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110ª Leva - 04/2016 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Suzana Latini
Foto: Suzana Latini

 

 

Diante das várias formas de se ler o mundo, ficamos cientes de que dispomos de alternativas válidas de reflexão. Podemos optar por nos posicionarmos em relação a uma série de situações e temáticas, elegendo um norte a seguir. Ou simplesmente temos também a possibilidade de quedarmos mudos e impassíveis. Não é difícil concluir porque a arte, sob suas mais difusas acepções, prefere aqueles que se posicionam diante da vida. Seja criador ou não, quem se envolve com as vias sugeridas pela ambientação artística jamais vive as coisas impunemente, ou melhor, passivamente. Há posicionamento por parte de quem escolhe uma linha criativa e a conduz adiante. Por seu curso, há também posicionamento quando alguém consome o produto da criação de um determinado autor. Mesmo estando em perspectivas um tanto diferentes, emissores e receptores dos conteúdos transitam por um solo comum de expectativas e arremates. É claro que as identificações podem não ocorrer de imediato, fazendo com que aproximações de pontos de vista necessitem de certo tempo de maturação, construindo um ritual de tácitas negociações. Esse intervalo de reconhecimento pode tanto revelar semelhanças de comportamento quanto rechaçar ideias sugeridas. Em que medida, por exemplo, quem escreve negocia com quem lê? Há limites para que surjam concessões mútuas? Tais questionamentos são pertinentes quando se pretende entender que tipo de relação atravessa autores e leitores. Muito se defende que um escritor produz para si mesmo para, em última e desinteressada instância, verificar se aquilo atinge seu público de algum modo. E talvez seja esta última uma checagem que nada tenha a ver com satisfação por um mero reconhecimento, mas sim pelo fato de que alguém acidentalmente partilha das mesmas convicções. Trata-se do autor que se importa mais consigo mesmo, ignorando se o resultado de suas elaborações atingirá alguém enfaticamente. Por outro lado, há quem crie para buscar no seu leitor um eco automático de suas representações. Este, por sua vez, provavelmente tenta vislumbrar o que é relevante para seu público. Talvez seja difícil mensurar com exatidão se há um patamar que equilibre essas duas formas de atuação. São especulações a nos rondar de modo permanente e o que importa mesmo é saber que a liberdade guia tudo isso. Na linha que implica em se posicionar diante da vida, rendemos escutas às opiniões do poeta e performer Alex Simões, o qual, numa entrevista, fala sobre sua trajetória literária, o momento atual do país e outros temas inquietantes. São os versos de Mariana L., Adriana Brunstein, Sónia Oliveira, Clara Baccarin e Alvaro Posselt que também demarcam territórios ativos em torno das epifanias mundanas. É Jorge Elias Neto quem nos apresenta a coletânea de poemas de William Soares dos Santos, materializada no livro “Rarefeito”. Larissa Mendes volta a visitar o trabalho do músico Baia, desta vez com um novo disco. O mais recente filme da saga Mad Max recebe a detalhada análise de Guilherme Preger. Testemunhamos também todo o vigor narrativo dos contos de Fernanda Fazzio, Héber Sales e Roberta Silva.  Numa precisa leitura, Sérgio Tavares volta suas atenções para o novo livro de contos de Dênisson Padilha Filho. A arte da espera pauta uma exposição com as fotografias de Suzana Latini por todos os cantos dessa nova edição. É a 110ª Leva e seus caminhos, caros leitores! Sejam bem-vindos!

 

Os Leveiros

 

 

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110ª Leva - 04/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Fernanda Fazzio

 

Suzana Latini
Foto: Suzana Latini

 

 As definições acerca do Belo são há muito tempo o alvo de inquietações de filósofos e de artistas. E é devido a elas que se tornou possível reconstruir uma história da estética. Contudo, o mesmo não aconteceu com o Feio, havendo poucos tratados e considerações relevantes sobre o tema. Aqui, partindo das reflexões de Umberto Eco, não se pensa o Feio em oposição ao Belo, mas sim em suas características peculiares, considerando conceitos próprios, relativos aos vários períodos históricos e aos seus estranhamentos nas diversas culturas.

 

A primeira margem

 

Eu sou o Bobo da cidade. Porque, em todas as cidadezinhas com pôr do sol entre as montanhas, precisa-se de um tolo, de um idiota, daquele a quem todos se referem como o lunático-fracassado-da-cidade. Sim, eu, muito prazer. Mas nada peço a ninguém, não preciso de esmolas, só propicio um encontro quando me ordenam. Eu, descuidado, vivo assim mesmo, no meio-fio de uma existência imprecisa. Um poeta um dia disse: “Esquecer é des-existir”. E fiz disso meu amuleto profético, eu não desisto, eu existo tecendo o vislumbre do invisível.

No começo dos tempos, já invejei os homens engravatados da cidade grande, aqueles que saem de casa com aroma de pó de café. Percebo que gozam de uma rasa felicidade, agarrando com destreza uma gravidez próspera de certezas, mas não percebem que são escravizados dia a dia por aquilo que mais lhes falta: tempo. E depois se corroem pelos equívocos de suas vidas empacotadas – meras verdades chamadas de absolutas e que costumam ser levemente incômodas. Isto também acontece por aqui, algumas pessoas se acham, sem mais, imortais. Formados para obter resultados, às vésperas do dia final, arrependem-se de uma existência com sentidos rasgados, amores incompletos e escolhas interrompidas em uma vida que não valeu a pena ser vivida. E o que lhes resta? O indizível, eu lhes digo, junto ao seu último suspiro.

Eu logo percebi que essas coisas não eram para mim, sujeito de uma autoria que não se escreve em pauta, mas que se esgarça entre uma linha e outra da existência. Foi então que, certo dia, adormeci no trajeto, cheguei até o final da linha do trem e, distraído, vim parar aqui em Vila Grandina.

Sou odiado por muitos, não nego. Por sempre conversar com os detalhes inquietantes da cidade, sutilezas despercebidas aos olhos comuns, sou conhecido por muitos como “aquele lá”. E quando me chamam, algo da ordem do oculto parece surgir. Mas, como eu lhes disse, sou necessário aqui. Sem mim, Vila Grandina se tornaria uma cidade ainda mais morta, sem memória, sem lembranças, sem passado nem mesmo uma história.

Admito que meus pensamentos desaforados são como as águas dos grandes rios. Em tempos de chuva, chegam como enchentes aos ouvidos desavisados. Minha consciência lampeja quando sou tomado por ideias estranhas sobre os moradores daqui. Meu talento é decifrar as pessoas desta cidade, até aquelas que parecem mais assustadoras do que eu. Eu sei de tudo, conheço o jeito de cada andar, os seus perfumes caros ou comprados de viajantes clandestinos, os vícios mais secretos e as singelas virtudes em suas vicissitudes. E também o mais terrível escondido: eu sei dos segredos, das histórias contadas por jurados, dos encontros sorrateiros, até das lembranças que deveriam permanecer esquecidas, que faço retornar como reminiscências opacas.

Moro nas coisas deixadas pelas pessoas. Carrego tudo o que posso comigo, nunca me desfaço de nada, tudo aqui assim, junto a mim, nesse lhano carrinho de mercado. Ando a cidade inteira com ele. Os moradores de Vila Grandina se livram do lixo de suas casas, mas não conseguem tirá-lo do bairro. E as pessoas me veem atravessando as ruas com essa carga de outros e não me compreendem. Crença ou ciência, eu também já desisti de tentar explicar sobre as incessantes vozes lancinantes e memórias perdidas. Mas mesmo assim elas me dão comida, às vezes um casaco ou um livro. Talvez porque ainda me reconheçam dos anos de trabalho na Biblioteca Municipal, dos tempos de uma vida ordenada, regrada por garantias institucionalizadas. Contudo, foi preciso abdicar de tudo, essa minha essência necessita de solidão, de quietude sem lugar comum. Só assim chego à superfície do manto de angústia quase insuportável, meu companheiro fiel no desespero gelado.

Nunca se viu por aqui, nem se ouviu de terras longes, do enterro de um anão, menos ainda de uma anã. Talvez eles nem se autorizem a aparecer com as marcas do tempo. Eu sempre penso sobre isso. Os anões não morrem, como dizem, viram alguma outra coisa, não se sabe ao certo à qual maldição estão destinados. Crueldade ou destino, pouco importa agora, as atitudes mais terríveis são por vezes camufladas em perfumes importados e saltos de verniz, doces vozes escondem as ações mais desagradáveis.

Às vezes eu vou até os trilhos abandonados onde a pequenina foi encontrada e me recordo do dia em que ela chegou aqui. Fico à procura de alguma explicação para não deixar aquele corpo condensado morrer em mim. As vozes silenciam naquele lugar, acho que não podem se manifestar ali, há sem dúvida algo de sagrado nos cascalhos. Por isso, quando estou perturbado em meus devaneios confusos, vou até a estação para tentar assentar minha cabeça no lugar. O único que me acompanha fielmente nesses retiros é Preto, ficamos sentados nos trilhos, olhando um para o outro, desatando sentidos em um infinito sem tempo. Eu tenho cá para mim que ele sabe de tudo, mesmo em sua condição de gato que emudece o seu miado, eu sei que não ignora o fim da pequenina. Nós bem sabemos que ela deixou esse mundo na sutileza da sua menor grandeza.

 

Fernanda Fazzio é psicóloga pela PUC-SP e bacharel em Teatro formada pela Escola Superior de Artes Célia Helena (ESCH). Buscando aperfeiçoar a sua escuta clínica, especializou-se em Semiótica Psicanalítica: Clínica da Cultura (PUC-SP) e realizou a sua formação em Psicanálise com Crianças pelo Instituto Sedes Sapientiae. Escreveu a “A Inquietante Beleza do Feio” (Patuá, 2014), livro de ensaios e contos poéticos sobre as máscaras, o feio e a criação artística.