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146ª Leva - 01/2022 Jogo de Cena

Jogo de Cena

Zuca Sardan & Floriano Martins

 

Foto: Fátima Soll

 

LA MAGNA IMPORTANCIA EN LA HISTORIA SANTA Y PROFANA DEL POPOKATEPLEK

 

ZUCA SARDAN

Hay ahora una grande polémica diplomática en la ONU, una acerba disputa que opone el México a L’Italia. Los italianos contestan que el Popokateplek sea más importante que el Vesuvio, en la Historia Geológica y en La Historia Sagrada. Del punto de vista de potencia volcánica, el Popokateplek es un volcán de plena y formidable potencia, capaz aún en nuestros días de lanzar llamas y vapores hasta centenas de metros de altura… Al paso que el Vesuvio, en los días de hoy, no expele más nada, ni siquiera la fumarola que encantaba los pintores hasta la Queda de la Bastilla, y sobre todo después de la Batalla de Waterloo, sobrando solamente el encanto, para los turistas, de su fumarola, hasta la primera mitad del siglo XX, cuando la fumarola se acabó, de una vez por todas. Cuanto a la Historia Sacra, el Vesuvio fue superado por el Ararat, donde se tendría acostado, al fin del Diluvio, la Arca de Noé. Pero el Doctor Zapata acredita, basado en sus excavaciones, que el Ararat no presenta la más mínima erupción, a rigor no es siquiera un volcán, ni tampoco un volcanoide sin cratera… Así, del punto de vista geológico no ofrece condiciones de compararse a nuestro imponente y fogoso Popokateplek. Ahora resta la Historia Santa. Ora, las revelaciones en la Biblia sobre la saga de Noé, fueron hechas siglos Antes de Cristo, cuando los Hebreus, y todos los Pueblos de Europa, África a Asia, no tenían la menor noción de la existencia de las Américas. Entonces los relatores de los hechos bíblicos no tenían la más mínima idea da la existencia del Popokateplek, e imaginaran que la Arca se hubiera acostado en el Ararat… Pero el Diluvio fue mucho más fuerte de todo lo que se pudieran imaginar los sabios de la Antigüedad. Tanto el Vesuvio cuanto el Ararat estuvieron sumergidos por el Diluvio. Solo el Popokateplek ofrecia condiciones de un seguro acostamiento de la Arca. No obstante estas consideraciones geológicas, siguen los armenios y los italianos negando la primacía del Popokateplek, en el salvamento de la Humanidad y de todos los animales, a excepción de los peces, que viven en el agua y… de los dinosaurios de que el tamaño colosal tornó imposible ingresarlos en la Arca, y acabaron todos muriendo ahogados.

 

DOC FLOYD

Uma vez publicada tal saga nos papiros de arroz Valkiria, o centro do mundo deixou de ser aquela região do Ararat, passando a terra Santa a ser banhada pelas águas do Amazonas. E a história, que sempre teve uma tara pelas distorções, conserva o segredo de sua origem em uma arca de pau d’arco no fundo falso de uma barcaça que sobe e desce o rio Negro. A chave da arca é um mistério que a cobra Nosferatu guarda em seu estômago.

 

ZUCA SARDAN

Floriano, era isso que eu bem imaginava…

 

DOC FLOYD

Mas no fundo as coisas nunca são como as imaginamos…

 

ZUCA SARDAN

E muito menos como elas próprias pensam que são.

 

DOC FLOYD

Esta é já uma clássica confusão. Daí que hoje em dia os classificados já procuram por pitonisas que não façam a menor ideia de seu trabalho.

 

ZUCA SARDAN

Quanto menos ideia de seu atualmente mercantilizado trabalho, e mais louca seja a pitonisa, melhor poderá se realizar a verdadeira prática oracular.

 

DOC FLOYD

As pitonisas cantam e oram
enquanto varrem o chão
preparando o tablado
para a próxima sessão.
O ministro Delgado
disse a elas que à noite
vai contornar a lua
com o cetim dos sonhos
e um coro de sapinhos
com os olhos esbugalhados
decifrarão os futuros
de cada alma lavada…

 

ZUCA SARDAN

Para lavar alma precisa água-raz e… a Pílula do Esquecimento do Doutor Radar.

 

DOC FLOYD

Mais da metade das almas ao menos desconfia que futuro algum terão. Aquelas que imaginam ser tocadas por algum esfregão da sorte, fazem cara de comidinhas do destino e conspiram contra as demais.

 

ZUCA SARDAN

Não ter aporrinhação futura alguma, e sumir sem pagar as dívidas… é o Calote Metaphysico… saborear o sossego eterno prometido pela Modernidade… Livre enfim do Tribunal das Lambadas de Ultratumba.

 

DOC FLOYD

Foi assim que um dia desses a Modernidade parou de cantar em sua gaiola de cristal. E os querubins de pasto pequeno em uníssono exigiam que ela fosse para a panela. A boia era a última das quimeras.

 

ZUCA SARDAN

Segundo o Peru da Modernidade, a Perua da Vida Eterna rebola melhor… Mas como ele não bobeia com as aparências… desconfia que o rabão supino é coisa da Costureira Celeste. Quando chegar o Natal… ele acabará na panela.

 

DOC FLOYD

A Modernidade sempre foi o grande dilema de Cronos, porque ela trucidou o futuro e congelou o presente. A seus olhos tudo é passado e só ela reina impiedosa.

 

ZUCA SARDAN

A Modernidade é hoje coisa do passado. A Pós-Modernidade se pinta e se emperequeta… Saturno boceja, e dá uma afiada na foice… O Corcunda Corco se coça e toca a badalada vesperal.

 

DOC FLOYD

Os grilos sorrateiros desafinam todos os instrumentos no auge da noite sonolenta…

 

ZUCA SARDAN

Entra o Corvo Edgar… para acabar com a baderna… Súbito silêncio…

 

CORVO EDGAR

Acabem com essa zoeira grilos jecas, e não voltem NUNCA MAIS…

 

CORCOVO

(Acompanhando no carrilhão o espinafro do Edgar) Bong… Bong… Bong …

 

DOC FLOYD

As morsas tiram a poeira dos sextantes. Temos que rever as nossas cartas de navegação. Ainda ontem íamos a toda força a estibordo. Agora a deriva sorri e nos abre os braços.

 

ZUCA SARDAN

Sem o imprevisto, não haveria surpresas. Sem surpresas, a vida torna-se sem graça. Mas só encontra o imprevisto quem souber esperá-lo. Quem não esperar o imprevisto, jamais o encontrará.

 

DOC FLOYD

Que diabos de capirôto é esse que escreve uma lenda em que os tupiniquins se debruçam no ombro da estrada à espera do… inesperado! Pois afinal, oh dramalhão de quinta, eivado de paradoxos amanteigados, como pode ser inesperado sendo tão esperado!!!

 

ZUCA SARDAN

Pois é… a sorte favorece a audácia!… Como dizia o Danton: Audácia! e sempre Audácia!… E o inesperado não deve ser esperado na banheira, ou chega a Charlotte Corday e passa-te a faca!… como aconteceu com o … plec! plec!… o… Marat!… morreu com um papel na mão… escrevia na banheira seus violentos artigos.

 

DOC FLOYD

Morrer com um papel na mão, é haver sido impedido de uma última representação. Dizem que a banheira de Marat está guardada no porão do Louvre, que até hoje há uma nódoa de sangue em um pequeno rasgo no quarrycast da velha banheira vitoriana…

 

ZUCA SARDAN

Marat era muito doente e passava grande parte do dia dentro da banheira. E dentro da banheira escrevia, mediante uns apoios de madeira que lhe serviam de mesa. Diariamente ia almoçar no Café Procope, que até hoje existe, na mesma rua em que habitava, na Rive Gauche, onde o editor de seu jornal, localizado na mesmíssima rua, despachava um mensageiro para ir recolher o manuscrito que Marat trazia para o Café, de modo a dar-lhe umas derradeiras penadas. Quando estive em Paris, durante um ano, em 1957, na Rive Gauche, eu ia quase diariamente almoçar no Procope, que era então bem baratinho, sempre orgulhoso de seu passado histórico, e tinha retratos ovais grandes, em molduras douradas, com os retratos de todos os personagens históricos que o haviam frequentado nos tempos da Revolução. Os retratos eram fidedignos, em tamanho natural, mas visivelmente cópias, em cartão, de quadros originais, ou recopiados, por algum pintor-artesão hábil, de alguma gravura representando tal ou qual personagem. O proprietário, que tinha suas fumaças literárias, era muito amável, e seu gato vivia dentro do Restaurante, e cismava de se enroscar ou subir na cabeça de algum freguês, ou freguesa, que lhe parecesse mais simpático. Há poucos dias, vi um documentário francês recentíssimo, sobre o Café Procope e está de um luxo extraordinário, mantendo o aspecto histórico na sua reforma total. Uma cozinha super-sofisticada, e caríssima, garçons com roupas antigas, nada a ver com o café-restaurante, servido por garçonetes velhotas, que eu havia frequentado.

 

DOC FLOYD

Talvez o papel viesse embebido em sangue da revolução que almejara. A história é fascinada pela borra de café das quimeras. Os sonhos são defumados com precisão. As fumaças que saem pelas escotilhas, chaminés e cozinhas papais. Um batuque ao vento anunciando as glórias e catástrofes da combalida história. O que restou da Modernidade é esse vício de labirintos, essa gravação repetida da voz das nações. A carta magna dos insucessos.

…e a cortina desabando sobre nossas cabeças….

 

Zuca Sardan (1933). Poeta e desenhista.  Autor de várias peças de teatro escritas a quatro mãos com Floriano Martins. Contato: zuca.saldanha@gmx.de

Floriano Martins (1957). Poeta, ensaísta, dramaturgo, editor. Dirige a Agulha Revista de Cultura. Autor de várias peças de teatro escritas a quatro mãos com Zuca Sardan. Contato: floriano.agulha@gmail.com

 

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129ª Leva - 01/2019 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Zuca Sardan e Floriano Martins

 

Ilustração: Joana Velozo

 

Jurema e o tesão amaldiçoado

 

A noite já tinha entrado nos estratos mais bem forrados da goiabeira divina quando de lá do quintal saltaram dois mancos presumindo que a escuridão e uma velha lamparina da chama gasta poderiam dar ao mundo a miragem de novas divindades.

 

MANCO TONEL

Ando colando em cartas vulcânicas as figuras que darão pelo fim, eventual, do encadeamento lógico da espécie humana.

 

SÁBIO DETÔKA

O encadeamento lógico é o que levará a espécie humana à sua extinção. Sua única chance é enrolar o encadeamento no pé-de-manga, e ir saindo de mansinho…

 

MANCO TONEL

Mas aí tem um dilema eterno: o pé-de-manga insiste em não sair do lugar, argumenta que ficou imenso, e cresce cada vez mais a devorar a sombra da planície das ilusões inteira…

 

SÁBIO DETÔKA

Trata-se de um Pé-de-Manga-Sagrado… Mais uma vez, o Concerto das Nações tira o chapéu para o Brasil.

 

MANCO TONEL

Isto se deve em grande parte porque abriram a caixa de consertos das nações e deram de cara com a imensidão de um vazio silencioso.

 

SÁBIO DETÔKA

A caixa de consertos estava quebrada.

 

MANCO TONEL

Tão quebrada e ao parecer irremediável que logo organizaram um concerto com instrumentos dispersos, a ver se era possível reunir uns tostões para o conserto.

 

SÁBIO DETÔKA

Apitos e reco-recos…

 

MANCO TONEL

Mas nada, público esvaziado, instrumentos desafinados, mais parecia a orquestra do Fellini, não juntamos um trocado que seja.

 

SÁBIO DETÔKA

É que esse público é acadêmico, só quer Guerra-Peixe,  o Guarany, e… o Wagner…

 

MANCO TONEL

Já tratei de reenviar o vídeo para o Xu-Manfú, que não apôs a menor declaração de recibo ou desgosto. Nem conserto ou concerto, os peixes estão em guerra na panela e os guaranis traçaram o Wagner no almoço, com pirão de valquírias e a velha e boa água de fogo.

 

SÁBIO DETÔKA

Agora então… Só resta embarcar no trenzinho caipira e subir a Serra da Boa Esperança.

 

MANCO TONEL

Dizem que Dona Esperanza perdeu a serra na bocarra de uma Boa no pantanal. Sequer foi à festança em Currais Novos do Céu.

 

SÁBIO DETÔKA

Isso acontece com as melhores famílias

 

MANCO TONEL

As melhores famílias são hoje um outdoor na entrada do Grande Shopping Barnabé, mas ah como doem…

 

SÁBIO DETÔKA

Quando abre a porta do Saldo Global Começa a Grande Porrada Familiar.

 

MANCO TONEL

Tailandeses e filipinos no saldão da semana, porcos e pérolas embaralhando as tábuas da lei.

 

SÁBIO DETÔKA

E o turco vendendo tapetes gombra ké baratinho, freguês…

 

MANCO TONEL

O turco faria melhor do que insistir em ser videomaker. Mas a quem deleita chá de pó de osso, que trate de raspar o seu bem raspadinho.

 

SÁBIO DETÔKA

O Selim insiste em querer fazer um zuper-8 do Homem Vapor… não precisa contratar ator nenhum. É só filmar a chaleira.

 

MANCO TONEL

Pois de tanto falarmos nele o Homem-Vapor acaba de chiar na panela de pressão, e me escreveu dizendo haver perdido o vídeo turco

 

SÁBIO DETÔKA

O Homem-Vapor é de uma astúcia oriental, e de uma periculosidade de Xu-Manfú … Há sempre um 2° pensamento oculto em suas amáveis crípticas declarações… Xu-Manfú certamente está fumando seu ópio… e quer que tudo o mais vá pro Inferno… Tenha Confúcius seus ancestrais, Buda seu Nirvana… Lao-Tse seu Tao, e Mao-Tse-Tung seu trator… Que lá importa?… Contem eles suas marolas pros parvos… Tenha o Bebê suas Tetas… Xu-Manfú tem o seu Ópio…

 

MANCO TONEL

E fuma como um jargão caído do pé. Tombando nas raias da impunidade, atravessa os séculos com a mesma pá, cavando o que se agigante contra ele.

 

SÁBIO DETÔKA

O segredo do Xu-Manfú é que a força do tráfico tem  o apoio místico da galera do fubá.

 

O meu fubá ao sol
eu deixei para secar.
A Jurema chegou cedo
e lavou toda a varanda.
O fubá que estava seco
aprendeu logo a nadar.
A Jurema encabulada
saltou bem na minha cama.

 

Embevecidos com a melancólica voz do prado, os dois troca-leros nem deram por conta, o Homem-Vapor se disfarçou em Surco Talim, pirateou uma nave-mãe nos porões da área 51 e dizem que foi repaginar a Ursa-Maioral…

 

SÁBIO DETÔKA

Homem-Vapor fala muito, mas o que gosta é de estar juntinho da jornalista do Braz-Ximbum, uma bonequinha de molas…

 

MANCO TONEL

Telma Suspíria é o nome dela, e pula e pula, como se as verdadeiras molas as levasse em seu íntimo, eu a conheci no México há mais de uma década, e se riu quando indaguei se ela havia engolido um canguru. Com seu olhar magnético me disse: “Eu sou uma rã”.

 

SÁBIO DETÔKA

Cuidado com a Kiki Moleng…  se facilitas… te dá um nó-cego nos cordões do sapato, e te passa um coquetel do Rei Coreano…

 

MANCO TONEL

Pois foi em outra festa, bem pra lá do ChiBungai, que conheci o então famoso coquetel do Rei Coreano, apontado por três revistas especializadas como o mais atrativo dos alucinógenos líquidos… Lembro que as paredes da festança pareciam os biscoitos Fraterno, e dei de saboreá-las como a última quimera.

 

SÁBIO DETÔKA

Xu-Manfú e Rei Jonjonga da Coréia cada um tem seu Dadá: Xu-Manfú o seu ópio e Rei Jonjonga os seus foguetões.

 

MANCO TONEL

Decerto os dois se matariam mil vezes seguidas, empanturrando a barriga da Grande Baleia devorada por Jonas, o Pacífico. Primeiro exercício de levitação: tornar o desejo mais pesado que o objeto.

 

SÁBIO DETÔKA

Perdemos o salpico na esteira das ilusões, onde os pesos excessivos tinham a última chance de levitarem e as cordas que nos prendem ao mundo poderiam esticar até o desenlace entre sonho e vigília. Os querubins sopravam as flautas uns dos outros. As luzes coruscantes cobriam de efeitos as células que sucessivamente germinavam no umbigo de todas as divas. Quem dera um pomar para reciclar os desejos. Quem dera uma torta onde hibernar as abelhas. Perdemos tudo – ainda grita o Padre Ezequiel, e o tesão amaldiçoado completa o ciclo das tensões.

 

MANCO TONEL

De tesão amaldiçoado, melhor dar uma pausa no andor, e ir pedir uma benção do Padre, e outra da Mãe de Santo.

 

Padre Ezequiel me disse que atualmente a fé não anda movendo nem montinho de areia e que no sótão da capela tem uma caixa de milagres que deve estar comida de bolor. Jararuna, a mãe de todos, lá em seu terreiro, me tranquilizou afirmando que de maldição ela entende e que dará um jeito no tesão.

 

EZEQUIEL

Aí está, o mundo de hoje… a continuar assim, presto virá o Armagedão…

 

MANCO TONEL

E as tropas de Arcanjos, depois de destroçar os pilantras de Belzebú, voarão pra Terra do Fogo, pra comer as Gigantas Patagonas nas escarpas dos Andes…

 

Para onde quer que se mande o cachimbo o tempo fumará seus bigodes, não importam os calos do Tinhoso ou as alpargatas do mocreia, a selva será sempre selvagem dentro dos olhos do lince, e o guerreiro mantém a guarda mesmo em repouso. Credo, assim o cajado se parte e a conversa destripa a língua. Dali… Jurema foi se confessar com Padre Ezequiel. Manco Tonel nunca mais se viu.

 

JUREMA

Ai, meu santo Padre Ezequiel, que faço eu  pra obter o perdão divino?…

 

EZEQUIEL

Pois, Jurema, só com umas lambadas…

 

JUREMA

Lambadas vossas, meu Padre?…

 

EZEQUIEL

Mais eficazes serão as lambadas do Sineiro Corcunda, com a corda do sino.

 

JUREMA

Mas as vizinhas vão ouvir…

 

EZEQUIEL

Já estão acostumadas…

 

Jurema ainda indagou se não lhe cabiam melhor umas lambidas, assim os pecados tomavam gosto, se empanturravam e quem sabe até naufragariam na barca dos degredos, ah Padre, deixa…

 

EZEQUIEL

Lambidas só no Purga, quando Catão de Utica está distraído…

 

JUREMA

Ai que eu beijo a pulga dele toda…

 

O PÚBLICO

Beija, beija, beija…

 

CORTINA

O que eu faço agora? Caio?

 

Bem poderia ser o fim do psicodrama, não fosse a dúvida corroer a alma acetinada da cortina. Um lapso e os Manuscritos de Tália soltam a sinopse de sua próxima comédia: Brancaleone e as vicissitudes do Dynamo Astral, sempre um patrocínio das Casas Prometeu e a benção do Papa Ponchito. E à dica culinária desta noite, atenção: Mistura o pó da inquietude em um cálice do talo da fina flor de lótus da pradaria… Ajuda o destino a tomar as mais sábias decisões.

 

MANCO TONEL

Como já disse o homem Fuzed das brasileiras noites: “Os dias que passam, estes passarão, mas, as noites, as noites que passam, ah elas também passarão.” Mas quem passou foi ele.

 

SÁBIO DETÔKA

O Ibralim se foi?… Uma celebridade dos 50s, surpreendeu-me a qualidade desta tirada!… A sua Coluna, agora fiquei desconfiado… talvez tivesse uma graça oculta… que na mocidade eu não saquei. Mas se ele escrevesse um livrinho inteligente, sua Coluna seria cancelada. Se escreveu, ficou em manuscrito, enterrado no quintal.

 

MANCO TONEL

Pois é, o Ibrahim não teria o sucesso que teve, na época, se não tivesse se decidido a ser o bobo da corte, resta a dúvida, agora que ele passou, como as suas noites, se ele era bobo mesmo ou se sagazmente criou o notável personagem…

 

SÁBIO DETÔKA

O Ibralim Fuzed é um curioso caso, meio inspirado no Frunando Fussoa. Todavia, enquanto o Frunando criou seus heterônimos, o Ibralim escolheu ser o seu próprio heteronômio. Um processo singularíssimo, que escapou à  argúcia lacaniana do Jório Borbes.

 

MANCO TONEL

Fuzed, também conhecido como Ibr-Fuzarca, recortava fotos suas em cena e as colava em paisagens de vários países, ruas, praças, na velha Enciclopédia Conhecer. Assim o conheci.

 

SÁBIO DETÔKA

Fuzed tentava promover seu irmão Zefud, porém Zefud não ia pra frente nem pra trás. Zefud era irmão, mas não tinha o jeitinho do Fuzed, de empacotar dondocas finas com grazzolas velhas frouxas, mas ora, se as dondocas gostavam, tudo bem…

 

MANCO TONEL

Pois logo dali deu a entender Ibr-Fuzarka que se mudara, por algum tempo… quando a rigor se tornou invisível e visitava as peruas chiques com seu colar de contas e elas em suas mãos suavam o perfume de suas ânsias.

 

SÁBIO DETÔKA

Assim, pois, desvendado o mistério: Fuzed é o Homem-Vapor que apavora os cinemas dos subúrbios da cidade!… O pavor do Homem-Vapor é contagiante e a inquietação ganhou as manchetes dos jornais, de sucesso em sucesso, foi avançando o filme irresistivelmente em direção ao centro da Metrópole. E Zefud foi erroneamente identificado com o Homem-Vapor. O Destino já estava escrito em seu próprio nome!… Recônditas são as sendas da Fatalidade…

 

MANCO TONEL

Não resta dúvida. Recônditas são as sendas da Fatalidade…

 

O PÚBLICO

Ohh-oooooh-oh

 

A CORTINA

Agora é o jeito. Caí, em definitivo. Este foi meu último suspiro.

 

Zuca Sardan (1933) e Floriano Martins (1957) são dois destemidos profetas na luta contra os crimes graves da realidade. Brasileiros ambos, o primeiro mora em Hamburgo, Alemanha. O outro, na borda náutica do Nordeste do Brasil, precisamente em Fracaleza Drinks. Jamais se encontraram pessoalmente, embora tenham se conhecido no Congresso Mundial Imaginário da Patafísica. Juntos já escreveram quatro peças de teatro a quatro mãos, além de inúmeras pequenas cenas faiscantes, como esta que agora publicamos. Contatos, de preferência os imediatos de quinto grau.

 

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126ª Leva - 04/2018 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa IV

Zuca Sardan e Floriano Martins

 

Foto: María Tudela

 

 COPA & FLERTE COM O SURREALISMO​​

 

Anos depois de haverem participado da última viagem do Trem Carthago, Olegário Trombeta e Anarquista Raspok se encontraram na Padaria Progresso para uma aguinha Xambuquira, gelo e raspa de tangerina. Ao fundo, a TV Pegada Atômica transmite o jogo Brasil x Bélgica:

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Enquanto vemos os jogos da Copa, releio a poesia de nosso cubista  tropical Vicente do Rego Monteiro,  tão injustamente esquecido como quase tudo em nosso país…

 

ANARQUISTA RASPOK | Naqueles tempos, se você saísse de terno sem gravata, ou saísse da igreja no meio do sermão… era linchado. Meu pai ia de terno e gravata para o cinema.  Tarsila se torna assim a miss paraquedista da época.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Realmente surrealista entre os modernistas, além de Murilo Mendes, é o Raul Bopp. Acho que poderíamos incluir no Surrealismo, ao lado do Jorge de Lima, o Nelson Rodrigues e o… Barão de Itararé.

 

ANARQUISTA RASPOK | O sonho do Oswald Lelé era ser a encarnação do Bispo Sardinha. O mais perto que chegou foi exatamente a mordida na canela que lhe deu Tarsila. Bopp tem um bom livrinho em que narra o caos fumegante dos bastidores da Antropofagia. Todos comiam as canelas de todos.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | A entrada de Tarsila pela janela deve-se provavelmente à sua fase antropofágica, quando mordeu a perna do Oswald. A questão é saber se… ele gostou.

 

ANARQUISTA RASPOK | Então agora, da antropofagia, só sobram,  de autênticos, os índios Caetés… Depois do churrasco do Bispo, os Caetés passaram a falar latim. Mas este fato foi oculto pelas autoridades coloniais por ordem expressa do Palácio das  Necessidades. Foi um golpe cruel  na nossa nascente linguística.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Ficamos entre o tupi e o latim. Latimos enxotando a latinidade.  Com o tempo o latim virou pó.  Dissemos adiós a nosotros.

 

ANARQUISTA RASPOK | O Latim é um cachorro teimoso… Não nos deixa assim tão fácil.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | O latim não nos deixa nunca. Nós é que nos abandonamos. Moramos em casas suspensas  sem quintal e não nos reconhecemos nos vizinhos. Nem temos com quem falar.  O tempo foge de nós.

 

ANARQUISTA RASPOK | Tenho plano maquiavélico… Vou comprar um papagaio, batizá-lo de Plotino… e deixá-lo de estágio num convento jesuíta com  severas instruções de que só falem latim com o plumoso… Depois de dez anos de estágio, eu o trago pro meu gabinete.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Prof. Plotino Currupaco pode ministrar cursos de latim relâmpago e, tendo ele formação jesuística, pode reformular a etimologia indígena herdada de nossos ancestrais antes da Grande Gripe que varreu da terra.

 

ANARQUISTA RASPOK | Após a Grande Gripe, quando a população já estava completamente dizimada, inventaram o Xarope Pylathos contra tosse, gripe e bronquite.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Então já era tarde e a única invenção que vingou foi a metáfora de circunstâncias que propiciou a irradiação das colônias liliputianas.

 

ANARQUISTA RASPOK |… e um bom discurso do Rei elogiando  o patriótico sacrifício da população.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Contudo, a população já se encontrava surda e o Rei, temendo que espiões registrassem as entrelinhas de seu discurso, o fez com a mão cobrindo os lábios.

 

ANARQUISTA RASPOK | A moda do Rei de tapar a boca pra falar pegou na tevê. Até os jogadores de futebol, durante e até depois do jogo, tapam a boca pra conversar.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Pura presunção, de ambos, de acharem que suas falas despertem algum interesse. O Rei no gramado sintético e o goleador em sua torre de acrílico, alheio a tudo.

 

ANARQUISTA RASPOK | O Rei encomendou uma roupa no alfaiate mago pra ficar invisível. Mas só a roupa ficou invisível. E o Rei… ficou nu.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | O jogador encomendou uma torcida para gritar cada vez que ele fizesse gol, mas, como o gol não saiu, a torcida resolveu gritar mesmo assim…

 

ANARQUISTA RASPOK | O craque porém pegou o grilo, jogou-o contra a parede e ploffftttttt!!! sentou-lhe o martelo. O Rei, por sua vez real, escolado político, ainda se demora entre variadas soluções.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Ora, há um momento em que ambos se igualam, quando rei e goleador coçam atrás da orelha e descobrem que ali mora um grilo surdo e sábio, que em morse bem pausado aos dois transmite o irremediável carteado da solidão.

 

ANARQUISTA RASPOK | Tamanha distância entre as duas reações propiciou o surgimento de uma geração a mais de grilos sábios que, a cada nascimento, punha na estreita mente do rei e do goleador uma culpa sorrateira por serem tão iguais e ao mesmo tempo tão distantes entre si.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | As respostas se multiplicam sem eliminar as perguntas. Viva a pilha do gato.

 

ANARQUISTA RASPOK | Pilha dos sete gatos.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Há uma caixinha especial com metade de meia dúzia, que acompanha um jogo de felpudas almofadas. Uma afoita gatinha ronrona na foto da capa.

 

ANARQUISTA RASPOK | Petekas saidinhas fazem piruetas enquanto os editores cruzam palavras no tabuleiro da Baiana Leocádia…

 

OLEGÁRIO TROMBETA | revista Guapo Azteka… não deixa cair a peteka.

 

ANARQUISTA RASPOK | Os editores em geral não querem correr riscos.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Editores correm de riscos. E fazem uma risca limitando suas ações… Creio que há uma escola onde aprendem a arte do capitalismo sem risco.

 

ANARQUISTA RASPOK | certamente num armazém portuga…

 

OLEGÁRIO TROMBETA | Lá bem no fundo do armazém, por trás de uns caixotes velhos da melhor Cubunquira.

 

ANARQUISTA RASPOK | Lendo no Jornal dos Sports as mazelas do Vasco.

 

OLEGÁRIO TROMBETA | GOOOOOLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLL

 

Zuca Sardan (1933) e Floriano Martins (1957) são dois destemidos profetas na luta contra os crimes graves da realidade. Brasileiros ambos, o primeiro mora em Hamburgo, Alemanha. O outro, na borda náutica do Nordeste do Brasil, precisamente em Fracaleza Drinks. Jamais se encontraram pessoalmente, embora tenham se conhecido no Congresso Mundial Imaginário da Patafísica. Juntos já escreveram quatro peças de teatro a quatro mãos, além de inúmeras pequenas cenas faiscantes, como esta que agora publicamos. Contatos, de preferência os imediatos de quinto grau.

 

 

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117ª Leva - 02/2017 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Floriano Martins

A imagem que nos aterra a existência, que se torna um testamento usual, um versículo sempre na ponta da língua, cobra hoje uma tarifa existencial que nos limita a própria reflexão sobre o que somos ou deixamos de ser. Somos viciados em uma demanda reiterativa. Algo nos impede de experimentar um mundo outro sob ou sobre a capa de uma realidade averbada pela crença na imutabilidade da vida. Ora, mas a vida é tudo menos imutável. Mesmo no plano sagaz das religiões a vida é o preço, a súplica, a tormenta, o vislumbre, o apogeu, a dádiva, e não é possível pensar em nenhum desses atributos como um álibi inquestionável que não permite à espécie humana mudar sequer de postura na cadeira em que presta depoimento sobre sua existência. A fotografia é uma das mais complexas faturas da criação artística, a começar pela resistência da arte entendê-la como sua cúmplice. A beleza é outro aspecto frequentemente confrontado pela incredulidade em que o gesto humano seja tudo menos apenas uma reação brutal à diferença. Leila Ferraz é uma poeta que se distingue entre seus pares pela percepção que possui das relações entre o criador e sua obsessão. Alheia às formatações de gênero, é poeta, ensaísta, fotógrafa, desenhista, foi uma das organizadoras da Exposição Internacional do Surrealismo, em São Paulo, anos 1960. Aqui dialogamos sobre o ambiente da fotografia, ou melhor, sobre o espírito da imagem. E o diálogo se faz ilustrar por algumas de suas fotografias.

Leila Ferraz / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Quando começaste a fotografar lidavas com o mundo analógico. Tempos depois, quando retomas, já está em curso pleno o mundo digital. Do ponto de vista estético, como tens lidado com a passagem de uma técnica para outra?

LEILA FERRAZ – Sou uma fotógrafa analógica assumida. Esse foi o meu mundo durante toda minha vida. Tudo o que eu queria, tinha que pensar, analisar, testar, me apaixonar e me envolver de tal forma visceral que o mundo digital foi um tapa na cara. Veja abaixo esta foto de 1971 – tudo era feito no olho e nas mãos. Envolvia cheiros, ácidos, estudos e a conquista de um tempo fascinante no qual eu me perdia. Mas era um trabalho meu. Como quem cava fundo cada réstia de luz, penumbra ou escuridão. Um processo de imenso prazer. E buscas e descobertas. Desde criança, este mundo que peguei nas mãos quando as reproduções ainda eram feitas em placas de vidro. Desde quando bem pequena, descobria as minhas origens folheando sem nunca me cansar os álbuns de família. Com fotos de bem mais de 150 anos. Como medir, lidar, conquistar o que nasceu comigo? Eu ainda sou analógica. Atualmente, os recursos digitais nos proporcionam tudo o que queremos. Praticamente na hora. São milhares de opções imediatas. Existe, sim, o fator surpresa. Porque num toque de dedo ou criamos o que desejávamos ou o que nós desejávamos já vem pronto. Eu tinha um estúdio fotográfico completo. Com salas, químicas, bacias, ampliadores, Hasselblad, Leica, Roller, iluminação e tudo o mais. Atualmente, com uma máquina, programas e aplicativos consigo o que conseguia e mais. Em termos estéticos, o método analógico me dava mais prazer porque era eu quem o criava. No digital, posso ir além. Mas nunca sozinha e sim com uma legião de tecnologia me acompanhando. Talvez cheguemos aos mesmos lugares, mas sem os mesmos prazeres. Digitalmente, esses valores são predeterminados. Nossa interferência e interação são calibradas entre o cérebro e o olho – modo único de cada ser olhar e fotografar.

Foto: Leila Ferraz

 

DA – Curiosamente ilustras a tua resposta com duas fotos em preto & branco, o que lembra certa rejeição da cor em muitos fotógrafos. Há uma espécie de resplendor excessivo na cor que impede o olhar de decifrar meandros mais íntimos da imagem?

LEILA FERRAZ – De certa forma, sim. A cor é fascinante, porém ela nos excede, quando apenas cor. Raros são os fotógrafos que sabem dar às cores suas temperaturas exatas. A cor mantém estreita relação com a temperatura, com a hora. O calor de cada cor tem algumas regras áureas que aprendemos e exercemos na medida em que fotografamos analogicamente.

DA – E como o acaso dimensiona o espectro final da imagem fotografada?

LEILA FERRAZ – O acaso é o orgasmo que temos. Quando ele acontece, gozamos. Se vamos ou não repeti-lo e nos tornarmos amantes é a proposta misteriosa inerente ao próprio acaso.

DA – Bom, recordo certo entendimento de que a fotografia aprisiona a alma da gente.

LEILA FERRAZ – A isso Roland Barthes (com quem concordo) chama de noema fotográfica. O momento decisivo, único, raro, de Cartier Bresson, que perpetua toda a essência estética do ser ou da coisa da fotografia. Ou da coisa fotografada. Aquilo que é próprio e unicamente possível naquele instante.

Foto: Leila Ferraz

DA – Salvador Dalí via na fotografia “o veículo mais seguro da poesia e o processo mais ágil para perceber as mais delicadas drenagens entre a realidade e a surrealidade”.

LEILA FERRAZ – Veja a insegurança dessa frase. Sua fragilidade. Ela precisa de um mecanismo que justifique um processo contínuo no tempo. Não concordo.

DA – Talvez venha do fato de que o Dalí, ainda em 1929, quando afirmou tal coisa, pensava na fotografia apenas como o registro de uma cena, o que ele próprio chamava de catálogo “de imagens fragmentárias que dão lugar a um total conhecimento dramático”…

LEILA FERRAZ – Sim, é possível. A fotografia como registro foi e ainda é, infelizmente, entendida dessa forma. Quando, na verdade, essa é apenas uma de suas aptidões enquanto manifestação artística.

DA – Quais os caminhos estéticos que a utilização da fotografia abre para a tua concepção criativa como um todo?

LEILA FERRAZ – Caminhos estéticos são para mim como palavras autológicas ou heterológicas. Para segui-los é preciso estar com os sentidos em uníssono. Suspensos. Minha concepção criativa, tanto no poema quanto na fotografia, por exemplo, é minha expressão de ser. Única. Soma de diversos processos raros. Nasci com essa capacidade de ser intuitiva. Para mim, o domínio da técnica é uma escolha fortuita. Lúdica. Feminina. Inexplicável. É uma sensação de concretude e seus fantasmas invisíveis. Há um momento harmônico que surge instantaneamente quando a coisa da arte se expressa em si mesma.

Foto: Leila Ferraz

 

DA – Como lidas com temas e formas ao definir recortes e justaposições em tua criação fotográfica?

LEILA FERRAZ – Tenho uma paleta de cores naturais e cambiantes que me cercam e me abrangem. Posso dizer que o mundo que me cerca está organizado em matrizes pré-determinadas e que se modificam a cada instante. Criando, assim, uma relação de movimento contínuo. Meu poder de escolha de temas é um processo interior – que pode ser aleatório ou determinado por um desejo. Sem dúvida, aquilo que considero como belo é o meu ponto de partida. Seja uma paisagem, por exemplo, ou algo estático. Contudo, a minha interferência permite que eu simule diversas composições de formas e cromáticas, até que me bastem. Até que eu chegue ao meu noema – no sentido que relatei acima. Nesse sentido a manipulação digital me proporciona a capacidade de transcender à fotografia, recriando cenários, figuras ou abstrações num cenário surpreendente e inédito. Por vezes inesperado em termos de justaposições ou recortes. Atualmente, já consigo controlar ou dominar as possibilidades do mundo digital para obter exatamente o que desejo, como resultado. Porém, a surpresa é sempre instigante e muitas vezes conflitante.

DA – Quando preparas uma cena para fotografar, lidas com os truques de sua figuração. Trata-se, como em toda criação, de atuar no limite de uma falsificação. Nesse tablado, como se relacionam a imaginação e o instinto de imitação? Paul Éluard dizia que “a imaginação não mente nunca, pois ela nunca se equivoca”.

LEILA FERRAZ – Em diversas ocasiões eu preparei a cena que imaginara. Estas duas: a primeira foto é a do meu próprio umbigo. E resolvi utilizar um recurso digital para lhe conferir uma “história feminina”, por assim dizer. Já na segunda imagem, acrescentei vários outros recursos digitais e desarranjos para lhe conferir movimento. O movimento de um veleiro chamado NOTURNO. Com isso vou além de minha intenção original. Passo a acrescentar o elemento de Thalassa – também próprio do universo feminino. E mais – ao deslocar o eixo da imagem, surge o movimento. E a imagem criada torna-se única e poética. Há outro caso em que para obter um resultado imaginado, tive que interferir várias vezes na paisagem. Queria fotografar um homem à noite, com a lua por detrás da Ilha Bela, e que as ondas do mar preenchessem o corpo do modelo. Processo que demorou muito tempo, por se tratar de uma sobreposição sobre uma mesma película que já havia fotografado a paisagem com o modelo. Após alguns minutos, pedi para o modelo sair e então as ondas do mar invadiram, também, o espaço de seu corpo. E fui além. Na gráfica, além das cores básicas, acrescentei a impressão de mais uma cor, o ouro, formado pela passagem de uma bicicleta. Tudo isso foi feito analogicamente, com uma Hasselblad e passagem de luz sobre um papel virgem, em câmara escura. Foram vários fotolitos até chegar ao resultado que eu desejava. Vários dias e um processo caro. Com as facilidades do mundo digital, isso seria feito muito rapidamente. Talvez com um resultado final diferente. Porém controlável. Há mais exemplos. Centenas deles. Nesses casos, a imaginação se transforma em realidade. Isso é possível, sim.

Foto: Leila Ferraz

DA – Entendes que a web permite hoje um instrumento valioso de trabalho para a criação artística?

LEILA FERRAZ – Essa tecnologia, encontrada à disposição de qualquer pessoa, me proporcionou novas formas de expressão, de comunicação e transformação da realidade. É possível interferir em qualquer imagem. Multiplicá-la, replicá-la e movimentá-la através de qualquer espaço ou base. Misturá-la em qualquer meio e adicionar inusitadas linguagens. Através dos meios digitais, o comportamento da imagem fotográfica, às vezes de uma mesma imagem, conquista simbologias inéditas. Crio um novo vocabulário emocional a ser decifrado.

DA – Quando o fotógrafo lida com o modelo vivo, desperta certamente nele um instinto de espetacularização. Sendo o modelo objetual, como se realiza essa teatralização dos sentidos?

LEILA FERRAZ – Creio que lidamos com a metafísica quando falamos de fotografia e todos os casamentos possíveis e impossíveis que se realizam entre tecnologia e processos artesanais.

DA – Esquecemos algo?

LEILA FERRAZ – Posso dizer que o processo digital de cores e mesmo de nuances monocromáticas me é muito valioso. Sem dúvida, todo esse processo que atualmente me fascina, é altamente tecnológico, preciso e ao mesmo tempo cambiante, de acordo com o resultado que desejo obter ou que me surpreenda quando atinjo um ponto que para mim é a manifestação da vontade de nominar o incontrolável, porém “ordenado”.

Foto: Leila Ferraz

TRÊS POEMAS INÉDITOS DE LEILA FERRAZ

 

Ossuário de fontes

 

Esgotei minha última saliva.
Minha umidade esvaiu-se em leite de amêndoas.
Não há lágrimas descendo as escadas.
Estou estranha, tão estranha, e não me basto.
Pouco sei desta mulher que nasce e renasce a cada manhã,
e não se põe jamais, porque a ela pertencem as linhas da vida
que unem as artes e os manifestos.
Esta tresloucada fêmea ensandecida capaz de desnortear o mais sério dos eruditos.
Que depoimento é este que tanto queres?
Para mim se assemelha a uma equação da própria física que ainda nem descoberta foi.
Um depoimento afetivo de memórias juradas ao esquecimento.
Sim, reunirei minhas últimas forças e dormirei com os protagonistas de minhas lembranças.
Com ou sem as suas próprias naturezas devastadas.

 

 

 

***

 

 

 
As luvas da raposa

 
Hoje a liberdade se esconde
no cache-sexe de Adão e Eva.
Procuro em mim o Andrógino Primordial.
Meus desejos se tornaram anjos persecutórios.
E enlouqueço enquanto refaço meu corpo na praia da Olaria.
Tenho todos os elementos da loucura.
Agora fotografados.
Quanta beleza na boca de Narciso!
Quanta verdade revela um espelho.
Já não posso te esperar.
Serei do primeiro marinheiro que aportar aos meus pés.

 

 

 

***

 

 

 

Fotografia noturna

 
Uma paranoia engole nossas memórias.
Cada tecla tocada emite um falsete nas nuvens.
Quem colherá as imagens secretas que gerei?
Quem se esconderá na concretude de nossas palavras,
Onde se ocultam meus gestos eternos cor de prata.
Nada sincero ou palpável.
Toda criação espalhada pelo universo.
Planetas adversos pelas avenidas cósmicas.
Encontros extraterrestres acontecem quando recebo um amante em meu lençol.
E a estética amorosa conjuga verbos proscritos.
Filhos da nervosa ruela que dobramos no espaço.
Sonhos cada dia mais impossíveis nos retoques dos retratos.
Garantias no lugar de signos colocam suas máscaras entre as pernas dos mortais.
Estarei sonhando?

 

Floriano Martins é poeta, ensaísta, editor e tradutor.  Dirige a Agulha Revista de Cultura e a ARC Edições. Contato: floriano.agulha@gmail.com.

 

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103ª Leva - 06/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Caroline Pires
Ilustração: Caroline Pires

Buscar a inscrição do nome das coisas entre os dias. Cultivar palavras antigas, saberes novos, sabores de um porvir. Evocar imagens que atravessam as horas desavisadamente. Percorrer o vasto campo dos mistérios à procura de perguntas. Sim, perguntas, pois respostas significam uma espécie em extinção. Se é que algum dia será possível chegar ao ponto extremo de nós mesmos, tentemos ao menos absorver um mínimo do transcorrer incerto do tempo. Ao guardarmos nossos supostos tesouros, corremos o risco de perdemos a capacidade de contemplá-los e obtermos deles o que realmente importa. Quem sabe a vida não seja um poema maldito em eterna construção, requerendo métodos descartáveis de tentativa e erro. Queremos tanto: matéria, sopro, comida e algum alento intangível. No entanto, o reino da dúvida à espreita, como uma divindade inexplicavelmente cultuada. Dentro desse inadvertido território, a arte intenta algum fôlego. Quiçá um salto no abismo para um desfecho imprevisível. Sobremaneira, há quem julgue serem os estados melancólicos do ser verdadeiros combustíveis da criação. Nesse sentido, os lampejos de contentamento e efusão diante da vida seriam menos eficazes? Discussões à parte, nada está em perfeita ordem debaixo do sol. Enquanto a caravana passa ante nossos perdidos olhares, podemos nos permitir conhecer o que outras tantas pessoas têm a nos dizer com seus feitos. É assim com as epifanias poéticas de gente como Sara F. Costa, Samuel Malentacchi, Ana Horta, Nilcéia Kremer e Floriano Martins. Um efeito de trazer à tona recortes incisivos da vida toma os contos de Geraldo Lima, Márcia Denser e Fernando Rocha. Há uma atenta leitura de Sérgio Tavares para o novo livro de contos de Luís Roberto Amabile. No quesito cinema, Larissa Mendes convida-nos a perceber a delicadeza poética contida no filme brasileiro “A História da Eternidade”. Num diálogo movido essencialmente pelos sensíveis territórios da música, Graccho Braz Peixoto entrevista o cantor e compositor Mário Montaut. Por meio das escutas de Gustavo Rios, uma valiosa apresentação do disco da banda “A Flauta Vértebra”. O romance “Java Jota”, de Thiago Mourão, é alvo das anotações de Fabrício Brandão. Com a vigorosa contribuição da artista plástica Caroline Pires, desenhos e ilustrações vêm fazer par com outras tantas vozes aqui dispersas. É tempo de uma 103ª Leva, caro leitor!

Os Leveiros

 

 

 

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103ª Leva - 06/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética V

ENIGMAS CIRCULARES

Floriano Martins

 

Enigmas circulares 01
Imagem: Floriano Martins

 

 

1.

Eu leio nos teus lábios que a noite não virá
A noite não se deixa molestar por ti
A violência com que te resguardas de ti mesmo
Tática jurídica ou religiosa para que permaneças entre nós
O teu êxito precário e a evidência desproporcional de seu vazio

Saímos contigo inocentados para a noite
Não há negação de nada em nossa convivência
Perdemos uma boa razão para nos educarmos a todos
A noite revelada como um sacrário de conveniências
Nossas preocupações desaparecem ao minguar do dia

Não vemos vantagem alguma em nos atingirmos
Somos uma desordem guardada em vantagens
Eu quero rir de tudo à noite inteira
O teu silêncio não me recupera senão o riso
A tua ausência me estimula a rir por todos nós

A sombra é como uma morte acidentada em frases
Aos poucos te alimentas da tragédia que há em ti
O teu corpo cansado de rir de si mesmo
A tua noite querendo ser a negação de teus sentidos
A máscara de êxitos de uma noite envergonhada

 

 

Enigmas circulares 02
Imagem: Floriano Martins

 

 

2.

Eu estou diretamente caindo em ti e não sei como evitá-lo
É tão rápido o movimento que mal posso identificá-lo
Nós todos precisamos de uma vida mais lenta para saber que é nossa
Estamos sempre à espreita de nossas falhas
Um perigo comum a todas as angústias

A sorte desfalecida

Por onde as linhas de tua lucidez começam a se desentender
A noite sem saber ao certo se é falta ou excesso
Em que parte de tua harmonia pode haver um inferno
Eu rio de tuas noites de horror que se imaginam esplêndidas
Seguimos caindo porque não encarnamos a queda
Como alguém que não consegue matar-se

A ideia da morte como um refúgio onde o riso não tem abrigo
A morte se ri ante a preocupação de leito ou túmulo

Eu beijo a tua noite sem repouso
Tuas lágrimas riem da tempestade de meus anseios
A noite não exige para si nenhum poder
Eu não sei por onde passas com tua queda desatada em sorte
Não conheço senão o infortúnio e sua falsa glória
Os versos com que cobres o olhar
A miserável alegria com que te renovas

Cair por um momento
Rezar além das forças
Tomar armas
Meter-se no cultivo mesquinho de piedades
Desfigurar a ingenuidade

Nenhum de nós sabe quantas noites pode morrer esta noite
Temos esta dificuldade milenar
Jamais eliminaremos todos os inimigos

O homem está composto pelo que sabe e o que não sabe de si
Não há outra ciência

 

 

Enigmas circulares 03
Imagem: Floriano Martins

 

 

3.

O idealismo da morte de Deus é um bom verso
A metáfora do eterno retorno se confunde com a do eterno pecador
Agora eu não quero senão beijar-te
Tua morte cai por terra a cada beijo meu
Por onde a noite cai já não se pode amá-la e em meio a tantas
…..quedas não há triunfo da parte de obra alguma

O equilíbrio é sempre uma maneira de negar-se
Como quem intimamente salta de uma ruína a outra e não se satisfaz
…..com os espectros de sua derrota que lhe vão corroendo a alma
…..inteira

O inferno nunca foi uma boa temporada para nenhum de nós

Eu pude ver a agonia encharcando teu olhar enquanto meu corpo
…..explodia e se misturava aos destroços de tudo quanto me cercava
Eu vi a tarde toda refletida aos bagaços em teu olhar
O lugar inteiro sendo refeito em estilhaços
A loucura de um gesto arruinando as nossas vidas
Meu corpo mil vezes abrindo crateras de ódio

Vítimas por traduzir

Não haverá uma única pergunta
Nenhuma obra jamais soube remontar os retalhos daquilo que
…..destruiu
Muitos nem sabem a qual espécie de sacrifício aludir quando ostentam os símbolos de sua arte

Eu vi o meu corpo detonado por dentro e nenhuma visão foi mais
…..íntima daquela tarde se extinguindo em multiplicadas explosões
Nenhum fragmento percebeu a dimensão do sacrifício
Nenhuma nova tarde se reergueu dos escombros de meu corpo

Nós somos os pedaços de Deus retalhados dentro da linguagem
Nenhuma farsa consegue destruir-se por completo
Ainda carregamos conosco o resíduo de toda fé

 

 

Enigmas circulares 04
Imagem: Floriano Martins

 

 

4.

Enquanto escreves me ponho no interior de teu corpo inacabado
Vejo como me corróis por dentro em meio à vitalidade da crença nas
….imagens
Teu pensamento se ocupa de sacrificar minhas convicções
Habito-me em plena consumição de princípios
Nenhuma evidência se livra de suas faíscas de agonia

Em tuas anotações percebo o quanto te perturba riscar os pontos
….trágicos em que a escrita não se realiza como uma saída além da
….assiduidade do presente
Talvez por isto não me reconheças em ardis que ainda imaginas
….poder suprimir
As vertigens se multiplicam a lotar comboios em tua imaginação
Eu tenho que te sufocar por dentro até que divises o abismo a que
….nos entregamos
Não terás como ignorar meu esforço enquanto segues escrevendo em
….espantoso frenesi as tuas supostas ciladas

Eu grito um nome enquanto escavo o horror de tantas crônicas
Uma estranha palavra que repercute como quem se desgarra de si
….mesmo como se fôssemos elucidados por tudo aquilo que nos falta
Já não se trata de uma simples bordoada do acaso e sim da intrigante
….rede de sofrimentos que o jogo requer
Nenhum de nós pode mais simplesmente dizer o próprio nome

O que escreves aos poucos se revela como sendo a morte de nossa
….secreta identidade
Um punhado de imagens debilita tua relação com o mundo e já não
….te encontras aqui para confirmar quem

 

 

Enigmas circulares 05
Imagem: Floriano Martins

 

 

5.

Se não estás aqui eu já não tenho como desamparar-te
A astúcia é uma lancinante categoria da linguagem
Confundir a imensidão com um pequeno tumulto
E agora abrigar teus escritos em meu corpo enquanto a solidão se
….precipita sobre tua garganta a ponto de rasgar-te o vozeio dos
….nomes
Deito meu corpo para que sondes o que ali faz sentido

Qualquer um riria de nós agora que se descobre que não temos o que
….dizer
Ensaiamos a miséria humana até que ela se estenda ao sol e
….dissimulada anote os assuntos que jamais entenderemos
A singeleza de meu corpo nu pode ser um atrativo para a escrita sem
….que desesperes e queiras me transformar em método de tua
….solidão
Nós somos os nossos diferentes erros sempre conciliados da pior
….maneira
Meus olhos correm por dentro da falsa imagem que fazes de ti

Eu não posso beijar-te agora porque me evitas
Os corpos saltam de uma presunção a outra e as dores resvalam por
….um corredor sem fim onde a vontade é sempre negada em nome
….da natureza
A dor não vai acabar nunca e não me dirás teu nome
Eu não passo de uma vida explosiva que te acoberta
Adormecerás entre uma deformação e outra de teus sentidos e
….seguirás sem me dizer teu nome

 

 

Enigmas circulares 06
Imagem: Floriano Martins

 

 

6.

Bater e bater e esganar segredos e espancar infortúnios e arrasar
….pequenos ideais e violentar e arrombar e retorcer e avariar
….angústias e depredar tolices e torcer o sentido de miudezas e
….sequer rir de tudo isto como se fosse um requerimento da ordem
….local
O meu corpo gélido não passa de uma evidência
A memória se mostrará imprevisível sob tortura

O meu corpo está ali dizimado por reticências e sem que aceites teus
….limites
Um instante que seja eu não me poria de pé senão para saudar-te a
….dedicação ao extravio
Mensagens são transmitidas de uma fonte a outra e já ninguém pode
….dizer que não sabe o que pensar a respeito

Estás diante da pobre sociedade de teu corpo vitimado
Os teus meninos fora de cena
Longe de tudo, a dor do mapa foragido de suas dimensões

O desastre noturno de gemidos vigiados e gritos derramados na mesa
….dos limites
Aqui se pode morrer à exaustão e compartilhar a morte como um
….estranho vício
O olhar se arrasta por uma imensidão voraz que escama vícios como
….peixes migratórios que alimentam a sofreguidão do mundo

Quando o mapa se esvazia das marcas de tua perversão então
….podemos tatear as pequenas sombras fatigadas que
….espantosamente resistem

 

 

Enigmas circulares 07
Imagem: Floriano Martins

 

 

7.

O mundo progride por um efeito de perspectiva
De onde me vês eu posso garantir tua revolução ou quebrar a banca
….de apostas ou denunciar-te a alguma agência de notícias ou tornar-
….me comparsa de teu fingimento ou:

Trata-se de uma roupa sinuosa a da perspectiva e quando me despes
….teus olhos imensos podem não me encontrar mais em parte
….alguma
Não é certo que jamais sabemos para onde caminham nossos mortos
Estamos devastando tudo dentro de nós

As tuas ilusões se deixaram impregnar por imagens plantadas
Um mesmo catálogo de bustos anônimos e o esplendor da miséria
….com suas igrejas sepultadas no descampado da memória

Um fósforo à espera do incêndio
Um beijo à espera da conspiração
Árvore cujas folhas são olhos de serpente

Um novo cenário de vísceras pré-moldadas estimado para que todos
….nos sintamos bem
A câmara focando o rosto desfocado dela – meu nome é rosa eu fui
….espancada porque vi três homens um deles colocava algo no carro
….pipa que veio abastecer o bairro outro me batia muito e espalhava
….sal por onde me doía no corpo todo e nem precisava me dizer nada
….eu fui afligida pelo que compreendi – um rosto de evidências
….quebradiças

Não há um eu sublime
Identificamos crimes pelos quais não podemos responsabilizar
….ninguém, nem nos cabe amenizá-los
Não há justiça sem justiceiro ou regime político sem a saciedade de
….seus métodos

Eu tenho um nome um eco um fala-me e ninguém me diz nada
Há um relógio que brota de cada suspiro e me distrai com horas
….suspeitas como se a minha vida estivesse por um fio

 

 

Enigmas circulares 08
Imagem: Floriano Martins

 

 

8.

Há uma cobiça de gozos degenerando um jeito mais livre de ser
Uma fiação de regras que são a base de todo constrangimento e
….fonte de aliciamento
Teus mortos esperam em longas filas por pequenos volumes
….indecifráveis e suas pétalas de racismo e genocídio
Prosperam à espera desses pacotes de vômitos e ejaculações
….ressecadas

Flores famintas mastigam os restos calcários de tua memória
Corpos arrastados sob medida
Calvário de pratos concebidos com seus lamentos elétricos
A miséria ressumando como um abismo acidental

Ninguém sabe mais por que nome chamar a si mesmo
Nem mesmo escavando em escombros encontraríamos a
….transparência perdida
A dor multiplicada por mares descorados que se agitam em
….casarões de formas emudecidas

Lugares que se desfalecem aterrorizados por apenas soletrarem teu
….nome
Postos de comando & faixas de greve & cercos policiais
A humanidade já não guarda segredo de si

 

 

Enigmas circulares 09
Imagem: Floriano Martins

 

 

9.

A memória se reparte ao visitar escombros negros e índios em seu
….paiol metafísico
Habituada à sedutora condição de modelo vivo acabou por desterrar
….efeitos contrários

De que lado a carne se espelha no real sentido de tudo quanto toca é
….algo que não se sabe
O que foi repartido devorou a metade que ingenuamente aceitou tal
….condição
Falso dualismo que orienta a existência quer tenhamos ou não razão
E não a teremos nunca
Toda razão perdida se transfigura em deplorável quando reabilitada
É alto o preço que pagamos por haver sempre esperado alguém que
….indicasse o caminho

Eu espero
Tu esperas
As vísceras passam por aqui
O morticínio bate à porta invisível

A angústia afia seus estiletes e sonha com safenas fantásticas
Nós esperamos a espera perder o controle das horas
Em um mundo assim até os relógios oscilam entre a insônia e o
….pesadelo

 

 

Enigmas circulares 10
Imagem: Floriano Martins

 

10.

Desfigurados pelo nome e sua circunstância
Lições de abismo com endereço certo
Ensinar aos filhos que a história se faz assim

Um enxame de deuses aguardando a noite
Eu queimo de vislumbres que me descrevem com uma minúcia de
….desapontamentos
A noite não foi parar em parte alguma enquanto estivemos aqui

Eu tenho essas marcas em meu corpo que são as tuas palavras
….queimadas em vão
Revelar o teu nome já não resolve nada
Não há código civil ou justiça divina

O flagrante sempre foi o grande prestidigitador
Morremos exatamente aqui: dissidentes: relutantes: indecisos:
As versões cinematográficas se expandem

O grande negócio das quedas
Jurisdição de trevas
O Estado sou eu em qualquer estado

Eu olho em teus olhos buscando meu erro
Não nos molestamos mais
Destilamos uma frialdade absoluta

Qualquer que seja a metáfora desenhada por um de nós
Um resquício último de humanidade
Eu leio nos teus lábios que a noite não virá

 

Floriano Martins (Fortaleza, 1957). Poeta, tradutor, ensaísta e editor. Dirige a Agulha Revista de Cultura e o selo ARC Edições. Contato: floriano.agulha@gmail.com.

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97ª Leva - 11/2014 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Carolina Calvo

 

Arte: Cristina Arruda

 

Tradução: Floriano Martins

 

COMPAÑÍA REMOTA

 
Sombras que sin ti
caminan conmigo.

Ecos del ayer
golpean desafiantes las nuevas huellas.

Su presencia pendular en el aquí y en el allá
– en el allá y en este aquí sin ti-
acalla todo intento de palabra naciente,
desdibuja con pincelados recuerdos
bocas que quieren ser una.
Siempre así, oscilante,
tu ausencia se derrama como lágrima contenida
sobre inexploradas formas que quisiera besar…
pero nunca puedo.

Impiden tus sombras
…siempre así, oscilantes,
mi tránsito por caminos luminosos.

Seguiré entonces permaneciendo a tu lado sin ti
hasta que el mismo sol, compasivo,
baje y queme sin herirme
la oscura presencia de tu ser en mi ser.

 

COMPANHIA REMOTA

 
Sombras que sem ti
caminham comigo.

Ecos de ontem
golpeiam desafiantes as novas marcas.

Sua presença pendular aqui e ali
– ali e neste aqui sem ti –
desfaz com pinceladas lembranças
bocas que querem ser uma.

Sempre assim, oscilante,
tua ausência se derrama como lágrima contida
sobre inexploradas formas que quisera beijar…
porém nunca posso.

Tuas sombras impedem
…sempre assim, oscilantes,
meu trânsito por caminhos luminosos.

Seguirei então permanecendo a teu lado sem ti
até que o próprio sol, compassivo,
desça e queime sem ferir-me
a escura presença de teu ser em meu ser.

 

 

 
***

 

 

 
LEJANÍA

 

Tras la remota contemplación
de tu sonrisa en el firmamento,
sólo me resta
reordenar las estrellas
y seguir viviendo.

 

DISTÂNCIA

Após a remota contemplação
de teu sorriso no firmamento,
apenas me resta
reordenar as estrelas
e seguir vivendo.

 

 

***

 

 

AUTORRETRATO SIN MÍ

 

Tal es la ausencia
de mí esta noche,
que me conformo
con lo que
éstos versos
puedan decir
de lo que soy.
Punto.

 

 

AUTO-RETRATO  SEM MIM

 

Tal é a ausência
de mim esta noite,
que me conformo
com o que
estes versos
possam dizer
do que sou.
Ponto.

 

 

***

 

 

PUNTO MUERTO

 
Este ir sin mi,
este recorrido pendular
entre el suspiro y el silencio
¿Acaso es por repentinos tropiezos
con el polvo enrarecido del ayer?

¿Acaso envejecí antes de tiempo
y fueron inútiles los intentos
de borrar las líneas de mis manos?

No lo sé.

Sólo miro por la ventanilla del bus
las calles, semáforos, casas
y todo me es ajeno.

Recorremos sin sentido los caminos
sin nosotros
sin los otros,
siempre son miradas pasajeras
las que se posan sobre quien duerme en el asfalto.

 

PONTO MORTO

 
Este ir sem mim,
este percurso pendular
entre o suspiro e o silêncio
acaso é por repentinos tropeços
com o pó raríssimo de ontem?

Acaso envelheci antes do tempo
e foram inúteis as tentativas
de apagar as linhas de minhas mãos?

Não sei.

Apenas vejo pela janelinha do ônibus
as ruas, semáforos, casas
e tudo me é alheio.

Percorremos sem sentido os caminhos
sem nós,
sem os outros,
sempre são olhares passageiros
os que pousam sobre quem dorme no asfalto.

 

 

***

 

 

LLUVIA

 

Estos objetos que no escapan del dilatado suspiro
observan sigilosamente mis movimientos,
ante ellos
llovió esta tarde

No fue una lluvia simple. No.
Del ayer vino.

Azotó mi rostro con una danza
que aturdió mi alma
e inmovilizó mis pasos
sobre la cabeza de las piedras.

Socavó mi piel
con sus finos hilos contundentes
y abrazó mis huesos con ansías de calor.

Quise también abrazarla toda
curar su tristeza
bajo un manto de palabras
resistentes al agua de lluvia triste.

Pero las vocales necias
se ahogaron en su grito,
mis manos abrazaron mi espalda
y las piedras abrieron su coraza
para calentar mi cuerpo
con un calor escondido.

Allí comprendí
que era yo
la lluvia triste
y que son estos observadores
mi eterno invierno de diciembre.

 

CHUVA

Estes objetos que não escapam do dilatado suspiro
observam sigilosamente meus movimentos,
diante deles
choveu esta tarde.

Não foi uma chuva simples. Não.
Veio de ontem.

Açoitou meu rosto com uma dança
que aturdiu minha alma
e imobilizou meus passos
sobre a cabeça das pedras.

Escavou minha pele
com seus finos fios contundentes
e abraçou meus ossos com ânsias de calor.

Quis também abraçá-la toda
curar sua tristeza
sob um manto de palavras
resistentes à água de chuva triste.

Porém as vogais imprudentes
se afogaram em seu grito,
minhas mãos abraçaram meu dorso
e as pedras abriram sua couraça
para esquentar-me o corpo
com um calor oculto.

Ali compreendi
que a chuva triste
era eu
e que estes observadores são
meu eterno inverno de dezembro.

 

 

***

 

 
SIN ALCOHOL

 

Mala elección
pedir coctel de estrellas muertas
en esta noche sin luz

El hielo de mi vaso no se derrite
y la vela de la mesa se extingue
sin que sacie mi sed

Silente,
observas desde la otra orilla
la fría levedad del trozo transparente, sólido,
flota como tus pasos
sobre ruinas de papel.

 

SEM ÁLCOOL

Péssima escolha
pedir coquetel de estrelas mortas
nesta noite sem luz

O gelo de meu copo não derrete
e a vela da mesa se extingue
sem saciar minha sede

Silencioso,
observas da outra margem
a fria leveza do pedaço transparente, sólido,
flutua como teus passos
sobre ruínas de papel.

 

 

***

 

 

ECO

 

Grité olvido al eco
para que retornara
el sonido de paz perdida…
para que regresara sin Él.

Y nítido oí tu nombre.

 

 
ECO

 

Gritei esquecimento ao eco
para que retornasse
o som de paz perdida…
para que regressasse sem Ele.

E nítido escutei teu nome.

 

 

***

 

 

CLAVANDO CLAVOS

 

Sigo allí en esa pared
esperando que un clavo para retrato nuevo
perfore mi frente,
sangre tu nombre por la herida
y despierte pensando
que sólo fue un inquietante dolor de cabeza.

Sin embargo,
la casa se cae a pedazos.

Por misión,
orificios en cada muro
buscan inútilmente aquel lugar
dónde sonámbulas levitan tus palabras.

Ojalá no sea otro clavo
el que despoje a mis poemas
de tu sombra,
no quiero barrer
las ruinas perforadas de mi poesía

 

CRAVANDO CRAVOS

 
Sigo ali nessa parede
esperando que um cravo para retrato novo
perfure minha fronte,
sangre teu nome pela ferida
e desperte pensando
que foi apenas uma inquietante dor de cabeça.

No entanto,
a casa cai aos pedaços.

Por missão,
orifícios em cada muro
buscam inutilmente aquele lugar
onde sonâmbulas levitam as tuas palavras.

Quisera não fosse outro cravo
a despojar meus poemas
de tua sombra,
não quero varrer
as ruínas perfuradas de minha poesia.

 

 

***

 

 
CÁRCEL

 

Turbia es la mañana,
………………..  la tarde,
…………………………..la noche.

Veladas siempre las horas mientras duermes
y no me dejas escapar de tu sueño.

Despierta ya,
¡Qué se acabe la pesadilla!

 
 
CÁRCERE

Turva é a manhã,
…………….a tarde,
…………………….a noite.

Veladas sempre as horas enquanto dormes
e não me deixas escapar de teu sonho.

Desperta já,
que tenha fim o pesadelo!

 

Carolina Calvo-Pérez (Bogotá, Colômbia, 1988). Poeta, inédita em livro. Integra a oficina de criação poética da Universidade Pedagógica Nacional, coletivo que dirige o jornal Aldabón, publicação com destaque para as novas vozes da poesia colombiana, incluindo a poesia étnica de diferentes nações indígenas. Participou do Festival Internacional de Poesia de Bogotá e do Festival Internacional da Cultura, em Tunja. Neste último evento acompanhou o poeta brasileiro Floriano Martins em uma leitura de poemas incluindo vídeo, música e fotografia. Participa ainda do grupo de pesquisa Merawi, cuja linha de trabalho é a interculturalidade e seu reconhecimento em espaços educativos.

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85ª Leva - 11/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Arte: Julia Debasse

O flerte com a inquietude nos toma de tal maneira que tudo parece nela se fundar. Por vezes gentil, noutras tenebrosa, esta senhora se espraia de modo mais intenso do que supomos. E vais mais além, cria ramificações ao ponto de notarmos que, sem ela, muita coisa em matéria de criação não sobreviveria aos mínimos lances do tempo. Basta um simples gesto e logo estamos dependentes de seus comandos, todos eles a ditar o modo como gestar as obras. Ao pensarmos na construção de uma nova Leva da revista, raramente nos vem em mente a presença absoluta e centralizadora de um tema qualquer. Pelo contrário, buscamos aquilo que emana das criações de então, estabelecendo uma via de mão dupla, ciclo constante a retroalimentar nossos ímpetos editoriais. Mas até mesmo esse desejo de sempre impulsionar a aproximação de novos colaboradores e seus feitos deriva dos arremates da inquietude. O termo vem a calhar diante de manifestações criativas como as da artista plástica Julia Debasse que, com seus desenhos e pinturas, opera um efeito de diálogo com o mosaico de textos que ora apresentamos. É possível perceber isso na convergência tida em torno dos poemas de Gustavo Petter, Mar Becker, Fred Matos, Marcantonio e João Filho. No caminho que exala densidades, os contos de Állex Leilla, Sérgio Tavares e Lara Amaral nos falam de coisas entranhadas nos recônditos humanos. O escritor e editor Floriano Martins partilha conosco uma conversa com a cantora Elaine Guedes. Aos olhos de Silvério Duque, o novo livro de poemas de Heitor Brasileiro Filho é verdadeiro convite à leitura. As impressões sobre o filme “Frances Ha” estão registradas nas linhas de Larissa Mendes. Evocando a obra do escritor Whisner Fraga, Anderson Fonseca e Mariel Reis assinalam seus olhares. No girar de nosso Gramofone, as escutas estão voltadas para “Recanto”, trigésimo disco da vigorosa carreira de Gal Costa. Assim, pautamos a construção de mais uma edição, certos de que ao menor esboço de ausência da inquietude, saberemos que algo está fora da ordem natural das coisas. Sendo improvável tal falta, nasce e resiste uma 85ª Leva. Boas leituras a todos!

 

Os Leveiros

 

 

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85ª Leva - 11/2013 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

ELAINE GUEDES & O FOGO ALHEIO DE TODOS NÓS

Por Floriano Martins

Diálogo entrecortado de melodias adoráveis. Há anos conheci rapidamente a Elaine Guedes (1968). O meu olhar se deteve em sua alegria de viver e o meu ouvido em sua voz entranhável. Logo em seguida o silêncio se ramificou entre nós de todas as formas. Quando nos reencontramos, seu currículo já havia dado um salto qualitativo vultoso, com discos gravados e livros publicados. Surpreendeu-me descobrir na cantora um duplo poético, autora de letras e poemas. E foi essa descoberta de uma Elaine Guedes que é tudo menos alheia à tensão entre dois mundos paralelos que se chocam entre si com frequência destrutiva, o doméstico e o da criação, que me levou à realização dessa entrevista. Os bastidores guardam sua singularidade saborosa, com recortes tais como: “Eu achava que fazer música era coisa de uma espécie de ser humano diferenciado. Mas até o mergulho na música é uma questão de trabalho, de estudo, não é solitária como a escrita e é bom saber do que estamos falando ao dialogar com o músico.” Ou essa preciosidade: “Sucesso para mim é fazer algo que se quer ler ou ouvir repetidas vezes. E propor uma novidade, coisa tão difícil, que todo mundo diz ser impossível hoje em dia. Eu não acho. Nesses tempos em que as pessoas sobre a tortura light, todos estão conduzidos sem perceber, espremidos, o consumo é um paliativo e se chega na segunda-feira sem perceber. Eu quero viver percebendo, tendo a possibilidade de encontrar um trabalho bom.” Tamanha vitalidade existencial me fascina em meio a uma estrada gasta por onde circula a arte em nosso tempo, engasgada no tempo, retida numa alfândega de valores revolucionários já datados. Não há nada mais saudável do que um artista que quer romper com a pasmaceira virulenta em que se converteu seu próprio tempo. Elaine é um bom exemplo dessa atitude guerreira. A voz de Elaine Guedes em uma canção sua. A voz de Elaine Guedes em um poema meu. A voz de Elaine Guedes no diálogo que tivemos e que agora compartilhamos com os leitores de Diversos Afins.

Elaine Guedes / Foto: Julio Cerino

 

FLORIANO MARTINS – Como a música entra em tua vida?

ELAINE GUEDES – Meu nome foi escolhido porque meu pai ouviu anunciar uma cantora na rádio, e não devia ser brasileira. Na minha casa música não existia, e o clima Polícia Federal era bem pesado, pai e mãe. No entanto eu pedi aos nove anos um som de presente, o primeiro compacto que comprei foi Crosby, Stills, Nash and Young (I can see clearly now) e Billy Paul — Me and Mrs. Jones.

Aos dez anos eu cantava na Igreja Católica, mas uma madre insistia que minha alegria era over. E eu abandonei os dois. Sinto que me tornei uma pessoa com grande dificuldade de me expressar, por isso procurei a música, ela é um canal não tão racional, pra dentro de mim mesma.

Rapidamente me vi em Fortaleza fazendo backings para o Tazo Costa no Teatro da Encetur. Depois comecei minha carreira-solo e fui estudar com Paulo Fortes, cinco anos de canto lírico. Cantei com o Tim Maia, Cassiano e Jorge Ben Jor.

FM – Desde quando começaste a escrever sempre esteve presente essa atenção a um “estado de entrega”? Suponho que isto queira dizer que tens uma disposição para o mergulho em grandes águas, o que nos leva inclusive à improvisação. Já falaremos da música, mas comecemos pelas fontes literárias: tuas leituras.

ELAINE GUEDES – Estado de entrega é uma necessidade, é vital porque é algo que fica ruminando, então eu tenho que ir lá ver o que é, e vejo escrevendo.

Eu acho que sempre precisei escrever. E ler. Aos treze anos eu ganhei uma leitura que, não sabia por que, me marcou para sempre: os contos de Voltaire, em especial Candide. Lembro de uma vez, aos dezoito anos, ter causado certa fúria em minha mãe por ter chegado com 20 livros de uma só vez em casa, dentre eles muitos da coleção Civilização Brasileira. Li muito sobre temas sociais e os filósofos — cursei primeiro Serviço Social, depois Ciências Sociais na UFRJ, não terminei. Então aos dezoito já havia lido Descartes, Morus, Platão… Ao mesmo tempo, ou um pouco antes, eu lia todos os bolsilivros de Lou Carrigan com sua agente Brigitte Monfort. Li Os 7 Minutos, Irving Wallace, e comprei todos os autores citados. Leitura é uma curiosidade, e estou sempre contrabalançando a literatura. Sou apaixonada por romance histórico. Agora estou na fase Guerra de Fogo e Gelo, leitura adolescente, que me faz dormir e sair da minha realidade. Que não chega nem perto de meu livro quase predileto, Terra Nostra, de Carlos Fuentes. Em matéria de fantasia… é sem comparação. Como vê, me interessa estar com a cabeça em grandes ondas imaginárias. Preciso disso porque estou gravando, durante o dia, o áudio do livro do Roberto Campos, Lanterna na Popa.

FM – Conversávamos em outro momento sobre tua ideia de introduzir uma linguagem do jazz em algumas canções. Considerando a íntima relação entre jazz e surrealismo, eu sempre observo a criação artística no Brasil um pouco refém de uma racionalidade excessiva que contrasta com outro excesso, o de sua potencialidade mágica. É como um tipo com dotes espíritas nascido em uma opressora família católica. Essa relação acaba por criar um trauma. Então por vezes eu vejo a tradição da poesia e da canção popular no Brasil como devorada por esse trauma que lhe afastou do saudável convívio com o surrealismo e o jazz. Observe que falo em canção popular, o que exclui a música instrumental, pois esta é dotada de um sentido de liberdade magnífico que vem lá de um Pixinguinha, passa pelos chorões, a gafieira, essa figura magistral que foi Radamés Gnattali, e mestres como Paulo Moura, Egberto Gismonti e essa impressionante escola natural de multiplicações incansáveis de vertentes que é Hermeto Pascoal. Já a canção popular atendeu a dois caprichos, o da conveniência de mercado e o esvaziamento de discurso por limitação de linguagem expressiva. Quando me falas em teu projeto de aproximação do jazz ele me soa como um canto de libertação. Comenta um pouco tua impressão sobre o que menciono aqui, e me fala de tuas ideias jazzísticas.

ELAINE GUEDES – Bem, a música pop tem regras, a arte não tem regras. Fez-se muita música para Wall Street, que é a teoria do consumo rápido, não da surpresa. Bem objetivo. Tudo o que não quero fazer. E acho que esse empobrecimento da linguagem tem a ver com setorizar. Você foi perfeito na sua colocação. Eu estou buscando sempre a mim mesma, através da escrita e da música. Cantar é descobrir meu retrato em mutação… Adotei um processo interessante, gravar à capela antes de gravar com os músicos. Depois ouvir e ter a mim mesma como referência, quando a música é conhecida. Isto me impede de ter outra cantora como parâmetro pra a canção.

A música pode ser “cinematográfica”. A música tem que ter o cenário. Jazz talvez represente apenas essa liberdade. Eu estou até mesmo pensando em simplificar as harmonias, usar bastantes ostinatos, tornar as bases simples para me sentir bem à vontade. Eu acho que isso fica mais perto dos ouvidos populares, e fica mais perto de mim, que tenho a informação do rock, na veia.

FM – O Brasil é aparentemente um país antissistêmico. Há inúmeros ensaios sobre o que se chama de carnavalização de nossa cultura. No entanto, essa leitura é fruto de uma estratégia de poder, dentro do espírito mais primário do conceito de “pão & circo”. Quando John Lennon foi assassinado a mídia projetou uma overdose mítica, já de todo desnecessária, por sua importância inquestionável. O brasileiro Almir Chediak foi estupidamente assassinado por um sequestrador incompetente. A mídia no Brasil jamais conseguiu entender a grandeza de sua importância para a música brasileira. Sua série de songbooks tem uma dupla importância que se pode dizer épica: a histórica, a recuperação de patrimônio, o ensinamento do amor pelo que é nosso, no caso dos compositores, ao lado da lição que dá aos cantores, de que fiquem atentos ao veio riquíssimo de nosso cancioneiro, inclusive variando repertório e concepção de arranjo. Sempre buscamos equivalências em casa para o que há de mais patético no mundo e nunca nos orgulhamos do que temos de mais relevante. Fala um pouquinho disso tudo.

ELAINE GUEDES – Tenho duas lembranças que ilustram isso: uma, um texto de Antônio Bezerra de Menezes, que quando vice-cônsul em Nova Orleans, se via obrigado a legalizar faturas consulares de milhares de dólares em casacos de peles e automóveis usados, como forma de dissipar um precioso saldo pelo abastecimento da máquina de guerra americana com nossos minerais, essenciais: urânio, areias monazíticas, manganês etc.

Essa noção de valor a que você se refere parece cópia da estátua da liberdade na Barra da Tijuca.

Nós nos acostumamos com a humilhação, por sermos colonos ou sermos escravos.

A postura de não nos valorizar ainda não mudou. Eu me lembro também de certa vez em Nova York um amigo me chamar a atenção porque eu dizia em demasia “I’m sorry”. Então passei a observar que somos um enorme “I’m sorry”. Até bem pouco tempo, e acho que não mudou demais, observa: se uma pessoa pobre, ou negra, enfim, levasse um esbarrão de outra pessoa branca, ou rica… Era o pobre e negro quem pedia, ou pede, desculpas. E se esquecermos esta questão… às vezes ando de bicicleta pela calçada e se alguém me percebe atrás de si, se afasta e ainda me pede desculpas! É uma postura que sempre tivemos, não pensamos como independentes. Inclusive deve ser por isso que não se produzem tantos filmes sobre a nossa história, não se diz nas escolas o quanto a música brasileira elevou o Brasil. Tem uma coisa mudando, mas tem uma filosofia perigosa também, no meio da atual inclusão: a nivelação por baixo. É talvez a ideologia de parte da classe dominante que se lançou na esquerda, e que achava operário “pobre coitado”. Eu acho que isto diminui a qualidade do homem, do cidadão. É a filosofia da Rede Globo, atualmente, e de quase todas as emissoras, a de que o povão, agora consumidor, não “alcança” a qualidade intelectual. Eu acho que o governo também faz isso em muitos programas e procedimentos, visto a escola pública que pouco reprova, se reprova.

O que nós temos de melhor é por outro lado a espontaneidade que brota apesar dos comandos, apesar das ditaduras e das correntes, sempre aconteceu. Com um sorriso de desculpas às vezes, com força outras…

O funk tem força, é espontâneo… Mas é uma manifestação perigosa porque ela acorrenta os valores, que são o retrato de um país cuja elite não valoriza a cultura, a elite que trocou nosso urânio por casacos de pele! Cultura do eu, do meu… Cultura em sua plenitude quer dizer: “um homem educado é a suprema obra de arte”. Não sei de quem é esta frase.

Elaine Guedes/ Foto: Julio Cerino

FM- Vamos conversar sobre os discos gravados até aqui. O que marca a tua voz? O que ela deseja de ti?

ELAINE GUEDES – O primeiro foi Comer, pela Niterói Discos, que concorreu ao Prêmio Sharp, foi mal compreendido e também mal trabalhado, porque o CD era feito, mas não se acompanhava todo um caminho posterior. Esse disco tem uma sofisticação, nunca economizamos nos acordes. Eu ouvia muito hip-hop e Anita Baker, sempre a mistura. Aliás, comecei a compor porque o selo não queria pagar direitos autorais, Arhur Maia e Altay Vesolo me entregaram músicas para eu colocar a letra. Um processo que não faço mais. O segundo foi bacana, Elaine Guedes, independente. O terceiro foi ao vivo, gostei muito, tem uma música inédita do Lenine.

Tudo o que fiz foi um processo. Sinto que estou encontrando unidade agora, estou trabalhando mais também. Durante um tempo fiquei apegada demais à família, não zelei o tanto que a carreira exigia.

FM – Tens um bom sentido estético de direção de teus projetos. Escrever as letras para outros parceiros, considerando que serás, em grande parte, a cantora das canções, pode em algum caso gerar uma frustração ante o surgimento de uma melodia que não era exatamente a que esperavas para compor o ambiente da letra. Isto costuma acontecer? Sentes falta do domínio de algum instrumento que pudesses tocar para te ajudar na composição?

ELAINE GUEDES – Já acontece demais, até que desisti de fazer música esperando cantá-la. Agora eu canto se achar que tem a ver com o projeto do momento. Cantar minhas músicas nesse atual projeto Bluesy vai ser fogo! São canções de Cartola e Thelonious Monk! O Moacyr Luz fez uma música comigo, claro que eu mandei um monte de canções pra tentar seduzi-lo, mas o sedutor é ele, ele sabe o que a música pede e tem seu jeito pessoal, ficou linda. Mas essa cabe, é difícil dizer que cabe, porque estamos falando de canções geniais. O Aleh Ferreira está com outra letra, e depois de ver meu encanto por Nelson Cavaquinho, jurou que procuraria uma inspiração nele. Assim vamos caminhando.

Falta do domínio de um instrumento? O tempo todo, eu me sinto capenga por isto, quase com uma perna só! Falta de cultura minha. Quando comecei a cantar tinha muita namorada de músico cantando. O Ed Motta falou que o Brasil ainda é assim, até me aborreci, mas é o resultado de nossa cultura. Isto está mudando. Agora música é matéria obrigatória nas escolas, e música é mais que cantar sem ter uma noção imensa do que isto significa. E tocar um instrumento tem que fazer parte de aprender a cantar. Eu só arranho.

FM – O mercado da música hoje me parece mais interessado na contraimagem do que na imagem em si. Observo isto porque em nossas conversas dizias que a Adele teria que emagrecer para seguir vendendo discos. Suicidas em potencial como Amy Winehouse ou gordas adoráveis como a própria Adele contestam um pouco a tua assertiva. O mercado já converteu a moral em algo repleto de glamour. Mas a essência estava no glamour e nunca na moral. Agora o escândalo volta a ter certo charme.

ELAINE GUEDES – Eu adoro toda quebra de conceitos! É o mercado que quer que Adele emagreça, eu não, acho-a linda! Eu adoro ver o sucesso Antony & the Johnsons, Björk é sensacional, eu não estou nem aí pra estética, mas eu me sinto cobrada com relação à imagem.

O escândalo está de volta porque a mídia não conseguiu produzir nada avassalador ultimamente. E nem mesmo consegue pegar a ideia da quebra de paradigma para produzir revolução! A essência está sempre na necessidade, não na ideia de sucesso.

FM – Agora mesmo estás em processo de preparação de repertório e arranjos de um novo show, o que certamente acabará remetendo à gravação de um disco. O que já podes revelar do que andas planejando?

ELAINE GUEDES – Apenas que abortei temporariamente a ideia de gravar as canções que compus com tanta gente pelo mundo afora, pela Internet. Ficou sem unidade. Então fui cantar na Lapa com músicos estrangeiros, e me dediquei a um repertório que nunca tinha esperado cantar. Clássicos. Mas eu quero só é achar o meu jeito de interpretá-los. Dá o maior trabalho não me apoiar na interpretação dessas divas como Billie Holliday, por exemplo.

Eu só quero ouvir a minha voz quando pensar numa dessas músicas que escolho.

FM – Publicaste um livro, O Amor Nu, e agora tens um novo título em fase de edição. Como se encontram essas distintas formas de expressão?

ELAINE GUEDES – Dentro da minha casa, onde eu produzo, é aqui que me encontro, sou essas coisas e pronto. Alguns dos poemas de O Amor Nu viraram música, tem links na Internet. Algumas eu não gravei. O livro novo é mais ousado e escrito a quatro mãos, Poemas em Cortes Profundos, com João Ayres. E ganhei um presente imenso da vida: um prefácio do Ivan Lins, escrito magistralmente.

Encontro-me na emoção das coisas que faço. Revelo-me nelas, inclusive para mim mesma.

FM – Esquecemos algo?

ELAINE GUEDES – Essa foi a pergunta mais difícil.

 

 

(Floriano Martins (Brasil, 1957) é poeta, editor e ensaísta. Dirige a Agulha Revista de Cultura. Entre os seus livros mais recentes, se encontram Autobiografia de um truque” (2010) e Susana Wald – La vastedad simbólica” (2012))

 

 

 

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78ª Leva - 04/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

 

Foto: Rosa De Luca

 

O eternal movimento das águas nos conclama a desabitar as zonas de conforto. A impermanência, sugestão maior desse fluxo, é uma das crias mais valiosas do tempo, um avanço sorrateiro pelas trincheiras da toda poderosa senhora incerteza. De modo imponente, essa majestosa companheira parece muito mais afugentar corações e mentes do que qualquer outra coisa. Teimosamente, escritores e artistas cumprem o ritual das indagações, trazendo à baila dimensões possíveis para a ciranda da vida. Expressar-se, por si só, já pode se prestar a um indício de rompimento com o conformismo. E isso apenas não basta. Indo além, é preciso atirar verbos ao vento, submeter as imagens ao crivo dos olhares, extrair da abstração das horas o sumo das linguagens. Quando tentamos erguer uma edição da revista, é sempre desafiador refletir sobre os caminhos que nos impulsionam. Perceber, por exemplo, a grande metáfora que nos motiva a transcorrer sobre o ciclo das águas, agora, é um deixar-se guiar pelo convite de uma artista como Rosa De Luca, que, com suas fotografias, provoca em nós uma apreensão dos deslocamentos os quais a existência não se cansa de nos apresentar. É essa liquidez de sentimentos dispersos que também nos leva a abraçar a verve poética de pessoas como Rita Santana, Tristan Guimet, Tatiana Druck, Wender Montenegro, Floriano Martins e Vítor Nascimento Sá. Seguindo a corrente dos signos, entrevistamos o escritor e jornalista Sérgio Tavares, que dividiu conosco um pouco da sua trajetória literária, sobretudo no que se refere ao seu novo livro, ”Queda da própria altura”, obra que se presta a um digno mergulho de cunho intimista. No ato de construir histórias, Lisa Alves, Anderson Fonseca e Vera Helena Rossi demarcam, através de seus contos, universos peculiares para os desatinos humanos. A memória do poeta cearense Francisco Carvalho é celebrada no texto de Clarissa Macedo. O instigante “Dentro da Casa”, filme do diretor francês François Ozon, ganha espaço na resenha de Larissa Mendes. Das paragens mineiras para o nosso caderno musical, vem o belo trabalho de Luiza Brina e O Liquidificador. Numa alusão ao curso interminável das águas, deixamos fluir uma nova Leva, com toda a vontade de que os caminhos materializem cada vez mais o ideal de continuidade.

 

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