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108ª Leva - 02/2016 Destaques Olhares

Olhares

Conjunções urbanas

Por Fabrício Brandão

 

Ricardo Laf
Foto: Ricardo Laf

 

A cidade apresenta seus matizes. E há muito por trás disso. Tudo traduzido num ritual de cores, linhas, formas, luzes, sombras e gestos. Dentro da metrópole, reinam sentidos múltiplos, escondem-se outros tantos segredos. O concreto não existe por si só, enquanto resultado de décadas e décadas de feituras arquitetônicas, mas assume uma nova conformidade na medida em que os habitantes dos seus domínios alimentam o vaivém dos dias com o fluxo das suas ações.

Estar numa cidade é fazer parte de um imenso campo de abstrações. Por mais que se tome as coisas como fruto imediato das observações mais aparentes da vida, um quê de mistério ainda resiste. Quanto sentimento pode caber nos corredores viários, nas ruas, alamedas e avenidas? O que, de fato, define as paisagens urbanas?

São questões razoáveis, plausíveis. Certamente, a resposta está no modo como as intervenções humanas protagonizam seus papeis. Na caótica rotina urbana, pessoas passeiam suas efusões e dores, carregam suas máscaras, consolidando um verdadeiro e difuso espaço de representações.

No trabalho de um fotógrafo como Ricardo Laf, a imagem traz em si um caráter fortemente voltado aos aspectos acima descritos. É como se o artista retivesse instantes e extraísse deles alguma máxima do tempo, espécie de testemunho insone das coisas.

Ricardo Laf
Foto: Ricardo Laf

Nas fotografias de Ricardo, a perspectiva física dos lugares vem redimensionada pelas marcas que os homens assinalam em suas passagens. Assim, a matéria incorpora os ecos de seus personagens transformadores, assumindo também uma faceta ativa. É como se houvesse uma confluência entre os dois mundos, um de carne, outro de pedra.

Quando incursiona pelas vias citadinas, o olhar desse artista mineiro também sonda vestígios, verdadeiros lugares de ausência que são pressupostos de silenciosos e anteriores ímpetos humanos. O saldo dessas marcas reflete um complexo painel de histórias camufladas pela rotina. Aos poucos, vislumbramos também narrativas de vida dispersas nos vãos da colossal matéria. Mesmo onde impera algum tipo de devastação, uma memória ali se instalou.

Jornalista por formação, Ricardo Laf também estudou Ciências Sociais, Teoria da Literatura e Semiótica. Confessa-se com uma intenção estética de, através da fotografia, dar vazão ao registro visível do mundo. Sua relação com a imagem remonta à mais longínqua infância, despertada por uma pueril curiosidade.

Bem sabemos que muito se perde no torvelinho cotidiano. De tão acostumadas, nossas horas tendem a refletir um ciclo de ações por vezes mecânicas. Com tal comportamento, alteramos as configurações dos espaços em que transitamos sem sequer desconfiarmos que neles alguma porção da vida restou coagulada. E o que mais fascina nesse automático processo de desprezo é saber que de algum modo alguém nos chamará a atenção para as sutis epifanias do esquecimento, seus cenários repletos de histórias possíveis.

Ricardo Laf
Foto: Ricardo Laf

* As fotografias de Ricardo Laf são parte integrante da galeria e dos textos da 108ª Leva

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

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107ª Leva - 01/2016 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

LINIKER – CRU

 

LINIKER-EP-CRU

 

Verdade é uma palavra que, de tão aborrecida, muitos têm medo de pronunciar. Há quem relativize seu conceito por temor ou respeito a opiniões contrárias. Por seu curso, tem também quem faça uso dela por vias deterministas, rio que desemboca no pantanoso terreno do absoluto. Afirmar que uma verdade é universal, por exemplo, é assinar um papel em branco, convite a se perder no labirinto da insensatez.

Falemos, pois, da capacidade que uma pessoa tem de delinear sua própria identidade com uma noção de verdade que é essencial à sua sobrevivência. Assim o é quando testemunhamos a expressão de um artista como Liniker. Quem o vê pela primeira vez pode tentar imaginar que a apresentação visual com a qual ele se reveste é um mero arranjo cênico de possibilidades. No entanto, há muito mais por trás disso tudo.

Vindo das paragens interioranas paulistas, mais precisamente de Araraquara, Liniker aparece para o mundo tal como gostaria de ser visto, um sujeito sem definições de gênero. Nos palcos, veste-se com trajes femininos, usa batom e deixa brotar solto todo o vigor e precisão que emanam de sua voz.  Dentro dessa representação estética, não compõe um personagem, pois, do mesmo modo que se traja nos shows, assim também é seu cotidiano.

Sua aparência não deixa de ser um importante fator de discurso e de afirmação, mas, em se tratando de música, é relevante destacar que Liniker possui um talento tanto voltado para o canto quanto para a composição. A voz é marcante, com uma colocação discretamente rouca, e vem apoiada por letras autorais que orbitam em temas como o amor e por perspectivas de identidade e gênero.

Liniker Fotodivulgação
Liniker / Foto: divulgação

O caminho escolhido pelo artista em Cru, seu EP de estreia, é o da black music, com pitadas clássicas de funk e soul. São três faixas que ficam como um grande prenúncio para o que poderá ser a carreira dele, verdadeiro aperitivo. Assim sendo, Liniker não é promessa, e sim realidade. E, pelo visto, ainda tem uma gama de coisas a nos oferecer nessa estrada que se mostra longeva e fértil.

Carro-chefe do disco, Zero é uma canção que nos toma de assalto. Vem com uma suavidade soul ao mesmo tempo em que perpassa as alamedas do desejo avassalador. O saldo do amor ali cantado é crer que o coração é uma espécie de cofre com memória, onde o que é belo pode ser devidamente acolhido e guardado.

Em Louise Du Brésil, uma pegada funk setentista toma conta dos espaços. É uma celebração de vida muito bem arranjada com elementos de nossa brasilidade. Já Caeu, a outra faixa do disco, atravessa os cenários das relações numa perspectiva imagética bem interessante, desenrolando um enredo plausível de sensações.

O trabalho tem um cuidado especial com os arranjos, sobretudo no que se refere ao uso de sopros. Reunindo a atmosfera vocal com as potencialidades sonoras dos instrumentos, Cru é um disco que pontua um universo todo marcado pela delicadeza.

Num momento em que as discussões sobre questões de gênero andam a boiar num grosso caldo fervente, a arte sempre aponta caminhos de libertação. Segui-los é imperativo porque a verdade de cada um confere sentidos às coisas. Tudo aquilo que nos envolve em aparência pode ser uma fabulosa ferramenta de comunicação, não apenas uma banal casca.

 

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

 

 

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107ª Leva - 01/2016 Destaques Olhares

Olhares

Admirável novo olhar

Por Fabrício Brandão

 

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Desenho: Deborah Dornellas

A descoberta do mundo é um processo lento, dinâmico, complexo e continuado. Mas é necessária uma intervenção ativa do olhar para que isso se torne algo real. Do contrário, a imutabilidade dos gestos diante das horas que nos acometem não tem serventia, pois nada constrói. Nem tudo está posto e temos uma considerável margem de liberdade para traçarmos as interpretações ao nosso modo.

Quando nos deparamos com coisas já estabelecidas, podemos indagar se tudo deve transcorrer da maneira como se apresenta. Sob o manto da aparência pairam as mais diversas possibilidades, cada uma delas carregando em si uma oportunidade de ressignificação. E é preciso ousadia para romper as barreiras tão viciadas pela rotina que nos trai e acomoda.

Pensar a arte de Deborah Dornellas é apreender a sensação de que o mundo no qual vivemos não é o mesmo de sempre. Munida de uma imensa capacidade de abstração, a artista revela-se hábil em revestir seres e lugares com uma múltipla sucessão de camadas. Significa dizer que o objeto de seus desenhos opera num fluxo através do qual o caráter físico das coisas é fragmentado para depois servir de base a uma outra formulação.

A despeito do que foi dito acima, essa nova caracterização da matéria é capaz de desfigurar cenários e corpos para depois reordená-los com outra configuração em forma e conteúdo. Desse modo, Deborah consegue vislumbrar alguma ordem no caos que nos pertence por natureza.

Deborah Dornellas
Desenho: Deborah Dornellas

No que tange aos traços humanos apresentados por Deborah em seus desenhos, chama atenção uma verdadeira consciência amplificada a cerca dos domínios do corpo. Nessa ótica, a artista prima, sobretudo, pelo recorte sutil das formas, pela indefinição de rostos e identidades. A aura que envolve corpos vem associada a uma espécie de esfera do mistério e, de certa forma, sugere uma conotação etérea.

Carioca criada em Brasília, Deborah hoje mora em São Paulo por escolha própria. Também é escritora, jornalista e professora de criação literária. Desenha e pinta desde 1993 e, depois que descobriu as possibilidades do desenho digital, tal ferramenta se tornou a base de seu trabalho.

A diversidade de cores e texturas é ponto de destaque no trabalho da artista. É a partir delas que o caráter abstrato das suas investidas toma substanciais proporções. Ao mesmo tempo, cabe ressaltar que uma atmosfera intuitiva conduz as ações de modo predominante.

O que pode nos separar de um novo mundo é uma questão de ponto de vista. No entanto, a liberdade para definir como isso se dará é um aspecto crucial.  Mais que um mero exercitar de olhares, dar outros rumos para a existência é resultado de um inevitável flerte com o desconhecido. Se isso realmente mudará o curso das coisas, só os arremessos poderão dizer.

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Desenho: Deborah Dornellas

* Os desenhos de Deborah Dornellas são parte integrante da galeria e dos textos da 107ª Leva

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.  

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106ª Leva - 09/2015 Destaques Olhares

Olhares

A sutil continuidade das horas

Por Fabrício Brandão

 

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

 

 

Num dado momento, os sentidos saem às ruas à cata de dimensões. Lá fora, um sopro vital permeia convívios, retém sons, encerra pensamentos. Todos os dias, em qualquer recanto do planeta, um intercruzar, ora silencioso, ora sonoro, de trajetórias distintas toma conta desse colossal palco que é a vida. Todos os dias tudo segue, apesar de nós.

O que seria desse nosso mundo sem as diferenças? A cada rosto, sua tez. A cada paisagem, seus matizes. A cada gesto, um microuniverso íntimo que, por vezes guardado a sete chaves, eclode nalgum ponto da jornada humana sobre a Terra. Serão os territórios todos nossos? Onde o limite para a visibilidade das coisas?

Na intersecção entre a concretude e a esfera de abstração, somos seres ainda hesitantes. Por assim dizer, a imperfeição dos homens é melhor guia, pois a nossa vida sucumbiria diante da certeza de que tudo está cartesianamente no seu devido lugar.

A observação das epifanias que nos cercam é também uma forma de intervenção. Por isso, evidenciar o caráter que permeia a obra de uma fotógrafa como Sinisia Coni é algo oportuno. Ali, o olhar expõe o fluxo dinâmico das expressões humanas, levando em conta que é extremamente impossível passar incólume pelo que é testemunhado de perto.  Mesmo quando se supõe uma mera contemplação, há muito mais consolidando tal gesto.

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

 

Em sua arte, Sinisia sonda ambientes urbanos como quem ousa navegar os mares da impessoalidade. O resultado dessa travessia é transmutado em gestos os quais nos soam familiares na medida em que concluímos que, não importa qual demarcação geográfica seja, pessoas são feitas da mesma essência.

Revelando-se uma apaixonada pela fotografia, Sinisia iniciou sua trajetória bem cedo, aos 14 anos de idade. De lá para cá, profissionalizou-se e participou de exposições dentro e fora do país, sendo premiada na Embaixada do Brasil em Oslo, na Noruega. Nascida em Salvador, na Bahia, hoje reside em Lisboa, Portugal.

A fotógrafa baiana confessa que mergulha com a alma quando busca suas imagens. Por tal concepção, é possível notar que ela não se propõe a uma busca leviana de lugares e pessoas. Não há o registro pelo registro, alguma espécie de fotografia acidental, mas sim um desejado envolvimento com o que surge diante dos seus olhos. Percebemos isso quando cores, formas, sombras e faces emanam suas múltiplas e próprias linguagens num ritual o mais natural possível.

Sem artificialismos e arranjos premeditados, Sinisia Coni é uma genuína testemunha do mundo, seus arroubos e sua gente.

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

 

 

* As fotografias de Sinisia Coni são parte integrante da galeria e dos textos da 106ª Leva

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

 

 

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106ª Leva - 09/2015 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Premedito o encontro com meu entrevistado sem que ele sequer desconfie. Aguardo paciente, porém não menos ansioso, pelo momento de conversarmos. O ano de 2015 já começa a desferir seus últimos golpes. É uma tarde quente de sexta-feira e, enquanto espero o meu alvo de interlocução findar suas tarefas profissionais, vislumbro cenários possíveis para nosso diálogo.

Há uma certa magia a envolver a pessoa de Adalmiro Leôncio da Silva. Estamos na litorânea cidade de Ilhéus, no sul da Bahia, e nessas paragens ele não é conhecido pelo nome de batismo que acabo de mencionar. Ao se pronunciar o nome Sabará, é difícil encontrar alguém, sobretudo no meio cultural daquela região, que pelo menos não tenha ouvido falar da representatividade desse consagrado artífice da música.

Contabilizando, como ele mesmo sustenta, seus bem vividos 81 anos, Sabará iniciou a vida artística em torno dos 11 anos de idade. Entrou no mundo da percussão, especialmente na bateria, em Ilhéus. Como baterista, acompanhou grandes nomes da música brasileira. Colecionou encontros com figuras de relevante expressão artística, o que o fez expandir seus horizontes profissionais. Há mais de 50 anos, aprofundou-se nos estudos e vem dando aulas de bateria, ofício que sem dúvida alguma ocupa um sentido especial em sua trajetória.

No contexto da música da Bahia, a reverência à expressão de Sabará é algo patente. Uma atmosfera de refinamento e sabedoria ronda a imagem desse artista, tornando-o alguém notadamente popular. Ao mesmo tempo, o modo como ele se dedica ao incessante ato de ensinar bateria a pessoas de todas as idades, driblando os arremates do tempo, chega a assumir uma feição eminentemente poética.

Nesse diálogo que agora fica aberto aos leitores, Sabará compartilha saberes e sabores de sua trajetória. Entende a música como sua genuína forma de oração pessoal e ressalta o compartilhar do conhecimento como um dos traços fundamentais de sua existência. É conversa que emprega um ânimo renovado, principalmente para quem concebe a vida como um ciclo dinâmico e espirituoso.

Sabará
Sabará / Foto: Fabrício Brandão

DA – Num determinado momento, você identificou a necessidade de sistematizar o estudo da bateria, incluindo o aprendizado da teoria, mudando um modelo que andava meio obsoleto na região em que vivia. Como se deu esse processo?

SABARÁ – Era realmente uma necessidade fazer. Na época, eu tocava no Lorde Hotel, do saudoso Nelson Muniz Barreto, e recebi uma visita de um músico russo famoso, chamado Henry Polar. Ele e a esposa. Henry fazia o violino; ela, a coreografia. Então, na sala de visitas do hotel, onde eu era o baterista, haveria um show com esse violinista consagrado. Foi nesse momento que eu percebi que tocar apenas não era o bastante. Era preciso aprender a teoria musical, a linguagem do instrumento, e fazer aí a base para se tornar um músico profissional. Quando Henry trouxe as partituras, eu fiquei sem saber o que fazer, não consegui tocar no show. Foi quando eu decidi aprender algumas coisas, fiz alguns cursos e falei com muitos bateristas da região sobre a importância de se dominar aqueles conhecimentos, pois imaginava que as exigências do mundo iriam mudar a maneira de ser dos músicos do interior. Pessoas competentes e com capacidade musical superior ao que fazíamos iriam chegar até nós e precisaríamos ficar sabendo sobre aquilo. Foi aí que eu instalei um curso de bateria do qual saíram alunos músicos que hoje estão espalhados por diversos cantos do país e do mundo. Era imperativo realizar isso, pois não se justifica ser um profissional sem estar capacitado para tal.

DA – Naquela época, essa mudança de paradigma causou algum estranhamento, uma espécie de resistência entre os músicos?

SABARÁ – Sim. Alguns chegaram a dizer que não era necessário aprender porque julgavam que já tocavam bem e sabiam acompanhar as músicas da época. No entanto, aos poucos, eles foram mudando de opinião, perceberam a necessidade e passaram a estudar. O princípio de estudo que eu lancei em Itabuna ajudou a mudar esse panorama.

DA – É uma grande fantasia supor que um músico conduz sua carreira apenas com os ouvidos, sem ter uma noção teórica ou saber ler uma partitura?

DA- Exatamente. É necessário se informar e formar consciência do conteúdo com o qual se trabalha. Quando eu falo da interpretação, digo que quando um músico tem uma partitura em mãos ou não, ele tem que tocar com sentimento. Isso leva o músico a expressar o que vem de dentro. Como digo sempre, as interpretações estabelecem os contextos onde os elementos da música ganham significado. Aquele que está executando a música tem, antes de tudo, consciência de causa, ou seja, de conteúdo. Juntando isso ao sentimento, o músico cresce. O que está ali escrito é algo inanimado, sem vida, e quem vai incitar aquilo a ganhar corpo é o músico, o intérprete. Isso é o óbvio ululante (risos). É uma questão de sensibilidade.

DA – Em sua trajetória, você acompanhou diversos músicos, cada um com sua devida importância. O que dizer dessa experiência?

SABARÁ – É justamente nesse ponto que eu ressalto a importância do conhecimento a respeito da teoria. Foram muitas as experiências, mas cito algumas delas, como é o caso de ter tocado com artistas como Cauby Peixoto, Wanderley Cardoso, Adriana, Joelma, Tito Madi, Nelson Ned, Wando, Osvaldo Fahel, Miltinho, dentre outros mais.

DA – Sua formação vem do contexto de banda de baile, não é?

SABARÁ – Exato. A banda de baile, para quem não sabe, é uma verdadeira escola na qual se tem o conhecimento de todas as estruturas musicais ou rítmicas, sobretudo dos estilos populares brasileiros. Você toca do maracatu ao axé. Hoje, por exemplo, o axé é um movimento que tem uma interferência muito grande na coisa da dança de rua, e o baterista tem que saber tocar. Inclusive, o baterista tem que ser eclético, pois o baile exige muito, da valsa ao axé, sem falar em ritmos como a salsa, dentre outros tantos. Até o hino nacional brasileiro nas comemorações cívicas a banda de baile toca (risos).

DA – O grande desafio do músico é ser versátil?

SABARÁ – Sim, e estar sempre a par do que acontece, pois o Brasil, por exemplo, é um país que sempre lança coisas novas. Eu costumo dizer, em algumas oportunidades, que a arte inaugura, de tempos em tempos, formas de tornar presente o inexplicável. O que é que é isso? Você está aqui hoje, vivendo o axé, o arrocha, e daqui a algum tempo vai perceber um outro ritmo, uma outra denominação, outra maneira de tocar e dançar gerada a partir desse conhecimento e enorme variedade de ritmos que o artista tem a sua volta. De repente, ele consegue construir uma consciência cultural ampla pelo fato de experimentar essas várias estruturas rítmicas.

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Sabará / Foto: Fabrício Brandão

DA – A gente sabe que vive num país onde a cultura popular tem um apelo muito forte. E há questionamentos antigos que acabam implicando em juízos de valor sobre o que presta ou não nessa seara. O que você pensa a respeito disso? Não há ritmo ruim?

SABARÁ – Sua pergunta é pertinente. Existem músicas que estão aí fazendo sucesso pela capacidade de observação mal orientada do povo brasileiro. Há músicas de péssima qualidade, do ponto de vista de harmonia e melodia. Existem músicas intelectualmente pobres, com letras vazias e há também aquelas apelativas dizendo coisas que nada têm a ver em relação a um trabalho de arte. A arte é única. Não existe arte pior nem melhor. Agora, quem sabe fazer mais, faz mais.  Como dizia um músico, do qual não me recordo agora, não existe música ruim, existe música mal tocada. Não tenho nada contra nenhuma forma de manifestação artística. Qualquer manifestação artística é ótima, válida. Se é bem feita, realizada com inteligência, ou se é algo que se merece gostar e apreciar, é uma questão de gosto, é diferente. Tem gente que fala mal de músicas tocadas em dois tons. Conheço canções tocadas em apenas três tons e que são ótimas. A coisa está na forma, na capacidade de quem produz. Essa que é a realidade.

DA – Na sua vivência com a música, tanto do ponto de vista da escuta, da percepção, quanto da experiência de ter tocado com artistas de todo os estilos, o que essencialmente marcou o seu trabalho?

SABARÁ – Tive o prazer de tocar com Humberto Clayber, um dos maiores gaitistas do mundo, e para mim foi um sonho realizado, até porque ele era também o baixista do Sambalanço Trio, compondo o conjunto com Airto Moreira, na bateria, e César Camargo Mariano, no piano. Era um grupo que ali, na época da bossa nova, me emocionava demais. Certa vez, em Ilhéus, eu e Clayber fizemos um show juntos e foi um verdadeiro sucesso. A casa estava lotada e, do lado de fora, ainda tinha muita gente querendo entrar. Foi uma experiência que me marcou demais por poder tocar com um músico como ele. Outros também foram importantes, como foi o caso de acompanhar Cauby Peixoto, que fazia um sucesso e tanto na década de 60. Talvez as pessoas de hoje não lembrem muito bem, mas havia também o Nelson Ned, que era conhecido como o “pequeno gigante”. Para mim, que fui criado numa localidade pequena de Ilhéus, chamada Banco Central, na fazenda de meu avô, e depois poder conhecer pessoas de relevância musical, evoluir na profissão e testemunhar também o crescimento de músicos que foram meus alunos, hoje espalhados em diversos cantos do mundo, é uma emoção muito grande. Por tudo isso, me sinto realizado. E quisera eu ter podido dar uma canja com os Beatles, com George Benson (risos).

DA – Você passou um período tocando no Rio de Janeiro. Como foi essa fase?

SABARÁ – Eu tocava numa boate chamada Balalaika, em Copacabana. Muitas vezes, depois das apresentações a turma saía em direção ao famoso Beco das Garrafas. Foi nesse contexto que eu troquei ideias com bateristas muito bacanas, como Dom Um e Milton Banana. Não cheguei a estourar e ficar famoso, mas me sinto realizado. Quando retornei à Bahia e vim morar em Itabuna, fui conquistando reconhecimento a ponto das pessoas me chamarem de mestre Sabará, isso e aquilo. Quando as pessoas me chamam de mestre, digo que isso se dá por reconhecimento e respeito, não por desempenho acadêmico que o possuísse por direito. Tenho consciência disso.

DA – Ali no Rio você teve a possibilidade de acompanhar a efervescência da Bossa Nova. O que significou testemunhar tudo isso de perto?

SABARÁ – Eu morava em Realengo, era bem jovem e, naquele momento, não tinha noção da importância daquele movimento. Nem mesmo aquela turma que se juntava no apartamento da Nara Leão, com João Gilberto e tantos outros, sabia o que era a Bossa Nova, até porque não se sabia o que se estava fazendo. Mais adiante, o termo surgiu de modo informal. Eu mesmo só fui sentir a grandeza disso tudo algum tempo depois, quando a coisa estourou e, na maioria das grandes cidades brasileiras, se fazia o chamado power trio, que era composto de piano, baixo e bateria para tocar o gênero. Nem mesmo o próprio João Gilberto, que saiu lá de Juazeiro, tinha ideia de onde o movimento iria chegar. Eu só lamento que a coisa tenha se perdido um pouco hoje em dia, talvez pela enorme quantidade de ritmos que surgiram no país. O próprio Tio Sam, naquela época, ficou com receio daquilo tudo, até mesmo quando abriu as portas do Carnegie Hall. A Bossa tem seu lugar hoje em dia, mas me parece que para poucos.

DA – Assim como a Bossa Nova, o Tropicalismo também fincou suas bandeiras. De que modo você acolheu esse movimento?

SABARÁ – O Tropicalismo foi importante porque quebrou estruturas musicais. E o novo, além de ser diferente, provoca curiosidade. Era uma bandeira forte. Vou até fazer uma brincadeira: o Brasil por ser um país tropical é tropicalista sempre (risos).

Sabará
Sabará / Foto: Fabrício Brandão

 

DA – Você é saudosista?

SABARÁ – Todos nós somos. Quem disser que não, está mentindo. De uma maneira atávica, você volta ao passado.

DA – Aquele menino que nasceu em Banco Central tinha a mínima ideia de que trilharia um caminho com a música?

SABARÁ – Não. Eu, menino correndo as roças de cacau, subindo em pés de jaca, tomando banho de rio, brincando de picula, jamais poderia imaginar.

DA – O rádio compôs a sua primeira memória musical naquele período?

SABARÁ – Sem dúvida. E vou dizer uma coisa que marcou e que não é música. Lá na fazenda, ainda garoto, meu avô comprou um rádio que na época era ligado numas baterias que mais pareciam essas de carro. Nunca esqueci a marca do rádio. Era Mullard, com dois ganchos que se ligavam à bateria. E a minha família se reunia em torno do rádio para ouvir uma novela chamada “O Direito de Nascer”. Olha que coisa! Ficou na minha mente até hoje. Assim como ficou também a paisagem, aquele cheiro de roça, ambientes que nem existem mais. Portanto, não vá em busca do passado porque ele não mais existe. Está dentro de nós.

DA – O nome Sabará vem de onde?

SABARÁ – Ah! Que coisa incrível! Essa é uma das coisas que não entendo porque aconteceu comigo. Eu torço pelo Flamengo. Quando cheguei para jogar na praia em Ilhéus, havia os famosos babas, que era como se chamavam as partidas. Eu, modéstia à parte, era bom de bola e, pela ponta direita, era um raio, driblava bem. As pessoas começaram a me apelidar de Sabará porque havia no Vasco da Gama um ponteiro direito com o mesmo nome e características de jogo. Ficou esse nome. E na música também pegou.

DA – Nessa sua faceta de professor, o que foi determinante para você criar um método próprio do ensino de bateria?

SABARÁ – Quando eu descobri a possibilidade de estudar bateria, fiz cursos com Reinaldo Martinelli Filho, que era um músico de formação acadêmica, Phd em música na Alemanha. Fiz também um aprendizado sobre divisões com o professor Florisvaldo, que era o mestre da filarmônica de Ilhéus. Esse conhecimento me deu a oportunidade de passar as informações. Então, o que eu aprendi nesse contexto, além de ter estudado em livros e outros materiais, me deu condição de passar exercícios aos meus alunos. Agradeço muito ao professor de música Aderbal Duarte, da Universidade Federal da Bahia, que me enviou um livro de suma importância na aplicação dos exercícios.

DA – Há um sentimento especial no resultado desses mais de 50 anos de ensino?

SABARÁ – O de ver alunos meus tocando profissionalmente em diversos lugares do mundo. Fico satisfeito porque o trabalho deu a alguns perspectivas de vida.

DA – O quanto Sabará conhece Sabará?

SABARÁ – É uma pergunta profunda demais. Conhece-te a ti mesmo, já disse o homem lá. E não é tão simples conhecer a si próprio. Ninguém se conhece inteiramente. Então, eu diria que sou um cão que ladra para os que me amedrontam, adulo os que me tratam bem e mordo os maus (risos).

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

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105ª Leva - 08/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Juca
Arte: Juca Oliveira

 

O que seria uma atitude poética diante da vida? Idealizar o inatingível? Mensurar o insondável? Penetrar em zonas desconhecidas ou ignoradas? Estas são algumas indagações que podemos entabular. Certamente, estamos a falar muito mais num estado de coisas, quiçá de espírito, a nortear as ações em matéria de criação e recepção. É um ser poético não somente quem cria sob tal égide, mas todo aquele que abre seus canais de acolhida e mergulha nos signos que lhe são apresentados. Então, muda-se a perspectiva das coisas e confere-se um lugar de destaque também para quem tão somente consome os feitos culturais. No caso da literatura, é o leitor um ser especial na medida em que confere sentido ao que lê, estabelecendo uma tácita relação com quem cria. Também o é no caso de outras tantas manifestações artísticas. Admite-se, por parte do receptor, um caráter de expansão duma determinada obra sem que isso represente algo desgovernado e, portanto, sem controle. Como advertem alguns, uma obra pode ser aberta, porém não escancarada. Afora qualquer discussão sobre o tema, importa mais saber do interesse das pessoas pelos percursos criativos das mais diversas ordens. É saber que, em seu íntimo, todas elas são capazes de vislumbrar caminhos até mesmo impensados pelos próprios autores. Olhando por esse viés, o maior sentido da arte seria o de promover uma libertação que surtisse efeito para todos os lados envolvidos? Responda quem puder. O fato é que hoje somos livres para acolhermos os ímpetos poéticos de gente como Germano Xavier, Camila Passatuto, George Pellegrini, Monica Marques e Jorge Elias Neto, todos eles com seus versos a descortinar janelas de vida ante nossos sentidos. No universo que sonda as motivações literárias e artísticas, o escritor e multifacetado artista W. J. Solha fala sobre o seu mais recente livro e toda uma gama de assuntos que remonta ao ato inquieto que é o estar no mundo.  Gustavo Rios elenca boas razões para a leitura de “Fernanflor”, romance de Sidney Rocha. Quando o assunto é cinema, Larissa Mendes destaca a produção norte-americana “Eu, Você e a Garota que Vai Morrer”. Nos cadernos de prosa, os contos de Dheyne de Souza, Krishnamurti Goes e Poliana Paiva pedem passagem. O disco de estreia da banda Caim gira nas linhas do gramofone de Fabrício Brandão. “Corpo Sepulcro”, novo romance de Mike Sullivan, recebe a atenta leitura de Maurício de Almeida. Em todos os recantos da 105ª Leva, os desenhos, ilustrações e tiras de Juca Oliveira interagem com outras tantas formas de expressão. Assim, caros leitores, mais uma edição ganha corpo. Evoé!

Os Leveiros

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105ª Leva - 08/2015 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

CAIM – CIÊNCIA, ARTE, IDEOLOGIA E MÚSICA

 

Capa do disco - Caim

 

A canção pede passagem para sondagens da alma. Vem com a suavidade de um vento estrangeiro, desses que percorrem os mais inusitados lugares como se estivesse à procura de testemunhas para seus imprevisíveis arroubos. E nos rendemos aos seus caprichos indomáveis. Quem canta entoa hinos que cruzam espaços, tempos e paisagens intimistas. Como mensurar sentimentos que brotam dessas escutas?

A voz desse mesmo canto fala de ternuras, inquietudes, perplexidades, belezas, serenidade. Convive com as artimanhas do amor, enfrenta as contendas do ser, questiona o tecido social, sugere poesia. Por trás da canção, a tradução de tantas difusas sensações aqui já descritas vem caracterizada pela performance de Achiles Neto, o condutor das sonoridades amalgamadas no trabalho da banda Caim.

Mas eis que Achiles não está sozinho. A Caim é levada a cabo pela sua parceria com o músico Marcus Marinho. O resultado dessa união de ideias e sentimentos está refletido no trabalho de estreia da banda, o disco Ciência, Arte, Ideologia e Música. Diga-se de passagem, o nome de batismo do álbum é adequado porque sugere uma amplitude de horizontes, olhares devotados para um bojo de questões nem um pouco monotemáticas.

Os recursos vocais de Achiles Neto são, sem dúvida, um primeiro e imediato atrativo do disco. Há não somente uma intensidade vocal presente nele, mas principalmente uma extrema capacidade de mergulhar nas canções e extrair delas uma atitude poética, verdadeiro sopro de vida. Nessa representação sensível de cenários humanos, Achiles conduz seu canto com personalidade própria, tornando o ambiente de escutas algo instigante e sedutor.

Achiles Neto e Marcus Marinho - Foto - Arthur Garcia
Achiles Neto e Marcus Marinho / Foto: Arthur Garcia

Ciência, Arte, Ideologia e Música é um rico mosaico de imagens transposto para a linguagem musical. Há de um tudo ali a refletir um traço essencialmente brasileiro e que, no entanto, se expande para um sentido universal, tendo em vista a percepção de que a música desconhece fronteiras delimitadas. Com seus acertados trajetos, a Caim transita por gêneros como o samba, reggae, blues, rock, dentre outros elementos mais. A presença marcante do violão de Marcus Marinho incrementa o sentido de brasilidade presente no álbum, dialogando com recursos que tanto podem ser tomados de um ponto de vista local quanto global. Para o conjunto harmonioso da obra, acrescente-se a bateria de Júnior Andrade e o baixo de Tiago Menezes.

Pela alta qualidade das composições e arranjos não é algo fácil escolher canções que predominem. Mesmo assim, salta aos olhos, ou melhor, aos ouvidos, uma música como Disfarce, canção que fala do amor entre dois homens com uma rara sutileza. Sob o efeito dos ímpetos amorosos, também há espaço para as constatações presentes em Quem Ama e Dei Conta. Na trama social que nos envolve cotidianamente, canções como João do BNH e Amoral evidenciam tons equilibradamente irônicos e críticos.

Um caráter regionalista povoa os cenários de uma composição como Cocoa. Nela, todo um sentimento voltado para as reminiscências dos opulentos tempos do cacau no sul da Bahia explicita tensões e contrastes sociais. Acrescente-se aqui o fato de que os integrantes da banda são baianos e trazem em si uma forte referência de uma alma nordestina.

Caim - Foto - Arthur Garcia
Caim / Foto: Arthur Garcia

É relevante perceber que músicas como Agonília e Vestido de Caim denotam um valioso viés poético. Com isso, um sensível olhar sobre os lampejos da existência mostra que viver é ultrapassar as barreiras da contemplação, dissecando vestígios e sentimentos ocultos, prenhes de uma libertação.

No terreno da apreensão das subjetividades, a musicalidade da Caim exalta hinos de liberdade, tanto no que se refere à consciência quanto a tudo aquilo que demanda um entendimento delicado do ser/estar no mundo. Esse ideal libertador é algo inalienável e não está sob o jugo de quem quer que seja. Não se submete a obscuros acordos e tampouco obedece a ritos moralistas. Expande a vida para além dos seus muros. Assim, podemos mais do que supomos.

 

 

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

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105ª Leva - 08/2015 Destaques Olhares

Olhares

Exílios voluntários

Por Fabrício Brandão

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O mundo pode ser um imenso jardim onde depositamos o tamanho de nossas expectativas. Podemos regá-lo de acordo com conveniências misturando doses reais e fantásticas. E talvez não seja tão relevante procurar saber se apreciamos mais a aparência ou o conteúdo das coisas quando a intenção é a de se ter uma atitude contemplativa diante da vida. Mergulhar mais fundo significa uma escolha a produzir seus próprios resultados.

Eis que há um outro sentido de busca na captura das imagens do mundo. É quando o artista, numa atitude libertadora, deixa-se conduzir pela pulsação própria da existência. Nesse ato, ele sai ao encontro do inesperado sem saber ao certo quais sinais irão se insinuar diante de seus sentidos. Entra em cena o desperto exercício da observação, mola propulsora do trabalho de gente como Juca Oliveira.

Juca não sabe ao certo o que vai encontrar quando permite que o mundo o apresente suas tantas e tamanhas imagens. Não há um roteiro prévio a comandar os impulsos da criação. A orientação primeira de desenhos e ilustrações vem de uma atitude de desapego à conformidade, uma sensível vontade de se deixar surpreender pelas manifestações externas. Assim, há um significativo eixo de posicionamentos, através do qual o artista, seu olhar e os objetos/sujeitos flagrados compõem uma tríade de papéis.

No seu trajeto para ver o mundo, Juca assume o desafio de articular e harmonizar elementos abstratos e concretos. Nesse momento, a intuição configura-se uma ferramenta fundamental, pois possibilita ao artista vislumbrar cenários e engendrar campos de atuação para seus personagens.

Juca Oliveira
Arte: Juca Oliveira

Seres, coisas e lugares dão o tom ao ofício de representação que nos é proposto por Juca. Dialogando com traços da contemporaneidade, o criador lança mão de recursos provocativos, irônicos e também dotados de suavidade. Faz uso de cores e formas que assinalam um modo peculiar de captar o que a vida lhe oferta incessantemente. Se o fluxo de informações é grande, Juca prefere o exílio voluntário, momento em que, num amplo processo de tomada de consciência, rende-se a apelos cotidianamente ignorados.

Outro ponto forte da trajetória desse artista baiano é a elaboração de histórias em quadrinhos. Com certa dose crítica e sarcástica que o gênero demanda, Juca conduz seus imaginados enredos. Suas tirinhas sequenciais apresentam uma robusta capacidade de equilibrar e condensar texto e imagem.

Na sua intenção confessa de se deslocar para um tempo diferenciado, mais lento, no qual desacelerar significa ampliar perspectivas de apreensão das coisas, Juca Oliveira edifica o habitat de sua arte. Alheio ao turbilhão que desconcentra e por vezes desvia, o artista encontra refúgio na percepção detida de um tudo. Com isso, reconecta-se a si mesmo, evidenciando o poder dos silêncios e abrindo canais de entendimento sobre a existência.

Juca Oliveira
Arte: Juca Oliveira

 

* As ilustrações de Juca Oliveira são parte integrante da galeria e dos textos da 105ª Leva.

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

 

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104ª Leva - 07/2015 Destaques Olhares

Olhares

Entre mundos

Por Fabrício Brandão

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

 

Entre os vãos daquilo que imaginamos ou vivemos, um mundo explode à nossa volta. Dentro dele, desenham-se cenários, epifanias humanas, outras possíveis dimensões. Há que se falar no concreto das coisas e na sua projeção aparente. Há que se falar também em abstrações ou em como estamos diante de esferas intangíveis. E, quando não temos o controle imediato das situações, passamos a meros observadores desse jogo de representações que é a vida.

Quem fotografa lida com um universo de paralelismos. Num arranjo cênico moldado pelo cotidiano, os olhares se entrecruzam. Sujeitos e objetos captados pelas lentes rompem a noção de passividade e ganham um status de protagonismo. Assim, surgem novas maneiras de vislumbrar a existência. O fotógrafo, artesão da luz, é também arrebatado por toda a sorte de elementos que emanam do exterior como se estes últimos o escolhessem. Coexistem, num mesmo plano, as investidas do artista e a representação autônoma com que seres e coisas se apresentam.

Revertendo a tradicional visão das atuações, seria como afirmar que o fotógrafo é quem é eleito pelo seu alvo. Se por um lado tal constatação traz uma carga subjetiva muito forte, por outro, aponta para uma perspectiva através da qual cabe ao artista perceber certos atrativos sinais. Temos essa sensação ao contemplarmos o trabalho de Valéria Simões, sobretudo pelo fato de que as pequenas delicadezas contidas no dia-a-dia ganham destaque aos olhos da artista.

Registrar pessoas é algo que ocupa um lugar especial na trajetória de Valéria. Nesse aspecto, está em foco a habilidade de interferir o mínimo possível no curso natural dos personagens e seus respectivos ambientes. Como ela mesma confessou, numa entrevista concedida à Diversos Afins, o segredo consiste em se misturar da forma mais espontânea possível. E é assim que múltiplas faces são mostradas, tanto nos rostos retratados quanto em lugares nos quais as intervenções humanas deixaram suas marcas mais evidentes.

 

Valéria Simões
Foto: Valéria Simões

 

Por trás da rotina que envolve a tudo e todos, paira um manto poético com o qual a fotógrafa apresenta o grande palco da vida. São cores, formas, linhas, gestos a compor a dinâmica da existência. Os espaços urbanos revelam sentidos tanto de ocupação quanto de ausência, todos eles denotando uma simbologia própria.

A fotografia está na vida de Valéria Simões desde o início dos anos 1990. Alguns de seus trabalhos foram premiados dentro e fora do país. Participou de diversas exposições, tanto individuais quanto coletivas, no Brasil, Peru, Canadá e França. Em cinema, assina a fotografia de cena de filmes como “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (São Paulo – 2002) e “Trampolim do Forte” (Bahia – 2008). Fez de sua casa, em Salvador, uma verdadeira galeria, lugar onde recebe convidados, artistas e pessoas interessadas em adquirir suas obras.

Transitando entre mundos, os olhares de Valéria enaltecem o ritual singelo da vida. Diante da delicadeza e da simplicidade com as quais se depara, a artista não se furta ao ato de nos revelar que nas coisas costumeiramente despercebidas há sabores elevados.

 

Foto: Valéria Simões

 

 

* As fotografias de Valéria Simões fazem parte da galeria e dos textos da 104ª Leva

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

 

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104ª Leva - 07/2015 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

Na rota de um escritor há muito mais indagações do que respostas. Muito mais dúvidas do que qualquer outra coisa. Carregar na alma um punhado de incertezas é parte integrante da sina de qualquer mortal, mas parece que no caso de criadores as percepções ganham um relevo bastante dimensionado. Afinal, o que busca quem escreve? Reconhecer-se entre os seus iguais? Procurar um sentido para a existência? Libertar-se?

As perguntas predominam. No entanto, cabe questionar se realmente é importante saber das motivações. Atrai mais descobrir que escritores não são seres divinos e, portanto, nem de longe portadores de atributos espetaculares. São gente comum, tão atravessados que estão por suas questões humanamente cotidianas.  O grande aspecto é que tais autores são providos de ferramentas diferenciadas de apreensão da vida e seus fenômenos. Transpiram demasiadamente na direção de uma obra, sem construir caminhos a partir do nada. Por maior que seja a carga de abstração ou subjetividade envolvida numa via de criação literária, estará em curso também um processo consciente e criterioso de escolhas.

Nada melhor do que ter representações concretas daquilo que foi mencionado acima. E é possível captar tal atmosfera na obra de um autor como Thiago Mourão. Seu romance de estreia, “Java Jota”, lançado recentemente pela Editora Patuá, ousa percorrer as intricadas zonas da criação. O livro aborda a trajetória de um escritor na busca obstinada pela construção de sua obra. Com o vigor contido nos intervalos e esperas, o romance vai delineando cenários que demonstram o quão complexa e, por vezes, exasperada é a missão de um escritor em ter materializada a sua pretensão. Nesse ínterim, o personagem central depara-se com suas divagações, arroubos, constatações, mas principalmente com a confirmação de que a sua sina comporta paisagens marcadas por uma cruel inquietude.

Thiago Mourão se define como um baiano nascido no Rio de Janeiro. De forma independente, lançou seu primeiro livro de contos. Formou-se em Biologia, trabalhou com teatro, escreve e produz vídeos institucionais, e está na iminência de cursar um mestrado em literatura criativa na Harvard Extension School. O autor acolheu a Diversos Afins para uma conversa sobre um tudo. Deixou marcadas as impressões sobre seu novo livro, mencionou um pouco da sua concepção criativa, ressaltando a forma como observa os desafios de seu tempo. Pelo diálogo que aqui se faz presente, Thiago traz em si a procura inominada que ofícios como o da literatura sugerem.

 

Thiago Mourão
Thiago Mourão / Foto: divulgação

DA – Java Jota é um ser que personifica a busca de um autor pela construção efetiva de sua obra. Nessa perspectiva, tal representação traduz algo comum a muitos que se dedicam ao ofício literário. O que dizer dessa, digamos assim, angústia da criação?

THIAGO MOURÃO – Me parece algo instintivo, talvez não tenha o nome de angústia, talvez não tenhamos ainda criado um substantivo para nomear a sensação do ato da criação. Angústia parece ser a mais próxima, mas a gente pode descartá-la pelo fato de angústia não ser prazerosa (ao menos para mim) e a sensação do ato de criar, que parece angústia, me dá muito prazer. Fiz teatro. Os três segundos antes de o espetáculo começar ou de entrar em cena, aquele black out infinito depois do terceiro sinal, são os mais emocionantes. Você sabe o que vai fazer, teoricamente há controle do que vai acontecer, mas quando se pisa o pé no palco há prazer e emoção que incluem a angústia, por conta da possibilidade do erro e do desconhecido, mas não se esgota nela, há uma busca muito maior. Vejo como alguém que pula de paraquedas. Há adrenalina, ansiedade, medo, angústia, e tudo isso dá prazer. Acho que o prazer é maior do que a angústia. Por isso digo que é instintivo, a gente busca o prazer o tempo inteiro, até como estratégia evolutiva, mas ninguém busca a angústia. Talvez, a busca pelo prazer gere inquietação, expectativa e, também, angústia. E acho que é a inquietação que faz a alma do criador, seja ele artista, estrategista, arquiteto…  Java foi muito escrito na angústia, como o sentimento mesmo da mulher perdida (algo que Raul Seixas falava muito e já me encantava desde novo), mas principalmente no prazer do sexo e da descoberta; e no risco, de iniciar um texto por apenas uma frase e segurar uma história e uma voz a partir dali. Criar é a palavra de ordem de Gaia e é também a grande busca do humano, por ser filho e ainda viver no útero dela. É tudo instinto, animal mesmo. Nomeá-la angústia é reduzir muito a complexidade desta bomba de prazer e frustrações.

DA – Onde a famigerada inspiração?

THIAGO MOURÃO – Você chegou na pergunta que inicia alguns textos de Java. Onde encontrá-la? Ao mesmo tempo, há um ofício a ser cumprido. Então, aos poucos, a gente percebe que inspiração não baixa nem vem à toa, muito raramente, é preciso buscá-la. Hoje, acredito mais que a inspiração encontra-se na disciplina, nos objetivos, na barriga querendo comer e no fígado precisando de álcool. É claro que a gente se alimenta, observando o dia-a-dia. Eu gosto muito de observar a natureza (me formei em biologia) e sempre me intriga a relação do homem com o espaço de Gaia. A inspiração está nisso, nas perguntas, nas investigações que buscamos fazer. Claro que há dias mais fáceis que outros. Há dias que se escreve vinte páginas e dias que se escreve duas, dolorosamente. Mas qualquer coisa pode despertar a vontade de escrever um texto. Inclusive, outros bons textos.

DA – O modo como se percebe o mundo é certamente algo fundamental para um autor. Outros criadores também são responsáveis por mostrarem dimensões múltiplas de apreensão das coisas. É mais interessante pensar que o que chamamos de novo é fruto de uma transformação daquilo que sempre esteve entre nós?

THIAGO MOURÃO – Muito mais. Arte pode vir de artifício, e o artifício é a técnica. Se você abre o jornal, há um artigo sobre violência, na literatura autores falam da mesma coisa de outra forma, há os textos acadêmicos sobre violência que têm seu estilo próprio e suas ideias. Os temas rondam e cabe a nós abordá-los da nossa forma. E a nossa forma é baseada em tudo que absorvemos. E pensar que tudo se transforma e é aproveitado é um pensamento inteligente ao meu ver.

DA – Em “Java Jota”, os labirintos da mente conduzem o personagem a um ambiente hedonista. Aqui, a figura da musa é algo fugaz, desejo de calmaria numa procela incessante. Seria a memória um componente que nos ajuda a atravessar o caos?

THIAGO MOURÃO – A memória nos leva ao caos. Você faz uma observação que gostei muito na resenha de Java Jota: “molda a difusa colcha de retalhos que pode representar a mente de um criador.” É isso, uma colcha de retalhos. Quando acaba a memória e começa a criação nos nossos pensamentos? Ninguém sabe, nem os médicos e biólogos, mas sabe-se que todos, artistas e não artistas, inventam quando revivem suas memórias. E, normalmente, são caóticas. O que nos tira do caos é a junção disso tudo numa linha intelectual. Extravasamos isso nas profissões, nas conversas, exposições das opiniões e dos fatos. A memória nos faz saber dela o tempo inteiro, é a grande sacada que Joyce tem em Ulysses: a reprodução do fluxo ilógico do pensamento consciente. Um cheiro, um olhar ou uma imagem qualquer pode desencadear pensamentos muito vivos, que desencadeiam sentimentos e sensações e quanto mais sentimentos e as sensações, mais vivos estamos. Nada na natureza para e nós, queiramos ou não, somos parte da natureza. Nossos atos instintivos não podem provar isso? Quem tem total controle do que virá na mente? Me parece que a memória é a base primeira da criação. E é preciso treiná-la.

DA – Há algum sentido de libertação na escrita?

THIAGO MOURÃO – Há, sim. Evidencio isso em Java Jota neste trecho: “Porque eram artifícios naturais, puros e verdadeiros. Porque ali havia Rosa. E porque havia literatura. E Rosa e literatura faziam uma equação diferente, única e peculiar, que resultava em amor. Em calma, em conforto. Resultava em um lugar só dele. E dela. Um lugar fechado, mas livre e libertador do pior da sua alma.” Há sempre libertação na criação, como há o aumento da necessidade de criar mais. Acredito que a boa literatura não deva ter pudor. É a liberdade da hipocrisia social. Também pode ser de outras liberdades mais pessoais, e serão, pois só escrevemos sobre o que nos incomoda, ou intriga, enfim… Aspectos que nos chamem a atenção. Mas se vivemos em sociedade e estamos sempre transitando por ela, nossos anseios, desejos e intrigas estão completamente ligados a estas relações cotidianas. Logo, isso faz com que a libertação da alma e das questões sociais possam e devam andar juntas. Sem pudor.

DA – Em matéria de literatura, você se considera um transgressor?

THIAGO MOURÃO – Literatura deve ser transgressora no sentido das convenções e conveniências sociais, deve expor, pôr o dedo na ferida. Eu tento ser o mais honesto possível quando escrevo. Isso é transgressão? Esteticamente, gosto de experimentar, isso seria a transgressão a que você se refere? Procuro não me censurar e sou muito chato quanto ao tom e a forma de escrever. Se soa estranho, travo ou recomeço, se não tem uma voz própria, acho inválido.

Thiago Mourão
Thiago Mourão / Foto: divulgação

DA – Falemos da transgressão num sentido de rompimento de convenções e lugares comuns, levando em consideração um tempo de patrulhamento ideológico e do politicamente correto. A literatura sobrevive numa sociedade repleta de congratulações e bom mocismo?

THIAGO MOURÃO – Ah! O bom mocismo tem me irritado, confesso. Mas, por enquanto, tenho mais visto isso nas ideias e discussões que nos textos literários contemporâneos que tenho lido. O que há – e é também irritante – é uma necessidade da crítica pela crítica, esquecendo que estão fazendo arte, que é algo que privilegia a estética/linguagem. Quando quero criticar abertamente algo, faço nos meios que são para isso: O Globo, Brasil Post e Gazeta dos Búzios. Minha arte é crítica por trazer um espelho social e um tema, mas não escrevo para que os outros digam: “olha como ele é engajado”, ou para dar lições socialistas, não. Escrevo sobre o que quero falar e me incomoda e quando crio também, mas estou em busca de uma história, uma estética, e que se for para tomar posição, que ela esteja diluída na arte – que está acima de tudo. Outro dia li num edital de concurso de contos: “contos que valorizem o bem-estar social” e até hoje me pergunto o que queriam dizer com isso. Mais de um edital traz isso, seria uma doutrinação do bom mocismo? E fico apavorado por saber que a resposta passa por esse bom mocismo ou por achar que é a literatura somente quem vai nos tirar da mediocridade ululante em nossa terra. Tenho visto alguns escreverem cheios de efeitos e ironias e sem conteúdo ou de conteúdo repetido, isso tem rolado bastante. Mas vejo bons autores da minha geração com crítica, voz própria e escrevendo sem pudor e sem ser panfletário. Mas, sim, devemos estar atentos. Esteticamente, acho que as novas mídias vão nos ajudar a dar um salto na diversidade. Voltando a Ulysses, Joyce brinca com essa diversidade midiática que aparecia (o jornal, a publicidade invadindo outros espaços como a própria rua…). Ulysses é um claro retrato de como a diversidade linguística pode intervir na literatura. Foi escrito em início de século, mais ou menos no período em que estamos. Acho que quando começa um século, muda nossa forma de comunicar, mudam as indústrias e as estruturas sociais. Acho que grande parte das pessoas ainda não entendeu a importância de viver o início de um novo século. E isso contribui muito para a mediocridade e esse bom mocismo.

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

THIAGO MOURÃO – Esse estado de coisas nos traz muitas informações e possibilidades, ao mesmo tempo, uma superficialidade doida. Parece que há uma busca, principalmente na minha geração, pela extrema bondade. Todo mundo é bonzinho e qualquer coisa que se discorde você é um direitista (uma coisa cruel – e esquecem as contribuições de pensamento econômico e social que os pensadores liberais trouxeram) terrível. Parece novela antigamente, tem os bons e os maus. Há muito pouca análise de contexto mais aprofundada, a internet, principalmente o Facebook que poderia ser uma ótima ferramenta para análises, se tornou, em grande parte, um local vazio de ideias, apenas com pessoas querendo se mostrar o quão boazinhas são. Ao mesmo tempo, é uma geração – coisa de cultura brasileira – que faz muito pouco pelo social, no sentido de, por exemplo, trabalho voluntário e humanitário. Essa tentativa de canonização, através do discurso, eu não endosso. Não sou bonzinho, sou humano, tenho pensamentos terríveis, egoísmos controláveis, mas incuráveis. Sinto raiva, inveja, desprezo, tudo isso… É inerente à minha condição humana e não faço questão de ser madre Teresa de Calcutá. Antonio Risério me trouxe uma expressão muito boa: são stalinistas chapa-branca. “Muito amor envolvido”, “de boas” e etc são expressões/frases que para mim ilustram muito bem o que digo, irritantes, diga-se de passagem. E aí você escuta coisas esdrúxulas do tipo: Dilma é uma grande presidente porque foi torturada na ditadura, me explique o que o cu tem a ver com as calças! Mas quando faço uma crítica dessas, automaticamente me jogam no colo dos militares, me chamam de insensível. Ou então devo achar lindo que o ex-presidente, aquele mesmo que se orgulha de ter chegado à Presidência da República sem nunca ter lido um livro, esteja colocando estudantes brasileiros na mão de bancos e empresários, numa dívida imensa (um problemão americano que estamos entrando enquanto eles buscam saída) porque agora filho de pobre estuda medicina ou biologia. Educação deve ser universal e pública e quando eu critico os métodos, automaticamente os que almejam a canonização me atacam me chamando de preconceituoso. Precisa falar o estado das universidades públicas brasileiras? É uma curva descendente em contraste à curva ascendente de lucros dos empresários do setor. Mas criticar isso é perigoso. Ou então é comum assim: “ele é ótimo porque pelo menos…” pelo menos… E de pelo menos em pelo menos a quinta maior economia do mundo distribui migalhas ao seu povo e todos ficam extremamente agradecidos, aí político vira pai e mãe, em vez de servidor público. Parece que a pós- modernidade trouxe ótimas ferramentas e nos manteve a cabeça do século XX. O Brasil aposta em petróleo e se você critica a loucura que é o pré-sal ou o risco econômico que o investimento em petróleo é no novo século, vão dizer que você está de conchavo com americanos para vender o petróleo. Ora, os países de primeiro mundo estão abolindo a indústria do carbono. Alunos de Harvard recentemente entraram num processo judicial para que a universidade pare investimentos em pesquisas e empresas de carbono. Stanford cortou esses investimentos faz dois anos. Parece que há muita informação pronta e pouco tempo para contextualizá-las e todos estão ávidos em ser bonzinhos, tão desesperados, que o Brasil foi entregue ao populismo em pleno início de século XXI, como se não houvesse tempo mais para estruturas e investimentos de médio e longo prazo, tudo tem que ser feito imediatamente… É isso, esse pensamento retilíneo eu não endosso. E tem sido difícil não endossá-lo, até porque eu não estou dissociado de ninguém.

DA – Definitivamente, somos seres incorrigíveis?

THIAGO MOURÃO – Somos seres complexos com questões incorrigíveis e instintivas. Sim, somos animais, e com muitas questões adaptáveis. Apesar de seres novatos neste planeta, nossa adaptabilidade ampla nos permite viver do norte ao sul da Terra, criando diferentes estruturas sociais e econômicas. Mas a nossa obsessão com esta alta capacidade de mudar o ambiente a nosso favor – chamada progresso – me parece incorrigível e já nos mostrou que tem afetado não só as outras espécies como a nossa. E mesmo isto estando claro, com fatos e números, insistimos nos erros. A dissociação homem-natureza nos cobra um preço alto. A nós e aos que nos cercam e pelo andar da carruagem parecemos incorrigíveis. Me referi ao humano como espécie, como indivíduo acredito que temos pequenas soluções – o que me faz ser completamente crítico ao nosso sistema carcerário e bastante crente do embelezamento e transformação da alma humana através da boa educação (não esta que nos apresentam, de maneira geral aqui no Brasil) e da arte/cultura.

DA – Sob o manto da criação, está cada vez mais difícil distinguir realidade de ficção? 

THIAGO MOURÃO – Bom, tenho tido a impressão de viver em uma peça de Ionesco o tempo inteiro. Isso falando da realidade, principalmente política, que o Brasil vive. Mas ando bastante caçando ficção e acho que o escritor deve sempre olhar para a realidade com essa visão criativa. Diálogos reais se transpõem facilmente para a ficção e vice versa. Quanto mais se cria, mais isso acontece. É bom e, às vezes, meio louco.

DA – Acossado pelo abismo, o que enxerga Thiago Mourão?

THIAGO MOURÃO – Uma bipolaridade incrível. Tem horas que parece que eu vou abraçar o mundo e tem horas que tenho certeza de estar sendo engolido pelo mundo. É estranho e desafiador, mas a linearidade em excesso é entediante. A beira do abismo e o balanço dele dão a impressão de vida. Sem isso, é só respirar.

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.