelos da cultura popular, tradicionalmente posta à margem por alguns, evidenciam a consolidação de espaços próprios, irradiando para outros centros a genuína pulsão de suas expressões. No eixo que aglutina pensamento, criação e atividade, a periferia das cidades agrega muito mais do que uma retrógrada noção de atraso sócio-econômico.

Sem dúvida, o contexto da arte é uma verdadeira mola propulsora no quesito de superação de certos anacronismos e distorções. O resultado é positivo na medida em que a periferia rejeita o discurso da vitimização e põe à mesa reflexões sobre a sua capacidade de pensar não somente as questões de seu entorno, mas também as de um contexto maior, o mundo.  É justamente esse tipo de sentimento que emana de trabalhos como os do BaianaSystem, verdadeiro agrupamento de criadores imbuídos de expressar seus modos de conceber a vida.

Para entender o trabalho dessa junção de músicos baianos é preciso sondar suas origens e influências. O ponto de partida vem da rua, da vivência com o movimento do sound system perpetrado nos bairros afastados de Salvador. Capitaneada pelo coletivo Ministéreo Público, a experiência consistia em levar àquelas localidades toda uma dinâmica de som de rua, com caixas potentes que reproduziam basicamente reggae e disco, ação fortemente derivada da cultura musical jamaicana.

É justamente desse poder sonoro, e também discursivo, o qual emana dos espaços públicos externos, que ganha corpo o projeto do BaianaSystem. Num misto de samba-reggae, salsa, bases eletrônicas, ijexá, Kuduru e pagode, dentre outros elementos, o grupo constrói sua identidade pluralizada tanto no plano musical quanto no plano das letras.

Segundo disco da banda, Duas Cidades foi um álbum que nasceu de um processo inverso de concepção, pois partiu das ruas e shows para o estúdio, num caminho que fugiu do fluxo natural das realizações fonográficas, trazendo dos ecos do público e do cotidiano uma consistente base para sua criação.

BaianaSystem / Foto: divulgação

Transitando por elementos vocais e percussivos, DJ’s, e marcado especialmente por uma virtuosa utilização da guitarra baiana, o disco carrega um sentimento caracterizado pela cartografia urbana das identidades, evocando em suas letras questões que refletem sobre aspectos críticos do modo pelo qual vivemos como sociedade.

Logo na abertura, deparamo-nos com a mensagem clara e direta de Jah Jah Revolta – Parte 2, canção que exalta as consequências naturais das ações semeadas no convívio com nossos iguais. Em Lucro (Descomprimindo), desponta um momento especial do disco, tempo de pensar o espaço urbano como um verdadeiro palco de nossas contradições, principalmente quando os avanços derivados da ferocidade capitalista interferem tanto na paisagem quanto no modo como os habitantes se percebem num contexto sociológico.

É na faixa Duas Cidades que o espírito representativo do disco se traduz com vigor. Diz em que cidade que você se encaixa? Cidade Alta/Cidade Baixa? é a pergunta que flutua por toda a canção carro-chefe do álbum, clamando por uma resposta que signifique o ato de assumir papéis por parte de quem divide os espaços físicos. Quiçá ela possa ser entendida também como um vivo jogo de expor idiossincrasias que ora apresentam diferenças gritantes, ora tendem a se aproximar de algum modo. De qualquer maneira, a luta pessoal dos indivíduos, guardadas as devidas divisões sociais, econômicas e culturais, é capaz de traçar uma cara para a referenciada metrópole.

Enquanto Playsom aposta em todo peso sonoro característico de uma ambiência jamaicana, Panela mostra, por sua vez, a atmosfera típica da gênese do carnaval da Bahia, enaltecendo a condução precisa da guitarra baiana, grande matriz do trio elétrico.

Como se não bastasse a potência vocal e interpretativa de Russo Passapusso, a guitarra baiana de Roberto Barreto, o baixo de SekoBass, a guitarra de Junix, a percussão de Japa System e as atuações dos DJ’s João Meirelles e Mahal Pitta, o novo álbum do BaianaSystem recebeu toda a atenta condução do talentoso Daniel Ganjaman, produtor que traz em sua bagagem trabalhos com artistas do quilate de Sabotage, Criolo, Planet Hemp e Emicida, dentre outros mais.

Duas Cidades é a consolidação de uma trajetória que, partindo das ruas, becos e vielas, amplifica a visibilidade necessária de frentes valiosas da cultura popular. No momento em que impulsiona recortes identitários e bem representativos de mundo, deixando de lado obviedades panfletárias, consegue seu resultado maior: fazer da música um instrumento de percepções que vão além do nosso umbigo. Por certo, ainda ouviremos falar muito dessa força sonora chamada BaianaSystem. É vida que segue, arte dançante que ecoa.

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.   

 

Categorias
115ª Leva - 09/2016 Destaques Olhares

Olhares

Um desintegrado lastro humano

Por Fabrício Brandão

Desenho: Re

Os dias caminham sobre o imenso território do planeta. Vez por outra, estamos inebriados ao ingerirmos, muito sem querer, doses cavalares de realidade. E a pergunta fica: alguém de fato encontra completude diante da incessante rotina do real?

De um lado, o que vemos e tomamos como coisa viva e presente na lonjura do tempo. Do outro, as construções internas reivindicando espaços libertários de representação. No consumo diário das cápsulas da realidade, alguém sempre encontra espaço para modificar a tônica ensaiada das coisas. E quando o livre universo da abstração adentra uma janela de nossa frágil casa, ali, na porta dos fundos, foge exasperada a banal figura de um olhar domesticado das coisas.

Definitivamente, não somos animais feitos para acostumar as horas. Podemos até, com certa frequência, negligenciar a face do inconformismo e postularmos alguma espécie de acomodação do olhar. Mas chega um momento em que isso não se torna mais possível, pois há chamados apontando rumos nada cartesianos, nos quais tempo e espaço são elementos nem um pouco mensuráveis sob aspectos de quantificação aparente.

A valoração íntima do modo como cada pessoa vislumbra as nuances do mundo alveja diretamente alguns lancinantes cenários. São recortes da existência a nos provar que é possível ressignificar a vida em grande parte. É o que tenciona a artista plástica Re, quando faz da sua arte um mergulho constante no território complexo e misterioso da introspecção.

Ao nos mostrar seus desenhos, Re põe em evidência uma espécie de desconstrução das formas tradicionais. As paisagens humanas por ela visitadas são o reflexo de um universo pessoal de abordagens, filtros de um olhar que expõe em certa medida o caráter maculado das nossas humanidades.

Desenho: Re

Seja na deformação de corpos, na utilização de sutis recursos irônicos ou na acidez crítica dos contextos, a desenhista invoca a urgência fragmentária das identidades mundanas. Trata-se de um vasto painel de sombras duma consciência dispersa por entre os vãos das desventuras dos homens, suas escolhas, bem como o idioma dos equívocos nossos de cada dia.

Mas eis que há a palpável constatação de que mergulhamos no fosso abissal da chamada pós-modernidade. Nesse contexto largamente indefinido pela fluidez das identidades e, sobretudo, pela ausência de um sujeito único e assentado numa zona de segurança, é que percebemos a contribuição da artista no que se refere ao desafio de pensar o estado atual das coisas às quais estamos submetidos.

Re é na verdade a persona artística de Renata Lisboa, trans, paulista, estudante de arquitetura, um alguém que vai moldando sua identidade em meio ao fluxo de alumbramentos inquietantes. Sua jovem idade (19 anos) é inversamente proporcional à promissora capacidade que possui de pôr em xeque através de sua obra a fixação de qualquer verdade universal.

Transitando entre o niilismo e o pessimismo, a artista confessa que suas inspirações vêm de nomes como os de Tim Burton, Jodorowsky e Iberê Camargo, além de artistas independentes, sobretudo aqueles pertencentes ao surrealismo pop.

Na inscrição traumática e apocalíptica dos seus desenhos, Re traz à tona as marcas de uma arte que provoca e, ao mesmo tempo, não congratula com vãs esperanças de futuro. É como se cada forma, contorno ou cor empregados fossem um vivo atestado de que estamos implicados até o pescoço com aquilo que quiçá também somos: misto de sujeitos errantes com falsas ilusões de salvação.

Desenho: Re

 

*Os desenhos de Re são parte integrante da galeria e dos textos da 115ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.