Num dado momento, os sentidos saem às ruas à cata de dimensões. Lá fora, um sopro vital permeia convívios, retém sons, encerra pensamentos. Todos os dias, em qualquer recanto do planeta, um intercruzar, ora silencioso, ora sonoro, de trajetórias distintas toma conta desse colossal palco que é a vida. Todos os dias tudo segue, apesar de nós.
O que seria desse nosso mundo sem as diferenças? A cada rosto, sua tez. A cada paisagem, seus matizes. A cada gesto, um microuniverso íntimo que, por vezes guardado a sete chaves, eclode nalgum ponto da jornada humana sobre a Terra. Serão os territórios todos nossos? Onde o limite para a visibilidade das coisas?
Na intersecção entre a concretude e a esfera de abstração, somos seres ainda hesitantes. Por assim dizer, a imperfeição dos homens é melhor guia, pois a nossa vida sucumbiria diante da certeza de que tudo está cartesianamente no seu devido lugar.
A observação das epifanias que nos cercam é também uma forma de intervenção. Por isso, evidenciar o caráter que permeia a obra de uma fotógrafa como Sinisia Conié algo oportuno. Ali, o olhar expõe o fluxo dinâmico das expressões humanas, levando em conta que é extremamente impossível passar incólume pelo que é testemunhado de perto. Mesmo quando se supõe uma mera contemplação, há muito mais consolidando tal gesto.
Foto: Sinisia Coni
Em sua arte, Sinisia sonda ambientes urbanos como quem ousa navegar os mares da impessoalidade. O resultado dessa travessia é transmutado em gestos os quais nos soam familiares na medida em que concluímos que, não importa qual demarcação geográfica seja, pessoas são feitas da mesma essência.
Revelando-se uma apaixonada pela fotografia, Sinisia iniciou sua trajetória bem cedo, aos 14 anos de idade. De lá para cá, profissionalizou-se e participou de exposições dentro e fora do país, sendo premiada na Embaixada do Brasil em Oslo, na Noruega. Nascida em Salvador, na Bahia, hoje reside em Lisboa, Portugal.
A fotógrafa baiana confessa que mergulha com a alma quando busca suas imagens. Por tal concepção, é possível notar que ela não se propõe a uma busca leviana de lugares e pessoas. Não há o registro pelo registro, alguma espécie de fotografia acidental, mas sim um desejado envolvimento com o que surge diante dos seus olhos. Percebemos isso quando cores, formas, sombras e faces emanam suas múltiplas e próprias linguagens num ritual o mais natural possível.
Sem artificialismos e arranjos premeditados, Sinisia Coni é uma genuína testemunha do mundo, seus arroubos e sua gente.
Foto: Sinisia Coni
* As fotografias de Sinisia Coni são parte integrante da galeria e dos textos da 106ª Leva
Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.
Entre os vãos daquilo que imaginamos ou vivemos, um mundo explode à nossa volta. Dentro dele, desenham-se cenários, epifanias humanas, outras possíveis dimensões. Há que se falar no concreto das coisas e na sua projeção aparente. Há que se falar também em abstrações ou em como estamos diante de esferas intangíveis. E, quando não temos o controle imediato das situações, passamos a meros observadores desse jogo de representações que é a vida.
Quem fotografa lida com um universo de paralelismos. Num arranjo cênico moldado pelo cotidiano, os olhares se entrecruzam. Sujeitos e objetos captados pelas lentes rompem a noção de passividade e ganham um status de protagonismo. Assim, surgem novas maneiras de vislumbrar a existência. O fotógrafo, artesão da luz, é também arrebatado por toda a sorte de elementos que emanam do exterior como se estes últimos o escolhessem. Coexistem, num mesmo plano, as investidas do artista e a representação autônoma com que seres e coisas se apresentam.
Revertendo a tradicional visão das atuações, seria como afirmar que o fotógrafo é quem é eleito pelo seu alvo. Se por um lado tal constatação traz uma carga subjetiva muito forte, por outro, aponta para uma perspectiva através da qual cabe ao artista perceber certos atrativos sinais. Temos essa sensação ao contemplarmos o trabalho de Valéria Simões, sobretudo pelo fato de que as pequenas delicadezas contidas no dia-a-dia ganham destaque aos olhos da artista.
Registrar pessoas é algo que ocupa um lugar especial na trajetória de Valéria. Nesse aspecto, está em foco a habilidade de interferir o mínimo possível no curso natural dos personagens e seus respectivos ambientes. Como ela mesma confessou, numa entrevista concedida à Diversos Afins, o segredo consiste em se misturar da forma mais espontânea possível. E é assim que múltiplas faces são mostradas, tanto nos rostos retratados quanto em lugares nos quais as intervenções humanas deixaram suas marcas mais evidentes.
Foto: Valéria Simões
Por trás da rotina que envolve a tudo e todos, paira um manto poético com o qual a fotógrafa apresenta o grande palco da vida. São cores, formas, linhas, gestos a compor a dinâmica da existência. Os espaços urbanos revelam sentidos tanto de ocupação quanto de ausência, todos eles denotando uma simbologia própria.
A fotografia está na vida de Valéria Simões desde o início dos anos 1990. Alguns de seus trabalhos foram premiados dentro e fora do país. Participou de diversas exposições, tanto individuais quanto coletivas, no Brasil, Peru, Canadá e França. Em cinema, assina a fotografia de cena de filmes como “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (São Paulo – 2002) e “Trampolim do Forte” (Bahia – 2008). Fez de sua casa, em Salvador, uma verdadeira galeria, lugar onde recebe convidados, artistas e pessoas interessadas em adquirir suas obras.
Transitando entre mundos, os olhares de Valéria enaltecem o ritual singelo da vida. Diante da delicadeza e da simplicidade com as quais se depara, a artista não se furta ao ato de nos revelar que nas coisas costumeiramente despercebidas há sabores elevados.
Foto: Valéria Simões
* As fotografias de Valéria Simões fazem parte da galeria e dos textos da 104ª Leva
Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.
A cada passo dado, as sandálias do caminhante desgastam-se num ciclo irreversível. É o tempo com suas investidas e artimanhas. No mesmo instante em que se olha para trás, os rastros deixados já não são mais os mesmos. Inexplicavelmente, nossa capacidade de perceber o exíguo prazo de duração de um estar no mundo é inversamente proporcional ao que podemos reter de fato. Assim, anda-se muito. Assim, fala-se em demasia. Assim, perde-se o essencial da viagem.
É possível a fuga do mundo quando ele nos apresenta a sua face mais cruel? Nem sempre. Muitos dirão haver saída nos incontáveis manuseios da abstração. Outros verão a tudo com certa resignação e tentarão ressignificar viciadas paisagens. Alguns mais darão um beijo de língua nessa divindade chamada caos. Seja qual for a alternativa elegida, em tudo haverá um pacto, o qual, silencioso ou não, adentrará dias e noites convidando corpos e almas a refastelarem-se no grosso caldo da incerteza.
De toda sorte, há combates entoando seus cantos por todas as frentes. Se guerreamos, consentimos em deixar partes nossas nos vãos devastados e tentamos conviver com o saldo dos vestígios. Se nos omitimos, duras revoluções implodem nosso ilustrado castelo de cartas falivelmente projetadas. Por tudo isso, a desordenação das coisas até pode assustar hordas de desavisados, mas haverá quem vislumbre nela a oportunidade de olhar a tudo como uma outra dimensão da existência.
Foto: Ana Pérola
O que dizer, então, quando nos deparamos com as fotografias de Ana Pérola Pacheco? Arriscar na resposta uma ideia de que o caos nosso de cada dia é um lugar de aproximações. Se o mundo afugenta por suas complexas questões indecifráveis, a artista estreita os laços com o seu tempo, seu espaço e, sobretudo, sua gente. É uma predileção que não ressalta escolhidos, mas sim alça os seres a um patamar de igualdade entre si.
Numa dinâmica de comunhão entre pessoas, lugares e esferas intangíveis, Ana desfila seus olhos ante o girar da vida. O resultado é uma delicada apresentação do real segundo uma ótica que não negligencia as hesitantes intervenções humanas. Afinal, somos um barro cujos moldes apontam para sabidas imperfeições.
Quando a constatação das visões da vida nos revela a pungência das adversidades, aí então notamos o caráter essencial da expressão de Ana Pérola: poder observar as tensões mundanas e retirar delas saídas poeticamente imagéticas. Tal perspectiva não vem acometida por uma necessidade de redenção ou purificação diante de um mundo declaradamente conturbado. O viés adotado pela fotógrafa também intenta uma leveza que seja capaz de minimizar a solidão dos homens, propondo-lhes caminhos de aproximação.
Foto: Ana Pérola
Nascida no Rio de Janeiro e vivendo atualmente em Florianópolis, Ana também se dedica à literatura, tendo publicado poemas e ensaios. Mantém o blog Sentidos e é colaboradora do site Poesia: Falsidade Ideológica.
De mãos dadas com a poesia, a fotógrafa promove suas imersões num mundo que, por vezes, todos julgamos conhecer. Mas será que o sabemos de fato em sua inteireza? Melhor confessar que não, pois a pretensão é superior à concretude de nossas constatações. Assim sendo, Ana crê num caminho que constrói perspectivas, valorizando um ambiente no qual nossas humanas idades representem menos turbilhão e mais serenidade. E no âmago dessa busca, ela mesma nos diz:
Há quentura na sombra E há também frieza no vazio. Os pés que te levam É o meu retorno para o lado contrário Nossa estação de passagem Transborda fantasia Aguça a alegria do sonho Esquenta E danço, como o fogo quando queima a lenha Voo pr’um mundo que não sei, que não vi Desafio-me no olho do desconhecido, vibro Talvez eu ame algum dia. Talvez. E até dê flores aos Amigos Talvez eu me encoraje e abra a porta Dê descarga, deixo ir a sobrecarga Me banho na água do rio e vou Correnteza. Ser oceano.
Foto: Ana Pérola
* As fotografias de Ana Pérola Pacheco fazem parte da galeria e dos textos da 102ª Leva
O Sal da Terra (Le Sel de la Terre). França/Brasil/Itália. 2014.
“No fundo, a fotografia é subversiva, não quando aterroriza, perturba ou mesmo estigmatiza, mas quando é pensativa”. (Roland Barthes)
Em 40 anos de profissão, a obra do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado personificou por completo a definição de Roland Barthes. Seja em Serra Pelada, na Indonésia ou em Ruanda, sua estética impactante sempre foi encravada de reflexão. Acusado por parte da crítica por alastrar o que chamam de “cosmetização da miséria”, as lentes de Salgado apenas captam o que há de mais amargo nos paladares da humanidade, por mais manipulador e piegas que isto soe. Dirigido por Wim Wenders — que já filmou com destreza vida e obra dos músicos “super-avôs” cubanos, em Buena Vista Social Club (1999) e da coreógrafa alemã Pina Bausch, em Pina (2011) — e Juliano Ribeiro Salgado, primogênito do fotógrafo, O Sal da Terra foi indicado ao Oscar 2015, porém perdeu a estatueta para o documentário americano Citizenfour (2014), de Laura Poitras, sobre o escândalo de espionagem da NSA (National Security Agency), revelado por Edward Snowden.
Sebastião Salgado em cena de O Sal da Terra / Foto: divulgação
Apesar de não se tratar de um registro cronológico e linear, o documentário pontua brevemente sua infância em Minas Gerais, a graduação em Economia, seu casamento com Lélia Wanick, o mestrado na USP, sua longa estada na Europa e os primeiros contatos com a câmera, fotografando esportes, casamentos e até nus. Aponta suas primeiras expedições ao lado do filho Juliano e seus livros/exposições mais expressivos, com destaque para Outras Américas, Sahel – O Homem em Agonia, Trabalhadores, Êxodos e Gênesis. No entanto, o interesse maior dos cineastas diz respeito ao ser humano por detrás da objetiva, o filho-marido-pai septuagenário ante o fotógrafo social. Filmado na maior parte do tempo em P&B, com narrativa em off de Wenders e depoimentos de “Tião” e seus familiares – destaque para o pai e a esposa, peça fundamental em seu trabalho – o filme apresenta algumas cenas coloridas e uma infinidade de fotografias belíssimas – e ao mesmo tempo de uma crueza quase ficcional – obtidas pelas lentes de Salgado. Tais imagens fundem-se de tal forma que parecem ganhar até mesmo movimento quando projetadas pelo cinema de Wenders.
As minas de Serra Pelada (1986) – Sebastião Salgado. Foto pela qual Wim Wenders conheceu o trabalho do fotógrafo
Em um segundo momento, O Sal da Terra retrata a fundação do Instituto Terra, ONG criada em 1998 e destinada ao desenvolvimento sustentável do Vale do Rio Doce. Gerada em parceria com a esposa Lélia, que idealizava “plantar uma floresta”, ou seja, reflorestar a Mata Atlântica nas proximidades da fazenda da família em Aimorés (MG). A Fazenda Bulcão, que deu sustento e educação aos 7 filhos do patriarca e encontrava-se à beira da destruição – hoje transformada em Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) – é um exemplo de “pasto transformado em floresta”, como diz a abertura do site da instituição. É a devolução do empréstimo que a família fez à própria natureza. A recuperação da estância curou também a alma de Sebastião Salgado, tão castigada com as agruras captadas, sobretudo em sua longa jornada pela África. Exausto da desventura e brutalidade humana, ele passou a dedicar-se a um projeto ambiental, fotografando ecossistemas pouco explorados, reconhecendo-se em cada animal, em cada planta, em cada povo primitivo. A documentação disso culminou no livro Gênesis, sua obra-prima, uma declaração de amor ao planeta.
Em suma, O Sal da Terra é um documentário intenso e sensível sobre o processo criativo, o mundo e a condição humana. Trata-se do encontro de dois artistas formidáveis, autores de algumas das imagens mais surpreendentes do nosso passado recente – real ou imaginário – e sua perturbação artística, porém esperançosa, diante da vida.
Larissa Mendes tem procurado diminuir o contato com o sal da Terra.
Há uma voz que, em meio ao tempo, pretende ocupar espaços. Essa voz transmuta-se no olhar daquele que cruza insones paisagens urbanas. E não há necessidade de que sua expressão maior seja percebida pelo verbo sonoro. Apenas o silêncio desafiador ousa permanecer e atravessar as zonas mais inusitadas da observação.
Quando o olhar revela-se um personagem dos cenários retratados, o ritual dos estranhamentos renova seu foco. Sem deixar passar o traço genuíno que cada ser ou lugar denotam, um fotógrafo vai além da dimensão externa das coisas quando experimenta tempos e espaços num mergulho físico ou intangível.
Gabriel Rastelli Quintão é um desses desbravadores de territórios. Máquina em punho, seus registros fotográficos perscrutam cenários em busca de vislumbrar o que está além dos vestígios. Atraído por uma espécie de decadência humana, o fotógrafo intenta o belo em meios aos escombros, quiçá alguma pista que possa renovar a crença num porvir.
Diante dos fragmentos deixados pelos homens, Gabriel parece se defrontar com a poética do vazio. Nesse ínterim, há um curioso processo de ocupação imaterial dos espaços, fazendo com que tais lugares representem pontos de recordações e alguma contemplação. Assim, a perspectiva do ambiente urbano deixa de ser meramente uma aglutinação de concreto e passa a algo indissolúvel na medida em que o tempo costura seu imprevisível fluxo.
Foto: Gabriel Rastelli Quintão
O que Gabriel vê para além do vazio aparente é também um inventário de silêncios. Tanto na via das ações quanto na das hesitações, homens alteraram o curso de suas trajetórias e, mesmo que o artista tenha chegado após os fatos, os cenários denunciam seu farto enredo.
Nascido em Araraquara, São Paulo, Gabriel Quintão estudou fotografia na Escola Panamericana de Artes e hoje atua nas áreas de fine art, fotojornalismo, retratos e publicidade. Seu primeiro projeto autoral publicado, batizado de “Linha de Frente”, mostra as reações de fãs de rock que se comprimem nas primeiras fileiras de shows do gênero. Noutro momento, o fotógrafo exalta a série “Cinzas de Quarta”, cujas imagens refletem o abandono das alegorias carnavalescas que, outrora ostentavam a magia de um desfile, agora são relegadas ao esquecimento pós-momesco.
Apesar do trabalho de Gabriel denotar uma forte relação com as lacunas humanas visíveis ou não, outros pontos de observação são elegidos pelo artista. Composições de luz e sombra, flagrantes da natureza e epifanias urbanas também fazem da arte do fotógrafo paulista um caleidoscópio de sensações pulsantes.
Entremeando a tênue cortina que divisa o ser do não-ser, os olhares aqui apontados configuram uma estética que conjuga perenidade com volatilidade. E o interessante é perceber que há modos de se testemunhar presenças e marcas, mesmo que agora subsista algum vazio. Aquilo que o tempo ocultou ou até mesmo dissipou resiste, permanece intacto na maneira como lidamos com as artimanhas da memória.
Foto: Gabriel Rastelli Quintão
* As fotografias de Gabriel Rastelli Quintão são parte integrante da galeria e dos textos da 100ª Leva
Por entre as arestas dos dias, há este senhor que apazigua e exalta ânimos. Como num carrossel de cores vivas, são muitas as faces possíveis do misterioso ser que rege as entrelinhas do mundo. Os homens, por vezes, tentam arregimentar ciclos e detê-los nalgum canto da memória esparsa. Há que se reconhecer que a humanidade ainda desconhece tudo que o correr das horas inaugura. Com toda a sua imperiosa fidalguia, é o tempo o senhor daquilo que nos escapa entre os dedos.
O mundo, tal como o vemos, bem que poderia ser subserviente aos nossos caprichos e instintos mais primitivos. Mas não o é. Revela-se mesmo um aglomerado de dissonâncias tão típicas de um organismo que não mais sabe distinguir quais corpos estranhos invadiram-lhe as entranhas. E é bem assim que, mirando paisagens inventadas pelos sentidos, flertamos sobretudo com fantasias, delírios e algumas desejadas doses de amenidades.
Diante das observações postas acima, é possível perceber que encontramos artistas cujo trabalho revela um acentuado gosto por uma zona de intersecção entre o real e outras searas intangíveis aos olhos. Muito dessa sensação está presente na obra do fotógrafo argentino Tomás Casares. Nela, pulsa forte muito mais do que um desejo de apresentar os homens e seus lugares, mas principalmente a ideia de que a arte é capaz de servir como um instrumento de transcendência, através da qual o visível é tido como uma extensão do espírito humano.
É interessante notar como o efeito pretendido pelo criador torna seu trabalho dotado de uma singularidade tamanha. É dessa forma que Tomás nos apresenta o mundo através de suas imagens, fazendo-nos suspeitar que o cotidiano abriga uma viva poesia em seus interstícios. E tal conclusão não é tão simples de elaborar. Há que percebermos que, acima de tudo, estamos a contemplar uma densa e intricada poética dos mistérios, como se a nós fosse dada sempre a perspectiva de questionar convicções.
Foto: Tomás Casares
Pelos registros de Tomás Casares, a matéria das coisas e pessoas não é um mero objeto a ocupar lugar no espaço e no tempo. Dela, emanam sentimentos difusos, capazes de vislumbrar uma noção pretendida de unidade. A partir daí, o que o fotógrafo chama de expressão da verdade resulta da harmonização entre o visível e o invisível, todo um ambiente de sensações fortemente marcado por um caráter místico.
Há, por parte de Tomás, um interesse em conceber o homem como um agente ativo de um entendimento deveras sublime: a viagem ao seu interior. Segundo o artista, isso será possível quando tomarmos consciência de nosso processo de liberdade, algo fundamentalmente precedido por uma libertação espiritual. Agindo dessa forma, compreenderíamos melhor a relação entre as coisas, sobretudo as que estão situadas no hiato entre o visível e o invisível.
Quando a arte nos sugere seguir mistérios, suas epifanias não valerão a pena se tentarmos olhar tudo como um incansável fluxo de apreensões exclusivamente racionais. Há que captarmos a distinção crucial entre conhecer e compreender. Há que nos deixemos levar por um delicado e sensível caminho no qual a afirmação das certezas é o que menos importa.
Foto: Tomás Casares
* As fotografias de Tomás Casares são parte integrante da galeria e dos textos da 96ª Leva
A menina adentra as veredas da adolescência, perfazendo as primeiras noções de olhar o mundo com necessário cuidado. Seu método de observação é, no mínimo, curioso. Deita-se sobre um beiral do terraço do prédio em que morava na maior cidade brasileira e faz com que o corpo, capitaneado pela visão de quem procura detalhes, incline-se a noventa graus. Com isso, intenta ver o oceano urbano explodindo seus signos lá embaixo, além de experimentar o horizonte recortado. Seu mundo idealizado era em preto e branco.
O tempo passa e a menina, hoje mulher, fez questão de levar adiante a sua particular maneira de apreender a luz. Seu nome, Luciana Bignardi. Sua nova morada, Portugal. De lá para cá, pouco mais de duas décadas se passaram e a chama continuou acesa. Com o desenvolvimento do olhar, especialmente marcado por nomes como os de Sebastião Salgado e Cartier Bresson, a escolha da moça pelo ofício de fotógrafa cada vez mais ganhava corpo e certeza.
É o olhar que perscruta a vida quem comanda as ações na trajetória de Luciana. Interessada em transpor as barreiras mais aparentes, ela vislumbra como desafio maior a perspectiva de captar a alma humana da forma menos invasiva possível. Nesse aspecto, o que fica em boa medida é o entrelaçar silencioso de mundos, estreitando distâncias entre observador e observado. Assim, uma pergunta sempre se faz presente: terá a fotógrafa a capacidade de praticar o taciturno pacto do registro sem alterar as esferas íntimas de seus personagens prediletos?
A resposta parece ser positiva, embora saibamos que os olhares que lançamos ao universo de coisas que nos rodeia não são impunes. E não se trata aqui de levar em conta a possibilidade de alteramos o sentido daquilo que vemos a partir de nossas convicções, mas pelo modo como também nos sentimos parte viva do que é apresentado via lentes. Então, ao refletirmos sobre o trabalho de Luciana Bignardi, entendemos também que ela nos mostra um ponto essencial de convergência, no qual criador e criatura são cúmplices duma mesma e complexa existência.
Foto: Luciana Bignardi
Afora as especiais abordagens humanas, as fotografias de Luciana conferem um lugar de destaque para a, digamos assim, geometria dos espaços retratados. Isso fica mais claro quando notamos a maneira através da qual a artista evidencia o caráter urbano de suas observações. Nesse ínterim, flutuam linhas, retas, curvas, sombras e diversos contornos a promover uma verdadeira sugestão de espaços. Mas o que seria tal propósito? Quiçá o de apresentar aos nossos olhos que, para além do concreto embrutecido das cidades, outras dimensões espaciais se operam, podendo estas serem tanto físicas quanto abstratas. O resultado é todo um caminho feito de aspectos também simétricos e dotados de uma significativa sensação de profundidade de campo.
E eis que a natureza também é tida em boa conta no ofício de Luciana. Basta ver o modo como ela nos traz à baila folhas de árvores, que, conforme a própria artista confessa, também fazem parte de um processo de se perceber o que extrapola o meramente visível, entrevendo desenhos nos lapsos deixados por ramos e galhos.
A predileção pelos detalhes é, sem dúvida, um fio condutor da trajetória criativa de Luciana Bignardi. Basta lembrarmos da criança curiosa, mencionada no início do texto, e a deslocarmos para o momento atual. Os ímpetos fundamentais continuam os mesmos: tentar apreender nos interstícios da existência o idioma secreto que abriga simultaneamente pessoas, lugares, coisas e outros seres. Enquanto o olhar avulta o tempo, a sonoridade discreta da vida rege os instantes embalados pela indispensável descoberta do mundo.
Foto: Luciana Bignardi
* As fotografias de Luciana Bignardi integram a galeria e os textos da 94ª Leva
Cada dia sobre a Terra encerra uma multiplicidade de cenários. Mesmo que muita coisa nos soe insistentemente familiar, há sempre algo que escapa aos domínios de nosso imediatismo. Seja por pressa ou alguma mera negligência do olhar, deixamos de lado um recorte mais detido e profundo sobre muito daquilo que, no final das contas, também faz parte do que somos.
Nesse movimento de ausências, a construção do olhar acostumado parece ser um impeditivo de se enxergar no mundo sua real essência. Acostumar-se, aqui, é se deslocar pelo manto fácil e superficial dos acontecimentos sem buscar um entendimento sobre aquilo que verdadeiramente se vive.
Os fenômenos que compõem o mundo no qual respiramos estão muito além do que supomos e dos nossos ambientes compartimentados em solidão. Partindo do princípio de que não somos os únicos detentores das narrativas que atravessam os dias, sentimos o quanto é necessário ampliarmos os territórios da percepção.
Sob os nossos narizes, a existência pede passagem. E é necessário perceber a tudo e a todos com ares de naturalidade. Afinal, somos a mesma amálgama humana que compõe o planeta desde sempre. Dela, retiramos virtudes e mazelas, suavidades e complexidades, sem jamais passarmos intactos. Por ela transitamos quando temos por guia gente como o fotógrafo Luiz Navarro, artista que desvia a nossa atenção para ambientes os quais raramente são alvos de algum foco especial.
Foto: Luiz Navarro
Entre gestos e ritos dum cotidiano densamente captado, Luiz prefere percorrer lugares nos quais a simplicidade consolidou morada. Nesse fluxo de apresentações do real, o fotógrafo vislumbra alguma pungente singularidade em espaços frequentemente absorvidos por uma espécie de esquecimento. Suas lentes trazem à tona muito mais do que o resultado secular das disparidades socioeconômicas que assolam um país continental como o Brasil, mas, sobretudo, evidenciam quão espessa é a trama que perpassa nossa face.
E Luiz Navarro, nascido em Manaus, vislumbra o mundo a partir de seu próprio locus. Das paragens amazônicas, vê-se não somente o berço que gestou o artista, mas também toda uma profusão de sentimentos que acabam por dar vez e voz a pessoas e ambientes diluídos por uma invisibilidade que lhes é viciosamente imposta.
Mas eis que o artista não sucumbe a qualquer ato piedoso quando seus personagens retratados compõem o painel da desigualdade e da marginalização reinantes no país. Pelo contrário, vislumbra semblantes dotados duma emblemática serenidade, cerzindo suas trajetórias de modo a não pactuarem com qualquer percepção que os estigmatize como vítimas ou fracassados.
Ao mesmo tempo em que edifica um panorama valioso do ponto de vista humano, Luiz capta com precisão as paisagens naturais que cercam o seu entorno de observações. Por tamanha habilidade com as lentes, custa-nos acreditar que para ele a fotografia possui um caráter de hobby. Munido de uma postura sensível, o artista extrai um resultado poético para seu trabalho, algo que o faz evidenciar adjetivos relevantes escamoteados no vaivém da vida. Se o que se apregoa por aí é que o essencial é invisível aos olhos, o melhor mesmo é apurar os sentidos rumo às despretensiosas epifanias diárias.
Foto: Luiz Navarro
* As fotografias de Luiz Navarro integram a galeria e os textos da 92ª Leva
No hiato que perpassa silêncio e criação, um vasto acervo de percursos da memória vivente constrói seu íntimo habitat. O estágio silente é o preceptor de ímpetos criativos que tanto edificam imagens quanto palavras. E o tempo que maquina os pensamentos enclausurados na inquieta mente de um autor sabe de lapsos e intervalos ansiosos de virem ao mundo. A gestação de um trabalho textual, por exemplo, abriga sua conturbada miríade de abstrações de toda ordem. O que dizer também da perspicácia necessária a quem deve reproduzir com agudeza de espírito instantânea aquilo que a existência lhe oferta?
Assim, fazer coabitarem, num mesmo ambiente de percepções, letras e imagens parece ser missão das mais intricadas. Tudo ganha especial dimensão quando o elo que une aquelas duas partes consolida seus movimentos na via da poesia. Munido dessa convergência que se faz tão marcante, o escritor e fotógrafo Ozias Filho empreende sua rota de vida, mostrando-se um ser comprometido com um repensar de cenários. Para Ozias, dedicar-se à literatura e à fotografia demanda uma busca essencial, qual seja a de empunhar como bandeira maior um olhar poético sobre tudo que o cerca. Nessas suas duas frentes de atuação, o criador se depara com a idealização de sua própria Pasárgada, lugar em que a perspectiva do humano é elevada a um grau máximo de apreciação. Trata-se de um território onde se almeja uma catarse capaz de forjar uma compreensão ampla a respeito de certos fenômenos do mundo em que habitamos.
Ozias Filho nasceu no Rio de Janeiro e, num período complicado da trajetória política e econômica do Brasil, teve em Portugal a oportunidade de um recomeço. Dentre outras obras, publicou Poemas do Dilúvio (poemas – Ed. Alma Azul), Páginas Despidas (poemas – Ed. Pasárgada), O relógio avariado de Deus (poemas – Ed. Pasárgada) e Ar de Arestas (poemas e fotografia – Ed. Pasárgada), este último em parceria com o poeta mineiro Iacyr Anderson Freitas. Como editor, fundou as Edições Pasárgada e, mais recentemente, a Aldeiabook Edições de Autor. No diálogo que agora segue, Ozias fala sobre como sua trajetória foi especialmente marcada pela literatura e fotografia, revelando aspectos sensíveis de seu percurso pelos ambientes da arte, tudo sedimentado por um desejo poético irrefreável.
Ozias Filho / Foto: Leonor Rego
DA – Há em seu trabalho com a fotografia uma sensação de desterritorialização muito forte. Ali, a noção de pertencimento aparece com uma considerável amplitude e sinaliza espaços de construção notadamente subjetivos. Diria que seu olhar concebe o mundo como um organismo amalgamado e sem fronteiras visíveis?
OZIAS FILHO – De fato, o meu trabalho não tem fronteiras visíveis, mas existe a questão do território, por mais indefinido que seja ele, pois eu faço parte dele, do local em que me insiro e que escolho como objeto da minha fotografia, da minha arte. E neste meu lugar eu incluo o outro, o observador, não um observador que precise definir o território daquela imagem, mas sim aquele que queira construir o seu próprio território, o seu não-lugar poético, talvez a sua Pasárgada onde ele pode tudo, onde ele É. Esta quasinvisibilidade, onde as fronteiras não estão definidas, está por todo o lado à espera que lhe prestemos a atenção devida. Contudo, para que isto aconteça, torna-se necessário que reaprendamos a ver. Melhor: que seja hábito daquele que observa desconstruir cenários.
DA – O termo Pasárgada ocupa um lugar de destaque em seu trabalho. Em meio ao bombardeio imagético ao qual estamos submetidos hoje, acredita que esse lugar idealizado sugere uma via de transcendência necessária?
OZIAS FILHO – Não é só necessário este lugar. Pasárgada, ou outro local mítico que queiramos eleger, é vital para a nossa sanidade intelectual. Talvez seja um exagero o que acabei de dizer, mas eu comparo este meu lugar imagético em Pasárgada, através de todo o trabalho desenvolvido nos últimos anos, com o espaço etéreo da minha Pasárgada poética. Eu preciso deste espaço de catarse, este lugar de transcendência que tu sugeres e tenho a certeza que outros também necessitam do mesmo! Não é apenas um refúgio do bombardeio de imagens que nos povoam os dias, mas também uma forma de perceber o processo de significados destas mesmas imagens.
DA – A série “Quasinvísivel” percorre de modo sutil as paisagens urbanas, captando elementos despercebidos pelo olhar imediato de quem habita as cidades. De que modo você reflete sobre a constatação desses, digamos assim, lugares de ausência?
OZIAS FILHO – Reflito pedindo armas emprestadas à poesia, ao lírico, ao velado. Estou nestes instantes como se defronte de um texto complexo me encontrasse. Mas apenas os lugares são de “ausência” do ser humano físico, real, como o conhecemos. Contudo, esta ausência é metafórica, pois ele se encontra lá representado. A minha reflexão, enquanto artista, quando busco esta quasinvisibilidade, tem a ver com um certo olhar leviano que todos temos… acordamos todos os dias, abrimos os olhos e…. está tudo à nossa frente, tão fácil, tão disponível, tão sem esforço que é abrir os olhos e olhar o que nos cerca. Mas será que de fato compreendemos o que os nossos olhos nos dizem? Olhamos, é vero, mas vemos com precisão, conseguimos desconstruir este mundo do imagético fácil? Ou de tão habituados que estamos ao massacre das imagens diárias, assumimos um papel de autômatos, com a visão preguiçosa. Quem não exercita a sua visão consegue ver o seu semelhante, o outro, para além da superfície? Consegue ver a si mesmo para além do espelho?
DA – No seu caso, essa questão da alteridade, do olhar sobre o outro, encerra também um caráter antropológico de observação?
OZIAS FILHO – É apenas um olhar de poeta, com todas as dúvidas e contradições que esta forma de ver traduz.
DA – Em um determinado momento de sua trajetória, você deixa o Brasil e elege Portugal como nova morada. Como se deu essa transição e de que forma ela influenciou suas perspectivas de criação tanto fotográficas como literárias?
OZIAS FILHO – Desde o início da adolescência, sempre tive um fascínio muito grande pela imagem. Quando consegui o meu primeiro emprego, aos 16 anos, numa empresa de relógios, o sonho ganha uma dimensão mais definida. Com o passar do tempo e algum dinheiro, finalmente veio a primeira máquina fotográfica. E com a primeira ferramenta o primeiro erro. Como até então o meu sonho com a fotografia espelhava-se nas imagens que os outros tiravam, não tinha me dado conta que para chegar àquela imagem não bastava só ver o cenário que me cercava, mas também uma técnica à altura, que me permitisse concretizar determinada visão. Daí, eu não ter a mínima ideia que não se podia tirar o rolo da máquina com a tampa detrás aberta. Conclusão: de um rolo de 36 imagens só sobrou uma em condições de ser utilizada. Passados alguns anos, muitos erros mais tarde (mas também acertos), cursos de fotografia, faculdade de Jornalismo, aparece outro objetivo: seguir a carreira de fotojornalista. Mas o sonho fica na gaveta e o que surge é o texto como uma outra paixão. Sem, no entanto, perder o contato com a fotografia, e junto com três outros colegas, dirigi um cineclube na faculdade. Após um período de indefinição profissional, sigo para Portugal (graças à politica recessiva do Collor de Melo) à procura do tão desejado Eldorado. O Brasil, nesta época, vestia-se de pesadelo. Na cidade do Porto, a escrita e a fotografia continuaram a ser as minhas armas diletas e através delas consegui os meus primeiros trabalhos nos jornais portugueses. Publico em jornais, revistas e até mesmo em folhetos publicitários. Em 2005, crio as Edições Pasárgada, publicando poetas portugueses e brasileiros (onde também me incluo). Neste selo editorial, tive a oportunidade de ter algumas das minhas imagens mais emblemáticas nas capas de alguns livros. Seguiram-se outros livros, revistas de arte (algumas publicadas na Alemanha, EUA, Brasil e Portugal, para além de outros países de expressão e língua portuguesas). O prêmio por estes anos todos se traduziu em 2013 com as fotografias do livro Ar de Arestas, com poema de Iacyr Anderson Freitas e a primeira exposição no Museu de Arte Moderna de Juiz de Fora, ou seja, o regresso ao Brasil pela mão da fotografia/poesia. Portanto, a fotografia e a escrita que hoje desenvolvo são frutos do caminho percorrido. Não existe um Ozias Filho do Brasil ou de Portugal na minha criação, mas sim este ser híbrido de duas pátrias e as respectivas influências. Contudo, para mim, a grande mudança no rumo do que fotografo hoje (antes uma fotografia mais generalista e hoje mais conceitual) está intimamente ligada à poesia, mas é uma relação dialética, pois quer a poesia influencia a poesia, como esta tem o seu peso de silêncios nas minhas imagens.
Ozias Filho / Foto: Arquivo pessoal
DA – Em “O Relógio Avariado de Deus”, você se aproxima muito das questões sociais do Brasil, sobretudo no que se refere à violência urbana, sem se portar como um mero observador dos fatos. Há alguma espécie de chamado embutido nesse percurso que se consolida fortemente existencial?
OZIAS FILHO – Há um chamamento da terra, mais do que tudo. Esta terra bonita por natureza, mas que é tingida de sangue por anos e anos de descaso do poder público com as populações. Um poder que foi, em certa medida, conivente com o crime organizado, já que ao longo do seu percurso, sobretudo democrático, não cuidou dos aspectos básicos, tais como a saúde, a educação, a melhoria continuada da vida das pessoas. O Rio de Janeiro, minha terra de nascimento, e onde me inspirei para escrever o meu “Relógio”, é talvez o maior reflexo deste descuido do poder, a sua maior vitrine para o mundo. Não quero dizer que o que se passa no Rio não aconteça em outras partes do globo. A voz que empresto ao livro em causa pode e deve ter leituras mais abrangentes neste mundo que todos os dias é regido pelo Senhor Dinheiro. Contudo, neste relógio – constantemente avariado – há outros tipos de violência menos visíveis. Por exemplo, aquela violência de crescer, de se libertar e de trocar de pele, de enfrentar dia após dia os nossos pequenos fantasmas ou pequenos carrascos.
DA – Em se tratando de Brasil, podemos também falar numa memória afetiva a permear seus versos?
OZIAS FILHO – Os meus versos estão contaminados por variada memória afetiva. Mas ela não se encontra apenas no Brasil (talvez no livro O relógio avariado de Deus estas memórias estejam mais à flor da pele), mas também estão por muitos cantos desta memória coletiva de imigrante que ora tem pátria, ora tem mais de uma pátria e, também, por vezes, não tem pátria nenhuma, ou seja, memória afetiva de lugar nenhum ou lugar indefinido, talvez Pasárgada.
DA – A forma como você engendra a poesia é algo que chama a atenção de quem se aprofunda em seus versos. No livro “Páginas Despidas”, por exemplo, há um poema, intitulado verdade submersa, cuja imagem maior deriva das múltiplas apreensões do verbo, principalmente das esferas percorridas em torno da abstração. No seu caso, a gênese da palavra vem orientada por um sentido total de libertação?
OZIAS FILHO – Só a palavra quebra o silêncio, uma das epígrafes deste livro, traduz em parte esta minha relação entre palavra e silêncio. Contudo, não é uma relação de iguais, mas sim de dependência, na qual a palavra sempre sai desfavorecida, já que só consegue o estatuto de igualdade quando encontra no silêncio do outro, de quem lê, a sua cara-metade. Acredito que cabe ao leitor o papel de traduzir (com as suas leituras e os seus silêncios) o que a palavra não conseguiu cumprir, na sua totalidade, nas mãos do escritor. Há uma defasagem entre este enorme mar chamado silêncio (que não é pacífico) e aquilo que conseguimos produzir com a palavra libertada. Portanto, para mim, esta libertação total não existe e – utilizando uma reflexão do escritor Eduardo Galeano acerca da palavra UTOPIA – é como o horizonte; pois o conseguimos nomeá-lo porque o vemos, sabemos que ele não existe para além da visão, mas mesmo assim continuamos a caminhar na sua direção.
DA – Como poeta, você se considera um transgressor?
OZIAS FILHO – Penso que ser poeta é exercitar o ato da tolerância. Contudo, nos dias que correm, vê-se esta apenas na retórica… e talvez no passado ainda tenha sido pior neste capítulo. Se ser tolerante (e eu busco isso como cidadão) é uma transgressão, então sou um transgressor. Agora, se pergunta se a minha transgressão reside na construção da minha poesia, o que posso lhe dizer é que não sei. Não sei o que é isso. Esta é uma leitura que cabe aos leitores, aos críticos, uma observação externa.
DA – Muito se fala sobre a questão da leitura no Brasil, evocando-se a máxima de que somos um país de escassos leitores. Em Portugal, você leva a cabo outra feição sua, que é a de editor. Qual reflexão você faz do comportamento do leitor português e o que, na sua percepção, caracteriza marcantemente o mercado editorial lusitano?
OZIAS FILHO – Penso que o comportamento dos leitores cada vez mais é uniformizado e parecido, aqui em Portugal e no resto do mundo. Boa parte dos leitores procura aquilo que mais se vende: os livros de alta rotatividade nos escaparates das estantes e que na maioria das vezes são lixo com capas apelativas visualmente. Na parte que mais me toca, a Poesia e as Ciências Sociais, o espaço nas livrarias é cada dia menor. A minha esperança reside na Internet/Redes Sociais, como forma de divulgar os livros dos novos autores que, definitivamente, têm que matar um leão por dia. Primeiro, para chegar e convencer as editoras do seu talento; segundo, para que depois os seus livros consigam entrar no circuito das livrarias e lá permanecerem com a constância suficiente para que tenham visibilidade perante o público. Acredito que a Internet, através das redes sociais, blogues, páginas de literatura e tudo isso conjugado por contaminação em escala, acabará por permitir que cada vez mais autores saiam do limbo do desconhecimento e que criem o seu próprio público. Confio também nos projetos alternativos, como aqueles que desenvolvo nas Edições Pasárgada (edições numeradas, assinadas pelo autor, primeiras e únicas edições, mas com um preço agradável aos leitores). E esta filosofia de voltarmo-nos para o meio virtual a cada dia ganha mais consistência, pois podemos dar visibilidade aos nossos livros (com algumas vendas), alcançando novos leitores, por um lado, e fugindo ao circuito habitual do comércio de livros. Utilizar a virtualidade como suporte à função editorial. Contudo, sempre que pudermos estar presente nas livrarias, assim o faremos, pois o contato com o livro físico tem também os seus apelos.
DA – O resultado do seu caminhar tanto com a literatura quanto com a fotografia lhe permite concluir que você encontrou respostas para alguns cruciais questionamentos?
OZIAS FILHO – A resposta (se é que existe de fato) é o próprio caminho, mediante as perguntas que fazemos no seu percurso. Para quem cria (assim vejo) não existem certezas em coisa nenhuma, pois a pretensa resolução de um “problema” hoje se desfaz na espuma do próximo questionamento. É sempre um recomeçar ad infinitum ou, para usar um pensamento atribuído a Sócrates, sobejamente conhecido, só sei que nada sei …. não obstante… À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo(Álvaro de Campos). O que sei, e posso afirmá-lo com propriedade, é que tanto a poesia, como a fotografia ou a arte, num sentido lato sensu, fazem-me sentir um ser humano melhor, mais liberto, mais tolerante, mais consciente da existência do outro.
DA – No eixo que vai do homem ao artista e vice-versa, o que Ozias Filho espera de Ozias Filho?
OZIAS FILHO – O que espero de mim próprio é nunca deixar de questionar o que me cerca e, apesar das minhas pequenas certezas, ter a capacidade de mudar o curso do rio em que me navego.
São infindos os espaços ao redor. E há dois tipos deles a mover seus cursos de aparição frente a uma hesitante natureza humana. O mais aparente desfila a todo instante numa tentativa quase fugaz de impedir que se perca no oceano dos dias. O outro requer um pouco mais de atenção, quiçá uma percepção que deva vencer as primeiras barreiras de um olhar tão vilipendiado pela rotina.
Acontece que esses dois mundos atravessam nossos sentidos cumprindo um tácito acordo. Enquanto a dimensão que se pretende intensamente física denota cores, formas, gestos e traçados mil, a outra esfera de vivências requer que o tempo seja percebido como uma tênue cortina, na qual um painel de densidades da alma encontra vistoso refúgio. Mas eis que a simultaneidade entra em cena e nos sugere possíveis zonas de convergência entre o que representa a matéria e tudo aquilo que a transcende.
No momento em que um artífice da luz, comumente intitulado de fotógrafo, traz à baila a conjunção do físico com o etéreo, é porque carrega no seu íntimo todo o entendimento de que não há imagem sem um sustentáculo essencial que a configure. Assim, o que vemos de imediato não é apenas uma mera camada evidente das coisas, mas sim o primeiro passo para se experimentar o que alimenta o delicado mecanismo da existência.
Apreender os percursos de Nathalia Bertazi muito se assemelha a um mergulho num enigmático eixo espaço-temporal dos fenômenos mundanos. Com ela, vislumbramos uma espécie de sentimento do locus humano quando nos deixamos guiar pela investigação arquitetônica das cidades. Desse olhar que mira fachadas de prédios, tetos, catedrais, casarios e também ruínas, submergem as vontades abrigadas dos homens. Muito mais do que edificações do concreto, os ambientes ali registrados documentam um ritual diário de sentimentos incontidos.
Foto: Nathalia Bertazi
Como se não bastasse, a mesma Nathalia se reveste de outras personas e amplia sua visão para tatear a tez da própria vida. Assim o faz quando promove um sensível recorte sobre o gestual emblemático da passagem do tempo. Aqui, a fotógrafa vislumbra a poesia encerrada nas marcas travestidas de maturidade. O estado de coisas ao qual poderíamos apressadamente nomear de velhice é sobejamente percebido como um retrato ativo da existência, demarcando contornos que extrapolam a simples constatação dos anos já vividos.
Confessando-se uma verdadeira apreciadora de cidades, linhas, curvas e janelas, Nathalia Bertazi traz de longa data a sua paixão pela arte de captar a luz. Desde a infância, a fotografia se apresentou como uma companheira inseparável. Os anos se passaram, ela aprimorou sua formação na área, e hoje dedica a integralidade de seu tempo ao ofício, trabalhando como editora de imagem na Revista GQ.
Seja na captura de atmosferas de convívio ou na forma como apresenta os arcabouços físicos que nos envolvem, a visão de Nathalia definitivamente aponta para uma rota de transcendência. E o ingrediente que torna a sua arte muito próxima de um flerte com o teor sublime é justamente a perspectiva de assimilar alguns vestígios humanos como elementos indispensáveis de um processo original de construção imagética. Se ainda resistem múltiplas zonas de conflito a povoarem nossa capacidade de enxergar o substancial das coisas, é também porque não nos permitimos afugentar certos vícios domesticados.
Foto: Nathalia Bertazi
* As fotografias de Nathalia Bertazi são parte integrante da galeria e dos textos da 90ª Leva.