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81ª Leva - 07/2013 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Augustine. França. 2012.

 

 

Seria por coincidência ou por um estranho “Zeitgeist”, mas vários filmes recentes voltam a uma questão que parecia ultrapassada clínica e historicamente: a histeria. Depois de Um Método Perigoso, de David Cronenberg, sobre a relação entre Jung e uma de suas clientes, Sabina Spielrien, e da comédia Hysteria, de Tania Wexler, sobre a invenção do aparelho vibrador, chega agora aos cinemas Augustine, de Alice Winocour, sobre a relação entre um dos fundadores da neurologia enquanto ciência, o médico Jean-Martin Charcot, e uma de suas principais clientes. Em comum, esses três filmes abordam a desordem mental ambiguamente epidêmica que mexeu com os corpos femininos de meados do século XIX e interrogou como um mistério indecifrável e oracular as cabeças dos médicos da época. Ou teria sido bem o contrário?

Os três filmes mostram o surgimento, ou melhor dizendo, o reconhecimento de uma estranha desordem chamada de “Histeria” (de Hysteros, ou útero em grego), que teria  abalado e desorientado os corpos de milhares de mulheres das sociedades europeias do século retrasado, como um verdadeiro enigma a questionar não apenas os fundamentos dos médicos oitocentistas, em sua quase totalidade homens, bem como do próprio estatuto científico da medicina mental reclamado por muitos e o poder alcançado por essa disciplina sobre os corpos e mentes das pessoas, sobretudo mulheres.

Entre os três, é a comédia da britânica Wexler, o roteiro menos sisudo e que, dentro de uma linha que poderíamos chamar de “pragmatismo anglo-saxão”, vincula a histeria à invenção histórica do apetrecho sexual feminino. Mas é esse filme que mais claramente demonstra o caráter social e classista da desordem a incidir majoritariamente não apenas em mulheres casadas insatisfeitas sexualmente, mas sobretudo mulheres ociosas, na posição de dependência econômica de seus maridos provedores e da subalternidade moral derivada desta dependência.

Em Um Método Perigoso, Cronenberg apresenta o diálogo tenso entre as duas figuras mais proeminentes da psicanálise, Freud e Jung, mas o mérito maior do filme está em introduzir ao grande público a figura de Sabina Spielrien, uma cliente histérica de Jung que se tornou ela mesma psicanalista. O filme demonstra como o desenvolvimento da psicanálise deveu muito a uma paciente mulher histérica que teria dado a chave a Freud para formular seu conceito de Pulsão de Morte. Assim, o filme defende que a psicanálise não surgiu como um saber específico sobre a histeria, mas num sentido inverso, como a própria – ou imprópria – histeria forneceu os subsídios teóricos para a sua evolução, como se a psicanálise tivesse surgido do interior desse transtorno.

Em Augustine, voltamos ainda mais no tempo para conhecer a figura polêmica de Jean-Martin Charcot, um dos fundadores da neurologia. Charcot foi professor de Freud e é conhecido historicamente por ter descrito um grande número de doenças ou transtornos mentais, muitos deles levando seu nome, entre as quais a esclerose múltipla, uma doença auto-imune cujos sintomas são muito parecidos com os sintomas histéricos misteriosos que acometiam muitas de suas pacientes. Uma delas, de quem se sabe pouco, se chamava justamente Augustine.

Iliterada, Augustine era uma serviçal de uma rica casa burguesa, uma personagem praticamente invisível e insignificante. É durante o serviço de um grande jantar burguês que ela, logo após ser observada pelo olhar insinuante de um rapaz, sofre seu primeiro ataque histérico com fortes convulsões corporais que acabam por deixar um lado de seu corpo paralisado e um olho fechado. Augustine é então levada para o famoso hospital-escola Salpetrière, na época dirigido por Charcot e dedicado ao estudo psiquiátrico, sobretudo de mulheres. Lá a moça se tornará não apenas uma cliente à procura da cura de seus males, mas um caso clínico, um objeto de estudo e uma cobaia para novas formas de tratamento mental cujo diagnóstico era tão difícil como um verdadeiro mistério.

A histeria era um nome genérico dado a um transtorno que apresentava uma série de “sintomas”, males corporais, sem que, no entanto, qualquer anormalidade orgânica se apresentasse. Assim, Augustine, aparentemente uma mulher sadia de 19 anos, não apresentara até então sinais de menstruação (no caso real, no entanto, Augustine tinha apenas 15 anos). A personagem se torna um caso exemplar de histeria, para ser apresentada em conferências médicas, submetendo-se a procedimentos terapêuticos tão dúbios quanto a hipnose, muito utilizada por Charcot numa época pré-psicanalítica.

 

Soko e Vicent Lindon em cena de Augustine / Foto: divulgação

 

Marcada por sintomas de assimetrias corporais, um olho fechado, um lado paralisado e insensível à dor, ou uma das mãos fechada em gancho, Augustine é, sobretudo, uma mulher que se recusa a ser um “objeto de estudo” numa posição de passividade, uma mera serviçal de mais um mestre ou um “doutor” clínico. Ela quer ser antes um sujeito que possui um corpo. E esse corpo-sujeito está também sujeito a uma série de relações de assimetria que se estabelecem: médico e paciente, homem e mulher, burguesia e proletariado.

A diretora Alice Winocour estrutura essas relações de assimetria como relações de poder e também de desejo. Um dos alunos de Charcot censura seu professor por ele negligenciar a evidência de que os sintomas histéricos aparecem quase sempre associados à questão da sexualidade. As cenas de exames clínicos, supostamente frias e neutras, tornam-se no filme cenas eróticas: a cliente é colocada nua para os olhares voyeurísticos de jovens estudantes, um tratamento com objetos compressores lembra uma cena de sado-masoquismo.

O desejo é aquilo que faz com que um corpo se recuse a ser um objeto para ser um sujeito e é também o que cria polos de tensão numa relação de poder. O que acontece entre Charcot e Augustine é algo que se passa entre doutor e paciente, entre aquele que supostamente “sabe” e aquela que supostamente “ignora”, entre a consciência do professor e a inconsciência de seu “objeto-sujeito” e, finalmente, entre o homem e a mulher. Ou, em outras palavras, o que acontece é uma transferência, num sentido psicanalítico.

Mas estamos numa era pré-psicanalítica e Charcot, por mais importante médico e estudioso da mente que tenha sido, dessa vez é aquele que “ignora” e se “perde” nessa relação de transferência. A histeria é justamente o fenômeno social que produz uma clivagem no interior da neurologia, como estudo da mente, que abre uma brecha num campo social dominado pela ideologia da medicina enquanto ciência. Em um momento do filme, Augustine censura seu médico porque este não a escuta. É exatamente essa “escuta” que a psicanálise através de Freud introduz no estudo da histeria.

Médico neurologista, “Napoleão das neuroses” como foi chamado, porém incapaz de dominar os conceitos básicos psicanalíticos da transferência e da escuta, Charcot se deixa seduzir por sua cliente mulher mais do que é seduzido por ela. Numa das cenas mais interessantes do filme, a diretora nos mostra um Charcot nu e fragilizado diante do espelho. Por outro lado, Augustine, uma moça virgem, é também um corpo de desejo. A todo momento questionando o renomado médico se ele trará sua cura, ela também será aquela que seduz e é seduzida como mulher. Ela é paciente e também sua parceira: suas convulsões histéricas motivadas por regressões de hipnose em conferências estão na fronteira entre um processo inconsciente e uma atuação performática sob medida para os olhos dos alunos e pares de Jean-Martin Charcot, que está afinal em busca de um reconhecimento social.

Mas essa performance histérica do corpo feminino através de seus sintomas é menos uma exibição de sinais corporais passíveis de diagnóstico clínico do que expressão de uma linguagem em busca de decifração. Não são sinais, mas signos. No filme, a diretora Alice Winocour interrompe a narrativa para exibir mulheres com problemas mentais vestidas em trajes de época narrando suas visões, alucinações ou devaneios. Tal como a famosa e igualmente polêmica síndrome do déficit de atenção que supostamente acomete milhares de crianças nos dias de hoje, a histeria foi uma grande mensagem no final do século XIX a uma possível interpretação histórica. Em seguida, viria Freud com sua “Traumdeutung”, sua interpretação dos sonhos traumáticos. Presas em seus sintomas, as histéricas buscavam as escutas e interpretações para poderem tomar posse de seus corpos e escapar rumo ao desconhecido.  Como descobriu Augustine, o trauma é tanto aquilo que adoece, mas também o que liberta.

 

 

(Guilherme Preger é engenheiro e escritor, autor de “Capoeiragem” (Ed. 7Letras) e organizador do Clube de Leitura da Baratos da Ribeiro)

 

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79ª Leva - 05/2013 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

O duplo (ou sentimentos epistolares)

Por Sérgio Tavares

 

 

É um tanto incoerente imaginar um ícone, um ser galvanizado na galeria das figuras absolutas, demonstrar admiração velada por outrem, um sentimento inferior. Em 1922, já consagrado criador da psicanálise e próximo ao fim da vida, Sigmund Freud faz uma confissão. Em carta, ele afirma ao destinatário que, por muitos anos, o havia evitado, pois o tomava, com admiração e temor, como o seu duplo. Alguém com quem se ligava emocionalmente, através de uma estranha familiaridade com o seu pensamento, capaz de, sob uma superfície poética, equiparar-se aos mesmos interesses e conclusões que o médico reconhecia como seus. Mas quem seria a pessoa a quem Freud atribuía um poder tão equivalente ao seu monumental trabalho na interpretação do inconsciente? Quem seria esse doppelgänger emocional?

O duplo de Freud é o novelista, poeta, ensaísta e contista Arthur Schinitzler, cujo romance Crônica de uma Vida de Mulher, detidamente lançado no Brasil, é o que mais se aproxima dos pensamentos do médico vienense no campo das ciências. Usando de uma análise da empatia como forma de autoconhecimento, o livro traz as desventuras de Therese, uma mulher que, impulsionada por seus desejos, combate as barreiras sociais e morais de uma Viena corrompida e decadente, pós-Primeira Guerra Mundial.

A obra, ambivalente no sentido de tanto denunciar a hipocrisia social e seus atores escondidos em máscaras quanto a suposta harmonia defendida pelo império Austro-Húngaro, constitui-se de conceitos que alicerçavam a nova ciência de Freud. Para ambos, a força dos impulsos sexuais e do determinismo psíquico é maior do que uma sociedade, composta por homens e mulheres fiéis à aparência social e a casamentos de fachada, escamoteando situações de ruínas financeira e familiar, desespero e repressões aos desejos e às mulheres. Explorar as verdades do inconsciente e desmontar as convenções sociais urdem a interligação entre os autores.

Numa entrevista, em 1927, Schinitzler atribui a qualidade de duplo, conferida a ele por Freud, à capacidade de ambos olharem através da janela da alma. Porém o que, de fato, qualifica uma pessoa como o duplo da outra? No caso dos vienenses, como constata a psicanalista Noemi Moritz Kon, em Freud e Seu Duplo Reflexões entre Psicanálise e Arte, a identificação deu-se, exatamente, por serem filhos de uma mesma origem e dotarem de uma construção pessoal parecida; ambos judeus, médicos de formação familiar e assombrados pela morte do pai. Magnetizado pela singularidade, o duplo é um ser único, com o qual nos identificamos pelos mesmos gostos, mesmos conceitos intelectuais e morais, mesmas verdades. O duplo é um espelho circunstancial. Alguém que possivelmente nunca encontrará, passará a vida ou alguns dias, mas impossível de se esquecer. Um elo de sentimentos-cúmplices, senão o amor, o verdadeiro.

De maneira geral, o duplo distingue-se pela soma, enquanto o amor condiciona a perda. No conto The End, do volume Os Lados do Círculo, o escritor Amílcar Bettega Barbosa diz o amor como “um sentimento que predispõe alguém a desejar o outro com um grau de intensidade muito maior do que a sua capacidade de oferecer”. O amor é variável para a composição da literatura universal. De Romeu e Julieta, de Shakespeare, ao Primeiro Amor, Samuel Beckett, sua interpretação é o veio de todos os grandes escritores. Nessa tessitura de comunhões e alijamentos, o romance epistolar Carta a D. – Uma História de Amor é, possivelmente, o mais pungente texto sobre o sentimento. Escrito pelo filósofo e jornalista André Gorz, o livro é a mais fiel (e comovente) comprovação de que o verdadeiro amor é eterno.

Notório por sua influência intelectual e atuação política, sobretudo em maio de 68, na França, Gorz se destitui das retóricas sociais para compor uma carta-catarse a Dorine, com quem partilhou a vida por 58 anos. O livro se inicia com ambos velhos (e ela muito doente) e uma declaração das mais belas: “Você está prestes a fazer oitenta e dois anos (…) Já faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e a amo mais do que nunca”. A partir daí, o autor reconstitui o seu amor para compreender o significado de sua vida, discorrendo dos momentos que antecederam e levaram ao encontro, sobretudo pela imprevisibilidade: ele, um judeu sem um tostão; ela, uma burguesa cercada de amigos ilustres, tal qual o pensador e filósofo Jean-Paul Sartre.

 

André Gorz e Dorine / Foto: Suzi Pillet – Ed. Galilée

 

A veracidade do amor está em instantes em que Gorz afirma que “foram feitos para se entender”. Os conflitos e superações de adversidades expõem a sinceridade do sentimento, em especial na lucidez de compreenderem que a longevidade da relação depende de renúncia, tolerância e gratidão. O reconhecimento da essencialidade de Dorine na sua vida permite a Gorz construir uma homenagem das mais comoventes. Num dos momentos mais aflitivos, o autor narra a dificuldade de se tornar escritor, passando por noites insones, imerso em solidão. Quando, num momento de clareza, aproxima-se da esposa para se desculpar, ela o responde com toda a ciência de quem só será feliz se o outro assim o for: “Sua vida é escrever; então escreva”.

Carta a D. revela que o verdadeiro amor está no simples fato da pessoa existir. E, quando deixa de existir, é insuportável. Durante anos, devido a um erro médico, Dorine sofreu com uma doença degenerativa que lhe causava dores insuportáveis. Gorz sofreu, e sempre buscou a cura, ao seu lado. Em 22 de setembro de 2007, ambos se suicidaram. Contudo, ao se chegar ao final do livro, é impossível não ter certeza de que foi um ato de amor.

Em linhas gerais, talvez seja essa a distinção entre o duplo e o amor. Ou, visto pelo pacto entre Gorz e Dorine, talvez não haja distinção alguma. A definição mais concreta, afinal, pode estar na relação entre o ensaísta francês Montaigne e o filósofo La Boétie. Certa feita, ao reler um texto e pensar no motivo da amizade entre ambos, Montaigne escreveu: “Porque era ele”. Alguns anos depois, numa nova releitura, acrescentou: “Porque era eu”.

 

(Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Também foi premiado no Concurso Literário da Fundação Escola do Serviço Público (Fesp/RJ) e tem textos publicados nas revistas “Cult”, “Arte e Letra: Estórias M”, e no jornal “Cândido”, entre outros. O livro de contos “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012) é sua obra mais recente)