A roda da vida gira. Há paisagens anunciadas pelos matizes de uma aurora deslocada no tempo. A curiosidade de quem observa os interstícios da existência sonda os mais variados momentos em que tudo transcorre. É preciso que aconteça o gesto natural das coisas, mecanismo de se deixar levar por tudo aquilo que acontece diante dos olhos. Quem contempla a manifestação dos elementos dispersos por entre os dias, sabe que a palavra rotina é somente uma mera tentativa de definir o espetáculo cíclico das coisas.
Ainda que pareça não haver nada de novo sob o sol que nos abraça, o sabor das primeiras visões e descobertas é chama acesa em nossos sentidos. Entre o espanto e o encantamento, podemos ser surpreendidos por aquilo que mobilize e quiçá rasure a nossa maneira de vislumbrar os fenômenos do mundo. E é desse modo que a fotografia é capaz de nos impactar, trazendo a lume registros que bailam entre o traçado da memória e a revelação daquilo que passa despercebido em meio à cronologia de nossa trajetória.
Se o que julgamos como sendo o Belo estiver confinado ao campo de nossas vivências e crenças pessoais, então o despertar da arte em nós parece ser mais o exercício puro de nossa individualidade. No caso da fotografia, talvez seja o misto de constatação imediata e sugestão que nos mobilize rumo ao território vasto das percepções. Por constatação imediata, leia-se aquilo que se corporifica como a concretude que salta aos olhos, enquanto que a sugestão é esse abrigo permanente em torno do mistério, embalada que está pelos dotes da intermitência e da relativa infinitude.
De todo modo, é possível considerar que as linhas iniciais deste texto encontram correspondência direta com a trajetória de certos artistas. Pensando nisso é que vale mencionar aqui a obra de um fotógrafo como Hermes Polycarpo. Do artista em questão, trazemos à tona o esmero das formas, seja na busca por se retratar a figura humana, seja na maneira em se deter sobre objetos e temas afetos à natureza. Nesse trajeto de observações muito peculiares, o fotógrafo evidencia o ritmo dinâmico que está por trás das jornadas pessoais de gente dos mais diferentes estratos sociais. Pode ser um mero transeunte das vias públicas ou quiçá um alguém a mirar o mar de esperanças sem fim. Pode ser o corpo que repousa em luz e sombra ou o olhar inquiridor de um menino. Pode ser a paisagem que redimensiona a natureza ou então a geometria das alamedas.
Foto: Hermes Polycarpo
O fato é que em Hermes nada parece fugir aos desígnios da sutileza, essa mão invisível que conduz os temas abordados. Não há dúvida de que a técnica está a serviço de toda uma demanda de subjetividade e poesia que emanam das imagens concebidas. Em meio à solidão que atravessa pessoas e suas sinas, lá está também o olhar do artista capaz de tornar suaves certas missões imperativas da existência. Desse modo, homens, em seus engenhos de labuta e contemplação, aparentam ser muito mais do que meros operários de suas rotinas.
A recorrência do mar no trabalho de Hermes Polycarpo parece metaforizar o sentimento de renovação que o movimento das águas suscita. Ao mesmo tempo, lembra o desembocar de anseios todas as vezes que alguém mira, absorto em pensamentos de silêncio e quietude, o imensurável horizonte oceânico à sua frente.
Natural de Ilhéus, na Bahia, Hermes despertou para a fotografia em 2007, quando residia no Rio de Janeiro. Em seu processo criativo, busca, na confluência entre técnica e sensibilidade, um resultado que faça uso extremamente reduzido de recursos de edição. Mostra-se como um fotógrafo de ímpeto eclético, explorando paisagens e imagens conceituais, e confessa estar sempre em busca de novas incidências de luz.
Lançando mão duma exuberância de cores, Hermes Polycarpo também assinala através delas a marca efusiva do humano e suas intervenções espaciais. À paisagem urbana misturam-se gestos diversos, plenos de uma espontaneidade que só a observação serena do fotógrafo é capaz de preservar. No caminho que exalta a luz como fonte norteadora, a arte instaura suas delicadas faces, vias que nos mostram a pulsação dos tempos e que mobilizam em seu âmago expressões abrigadas em toda sorte de gestos.
Foto: Hermes Polycarpo
* As fotografias de Hermes Polycarpo são parte integrante da galeria e dos textos da 134ª Leva
Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre em Letras e doutorando.
Quem somos nós em meio a tudo? Quantas vidas cabem no registro da paisagem, no olhar preciso e poético do mais atento observador? São perguntas que surgem quando pensamos no ofício do fotógrafo, este sujeito que, nalguns momentos, mais parece habitar uma dimensão da existência paralela ao que vivemos. Desse tipo de artista é esperado que capte o instante e suas frestas, sensações que por vezes deixamos passar em meio ao imediatismo dos dias.
Entre minúcias, recantos e gestos humanos, paira contínuo o desfilar da vida, palco que sabe a descobertas, embates, contemplações e denúncias. Ao mesmo tempo em que nos deparamos com o Belo, também somos confrontados com as mazelas que engendramos em nós e na relação com o Outro. Assim, a existência vai se configurando entre os limites do materializado e do intangível. No entanto, os olhos sempre podem mais, posto que transcendem a fisicalidade das coisas e apontam para direções outras, percepções ligadas aos sentimentos que carregamos dentro e fora de nós.
No transitar de experiências que permeiam o traçado cotidiano, estamos diante do trabalho de um artista como Luiz Bhering, alguém que traz em seu engenho variados modos de acepção da realidade. Suas imagens demarcam um amplo território de possibilidades cujo potencial narrativo encerra a trajetória de pessoas e lugares. Mas abordar gente em seu enleio diário requer muito mais do que apenas registrar gestos rotineiros, ou seja, exige do fotógrafo que este permaneça o tempo todo atento ao que pode suplantar o gesto banal da vida. Tal resultado de rasurar as margens do óbvio faz da arte de Luiz Bhering algo que provoca nossas percepções mais sublimes, pois eleva a dureza dos dias ao patamar de delicadeza e sensibilidade, atributos por demais caros diante do turbilhão coletivo de vivências que nem sempre se conciliam.
Foto: Luiz Bhering
Luiz observa os homens e seus incessantes rituais, vê-los interagir com seus iguais nos mais difusos espaços de convivência, retira dos gestos daqueles seres o substrato simbólico de muitas imagens. Desse modo, eis que o fotógrafo testemunha o quanto a intervenção humana foi capaz de marcar decisivamente a paisagem urbana, com a explosão de grafismos, arquiteturas, cores, todos eles assemelhados a uma coletânea de vestígios que sugere a genuína expressão duma vontade de permanência. Do mesmo modo, nos é dado também pensar que os homens inscrevem seus papéis no mundo pelo legado do silêncio e da ausência. Tal sentimento as imagens de Luiz não se furtam a representar, tendo em vista que lugares hoje esvaziados de ocupação foram, outrora, palco de substantivas ações dos homens. Diante da emergência do presente, podemos vislumbrar que esses ambientes ocultam em si narrativas de eras pretéritas, enredos agora clandestinos.
Natural do Rio de Janeiro, Luiz Bhering confessa que toda a sua vida está devotada ao envolvimento com a fotografia, reconhecendo nela não somente seu ofício e sustento, mas a fonte fundamental de sua expressão, espécie de idioma próprio. Segundo o artista, ela é seu passaporte para a vida, pois permite que até mesmo um simples transitar pela rua signifique uma experiência repleta de descobertas. Formado em Fotografia pela City Polytechnic School of Arts and Designer de Londres, Luiz traz em seu vasto currículo vivências artísticas e exposições dentro e fora do Brasil.
A partir do olhar que não negligencia possibilidades de descoberta, por mais singelas e inusitadas que estas possam lhe parecer, Luiz engendra seus caminhos de artista. É, como podemos pensar, um estado permanente de atenção, mas sem a ideia de que tal disposição represente o peso de se viver sôfrega e insistentemente alerta. E quando um artista revela interesse em estar desnudo e atento à simplicidade da existência, posto não temer o que surge sem aviso, é ele mesmo um alguém em estado permanente de poesia.
Foto: Luiz Bhering
* As fotografias de Luiz Bhering são parte integrante da galeria e dos textos da 132ª Leva
Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista e mestre em Letras.
Uma nesga de sol invade a paisagem enquanto meninos brincam desfilando sua liberdade. Noutro ponto, uma canoa vermelha repousa suas memórias na calmaria da noite que adentra. Do alto de alguma porção litorânea, um pequeno grupo de pessoas é silenciosamente observado enquanto ensaia sua entrada no mar. Um aglomerado de bovinos revolve a poeira de seu confinamento. O menino atravessa a água com seu gesto pueril descortinando dimensões do sabor de viver. As cores e formas passeiam em meio à rotina de indivíduos que transitam por ambientes urbanos diversos.
Tudo o que foi descrito acima é apenas uma pequena parte daquilo que compõe a arte do fotógrafo Almir Bindilatti. E apresentar tal recorte de imagens captadas pelas lentes de seu autor significa prestar atenção para o trabalho de um alguém que, de forma marcantemente poética, consegue fazer da captura do cotidiano algo diferenciado. Por vezes, deixamos escapar inúmeras possibilidades de apreensão do real em razão de que nosso olhar acomoda-se pelas zonas de conforto do óbvio. No entanto, a experiência ganha outro fôlego quando vislumbramos sentidos alternativos para as imagens com as quais nos deparamos.
O grande desafio de Almir Bindilatti com seu ofício de registrar a luz é nos apresentar a pulsação da vida tal como ela é. Haveria, então, algum artifício mágico para obter tal resultado? A resposta é negativa. Daí que o fotógrafo em questão confessa não ser adepto da manipulação das imagens, ou seja, de qualquer tratamento que seja capaz de alterar tudo aquilo que foi capturado com naturalidade. Assim sendo, o artista vai mais além, buscando em seu trabalho um resultado que se pretende orgânico, evidenciando, como ele mesmo nos diz, um elo entre câmera e figuras humanas que atenta para o respeito com as culturas urbanas, principalmente à luz de aspectos étnicos.
Na busca pelo flagrante natural dos gestos humanos, Almir intenta a plenitude abrigada nas manifestações de seus personagens. Tal percepção aponta a todo instante para uma noção de alteridade que implica no respeito e na preservação dos domínios íntimos do Outro, então mostrado pelas lentes. Penetrar na esfera alheia requer também certo tempo de maturação, permitindo com que as pessoas continuem vivendo suas sinas com o crivo da espontaneidade. É um hiato preciosamente marcado pela espera e pelo silêncio, no qual o trunfo do fotógrafo é colocar em evidência o momento que melhor retrate a existência humana.
Foto: Almir Bindilatti
Sem dúvida alguma, o viés antropológico permeia o ofício de Almir, qual seja o que denota o respeito a culturas e modos de articulação do ser e estar distintos na complexa paisagem urbana observada. Cruza-se a linha do Outro primando pela sutileza das investidas, sem que se pretenda a desconfiguração das vivências e práticas imersas na trajetória dos mais variados atores sociais. O saldo das escolhas do artista é deveras significativo na medida em que os diferentes cenários e seus respectivos protagonistas contemplados reproduzem a fluidez ininterrupta da existência.
Nascido no interior de São Paulo, mais precisamente em Tupã, Almir Bindilatti mudou-se para Salvador e lá viveu por bastante tempo, inclusive executando projetos editoriais sobre história, cultura e arte. Desde o começo de 2018 reside em Lisboa, inaugurando uma nova fase em sua vida, o que significou a possibilidade de se dedicar completamente ao seu ofício autoral. Seu trabalho lhe rendeu o Prêmio Leica de Fotografia no Brasil em 2010. É autor dos livros fotográficos Photo Bahia (2008), Mosteiro de São Bento da Bahia (2011), Um Sertão entre tantos outros (2015), tendo participado também de obras coletivas. No ano de 2013, ainda integrou uma exposição coletiva de artistas brasileiros em Xangai, como parte das ações do “Ano do Brasil na China”.
No exercício de captar a vida do modo como ela se mostra, o fotógrafo é testemunha não apenas de um conjunto de rituais e práticas sucessivas ou aleatórias, mas também de revelações associadas ao campo do inusitado. Diante de suas lentes, um pacto constante resta estabelecido: o da coexistência harmoniosa entre a presença do artista e seu objeto. Esse silencioso contrato representa o esforço de não se alterar as rotas contempladas pelo olhar de quem as mira de fora. É com a pungência da poesia que habita os arremessos cotidianos que Almir consolida tal relação.
Foto: Almir Bindilatti
* As fotografias de Almir Bindilatti são parte integrante da galeria e dos textos da 130ª Leva
Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e Mestre em Letras: Linguagens e Representações (UESC), aliando Literatura, Comunicação e Cultura.
Num recanto qualquer do mundo, a vida acontece e se expande em seus microuniversos. São possibilidades de existência que emanam das faces múltiplas do cotidiano. Enquanto estas linhas são escritas, o aqui e o agora são delineados pelo olhar de alguém e revestidos com a propriedade de observação diferenciada que cada artista carrega consigo. Diante da oportunidade de se mirar potenciais cenários, o ofício de fotógrafo engendra muito mais do que percepções flagrantes. Ousa além: oferta-nos revelações.
Mas por qual razão nos embalamos às multidões do dia a dia e deixamos de ver muita coisa? Há um sentimento perene de dissipação quando vemos as imagens de nossa real existência no mundo se confundirem com pontos perdidos e quiçá genéricos de observação. É como olhar para tudo e nada ao mesmo tempo. Na tentativa talvez de absorvermos freneticamente o rumo acelerado das coisas que nos são apresentadas, a sensação de se esvair numa torrente informe parece não passar.
A arte é capaz de fazer frente à ideia de que somos uma turba desorientada e, portanto, avessa aos pormenores mundanos. E falar aqui de detalhes significa remontar à perspectiva de se poder olhar e sentir a dinâmica da vida sem perder experiências relevantes de serem vivenciadas. Mesmo que não haja interferências por parte do artista que está a mirar os cenários, ainda assim ele se fez personagem do que acaba de testemunhar e reproduzir em sua obra.
No trabalho de um fotógrafo como Adelmo Santos, temos a percepção de que as revelações dispostas nos ambientes retratados emergem em meio ao caos urbano que, teimosamente, tenta desviar nossa atenção. Apartado da noção de um mero flagrante, o empenho artístico de Adelmo é no sentido de atenuar o efeito de dispersão do olhar que nos alça a obviedades. É marcante em muitas das imagens do artista o captar de um sentimento poético que se esconde por trás da rotina de homens e lugares. Mergulha-se, por escolha, no âmago das coisas.
Foto: Adelmo Santos
O fato é que Adelmo privilegia registros de dimensões da vida que passam despercebidas por muita gente. Evidencia delicadamente o canto quase que inaudível do povo de algum lugar, a rica simplicidade das pessoas, seus gestos e ritos. Nas suas fotografias, vemos uma clara tentativa de enaltecer o protagonismo às avessas que gente ocultada pela rotina exerce em seus espaços de sobrevivência. Na contramão dum complexo processo de invisibilidade, há vez e voz para os representados diante de imagens que potencializam uma possibilidade renovada de afirmação social e cultural. Nesse ínterim, todo um painel de feições populares deixa impregnadas as suas peculiares marcas.
Outro traço marcante do trabalho desse fotógrafo baiano está no modo como a dinâmica urbana é pensada e reproduzida. Fazendo transitar o seu olhar por lugares de passagem e pelas mais distintas vias de acesso, Adelmo testemunha e nos apresenta indícios humanos de transformação dos espaços. Alveja a configuração arquitetônica das cidades e nos põe a refletir sobre as variadas formas de intervenção espacial propostas pelos sujeitos que se movem e se deslocam através dos mais difusos ambientes.
Quando se utiliza da técnica de superexposição de imagens, Adelmo traz à tona uma curiosa coexistência entre mundos. Nesse aspecto, é como se uma interação entre o vivido e o imaginado pude se estabelecer de tal maneira que um efeito de realidade se fizesse determinante.
Impera na arte de Adelmo Santos a procura um tanto visceral pela construção de seus temas. No início do texto, falou-se em revelações, palavra que pode até mesmo abrigar uma infinidade de alternativas. Mas importa destacar que dar vazão a faces e cenários marcados por certa clandestinidade é também rasurar a imagem limitada que se tem sobre pessoas e seus entornos. Por entre vestígios do labor humano captados em luz e sombra, resistem vigorosos modos de existir.
Foto: Adelmo Santos
* As fotografias de Adelmo Santos são parte integrante da galeria e dos textos da 128ª Leva
Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e, atualmente, mestrando em Letras pela UESC, aliando Literatura, Comunicação e Cultura.
Um olhar queda mudo diante da paisagem indefinida, enevoada pelas razões do mistério. Quando crianças, ensaiamos teimosamente que o horizonte de qualquer lugar não possui um fim. A verdade é que os silêncios sempre foram alguma espécie de companhia, ajudando-nos a trilhar nossas sinas diante da imensidão das dúvidas. As pausas, contemplativas ou não, revelam-se como sendo motivadoras de um porvir que muitas vezes não está bem claro em nós. Então, cabe indagar por que continuamos sempre a vislumbrar algo por entre a turvação dos sentidos.
Vez ou outra, alguém nos lembra que os ingressos e partidas são atos extremante solitários, tão marcados que estão por um poderoso e, ao mesmo tempo, denso mergulho pessoal nos abismos aos quais nos atiramos. Deixar-se abandonar por uma ideia ou sensação parece trazer em si um movimento de renúncias aos desígnios de tantas e tão distintas eras vividas. Chegamos até a desconfiar que existir é não dar conta do impulso propalado pelas horas, ou seja, é rechaçar a urgência que nos cobra respostas a uma infinidade de questões. Diante do turbilhão que acelera processos físicos e mentais, é quase que uma extrema necessidade invocarmos o destino intervalar dos silêncios.
Mas eis que tudo demanda uma atitude que não representa uma passividade diante das coisas e acontecimentos. Com isso, um artista intenta a via da provocação, conferindo poder aos recursos da sugestão como forma de mostrar ao mundo que o produto de sua criação não veio à lume para acomodar sensações. O que acabo de falar aqui cabe muito bem na descrição do ofício de uma fotógrafa como María Tudela, cuja arte repousa na prerrogativa de não determinar caminhos, mas sim propor mergulhos pessoais a todos aqueles que lançarem olhares sobre suas criações.
Foto: María Tudela
Detentora de uma condição autodidata, a espanhola María Tudela diz de sua arte um ato de se deixar levar pelas situações que a envolvem, buscando um resultado que reflita percursos passíveis de serem experimentados pelas pessoas. Como ela mesma confessa, sua arte não procura apresentar respostas. Cada foto encerra uma história, eis a morada de sua filosofia. Seus personagens, derivados duma observação cotidiana, aparecem revestidos pelo manto do anonimato e, sem explicitar rostos, a fotógrafa busca atrair nossos olhares para o sentido de totalidade da imagem, sempre preferindo que os detalhes não venham a causar efeitos desnecessários de distração.
Em meio a tons que mesclam preto e branco, o humano em María aparece visitado por paisagens marcadas pela busca. Aqui, os protagonistas dos anseios encontram-se imersos nos mais distintos espaços como se, através do exercício sereno dos silenciamentos, pudessem dar vazão a suas próprias existências. Noutra via, o olhar da fotógrafa também devota especial atenção a elementos integrantes da natureza, tais como aves, o mar, árvores, a chuva e a neve, todos eles evocando um ambiente de percepções que agregam memória, histórias e sentimentos ligados ao lado sublime da vida.
Concebendo suas fotografias como “imperfeitas”, María Tudela não pretende render-se aos rigores da técnica na busca por uma imagem, como ela mesma diz, impecável. Nesse sentido, a fotografia assume o papel de ser muito mais do que a mera aplicação de domínios de um saber específico e portador de uma estética. Algo transcende tal entendimento, o que nos permite concluir que a possibilidade de fazer da arte um instrumento genuíno de experimentação dos instantes é um atributo inexorável.
Foto: María Tudela
* As fotografias de María Tudela são parte integrante da galeria e dos textos da 126ª Leva
Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e, atualmente, mestrando em Letras pela UESC, aliando Literatura e Cultura.
O que são os dias senão uma soma incontável de detalhes? Somos a sucessão de uma vida constituída por recantos, sejam eles físicos ou algum produto direto de nossas construções afetivas. O mundo parece não nos revelar tão diretamente seus avisos e alertas. Carecemos de uma perspectiva que nos dê a noção dos átimos, daquilo que se abriga em recônditos diluídos nos instantes embaraçados do cotidiano.
Mas perceber aquilo que não está tão aparente requer um exercício constante de desaceleração. Alijados da pressa, aquela cruel companhia que teima em assolar nossos tempos, muito provavelmente conseguiremos compreender que a aparição de um lado sublime da vida requer alguma opção de serenidade diante do olhar que podemos lançar sobre as coisas. E é, de fato, um movimento poético o de reter da existência elementos que nos passam despercebidos curiosamente por representarem a porção humana que nos convoca para dentro de nós mesmos.
Não há dúvida de que um ritual de contemplações e minúcias faz parte do trabalho de gente como a fotógrafa mineira Tati Motta. Mais do que direcionar suas lentes para uma riqueza íntima de gestos e para a apreensão de semblantes e objetos, Tati traz à tona uma expressão da arte que dialoga com camadas muito peculiares do ser/estar num mundo que nos golpeia incessantemente com os ardis da uniformização dos sentidos. Eis um ponto fundamental: o fazer artístico utilizado como ferramenta de ressignificação e pluralidade.
Foto: Tati Motta
Quando pensamos em negar a uniformização das coisas, devemos entender que cada pessoa ou objeto retratado tem um potencial de nos revelar particularidades que só são vistas graças ao ponto de vista de quem se permite alguma paciente imersão. Com certa frequência, o ato de enxergar no turbilhão alguns requintes de leveza é atribuído aos poetas. E é com tal postura, diga-se de passagem, uma de suas feições, tendo em vista também se dedicar nalguma medida à escrita de poemas, que Tati Motta penetra com delicadeza nos detalhes que envolvem pessoas, lugares e objetos.
No que se refere a captar nossas humanas idades, Tati flagra pessoas em seu natural bailado habitual, redimensionando suas manifestações para um renovado sentido: o de mostrar quão rica é a profusão de gestos que se camuflam na paisagem rotineira dos dias. O resultado expõe o quanto determinados corpos carregam em si uma amplitude de linguagens, todas elas sinalizando alguma rota de afirmação, entrega, efusão ou até mesmo silêncio.
Certa cartografia dos lugares urbanos também atrai os mergulhos da fotógrafa. É com eles que ela repensa os vestígios deixados pelas investidas audaciosas do progresso material civilizatório. Também não menos importantes são os olhares dedicados às manifestações que irrompem do ato de quietude e paciência emanado pela observação dos eventos da natureza.
Foto: Tati Motta
Formada em Comunicação pela PUC de Minas Gerais, pós-graduada em Artes Plásticas e Contemporaneidade pela UEMG, e especializada em Fotografia pela Escola da Imagem, Tati Motta confessa que sua inquietude foi quem lhe permitiu experimentar e desbravar as mais variadas formas de arte. Tem na fotografia conceitual uma grande impulsionadora de seu trabalho. Esta última, como a própria artista sustenta, é a principal responsável pela construção de imagens, expressão de ideias, manifestação do seu imaginário e dos seus devaneios.
A vida sabe como nos ofertar seus instantes ruidosos. Com eles, podemos simplesmente perdermo-nos na paisagem, sufocados pela padronização das rotinas, ou optarmos por apreendermos algum caminho que nos revele uma conexão de singularidade com nossas existências. Nas entrelinhas do mundo, algum novo sentido pode estar à nossa espreita.
Foto: Tati Motta
* As fotografias de Tati Motta são parte integrante da galeria e dos textos da 124ª Leva
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.
Entre aquilo que consideramos realidade e o que é produto de nossos arroubos imaginativos, parece haver uma linha tênue e quase invisível. É o momento em que ousamos ir além do que nossas percepções têm como algo fácil a ser apreendido e rumamos para outra dimensão da existência. Nesse cenário, uma conjunção entre o concreto e o abstrato confere sentido às maneiras que temos de encarar a vida e seus mais distintos matizes.
Na forma como promove intervenções no universo pictórico de um mundo dotado de delicadezas é que um artista demarca um caminho singular de possibilidades. Assim parece ser quando deitamos os olhos por sobre o trabalho da fotógrafa Bárbara Bezina, criadora que chama atenção pelo modo como harmoniza distintas porções da matéria humana.
Nascida em Necochea, na Argentina, Bárbara transita entre mundos paralelos com a pungência de sua arte, sobretudo sua maneira de conceber os objetos de suas imagens como sendo frutos de um exercício marcantemente intuitivo. Fazendo uso dos recursos da fotografia digital, a artista manipula os registros tomando por base uma interação entre a materialidade da vida e seu lado alternativamente onírico.
Foto: Bárbara Bezina
E eis que há um predomínio de figuras femininas representadas sob os mais variados prismas na criação de Bárbara. São mulheres que, envoltas numa aura de plasticidade sublime, caracterizam-se por refletirem enlaces poéticos da vida. Desse modo, somos conduzidos por alamedas imagéticas através das quais rostos, gestos e corpos engendram a língua secreta dos sentimentos. As possibilidades são múltiplas diante da perspectiva de se vislumbrar uma concepção da vida como sendo adjetivada pelo viés feminino.
Ao nos depararmos com a variedade de interpretações que as personagens femininas exercem no contexto criativo de Bárbara, abrimos a cabeça para crer que o efeito operado por suas imagens não pode ser percebido de maneira uniformizada pelos nossos sentidos mais básicos. Acrescente-se aqui o fato de que pessoas certamente mergulham de modos bem diferenciados no universo de uma artista que não lhes entrega facilmente os acessos de significação de sua manifestação criadora.
Mesmo que se olhe o mundo como um lugar repleto de seres e objetos de toda a ordem, nunca é demais considerar que a experimentação da arte é também um ato solitário no qual as visões e narrativas pessoais fazem significativa diferença. Não se trata de confinar artista e público a um espaço de restritas experiências; pelo contrário, é a percepção de que nos interstícios e silêncios uma determinada obra lança sobre nós suas epifanias.
Foto: Bárbara Bezina
Mirar as mulheres captadas por Bárbara é compreender que uma noção de espanto ali se produz, ou seja, é perceber que, muito além de uma mera fruição estética, tais imagens convocam as pessoas a sentirem também certo desconforto por estarem diante de uma representação densa da existência, a qual não somente pactua efusões, mas também pesos, desatinos e perdas.
Talvez o fato de optar por uma vida relativamente reclusa faça de Bárbara Bezina uma artista em permanente estado de alerta. A escolha pessoal de viver sozinha e longe do convívio social cotidiano pode, de alguma maneira, influenciar no resultado de suas criações. Tal opção de vida, sobretudo se considerarmos o silêncio como motor fundamental das mais distintas expressões artísticas, talvez seja uma espécie de catalisador das obras. Vivendo atualmente em San Juan, também na Argentina, ela já divulgou suas fotografias em diversas exposições tanto na Europa quanto na América.
Manejando cores e explorando formas e texturas as mais diversas, Bárbara deixa entrever também um caráter místico para suas imagens. É como se tudo fosse revestido por uma energia que nos convoca a compartilhar uma atitude de mistério e contemplação diante do papel exercido pelas personagens concebidas. De tal ordem é o impacto dessas figuras femininas que os olhos parecem transpassar o lado indizível das coisas.
Foto: Bárbara Bezina
* As fotografias de Bárbara Bezina são parte integrante da galeria e dos textos da 122ª Leva
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.
Pelas fronteiras do corpo: a imagem em Angelik Kasalia
Por Fabrício Brandão
Foto: Angelik Kasalia
A vida se expande em infinitas possibilidades. Com ela, delineiam-se formas cuja multiplicidade de sentidos exprimem a complexa representação de uma vasta ambiência humana. Carregando no semblante a marca indelével da finitude, fazemos do ato de existir um imenso palco através do qual transita especialmente a nossa busca por algum fôlego que nos anime o espírito.
O ato de pensar a arte como uma espécie de libertação pode estar associado à necessidade que temos de tornar a realidade uma experiência outra. A explicação talvez venha do fato de que não damos conta de suportar os acessos diários da vida, com seus matizes de ápice e declínio dos sentimentos. Restaria-nos, então, o refúgio numa dimensão deslocada do real, esfera de convívio na qual recriamos não somente a nós mesmos como também aos nossos semelhantes.
Foto: Angelik Kasalia
Se cremos na harmonia entre mundos paralelos, ou seja, na tácita convivência entre o vivido e o inventado, podemos constatar que existir é avançar sobre o manto invisível das horas. Para além dos registros temporais, ousamos penetrar na zona indecifrável da vida, lugar que não se materializa de forma comum a todos os mortais. Assim, há chaves pessoais que precisam ser utilizadas para que distintos portais do autoconhecimento possam ser explorados.
Entendendo o corpo humano como um verdadeiro elo entre os mundos interno e externo, a fotógrafa Angelik Kasalia vem nos lembrar que a vida também está a serviço da arte, e não necessariamente o contrário como tanto se anuncia por aí. Suas imagens denotam de imediato o tom intimista que revela levezas e densidades dos seres retratados.
Como num imenso emaranhado embasado em requintes poéticos, o olhar de Angelik repousa sobre o sujeito tomado em sua mais delicada perspectiva de expressão. Nesse sentido, a zona de compreensão das coisas não se mostra algo determinada, pois o caráter que reveste as personagens expostas advém de um exercício de fruição abstrata das experiências. O resultado desse processo comunica tons, gestos e, acima de tudo, vozes que nos falam de mundos distantes ou próximos.
Foto: Angelik Kasalia
Não seria exagero considerar que as porções humanas expostas na criação da fotógrafa em questão exalam uma marcante esfera de imagens envolta nos apelos do mistério. Talvez porque seja extremamente difícil dar conta de submeter à racionalidade o crivo de uma tentativa de explicação direta dos fenômenos abordados. Ainda assim, parece uma tentativa pouco razoável a de estabelecer conceitos para o que se vê diante desse ritual de subjetividades abraçadas a um teor de imaterialidade. Afinal, como classificar o intangível?
Angelik é, na verdade, a persona artística de Angela Kasalia, que nasceu e vive em Atenas, na Grécia, até os dias atuais. Seu envolvimento com a fotografia deriva da necessidade de expressar suas emoções e sentimentos. Num tom confessional, ela afirma que seus registros, mesmo apresentando pessoas as mais diversas, refletem sua própria existência. Na perspectiva de observação do outro, a fotógrafa constata que encontra a si mesma a cada imagem concebida.
Foto: Angelik Kasalia
Através de suas fotografias, Angelik ressignifica a experiência que emana do corpo. Considera este um verdadeiro agenciador de linguagens na medida em que propaga importantes efeitos potencializadores discursivos. Tomado numa acepção física, o corpo aqui exposto nas alamedas da arte aparece evidenciado pelo seu caráter transmissor de mensagens. De outro modo, e tencionando a via imaterial, vemos aquele mesmo corpo assumir proporções simbolicamente etéreas.
Os trajetos da imagem presentes nos registros de Angelik Kasalia vêm nos falar dessa linha tênue e delicada que divide corpo e alma humanos. E tais dimensões, mesmo que sejam distintas por natureza, tendem a estabelecer uma relação de harmonização e complementaridade entre si. Os efeitos disso dependem dos mecanismos de interpretação de cada um de nós. Ao saírem de sua matriz criadora, as fotografias tomam novos aspectos, ganham impulso e chegam ao mundo como se fossem o prenúncio de uma aurora iluminada pela poesia. Ciclo que não se apaga.
Foto: Angelik Kasalia
*As fotografias de Angelik Kasalia fazem parte da galeria e dos textos da 120ª Leva
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.
Through the outlines of the body: the image in Angelik Kasalia
By Fabrício Brandão
Translation (Tradução): Luana Alves*
Life expands into infinite possibilities. With it, forms whose multiplicity of meanings are delineated, expressing the complex representation of a vast human ambience. Carrying in our countenance the indelible mark of finitude, we make of the act of existing an immense stage through which transits, especially, our search for some breath that animates the spirit.
The act of thinking art as a kind of liberation may be associated with our need to make of reality another experience. The explanation may come from the fact that we do not manage to withstand the daily spasms of life, with its hues of apex and decline of feelings. We would then be left with the refuge in a displaced dimension of the real, sphere of interactions in which we recreate not only ourselves but also our fellows.
If we believe in the harmony between parallel worlds, that is, in the tacit coexistence between the lived and the invented, we can realize that existing is advancing on the invisible cloak of the hours. Over and above the temporal records, we dare to penetrate the indecipherable zone of life, a place that does not materialize itself in a common way to all mortals. Thus, there are personal keys that need to be used so that different portals of self-knowledge can be explored.
Understanding the human body as a true link between the inner and outer worlds, the photographer Angelik Kasalia reminds us that life is also in the service of art, and not necessarily the opposite, as it is so usually announced. Her images immediately denote the intimate tone that reveals the lightness and density of the portrayed individuals.
As in an immense tangle substantiated on poetic refinement, Angelik’s gaze rests on the subject taken in a most delicate perspective of expression. In this sense, the area of understanding of things is not presented as something determined, since the mark that shrouds the presented characters comes from an exercise of abstract enjoyment of experiences. The result of this process communicates tones, gestures and, above all, voices that speak to us of distant or neighbouring worlds.
It would not be exaggerated to consider that the human portions exposed in the creations of the photographer exhale a striking dimension of images wrapped in the appeals of mystery. Perhaps because it is extremely difficult to submit to rationality the sieve of an attempt to directly explain the phenomena addressed. Nevertheless, it seems an unreasonable attempt to establish concepts for what is seen in the face this ritual of subjectivities embraced to a level of immateriality. After all, how to classify the intangible?
Angelik is, in fact, the artistic persona of Angela Kasalia, who was born and lives in Athens, Greece, to this day. Her involvement with photography stems from the need to express emotions and feelings. In a confessional tone, she affirms that her records, even presenting the most diverse people, reflect her own existence. From the perspective of observation of the other, the photographer states that she finds herself in each of the conceived images.
Through her photographs, Angelik re-signifies the experience emanating from the body. She considers it to be a true agent of languages insofar as it propagates important maximazing discursive effects. Taken in a physical sense, the body here exposed in the paths of art is evidenced by its message-transmitting character. Otherwise, and leaning towards the immaterial, we see that same body assume symbolically ethereal proportions.
The paths of the image in the records of Angelik Kasalia come to tell us of this fine and delicate line that divides human body and soul. And such dimensions, even if they are distinct by nature, tend to establish a relationship of harmonization and complementarity between them. These effects depend on the mechanisms of interpretation of each of us. When they leave their creative matrix, the photographs take on new aspects, gain momentum and come into the world as if they were the clarvoyants of an aurora illuminated by poetry. Cycle that does not fade.
* Luana Alves is a translator, graduated in Liberal Arts by UESC. Currently undertaking a master’s degree at the same university, developing researches in Translation and Post-colonial Literature.
* Luana Alves é tradutora, graduada em Letras pela UESC. Atualmente é mestranda na mesma universidade, desenvolvendo pesquisa na área de tradução e literatura pós colonial.
Fabrício Brandão publishes the magazine Diversos Afins, besides seeking shelter in books, records, films and in the passionate act of playing drums. Currently undertaking a Master’s Degree in Literature at UESC, and his research line brings together Literature and Culture.
Tudo o que classificamos como sendo o real pode ser a fabricação imediata dos instantes. Pode ser o exercício patente de apreensão duma superficialidade das coisas observadas. Também pode significar o óbvio saltando com suas garras ajustadas bem em nossa direção. Diante dessas tentativas de definição, abre-se o fosso da dúvida: será que nos é dada a faculdade de invenção da realidade?
O real nem sempre é algo posto num panteão de conformidades. Por vezes, assinala perspectivas inusitadas, propondo-nos uma mudança no itinerário de nossas convicções. É quando, manipulando uma certa ordem natural preexistente, reconstruímos os mais diversos cenários de mundo.
Em matéria de fotografia, muitos ímpetos criativos hoje intentam um caminho que, mais do que simplesmente expor a porção real das coisas, deseja ir além, inaugurando outras fronteiras de compreensão. Esse olhar que ultrapassa determinados limites do lado aparente da vida acaba por resultar num permanente estado de revelações. É, pois, a sensação que temos ao contemplarmos as imagens de uma artista como Kristiane Foltran.
Detentora de uma atitude que rompe com uma noção tradicional de concepção da imagem, Kristiane aponta um caminho de transgressão do modus operandi ao qual se debruçou por muito tempo o ofício da fotografia. Adepta da utilização de recursos como a dupla exposição digital, essa fotógrafa curitibana vislumbra apresentar um mundo norteado especialmente pela assunção de outras linguagens.
Foto: Kristiane Foltran
Ao questionar as possibilidades de utilização do suporte fotográfico, Kristiane percebeu que era necessária uma via de transcendência, ou seja, algo que desse vazão a renovadas formas de representação imagética. Essa busca fez com que a artista, lançando mão de novas ferramentas (a exemplo do Site-specific e da Performance), conduzisse uma pesquisa estética através da qual a imagem assumiria uma concepção espacial diferenciada. Desse modo, e diante da fragilidade do suporte fotográfico, a arte transborda o papel e atinge o espaço.
O fato é que a artista visual em comento não apenas propicia um ambiente de ressignificação, sobretudo pelos meios dos quais se utiliza, mas também consegue conferir uma construção poética para seu trabalho. É o que podemos constatar ao observarmos séries como In_Versos, Marés, Fragmentos e Gueixas de Outono, todas elas a nos revelar densos percursos no complexo mar de nossas humanas idades.
Kristiane Foltran traz em sua trajetória uma vasta participação em exposições individuais e coletivas, além de integrar seleções e colocações em editais, concursos e salões de arte. Com os dois pés fincados na pós-modernidade, demonstra que sua arte, assim como o seu tempo, não se assenta em bases estabilizadas e previsíveis.
Tal como foi abordado no início destas breves linhas, a apreensão da realidade é algo movido por difusos caminhos. Certamente, não acharemos respostas para toda sorte de indagações pertinentes a um percurso como este. Importa mesmo considerar que o olhar de um artista pode trazer à tona as virtudes encerradas num gesto singular de percepção. Com o passar do tempo, sentimos mesmo que a arte não admite a visão cordata das coisas.
Foto: Kristiane Foltran
*As fotos de Kristiane Foltran fazem parte da galeria e dos textos da 118ª Leva
Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos e filmes. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.
A cidade apresenta seus matizes. E há muito por trás disso. Tudo traduzido num ritual de cores, linhas, formas, luzes, sombras e gestos. Dentro da metrópole, reinam sentidos múltiplos, escondem-se outros tantos segredos. O concreto não existe por si só, enquanto resultado de décadas e décadas de feituras arquitetônicas, mas assume uma nova conformidade na medida em que os habitantes dos seus domínios alimentam o vaivém dos dias com o fluxo das suas ações.
Estar numa cidade é fazer parte de um imenso campo de abstrações. Por mais que se tome as coisas como fruto imediato das observações mais aparentes da vida, um quê de mistério ainda resiste. Quanto sentimento pode caber nos corredores viários, nas ruas, alamedas e avenidas? O que, de fato, define as paisagens urbanas?
São questões razoáveis, plausíveis. Certamente, a resposta está no modo como as intervenções humanas protagonizam seus papeis. Na caótica rotina urbana, pessoas passeiam suas efusões e dores, carregam suas máscaras, consolidando um verdadeiro e difuso espaço de representações.
No trabalho de um fotógrafo como Ricardo Laf, a imagem traz em si um caráter fortemente voltado aos aspectos acima descritos. É como se o artista retivesse instantes e extraísse deles alguma máxima do tempo, espécie de testemunho insone das coisas.
Foto: Ricardo Laf
Nas fotografias de Ricardo, a perspectiva física dos lugares vem redimensionada pelas marcas que os homens assinalam em suas passagens. Assim, a matéria incorpora os ecos de seus personagens transformadores, assumindo também uma faceta ativa. É como se houvesse uma confluência entre os dois mundos, um de carne, outro de pedra.
Quando incursiona pelas vias citadinas, o olhar desse artista mineiro também sonda vestígios, verdadeiros lugares de ausência que são pressupostos de silenciosos e anteriores ímpetos humanos. O saldo dessas marcas reflete um complexo painel de histórias camufladas pela rotina. Aos poucos, vislumbramos também narrativas de vida dispersas nos vãos da colossal matéria. Mesmo onde impera algum tipo de devastação, uma memória ali se instalou.
Jornalista por formação, Ricardo Laf também estudou Ciências Sociais, Teoria da Literatura e Semiótica. Confessa-se com uma intenção estética de, através da fotografia, dar vazão ao registro visível do mundo. Sua relação com a imagem remonta à mais longínqua infância, despertada por uma pueril curiosidade.
Bem sabemos que muito se perde no torvelinho cotidiano. De tão acostumadas, nossas horas tendem a refletir um ciclo de ações por vezes mecânicas. Com tal comportamento, alteramos as configurações dos espaços em que transitamos sem sequer desconfiarmos que neles alguma porção da vida restou coagulada. E o que mais fascina nesse automático processo de desprezo é saber que de algum modo alguém nos chamará a atenção para as sutis epifanias do esquecimento, seus cenários repletos de histórias possíveis.
Foto: Ricardo Laf
* As fotografias de Ricardo Laf são parte integrante da galeria e dos textos da 108ª Leva
Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.