Um simples movimento para além de nossos domínios supostamente protegidos e muita coisa já parece diferente. E tal transição não é feita apenas de mudanças do ponto de vista físico, mas essencialmente de alterações de percepção, algo que habita o campo abstrato da vida.
Estar na rua é, para muitos, um necessário exercício de libertação. Mas aqui não falemos de um conceito encerrado apenas nas infindas possibilidades de um ir e vir, o que nos apresentaria de imediato uma noção mais óbvia de liberdade. Pensemos naquilo que nos aguarda quando entrecruzamos nossas experiências com as de tantas outras pessoas, as quais automática, rotineira ou despercebidamente também constroem o mosaico complexo das cidades.
Bem sabemos que o concreto e suas múltiplas acepções arquitetônicas são uma espécie de lado aparente das coisas, quiçá dos sentimentos humanos. No entanto, é percorrendo alguns sinais deixados pelos ímpetos pretensamente civilizatórios que conseguimos entender um pouco que tipo de gente empresta seus tons à dinâmica de ruas, avenidas, esquinas, moradas, pontes, torres, viadutos, catedrais e arranha-céus.
Há quem nos permita saborear a experiência visual dos lugares numa atitude ao mesmo tempo contemplativa e densa. É o caso do fotógrafo Milton Boeira, artista que estabelece uma especial maneira de mergulhar no universo urbano. Cada apresentação dos espaços contida nas lentes dele faz com que nos sintamos abraçados pela poética emanada de um vasto tempo, personagem que se desloca ditando o ritmo da existência.
Foto: Milton Boeira
Depois de promover um mergulho de anos à caça de imagens urbanas que melhor definissem sua procura, Milton chega num resultado ao qual batizou por “Metrópole”, projeto que lhe rendeu duas exposições individuais. O saldo dessa busca é um verdadeiro acervo de sensações, seja na forma como retrata pessoas e lugares, seja no modo como extrai do todo observado um sentido de pertencimento.
É justamente por se sentir parte integrante do espaço urbano captado que Milton Boeira faz de sua arte um espelho de vivência. Em lugar de observar a tudo com estranhamento e enaltecer distanciamentos proporcionados pela alteridade, coloca-se como um ser componente do mundo por suas lentes apresentado. Tal sentimento é tão amplo que o artista nos confessa: “Me sinto parte da rua, da calçada, da arquitetura e principalmente das pessoas”.
Nascido no Rio Grande do Sul, Milton atualmente reside em Curitiba, cidade que lhe possibilitou estudar fotografia como arte. Apropriando-se de um conceito denominado Pós-Fotografia, além de uma marcante influência das Artes Gráficas, aponta como norteadoras do seu trabalho de construção visual temáticas ligadas a pessoas, arquitetura, natureza urbana, signos, cultura, dentre outras.
Se há uma contraposição habitual entre interno e externo, duas esferas de vivência aparentemente diferentes, a arte de Milton Boeira parece ignorá-la. É como se fazer parte do mundo fosse o entendimento de uma coisa só: visitar e sentir paisagens urbanas sem perder dessa experiência o valor dos instantes, o poder dos deslocamentos imateriais.
Foto: Milton Boeira
*As fotos de Milton Boeira fazem parte da galeria e dos textos da 114ª Leva
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.
Um vasto mundo pode ser reproduzido através de um determinado ponto de vista. E tal peculiaridade assume um importante valor quando não se fecha ao jogo inútil dos determinismos. Quem expressa em seu ofício uma específica vertente do pensamento, não pode impor ao outro padrões de observação. Importa deixá-lo à vontade nos domínios dessa majestosa senhora chamada percepção.
Mas eis que uma artista como Rety Ragazzo, ao nos indicar seus caminhos autorais, aponta para contemplar o mundo com o poder das formas. Dona de um estilo próprio, ela recria a experiência humana ao representar o universo feminino pela abundância corpórea de suas personagens.
Mais do que apresentar em seus desenhos e ilustrações o corpo feminino avantajado por vias naturais ou de quaisquer ordens, Rety consegue extrair da sua arte um sentido especial de libertação. Na medida em que esteticamente professa um traço singular sobre as figuras humanas retratadas, a artista promove uma construção inclusiva da mulher gorda dentro de uma ótica que afugenta indícios de panfletarismo.
De fato, a artista em foco abraça a causa das mulheres gordas por também se assumir como sendo uma delas. E assim nos diz: “Tenho muitas dobras e, desde que parei para observá-las, resolvi desenhar a quebra de padrões e ampliar discussões feministas e contra a gordofobia”.
Desenho: Rety Ragazzo
O que deseja, então, a artista quando nos apresenta a vida povoada por mulheres gordas? Não há dúvida de que a resposta para tal questão encontra abrigo num valioso fator de provocação. Aparentemente, vemos um mundo povoado exclusivamente por aquelas mulheres. No entanto, a principal simbologia dessa opção criativa está na crença de que gordos são naturalmente integrantes do mundo sem que seja relevante olharmos para eles com os matizes da diferença física. Melhor ainda é perceber que a representação formal de mundo habitado apenas por pessoas gordas não prejudica o caráter de igualdade sugerido pela artista. É como se, gordos ou magros, também estivéssemos ali expostos com as devidas marcas de nossas individualidades.
A arte de Rety segue pelas trincheiras da ruptura de padrões e não hesita em firmar posições ideológicas diante da vida. Além de acumular as feições de pedagoga e professora da educação infantil, toma para si as frentes de feminista e esquerdista. Confessando-se uma mulher em emancipação, a artista torna o conceito de liberdade algo dinâmico na medida em que a construção de sua identidade se opera num deslocar de espaço e tempo, na vivência cotidiana que a tudo vê e sente, das coisas banais até as mais complexas.
Rety também expande seus traçados para outras fronteiras. É, por exemplo, o caso da série “santos & orixás” (desenhos bem humorados feitos em parceria com Ana Roxo). Há também uma multiplicidade de tons e formas agregados sob a alcunha de “traços livres”.
Com a liberdade entre os dentes, Rety Ragazzo reinventa a própria existência e tudo que a cerca. Investe contra a rotina dos dias de modo a transformá-la numa fundamental aliada de sua arte. Cumpre seu ritual de pessoa comum e é capaz de desvendar pequenos mundos constantemente. Permite-se voar mesmo com os pés fixados ao chão.
Desenho: Rety Ragazzo
*Os desenhos de Rety Ragazzo são parte integrante da galeria e dos textos da 113ª Leva
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.
Existem coisas que deixam nossa mente impregnada de perspectivas. Quando elas nos sugerem imagens e sensações as mais variadas possíveis, é porque algo efetivamente aconteceu dentro de nós a ponto de estimular vontades criativas. Estas tais coisas vão maquinando outras tantas e logo nos percebemos diante de um produto materializado sob a forma de um livro, espaço de projeções, arremates e de livres invenções, sejam elas labirínticas ou não.
Mesmo quando não desejamos, somos acometidos pelo mundo que se anuncia em torno de nós. A partir daí, decidimos se avançamos ou recuamos, mas deixar de perceber as externalidades é graça um tanto improvável de nos ser concedida. Talvez por isso tamanhos conflitos se operem no pulsar desritmado da dimensão mais íntima que guardamos.
A razão para as linhas iniciais deste texto serem assim construídas está diretamente ligada à experiência de leitura proporcionada por “A Eternidade da Maçã” (Ed. 7 Letras), livro de contos do escritor baiano Marcus Vinícius Rodrigues. Nele, irrompe bem vivo um paralelismo de sensações narrativas que demarcam uma válida opção por relacionar aquilo que está fora e dentro dos domínios humanos.
Tendo como fagulhas marcantes de inspiração canções de Caetano Veloso, “A Eternidade da Maçã” apresenta todo um território de ficções contidas num dos períodos mais assombrosos da história do Brasil – a ditadura militar. E possuir como contexto o forte cenário de tensão sugerido pela repressão ditatorial acaba sendo uma espécie de armadilha quando um autor não sabe se livrar dos apelos fáceis do tema. Para a recompensadora constatação do leitor mais atento, Marcus Vinícius foge desses ardis criativos.
O fato é que estamos diante de sete contos marcados por uma menção temporal explícita a histórias compreendidas entre os idos dos anos 60 e 70 do século passado. Ainda assim, isso é apenas um recorte do tempo para situar quem se debruça sobre suas linhas. O destaque maior está em perceber que se trata de narrativas que seguem uma cronologia interna, desvinculada, portanto, de uma sequência ordenada de acontecimentos. Nesse contexto, importa ressaltar o viés notadamente psicológico dos personagens, cujas existências são alvejadas pela ambiência plúmbea dos anos em curso. O tempo psicológico é como um grande personagem central que abraça todos os demais personagens, fazendo-os desfilar suas dores, anseios, hesitações, contradições e desejos contidos.
Marcus Vinícius é hábil em posicionar num mesmo front da consciência de seus personagens tanto as dores de um coletivo (e aqui ressaltemos a mão obscura do regime militar por sobre toda uma sociedade) quanto aquelas individualizadas. Nesse contraponto entre o externo e o interno, as narrativas ganham uma conformação especial na medida em que intercalam cenários difusos de vida. O autor manipula a dinâmica entre passado e presente, utilizando acertadamente recursos de flashback como uma estratégica ferramenta de posicionamento de seus personagens diante da percepção da realidade na qual estão densamente mergulhados.
She has given her soul to the Devil/but the Devil gave his soul to God, canta Caetano numa de suas mais vigorosas composições do período em que amargou seu exílio em paragens londrinas. Esse trecho da música Maria Bethânia, utilizado por Marcus Vinícius como epígrafe de “A Alma do Diabo”, conto que abre o livro, por si só é emblemático e sugere um caminho através do qual o contista segue a seu modo, tornando-nos intrigados observadores. Diante disso, cabe uma pergunta: quais os humanos resultados do encontro, num hospital, entre um doente major e sua enfermeira cujo irmão foi torturado por aquele mesmo militar?
Em “Barco vazio”, as noções de integridade física e moral são postas em xeque ante a extrema necessidade de sobrevivência a qual está submetido seu protagonista. A escolha narrativa aponta que num estado de exceção lógicas tradicionais se invertem a tal ponto que também é permitido ao oprimido utilizar-se dos mesmos expedientes do seu algoz. De modo intermitente, na cabeça do personagem central ecoa a frase: “Às vezes é preciso fazer alguma coisa errada para fazer o que é certo”.
É interessante perceber como o contista foge de lugares comuns, subvertendo expectativas óbvias em alguns de seus personagens. É, por exemplo, o que ocorre em “A flor e a estrela”, trama que tem por curioso arremate a ingênua visão de mundo do seu protagonista, até então alheio a tudo o que representava viver num país subtraído em liberdade. O jovem enamorado que atravessa a cidade sitiada para levar uma rosa a sua amada é a demonstração de como uma suposta alienação política deu margem a algum tempo de delicadeza e poesia.
Mais à frente, no conto “Longe daqui”, subsiste um espaço para o desejo, que em meio a toda sombra circular da traição, encontra algum mínimo abrigo diante da ausência de liberdade plena. O beijo entre amigos do mesmo sexo, parceiros de experiência de vida desde a infância, carrega em si toda uma simbologia, algo que transcende qualquer noção de sexualidade e que se norteia pela consciência de que o corpo é também um receptáculo de gratidão e lealdade. Estamos diante de uma amizade posta à prova por vias nada usuais.
Aos poucos, vamos percebendo que os personagens são pessoas normais que, mesmo diante dum amplo cenário de repressão, cultivam uma espécie de felicidade clandestina. Esta fugidia, é claro, mas o suficiente para recriar cenários da memória, através dos quais passam vívidos flashes de saudade ou de alguma distante tentativa de reparação. Quando encarcerados ou torturados, os protagonistas das histórias recorrem a lembranças que tanto significam uma válvula de escape para a dor presente como também uma tentativa de vislumbrarem o que seria deles se tudo fosse diferente, ou seja, se suas escolhas fossem outras.
Vencedora do Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia 2016, “A Eternidade da Maçã” é uma obra que prima pela riqueza de suas narrativas. Seu criador lança mão de bem elaborados recursos descritivos, tecendo um painel que agrega o físico e o imaterial. Assim, não entrega respostas prontas ao leitor. É como se as histórias ficassem em suspensão, sem um arremate derradeiro e prontas para continuar sob a dinâmica de outros olhares.
Terminada a leitura do livro, fica a sensação de que Marcus Vinícius Rodrigues não quer que esqueçamos uma das páginas mais cruéis de nossa história. Na medida em que um autor como ele concretiza isso sem nos impor desgastadas formulações ideológicas, o saldo é por demais positivo. Quiçá a luz ideal posta sobre as coisas seja aquela realmente capaz de proteger a memória, e não usurpá-la repetindo frases perdidas ao vento num desatino sem propósito.
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.
Um mundo a revelar suas faces. Em cada rosto, a expressão daquilo que está por trás do ritual dos dias. É preciso muito mais do que a mera anunciação da rotina para entendermos que a fotografia transcende a aparência das coisas. Assim, vemos transitar os homens com toda a vastidão de cenários que lhes são peculiares e íntimos.
Já que estamos falando de humanas paisagens, não há como deixar de ressaltar o caráter antropológico do trabalho de um artista como Patrick Arley. É, de fato, o que causa maior impacto num primeiro momento em que nos debruçamos sobre seu ofício. O homem apresentado nas fotografias de Patrick é o mais puro reflexo do ambiente em que vive, pois traz em si o vigor de suas práticas sociais, seus laços de pertencimento, seus traços culturais, seu lugar no mundo, enfim.
Cada semblante retratado pelo fotógrafo mineiro em questão transpõe nuances de um estratégico contraste entre luz e sombra. É como se diante da natural ambiguidade que o ser apresenta, emanasse simultaneamente tanto o que está para ser visto como também aquilo que carece um sentido de reserva. Então, poderíamos concluir que as faces humanas observadas estão ali impregnadas de um fluxo de expansão e retração. Estão expostas naturalmente porque cumprem um papel material do qual não se pode fugir. Entretanto, mantêm um lado oculto devidamente preservado pela construção da subjetividade.
Foto: Patrick Arley
Quando avançamos mais no microuniverso de cada pessoa flagrada pelas lentes de Patrick, sentimos a leve presença de espaços intangíveis. De um lado, a materialidade das coisas; do outro, vastas possibilidades de abstração, as quais tanto podem estar situadas no plano do observador como naqueles vividos pelos reais personagens.
E o fotógrafo vai mais além. Ousa percorrer temáticas envolvidas em mistério, como é o caso da morte. O resultado disso é uma representação cujo trânsito de imagens faz circular elementos como silêncio, vestígios e memória. Ainda dentro dessa atmosfera, uma espécie de contemplação do mistério parece surgir quando a existência física dá lugar a sacralizadas lembranças.
Foto: Patrick Arley
Outro ponto de destaque no trabalho de Patrick está no registro de manifestações da cultura popular. Delas, o artista consegue extrair recortes que mesclam crenças e elementos folclóricos. O testemunhar das tradições, sobretudo as de origem afro-brasileira, mostra que a fotografia também pode estar a serviço da preservação das raízes que fundam um país de proporções continentais como o Brasil. Há beleza no modo como as imagens que tratam desse tema retratam um êxtase tanto individual quanto coletivo, principalmente quando seus apelos denotam uma esfera mística de experiências.
Nascido em Belo Horizonte, Patrick Arley formou-se em Ciências Sociais, fez mestrado em Antropologia e atualmente é doutorando (também em Antropologia) pela Universidade Federal de Minas Gerais.
O viés imagético seguido pelo artista em foco demonstra uma valiosa opção por tentar compreender um pouco daquilo que integra os papeis humanos. Movidos por paixões ou pelo ritmo automático de nossas existências, somos seres outros, talvez um pouco melhores do que antes, quando assinalamos posições marcadas pelo captar de gestos simples da vida. A habilidade de olhar verdadeiramente o outro, respeitando seus domínios, implica num entendimento sobre nós mesmos.
*As fotos de Patrick Arley fazem parte da galeria e dos textos da 112ª Leva.
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.
O ano, 1998. O espírito que paira na atmosfera de ações traduz-se numa palavra profundamente motivadora: encantamento. Diante disso, há que se reconhecer que projetos de vida, sobretudo aqueles que são ligados à arte e seus amplos matizes, ganham corpo na medida em que se baseiam num genuíno desejo de transformação. Evidenciar os sentimentos humanos é, sem dúvida alguma, um diferencial de qualquer investida artística. Marcado por tal lema, eis que surge, em Salvador, o Grupo Teatro Griô.
Juntamente com sua parceira na vida e na arte, a atriz Tânia Soares, o também ator Rafael Morais demarca os primeiros passos do que é hoje uma das principais companhias de teatro da Bahia, certamente também do Brasil. Originalmente vindos da arte teatral e circense, Rafael e Tânia voltaram suas atenções para a fabulosa ferramenta da oralidade e seus desdobramentos. Abraçando fundamentalmente o viés da narração de histórias, o Grupo Teatro Griô assinala todo um despertar em torno do que seus fundadores preferem chamar de palavra viva, aquela que une, mobiliza e promove mudanças no ser pensante e pulsante.
Sobretudo depois de testemunhar alguns espetáculos do grupo, os quais mostram o quão viva está a nossa memória diante dos caminhos da expressão oral, veio com vigor o desejo de entrevistar Rafael e saber dele que espécie de sustentáculo mantém acesos tais caminhos da arte. Com suas feições de ator, diretor, professor, Mestre em Artes Cênicas (UFBA), ele fala com a propriedade de quem vive o processo criativo cotidianamente, sem negligenciar seus apelos, chamados e também seus abismos.
Na conversa de agora, fica registrado um breve balanço desses 18 anos de atividade do grupo, através do qual Rafael Morais confessa que ali está também a dinâmica real de sua expressão enquanto ser humano. Suas respostas confirmam que o poder transformador da arte, movimento que se opera principalmente de dentro pra fora, é marcado especialmente pela capacidade de materializar os sonhos.
Rafael Morais / Foto: arquivo pessoal
DA – O Teatro Griô surge como resposta a alguma necessidade em especial?
RAFAEL MORAIS – O surgimento do Teatro Griô não foi algo planejado. Veio de uma necessidade de falar sobre a nossa própria cultura. Na época, estávamos fazendo um trabalho voltado para o circo, para o teatro popular, e fomos realizar algo na Itália e Inglaterra com alguns pesquisadores teatrais e também da área de palhaço. Naquele momento, eu senti uma vontade de criar uma apresentação que falasse das nossas histórias. Logo que chegamos da Europa, fui fazer algumas oficinas a pedido dos professores da Escola de Teatro, e um deles, o querido e saudoso Carlos Petrovich, me convidou para ir a um terreiro de Candomblé em Salvador, o Ilê Axé Opô Afonjá. Fiquei encantado e, logo depois, o mesmo professor nos chamou para fazer um trabalho numa escola municipal de Salvador como pesquisadores do Núcleo de Estudos do Teatro Popular, o NET-POP, da UFBA. Fomos eu e Tânia como pesquisadores bolsistas do CNPq para fazer um trabalho de valorização da cultura oral, das histórias, dos mitos naquela escola a qual me referi e que fica dentro do terreiro. A partir daí, esse universo da tradição foi nos arrebatando. Isso em 1998. Começamos a desenvolver uma metodologia própria para levar essas histórias para as crianças da escola, os professores e também para o pessoal da comunidade, trazendo uma releitura, um universo de transposição dessas narrativas de tradição oral para a cena. Então, encenamos algumas histórias, fizemos cortejos, tentando realizar algo que não fosse o teatro tradicional. Vimos que o que fazíamos naquele momento em termos de teatro não contemplava aquele universo. À medida que íamos fazendo, criamos um jeito nosso de lidar com essas histórias, valorizando a simplicidade, a sinceridade, o contato direto com o público, o envolvimento das pessoas, tudo como se fosse uma festa, um encontro, uma roda de histórias com as pessoas mais velhas, sem tirar o brilho, o encantamento, buscando algo não artificial, mas sim uma palavra viva, que trouxesse essa cultura viva. Acho que foi um encontro mesmo, pois a gente ouviu aquelas histórias e pensou que tinham tudo a ver com o que estávamos querendo, mas nem sabíamos direito o que desejávamos encontrar. Foi a arte de contar histórias. Percebi que ela contemplava tudo o que buscávamos, um teatro popular, de encontro direto com as pessoas, que valorizasse nossa própria cultura, envolvesse as pessoas e pudesse ir a diferentes espaços. Queria fazer algo que não fosse restrito apenas ao palco italiano. Ir ao encontro do público, nos barracões, escolas, terreiros, praças.
DA – Qual a importância do viés da matriz africana no trabalho de vocês?
RAFAEL MORAIS – Foi desde o início uma grande inspiração. No entanto, o Teatro Griô não se limita às narrativas de tradição oral africanas ou afro-brasileiras. Trabalhamos com a tradição oral que existe no mundo todo em diferentes povos e culturas. Então, narramos histórias da Península Ibérica, da Rússia, Índia, do Oriente, dos árabes. Com a cultura afro-brasileira não poderia ser diferente, pois estamos na Bahia, onde essas histórias, cantigas e narrativas como um todo são predominantes. Ela tem uma importância muito grande por conta até desse contato com o público. A gente trata de histórias do mundo inteiro e temos diversos espetáculos inspirados em histórias de vários lugares. A matriz africana nos inspirou muito. No teatro, já éramos muito ligados a histórias da mitologia grega, nossa formação ocidental. Sempre gostamos de mitologia, e quando nos encontramos com os mitos dos Orixás, por exemplo, foi um encantamento, uma alegria. Acho que pelo encantamento essas histórias nos pegaram. Conseguimos, a partir dessa cultura afro-brasileira, perceber a junção da palavra cantada, essa ligação entre o sagrado, o mítico e o cotidiano. Aprofundando a pesquisa, fomos compreender que existe um mundo vasto de histórias de matriz africana, não somente dos Orixás, mas histórias como os contos de Ananse, a primeira aranha que existiu e que ensinou a arte de contar histórias aos homens. Tem contos muito mirabolantes, epopeias, uma riqueza muito grande do continente africano. Também temos histórias fascinantes em todos os povos, como é o caso dos árabes. Na verdade, a gente, com a cultura afro-brasileira, conseguiu tocar em narrativas que transcendiam as histórias dos irmãos Grimm, os tradicionais contos de fadas. Perceber essa diversidade foi fantástico. E a cultura afro-brasileira teve esse papel de abrir as portas para nós nesse universo da tradição oral.
DA – Há um viciado costume de se olhar a cultura de matriz africana apenas sob um ponto de vista meramente exótico, como se não houvesse um reflexo possível na realidade. O que você acha dessa redução?
RAFAEL MORAIS – Esse não é nosso olhar para com a cultura afro-brasileira. Não tem nada dessa questão do exótico, do que as pessoas chamam de folclórico, de buscar esses elementos que sejam mais histriônicos. A importância dessa cultura é muito grande, ainda mais aqui na Bahia. Mais do que imaginamos, essa cultura é nosso berço de civilização, de humanização e formação. Acho que isso também está muito relacionado à tradição oral, à questão de uma certa importância maior que se dá à palavra escrita como se a oralidade não fosse algo profundo. Acabamos muitas vezes desvalorizando por uma questão cultural, política, ideológica, dessa coisa de achar que tudo o que vem da África não presta ou que vem de um universo menor. Em nossas pesquisas, percebemos isso o tempo inteiro. E vemos o quão equivocada é essa visão de mundo que coloca a tradição oral, as referências africanas como algo menor. Temos alguns avanços acontecendo, algumas leis, como é o caso da Lei 10639 de 2003, que obriga o ensino da cultura afro-brasileira nas escolas. Mas as pessoas às vezes não sabem como fazer. Alguns professores não têm a formação adequada, não sabem como trabalhar isso, pois a vida inteira tiveram uma formação que privilegia o eurocêntrico, desprestigiando tudo o que vem da África. Mas sinto que isso está mudando. No Teatro Griô, fugimos esteticamente desse campo do exótico. Inclusive, fazemos questão de não levar para a cena essa visão de mundo, tanto que não representamos, por exemplo, Orixás em cena, ou seja, mudamos muitas vezes as melodias das canções, trazemos um universo que coloca o ser humano e os sentimentos das histórias em evidência. Essa dramaturgia é construída não para reforçar o exótico. Temos, por exemplo, o espetáculo “Histórias de Mãe Beata” que é bem simples, mas que é uma festa de samba de roda que acontece e as pessoas vão contando histórias, mas em nenhum momento representamos os Orixás em cena. Não vamos ao terreiro e copiamos o que existe ali. É uma atitude também de respeito e de aprofundar essas questões. Acho que é um perigo muito grande você tratar um universo tão rico como algo simplesmente exótico. É um desserviço e um desrespeito, até uma ofensa a toda e qualquer cultura tradicional você se apropriar dela e não devolvê-la como se deveria. Buscamos valorizar a vivência, que é tão rica da cultura afro-brasileira, e a palavra viva, os grandes narradores que temos, não apenas os griôs, mas os akpalôs, que significam fazedores de histórias. Essa palavra viva que toca nos sentimentos humanos, de pessoas de qualquer lugar do mundo. Recentemente, apresentamos em São Paulo cinco espetáculos no Festival Internacional de Narradores, o Boca do Céu, e tinha gente do mundo inteiro que ouviu essas histórias da cultura afro-brasileira e se encantou, pois contamos e essas pessoas se emocionaram não porque acharam engraçado e se envolveram. Procuramos burilar os sentimentos e tratar isso como a gente sente e vive. Muita gente olha os africanos com a questão das cantigas, com essa coisa do feitiço das palavras, do sagrado com uma condição de se assustar porque eles (os africanos) transcendem a culpa, vão para o prazer no sentido do corpo que dança, está vivo e ligado à magia. Aqui no Ocidente parecemos ter perdido essa magia, mas ela está em todos os povos. Se você for ver as histórias dos nórdicos, dos orientais, o tempo inteiro esse universo de magia está presente nelas. As histórias afro-brasileiras encantam porque mantêm ainda viva essa sabedoria que está muitas vezes mais generalista do que específica, valorizando a vivência, a experiência, o momento aqui e agora, as cantigas, os poemas, os orikis. É muito lindo esse universo. Não tem como reduzir ao exótico. Tratamos essas histórias da mesma maneira como tratamos as demais. Reinventamos aquilo para a cena. Acredito que precisamos ter da cultura afro-brasileira essas referências. As histórias que o Teatro Griô acaba levando para pessoas de diferentes lugares têm um papel muito importante de ser mais uma referência. É muito bacana percebermos as crianças afrodescendentes assistindo o espetáculo e se reconhecendo nele a partir das histórias e não da forma em si, transcendendo inclusive a cor da pele. É a história que passa adiante, o universo do imaginário. Então, é uma riqueza e um poder muito maior do que a própria imagem que está se vendo ali. Uma importância muito grande nesse sentido de formação e de educação. A narração de histórias afro-brasileiras tem esse componente de ser civilizatória, das pessoas reconhecerem a cultura como algo que fala diretamente a elas, os sentimentos humanos, os heróis e anti-heróis. As histórias aproximam as pessoas, não as excluem. É a busca da gente se reconhecer enquanto ser pensante, que sente e vive nesse mundo. Além de uma importância grande de formação e educação, vem desmistificar e revelar a luz que existe nessas histórias e que às vezes está por baixo de um véu de exotismo e de ridicularização do outro. A arte de narrar histórias consegue desvelar esses sentimentos, essas imagens e trazer para nossa vivência cotidiana de ser humano que vive e pensa. Temos as particularidades da cultura de cada um, que são importantes enquanto reconhecimento das diferenças, mas no fundo somos feitos de sonhos e sentimentos.
Rafael Morais / Foto: arquivo pessoal
DA – O que dizer da oralidade enquanto essa verdadeira mantenedora da memória?
RAFAEL MORAIS – Interessante essa pergunta porque a gente poderia imaginar justamente o contrário, que aquilo que não escrevemos o vento leva, como diz um ditado popular, ou seja, não conseguimos registrar. A tradição oral, inclusive, faz nascer a escrita. E a memória é viva, o tempo inteiro a gente está reinventando, revendo tudo. A tradição oral tem muitas funções e estratégias mnemotécnicas de fazer permanecer essa memória a partir das suas transformações. Temos muito material de tradição oral que se manteve vivo além da escrita. Hoje a gente consegue ver que os contos, mitos, estão aí nas coletâneas de recontos, histórias, em material escrito. Muitas vezes isso tem sido uma possibilidade muito bacana para pesquisadores, artistas e para o próprio povo conhecer essas histórias que transcendem os tempos. Ao mesmo tempo, a tradição oral mantém essa palavra viva, que não está ali só cristalizada, mantém a magia. A magia você encontra no conto que está escrito, mas é bem diverso de você poder ouvir uma história de boca para ouvido. Essa dinâmica da tradição oral tem sua própria força porque é flexível, se transforma, vai mudando com os tempos, com o saber que a gente já construiu há muitos séculos. É como se fosse uma espiral nesse movimento de memória e de passagem dessa tradição. A própria arte de narrar histórias sempre foi essa mantenedora, a trama da história sempre foi passada do mais velho para o mais novo por sucessivas gerações. Se a gente atentar, vamos perceber no dia a dia a quantidade de histórias nas vivências de cada pessoa. Estamos o tempo todo transformando isso. A escrita passou a ser mais um instrumento de interação, mas esse mecanismo de memória continua vivo o tempo inteiro no ser humano. Nós todos somos seres épicos, narrativos, além de lúdicos e pensantes. Por que será que permanece vivo o encantamento no mundo de hoje? Por que é que hoje em diversos ambientes que chegamos há o interesse de pessoas de todas as idades com as histórias de tradição oral? É algo inexplicável. Todo mundo reclama que os meninos ficam muito ligados na internet, televisão, nos joguinhos, mas quando eles estão diante de uma história que está sendo contada é como se reacendesse um mistério na memória dessas crianças. Essas crianças são de todas as idades, pois em alguns espetáculos nossos, às vezes, vêm adultos sozinhos. Nosso público é bem heterogêneo e é bem bacana perceber esse jogo de memória que há na gente, essa necessidade de ouvir essas histórias e depois sair espalhando elas por aí. No Brasil, acontece uma coisa muito interessante. A cultura popular está viva nas cantigas, não somente naquelas de infância, mas também nas cantigas de trabalho, nos mutirões, cirandas, diversos ritmos espalhados pelo país. Aqui na Bahia temos as cantigas de roda de tirar versos. É uma maneira de se preservar através da música. É interessante que as histórias de matriz africana, a maioria delas, se mantiveram preservadas na África por conta de cantigas, mas aqui no Brasil perdemos muito isso, ficou mesmo a trama se passando. A cantiga traz um momento de lembrar a trama inteira da história. No Teatro Griô, gostamos muito de misturar a palavra cantada com a falada, a palavra poesia, a palavra lírica.
DA – A contação de histórias pode ser melhor abrigada no seio da educação formal?
RAFAEL MORAIS – Com certeza. E não apenas com objetivo explícito de ensinar, pois a história, a narrativa de tradição oral transcende a informação e educação, vai além, para o universo do encantamento, do tocar as pessoas. Nesse universo onde tudo acontece pleno, você está o tempo todo aprendendo. Esse aprendizado que vem de uma sessão de histórias é difícil de descrever no sentido mais amplo porque é muito profundo. Além de tudo o que está sendo ensinado a partir da narrativa, a história ensina por si só nessa experiência de arte. As escolas muitas vezes estão preocupadas apenas com um depósito de informações para uma resolução prática que é fazer provas, o que acaba sacrificando todo o ser que está ali para aprender. Aprender não somente no sentido de conhecer, mas de ser mesmo. A história vem para esse campo da convivência, do aprender a instigar, a correr riscos, sonhar, a você perceber o universo do imaginário, que é tão rico, e de fazer isso se desenvolver cada vez mais em alunos de toda e qualquer idade. A narração de histórias pode acompanhar todos os momentos de nossa vida, do nascimento até nossa despedida aqui dessa experiência de vida. O tempo inteiro estamos contando histórias. O bom professor conta histórias a todo tempo, mesmo quando não acha. Um tema bem narrado é o papel de todo professor, aquele que consegue revelar o que não está acessível ao outro ser. Os excelentes professores têm esse domínio da narrativa, da comunicação. Muitas vezes a gente vê a arte sendo usada como um simples instrumento de aprendizado das disciplinas. Precisamos mesmo ter momentos de apreciação estética nas escolas, pois senão ficamos colocando a arte a serviço de determinados conteúdos. Nesse momento, temos um ganho em todos os sentidos, cognitivo, afetivo, interpessoal, imaginário. Precisamos descobrir isso com urgência para dar um pouco mais de frescor à educação. A arte de contar histórias vai num ponto crucial da educação, que é o pensamento crítico, a formação desse ser que é capaz de encontrar seus caminhos. A arte de contar histórias não entrega tudo de bandeja, ela convida você a enveredar nesse caminho de descoberta de si mesmo. O bom contador sabe que não está ensinando, está ali aprendendo junto. É nesse encontro entre narrador e ouvinte que acontece essa magia, que é a arte de narrar histórias. É muito bonito você perceber o aprendizado que surge daí. E, claro, não tem nada a ver com as lições de moral, como acontece muitas vezes num sentido de podar a criança. Na arte de contar, a história passa à frente e as pessoas vão conseguindo fazer suas próprias interpretações sem que alguém precise impor algo, dizendo que é isso ou aquilo. É um momento de liberdade artística, no qual as histórias podem ser aliadas da educação com alegria, encantamento, ludicidade e plenitude. Para mim, o valor está no próprio encontro da narração, momentos das pessoas poderem ouvir e contar histórias sem se preocupar com os mecanismos didáticos.
DA – Uma coisa bastante interessante no trabalho do Teatro Griô é a multiplicidade de atuações, ou seja, não apenas a encenação dos espetáculos é o foco, mas também desdobramentos variados sob o ponto de vista da formação, das rodas de conversa, intercâmbios, sem falar na mescla de elementos presentes, tais como o clown, música, dança. Como é atuar dentro dessa intenção multifacetada?
RAFAEL MORAIS – É um presente para o artista. Uma oportunidade de não separar as possibilidades criativas de expressão. Temos tudo ali ao mesmo tempo. Você está ali contando a história, mas de forma plena, com movimento. No sentido da formação, ela é muito ampla, de elementos do cômico, do palhaço, do teatro de rua. O aprendizado para o artista com relação ao espaço cênico da rua é fantástico. Essa possibilidade de ter esses elementos técnicos da voz, da interação com o público, da disposição do espaço. O Teatro Griô é realmente um presente para nós que o integramos porque é nossa morada artística, digamos assim. É a possibilidade de você conviver com tudo aquilo que acredita. É uma fonte que nunca seca. Parece que o tempo inteiro estamos descobrindo coisas novas, pesquisando. É uma obra muito aberta que vamos construindo no contato com o público. Ao mesmo tempo em que é um presente, é também um desafio você lidar com essa metodologia do Teatro Griô, tanto que vira e mexe a gente faz audição, algumas pessoas ingressam e temos uma maneira própria de trabalhar que acaba unindo esses elementos todos que você falou, mas com muita simplicidade. Fugimos um pouco do que é esse mundo do espetáculo, acabamos entrando num encontro com a arte em diversos lugares e matrizes culturais. Buscamos esse momento de convivência do público com os narradores, as histórias. E, claro, tem todo um aprimoramento técnico com diversos profissionais que acabam contribuindo. É um universo muito amplo, que a gente busca dar unidade e simplicidade. No grupo, uma coisa bacana é que os atores não sabiam tocar um pandeiro e hoje a gente já tem os narradores tocando percussão, rabeca, acordeom. É um trabalho que não para nunca. O tempo inteiro estamos aprendendo, exercitando, pesquisando, aprofundando. É muito instigante fazer parte como artista desse núcleo. Mas a tradição oral, a palavra viva, é o que dá unidade a todo esse trabalho.
DA – O que dizer da resposta do público nesses diferentes ambientes por onde vocês circulam?
RAFAEL MORAIS – Impressionante. Aqui em Salvador a gente vai para diversos ambientes e às vezes quer atingir um público distante. Por exemplo, fizemos um projeto de teatro de rua na Casa da Música, no Abaeté, em Itapuã, e para nossa alegria veio gente da cidade inteira. Temos percebido que o público tem acompanhado a gente. As pessoas vão percebendo o grupo como uma grande família e criam um certo vínculo com a gente, o que acho bacana. Cria uma intimidade e as pessoas encontram a gente na rua e falam conosco como se fossem amigas. Falam das histórias e de como foram tocadas por elas. E a gente percebe uma sinceridade. Acabamos criando uma maneira diferente de narrar as histórias, que não é teatro convencional, um caminho artístico autoral. Seja em comunidades mais distantes como quilombos, comunidades rurais, ou em grandes centros urbanos, a receptividade é ótima. Em São Paulo, por exemplo, a recepção foi fantástica. As pessoas lotavam as apresentações, os ingressos esgotavam em meia hora, elas se interessavam pelas histórias. Engraçado que tem gente que pergunta se as histórias são reais. Então, o vínculo que criamos com o público acaba sendo de cumplicidade. Acho que é o maior presente que o artista pode ter, saber que as pessoas estão se importando. Em São Paulo, conhecemos na plateia alguns artistas de fora do país, tanto que estamos indo pra Buenos Aires por conta disso. Fomos convidados a apresentar três espetáculos nossos num festival internacional de narração oral porque o público assistiu. É um envolvimento que não é frio. A gente acaba de alguma forma passando para o público um pouco do que vivenciamos em nossas salas de ensaio, essa relação de sinceridade, esse mergulho nos sentimentos humanos. E o público percebe.
O Grupo Teatro Griô / Foto: divulgação
DA – Salvador é uma cidade que abraça verdadeiramente o teatro?
RAFAEL MORAIS – Pergunta complexa (risos), porque há vários públicos e tipos de teatro. Tudo da Bahia é muito paradoxal mesmo. Você não tem um único jeito, mas sim uma infinidade de possibilidades com relação a essa recepção. O teatro pode ser melhor abraçado. Tem um amigo que diz que se amanhã fecharem todos os teatros de Salvador, ninguém vai sentir falta (risos). É uma piada, mas faz a gente refletir, pois se fecharem, as pessoas não vão protestar. O teatro também é algo muito amplo. A Bahia tem uma tradição de teatro muito grande, não só pela primeira faculdade da América Latina, a Escola de Teatro da UFBA, que possui grandes mestres, mas também pelo histórico de teatro popular que influenciou muita gente. O teatro em Salvador é muito forte. Quando cheguei em Salvador há quase 20 anos, senti que a pulsação de espetáculos era realmente muito maior que agora. Alguma coisa se quebrou nesse mecanismo de atração do público, de constância do público buscando os espetáculos. Porém, quando acontecem determinados espetáculos, o público vem. Então, não é algo estático. Tem a coisa do mercado também, não é só questão do público abraçar e gostar. Aqui em Salvador, ao mesmo tempo em que o público ama teatro, a gente percebe que ele poderia abraçar mais. No entanto, quando acontecem os espetáculos de rua, alguns atingem um público imenso. O que tem acontecido com o Teatro Griô é o fato de encontrarmos pessoas que dizem ser aquela a primeira vez em que foram ao teatro. Acho que estratégias, caminhos e possibilidades podem ser buscados para aproximar as pessoas ao teatro. O teatro na Bahia é muito forte, rico e valorizado. Tem uma vanguarda em pesquisa. O público que vai ama o teatro, mas acho que mais pessoas poderiam ser atingidas. Aqui em Salvador, apesar da imensa afeição das pessoas com espetáculos realizados na rua, não há um teatro de rua pulsante. Interessante esse paradoxo. A gente tem uma demanda, digamos assim, muito grande por teatro de rua, pessoas que lotam os espetáculos quando eles acontecem. Fizemos um espetáculo chamado Circo Teatro na Estrada, que saiu por diversos bairros de Salvador, e em todos eles a recepção era imensa, as pessoas ficavam felizes com o que estava acontecendo, querendo que acontecesse novamente. Com relação a isso, o público abraça mesmo. Você conta nos dedos os grupos que fazem teatro de rua em Salvador, e mesmo assim não fazem com aquela constância porque se acredita que não tem tradição, mas tem sim. O público quer abraçar, mas como vai fazer isso se não tem muitas vezes algo que se aproxima dele?
DA – O que o faz continuar naquilo que você definiu como a arte de sonhar acordado?
RAFAEL MORAIS – Essa pergunta é muito difícil. Eu me pergunto muito isso. No entanto, tenho continuado, tenho seguido em frente porque fazer arte aqui, não só na Bahia, mas no Brasil, não é fácil, pois além das dificuldades do ofício, tem todo um mundo de coisas que precisamos superar a cada momento. Durante muito tempo, pensei que não era algo racional, pois se sabia que era essa dureza por que continuava? Tenho continuado e, quando olho para trás, percebo que realmente é meu caminho. Não dá pra explicar muito. Hoje consigo compreender esse desejo de seguir em frente, que ultrapassa o medo, pois a cada projeto novo há um risco muito grande. Hoje se fala muito em crise, mas para quem faz arte é pior ainda, pois a gente vive daquilo que tece, do trabalho cotidiano, dos espetáculos, do processo criativo que por si só já é algo efêmero. Aí, a gente seguindo adiante com isso é muita coragem. Agora, não me vejo fazendo outra coisa. Claro que surgem propostas de seguir por outros caminhos, longe da arte, o que muitas vezes poderia trazer uma segurança no sentido material. Mas acho que é a arte que me mantém vivo, pois abraço um caminho de crescimento e vida, um ofício. É meu lugar no mundo, minha maneira de continuar seguindo em frente, sonhando. O meu trabalho se confunde com meu sonho. Acho que isso é muito profundo. É ao mesmo tempo o meu devaneio no sentido do processo criativo e de tudo o que implica você fazer arte, de mergulhar nos abismos desse processo que não é fácil para ninguém, ainda mais nesse tempo que estamos vivendo. Um outro nome que se dá ao pessoal que segue esse ofício das histórias é Gente das Maravilhas, pois se encantam com a simplicidade e grandeza da vida, com o encontro. Quando entra num processo criativo, nem imagina descobrir coisas que nem sabia que existiam em você. Isso quando experimenta de verdade o processo criativo, pois tem muita gente que executa determinadas funções ditas artísticas, mas não vive ele. Você não consegue largar. Estou aqui hoje pensando em novos projetos, novos caminhos. É também a ideia da missão. Sinto isso muito forte. Tenho vontade de continuar fazendo teatro, mas ao mesmo tempo é maior do que tudo isso, pois arrebata, chama e você não tem saída. E também você acaba se comprometendo. Eu mesmo tenho compromisso com esse grupo, que hoje tem vários artistas que sobrevivem junto com a gente, alguns com outros empregos. Então, você acaba entrelaçando sua missão com as de outros parceiros cúmplices. Eu e Tânia, que fundamos o Teatro Griô, temos uma responsabilidade muito grande. Minha filha também, que desde pequenininha está envolvida no universo artístico do teatro. A gente virou uma grande família que faz isso, meio que vive e respira o tempo inteiro isso com grande responsabilidade, mas também com muita alegria. As dificuldades não são a tônica, pois a gente supera todas elas e vem um ganho imenso que não sabemos dizer o que é.
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.
Se nos fosse dada a possibilidade, será que cada um de nós realmente saberia responder qual mundo carrega dentro de si? Antes de arriscarmos algo, percebamos as vias paralelas que podem fluir na epifania particular de duas imediatas dimensões: interna e externa. A interna, portanto intimista, é o indivíduo em si, suas convicções, nuances e filtros. A externa, por sua vez, é o gigantesco mosaico de cenários dispersos no lado exposto da vida, suas complexidades, seu turbilhão.
Há paralelismos plausíveis nas duas dimensões abordadas, mas ocorre também certa dinâmica de oposições na medida em que as percepções individuais atravessam modos difusos de conceber as coisas. O externo seria apenas uma paisagem estática a se contemplar não fossem os arremessos que cada pessoa é capaz de promover.
Experimentar o mundo que cresce ante nossos olhos é saber que nem todos o veem da mesma forma. Isso é benéfico por sugerir que a não uniformidade de visões e pensamentos acaba sendo uma característica valiosa. Então, como poderíamos pensar num outro lado das possibilidades se tudo fosse baseado num imutável consenso?
Arte: Luma Flôres
Já que o mundo externo, por natureza, é um colosso de imagens, é de se imaginar quantas surpresas podem estar abrigadas no universo particular de cada pessoa que por ele transita. No caso da artista plástica Luma Flôres, a proporção especial de um mundo íntimo serve de exemplo para tanto entendermos o que passa nos seus domínios, como também aquilo que permeia a relação com o exterior.
Luma contrapõe as duas dimensões de mundo sobre as quais trataram as linhas introdutórias deste texto. Seus desenhos nos dão notícias de territórios marcados tanto pelo real quanto pelo imaginado. Notadamente, são duas vigorosas formas de se lidar simultaneamente com a superfície e a profundidade daquilo que se pretende observar.
Importa dizer que é a porção intimista e subjetiva do olhar da artista quem estabelece uma conexão com o mundo em que vivemos. Assim, surgem camadas de experimentação para cada ser ou lugar apresentado. Passando por aquarelas, gravuras e também colagens, Luma mostra-nos perspectivas da existência marcadas pela fragmentação de sentimentos humanos. Revelando um gestual poético, tanto existe a face contemplativa, sensível e delicada quanto a porção que indaga inquietamente sobre os destinos humanos.
Arte: Luma Flôres
Nascida em Vitória da Conquista, na Bahia, Luma Flôres cursa Design na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia, em Salvador. Em duas oportunidades, nos anos de 2014 e 2015, seus trabalhos foram premiados pela Escola de Belas Artes da UFBA. Além disso, participou de várias exposições em espaços da capital baiana, bem como levou sua arte para cidades como Juazeiro, Vitória da Conquista e Rio de Janeiro.
À medida que penetramos nas dimensões propostas por Luma, compreendemos que algo transcende o mundo físico no qual habitamos. Miramos o fundo de um imenso espelho e lá encontramos algumas pistas do que somos. O reflexo disso é, para além do reconhecimento, um estranhamento de tudo aquilo que nos tornamos enquanto seres imperfeitos. No espaço intermediário entre os mundos concreto e abstrato, transitam delicadezas, hesitações, poucas certezas, sentimentos sublimes, efusões, tristezas e alguma controvertida verdade pessoal, esta última uma personagem que, ao que parece, jamais conseguirá ser absoluta.
Arte: Luma Flôres
*Os desenhos de Luma Flôres fazem parte da galeria e dos textos da 111ª Leva
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.
A voz que não cala diante dos impropérios do mundo também pode ser a mesma que silencia para efeito de necessárias contemplações. Ao poeta, cabe a delicada tarefa de equilibrar imperativos da razão com os apelos do sentimento. Está em jogo a necessidade de que ele se posicione diante do meio que o circunda, fomentando a ideia de que é um ser não dissociado dos fatores notadamente históricos, sociais e políticos.
Quando vemos desfilar ante nossos olhos a trajetória de um autor como Alex Simões, percebemos que estar no mundo não é um ato acidental. Há que se vislumbrar a consciência de dois polos de pretensão: o observar e o agir. Para Alex, observar é olhar detidamente para um tudo que nos abraça mesmo involuntariamente. Num outro eixo, agir é estar consciente de que a arte é ferramenta de mobilização ativa no que tange à construção de uma sociedade sob as suas mais variadas vertentes.
Artífice da palavra, Alex privilegia a forma como mola propulsora da criação para depois demarcar os territórios do conteúdo. O que resulta dessa conjugação é uma obra cujos domínios posicionam seu criador como um dos mais vigorosos representantes da moderna poesia brasileira.
De fato, o poeta a quem entrevistamos agora sabe o que dizer. Seus versos configuram uma representação de que estar no mundo é também uma questão fundamental de defender pontos de vista. E não esperemos dele o esteta que se deslumbra com os elementos plásticos e superficiais de seu ofício, aquele bem distanciado do público em geral, como se habitasse um olimpo da criação. Pelo contrário, a afirmação de uma identidade enquanto sujeito pensante, crítico e lúcido torna suas vias literárias notadamente mundanas, sobretudo porque tem a consciência de sua voz, seu corpo e seu tempo.
Nascido em Salvador, Bahia, Alex Simões é pungentemente poeta e performer. Especialmente, a fusão entre essas duas frentes de atuação desemboca nas assim chamadas poerformances. Nelas, o poeta expõe, pelos trajetos da mente e do corpo, o seu valioso desejo de aproximação com seus semelhantes, quebrando paradigmas, dessacralizando a poesia e tornando-a um instrumento de partilha social. São de sua autoria os livros “Quarenta e Uns Sonetos Catados” (2013) e “(hai)céufies” (2014). É também professor e tradutor e, desde os anos 90, integrou várias revistas e antologias literárias dentro e fora do Brasil.
Ainda sob o efeito do seu mais recente livro, “Contrassonetos: catados & via vândala” (Ed. Mondrongo – 2015), Alex dialoga conosco sobre uma vasta gama de temas. Uma conversa que perpassa também a sua construção social e política enquanto sujeito que recusa um ideal de poesia que não seja reflexo do mundo no qual vive. Nesse ínterim, há o testemunho do autor diante dos aspectos que atravessam marcantemente sua obra, mas irrompe sobremaneira o olhar de um alguém devotado às questões que o tornam demasiadamente humano.
Alex Simões / Foto: Ricardo Prado
DA – Na leitura do seu mais recente livro de poemas, chama atenção a harmonia marcante entre aspectos formais e de conteúdo, uma característica sua. E não há facilidades nesse seu caminho em direção ao leitor, tampouco conduções herméticas. O que dizer desse rumo?
ALEX SIMÕES – De fato, é uma característica. Eu parto fundamentalmente da forma, e é meio complicado dizer isso, mas parto dela. Esteticamente, penso em termos de poesia. Em projetos estéticos em geral, penso a partir de formas. Escrevo coisas muito diferentes de sonetos. Versos livres, haicais, baladas, enfim. Mas eu geralmente penso na forma que vou usar. Essa adequação entre forma e conteúdo é mais do que uma adequação. Existe uma organicidade que foi conquistada. E fico muito lisonjeado quando isso é reconhecido porque, às vezes, quando falam de mim, ressaltam muito essa condição de ser expertise, de ser um bom formalista, mas na verdade não é o que me interessa. É importante, sim, o domínio da linguagem, mas me interessa mesmo é dizer coisas. Eu procuro pensar de modo muito simultâneo, ou seja, que há formas adequadas de dizer certas coisas. Esse livro mais recente é um livro que tem 23 anos de história e você vai encontrar sonetos que dizem coisas lindas, mas que são mais formais, e que havia uma maior facilidade em direção ao leitor, além de trabalhos mais recentes, nos quais eu trago tanto um rigor no sentido de pesquisar e trazer a minha língua cotidiana para essa forma fixa, tradicional, ao mesmo tempo em que há esse respeito ao leitor. Quando você cria, surge um público e você gera uma relação de intimidade com a forma e a linguagem. Essa harmonia que você definiu é reflexo disso, duma relação que é muito antiga com a poesia e que se reflete em diversas formas e relações. A mais antiga e consistente é o soneto, mas também tenho esse outro lado de experimentar e, quando estou muito confortável, buscar outras maneiras de quebrar essa minha intimidade, de criar disrupturas. Não me constituir um poeta de linguagem hermética, ao mesmo tempo em que não facilito, é um equilíbrio que está muito na preocupação em trazer a língua do cotidiano, a mais próxima possível dele. Eu observava que no começo tinha um acento muito lusitano, notando que escrevia de uma forma distinta da minha fala. Passou a ser também uma preocupação, ao mesmo tempo em que venho trazendo temas e questões as quais criam uma tensão nessa busca por uma linguagem mais simples. E, às vezes, certas questões não podem ser ditas com total simplicidade. Acho que essa tensão também é produtiva por isso.
DA – Essa questão toda faz pensar sobre uma certa obsessão que alguns têm em dizer que a elaboração do poema é uma mera construção matemática, uma disposição de arranjos. Ao poeta, há que se deixar transbordar o sentimento?
ALEX SIMÕES – Essa discussão é antiga e, digamos, eu tendo mais para o lado cabralino, nessa coisa entre poeta possesso e poeta cerebral (nunca lembro ao certo quais categorias são mencionadas por João Cabral de Melo Neto). Eu já escrevi do jeito “vou fazer uma coisa movido”, mas no meu caso chegou um momento em que isso parou de funcionar. Geralmente, penso, fico maturando muito o que vou fazer. E tenho, sim, esse lado matemático, e não sei se serve pra mim, pois sou péssimo em matemática (risos). Há uma certa obsessão em ter algum controle sobre o processo e ficar maturando. Por exemplo, eu tenho uma encomenda, que é entregar uns poemas para uma revista, e não quero pegar coisas já prontas. E fico pensando muito em como vai ser. O sentimento está aí. Eu sou uma pessoa controlada por ele. Isso me governa. O sentimento tanto vai atravessar isso, porque ele antecede o planejamento, ele me constitui como pessoa, e também porque é uma construção. Essa capacidade de construir sentimentos através da linguagem é um processo de exercício. Exercitamos a capacidade de dizer coisas. Vou dar um exemplo concreto e relativamente recente. Participei de um processo de seleção, no qual mandei um projeto de poemas, e tirei uma nota muito baixa na minha avaliação pessoal. Foi algo abaixo da média. Foi um poema que escrevi muito puto, chamado “Balada de um poeta ruim para si mesmo”, e ali tem muito de uma frustração, uma chateação, irritação, mas é usando terça rima, fazendo referências a Dante, pensando num mote em que eu desenvolvo, e vou falando nisso ao longo do poema, e que está em “O Demônio da Teoria”, de Antoine Compagnon. Meu sentimento transborda também aí. Também tenho uma formação acadêmica e erudita, algum conhecimento legitimado que me atravessa, e meu sentimento vai através desse repertório. Não concordo com a ideia de que há que se controlar o poeta. A poesia é permeada por sentimentos, sim, mas em matéria de estética e ciência a gente não pode nunca dizer “tem de ser assim”. Tem de se ter liberdade de fazer qualquer coisa, inclusive abrir mão desse negócio de sentimento. No meu caso, não preciso ter controle de tudo. Já sou essa pessoa transbordada na minha vida pessoal. Então, nas minhas produções, eu tenho minimamente que pensar e planejar, senão é muito caos.
DA – Você acolhe o termo contrassonetos também como uma consciência da sua capacidade de transgressão enquanto criador?
ALEX SIMÕES – Totalmente. Eu conto essa história no livro. Esse termo já existia antes do escritor Ronald Augusto usar. Ele falando do meu livro “Quarenta e Uns Sonetos Catados”, que originou o “Contrassonetos: catados & via vândala”, no qual diz que não gosta de sonetos, mas o que aprecia no meu livro está no fato de serem contrassonetos, por eu não encarnar a persona de sonetista. E tem muitos sentidos aí. Eu me assumo como transgressor em termos políticos, identitários. Faz parte da minha vida. Sou contra- hegemônico, negro, homossexual, e essas questões aparecem inevitavelmente no que eu falo, nas minhas posições, na minha poesia e formalmente. Ao contrário do que pode parecer, esse exercício de dominar a língua do colonizador, usando as formas tradicionais, hegemônicas, não é um fim em si, mas um meio de dizer coisas, e dizer para públicos outros, que não são os meus pares apenas. Também para minar essa língua por dentro, essa forma por dentro. O que me interessa é dizer “eu sei fazer um soneto bonitinho, mas isso não é o mais importante”. Eu sou poeta. Assim como digo que sou negro e gay, sou poeta. Poeta que pode fazer um soneto, um haicai. Contrassoneto é nesse sentido de transgressão no qual está tudo misturado: ética, estética, política. Eu uso uma forma tradicional, mas não para conservá-la ou dizer assim “gente, com licença, sei fazer”. Foi em um certo momento, não é mais.
DA – As questões de identidade povoam cada vez mais a literatura. Na medida em que se apoiam em atitudes de afirmação política, ideológica, dentre outras, esses posicionamentos são algo fundamentais?
ALEX SIMÕES – São fundamentais e sempre existiram. Quando se há um silenciamento, e isso é comprovado inclusive através de estudos quantitativos nos quais se fazem levantamentos da etnia, da orientação sexual, do que são personagens literários e as referências da literatura brasileira, quando não se menciona certos lugares, a gente está falando de um lugar branco, heterossexual, masculino, de classe média pra cima. Então, nesse sentido não há uma novidade. O que existe em termos de novidade é que à medida que essas discussões, não só no Brasil, mas internacionalmente, dos anos 60 pra cá vêm ganhando corpo, naturalmente isso vem aparecendo mais e são fundamentais desde que não sejam exclusivas, que não virem uma camisa de força. Quando eu digo e repito que sou negro e poeta, não esperem de mim nenhuma performance ou atitude dentro, encarcerada nessas identidades. Temos identidades e identificações. Qualquer estereótipo, qualquer prisão eu recuso e, nesse sentido, cabe meu aspecto transgressor de quebrar expectativas. Há situações nas quais é fundamental a gente se posicionar politicamente pra que não nos tomem como homem branco, heterossexual. É importante mapearmos isso porque falar por falar sem ter um domínio de um repertório, sem ter interlocutores dentro de uma linguagem, sem ler outros poetas e não só os poetas que me interessam, sem possuir o mínimo de conhecimento da linguagem em que estou me metendo, vai virar panfleto puro, e isso não tem valor. Se é para dizer às pessoas apenas que sou negro e gay, é melhor eu escrever um panfleto, e não um poema. Mas poder ter alguma relevância dentro de uma cena, um discurso, e poder falar de um lugar de opressão, denunciar que há um genocídio contra a população negra, homossexual, transexual, LGBT, isso é importante. Na medida em que eu puder dizer que existe um investimento violento contra segmentos minoritários, vou dizer. Eu sou uma exceção à regra. Duas vezes. Mas sempre nessa medida de que, enquanto poeta, eu tenho a liberdade de fazer qualquer coisa, inclusive de não querer falar sobre isso. Não considero que seja covarde o poeta ser negro e não querer falar sobre isso. Ele tem que ter liberdade. A poeta ou a escritora que seja mulher e não queira discutir isso em sua literatura. Não se pode abrir mão dessa liberdade. Não se pode usar camisa de força nem ser considerada literatura menor aquela que é produzida por um poeta que discute isso, inclusive na sua poesia e nos eventos em que participa.
Alex Simões / Foto: Laura Castro
DA – Na transição entre o mundo fragmentado em que vivemos e o papel, de algum modo sua apreensão das coisas é marcada pelo caos?
ALEX SIMÕES – De todos os modos, o que eu produzo é marcado pelo caos, inclusive nessa necessidade de tentar controlar minimamente esse caos que me constitui. Eu sou nietzschiano. Entendo que o caos, a disrupção e a violência são constitutivos da humanidade, da história. São aspectos que nos constituem, e há um esforço histórico em apagar essas questões que são nossas e que não são necessariamente ruins. Tem duas coisas na sua pergunta que me chamam atenção e que talvez precise demarcar em algum momento. É quando você fala em trazer para o papel. Sou um poeta que também vai para o papel, mas que também, cada vez mais, está buscando formas e suportes que são, a princípio, não tradicionais para a poesia. Esse caos é minimamente controlado na unidade livro. Quando a gente pensa em livro, sumariza, topicaliza, dá uma sequência, reflete em termos de gênero. Eu escrevo poesia e isso tem uma repercussão até na forma como a mancha escrita se impõe no texto. É diferente da prosa. Tem um caos que é constituinte, mas que é minimamente organizável quando se escreve dentro dele. A outra questão com o caos é a que passa por outras linguagens, como eu disse antes, e que passa também por um evento chamado Dominicaos, idealizado por Orlando Pinho e Heitor Dantas, e que eu ajudo a desorganizar. Orlando, que é poeta, diz que o caos opera. Eu assumo esse caos e acho que ele é importante, pois é o caos criativo que possibilita as coisas acontecerem com um mínimo de controle para que justifique o fato de eu assinar as coisas que publico, performo e realizo esteticamente. É essa minha capacidade de lidar organicamente e disciplinadamente (risos) com esse caos que justifica minha assinatura. A gente vai aprendendo a conviver com esse caos. Estou falando como artista, mas isso é a vida, pois ela é caótica. Tenho, como qualquer pessoa com 43 anos de idade, tido experiências com o acaso. Vivemos um momento político caótico, tive mortes de familiares. E assim vem o caos e tomamos a consciência de que nós somos desgovernados por excelência. Somos ocidentalmente condicionados à ideia de que a vida tem uma sequência, que as coisas estão minimamente organizadas. É só uma intenção.
DA – Uma outra linha de expressão sua está nas performances poéticas. Que papel elas assumem, sobretudo na sua relação com o externo?
ALEX SIMÕES – Digamos que de quatro anos pra cá isso tem aparecido cada vez mais. O que eu chamo disso é o cruzamento com outras linguagens, inclusive a performance, não só ela. Costumo chamar de poerformance por covardia, por não me assumir como performer, pois está num entrelugar entre performance e poesia, além do que convivo o tempo inteiro com performers, com o pessoal da dança, do teatro, das artes visuais. Meu cotidiano está muito permeado pela convivência com pessoas de linguagens diversas. Sempre tive um pouco de vergonha de me assumir como performer. Tem uma relação, claro, com o externo, mas tem um movimento que é muito relacionado com alguns eventos que eu frequento. Falei do Dominicaos, que não só frequento como também integro o núcleo de produção. Tem também o Sarau Bem Black, Pós-Lida, enfim, uma série de eventos aqui em Salvador que frequento e comecei a falar poesia. Esses três que cito são lugares em que eu via uma vibração com relação à poesia, com a performance, com o modo de falar, que tem muito a ver com o cruzamento de linguagens, caso do Pós-Lida e do Dominicaos, algo que apresenta um olhar mais arejado e contemporâneo da poesia. No caso do Sarau Bem Black, também contemporâneo e ligado a essas questões identitárias que falamos, é um movimento mais internacional, que é do Slam Poetry. Sempre me incomodou muito um certo desinteresse, aquele modo poesia declamatória, como o Wally Salomão gosta de falar ironicamente. A poesia declamatória não desperta, não consigo mais ver uma poesia mais ou menos gritada. É parte de minha pesquisa ver o trabalho dos performers e me sentir afetado, e ter a necessidade de trazer isso para o corpo. Existiam questões que eu via que não eram resolvidas apenas na poesia e, durante muito tempo, eu sofri muito com isso porque demorei muito a me assumir como poeta e artista. Também não entendia direito como era isso de querer fazer coisas diferentes ao mesmo tempo, pois a gente ainda tem uma formação disciplinar de ver isso como um problema. Com o tempo e convivendo com certos artistas, linguagens e olhares, fui percebendo que isso não é um problema necessariamente. A performance é um modo de se relacionar com o externo. No meu caso, estou muito interessado no cruzamento entre poesia e música. Isso não é invenção minha nem desse tempo, é uma relação milenar, mas que tem ganhado força. Faço performances em que cruzo música popular massiva com poesia canônica, cruzo artes visuais com poesia. Tudo isso tem muito a ver como minhas referências. Tem uma série de pessoas, algumas vivas, outras não, que foram impactantes na minha formação. Para falar de um autor vivo e que está muito nessa pegada e próximo de mim é Ricardo Aleixo. Também Joan Brossa, poeta catalão que morreu na virada dos anos 2000, e alguns artistas visuais. Zé Mário, um performer daqui e que hoje está em Brasília, foi extremamente importante nessa minha formação. No Pós-Lida, tem o James Martins, que possui um modo de dizer poesia que me interessa. Karina Rabinowitz, que tem essa coisa do cruzamento de linguagens. Daqui da Bahia ainda tem Laura Castro. Para completar as referências, tem Daniela Galdino, que é de Itabuna, Morgana Poiesis, de Vitória da Conquista, que são pessoas da performance. Ainda nessa relação com o externo, nesses eventos que tenho participado, dando oficina, sobretudo, tenho tido oportunidade de ver que é um privilégio lidar com o público, que não são públicos típicos de literatura, pois não são de eventos estritamente literários, não são da minha faixa etária. Vejo com muita alegria quando esse esforço de fazer o cruzamento de linguagens e de trazer a poesia para o corpo da gente chega de forma impactante, viva, principalmente em relação a um público que não é típico de literatura. E cada vez mais me interessa estar com esse público porque aí também tem uma questão política de formação. A gente lida com um público muito restrito e tendemos (nós da literatura) a correr o risco de acreditar que não precisamos fazer esse esforço de formação, de chegar junto, de criar estratégias para difundir o que fazemos. Eu estou cada vez mais em outra proposta. O que faço não é só poesia, mas acredito que minha poesia ganhou muito. É uma relação de troca porque é poesia viva. Internacionalmente, é o que o Slam Poetry tem feito e que reverbera nos saraus de periferia. O que tenho feito é muito afetado por essa vibração. Sempre ficava me questionando o que é que o músico popular tem que faz a gente vibrar. A maioria dos poetas não tem. E eu não estou dizendo que eu tenha. O Slam Poetry consegue, os saraus de periferia também. Para ficar nos daqui de Salvador, você vê o Sarau da Onça, no qual percebe as pessoas vidradas no que os artistas dizem. Sempre fiquei numa bronca porque sou super fã de shows de transformistas e pensava como é que a gente faz para em poesia fazer as pessoas ficarem vidradas também. Hilda Hilst deixa as pessoas pulsando, Drummond também. A performance tem sido um lugar onde isso tem se tornado possível.
Alex Simões na performance “A Capella de Waly” / Foto: Daniel Guerra
DA – Aproveitando um dos seus arremates, é preciso dessacralizar tanto o poeta quanto a poesia?
ALEX SIMÕES – É fundamental. Temos algumas heranças lindas. Sou um devoto da tradição. Um transgressor disciplinado. Não jogo tudo que está na tradição fora. Mas a gente tem umas heranças complicadas do Arcadismo, do Romantismo, do Neoclassicismo e da poesia moderna também. Uma delas é essa ideia do poeta da Torre de Marfim e do poeta hermético. Isso tem feito muito mal para a poesia porque a gente ficou num lugar solitário, de pouca penetração. Isso se reflete em muitas situações. Eu estava num evento importantíssimo discutindo esse momento político horroroso que estamos vivendo, debatendo a destruição do MinC, essa falsa reintegração desse ministério. E durante duas horas e meia que eu estava lá, praticamente não vi referências de literatura e poesia. Isso não é culpa das pessoas que estão lá. Também não é apenas culpa dos profissionais da palavra do Brasil de hoje. Tem muito a ver com essa perda de penetração que o poeta tem nas massas. O último grande poeta das massas que a gente teve foi Maiakovski, durante a Revolução Russa. No século vinte, a gente perdeu esse lugar. A poesia moderna criou um lugar de hermetismo. Acho que esse lugar foi ocupado. Os músicos populares, e alguns deles são poetas de fato, exercem essa função, mas é preciso dessacralizar, e tem gente fazendo isso. Vou dar um exemplo de dessacralização: os poetas em geral da geração Mimeógrafo têm feito isso. Tem um vivo que continua fazendo isso, o Ricardo Chacal. Dessacralizar, inclusive, em termos de linguagem, de uma preocupação em falar para os que não são seus pares, para os que não apenas estão interessados no exercício de ler poesia, mas também na demonstração daqueles que querem que isso chegue junto deles. Ricardo Chacal tem um livro, “Murundum”, que ele diz que escreveu para estudantes de ensino médio de escola pública. Ali ele se dessacraliza. É importante porque a gente precisa falar de um lugar mais terreno. Poetas e pessoas de literatura. E eu faço essa distinção a la Ezra Pound. É fundamental a gente que faz literatura e poesia no Brasil entender que esse lugar sagrado que alguns de nós falamos é um tiro no pé. Estamos falando para ninguém. Precisamos dessacralizar até pra poder chegarmos nas pessoas. É importante para a sociedade que o que esteja sendo produzido de poesia contemporânea chegue junto das pessoas. Vou dar mais um exemplo que tem a ver com performance. Mais recentemente, eu estava na ocupação do Minc, fiz uma performance, que é “A Capella de Waly”, e ouvi um depoimento de uma jovem que disse que teve uma oportunidade rara de olhar no olho de um poeta. É uma performance que não digo nada meu, falo coisas de Waly Salomão durante trinta minutos, digo poemas e canto canções com letras dele. Acho que isso diz muito, esse depoimento dela. Ela pôde olhar no olho de um poeta. É um lugar que também me coloco, de olhar no olho das pessoas, de não falar do alto para baixo. Estou trocando coisas e esse é um exercício de dessacralizar esse lugar. Há uma tendência, muito marcada por essas tradições, em falar poesia ainda muito de cima para baixo. Tem gente muito legal fazendo. Por exemplo, Angélica Freitas quando faz um útero do tamanho de um punho, e que pega poemas que são googlados, desmascara o machismo que está presente no inconsciente coletivo e que se reproduz nas nossas formas discursivas contemporâneas, está dessacralizando esse lugar do poeta. Baudelaire falou, há cem anos, sobre a perda da aura do poeta. Infelizmente, parece que alguns e algumas colegas ainda não entenderam que acabou. Nossa aura caiu num lodaçal. Tá na lama e a gente precisa assumir. Nossa única possibilidade de existência, penetração e relevância é assumir a sujeira do cotidiano, do contemporâneo.
DA – Com que olhos o Alex educador vislumbra a formação de leitores?
ALEX SIMÕES – Com olhos de lince (risos). Eu, além de dar aula em instituição formal, faculdade, sempre estou preocupado com essa questão de formação. Acho que isso é muito importante porque dá uma consciência de realidade, uma noção mais pé no chão de como temos poucos leitores porque estou nesse outro front, o da sala de aula. Tenho cada vez mais dado oficina de poesia, que pra mim tem sido uma alegria. Gostaria muito de dar mais e estar menos em sala de aula formal, pois eu me sinto, inclusive, mais efetivo. Essa minha preocupação com a formação de leitores está cada vez mais voltada em criar pontes. Falando de performance, é entender que esse leitor contemporâneo, foi formado e tem menos de 30 anos, com raríssimas exceções, vai se sentir mais conclamado a conhecer a poesia através de outras linguagens. Tenho 43 anos e tive o privilégio de chegar à poesia, sobretudo pela música. Sou de uma geração que via na rede Globo Vinícius de Moraes sendo interpretado em programas especiais para crianças. Ainda tem gente muito massa fazendo isso. Adriana Calcanhoto, por exemplo. Essa ponte é fundamental para formar, e não apenas crianças, claro. Esse meu olhar de educador está muito interessado em buscar pontes não só entre linguagens, mas pontes que vislumbrem pertinências entre as origens das pessoas, pois empurrar qualquer tipo de poesia para qualquer público é estéril. Você tem que entender que há lugares. Daí, a gente volta para aquela questão das expressões identitárias, ou seja, você falar para um público que é majoritariamente negro, adolescente, sem trazer essas questões, e empurrar Baudelaire ou um cânone europeu ou estaduninense goela abaixo, é um olhar não formativo. Falo também de quem fez graduação em Letras e teve muita dificuldade porque passou por alguns professores que não tiveram esse cuidado. Felizmente, tive essa boa experiência de formação de leitura, mas vi muita gente se perder no caminho por conta de educadores que não tiveram esse olhar de entender que a formação de leitor passa pela história da pessoa, seu contexto social. Você tem que criar iscas. Existe um caminho longo a se percorrer. Se não me engano, 8% da população brasileira é proficiente em leitura. Isso é grave. Quando junto música com poesia, estou muito interessado em fisgar o público, fazê-lo se interessar pela leitura.
Alex Simões / Foto: Eric Jenkins-Sahlin
DA – O que é o seu país hoje?
ALEX SIMÕES – É a pergunta mais difícil e a que menos vou ter certeza. Primeiro, porque preciso dizer que qualquer noção de país e nação é uma noção precária, problemática, pois implica muitos silenciamentos, muitos apagamentos para que exista um país, uma nação, uma bandeira. Mas o Brasil em que a gente vive é um país que passa por um momento muito delicado. Estamos sofrendo um golpe numa democracia que nunca foi muito amadurecida, num contexto político em que a gente ainda não tem maturidade política para discutir, para se colocar e se posicionar, mas que está sofrendo um golpe. A despeito dessa polarização que é construída, que não é inocente nem ingênua, é muito triste ver o silêncio de algumas pessoas. Eu até acredito que, durante certo tempo, algumas delas foram movidas por boa intenção e contra a corrupção, que é constitutiva de qualquer governo (e não estou justificando nenhuma corrupção). Temos provas muito contundentes de que estamos num momento delicado e que se trata, indiscutivelmente, de um golpe. Uma perseguição a uma pessoa, uma estadista, que é travestida de machismo e misoginia. Temos muitos avanços importantes que foram conquistados e que estão sendo ameaçados. Isso me afeta diretamente. Meu corpo, minha história estão sendo ameaçados. Estou num lugar de contestação a isso tudo. Ao mesmo tempo, é um momento de reflexão, de possibilidade, de reversão dessa falta de articulação nossa. Quando falo nossa, trato desses segmentos minoritários, da esquerda (sou uma pessoa de esquerda). Mas não tenho certezas. Acho que é muito importante dizer que não dá pra ter certezas. Sou uma pessoa extremamente politizada, durante toda a minha vida, venho de movimento estudantil e nunca deixei de fazer política. Não tenho certezas. São contingências, circunstâncias nas quais a gente precisa se posicionar. Eu consigo dormir porque estou me posicionando contra um golpe que está acontecendo. O país que vivo é um país que está sendo golpeado por uma corja. E temos um não governo com sete ministros investigados por uma operação que é a mesma que falsamente teria sido motivo para tirarmos uma presidenta. Por outro lado, temos que reconhecer, há erros no governo que foi deposto. Na minha avaliação, erros por não ter se assumido como um governo de esquerda, que radicalmente deveria extirpar ou diminuir ao máximo possível as diferenças, a desigualdade social. Eu vivo num país em que vejo todos os dias na minha rua, em todos os cantos, as pessoas comendo lixo. Morro de vergonha disso. Isso é lamentável. É um país que mata um jovem entre 15 e 25 anos, negro, a cada dois dias. É um país que espanca e comete violência contra a mulher a cada 15 minutos provavelmente. País que estupra, que mata mais de mil mulheres por aborto porque é criminalizado hipocritamente. É o país que mais mata homossexuais e transexuais no mundo. E é o país que eu vivo e amo com todas essas contradições. Mas é um país do qual não tenho muitas certezas. Realmente, é a pergunta mais difícil.
DA – Diante de tantas coisas que nos oprimem, você acha que a arte é um instrumento de libertação?
ALEX SIMÕES – Sim. A arte é um instrumento de libertação, de esclarecimento. Desconfio que se não fosse um artista, não fosse poeta, provavelmente seria um terrorista (risos). A arte pelo menos tem essa função no mundo. Ela evitou um terrorista. Faço guerrilha com a arte. Defendo pacificamente a revolução através da linguagem. Acredito que a arte possibilita nossa transformação. Ela mudou minha vida. Tenho afeto pelo mundo, acredito na possibilidade de transformá-lo. A revolução passa pela estética, por um olhar estético sobre o mundo. A arte liberta porque educa, transforma, cria possibilidades de novos mundos. Ela, com certeza, me livrou de ser um terrorista. Eu poderia estar fazendo coisas terríveis se não fosse a possibilidade de dizer coisas com meu corpo, com meu texto, através da poesia. Ela me faz ficar nesse mundo e criando essas possibilidades de dizer coisas que não são utópicas porque se concretizam através de palavras e formas.
DA – É possível escrever sem morrer um pouco a cada dia?
ALEX SIMÕES – É impossível viver sem morrer um pouco a cada dia (risos). Sartre ou Kierkegaard, acho, falava que o sentido da vida é a morte, que morremos a cada dia, enfim. Viver antecede, é uma questão maior do que escrever. A gente escreve porque vive, mas talvez quando a gente escreve todo dia, e felizmente é meu caso, criamos a ilusão de dar sentido para essa vida, pois ela não tem sentido. Escrever todo dia é fazer a vida mais possível, mais pulsante. É um modo de enfrentar, pois a morte é inevitável, vai circundando a gente. A escrita, para mim, tem sido cada vez um modo de enfrentar a morte. Não só a minha, mas a morte que está cada vez mais ao meu redor. Tenho cada vez mais pensado nisso. Já vou fazer 43 anos e fico pensando não só na minha, mas no fato de que cada vez mais as pessoas ao meu redor estão ficando mais velhas, adoecendo e morrendo por motivos diversos. Então, escrever é também um modo de enfrentar isso, me deixa mais forte.
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes.
Por trás dum universo de cenários a compor as tramas da literatura, um criador maquina suas investidas. E o faz com o desejo da permanência, urdindo estratégias, escolhendo caminhos, atirando-se no labirinto da palavra. Quem escreve intenta ser alvejado pela percepção do leitor, este ser capaz de reorientar certos roteiros antes traçados. Quem escreve deixa sua marca no mundo na medida em que suas letras efetivamente saiam ao encontro do outro.
No jogo sugerido pela alteridade, o tácito pacto entre emissor e receptor aponta para além de uma suposta cumplicidade quando as coisas orbitam pelo complexo terreno da interpretação. Nesse ínterim, há revoluções internas, guerras contidas, alguns lampejos de êxtase e, sobremaneira, visões postas à prova. Então, seria o leitor uma espécie de destemido desbravador a quem é dado um status de total autonomia?
Acharemos estranho se alguém puder responder a isso com absoluta margem de certeza. Afinal, uma obra não é tão aberta assim na medida em que necessita pontuar rotas que fazem parte naturalmente do contexto estrutural da criação. E é bom poder ouvir escritores, saber deles o motor fundamental de seus ímpetos.
No caso do autor baiano Marcus Vinícius Rodrigues, que transita com preciosa fluidez entre as zonas da poesia e da prosa, as motivações criativas evidenciam uma tentativa de estabelecer um laço com o mundo. Também é, como o próprio escritor confessa, construir a ilusão do eterno.
Autor de obras como “Pequeno inventário das ausências” (poemas – 2001), “3 vestidos e meu corpo nu” (contos – 2009), “Eros Resoluto” (contos – 2010), Cada dia sobre a terra (contos – 2010), e tendo participado de várias antologias, Marcus Vinícius utiliza a memória como valiosa ferramenta de criação. É, na verdade, uma instigante manipulação das lembranças, espécie de distanciamento do real, através da qual o esquecimento protagoniza a elaboração da palavra. Um curioso fluxo de esquecer para escrever.
Na entrevista de agora, testemunhamos um Marcus Vinícius cada vez mais comprometido com o curso natural de seu caminhar literário, algo que se apoia marcantemente por um sentido especial de perenidade. O momento requer que falemos de seu mais novo livro de poemas, “Arquivos de um corpo em viagem” (2015), obra que enaltece a capacidade do autor em demarcar esse verdadeiro receptáculo de epifanias que é o corpo. Também na ótica da dinâmica do corpo, é de sua autoria uma série de poemas criados para o espetáculo de dança “Vous Doux”, cuja plaquete será lançada em Salvador, na Bahia, brevemente. O diálogo presente também visitou outras paisagens, a exemplo da ótica do desejo humano, das inquietudes contemporâneas e das estratégias criativas. Quem divide conosco um pouco de si é um alguém na plena percepção de que sua obra está sendo construída no processar das horas. Tudo isso sem a pretensão das certezas.
Marcus Vinícius Rodrigues / Foto: arquivo pessoal
DA – Tanto na prosa quanto na poesia, seus escritos têm um apelo muito ligado aos percursos do corpo. “Arquivos de um corpo em viagem”, seu mais recente livro de poemas, evidencia tais trajetos. O que dizer do nosso corpo enquanto receptáculo de memórias?
MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Essa história do corpo começa meio que por acaso mesmo. Olhando pra trás é que dá pra ver que tem essa unidade toda, mas não foi algo pensado. Quando eu comecei a montar o livro “Arquivos de um corpo em viagem”, foi que vi realmente a recorrência e aí organizei a obra toda em cima disso. Eliminei os poemas que não tinham a ver. Acho que o corpo é o lugar de todas as coisas. É onde nós estamos. Então, tudo acontece dentro do corpo, mesmo que seja a experiência mais metafísica. Até a experiência de sair do corpo é uma experiência em relação ao corpo, se você quiser ser místico. Eu continuo fazendo isso. Vou lançar agora um livro, inspirado no espetáculo de dança do meu irmão, “Vous Doux”, e, novamente, há a experiência do corpo, ou seja, os corpos se relacionando com os outros. É uma recorrência, mas não é pensada.
DA – É sedutor pensar que os idiomas do corpo são infinitos?
MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Não existe isso de infinito tanto em relação às experiências humanas quanto em relação à literatura. Talvez infinitas sejam as formas de fazer sempre as mesmas coisas. O tempo todo encontramos formas de fazer a mesma coisa, de irmos para o mesmo lugar, de conseguirmos as mesmas sensações. O infinito está nos caminhos, pois os lugares aonde chegamos são sempre os mesmos. Não tenho certeza de nada.
DA – Você acredita que a memória é algo que pode nos trair?
MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Eu escrevo na esperança desta traição. Escrevo tentando lembrar e já participando dessa noção de que vai haver uma invenção. Isso é um aprendizado com a Lygia Fagundes Telles, com Maria da Conceição Paranhos. Acho muito importante viver, deixar passar o tempo, esquecer, e relembrar para poder inventar. Esse processo, tenho consciente na minha literatura. Eu vivo primeiro as coisas e vou escrever muito depois. Tenho coisas anotadas de 2008, 2009, de uma viagem que fiz, e ainda quero fazer o diário de viagem, mas aí quero esquecer para depois escrever. Não quero fazer um registro real do que aconteceu. Isso para mim é um método. Esqueço para reinventar. E não é nenhuma originalidade. Já aprendi com as duas mestras que mencionei. O que eu escrevo, principalmente na prosa, tem todo um processo de apagamento. Tem uma experiência real, biográfica, lá no fundo, numa das camadas. Na prosa há pelo menos duas camadas obrigatórias: o fundo biográfico e a intertextualidade. Por cima disso, faço todo um processo de apagamento, vou eliminando todas as pistas de biografia e de intertextualidade. Claro que quando a gente apaga uma coisa, outra aparece, muitas delas que a gente nem tem noção, pois entram inconscientemente. O divertido é isso. Apago as pistas do que de fato aconteceu, seja de leitura de outros textos, seja de aspectos biográficos meus.
DA – Diante de um mundo que nos oferta confrontos em abundância, os arremessos são necessários?
MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Não. Acho o contrário. Penso que temos de mirar um caminho e seguir exatamente ele. O confronto é muito perigoso porque quando você entra em qualquer conflito você se desvia. Tudo bem que as pessoas entrem em conflito com você. O perigoso é quando você quer entrar em conflito com as pessoas, pois terá de ir até onde elas estão e talvez elas não estejam no seu caminho. Caso elas estejam no seu caminho, aí, sim, é possível ter conflitos ideológicos, estéticos, é possível se confrontar. Mas quando as pessoas não estão no seu caminho, o importante é você construir o seu próprio e fazê-lo alargar e alargar. Quando você estiver com o caminho bastante estruturado, certamente surgirá algum conflito, mas é bom que seja o conflito do outro com você e não de você com o outro. As estéticas, políticas e os movimentos afirmativos têm que fazer mais isso: seguir em frente, e não buscar confrontar o outro diretamente. Naturalmente, o outro que se por acaso está nos atravancando o caminho é que se vai confrontar com a gente. Mas aí nós não nos desviamos, porque o perigo do conflito é a gente se perder nesse desvio e viver as ideologias dos outros, sermos reativos a eles. Ser reativo ao outro não é bom nem em arte, nem em estética. Não é mais tempo da gente reagir à forma do outro fazer. Eu faço as minhas coisas, exatamente o que sei, posso e gosto de fazer. E realmente não me interessa como os outros fazem, se fazem bem, se fazem mal. Mas não pretendo discordar, ir contra o outro, porque senão eu paro de fazer o que tenho de fazer, que é de fato o que sei fazer: as minhas coisas, minha escrita, minha vida.
DA – Não te assusta o patrulhamento ideológico ao qual estamos submetidos atualmente?
MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Estou em relação a isso absolutamente recolhido. Eu me espanto com as opiniões tanto de um lado quanto do outro. E não consigo me sentir parte de nenhum dos dois grupos. É possível conviver muito bem com quem é diferente de você. Tudo isso me assusta. Não me envolvo e não tomo partido porque acho que há coisas ruins dos dois lados, e é preciso refletir muito. Tenho muito medo de pessoas que têm certezas, talvez porque eu não tenha realmente certeza de nada. Já há muito tempo que não tenho certeza de muitas coisas e também não tenho certeza de que devíamos estar todos aqui no planeta, vivendo. Acho tudo muito estranho. Penso tentando encontrar uma solução, mas não há. E há muitas coisas que não sabemos. Aos poucos, fui me acostumando a não saber as coisas, a não ter curiosidade. Por exemplo, em religião, já procurei muitas coisas, quis saber muitas coisas, e hoje em dia me contento em não saber. Aceitei o mistério.
DA – Vez por outra, vem à tona um debate sobre a divisão da literatura em nichos de gênero. É como se as vozes ficassem reduzidas a guetos. O que pensa sobre isso?
MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – É uma questão que sempre retorna. A má literatura é que fica em guetos. A boa literatura ultrapassa tudo. Tem os guetos óbvios (gays, mulheres, negros), mas tem um gueto muito menos óbvio, que se impõe por causa de uma força política, mas não pela qualidade literária, que é o gueto masculino, macho, heterossexual e branco. Há um tipo de literatura que só interessa a esse tipo de gente e que não escapa disso. A gente não percebe porque esse macho, adulto, branco, como diria Caetano, está no comando. E quem está no comando é quem decide o que é o certo, o standard, o padrão. Mas, se você for reparar, há mesmo uma literatura que não interessa às outras pessoas, que é muito particular porque é má literatura. Quando escapa desse gueto, não interessa a ninguém. As pessoas discutem, veneram porque este gueto é o gueto que está no poder, mas não deixa de ser um gueto. A boa literatura pode discutir questões raciais e interessar a todo mundo. Pode discutir questões gays e interessar a todo mundo. Pode discutir questões femininas e interessar a todo mundo. Pode discutir questões do machão, hétero, branco e também interessar a todo mundo. Tudo isso porque é boa literatura e se preocupa muito com a estética. A má literatura não interessa a ninguém. Só interessa àquele grupinho e serve para um gozo imediato daquelas pessoas, para uma função fisiológica rápida. Fisiológica não somente nos sentidos básicos, normais, mas também no sentido de servir como uma aceitação, um reforço do que determinada pessoa sente ou quer sentir. São literaturas que lidam com emoções básicas. Veja, por exemplo, a saga “Crepúsculo”, a qual não li, apenas vi os filmes. Ela tem um apelo muito grande com os adolescentes porque mostra a depressão que eles vivem naquela época. É muito chato para quem não está mais naquele período de depressão, de se pensar no que é, no existencialismo, de se viver uma vida sem grandes aventuras sexuais. É tudo tão casto ali porque é isso. Já “Harry Potter” é infantil, mas o tempo todo está lidando com outras questões e há várias camadas de leituras que se pode fazer além de um mero divertimento. Interessa a mais gente do que um “Crepúsculo”, que vai desaparecer em breve. Ninguém mais vai falar sobre isso. “Harry Potter” tem chance de sobreviver por muito tempo e interessar muito mais gente.
DA – No território da prosa, seus trânsitos criativos deixam um legado especial, sobretudo em se tratando de obras como “Eros resoluto” e “Três vestidos e meu corpo nu”. A ótica do desejo humano é uma trincheira de despertar para o mundo?
MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – O “3 vestidos e meu corpo nu” e o “Eros Resoluto” são livros tirados de um mesmo livro. Era um livro ainda incompleto, que até não tinha alguma unidade. No “3 vestidos”, eu coloquei três contos que têm uma visão feminina, são endereçados na questão feminina e em escritoras e têm uma intertextualidade expressa, flagrante e franca. E o “Eros resoluto” é mais específico de contos homoeróticos. Eles, a princípio, estavam todos num livro. Claro que os contos com a questão feminina não entrarão nesse livro futuro que um dia eu vou reunir, pelo menos com os contos homoeróticos. Talvez eu faça um livro só com os vestidos porque há mais uns três contos esparsos com visões femininas também. Essa vontade de organizar eu tenho muito. E tem, sim, sempre o desejo. Eu sempre estou prestando atenção no desejo que está por se realizar, porque é o momento que realmente importa. Uma vez que se realize, acabou, morreu. Até na minha pesquisa de mestrado o meu interesse era com o surgimento do desejo. Acho que o momento em que surge é o momento em que a gente tem mais plenitude de vida. Depois é ladeira abaixo, degradação, as coisas vão se acabando. É a pulsão de vida. O erotismo mesmo como pulsão de vida. É isso que me interessa tratar. Então, esses dois livros que vão se separar, e vão se chamar “Café Molotov”, trarão contos homoeróticos que tiverem unidade. E o “Três vestidos” também vai se formando aos poucos. Estou o tempo todo escrevendo uns três ou quatro livros temáticos e vou espalhando pelos livrinhos que tenho conseguido publicar. Às vezes, me pedem histórias específicas e vou tentado adequar aqui, ali, vendo onde se encaixa no projeto. Tenho uma planilha com as coisas que pretendo fazer. E vou recebendo os estímulos, produzindo e tentando encaixar. Eventualmente, alguma coisa é descartada ou outra acaba abrindo o caminho para novas possibilidades de livro que vou organizar no futuro. Mas a questão do desejo certamente perpassará todos os livros. Sempre é algo que aparece. Quando vou produzir um conto, eu trabalho sempre com várias unidades para que ele possa se encaixar num livro, em outro, e esses livros ideais estão sendo montados aos poucos. Quanto tiver a oportunidade de lançar um livro inteiro com isso, eu lançarei. Não tenho pressa porque é aos poucos que a gente vai fazendo. Assim que eu tiver oportunidade, sai essa antologia de contos chamada “Café Molotov”. Tenho o blog justamente com esse nome para assegurar o título como meu. Há um conto já escrito que trata disso, o qual permanece inédito para nomear o livro. Então, o meu desejo é de ordem, mais do que qualquer outra coisa. Meu desejo é apolíneo, e não o dionisíaco, que todo mundo busca. Eu quero ser apolíneo porque no caos eu já estou. Quero caminhar até a ordem.
DA – O caos também pode ser uma rota para a libertação assim como o desejo?
MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Para mim, não. A libertação está na ordem. Eu acho que já estamos no caos, e penso que a tendência da natureza é a ordem. Qualquer desarrumação que você faça na natureza em qualquer nível, seja nos moleculares ou sociais, a tendência depois é as coisas se organizarem, encontrarem um lugar, uma ordem. A pacificação está, para mim, na ordem e não no caos. O caos pode vir para explodir alguma estrutura e depois se buscar uma nova ordem, mas o caminho é a ordem. O fim é a ordem. O caos é uma desorganização momentânea. E ele é efêmero. As pessoas que falam do dionisíaco estão querendo trabalhar no registro do efêmero. Mas isso pode até servir para outras artes, teatro, performance, mas a literatura, stricto sensu, busca a perenidade. Então, você vai produzir alguma coisa que fique. Essa deve ser a intenção, pois o que não fica não é literatura. Literatura é o que vai acontecer depois, na leitura lá no futuro. Se você depende da presença das pessoas para o contato imediato, já não é mais a literatura stricto sensu, é arte cênica, música, performance, qualquer outra coisa. Depois surgiu a palavra escrita que vai comunicar para o futuro, para o distante. E aí você precisa de mais ordem. Hoje, as pessoas com todas as possibilidades de comunicação audiovisual estão dando muita ênfase ao momento da performance, ao contato próximo, ao texto que é dito em voz alta. Mas tudo isso é efêmero. É literatura dramática? É drama? É performance? Ok, mas não é aquela literatura que vai comunicar com o futuro, o distante, aquilo que nós não sabemos o que é ainda. Para essa literatura, precisamos de alguma ordem, de algum parâmetro para que a comunicação possa se estabelecer no futuro. Estou interessado no fato de que uma pessoa que não saiba quem eu sou, pegue um texto meu, até com a autoria apagada, e até se comunique de alguma forma com o que eu disse, sem depender de mim pessoalmente para que isso aconteça. E isso só se faz com ordem. Você não vai conseguir fazer isso com o caos. O caos é um caminho, um processo, uma etapa, mas não é o fim em si das coisas.
Espetáculo “Vous Doux” / Foto: Aldren Lincoln
DA – Ao longo do tempo, suas estratégias de criação mudaram muito?
MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Na poesia, eu acho que mudou alguma coisa. Tem um momento em que eu ganho mais consciência da forma. Depois também quero esquecer essas consciências, voltar a ser intuitivo. Na verdade, poesia eu comecei imitando. Em algum momento vou fazendo intuitivamente, aí publico o primeiro livro. Depois não consigo fazer mais nada que acho que seja interessante, paro um tempo e vou para a prosa. Mais adiante, volto a fazer poesia e aí ganho mais consciência. Até estudo métrica, forma, e depois esqueço. O que achei realmente após lançar o primeiro livro foi que, embora não tivesse uma preocupação formal, eu tinha estruturas que se repetiam. Depois, cansei, parei, e comecei a pensar nisso melhor. Acho que hoje em dia eu tenho mais consciência da forma, de como lidar com algumas estruturas. Umas se repetem, mas vejo que ninguém repara e então vou deixando. Tem alguns truques que se repetem, mas ainda está funcionando. Poesia é preciso descansar para depois fazer de novo. Recuperar, esquecer e depois aprender de novo.
Eu demorei muito a escrever prosa. Já tinha um primeiro livro publicado e nunca tinha escrito um conto e queria escrever. Os primeiros são muito intuitivos, muito poéticos e com pouca ação e história. Depois é que acho que fui aprendendo a fazer contos. O romance ainda estou aprendendo a fazer. Qualquer dia sai um, não sei. Mas o conto eu fui aprendendo e o meu modelo de escrever é com muita estrutura por debaixo. Tem sempre muita coisa por debaixo de um conto. Um monte de histórias que não são contadas, de truques. Há estratégias, às vezes até bobas, tipo “eu vou escrever e só vai acontecer a história em determinado lugar ou hora do dia”. Vou criando alguns obstáculos que depois acabam não aparecendo. Por exemplo, o conto “A omoplata” era um mero exercício, pois o objetivo era fazer um texto apenas com diálogos porque tenho uma repulsa em fazer diálogos. Sempre escolho não fazer. Então, me obriguei a fazer um conto só com diálogos. Agora já faço contos só com diálogos, alterno melhor. Posso eventualmente não escolher fazer diálogo algum ou não deixar as pessoas conversarem. Todas essas estratégias, algumas muito bobas, circunstanciais, tipo escrever sob encomenda, dentro de um determinado tema, são interessantes porque criam camadas de histórias, narrativas e temáticas. Acho que isso melhora um pouco a minha prosa. Isso eu fui aprendendo depois e cada vez faço mais. Vou construindo subtextos, subtramas, coisas escondidas para construir um conto curtinho às vezes. E sempre fazendo com que de alguma forma se relacione com outro conto que eu escrevi para montar uma malha, uma rede em que haja um diálogo entre eles. Toda vez que escrevo um conto, ou penso que ele vai se relacionar com algo que já escrevi ou ele abre um caminho para uma outra vertente, alguma coisa que devo fazer depois. Aí eu prevejo e deixo lá. Vai se montando uma teia. Quero que tudo se relacione de alguma forma. Isso acaba sendo uma estratégia, coisa que eu não fazia antes. Foi acontecendo aos poucos.
DA – O trabalho de resistência das editoras independentes inaugura uma nova era para as publicações?
MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Acho que todo mundo quer entrar nas garras do mercado tradicional. Ser um produto tão bom que possa ser consumido, circular bem, todo mundo quer isso. Mas isso não vai acontecer mais com todos. Não existe mais esse mercado para a literatura, a não ser aquela de entretenimento. A grande literatura não vai ter esse mercado todo e vai ser mesmo uma coisa pequena. Não vai ter mercado, vai ser arte simplesmente. Uma arte de alcance no momento reduzido, que depois vai esperar um alcance maior no tempo. No momento em que você publica, acho que cada vez menos vai haver circulação, pois mesmo quando circula, a boa literatura, essa literatura preocupada mais com a estética, circula num subterrâneo, num gueto. Não é uma coisa acessível a todo mundo. Por quê? Porque, claro, as pessoas não precisam mais da literatura para se divertirem, a não ser da literatura de entretenimento simplesmente. As pessoas vão assistir cinema, televisão, internet e não precisam ler. Não precisam gastar quinze, vinte anos aprendendo a ler bem, a interpretar um texto. Então, esse vai sendo um interesse de um número cada vez menor de pessoas. Mesmo que circule, sempre será uma circulação subterrânea, clandestina, que não chega ao grande público. As editoras pequenas, como as da Bahia agora, dão um fôlego. Isso é bom porque essa tribo das pessoas que leem, gostam de literatura e, na maioria, também escrevem acaba consumindo. Vai ser uma coisa pouca. Acho que não tem mais porque ter ansiedade. Todo mundo sonha, algumas pessoas até produzem obras com essa finalidade do grande público, mas você tem que fazer algo específico para esse grande público. E talvez não seja o caso nem de escrever um romance, mas sim um roteiro para cinema, televisão, que também é uma coisa muito interessante. Mas não é pra todo mundo e alguns escritos são para poucos mesmo, pois não há hoje em dia mais tantas pessoas com capacidade para ler e interpretar um texto literário. É um público muito reduzido. Com pouco dinheiro, você publica um livro. A questão das pequenas tiragens é uma saída, um respiro, um tipo de sobrevivência. Mas é só isso, mera sobrevivência. Não vai além.
DA –O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?
MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Pós-modernidade pode ser tudo. Se pode ser tudo, o que faço também é pós-moderno. O que eu não admito é que queiram que pós-moderno seja alguma coisa que ainda continue o Modernismo, as vanguardas lá do começo do século vinte. Isso não me interessa, essa agonia com o novo, essa vontade da novidade. Eventualmente, há coisas muito boas, mas há muitas que já nascem datadas, velhas, e que não se sustentam. Como o que eu acredito, penso e quero é algo que dure, o experimentalismo não me interessa. Claro que faço exercícios, mas não publico querendo que seja algo que vai ficar. Sei que é um exercício, é efêmero e não vai se sustentar. Mas alguma coisa da vontade de novidade fica. Não será tudo. Não tenho ansiedade do novo. Não me preocupo com isso. Quem quer fazer, que faça. A característica da pós-modernidade é a diversidade, a fragmentação. Então, cada um pode fazer o que quer. Eu faço o que eu quero, simplesmente, e pronto. E quem quiser fazer o que se diz como pós-moderno em oposição ao que faço, tranquilo. Não tenho ansiedade pela novidade pura e simplesmente. Tenho ansiedade pelo texto que fique tão bem acabado que não se possa dizer aquilo de outro jeito, a não ser daquele que foi dito. Não estou interessado no efêmero e no que vai se acabar a qualquer tempo. Claro que eu sei que tudo pode se acabar daqui a pouco, mas não trabalho com isso. Sei que tudo é assim, que tudo se acabará, mas o meu movimento de produzir é no sentido da perenidade. É um método. É o meu método.
DA – Por que escrever?
MARCUS VINÍCIUS RODRIGUES – Pelo mesmo motivo que as pessoas bebem, fazem sexo, amam. Não tem motivo, pois ou é isso ou nada. E o que vem depois do nada a gente não sabe. É gostar de se expressar, de criar histórias, de construir um mundo particular, de construir a ilusão do eterno. É pra isso. Se a gente começa a pensar o porquê das coisas, todas elas não têm muita razão de ser, não têm muita necessidade. Nem viver, não é? Mas a gente vive porque não sabe o que vem depois, vamos aproveitando o que se tem. Eu comecei a escrever porque gostava de ler o clássico, o clichê do clichê, e gostava de estar nesse lugar. E tem uma hora que você tem que criar esse próprio lugar. Tem gente que bebe e vive para isso. Tem gente que gosta de futebol. Há pessoas que fazem outras coisas e apenas preenchem o tempo. Acho que pelo menos a literatura ou a arte de um modo geral têm essa sensação de que está se construindo alguma coisa. Esse é o grande lance. É isso que aproxima talvez as artes da religião. A religião também é isso. Ela é a aposta num depois, aposta no que a gente não vê, no sobrenatural. A arte também é uma aposta no sobrenatural. A aposta na comunicação com uma pessoa que você não sabe quem seja é uma esperança. Escrevemos por esperança, simplesmente. Em quê é que é o problema. O bom da esperança é que ela não é em nada. Esperar nesse sentido é intransitivo. Simplesmente, esperamos uma coisa, uma transcendência, um além. Claro que você pode escrever poesia, prosa para objetivos mais específicos, mais circunstanciais, mas quando a gente começa a se perguntar o porquê das coisas, vai dar em nada, que ao findar vai dar em nada, nada, nada do que eu pensava encontrar, como se diz na música do Gil. Mas é isso. Se você começa a pensar, a gente vai acabar no nada. Então, eu escrevo porque me preenche de alguma forma. Se não escrevesse, talvez eu bebesse.
Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.
Entre os atos, pairam taciturnas outras existências. Viver é esse gesto colossal de colecionar mistérios e avançar por sobre eles sem que saibamos ao certo suas origens mais imediatas. É flertar com o desconhecido que nos apresenta suas investidas cotidianamente. Embora busquemos natural abrigo no algo concreto e visível, somos tomados vez ou outra pelas garras da abstração.
Quando não sabemos lidar com o intangível, muitas vezes sentimos que perdemos a desejada capacidade de controlar as coisas ao nosso redor. É muito mais do que uma mera questão de se ir além da superfície. Um percurso de rotas que nos atraem rumo ao estranhamento de nós mesmos.
Para além das experiências corporais, há trajetos de invenção e sonho. Almejando alguma espécie de libertação, um criador se rende aos atributos desse caminhar por dimensões imateriais. Assim, o que parece ocorrer é que um curioso processo de reconhecimento se opera, tornando a vivência das situações um mirar de faces diante de um espelho.
Para uma artista como a portuguesa Helena Barbagelata, o outro lado do espelho reflete uma esfera de vivências na qual o físico e o abstrato convivem harmoniosamente. É como se um ambiente único de percepções surgisse, mesclando o real e o onírico, o vivido e o imaginado. Tudo num organismo amalgamado que processa as mais complexas questões do olhar.
Arte: Helena Barbagelata
Helena expõe certas densidades humanas. Mostra-nos um conjunto de gestos, externa rostos carregados de sobriedade, aponta trajetos do corpo. Em lugar de entabular razões, a artista utiliza como principal ferramenta um prisma poético sobre as coisas observadas. É, de fato, uma valiosa escolha na medida em que os recursos da sugestão promovem uma ideia de que as vias estão abertas para captar algo que não habita o território das obviedades.
Nascida em Lisboa e hoje vivendo em Atenas, Helena há muito percorre caminhos em torno das artes plásticas, música e literatura. Na seara literária, colaborou com revistas internacionais, obteve prêmios e publicou a obra Soliloquia (Apenas-Livros, 2013). Em matéria de artes visuais, suas criações transitam entre a pintura e a fotografia.
Considerando a arte como um diálogo entre criador e receptor, a artista lusitana abre fronteiras para a libertação do olhar, ponto no qual quem contempla é capaz de vislumbrar outros significados para a criação. Ainda, segundo Helena, os caminhos percorridos levam a uma alternativa não somente de autoconhecimento, mas também de descoberta do homem em relação a seus pares e ao mundo.
Contemplar a obra de um alguém como Helena Barbagelata é apostar na existência de dimensões ilimitadas e paralelas em convivência. Na intersecção entre o palpável e o inventado, percebemos uma sucessão de camadas de vida. São saberes do ato de existir, noções que apenas são percebidas porque se ousou experimentar a continuação dos passos.
Arte: Helena Barbagelata
Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.
Som, palavra, imagem. Tudo amalgamado a um surgimento de novas dimensões. Outros territórios onde os sentidos avançam e a percepção atenta conduz a experimentados cenários. Eis o grande espaço de vivências tidas a partir da música, lugar preenchido com nuances, detalhes, sabores e, principalmente, arremessos da alma.
É artífice dos sentimentos quem se atira ao desafio de vislumbrar canções. Trajeto que permeia momentos difusos da existência numa tentativa de captar o que está em suspensão diante dos instantes todos. Como materializar a conjunção entre letra e música diante do dissipado turbilhão de janelas que dão para o mundo?
Talvez um artista como Sylvio Fraga possa nos trazer algo a lume, tendo em vista que suas abordagens sonoras erguem um consistente universo de possibilidades. De início, importa dizer que um delicado filtro reveste os olhares sobre todas as coisas circundantes. Uma capacidade de conferir evidência a pequenos grandes gestos cotidianos, muitos deles espalhados por uma rotina que julgamos acostumada pelos matizes do tempo.
Em Sylvio Fraga, verbo e som redimensionam a ciranda da vida. Um mergulhar nas imagens que se perdem despercebidas por nossos sentidos quando estamos mais preocupados em reter coisas que estão muito além do nosso mero alcance.
Andamos bem se tomamos Cigarra no trovão como sendo uma verdadeira ode às coisas simples da existência. Nele, Sylvio, na esmerada companhia de seus músicos, acerta em cheio quando formula um ambiente diferenciado de sonoridades. Por todos os cantos do disco, o conteúdo das letras vem fazer par com um cuidadoso aparato instrumental. Se o discurso fala por si e prima pela sugestão, tudo ganha ainda mais relevância diante dos arranjos e melodias ali presentes.
Sylvio Fraga / Foto: João Atala
Com um álbum autoral nas mãos, Sylvio mostra que suas letras têm uma aproximação muito grande a outro ofício seu: a poesia. Podemos observar isso em canções como Quartinho, Pedras Brancas (parceria com o poeta Eucanaã Ferraz), Samba da Cigarra e Fiquem calmas as senhoras. Há ritmo, síntese e profundidade bem próprios do labor poético. Numa faixa como Ciclotímica, por exemplo, a escolha das palavras, seu fluxo e encaixe dão vida ao que é cantado com dinamismo, bem típico do andamento de um trem que passa e nos conduz adiante dentro dum cenário de alternância de sensações. É tradução da existência em si, com seus altos e baixos.
Mesmo sabendo que há uma forte influência jazzística dando conformação ao disco, é difícil determinar um gênero específico para ele. E muito provavelmente isso nem ocupe as preocupações do quinteto, tampouco do seu mentor em si. Assim, o sublime curso do álbum também flui pelas vias de vertentes como o samba e MPB, configurando um resultado equilibrado e notadamente orgânico.
É fundamental destacar o papel do trompete de José Arimatéa, o piano de Lucas Cypriano, a bateria de Mac William Caetano e o baixo de Bruno Aguilar, músicos que, juntamente com Sylvio, estão harmoniosamente entrosados em torno de um projeto que ganhou um definido corpo.
O título do disco em si já nos permite vislumbrar significados. O principal deles pode nos remeter à conclusão de que ainda existe e resiste certa ternura e leveza na vida. Diante da dispersão e dos ruídos a que estamos submetidos incessantemente, todos eles formas de opressão nalguma medida, também será possível buscarmos a serena experimentação dos sentimentos.
Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.