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70ª Leva - 08/2012 Destaques Olhares

Olhares

 

O OLHAR PRIMEIRO DAS COISAS

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Viviane Rodrigues

Sermos parte de um mundo tomado pelas imagens é fato há muito consagrado em nossas convicções. Entretanto, sabermo-nos capazes de estabelecer pontos necessários de distinção entre o múltiplo que nos assola gratuitamente, gerando excessos vãos, e o lugar salutar de nossas percepções é verdadeira façanha. Em meio a tais dilemas, quem de nós não tenta recobrar, mesmo que por alguns breves instantes, a própria essência?

A busca pela representação de mundo mais original possível encontra um ambiente favorável no universo da imagem. E trabalhos como os da fotógrafa Viviane Rodrigues provam que o ofício de captar a luz se inscreve numa condição mais ampla, na qual seres e lugares mostram-se desnudados frente às lentes de uma atenta observadora.

Utilizando-se do conceito de fotografia orgânica, Viviane promove um mergulho íntimo nas expressões retratadas, privilegiando o atributo in natura de tudo o que pode ser flagrado por sua câmera. Tal como a artista preconiza, o caráter puro da imagem representada é quem norteia o trabalho. Utilizando-se o mínimo possível de intervenções de edição, a catarinense, hoje residente em Curitiba, chama atenção para o significado especial de se ver o mundo tal como ele é, sem ruídos da tão propalada era digital.

Se, de algum modo, perdemos a qualidade de perceber no real a sua força primeira, em Viviane somos convidados a refletir sobre os desvios do nosso olhar pós-moderno. Diante disso, um questionamento: do ponto onde estamos, o quanto de ruídos e desvios roubam de nós o que realmente importa?

Foto: Viviane Rodrigues

Mais do que um valioso registro de nossas humanas idades, a resposta tida em trajetórias como a de Viviane é a da consolidação de um caminho de resistência, no qual impera a aceitação de nossa verdadeira individualidade. Nessa via, certamente, não há espaço para a reinvenção artificial da existência.

Formada em jornalismo, Viviane ministra aulas na área, além de capitanear cursos individuais sobre fotografia e, também, palestras sobre leitura imagética no cinema, imagem e sociedade, arte e fotografia,  arte e cidadania, dentre outros. Adepta da observação e do estudo, a artista acredita que as ferramentas tecnológicas atuais a serviço da imagem devem ser utilizadas com uma noção adequada de responsabilidade artística.

Na sua trajetória, a fotógrafa aponta o projeto Extimidade como sendo um marco fundamental. Derivado de um conceito lacaniano, a série chama atenção para a porção estrangeira do corpo humano, com toda a carga de estranhamentos, valores éticos e morais que o assolam há tempos. Em meio a tal seara, prevalece um modo alternativo de perceber a nudez do corpo, buscando nele um lugar no qual a singularidade humana repousa.

Juntamente com a parceira Juh Moraes, Viviane conduz o site Fotografia Orgânica, projeto que resume de modo significativo a concepção fundamental de seu trabalho, qual seja o de ressaltar leituras autênticas de mundo.

Com uma boa dose de sensibilidade, Viviane Rodrigues revolve a camada dos instantes e ousa nos conduzir pelas tramas intensas do fio da existência. O resultado é um vasto painel poético da vida, com todo o seu denso caráter e, ao mesmo tempo, toda sua delicadeza. O que somos por natureza vale muito mais do que uma mera profusão estética de fuga. E, quando um artista apaixonado nos relembra isso, definitivamente, estamos em boas mãos.

 

 

Foto: Viviane Rodrigues

 

 

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68ª Leva - 06/2012 Destaques Olhares

Olhares

 

O INTANGÍVEL EM JUH MORAES

Por Fabrício Brandão

 

Foto: Juh Moraes

Bem sabemos que a fotografia encerra uma vastidão de possibilidades. No entanto, o que seria capaz de guiar nossos sentidos rumo a veredas desabitadas pelo óbvio? Como extrapolar a barreira física e evidente do algo primeiro a ser flagrado por nossas retinas?

Certamente, não são perguntas com soluções tão imediatas. Por mais que tentemos emprestar significados ao ofício de um fotógrafo, delimitando-os numa ótica que remonte a uma noção racional das perspectivas abraçadas, acabamos envolvidos pelas razões que integram o universo íntimo de cada criador. E assim, distantes de extrairmos a seiva da psiqué humana, somos tentados a desvendar camadas por vezes etéreas reveladas nas imagens.

Quem deitar olhares em torno da expressão fotográfica de Juh Moraes perceberá o quanto pulsa viva a presença do intangível, de um ambiente no qual mistérios do corpo e da alma humanas estão fundidos a um só tempo. Para a artista, não basta que formas, gestos, tons e expressões difusas impliquem num recorte precisamente definido de mundo. Pelo contrário, cada ser ou objeto captado exprime uma espécie de balé da transcendência.

Ao nos ofertar seus signos repletos da conjunção entre matéria e espírito, Juh ousa nos convidar a atravessar um cenário que sabe a percursos do tempo e seus desígnios. É como se cada contorno, tez ou cor pudessem reter o essencial dos instantes vividos, pondo-os em delicada suspensão. Assim, comungamos com a artista um ritual que confere sentido a ambientes e seres, todos eles marcados pelas sutilezas da existência.

Foto: Juh Moraes

Natural de Curitiba, a fotógrafa traz no sangue a mescla nordestina e espanhola. Apesar de ter cursado a faculdade de Belas Artes, foi nas searas da Moda onde encontrou terreno favorável para suas escolhas. Os pincéis deram lugar à câmera e a um desejo de promover uma integração entre Comunicação, Moda e Imagem. A captura das cores em seu trabalho deu-se através de influências percebidas em artistas plásticos como Delacroix, Caravaggio, Monet, Manet, Frida Kahlo, Cezzanne e Bosch. Admiradora confessa de Van Gogh, Juh demarca o artista como sendo uma grande fonte de inspiração, a ponto de se considerar “refém” de tal influência.

Além das marcas indeléveis das artes plásticas em sua trajetória, o olhar de Juh Moraes abraça aprendizados fotográficos em torno do trabalho de enquadramento e da concepção de luz de Annie Leibowitz e Sally Man; a visão artística de Richard Avedon, Guy Bordin e Mary Ellen Mark; e Robert Mapplethorpe, pela completa ousadia.

Ao lado da também fotógrafa Viviane Rodrigues, Juh desenvolve um trabalho especial no site Fotografia Orgânica, projeto que denota um comprometimento com a imagem em seu estado mais puro possível, longe das intervenções de edição meramente tecnológicas.

Em uma só palavra está condensada a relação de Juh Moraes com seu ofício: ar. E é com a noção desse sopro vital que a artista leva adiante a sua sublime missão de captar instantes, lugares e pessoas, abraçada ao que de melhor eles podem oferecer: a verdade de suas expressões.

Foto: Juh Moraes