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154ª Leva - 02/2024 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Marcelo Leal

 

Cada edição que desponta no horizonte de nossa caminhada desperta sempre o gosto por ares renovados. São indicativos de que outras escutas seguem abertas e se fazem presentes. Tais inclinações nos levam a conhecer vozes do mundo cultural, subjetividades que, acima de tudo, projetam o desejo de uma existência quiçá mais plena, dado o componente de que provavelmente a arte seja, em suma, vetor de uma consciência mais ampla acerca do mundo e seus fenômenos. E não estamos aqui a falar somente da arte que intenta contemplações ou fruições estéticas das mais variadas, mas também aquela que é capaz de conectar seus protagonistas aos mais difusos anseios contemporâneos. Nesse sentido, cultura e sociedade são um par indissociável, deixando entrever desdobramentos de cunho social, político e econômico, para não mencionar outros aspectos plausíveis. É perceber que todos nós somos agentes de possibilidades vivas de transformação, condição esta que tem como ponto de partida o plano individual de cada sujeito, seu repertório pessoal. Quando essa dimensão particular se espraia na esfera pública, tomamos conhecimento do potencial que cada criador compartilha com o mundo externo. Por isso, ler, ver e sentir as obras é fundamental numa jornada como a da nossa revista, pois esse gesto revela descobertas e norteia direções que oxigenam os caminhos editoriais. É, então, com esse entusiasmo que acolhemos agora toda a expressividade marcante de poetas como Rita Santana, Karine Padilha, Luciana Moraes, Bianca Monteiro Garcia e Jussara Salazar. Nesta nova edição, somos visitados pelas fotografias de Marcelo Leal, numa exposição de imagens que remontam aos detalhes poéticos do mundo. No caderno de teatro, Vivian Pizzinga desfila todas as suas atentas impressões para a peça “A palavra que resta”. Por sua vez, Guilherme Preger traz análises importantes sobre o provocante filme “A Substância”. Com uma resenha sobre “O inquilino das horas”, livro do poeta Nílson Galvão, Maruzia Dultra nos convoca a expandirmos nossos territórios de leitura. Numa entrevista especialmente centrada em seu mais novo livro, o escritor Marcus Vinícius Rodrigues dialoga com Fabrício Brandão sobre seus processos criativos. Nos cadernos de prosa, os contos de Cecília Vieira e Rodrigo Melo denotam diversidades inventivas. O livro de poemas de Kátia Borges, “Dias amenos”, recebe os mergulhos valiosos de Sandro Ornellas. Como não poderia faltar, gira na agulha de nosso Gramofone o mais recente álbum do pianista Amaro Freitas, com um texto que revela as apreciações de Rogério Coutinho para esse importante trabalho do artista pernambucano. Eis a nossa 154ª Leva. Boas leituras e que venham instigantes ventos culturais em 2025!

Os Leveiros            

 

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150ª Leva - 05/2022 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Marcelo Frazão

 

A arte de fotografar não se resume a clicar e registrar um momento de uma pessoa ou objeto. Todo e qualquer registro artístico envolve, além do olhar, percepção e sensibilidade. A técnica é importante, mas deve passar despercebida como em qualquer outra arte. Fotografar é uma arte solitária.

Profundo conhecedor do ofício, Edgard é doutor em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da UFRJ, mestre em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da UFBA, onde leciona na Graduação e Pós-Graduação e desenvolve pesquisas sobre a imagem. Participou de eventos culturais e expositivos no Brasil, Alemanha, França, Bélgica, Holanda, Estados Unidos e Portugal, bem como de uma residência artística na Escola Superior de Artes Visuais da Ilha da Reunião (FR) em 2008. Entre 1994 e 2004, trabalhou como instrutor/professor de pintura na Oficina de Artes Visuais do Museu de Arte Moderna da Bahia.

Edgard Oliva é um fotógrafo que incorpora o aparelho fotográfico ao próprio corpo para revelar o oculto. A técnica não é percebida até o observador se dar conta que está envolvido e preso na fruição da imagem. Este é o mistério: saber definir toda uma paisagem que aprisiona num único click. É como olhar um pensamento. E isto é mágico. Fotografar não é apenas clicar. É inspiração. É a arte e a paixão de quem congela o tempo, deixando muito de si no registro da imagem.

 

Edgard Oliva / Foto: Alex Simões

 

DA – Qual seu primeiro contato com a fotografia?

EDGARD OLIVA – Desde a minha infância, adolescência. Meu pais gostavam e minha mãe era a fotógrafa da família desde quando meu avô a presenteou com uma câmera fotográfica nos anos 1940, por aí. Nos anos 1970, ela teve uma Kodak Instamatic e foi com esta câmera que eu iniciei os primeiros cliques na adolescência, entrando pela vida universitária, no final do anos 1970.

 

DA – Nos tempos de hoje, a fotografia ainda é possível como profissão?

EDGARD OLIVA – Sim. A fotografia digital proporcionou que muitos “novos” fotógrafos, e fotógrafas, tivessem a oportunidade de realizar com mais rapidez o aprendizado da fotografia. O autoaprendizado através dos tutoriais facilitou muito o interesse pela profissão de fotógrafo/a, além dos cursos particulares possíveis de serem realizados, pois o custo do material deixou de existir. Contudo, os equipamentos ficaram mais caros, mas o fator custo benefício compensa.

 

DA – Fotografia: analógica ou digital?

EDGARD OLIVA – Analógica para os apaixonados pela química, a fotografia arte, a imagem manual e mais racional, pensada e que não podemos “deletar”.

A digital para os apaixonados pela imagem, a imagem instantânea, a imagem eletrônica, mas que não perde seu valor estético conquanto imagem e arte, naturalmente. Contudo, penso que, tanto na categoria arte quanto no documentário e no jornalismo, todas as categorias se beneficiam muito bem da tecnologia atual.

 

DA – Qual o seu maior prazer em relação à fotografia?

EDGARD OLIVA – Alcançar na captura da imagem o que meu olhar consegue perceber e capturar a partir da luz não premeditada, pré-definida, mas a luz que se apresenta para o fotógrafo. São as melhores imagens, pois elas nos dão sensações diferentes, são emoções pós objeto iluminado e capturado pelo olhar mecânico/eletrônico do equipamento.

 

DA – Possui alguma mania quando fotografa?

EDGARD OLIVA –  Não, somente estar só e “escutar” o que a luz me ensina. A qualidade da luz/imagem é o mais importante.

 

Edgard Oliva / Foto: Alex Simões

 

DA – O que é imprescindível para se obter uma boa fotografia?

EDGARD OLIVA –  O imprescindível: sensações e emoções. Previsão do resultado, dominar a luz a partir do uso correto do equipamento.

 

DA – Como você avalia a leitura da imagem fotográfica hoje?

EDGARD OLIVA – Se você tem um grupo de aprendizes de fotografia é importante iniciar pela leitura de textos para que o texto te traga à imagem. A imagem, para nós humanos, não existe sem o texto porque, ela própria, a imagem, já é um texto. Se a lemos visualmente é porque ela nos proporcionou interpretá-la. Sendo assim, é importante compreender a imagem para que possamos lê-la corretamente. Ela, a imagem, é o que foi em um passado recente ou outrora existente como sujeito registrado como fotografia.

 

DA – Em relação ao ensino da fotografia, quais os principais desafios a se enfrentar?

EDGARD OLIVA – Educar o olhar, avaliar qual o equipamento a ser utilizado, entender por que eu quero me aproximar dessa tecnologia tão desejada pelo homem no passado, e somente lembrando que a imagem fixada em um suporte a partir da luz foi pensada por Aristóteles em 350 a. C. Por aí, vejamos, relatando esse início da produção imagética aos alunos ou a aprendizes individuais, o desejo em desfrutar desse poderoso invento aumenta. Nesse sentido, colocar o aluno no laboratório de fotografia e ele perceber, aprender como foi o início de todo o processo, a aluna ou aluno logo quer saber mais sobre o continuum da formação da imagem. Entretanto, seguir adiante na carreira, fica à luz de cada uma/um. Assim, o desafio está como fazer a pessoa se apaixonar e desejar mais.

 

DA – Qual deveria ser o foco de um fotógrafo iniciante para aprimorar seu trabalho?

EDGARD OLIVA – O próprio ser humano. As expressões, os ambientes que os representam, as identidades pessoais, a busca por uma luz própria. A luz é a assinatura de cada fotógrafo.

 

DA – Como você vê a produção acadêmica? Ela difere da fotografia do dia a dia?

EDGARD OLIVA – A fotografia acadêmica se fecha dentro de um reduto acadêmico e científico, teórico ou teórico-prático. É preciso ter muito cuidado para não perder o lado pessoal de identidade própria conquanto fotógrafo artista ou documental. A fotografia acadêmica é muito importante do ponto de vista da compreensão e interpretação das imagens. Por isso eu fui por este caminho, a universidade, como pesquisador e professor. Não bastava fotografar, mas entender melhor meu objeto a partir do meu olhar.

A fotografia autoral e independente da estrutura acadêmica proporciona uma outra experiência, a experiência do livre árbitro, de um poder de decisão imenso e importante para a carreira do fotógrafo. O processo dá-se como o voo da águia: é solitário, mas com o olhar preciso.

 

Edgard Oliva / Foto: arquivo pessoal

 

DA – A imagem tornou-se banal com o advento dos celulares ou essa tecnologia foi um ganho?

EDGARD OLIVA – Ela banalizou. Contudo, ocorre hoje o que ocorreu quando, em 1888, o George Eastman criou a primeira câmera fotográfica em pequeno formato e, com isso, ele permitiu popularizar a fotografia ainda no século XIX. Incrível, mas ele fez isso numa época em que somente quem poderia pagar para um fotógrafo a reprodução de uma cena de família teria chances de ter uma imagem da nova tecnologia à época: a imagem mecânica, não mais a pintura como documento, a luz e a química se complementando através do sistema negativo positivo, elementos os quais ressignificavam os processos de obtenção da “nova imagem”. No presente, os equipamentos eletrônicos dominam nosso cotidiano. A câmera fotográfica digital miniatura, que não existe mais, substituída pelos aparelhos de telefone celulares. Com esse advento, a imagem sim, banalizou, mas a arte e o documental ganharam. A fidelidade ou a abstração da imagem adquiriram valor de Fine Art, valor monetário e cultural no sentido de possibilitar maior acessibilidade em todos os aspectos.

 

DA – Qual o maior inimigo da fotografia enquanto arte?

EDGARD OLIVA – Como eu disse anteriormente, a fotografia deve ser vista como imagem do cotidiano, aquela em que se registra o dia a dia da/do cidadã/cidadão (Facebook, Instagram e Twitter, etc.), a imagem para a imprensa ou a imagem dedicada à arte. São três níveis de imagens os quais devemos observá-las com cuidado. Elas nos revelam estratos do olhar e do modus operandi do sujeito que a produz. Não podemos nos dissociar mais desses três níveis de produção imagética. Nesse sentido, é preciso estar de olhos abertos para a fotografia arte porque ela nos coloca em outro patamar, nos tira de uma visualidade simples para uma visualidade interna, para uma reflexão da nossa própria existência e como percebemos a presença do outro no nosso contexto social.

 

DA – Existe uma fotografia baiana?

EDGARD OLIVA – Existe sim, e ela está impregnada em cada um que aqui na Bahia fotografa. Eu diria que mesmo para quem não é baiana/baiano, chegando na Bahia e tomando a nossa paisagem visível, em todos os sentidos, e realizando imagens para o documental ou para o viés artístico, é uma fotografia baiana, pois ela está impregnada de elementos nativos da Bahia. Então, eu acho que a fotografia ganha identidades a partir do local onde elas são capturadas, e não porque tal e tal fotógrafo ou fotógrafa utilizou do equipamento para isso. Há nomes em nosso estado sim, são genuinamente baianos que preservam a identidade cultural da Bahia, uma Bahia de múltiplas facetas, e isso nos garante uma particularidade.

 

DA – Qual considera o seu trabalho (ou trabalhos) mais icônico?

EDGARD OLIVA – Todos os trabalhos que eu pude realizar até o presente considero icônicos. Contudo, os registros sobre a estética dos presépios na Chapada Diamantina foram os registros mais importantes para minha carreira conquanto fotógrafo artista. Da orientação do olhar para a leitura a partir da semiótica da imagem e compreendê-la não somente como fotografia, mas como objeto de estudo para entender o homem e as história pessoais a partir do contexto de oralidade regional, foi muito importante. Os demais projetos que realizei, e que ainda realizo, estão dentro de uma perspectiva da subjetividade da imagem, a imagem conquanto paisagem interna, as paisagens que nos fazem sofrer ou repensar nosso passado e presente. São paisagens interiores transferidas de modo subjetivo para o olhar do espectador. Daí, necessitamos expô-las e abrir diálogos com o espectador para satisfazê-lo, compreender a partir de um olhar “estrangeiro”. É o olhar de fora para dentro, contrário à percepção do artista fotógrafo que olha de si para o exterior.

 

Presépio de Maria da Natividade Souza, Iramaia-BA, Brasil, 2002 / Foto: Edgard Oliva

 

DA – Existe algum tema que jamais abordaria no seu trabalho?

EDGARD OLIVA – Não, nenhum desde que seja possível realizá-lo e mostrar. Cada ideia pode se transformar em um projeto importante, mas nem todo projeto poderá se tornar importante.

 

DA – Um livro imprescindível para o fotógrafo.

EDGARD OLIVA – Bem, existem vários. Desde os de conteúdo técnico/tecnológico até os livros autorais que tratam da imagem fenomenológica, da fotografia conquanto documento, da fotografia arte, enfim, se você quer saber qual me orientaria melhor no aprendizado sobre como obter uma boa imagem, eu indicaria “A câmera” de Ansel Adams, assim como “O filme” e “O negativo” do mesmo autor, um renomado fotógrafo norte-americano que investiu muito na qualidade da imagem, a imagem em preto e branco e com todas as gamas de cinzas indo do preto total ao branco total, ou seja, luz e não luz. Mas, se você me pergunta sobre a imagem tecnológica e numa linha filosófica, eu indico o título “Filosofia da Caixa Preta” de Vilém Flusser. Mas, se se trata da imagem conceito, da imagem reflexiva, podemos ter autores como Gaston Bachelard, Henrri Bergson, Jacques Rancière, George Didi-Huberman, Boris Kossoy com uma abordagem fundamentada na história da fotografia e sua temporalidade, e o próprio Sebastião Salgado com o título “Da minha terra à terra”, entre outros, pois nos beneficiam com novas reflexões a partir das imagens, pontuando o que somos neste bioma terrestre.

 

DA – Qual o fotógrafo ou artista, vivo ou morto, gostaria de convidar para um bate-papo ou um café?

EDGARD OLIVA – Pensando bem, o Hiroshi Sugimoto. Na minha opinião, ele consegue nos mostrar o que não conseguimos perceber com nossa sensibilidade tão conturbada e modificada pela modernidade. São olhares sobre o contínuo do processo da existência, e sobre nós mesmos, para com o outro e a natureza das coisas presentes. A partir desse princípio, eu tomaria um café ou um chá com ele, mesmo sem falar nada da língua japonesa.

 

Marcelo Frazão é artista plástico, poeta e editor. Publicou Haikai (1996) e Homo Sapiens Sexualis (2015). Ganhou o Premio APCA em parceria com Olga Savary. Atualmente trabalha como editor da Villa Olívia e ilustra para o Jornal Rascunho.

 

 

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150ª Leva - 05/2022 Destaques Olhares

Olhares

A poética do despercebido

 Por Fabrício Brandão

 

Foto: Yuri Bittar

 

Estar presente é uma condição que permanece emblemática para todos nós. Tal percepção vem da ideia de que o momento mais importante da vida seria o agora, esse instante sobre o qual estamos de fato materializando as vivências. E estar atento a isso parece redimensionar toda uma carga de coisas marcada pela dispersão contemporânea de nossos tempos. Quando estamos conectados ao presente, passamos a prestar atenção em muitos fenômenos que acontecem ao nosso redor, escutamos pessoas e tendemos, inclusive, a assimilar aquilo que se abriga no campo do despercebido.

Sem dúvida alguma, a fotografia é um dos ramos da arte que conseguem nos apresentar traços valiosos sobre aquilo que se esconde por trás da rotina dos dias. E captar o imperceptível é um dos desafios da atualidade. Ao percorrermos registros de alguém como o fotógrafo Yuri Bittar, sentimos que a concepção da imagem põe em evidência a apreensão dos detalhes da vida. Como quem congela o instante, Yuri revela uma habilidade em nos apresentar a poesia que se esconde nos recônditos do cotidiano.

Conceber a imagem de tal forma é também defender uma atitude meditativa diante de todas os seres, lugares e objetos retratados. Adepto da Fotografia Contemplativa, Yuri se mostra um artista cuidadoso em não lançar filtros sobre tudo o que capta, posto que a sua presença diante daquilo que pretende registrar é aquela que silencia para que o mundo siga seu fluxo natural. Ao mesmo tempo, essa forma de trabalhar a imagem só é possível de se concretizar quando o fotógrafo está completamente entregue ao presente.

Podemos nos surpreender se acharmos que nosso dia a dia é confundido com um turbilhão de coisas repetidas. E é justamente a arte de gente como Yuri Bittar que nos mostra o quanto estamos enganados se supormos que nada merece ser tido como especial em nosso olhar. Subvertendo a velha noção de que não há nada de novo sob o sol, o fotógrafo nos mostra que, por entre os territórios apressados nos quais habitamos, há uma outra dimensão da existência pedindo passagem. É aquela porção através da qual a poesia se revela em face da manifestação dos gestos marcados pela simplicidade, enaltecendo pausas, rastros e sintomas de nossas humanidades.

 

Foto: Yuri Bittar

 

Em Yuri Bittar, a paisagem urbana é tomada pela ressignificação dos espaços e movimentos humanos. Assim, até mesmo lugares de ausência denotam vestígios deixados pelas diferentes pessoas que circulam no ambiente frenético das cidades. É como se em cada rastro configurado o dinamismo da vida nunca fosse capaz de apagar a presença registrada nalgum momento específico. Tudo isso a serviço de uma poética que sabe a silêncios, intervalos e encantamentos.

Quiçá o ato espantado de existir, com sua carga de revelações e assimilações do real, seja atenuado pela necessidade de deslocarmos nossa atenção para muito do que teimosamente insistimos em ocultar. E eis que as fotografias de Yuri, com sua força contemplativa, nos atraem para aquela vivência do presente a qual me referi no início deste texto. Agindo assim, talvez por alguns instantes recusemos os imperativos da pressa que tanto afetam nossa capacidade de saborear a vida com mais inteireza.

Atuando como fotógrafo desde 1998, Yuri Bittar também está atravessado por influências que vêm da literatura e da história oral, dentre outras. Como ele mesmo confessa, seu trabalho se move pela crença no humano, principalmente levando em conta soluções para a melhoria da qualidade de vida das pessoas.

Mas eis que é a vida ordinária quem protagoniza a arte de Yuri. Seu interesse reside nos trânsitos engendrados por pessoas comuns, pois são estas que fazem girar tacitamente a grande roda dos acontecimentos. Através de suas lentes, seres e objetos representam organicamente um sentido de unidade para a existência, algo que sugere uma complementaridade entre partes até mesmo distintas. Pelo que se pode notar, é um todo harmônico que, sem negar as individualidades e especificidades, pede passagem para um exercício mais pleno e valoroso da vida.

 

Foto: Yuri Bittar

 

* As fotografias de Yuri Bittar são parte integrante da galeria e dos textos da 150ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam autobiograficamente pelo mundo virtual. Hoje, entre acertos e tombos, parece estar perdendo o medo de errar.

 

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148ª Leva - 03/2022 Destaques Olhares

Olhares

Um performático bailado de vida

 Por Fabrício Brandão

 

Foto: Gilucci Augusto

 

Dos estados do ser. Vê-lo desfiando, dentro do tecido das horas, gestos de contemplação e inquietude. Corpo-templo é corpo-abrigo, vastidão de sonhos que atravessam o caminho concreto dos dias todos. Onde a mescla das imagens fantasiadas com a suposta ideia do real? Onde o nosso desejo de verdade naquilo que tomamos posse diante da visão primeira das coisas?

O ser que evoca o corpo denota movimentos que vêm das entranhas humanas. Nesse ínterim, as investidas reverberam como se expressassem o incontido em sua dimensão mais amplificada possível. Por vezes, o clamor das formas encerra um ato a ecoar poderosamente nas consciências. São vozes que se insurgem contra qualquer forma de encarceramento dos anseios mundanos.

Quando o corpo é porta-voz daquilo que somos, sentimos que a vida mesma se expande para todas as direções. É ele o invólucro das efusões, contemplações, dores, confusões, desvios, júbilos e toda a sorte de cotejos da alma. É ele também o mensageiro duma ancestralidade que nos atravessa a todos, permeando gerações e gerações, suas linhagens, traçado originário das rotas consagradas pelo ato não menos espantado e corajoso que é o existir.

Então, por que mencionar tamanhos contornos do humano nas linhas dos parágrafos acima? Diria que para exprimir um pouco do encantamento que a arte de Gilucci Augusto é capaz de nos proporcionar. E tal sensação se consolida à medida em que mergulhamos mais e mais nas searas propostas pelo artista.

 

Foto: Gilucci Augusto

 

E falei tanto sobre as paragens do corpo que mister se faz desfilar mais razões para tal. Nas fotografias de Gilucci, a corporalidade humana transcende as dimensões tangíveis da existência. Dito isso, podemos perceber que o gesto performativo que encerra suas imagens encontra, no nível do corpo, um elo entre as esferas interna e externa do indivíduo. É dizer que, para além da matéria em suas marcações de concretude típica da sina dos nossos desígnios mortais, um enlace abstrato se agiganta e proporciona um universo expandido de apreensões sensoriais.

O resultado da coexistência do que vai por dentro e por fora desemboca no efeito poético que as fotografias do artista têm também por atributo.  É, sobretudo, uma atmosfera conduzida pelo bailado das formas, através do qual as porções femininas e masculinas traçam rotas de expressão. Durante todo o trajeto proposto pelo artista, mais parecemos arrebatados pelos mínimos detalhes ofertados. E não são poucos, diria. Desde o contraste entre luz e sombra, passando pela nudez reveladora dos sentimentos, pela mescla de cores, intervenções e hibridismos imagéticos, tudo é vontade de comunicar mundos no mundo.

Profundamente interessado pela poesia que emana do Recôncavo Baiano, olhar eivado de relações com a tradição, diversidade e contemporaneidade, Gilucci Augusto nasceu em Santo Antônio de Jesus, na Bahia, e hoje reside na capital soteropolitana. Atualmente, cursa doutorado em Artes Visuais na UFBA e traz, em sua trajetória acadêmica, pesquisa sobre a poética da imagem fotográfica relacionada ao imaginário das mulheres do Quilombo Kaonge, localizado na região do Vale e Bacia do Iguape, no interior baiano. Com tais predicados, o fotógrafo se revela um alguém que possui em sua bagagem o equilíbrio entre sensibilidade e conhecimento teórico no seu caminhar criativo, feições que demonstram habilmente se complementar.

O corpo em Gilucci Augusto não é apenas vetor de signos e seus respectivos significados possíveis, mas antes é chama viva de nuances do inquieto espírito que povoa nossas humanidades. Tal travessia suscita revoluções internas do ser, modulando nossas visões rumo ao horizonte enigmático da existência. Para atingir esse efeito, é mais do que necessário ousar com as imagens, promovendo outros arranjos sobre os quais podem transitar a fértil andança das subjetividades.

 

Foto: Gilucci Augusto

 

* As fotografias de Gilucci Augusto são parte integrante da galeria e dos textos da 148ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam autobiograficamente pelo mundo virtual. Hoje, entre acertos e tombos, parece estar perdendo o medo de errar.

 

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144ª Leva - 04/2021 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Foto: Lu Brito

 

“O melhor lugar do mundo é aqui e agora”, canta nosso célebre Gilberto Gil em uma de suas mais reflexivas e tocantes composições. Posto assim de imediato, esse trecho da canção acentua o presente como sendo o instante mais precioso de todos, aquele sobre o qual temos a consciência do que estamos vivendo. Daí que está conosco a tarefa de prestar atenção no hoje, nesse agora que acontece e merece nosso cuidado para que se torne o mais pleno possível. E tanto nos convém olhar para tudo daquilo que se coloca ao nosso redor e no exato momento em que pensamos e agimos. No estar presente, interagimos com o Outro e com ele estabelecemos uma ponte de comunicação que também nos auxilia na compreensão do mundo. Diante de nossos sentidos, passam tantas imagens e a todo tempo somos convocados a contribuir com uma parcela de reflexões e ações sobre as coisas. Estar no mundo é, pois, escolher entre ser parte e atuar ou portar-se como um mero observador dos fenômenos que se nos apresentam. Por óbvio, há consequências naturais para qualquer que seja o caminho eleito. Nesse sentido, ter a ciência e a possibilidade de mover as alternativas parece ser a via mais pertinente para os que não temem os mais variados e desafiadores cenários da existência. E o que dizer do quanto aprendemos com todos aqueles que cruzam a nossa jornada? Por certo, o saldo é imensurável, ainda mais se tratando das perspectivas engendradas pela arte. Em nossa edição atual, por exemplo, há um banquete de palavras e imagens encerradas nas contribuições dos que se permitiram trilhar as estradas da revista. É gente como Fernanda Paz, Dheyne de Souza e Wellington Amâncio da Silva, que com suas narrativas em prosa provocam nossas mais aguçadas visões. No norte da poesia, nos alimentamos dos versos de Milena Moura, Carla Diacov, Rafael Nolli, Anna Apolinário e Rafael de Oliveira Fernandes. É Sidney Rocha quem nos apresenta o instigante “Todo suicídio é um homicídio”, novo livro do poeta Lupeu Lacerda. Conduzida por Elis Matos, temos a entrevista com a escritora e atriz Tereza Sá, potente voz da literatura e da arte baiana. Pelas mãos de Guilherme Preger, estão atentas análises sobre o denso filme chinês “Dead Pigs”. Com sua pesquisa musical apurada, Larissa Mendes nos brinda com uma resenha sobre “Você Não Sabe de Nada”, disco de estreia da banda O Grilo. Por sua vez, Vinicius de Oliveira aborda percursos possíveis em torno de “Tudo sobre o amor, novas perspectivas”, importante obra da escritora Bell Hooks. Por todos os recantos de nossa nova investida editorial, temos a companhia especial das fotografias de Lu Brito, cujo olhar atravessa sentidos especiais dispersos em corpos, espaços e cores. Bons mergulhos em nossa 144ª Leva!

Os Leveiros

 

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144ª Leva - 04/2021 Destaques

Olhares

De corpos, espaços e suas cores

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Lu Brito

 

Vida é sopro que circula, povoa seres e lugares, atravessa as dimensões da concretude para depois aportar no indizível mistério. Esta senhora, pois, aninha suas crias e as envolve com seus destinos de ser pelo desejo atravessado dos tempos. Na espiral dos instantes, há sempre uma faísca a movimentar tudo, ideias, laços, ímpetos, tons, gritos, dores, êxtases e paixões. E ser artista em meio a tanta coisa que mobiliza o olhar é missão sem par, desatino que se traduz em exercício de presença no mundo.

Há um infindável número de adjetivos que podem ser utilizados para esboçar alguma definição sobre o que representa o trabalho de uma fotógrafa como Lu Brito. Suas imagens podem ser desejo de liberdade, anseio de existência plena, clamores, preces, lampejos de prazer, gestos contemplativos, arremessos de serenidade ou mesmo algum anseio de conexão com o todo que nos rege.

Nos interstícios do cotidiano, Lu Brito sonda as expressões do humano através das sinalizações emanadas pelo corpo. Nas capturas da fotógrafa, eis que testemunhamos olhos sinceros de pessoas no enleio das suas rotinas pessoais, mãos que afagam o engenho das horas, rostos que trafegam entre o sonho manso e os delírios da realidade. Nesse vasto abrigar de sentimentos, habitar um corpo também é se deparar com as zonas fronteiriças da solidão, é mirar o horizonte posto nas paisagens buscando respostas em meio ao silêncio. Gente, para Lu, é motor que principia ações, as tais investidas sobre tempos e espaços dos seres que se equilibram entre a quietude e o alvoroço.

A arte imagética de Lu concebe os espaços físicos como verdadeiros mananciais de sensações. Desde o que remonta às paisagens naturais até aquilo que marca acentos urbanos, o voo da artista percorre cenários ricos em temáticas, todas elas a assinalar um olhar que se curva aos desígnios do instante observado e, por assim dizer, também experimentado em sua fruição. Em quaisquer desses universos, a chama da vida resta anunciada em gestos de presença e ausência humana.

 

Foto: Lu Brito

 

Mas eis que o apelo das cores transborda a dinâmica dos sentidos expostos, chama atenção pela necessidade da ênfase, daquilo que pretende ser marcado por sua vivacidade espontânea. São múltiplos tons que estão ordenados segundo uma lógica própria e inerente a cada ser ou lugar retratados. Seja operando na via dos contrastes ou na harmonização com os ambientes e corpos, as cores em Lu Brito inauguram a poética das marcações e nos fazem lembrar que muita coisa conflui para a vastidão das peculiaridades.

Confessando-se uma amante incondicional da fotografia, Lu Brito já desbravou muitos cantos do Brasil à procura de imagens. Com a mesma intensidade, também esteve em algumas dezenas de países aprimorando o seu ofício com a imagem. Muitos trabalhos seus podem ser encontrados em várias galerias de arte e casas de decoração e arquitetura de Salvador. Seu currículo abarca exposições individuais e coletivas nacionais e internacionais, bem como algumas premiações, dentre elas, Menção Honrosa na Bienal Brasileira de Fotografia 2016, Primeiro Lugar e Menção Honrosa, na categoria PB, no VII Salão Internacional de Fotografia de Ribeirão Preto (2019), além de Menção honrosa no Concurso Photonature Brasil 2020.

Com seu olhar ávido por captar o mundo e suas singularidades, Lu nos oferta instâncias especiais de contemplação da vida. E esse exercício de observar os trajetos humanos e de se deter pelos mais difusos espaços torna a experiência visual um tanto mais completa. Para além do que se vê numa primeira mirada, outros tantos sentidos se desdobram em favor da poesia que se refugia nos instantes flagrados pelas lentes da artista, mostrando que o mundo não é somente um palco de subjetividades, mas também de fenômenos espontâneos sobre os quais talvez jamais exerçamos alguma espécie de controle.

 

Foto: Lu Brito

 

* As fotografias de Lu Brito são parte integrante da galeria e dos textos da 144ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

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142ª Leva - 02/2021 Destaques Olhares

Olhares

No corpo do mundo

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Joice Kreiss

 

Dizer das coisas em imagens: eis uma definição possível para o ofício de um fotógrafo. Representar um universo de seres, objetos e lugares, tendo a luz como norte da criação. Ter a fotografia como o flagrante da vida que se manifesta em cada desavisado instante, propondo a quem contempla o resultado dos registros um mergulho também sobre o indizível.

Talvez o maior desafio para quem se proponha a captar a luz de um tudo seja o de apresentar recortes que mobilizem em nós algo de diferente. E aqui explico melhor para considerar que tal manifestação artística, quando foge da gratuidade e do óbvio, parece repercutir nos apreciadores o gesto da surpresa e de algum arrebatamento. Já que o mundo tem nos oferecido uma enxurrada de possibilidades imagéticas, podemos arriscar que os artistas que costumam sair do lugar comum produzem mais impacto com suas obras, pois se recusam a ter suas expressões diluídas no marasmo uniformizante dos excessos.

 

Foto: Joice Kreiss

 

O que chamo neste texto de corpo do mundo é, na verdade, todo um conjunto de possibilidades a alvejar sentimentos e percepções em torno de pessoas, gestos, coisas, lugares e fenômenos da natureza. E é nestas frentes vastas de observação que se espraia o trabalho de Joice Kreiss, artista sobre a qual ouso me debruçar agora e que evidencia em sua criação o ímpeto poético das representações.

Joice é fotógrafa de temática abrangente, pois perpassa o humano e também tudo o que o constitui interna e externamente. É, como ela mesma nos diz, alguém que tenta contar histórias através de suas lentes. No percurso narrativo proposto pela artista, temos uma profusão de movimentos ligados ao corpo humano, sinais que emanam de formas e gestos, de um ser e estar captado em meio ao turbilhão da rotina.

 

Foto: Joice Kreiss

 

Há também a Joice que vislumbra poesia e encantamento em diferentes paisagens do mundo, sejam elas urbanas ou marcadas por uma noção de bucolismo. Nesse seu trajeto, a fotógrafa parece eleger o silêncio dos lugares como algo que transborda para além das imagens captadas. Nos domínios da abstração, o olhar sobre a fisicalidade das coisas ganha contornos de reflexão sobre aquilo que parecemos enxergar como concreto, mas que nos é devolvido sob a forma do algo intangível.

Vivendo em Montenegro, no Rio Grande do Sul, Joice Kreiss sempre foi marcada pela fotografia e tem colecionado em sua trajetória participações em exposições, bem como premiações por alguns de seus trabalhos. A artista confessa que, nos últimos três anos, o estudo da fotografia se tornou algo mais consolidado em sua vida.

E assim temos a fotografia que enaltece variadas apreensões da luz. Há a luz que baila através dos corpos, outra que atravessa recantos de cidades. Vem à tona a luz que comunica o alvorecer dos dias e o fluxo das águas naturais. Também nos é permitido vislumbrar a luz que contempla as palavras esquecidas num canto qualquer da vida. Cada um destes fragmentos é instrumento da poesia de Joice Kreiss.

 

Foto: Joice Kreiss

 

* As fotografias de Joice Kreiss são parte integrante da galeria e dos textos da 142ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

 

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140ª Leva - 07/2020 Destaques Olhares

Olhares

A descoberta do mundo segundo Cristiano Xavier

 Por Fabrício Brandão

 

Foto: Cristiano Xavier

 

Em nossas mais remotas e pueris fantasias, a Terra parece ser uma reunião de lugares relativamente infinitos. Sustentamos a vivos olhos que mares, desertos e florestas não encontram limites em ponto algum. Encantados com belas, imponentes e enigmáticas paisagens, nos rendemos à magnitude da natureza, pois somos apenas parte de um colossal cenário de imagens e manifestações que estão acima do nosso controle e compreensão mais imediatos.

Tantos séculos se passaram e continuamos achando que temos o domínio sobre a natureza e os demais seres que nela fazem morada. Nossa tão exortada racionalidade mais parece um permanente estado de soberba quando nos julgamos superiores aos outros reinos que também habitam nosso planeta. Por outro lado, ainda bem que não somos páreo para desafiar muitos fenômenos da natureza. Estes últimos têm o poder de nos mostrar que andamos bem se nos contentarmos em levar a cabo o gesto de não intervenção em mecanismos que jamais poderemos alterar.

Talvez as paisagens e todos os seus seres dispersos pelo globo estejam a pedir de nós mais contemplação e pouca ou nenhuma interferência nos seus destinos. Dito assim, até parece um clamor utópico, mas o fato é que já vilipendiamos por demais esse vasto mundo em que vivemos, quer no aspecto físico, quando fracassamos nas questões ambientais, quer no humano, quando nos comportamos como canibais de nós mesmos.

 

Foto: Cristiano Xavier

 

Quantas vezes precisamos de uma pausa para desacelerar os tropeços de nossa espécie? Penso que todos os dias. E ter a arte como instrumento dessa reflexão é algo revelador e grandioso. É justamente tal sensação que parece permear o trabalho de alguém como o fotógrafo Cristiano Xavier.

As imagens de Cristiano dão conta dum verdadeiro percurso pelo mundo em seus mais distantes rincões. Ao deitar seu olhar para lugares como Madagascar, Namíbia, Irã, Mongólia, Indonésia, Patagônia, entre outros, inclusive conduzindo pessoas através de expedições, o artista nos apresenta uma diversidade de cenários que reforçam uma atenção especial à natureza. Nesse quesito, o fotógrafo tem percorrido o planeta buscando registrar árvores, tendo como foco espécimes raros e isolados. O resultado de tal investida é algo que encanta pelas descobertas inusitadas e também pelo universo de formas e texturas que nos remetem a paisagens exóticas. O próprio fotógrafo confessa que seu objetivo é despertar a atenção das pessoas para a beleza que se abriga nas árvores marcadas pela raridade. Para cobrir esse intento, ele lança mão das técnicas de fotografia noturna e light painting, transitando entre o digital e o analógico.

 

Foto: Cristiano Xavier

 

Mas o mundo em Cristiano Xavier também é aquele que abriga recortes possíveis para o humano. Nesse sentido, o artista retrata pessoas em rituais cotidianos que expressam as particularidades de suas existências. Aonde quer que passe com suas lentes, o fotógrafo se posiciona como alguém que preserva o protagonismo das mais diferentes culturas dispersas pelo mundo. Somem-se a isso ingredientes como a contemplação e o silêncio, os quais tanto marcam as posições de observador e observado.

Com tamanho apuro no olhar e nos recursos técnicos empregados, Cristiano logrou relevantes êxitos em sua trajetória profissional, dentre os quais o primeiro lugar no concurso mundial International Landscape Photographer of the Year 2017 – Abstract Aerial Award e a melhor colocação de um brasileiro no Epson Pano Awards 2017 – Nature/Landscape. Além disso, sua obra está exposta em galerias do Brasil, França e Estados Unidos.

Cristiano Xavier trava o bom combate quando nos conclama a apreciar a beleza que se espraia no mundo. E o faz evidenciando o poder sensível e transformador que emana do silêncio e da contemplação. Estas são duas ferramentas que instrumentalizam a fotografia para que ela adentre um verdadeiro estado de poesia. A predileção por cenários diferentes, inusitados e impactantes é uma acertada provocação para enxergamos além.

 

Foto: Cristiano Xavier

 

* As fotografias de Cristiano Xavier são parte integrante da galeria e dos textos da 140ª Leva

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

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138ª Leva - 05/2020 Destaques Olhares

Olhares

A poética da ancestralidade em Ricardo Stuckert

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Ricardo Stuckert

 

O solo que pisamos abriga um verdadeiro inventário de memórias. E cada território contém em si as marcações do humano nas suas mais variadas intervenções. Cada povo impregnou seu lugar com o resultado de suas ações, com o dinamismo de vivências segundo gestos e costumes que lhes são peculiares. Tudo está atravessado pela fonte que emana da história, esta senhora que é modulada pelos mais difusos papeis dos seres viventes, sejam eles racionais ou não.

E eis que pensar a história é, sobremaneira, também perceber os ecos da ancestralidade. No sereno exercício de tentarmos mentalizar quem primeiro andou por nossa terra mãe, talvez vislumbremos muito mais do que formas imaginadas ou habituais e possamos sentir o quanto trajetórias e existências traçaram o espírito fundante dos lugares sobre os quais hoje nos apossamos ou simplesmente transitamos. Diante das profundezas dessa reflexão, será que conseguimos visualizar quem realmente nos antecedeu?

O esforço adequado que devemos aqui fazer não é o de uma mera sucessão genealógica dos nossos antecessores diretos, tendo em vista a constatação de que muito provavelmente isso nos afasta de compreender o quão distantes estamos de reconhecer quem primeiro esteve nesse locus chamado Brasil. Para bons entendedores, não fica difícil desconfiar prontamente que tratamos aqui de refletir a respeito dos povos originários. Sendo assim, o passo seguinte contrasta com qualquer ideia romantizada do tema, impele-nos a nos questionarmos sobre qual é o nosso papel em meio a um secular processo de apagamento de tais figuras humanas.

Quiçá a arte possa, de alguma maneira, não nos fazer perder de vista o elo que nos leva a um passado que condena resultados desprezíveis do processo civilizatório imposto por aqueles que sempre edificaram, a duras penas, a sua exterminadora hegemonia. No bojo da causa genocida, o homem, ao dizimar um expressivo contingente de vidas humanas, é, em grande instância, predador de si próprio. Sim, mas e o que o front artístico é capaz de fazer por causas tão devastadoras quanto esta?

 

Foto: Ricardo Stuckert

 

A pergunta grita. A resposta, eis que ela pode vir também pelas lentes de alguém como Ricardo Stuckert, fotógrafo que dedica uma porção especial de seu ofício a registrar a viva expressão de povos indígenas brasileiros. Dentro dessa temática, Ricardo abraça a ideia de que tais grupos humanos não são um agrupamento homogêneo de seres humanos tradicionalmente colocados no fosso comum e preguiçoso dos estigmas. Pelo contrário, quer demonstrar imageticamente como existem vários mundos dentro das mais diferentes culturas indígenas.

Engana-se quem possa achar que o artista percorre tais delicados caminhos de nossas humanidades sem que sua vivência esteja profundamente associada a assuntos que nos são deveras caros. Em sua trajetória, ele acumula saberes e sabores no campo social, político e cultural do país, tendo sido fotógrafo oficial da Presidência da República entre os anos de 2003 e 2011, durante os governos do ex-presidente Lula, cuja experiência lhe proporcionou a cobertura de importantes acontecimentos da vida pública do Brasil. Some-se a isso também o fato de que ele assina a direção de fotografia de um dos mais emblemáticos filmes de nossa cinematografia, o premiado documentário “Democracia em Vertigem”, da diretora Petra Costa, aclamado internacionalmente e indicado ao Oscar 2020.

Feito esse pequeno parêntese, o que importa é tentarmos observar modestamente como Ricardo constrói seus olhares em torno de diferentes povos indígenas que habitam nossa continental nação. Desde seu primeiro contato com os índios Yanomami, em 1997, quando trabalhava na revista Veja, muitos outros percursos mais viriam a ser feitos nesse universo de matizes étnicas e culturais. De lá para cá, seu olhar testemunhou parte da rotina dos indígenas em diversos estados brasileiros, tais como Acre, Amazonas, Bahia, Mato Grosso, Goiás, Amapá e Alagoas.

 

Foto: Ricardo Stuckert

 

O resultado dessa abrangente incursão pela diversidade indígena brasileira assume contornos poéticos, pois é capaz de promover olhares sensíveis e atentos às expressões observadas, vê-las desfilar suas espontâneas aparições. Mais do que rotinas e todo um conjunto de manifestações características de tais povos, Ricardo Stuckert traz até nós a vivacidade dos personagens retratados em seu enleio. Assim, gestos, rostos, atos e ritos abarcam um painel de sensações que nos mostram a principal riqueza que atravessa tais pessoas, sua genuína dignidade. E o artista obtém verdade em seu trabalho quando suas lentes se apartam de qualquer tratamento exótico na relação com esse Outro que se afigura belo, vivo e necessário.

A curiosidade de quem se depara com tais registros também pode estar direcionada à noção de imaginar como é mergulhar nessas culturas seculares e sorver delas o valor dos instantes. Atentar para os seus silêncios e sons, para as suas práticas, ideais coletivos, gestos naturais e narrativas. Ao mesmo tempo, quando pensamos no atual contexto político brasileiro, em que experimentamos um crescente atentado à existência plena dos povos originários, notamos o quão importante é considerarmos que pelas trincheiras da Arte também é possível se falar em resistência, deixando claros os imprescindíveis ímpetos de sobrevivência de toda uma coletividade de sujeitos. E negar o direito à plenitude da existência dos indígenas é, em larga instância, endossar a barbárie.

De fato, sobra experiência para Ricardo com toda a caminhada profissional, sobretudo por sua passagem em grandes veículos jornalísticos. Afinal, são 33 anos dedicados ao labor com as imagens, sendo testemunha de momentos contundentes da história nacional brasileira. Entretanto, arrisco em dizer que depois do seu vigoroso mergulho nas múltiplas faces das gentes indígenas, tanto o fotógrafo como o homem, ainda que abrigados na mesma pessoa, não são mais os mesmos de outrora.

 

Foto: Ricardo Stuckert

 

* As fotografias de Ricardo Stuckert são parte integrante da galeria e dos textos da 138ª Leva

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras.

 

 

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136ª Leva - 03/2020 Destaques

Olhares

A imagem em Roberto Pitella: princípio e prolongamento

Por Fabrício Brandão

 

Imagem : Roberto Pitella

 

Ah, a fotografia, esta senhora que congela o instante! Campo de domínio do olhar que atenta também para a memória. Flagrante registro das horas, fatos, arroubos, furos, ímpetos de toda ordem. E não é suficiente apenas o controle total sobre os dispositivos, assim como não basta o mero manejo técnico das ferramentas que tanto causam deslumbramento na contemporaneidade. Em tempos de pressa, quiçá o desafio do fotógrafo seja o de escapar das armadilhas postas pelas facilidades modernosas.

Ainda que muitos hoje tenham acesso às tão propaladas “maravilhas tecnológicas”, captando toda a sorte de imagens cotidianas, não é possível substituir o olhar acurado, sensível e, por vezes, poético que se instaura como atributo de um fotógrafo de ofício. Não que outros não possam nos entregar resultados de tal natureza, mas o fato é que alguém já acostumado ao campo de percepções da seara artística tende a nos apresentar algo muito mais sólido e diferenciado, sabendo, inclusive, nos ofertar os interstícios da vida.

Mas percebam, leitoras e leitores, que os olhares deste texto estão voltados para refletir um pouco sobre a arte de um alguém como Roberto Pitella, artífice da imagem que detém uma noção muito definida do que é seu trabalho. Antes de qualquer análise, vale ressaltar a voz do artista a nos dizer:

“venho da fotografia. trabalho a fotografia num campo expandido. gosto de me pensar artista que trabalha visualmente palavras. textos.

trabalho pensando em narrativas. breves. crônicas. contos.

penso que somos camadas. rasgadas. a vida nos rasga e precisamos rasgar a vida pra respirar. amar.

assim procuro montar minhas imagens. não penso em fotografia. penso em imagens.

monto imagens. como se monta um texto. com palavras. que montam ideias. emoções.

gosto do conceito de campo expandido. a imagem expandida. a literatura expandida. o corpo expandido. a vida e morte expandidas.”

 

Imagem: Roberto Pitella

 

Não é apenas a expressão textual de Roberto aqui transcrita que denota uma grafia diferente do usual, mas é a sua grafia imagética que pontua e afirma o seu lugar de artista. No território que anuncia a expansão da fotografia para um algo além do que se postula habitual, não é mais possível apenas se falar em fotografia, ultrapassadas as fronteiras da imagem.

Atentos ao trabalho do artista em questão, logo nos vemos testemunhas dos seus propósitos de expansão. Desse modo, as imagens de Roberto desconhecem limites narrativos, sugerindo interseccionalidades difusas no continuum texto-imagem-tempo-espaço. Os recursos técnicos que manipulam a imagem resultam numa sobreposição narrativa a nos instigar outros horizontes interpretativos. A enunciação discursiva do fotógrafo é aqui uma vivência dos fenômenos cotidianos sob a lógica de uma poética cuja visualidade do verbo é transformada pelo desejo do prolongamento, extensão da própria existência do sujeito.

Haveria, pois, transgressão no gesto criativo de Roberto? Na medida em que rupturas do convencional são promovidas, a resposta é afirmativa. Rasurar os limites da imagem acaba sendo deslizamento necessário para uma forma de comunicar através da arte visual. No trajeto expansionista proposto pelo artista, a única certeza é de que a linguagem resta borrada por sucessivas camadas de possibilidades. São diálogos construídos entre diferentes modalidades de pulsações da matéria utilizada como artefato, de todo um conjunto de interferências ao dispor do criador.

 

Imagem: Roberto Pitella

 

Roberto Pitella é professor na Belas Artes do Paraná, desempenhando também as facetas de editor e curador da Quaseditora e na residência atelier Burrinho Nicolau. Em seu currículo, além de exposições no Brasil e no exterior, atuou na curadoria da Focus Collection Brazil e do circuito de galerias da Bienal de Curitiba 2015, dentre outros feitos.

No transcurso imagético de Roberto, afigura-se a profusão de cores e formas, o enleio cotidiano das trajetórias dispersas e dos gestos naturais dos personagens registrados. O captar da rotina encontra abrigo no dito e no não-dito, na solidão das paisagens mundanas, no silêncio incrustado na arquitetura urbana, na cartografia do esquecimento. Imagem aqui é como um sertão-mar, infinitude ensaiada, entre-lugar de sensações que principiam no projeto mental do artista para depois serem devir aos olhos alheios.

 

* As fotografias de Roberto Pitella são parte integrante da galeria e dos textos da 136ª Leva

 

 Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras