Buscar a inscrição do nome das coisas entre os dias. Cultivar palavras antigas, saberes novos, sabores de um porvir. Evocar imagens que atravessam as horas desavisadamente. Percorrer o vasto campo dos mistérios à procura de perguntas. Sim, perguntas, pois respostas significam uma espécie em extinção. Se é que algum dia será possível chegar ao ponto extremo de nós mesmos, tentemos ao menos absorver um mínimo do transcorrer incerto do tempo. Ao guardarmos nossos supostos tesouros, corremos o risco de perdemos a capacidade de contemplá-los e obtermos deles o que realmente importa. Quem sabe a vida não seja um poema maldito em eterna construção, requerendo métodos descartáveis de tentativa e erro. Queremos tanto: matéria, sopro, comida e algum alento intangível. No entanto, o reino da dúvida à espreita, como uma divindade inexplicavelmente cultuada. Dentro desse inadvertido território, a arte intenta algum fôlego. Quiçá um salto no abismo para um desfecho imprevisível. Sobremaneira, há quem julgue serem os estados melancólicos do ser verdadeiros combustíveis da criação. Nesse sentido, os lampejos de contentamento e efusão diante da vida seriam menos eficazes? Discussões à parte, nada está em perfeita ordem debaixo do sol. Enquanto a caravana passa ante nossos perdidos olhares, podemos nos permitir conhecer o que outras tantas pessoas têm a nos dizer com seus feitos. É assim com as epifanias poéticas de gente como Sara F. Costa, Samuel Malentacchi, Ana Horta, Nilcéia Kremer e Floriano Martins. Um efeito de trazer à tona recortes incisivos da vida toma os contos de Geraldo Lima, Márcia Denser e Fernando Rocha. Há uma atenta leitura de Sérgio Tavares para o novo livro de contos de Luís Roberto Amabile. No quesito cinema, Larissa Mendes convida-nos a perceber a delicadeza poética contida no filme brasileiro “A História da Eternidade”. Num diálogo movido essencialmente pelos sensíveis territórios da música, Graccho Braz Peixoto entrevista o cantor e compositor Mário Montaut. Por meio das escutas de Gustavo Rios, uma valiosa apresentação do disco da banda “A Flauta Vértebra”. O romance “Java Jota”, de Thiago Mourão, é alvo das anotações de Fabrício Brandão. Com a vigorosa contribuição da artista plástica Caroline Pires, desenhos e ilustrações vêm fazer par com outras tantas vozes aqui dispersas. É tempo de uma 103ª Leva, caro leitor!
O indivíduo traça a rota fugaz de suas projeções. Alimenta a carne com pulsões de toda ordem. Intenta um gozo que sabe a um átimo entre o vivido e o inventado. Eleva o objeto de seu desejo a um patamar no qual raras são as certezas. Em última instância, esse mesmo indivíduo é a corporificação de toda a sorte de abstrações dispostas pelos caminhos da criação. Um pouco disso tudo é o ser Java Jota, protagonista do romance homônimo de Thiago Mourão, lançado recentemente pela Editora Patuá.
Ao iniciar as pungentes linhas de seu mais novo livro, Thiago conduz o leitor num verdadeiro jogo de espelhos, através do qual tudo o que se vê reflete um misto de sensações que estabelecem um curioso nivelamento entre quem narra e quem vivencia os acontecimentos. Seriam, então, criador e criatura a mesma pessoa? Mais ainda, ao leitor é dado algum status de protagonismo? São questões que surgem à medida que uma espécie de triângulo de cumplicidades sugere uma harmonização de papéis se pensarmos nesses três eixos de atuação.
Mas eis que um embate serpenteia pelos caminhos do livro. É Java Jota que, encarnando a sina de autor, revela-se um personagem em busca da consolidação de sua obra. Nesse ínterim, o protagonista almeja cruzar os desertos da criação, tendo por musa inspiradora a figura feminina de Rosa.
Em meio aos trajetos insones de sua faceta de escritor, Java questiona suas potencialidades e, como qualquer mortal que pretende êxito em sua razão de existir, põe em xeque suas investidas. Nesse momento, as aproximações com a realidade agigantam-se, sobretudo quando percebemos a tarefa hercúlea que um escritor carrega em si. Com tudo isso, Thiago Mourão não expõe gratuitamente a condição de quem escreve. Pelo contrário, supera expectativas e molda a difusa colcha de retalhos que pode representar a mente de um criador.
Uma sucessão de imagens permeia as andanças de Java Jota. Todas elas bem encadeadas e servindo ao propósito de vislumbrar algum sentido possível para o caos que lhe faz companhia permanente. Como num frame, a paixão por Rosa é um se deixar entregar diante de uma memória hedonista. Tal como a incerteza de fundar uma obra literária com sucesso, o personagem de Java confessa-nos uma musa fugidia, por vezes delirante e imaterial. O melhor de tudo isso é que não se pode afirmar o laço carnal num perfeito estado de consumação. Assim, quiçá Rosa seja apenas um desvario de quem está acostumado a inventar mundos. E tal dúvida é trunfo nas mãos hábeis de Thiago.
Com toda a gama de observações do narrador, o livro opera num fluxo bastante ágil e que torna o desejo pela leitura algo ininterrupto. Java é um ser que intercruza camadas de vivência diante de um universo repleto de cenários. Se para o mundo o escritor pode passar despercebidamente, para Java o contrário seria impraticável. É impossível escapar de um mundo que lhe impõe imagens, sons, cores, sabores, encontros e desencontros. Definitivamente, seria inevitável deixar de pisar em cacos de vidro. Onde a famigerada inspiração? Pergunta que se dilui nas tentativas do personagem ante o vazio do papel.
Na procura por respostas, o protagonista do livro vai engendrando vias tanto concretas quanto abstratas, amalgamando tudo ao seu redemoinho cotidiano. Numa das passagens da obra, momento em que o personagem encontra-se com o Mestre Haxi, fica evidenciado que a realidade por si só não representa a única saída. É necessário imergir em outras dimensões da consciência para se ter alternativas criativas. A alegoria xamânica escolhida por Thiago chama a atenção por vislumbrar na figura do mestre um elemento de ponderações tanto filosóficas quanto estéticas, muito bem regado a doses de humor e crítica.
Dentro da saga de Java, somos todos cúmplices do modus operandi palpável da condição de autor. É a literatura abordando a literatura numa constatação sobre a qual o ato de escrever é pedra no meio do caminho, sensação permanente de Sísifo. Assim, são empurrados ladeira acima tanto prazeres quanto dores, faces inalienáveis de uma mesma moeda. O resultado do esforço fica para quando essa mesma pedra rolar do cume abaixo.
Não é à toa que Thiago recorre à poesia para iniciar e fechar sua obra. Esse ato de aliar-se a outro gênero nada tem a ver com um simples desejo de citação para impactar quem lê, mas, sobretudo com uma forma de evocar a importância de uma libertação, qual seja a de considerar que quem escreve, mesmo não se desgarrando de seu inferno pessoal, pode reduzir o peso de suas bagagens durante a extenuante travessia.
Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.
As cores e contornos sobre o papel. Diálogo entre dois universos. De um lado, o de quem vislumbra imagens; do outro, uma gigantesca nação de coisas a serem descobertas através do olhar. A arte impulsiona o criador quando este é capaz de compreender que pode fundar mundos no mundo.
Ao perceber que o elemento diferencial está na sua individualidade, o artista introduz seus ingredientes próprios numa mistura de signos e sentidos. Diga-se de passagem, o caráter especial da arte é nos mostrar que tudo, até mesmo as coisas aparentemente mais óbvias, podem ser vistas de uma maneira também inusitada. É então que refletimos que a convergência cartesiana de visões não é útil na representação dos universos artísticos.
E o que nos traz à baila uma artista como Caroline Pires? Quiçá mensagens de um admirável mundo novo. Seus desenhos e ilustrações transitam numa dimensão que harmoniza realidade e fantasia. É como um passeio pelo onírico, buscando sorver da vida um sopro de requintes poéticos. Mesmo no despertar do sonho, a artista constata que a existência revela outras camadas, as quais superam a noção meramente física das coisas.
Um aspecto que chama atenção na obra de Caroline é o fato de estarmos diante de caminhos de libertação. Em tal característica, a artista convida-nos a um percurso pelas alamedas lúdicas de sua consciência. Aqui, o anseio de liberdade está representado pela suavidade dos traços e contornos, sobretudo pela forma como se pretende um caminho feito de desprendimento, ou seja, sem excessos e ruídos do ponto de vista visual.
Ilustração: Caroline Pires
Andar com reduzidos pertences não significa andar de mãos vazias. No desafio de ilustrar um mundo tradicionalmente repleto de fardos desnecessários, Caroline abraça os rumos da leveza como forma de tentar compreender quem é. Mas o fato é que há ventos soprando em todas as direções e, nessa busca, a criadora depara-se com o estranhamento ante os desafios da existência. As rotas são inexatas, complexas, e por trás dessa verdadeira odisseia de sentidos a recompensa maior é a construção de uma linguagem íntima e consistente, capaz de compartilhar algo com os saberes alheios.
A trajetória artística de Caroline remonta à sua mais tenra idade. Nascida em São Paulo, desde pequena ela preenche espaços em branco com traços, linhas e cores. Atualmente, reside em Vargem Grande Paulista, trabalha como designer e ilustradora freelancer no Estúdio Capima. Dentre outros trabalhos, integra o Estúdio Azulê (parceria com a fotógrafa Diana Freixo), o Portal Mobilize Brasil e o novo blog Entreminas, espaço que aborda principalmente a arte feita por mulheres.
Abandonar o mundo em que se vive não é uma alternativa interessante para quem deseja fazer de sua arte uma expressão de identidade. Por mais voláteis que possam parecer, algumas sensações integram a natureza humana de modo inalienável. E a descoberta de novas dimensões existenciais não significa escape, mas sim transcendência, esse sublime estágio que delineia a obra de pessoas como Caroline Pires.
Ilustração: Caroline Pires
* As ilustrações de Caroline Pires são parte integrante da galeria e dos textos da 103ª Leva.
Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.
Se o mundo é tal como o vemos, então muito ou quase tudo pode ser reinventado com os ingredientes de cada olhar. Definir, com precisão, se uma quantidade infindável de coisas pode ser relativizada frente aos repertórios que as atravessam é humanamente impossível. Melhor mesmo é deixar que cada artista exponha sua marca nesse ambiente vasto e tresloucado ao qual chamamos de realidade.
Diante das possibilidades de se representar o mundo no qual habitamos por empréstimo, a concretude das coisas pode curiosamente estar bem harmonizada com a múltipla capacidade de abstração. É como se o caráter físico e, portanto, palpável da vida fosse apenas uma camada a revestir o intangível. Então, vem a pergunta: quantas fronteiras existem entre o vivido e o inventado?
A resposta fica por conta de cada um, se é que ela existe. No entanto, parece plenamente possível a um criador modelar a realidade de forma a obter dela entradas e saídas. Em se tratando dos desenhos de Victor Hugo de Azevedo Macêdo, ou simplesmente Victor H. Azevedo, os acessos lembram-nos que vislumbrar o real é fazer um pacto constante com a transformação.
Metamorfoseando a realidade em distintos recortes, Victor vai saciar sua sede na fonte do caos que simultaneamente ordena e embaralha o mundo. Abraçado a uma perspectiva de manipulação das formas, o artista consegue fazer da sua existência uma reprodução da inquietude. Nesse ínterim, a vida que o circunda mostra suas faces dispersas pelo nonsense, certa dose de ironia e por alguma acidez dos dias.
Desenho: Victor H. Azevedo
No plano do discurso, a arte do jovem potiguar também comunica pelo inconformismo, o que significa dizer que nem tudo o que o mundo oferece a Victor ele está disposto a aceitar sem que haja, no mínimo, algum filtro. Prova disso está no modo como ele posiciona a condição humana diante de temas como a solidão e os efeitos advindos da modernidade.
Quando os sentimentos que reproduzem seu tempo não são capazes de minar as barreiras aparentes, Victor flerta com o realismo fantástico. Entretanto, essa atitude não implica em fuga, mas numa constatação de que ao mundo ainda é possível a criação de outros tantos sentidos.
Nascido em Natal, Rio Grande do Norte, Victor H. Azevedo publicou vários zines, dentre os quais doze canções, fábrica de flores e O amor é simples. Além disso, também se dedica à poesia e aos quadrinhos.
Victor é porta-voz de uma manifestação que busca no externo a sua razão de ser. Com todas as nuances intrínsecas que se possa conceber, aquilo que está fora revela-se o elemento maior da criação, instância esta que só se materializa porque há olhos que se interessam por perscrutar o mundo, jamais negligenciá-lo. E, assim, contido em seu afluxo imensurável, o artista confessa: “cada traço e contorno é como uma braçada num lago”.
Desenho: Victor H. Azevedo
*Os desenhos de Victor H. Azevedo fazem parte da galeria e dos textos da 101ª Leva
Jamais sorveremos o ar da perfeição. Quiçá consigamos algo que nos aproxime de um ponto de equilíbrio, alguma ínfima fração de ponderação entre acertos e desvãos. Vez por outra, alguém relembra-nos o quão imprecisos somos no quesito das certezas. Seria presunção demais apostar em cenários bem definidos quando o alvo é compreender a natureza humana?
Eis uma instigante questão. Por enquanto, ainda está longe ser possível estimarmos a dimensão das virtudes ou das quedas. Ousemos apenas respirar e seguir adiante construindo moradas na superfície das horas. Nesse ínterim, a nossa capacidade de abstração e mergulho pode, sobremaneira, fornecer-nos pistas valiosas sobre o que de fato nos tornamos. No diapasão que contém passado, presente e futuro, há algo além da materialização do pensamento em ações. Resiste a memória como peça fundamental da existência.
Nada melhor do que percebermos a visão que um determinado criador tem sobre o universo através do qual orbitam suas expressões, principalmente quando esse mesmo agente credita à memória um status de significativa importância. Assim o faz o escritor baiano Dênisson Padilha Filhoquando lhe cedemos escutas. Mas ouvi-lo não é o bastante. Ler seus escritos revela-se um componente essencial para apreendermos um mundo no qual as perspectivas são múltiplas no quesito inquietude. Sentir-se incomodado parece ser um ingrediente especial na concepção criativa desse autor que, além de dedicar-se à literatura, é também roteirista de audiovisual.
A trajetória de Dênisson com as palavras está materializada em livros como “Aboios celestes” (contos – 1999), “Carmina e os vaqueiros do pequi” (romance – 2003), “Menelau e os homens” (contos e novelas – 2012) e, mais recentemente, “O Herói está de folga” (contos – 2014). A consistência presente ao longo de sua obra é o grande motor que move a entrevista que realizamos com o autor. Seja na capacidade de construir imagens ou na dimensão que edifica o texto, Dênisson demonstra sua propriedade narrativa porque fez da leitura a gênese de seu ofício. Entrevistá-lo é desconfiar que, por trás das letras, habita um território de coisas insondáveis.
Dênisson Padilha / Foto: Renata Rocha
DA – “O Herói está de folga” é título emblemático, que nos sugere percursos já em sua aparência nominal. As histórias nele contidas desnudam certa condição humana. Vivemos num tempo de desesperança?
DÊNISSON PADILHA FILHO – São nove contos que sugerem que os homens são virtude e vício. Naturalmente, são representações, alegorias, fantasias criadas sobre o arcabouço de desvio e de retidão que nos estrutura. Ter esperança não muda as coisas, a não ser pra quem a sente.
DA – Nesse caminho que perpassa altos e baixos da natureza humana, seu sentimento de autor prefere o estranhamento ou o espanto?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Estranhamento é condição fundamental para nascer a arte, não é? E causar estranhamento também. A literatura convoca o leitor não quando traz respostas, mas quando o inquieta com aquelas perguntas adormecidas que nos estruturam e desafiam nosso dia a dia. A literatura é vingativa na medida em que mostra que nós não temos respostas nem saída, mas por ela dizemos, “aqui estamos, Papai do Céu, estamos no mato sem cachorro, mas não pense que não sabemos”. Já espantar-se com as oscilações da natureza humana beiraria o patético. Essa perplexidade soa meio fresquinha; não combina com a literatura.
DA – Diria que a lucidez foi uma companheira inseparável na concepção do seu mais novo livro?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Acho que a idade trouxe um pouco mais de tentativa de lucidez e amadurecimento, ainda bem. É como se a pulsão que nos move a escrever ganhasse algo mais de serenidade e consciência de que o texto custa a estar pronto. Considero que meu caminho literário deu uma guinada a partir dos 37 anos (estou com 44). Foram novos conceitos, menos preconceitos estéticos. A visão de mundo e a lucidez se refletem, naturalmente, mas o que vou procurar fazer é sua recriação. A matéria prima é a verdade, a concretude, sem dúvida; mas a literatura se ocupa de alegorizar a vida e seus achaques.
DA – O ato de escrever encerra alguma espécie de libertação?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Libertação nenhuma. Muito pelo contrário. Embora a literatura seja a arte de fantasiar e reinventar – não só a língua, mas o mundo –, recorremos sempre à memória, porque, para nosso desconforto, é só o que temos. Da memória, derivam a dor, a culpa e a saudade. Há um mito muito citado que diz que quando realizamos uma história, processamos as coisas e nos livramos delas. Uma coisa nada tem a ver com a outra, a meu ver. O escritor se distancia um pouco do mundo para criar, é verdade; isso traz uma analgesia, claro, mas nada de libertação. Se liberta, não é literatura.
DA – A pungência de uma cronologia interna toma conta de seres e lugares em “O Herói está de folga”. Assim, a sucessão dos instantes não é materialmente mensurável. Quem é este ser a quem chamamos tempo?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Eu não tenho certeza, mas desconfio que dentro de uma lógica divina, passado, presente e futuro são a mesma coisa. Nada vem, nada vai, nada existe, tudo é. Essa minha perspectiva naturalmente vai se refletir aqui e ali na minha criação; foi assim nos contos de “O herói está de folga”. Tudo está ali, os contos são quadros, e como toda alegoria da vida, os quadros não passam; a gente passa por eles. Isso confirma minha impressão de que as coisas não vêm, nem vão, simplesmente são; a gente é que passa por elas.
DA – “Menelau e os homens” é um livro especial pelo modo como os trajetos narrativos ali se constroem, sobretudo pela disposição das imagens, o que acaba por envolver o leitor. Qual o sentido maior dessa obra para você?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Concordo com você, “Menelau e os Homens” é um livro especial. Traz duas histórias marcadas pelo signo da memória. Em consequência disso, seus personagens são homens fugindo de homens e fugindo de si. A primeira fase da obra do escritor estadunidense Elmore Leonard teve muita influência sobre a concepção das histórias. A segunda história que integra o livro – a novela Calumbi – está marcada também por um signo de opressão e terror psicológico, um pouco de Edgar Allan Poe; mas em todo o livro há situações de perseguição e suspense entre caçador e caçado; são tributos meus ao autor de Hombre e O último posto do Rio Sabre e de tantos outros. Creio que tenham sido de fundamental importância as sugestões de imagens e paisagens no livro para que o leitor sentisse todos os momentos de impotência, opressão, perseguição que as histórias propõem. Bem, sobre qual sentido maior dessa obra, devo dizer que não há o grande sentido. Eu costumo dizer que a literatura em prosa não deve ser regida apenas pelo plano do conteúdo, ou melhor, pela dimensão narrativa; mas também pela dimensão estética. Acho que o sentido, desse e dos meus outros livros é tentar alcançar esse equilíbrio. Em outras palavras, inquietar pela narrativa e reinventar a palavra. Não é fácil, mas é um desafio que resolvi encarar.
Dênisson Padilha / Foto: Renata Rocha
DA – É razoável pensar que, por mais que tente, um autor não pode fugir de si mesmo?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Se pensarmos do ponto de vista da existência, teremos que parafrasear Antônio Cândido e dizer que a matéria prima do escritor é a memória. Por outro lado, se pensarmos na arte literária e em procedimentos estéticos, devemos pensar que o escritor dotado de um mínimo de consciência do seu fazer só se satisfaz quando viola seu modelo anterior. Porque arte é ruptura e, embora faça parte do grande campo da cultura, especificamente, ela, quando repetida, contraria suas próprias motivações. Nesse sentido, não conseguir fugir da memória, fugir de si, e encontrar saídas estéticas é um paradoxo que alimenta esse fazer artístico.
DA – Sob o ponto de vista autoral, há quem considere o conto uma espécie de escalada para o romance. O que pensa a respeito?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Vou confessar minha preguiça para responder essa (risos). Sinceramente, não há consideração mais sem sentido do que essa que dizem por aí. Posso ficar aqui citando à exaustão nomes de escritores, grandes mestres, que se eternizaram como contistas. E por que será que ficaram nessa tal “escalada” por toda a vida? Não! É um erro crasso, uma ingenuidade, até bonitinha, achar que o conto é rito de passagem para um romance. São pretensões diferentes; no romance há lugar para digressões que não vão caber no conto. Enquanto que, grosso modo, no conto, a concisão vai fazer pulsar a dimensão estética do texto muito mais do que num texto longo. Além de outros aspectos que não caberiam aqui. Apesar de discordar radicalmente e achar isso um equívoco, reconheço que é um erro muito difundido. Veja por exemplo, na América Latina, a grandeza de Carlos Fuentes – que além de romances e novelas, também exercitou o conto largamente – e Juan Rulfo. Embora notabilizados mundialmente, não alcançaram a popularidade de Gabriel García Márquez, eterno pelos seus romances. Parece que até o mainstream mercadológico insinua, “sem querer querendo”, que o texto longo é o ápice.
DA – O que mais chama sua atenção na literatura feita no Brasil hoje?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Não estou tão certo quanto à resposta, mas acho que é a diversidade do que se produz. Há muita gente talentosa, de carreira sólida, e também surgindo. Vou esquecer o nome de muita gente que faz boa literatura, para além de José Inácio Vieira de Melo, Menalton Braff, Antônio Carlos Viana, Mayrant Gallo, Gustavo Rios, Lupeu Lacerda e Sérgio Faraco. Aqui tem de tudo, meu amigo. Por outro lado, isso não é tão positivo quanto parece, é uma constatação um pouco desanimadora, porque há muita coisa sendo chamada de literatura. Há um batalhão de gente fazendo ‘coisinhas bonitinhas’, interpretação enviesada da magnitude estética Manoel de Barros, arremedos de minimalismo; é gente que acha que basta que o besourinho seja citado para que se faça minimalismo. Vivemos a maior concentração de Bukowskis por metro quadrado de todos os tempos. O santo nome da corrente brutalista está sendo evocado de forma leviana por gente que coloca um punhado de tiros no enredo, dois palavrões e uma cara de mau na orelha do livro e pronto. Além disso, há a produção de muita coisa ruim mesmo. Muito texto ruim, muita gente sem leitura, sem estofo literário se arvorando a lançar livro. Não, não posso conceber que, por exemplo, um organismo seja rico em ferro, se não consome alimento rico em ferro. Sem consumir literatura sistematicamente, portanto, como um sujeito pode criar arcabouço? É muita ilusão de potência, mas isso é imanente ao homem, não tem jeito. Eu não consigo conceber a carreira de um escritor de verdadeira literatura (e não me pede pra explicar, por favor) sem uma rotina de investigação literária e leitura contumaz.
DA – O ato laborioso de escrever pode ser tido como um processo permanente de desconstrução?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Ainda hoje cedo pensava em algo parecido. Toda desconstrução pressupõe um mínimo conhecimento, por dentro, de como foi feita a coisa a ser desconstruída, não é? Senão é só uma implosão energúmena.
DA – O quanto Dênisson Padilha Filho conhece Dênisson Padilha Filho?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Quase nada. Cada dia que nasce é uma nova muralha de Jericó.
DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Desconfio que, em qualquer tempo, viver é tatear numa sala escura. Nesse nosso tempo, não acho que as incógnitas são mais numerosas que em outrora; acho que sempre foi assim.
DA – Somos algo além de uma matéria arremessada para o fim?
DÊNISSON PADILHA FILHO – Por enquanto, somos só esses bonequinhos de carbono mesmo. Depois é outra história, a orfandade acaba, a queda acaba. Mas isso é depois, bem depois.
Uma centena é muito mais do que um mero marco numérico. Em se tratando de caminhos editoriais, significa um avançar teimoso ante as curvas do tempo. Há quem resuma esse conjunto de ações que agregam literatura e artes como sendo uma prova irrefutável de resistência. Tal atributo é positivo na medida em que a valorização do presente seja a tônica central das considerações. A revista Diversos Afins tem passado, tenciona um futuro, mas volta seus olhos especialmente para o agora, pois este representa a confirmação de apostas e expectativas múltiplas. É difícil mensurar com precisão como um projeto dessa monta pode vir a se consolidar. Quem vasculhar nossa história perceberá quão diferente estamos hoje para aquela primeira Leva de escritos e expressões. O ano era 2006 e tudo começava de modo bastante incipiente, quiçá até pueril. Mas o fato de maior relevância é saber que não havia um produto fechado em nossas mãos. Quando se fala em desengavetar expressões, não se pretende apenas idealizar colaborações, mostrá-las ao mundo, mas, sobretudo, aprender com elas. O caminho de publicações até aqui trilhado mostra um permanente desejo de seguir adiante por meio do experimentar de novos saberes e sabores. Não há verdades hegemônicas, apenas um processo de intercâmbio de manifestações através das quais se constrói uma valiosa rede de encontros. Cada autor traz em si sua própria epifania, maneira particular de vislumbrar o mundo. Com isso, opera-se um vasto painel de sensações e leituras, todas elas estabelecendo sinais espontâneos de convergência. É quase impossível definir o quanto todo o numeroso contingente de colaboradores impactou o perfil da revista. Diga-se de passagem, entendemos que pomos em prática um projeto em permanente construção. Portanto, nada está esgotado em si, pois é sempre tempo de olhar ao redor. Ao longo de todas as edições, presenciamos também outras tantas investidas editoriais que nos auxiliaram no entendimento do nosso papel enquanto suporte cultural. A via digital rompeu barreiras e aproximou-nos de pessoas dos mais diferentes lugares do mundo, todas elas com sua importância peculiar. Para nós, está claro que avançar é preciso. O atual momento de celebração contempla a poética presente nas fotografias de Gabriel Rastelli Quintão. Deparamo-nos com os arremates narrativos de Marcus Vinícius Rodrigues, Natália Borges Polesso e Sérgio Tavares, especialmente selecionados para a ocasião. No território da poesia, emanam os fluxos líricos de gente como Wesley Peres, Demetrios Galvão, Adriano Scandolara, Francisco S. Hill e José Carlos Sant Anna. Com o olhar sensível sobre o mundo e a vida, a poeta Neuzamaria Kerner concede-nos uma entrevista, na qual aborda principalmente as energias emanadas do seu mais recente livro. São de Larissa Mendes as percepções a cerca de “1977”, novo disco do cantor e compositor Wado. O escritor Marcos Pasche chama-nos atenção para obras de quatro autores contemporâneos: Maíra Ferreira, Juliano Carrupt do Nascimento, Leandro Jardim e Anderson Fonseca. O novo filme dos irmãos Dardenne é tema das anotações de Guilherme Preger. Fabrício Brandão ousa penetrar nas veredas do mais recente livro de Dênisson Padilha Filho. É tempo de centésima jornada, caros leitores! Celebrem conosco!
Em tempos de alguma pungente desesperança, redentores são figuras cada vez mais escassas. Para desejar que tais seres existam e assumam devidamente uma função entre nós é preciso sentir o peso de um incômodo maior que nos acomete. Entre um arremate e outro, ter fôlego para respirar significa tencionar caminhos entre luz e sombra. Assim, a quem poderia interessar a existência de heróis? Ao nosso medo de lidar com as investidas indecifráveis da vida? A uma velha necessidade de delegarmos coragem a alguém que está fora de nós?
É interessante refletir um pouco sobre tamanhas questões após a leitura do mais novo livro de Dênisson Padilha Filho. Prontamente, o título já nos toma de assalto: O Herói está de folga. Publicado pela Editora Kalango, a obra reúne nove contos que perpassam cenários compatíveis com as indagações feitas no parágrafo inicial desse texto. A primeira história já é por si só um abre alas para os territórios que iremos cruzar. Batizada de Com essas mãos, a narrativa inicial nos fala da pesada sina de um matador de encomenda (espécie de justiceiro, se assim é possível considerar), cujo peso maior está na maneira como o personagem lida com o inventário das vidas que ceifou. Admirado por uns e temido por outros, o assassino confronta seus fantasmas, contabilizando as mortes promovidas num ritual de incessante sensação de culpa.
Dênisson não faz do assassino de seu primeiro conto um alguém a simplesmente purgar pecados. Os dramas e fardos são os piores, os da consciência, mas a maneira como esses processos mentais são conduzidos faz-nos pensar que ninguém passa impune pela vida, de um jeito ou de outro. A, digamos assim, humanização de um protagonista aparentemente execrável dá-se muito mais na via de um resgate do que pela assunção dos erros.
Eis que é preciso fôlego para tocar a leitura adiante. Parafraseando o autor, todos vamos bem até a hora em que começamos a desejar demais. Mas o fato é que é inegável não querer ir além, dada a proposta da obra, sobretudo porque no entremear das narrativas abriga-se uma intangível pretensão de reconhecermo-nos desnudos e sós. A sensação de desamparo instaurada é, no caso das escrituras de Dênisson, uma provocação ao status quo de nossos ocidentalizados sentimentos.
Quem protagoniza as ambientações do conto Onde demora aquele fogo dos teus olhos? pode, por exemplo, ser qualquer mortal cujas percepções estão à flor da pele. Ali, reconhecer-se um homem comum é gesto que implica muito mais no saldo numeroso das desventuras, um olhar o compasso dos dias com o filtro polarizador da apatia. Assim, quiçá a projeção de um tempo ideal retido na memória se configure um antídoto ao caos intimista de um alguém que é tudo, menos herói.
Dênisson Padilha Filho é hábil em colocar seus personagens no olho do furacão. Dali, eles só podem escapar se lançarem mão de algo semelhante a uma espécie de expansão do tempo, o que fatalmente não acusa um sentido tradicional de libertação. Pelo contrário, a via da inexistência de mártires adotada pelo autor recusa saídas honrosas e meritórias. Por tal razão, a desgastada dicotomia entre bem e mal sequer importa. Subsiste uma dimensão na qual a reinvenção da memória parece ser substancial válvula de escape.
Em A pin up que caiu do céu, a capacidade do criador de modelar os recursos da fantasia humana é, sem dúvida, um elemento de destaque. A figura do vaqueiro Miquéias é símbolo do vigor de um imaginário bem típico dos rincões brasileiros. Para dotá-lo de um componente diferenciado, Dênisson flerta com o realismo fantástico. Reinventando-se, Miquéias busca refúgio noutras dimensões, conferindo ao seu desejo algum caráter de salvação.
Não é de agora que o autor de O herói está de folga sabe amarrar cenários e construções de personagens com destacável domínio. Exemplo disso está nos contos e novelas presentes em Menelau e os homens (Ed. Casarão do Verbo, 2012). Dentro desse controle narrativo, há muito mais do que saber contar uma história. Seres e lugares estão amalgamados por uma perspectiva de cronologia interna, através da qual as histórias resultam num elemento orgânico e equilibrado.
Em se tratando de percorrer as complexas paragens humanas, não há nada mais apropriado do que reconhecer aquilo que somos. Talvez por isso Dênisson ouse nos mostrar trajetórias de vida marcadas pelo traço lancinante da imperfeição. Já contabilizamos milhares de anos sob o planeta e, no entanto, resta sempre a indagação sobre o que pretendemos de nós mesmos. Não há saída. O incômodo está conosco até os ossos. De que adiantam heróis se debaixo do sol tudo está feito?
Alguém que utiliza as palavras como ponte para um entendimento sobre si mesmo certamente confere à vida ares diferenciados. Se o sopro, matéria-prima das horas, é a primeira razão de ser de qualquer um de nós, o engajamento pelo verbo expande fronteiras do pensar e agir, propondo uma passagem não menos impune pelo mundo. Deixar-se guiar palas palavras significa também tentar equilibrar naturais tensões entre o racional e o emocional. Parece ser equação que não se resolve cartesianamente na medida em que cada polo encerra componentes travestidos de individualidade.
Não há receita para apreender as epifanias de um criador. Postulados, cânones, referências, todos eles nos falam de um pensamento analítico. No entanto, vivenciar a leitura e dela retirar algo é experiência movida fortemente pelos subterrâneos de nossa consciência, ambiente regido por uma divindade que até hoje não se sabe bem quem é: a tal subjetividade.
Escrever é um agarrar-se a incertezas. É conferir ao mundo um olhar que afugenta determinismos. Um flerte constante com a dúvida e o mistério. Tarefa de mortais apenas. E a escritora Neuzamaria Kerner demonstra entender bem a dimensão desse hercúleo ofício na medida em que nos oferta sua obra. Durante toda uma vida dedicada às letras, maior parte dela tomada pela poesia, essa autora renega rótulos e classificações. Para ela, o que importa mesmo é apresentar caminhos, não estabelecer verdades. Talvez por isso não é à toa que sua criação mais recente, O Livro-arbítrio das Evas – dentro e fora do Jardim (Editus – 2014) é um momento em que se exalta a liberdade em duas perspectivas cruciais: a do criador e a do leitor.
Antes de chegar ao seu “livro-arbítrio”, Neuzamaria vivenciou saberes e sabores em publicações como Fragmentos de Cristal, Eu Bebi a Lua e A Presença do Mar na Prosa Grapiúna. Nasceu em Salvador, Bahia, e vive hoje em Vitória, no Espírito Santo. Sua trajetória de escritora também se mescla à carreira de professora, feição que marcou de modo pungente sua vida. Ajudou a fundar a Diversos Afins e agora retorna à nossa presença para falar especialmente sobre seu novo rebento literário, além de recordar passagens importantes de sua manifestação poética no mundo.
Neuzamaria Kerner / Foto: arquivo pessoal
DA – Seu mais recente livro já desperta a atenção pelo título emblemático que possui. Nele, você deu voz e vez a personagens femininas silenciadas pelos seus respectivos tempos. O que há dentro e fora desse jardim mundano? O que dizer e o que calar?
NEUZAMARIA KERNER – Dentro do Jardim, há as muitas vozes abafadas das Evas que não tiveram o direito à expressão da própria alma. Fora do Jardim, por incrível que pareça, ainda existem Evas silenciadas por um mundo que começa a acordar (ufa!) para ouvir os sentimentos que brotam de almas aprisionadas. Apesar dos “alardes” femininos, ainda reina – na atualidade – o silêncio por causa de um medo ancestral: de dizer que ama e quer ser amada, de dizer que sofre, que se alegra, que tem raiva, que tem fome de justiça e direitos respeitados, que tem desejos. Como eu mesma nunca paro de me fazer perguntas, busquei nelas as respostas de que necessitava para entendê-las e me entender. Se me permite dois exemplos: Lilith, que aparece em textos da Babilônia, foi execrada de outros “ambientes” e acusada até de ser a serpente que tentou Eva (a primeira). Ela reage e se defende dizendo:
Mostro-me para sair do exílio no qual me colocaram. Quero que todos ouçam a voz que de mim tiraram: eu feria os princípios do recato, assim foi o relato dos escribas que me condenaram a ser poeira do livro oficial.
Em seguida, Eva – a que está nos Livros -, baianamente retada, me disse que Deus lhe deu o jardim e depois a expulsou por causa da natureza que Ele próprio lhe deu:
Fui Tua cria e Te louvei Tua alma habitando em mim. Me deste o conhecimento da bondade, da malícia, da perícia em parir. Não carrego culpa ou dor dentro ou fora do jardim, posto que onisciente me soubeste pura e sã, e eu Te sei meu conivente no episódio da maçã.
As Evas não querem mais calar porque têm o livro e o arbítrio.
DA – A sua escolha por mulheres bíblicas encerra algum sentido especial?
NEUZAMARIA KERNER – A Bíblia, apesar de sempre ter sido uma fonte de inspiração, foi também o lugar da opressão feminina. Para mim, independentemente da questão religiosa – e não foi essa minha motivação para escrever – era intrigante como mulheres com histórias tão bonitas não tiveram lugares de destaque oferecidos pelos intérpretes da Bíblia. A mulher de Lot, a que virou estátua de sal, não tinha nome? Veja o que ela, Irit, me diz:
Que mal houve no meu gesto qual meu crime, meu pecado? Fui salgada, fui punida apenas por ter olhado? Olhei talvez por saudade dos filhos que quis rever; não foi ceticismo ou bravata tampouco por ser voyeur. Provoquei do comando a ira, foi duro comigo o juiz, mas pergunto a quem me sente qual mãe não faria o que fiz?
Também sem nome foi a mulher de Putifar; mil Madalenas ou Magdalas existiam, à época, e no final virou uma sagrada confusão que no meu “inocente” olhar todas essas eram as prostitutas. Posso rir? A fala de Madalena sobre o seu encontro com o Pregador me causou profunda alegria. Que mulher corajosa para amar!
Na verdade, o sentido de tudo está na reinterpretação que dou à vida dessas mulheres porque acho injusto que fiquem relegadas ao limbo. Não foram as Evas que tornaram imperfeito esse nosso jardim. Esse jardim foi ressignificado e a ele todas nós podemos voltar porque com todas as circunstâncias que envolvem um jardim é dele e nele que nos alimentamos.
DA – As Evas do nosso tempo têm conseguido fazer do mundo um lugar menos inóspito para elas?
NEUZAMARIA KERNER – Mais ou menos. As Evas de nosso tempo estão mais conscientes do seu papel no mundo, que continua razoavelmente inóspito tanto para elas quanto para os Adãos. O feminismo – que também não é o foco desse livro – trata os textos sagrados e patriarcais dos tempos de outrora como antagonistas das mulheres e da condição feminina. Mesmo considerando que esses textos ainda influenciam a vida de muitas. No entanto, não podemos nos perder nos dois tempos: ontem e hoje. As Evas da atualidade, na maioria das culturas, são livres para explorar o que é relevante para as suas vidas e vivenciar suas próprias descobertas, como elas nos dizem nos poemas A Morte da Cinderela, Contenda, Aprendizados em Quatro Segundos, entre outros. Elas querem o amor em toda a sua plenitude e no sentido mais puro da palavra, mas rejeitam a cruz que foi imposta (ou auto-imposta) em algum momento da nossa história. Por isso Tereza de Ávila, a santa, veio espontaneamente ser uma das Evas do livro.
De tu – não sei bem o que querias – mas meu coração, Tereza, não pode ser só de Jesus e nem quero por alegria as dores da Santa Cruz. Sei que me sabes, Tereza, pois que me vistes mergulhar em olhos de mar nascidos nos claros da luz solar. De um outro anjo lanceiro – qual teu poeta João – recebi o que poucos entendem: o prazer de ficar na prisão
É dentro da poesia que o mundo é menos inóspito.
DA – Quantas falas cabem na verdade de um poeta?
NEUZAMARIA KERNER – Muitas falas! As do próprio poeta e as dos outros (que são muitos), incluindo os invisíveis para o que chamamos de realidade. A fala poética não é feita somente de palavras escritas com lápis depois de pensadas, mas também das palavras sonhadas que o poeta transforma em sua realidade e sua verdade, posto que esta pode ser relativa porque depende da perspectiva de cada um. Por isso Rebeca – em sua fala – nos pergunta: quantas falas cabem numa verdade?
Permanentemente o ser humano, que pensa muito e investiga, busca a verdade que lhe alimente, pois sempre questiona o que foi estabelecido pela sociedade, e nem sempre fica satisfeito com o que tem nas mãos; o que está posto. Por isso acolhe muito facilmente o que lhe vem na imaginação e transforma numa fala real. Por isso, como no poema Anjo no Espelho, não há muitas preocupações com as verdades das falas porque…
(…) Como poeta me atrevo ao desrigor da razão e não busco o enigma inominante que exubera nesse espelho frente a mim… Apenas me alimento dessa fonte de inspiração. (…)
DA – Além do percurso denso e íntimo pelo universo feminino, seu livro-arbítrio se dedica a outras paisagens e observações. Tem-se a sensação de que nele você consolida toda uma trajetória poética. Quais reflexões você vislumbra nisso?
NEUZAMARIA KERNER – É verdade que além do universo feminino os poemas e os contos no final do livro se ampliam pelo universo onde habita o ser humano com suas alegrias, tristezas, reflexões, certezas, dúvidas e celebração da vida acima de tudo, mesmo quando há turbulências na caminhada de cada um de nós, homens e mulheres. Das reflexões feitas tomamos a consciência de que somos parte de tudo o que forma a comunidade global. E só pensar nisso já é algo poético. Ser tudo e parte de tudo.
O que talvez consolide – como você diz – uma trajetória poética seja mais a consolidação da maturidade que vem sendo construída pouco a pouco. É dentro dessa maturidade que reencontramos a ligação da nossa alma com a alma do mundo, daí os reflexos dessa consciência (paradoxal) de sermos felizes, mas também angustiados e, para mim, a única forma de dizer desses sentimentos é poemando – até na prosa. No pequeno conto O Livro-arbítrio é possível ver uma prosa poética sofrida de alguém que viaja provavelmente de um plano para outro a fim de encontrar uma pessoa. Há poesia densa nas falas ditas e nas subjetividades da situação. Repare:
E eu que vim de tão longe para vê-lo… E eu que atravessei tantas nuvens para vê-lo. Sabe quantas eternidades furei para chegar no lugar exato onde você estaria para me encontrar? Pareço em atrasos. Pereço nos prazos, só pareço. Aqui estou diante da boca dos favos de beijos que nos tempos passados você prometeu. Vim pegá-los. Vim colocá-los neste corpo almado que ainda é seu.
Cheguei! Vim com livro e com liberdade. O livro-arbítrio meu. (…)
Se há, então, realmente algo consolidado, é a poesia que existe na vida e na morte. Aqui e acolá. Só não enxergamos essas diversas realidades porque ficamos em estado sonambúlico e não damos ouvidos aos anseios de nossa alma, que tem um vislumbre diferente do ser puramente carnal.
Neuzamaria Kerner / Foto: arquivo pessoal
DA – A presença de um componente místico é algo que, de alguma forma, sempre permeou seus versos. Percebe isso como um possível sentido de transcendência?
NEUZAMARIA KERNER – Sim. É isso que busco para minha vida e que aparece nos meus textos (mesmo quando não está explícito). O sentido da minha existência está na busca de tudo o que transcende a experiência da carne. Creio realmente que somos tudo. Arte e parte de tudo, entendendo que não estamos entregues a um destino sem direção, pois que caminhamos dentro de uma perspectiva iluminadora: lúmen na dor de viver! Porém quando eu falo a palavra “dor”, não a imagino como des-graça, mas no exercício de aprender a viver entremundos e entretudos, buscando acordar as forças da vida universal que moram dentro de nós. Todos os seres se comunicando e intercambiando a seiva cósmica em harmonia e em movimento na plenitude de um Amor maior que nos acolhe e nos embala. Todos os seres sentem dor para crescer, pensar, mudar, evoluir… é como adquirir condicionamento físico por meio da ginástica. Isso se aprende vivendo, errando, acertando, consertando, doendo, mas sempre vivendo aqui ou acolá.
Voltando um pouco à coisa da dor – simbólica ou não – de que falei, há um poema chamado Contenda onde está dito que remo e navio navegam, mas o remo funciona como um chicote que espanca o mar. Em verdade, chicote que espanca é o mesmo que faz com que a navegação (vida) aconteça.
Também o sentido de transcendência está bastante acentuado no poema Passageiro nas Catedrais. O personagem, digamos assim, nos apresenta uma realidade que pode ser percebida através dos sentidos (vários) e que independe de um mundo a que chamamos natural. Outra realidade. Uma situação de intermitência em idas e voltas, transpondo barreiras, tempos, espaços… O verbo transcender (transitivo direto e indireto ao mesmo tempo) – já que estamos falando de transcendência – exige dois complementos e, mal comparando, esse personagem para existir necessita de várias realidades as quais nunca buscamos entender direito. Assim é como o meu texto que faz com que eu me entenda a partir de realidades múltiplas, buscando todos os sentidos possíveis, incluindo o sentido místico em tudo.
(…) Sou viajeiro passageiro nas catedrais que permanecerão nas lembranças ……………….nas ruínas ……………….nas reformas dos tempos que me levam para a próxima catedral até quando for mudado o meu estado de matéria (…) Mas sei que a distância entre as catedrais e meu destino se encurta e me alonga por igual… afinal é para isso que tenho viajado de catedral em catedral.
DA – Você é acometida pelo que chamam de angústia da criação?
NEUZAMARIA KERNER – Muito raramente eu sinto essa angústia de que falam sobre o ato de criar. Quem escreve, recria realidades, formata o que não tem forma dentro de certo caos porque às vezes o texto começa pelo meio ou pelo fim do pensamento e é preciso reordená-lo. Às vezes dá uma sensação de vazio quando busco uma palavra e vejo que as que me vêm à mente não se encaixam no que estou querendo dizer porque é muito importante dar sentido ao sem-sentido aparentemente. A palavra específica que não vem na hora da necessidade dá uma ligeira aflição. Num outro momento, quando termino um texto, vem uma sensação de esvaziamento e alívio como de uma necessidade fisiológica. Em outras vezes, quando tenho uma vaga ideia do que quero escrever e não escrevo, sinto uma espécie de ausência, de alguma coisa que precisa ser preenchida. Se sinto uma urgência em extravasar algo, escrevo onde estiver e a hora que for… O problema é que estou sempre extravasando (risos), inclusive dentro dos sonhos. Sonho muito. De verdade. Dormindo. Muitos textos vêm desses momentos. Frases soltas, uma palavra que fica pulsando repetidamente. Às vezes acordo e escrevo a ideia ou a palavra, o que vier, mas não dou ousadia ao sonho em me tirar o sono pra não viciar. Volto a dormir.
Venho escrevendo um livro de pequenos contos onde o personagem é uma espécie de andarilho. Há vários dias que ele não fala comigo, não me diz aonde vai parar, com quem vai se encontrar, sobre o que vai conversar. Nada… Ele me olha e eu o olho de volta. Estamos tendo paciência um com o outro e acho isso muito interessante… Essa calma, mas o dia inteiro eu penso nele cheio de silêncios. Sinto inquietação por isso, mas não angústia. Se eu tivesse me comprometido com alguém que me desse prazo, talvez eu sentisse a angústia para criar obrigatoriamente uma realidade a qualquer custo. Mas os prazos são comigo mesma e sempre negocio.
Segundo alguns textos religiosos, Deus criou o mundo em sete dias. Foi de uma rapidez formidável! Provavelmente tinha pressa, mas tenho certeza de que não sentiu angústia. Já pensou em um Deus angustiado? Se ele teve angústia, deve ter sido ao criar o ser humano cheio de complexidades. Claro que não estou me comparando com Deus, mas, com certeza, aprendi com Ele a paciência, daí não crio dentro da angústia.
DA – Durante algum tempo, você esteve envolvida com projetos de formação de leitura. O que dizer dessa experiência? Inciativas desse porte podem mudar efetivamente nossa realidade?
NEUZAMARIA KERNER – Trabalhei com projetos de leitura em várias instituições de ensino, mas ainda continuo, de maneira informal, falando da importância de ler. Continuo falando sobre leitura, produzindo leitura e motivando para a leitura quando presenteio as pessoas com livros.
Atuei no PROLER (UESC) fazendo oficinas de literatura e transcodificação da leitura; também em projetos sociais como voluntária, alfabetizando jovens e adultos através de textos verbais e não-verbais. Durante todo o tempo em que estive como professora, meu olhar sempre esteve voltado para apresentar a leitura como “objeto de consumo” indispensável que deve ser repartido para que a leitura de textos diversos sempre estivesse enriquecendo a viagem que cada um faz para dentro de si próprio e na amplidão do mundo. Em todas as escolas (do Ensino Fundamental ao Superior) por onde passei meu trabalho foi sempre pautado, antes de tudo, na formação de leitores.
Não foi muito fácil em muitas instituições porque revalorizar a leitura na sala de aula ainda é coisa que fica no papel. No discurso. Na prática é diferente porque é necessário ampliar a carga horária dos professores – principalmente de Língua Portuguesa, Literatura e Redação -, mas as escolas não podem ou não querem investir. Posso dar dois exemplos?
Eu dava aula de Língua Portuguesa numa Faculdade no curso de Comunicação Social (Publicidade e Propaganda), que contemplava na ementa leituras de textos diversos. Levei para os alunos do 1º período uma revista com a propaganda de um automóvel, na qual Narciso, o do mito, aparecia debruçado olhando um carro dentro do lago. No canto inferior direito da página estava escrito assim: “Vectra, o mais bonito!”. Os 27 alunos disseram que o “cara” estava chorando porque o carro dele havia caído na água. Na verdade, quem chorava era eu ao ouvir essa interpretação. Imediatamente dramatizei o mito, distribuí textos com outros mitos para leitura. Acredite que alguns alunos queixaram-se à diretoria e fui chamada para explicações. A diretora acadêmica, uma bióloga (que Deus a tenha lá), me fez repetir três vezes o nome da minha disciplina e, em seguida, me disse três vezes: “atenha-se à sua disciplina”. Peremptoriamente. Isso na presença dos meus alunos.
Nem tudo foi tão terrível assim. Vivi experiências espetaculares trabalhando com formação de leitores, incluindo os que estavam ainda sendo alfabetizados. No sul da Bahia, perto de São João do Paraíso, havia um lugarejo chamado Vila Nova Esperança. Eu trabalhava no Programa de Alfabetização Solidária e, ao passar do ônibus na BR-101 vi, sob tendas de pau e plástico preto, homens, mulheres e crianças quebrando pedra (brita) com martelo. À noite, na sala de aula notei que o caderno de um aluno estava manchado de vermelho. Era o sangue dos dedos de um dos quebradores de pedra que escorria enquanto aprendia a escrever. Tristeza e alegria se misturaram às lágrimas. Daí o poema Quebradores de Pedra em Vila Nova Esperança:
(…) Escola – mágica mutação: martelolápis sanguetinta pedrapapel pedregulholetra que saltam da pedreira para deixar o aprendiz escrever sua história.
Também foi desse tempo o poema Barqueiros do Rio Pardo, quando para chegar à escola, saltava na BR, descia o ladeirão e o barqueiro levava para a outra margem do rio (a terceira?). Era um sacrifício, mas as experiências vividas valeram. Os resultados obtidos também. Então, toda iniciativa é válida desde que a vontade de dar certo seja maior do que simplesmente a espera do salário, mesmo atrasado. Quando o governo pagava era outra alegria.
DA – Depois de tantas travessias, de que modo a sua lida com as palavras lhe permite olhar o mundo hoje?
NEUZAMARIA KERNER – Com muito mais cuidado. Hoje tenho maior consciência do espaço – vazio – que há entre a minha boca e o ouvido do outro. Nesse espaço o interlocutor pode preencher com o que quiser, de acordo com suas carências e iluminações. Por isso o cuidado, principalmente uma pessoa muito extrovertida e desatenta como naturalmente sou. Dá um cansaço essa vigilância permanente porque a palavra, o Verbo do Princípio, deveria ser sempre fonte de união e completude universal, mas nós nos esquecemos disso no momento em que usamos palavras não como ponte, mas como marreta que arrebenta tudo aquilo que pode nos ligar ao mundo. Pode ser também como armadilha na qual podemos cair ou jogar os outros, daí o cuidado. Por exemplo, no poema Jogo eu falo da palavra como num jogo de xadrez:
(…) Quando tomam vestes guerreiras me aprisionam me checam e matam.
Por outro lado, pela palavra nos comunicamos e estamos em comunhão o tempo inteiro, é a senha da vida, do mundo, como dizia Drummond em Palavra Mágica.
As palavras estão aí para nos servir, como Exu, o mensageiro dos caminhos, que não é nem bom nem mau, depende da energia que imprimimos nos comandos que a ele damos. Assim também com as palavras, daí eu ter falado na vigilância permanente. Até que eu me esforço, mas como tropeço!
Há uma voz que, em meio ao tempo, pretende ocupar espaços. Essa voz transmuta-se no olhar daquele que cruza insones paisagens urbanas. E não há necessidade de que sua expressão maior seja percebida pelo verbo sonoro. Apenas o silêncio desafiador ousa permanecer e atravessar as zonas mais inusitadas da observação.
Quando o olhar revela-se um personagem dos cenários retratados, o ritual dos estranhamentos renova seu foco. Sem deixar passar o traço genuíno que cada ser ou lugar denotam, um fotógrafo vai além da dimensão externa das coisas quando experimenta tempos e espaços num mergulho físico ou intangível.
Gabriel Rastelli Quintão é um desses desbravadores de territórios. Máquina em punho, seus registros fotográficos perscrutam cenários em busca de vislumbrar o que está além dos vestígios. Atraído por uma espécie de decadência humana, o fotógrafo intenta o belo em meios aos escombros, quiçá alguma pista que possa renovar a crença num porvir.
Diante dos fragmentos deixados pelos homens, Gabriel parece se defrontar com a poética do vazio. Nesse ínterim, há um curioso processo de ocupação imaterial dos espaços, fazendo com que tais lugares representem pontos de recordações e alguma contemplação. Assim, a perspectiva do ambiente urbano deixa de ser meramente uma aglutinação de concreto e passa a algo indissolúvel na medida em que o tempo costura seu imprevisível fluxo.
Foto: Gabriel Rastelli Quintão
O que Gabriel vê para além do vazio aparente é também um inventário de silêncios. Tanto na via das ações quanto na das hesitações, homens alteraram o curso de suas trajetórias e, mesmo que o artista tenha chegado após os fatos, os cenários denunciam seu farto enredo.
Nascido em Araraquara, São Paulo, Gabriel Quintão estudou fotografia na Escola Panamericana de Artes e hoje atua nas áreas de fine art, fotojornalismo, retratos e publicidade. Seu primeiro projeto autoral publicado, batizado de “Linha de Frente”, mostra as reações de fãs de rock que se comprimem nas primeiras fileiras de shows do gênero. Noutro momento, o fotógrafo exalta a série “Cinzas de Quarta”, cujas imagens refletem o abandono das alegorias carnavalescas que, outrora ostentavam a magia de um desfile, agora são relegadas ao esquecimento pós-momesco.
Apesar do trabalho de Gabriel denotar uma forte relação com as lacunas humanas visíveis ou não, outros pontos de observação são elegidos pelo artista. Composições de luz e sombra, flagrantes da natureza e epifanias urbanas também fazem da arte do fotógrafo paulista um caleidoscópio de sensações pulsantes.
Entremeando a tênue cortina que divisa o ser do não-ser, os olhares aqui apontados configuram uma estética que conjuga perenidade com volatilidade. E o interessante é perceber que há modos de se testemunhar presenças e marcas, mesmo que agora subsista algum vazio. Aquilo que o tempo ocultou ou até mesmo dissipou resiste, permanece intacto na maneira como lidamos com as artimanhas da memória.
Foto: Gabriel Rastelli Quintão
* As fotografias de Gabriel Rastelli Quintão são parte integrante da galeria e dos textos da 100ª Leva
Pensar a vida como uma rota imprecisa, longe de perfeições ou viciosos determinismos. Seres, recantos, o concreto e o abstrato, tudo amalgamado por um sentido essencial. O substrato de uma existência flerta com um estrangeiro desejo de eternidade. O tempo estanca boa parte dos equívocos tão nossos. A arte liberta na medida em que expande nossa consciência, nossa apreensão do pertencimento a um universo de coisas passíveis de imersão e, porque não dizer, catarse.
Ante os mergulhos, a conclusão: a vida é verdadeiro labirinto. E a obra de gente como Alessandra BufeBaruque nos comprova isso. É como se um gigantesco novelo, sem começo e fim, desenrolasse suas tramas e nos envolvesse sorrateiramente. É necessário tomarmos cada ponto desse tecido como parte de uma trajetória que pode muito bem representar a de qualquer mortal. Quais pistas, então, a artista nos propõe?
Tal qual o mitológico fio libertador de Ariadne, a arte de Alessandra Bufe vai construindo um caminho criativo cuja expressão maior reside na perspectiva de sugerir vias alternativas de apreensão dos sentimentos. Sua intenção não é a indicação de rotas de fuga, tampouco determinar soluções para dilemas ou enigmas, mas desfilar diante de nós as múltiplas e possíveis representações das epifanias humanas. À medida que avançamos nesse território, identificações podem surgir.
Arte: Alessandra Bufe Baruque
O novelo de Alessandra transborda por todas as frentes de sua obra. E é no uso especial das linhas que ele encontra morada, seja para introduzir acessos ou simplesmente continuá-los. Essa característica se expande através de gravuras em metal, desenhos a lápis, monotipia, pintura a dedo, xilogravuras, esculturas e, especialmente, na linóleogravura.
Conforme confessa a própria artista, há um claro encantamento seu pela forma das coisas. De nuvens a megaconstruções, tudo pode ser motivo de registro e concepção. Formada em Artes Plásticas e Desenho Industrial, ela desenvolve um trabalho que prima fundamentalmente pela liberdade de expressão. Assim, sem amarras predeterminadas, o resultado aponta para um convergente fluxo de intuição e observação.
No universo de perspectivas abrigadas em sua obra, Alessandra firmou a ponta do seu longevo fio num lugar inimaginável. Entre investidas e vislumbres, cada um de nós pode intentar algum caminho de volta.
Arte: Alessandra Bufe Baruque
* A arte de Alessandra Bufe é parte integrante da galeria e dos textos da 99ª Leva