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105ª Leva - 08/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Juca
Arte: Juca Oliveira

 

O que seria uma atitude poética diante da vida? Idealizar o inatingível? Mensurar o insondável? Penetrar em zonas desconhecidas ou ignoradas? Estas são algumas indagações que podemos entabular. Certamente, estamos a falar muito mais num estado de coisas, quiçá de espírito, a nortear as ações em matéria de criação e recepção. É um ser poético não somente quem cria sob tal égide, mas todo aquele que abre seus canais de acolhida e mergulha nos signos que lhe são apresentados. Então, muda-se a perspectiva das coisas e confere-se um lugar de destaque também para quem tão somente consome os feitos culturais. No caso da literatura, é o leitor um ser especial na medida em que confere sentido ao que lê, estabelecendo uma tácita relação com quem cria. Também o é no caso de outras tantas manifestações artísticas. Admite-se, por parte do receptor, um caráter de expansão duma determinada obra sem que isso represente algo desgovernado e, portanto, sem controle. Como advertem alguns, uma obra pode ser aberta, porém não escancarada. Afora qualquer discussão sobre o tema, importa mais saber do interesse das pessoas pelos percursos criativos das mais diversas ordens. É saber que, em seu íntimo, todas elas são capazes de vislumbrar caminhos até mesmo impensados pelos próprios autores. Olhando por esse viés, o maior sentido da arte seria o de promover uma libertação que surtisse efeito para todos os lados envolvidos? Responda quem puder. O fato é que hoje somos livres para acolhermos os ímpetos poéticos de gente como Germano Xavier, Camila Passatuto, George Pellegrini, Monica Marques e Jorge Elias Neto, todos eles com seus versos a descortinar janelas de vida ante nossos sentidos. No universo que sonda as motivações literárias e artísticas, o escritor e multifacetado artista W. J. Solha fala sobre o seu mais recente livro e toda uma gama de assuntos que remonta ao ato inquieto que é o estar no mundo.  Gustavo Rios elenca boas razões para a leitura de “Fernanflor”, romance de Sidney Rocha. Quando o assunto é cinema, Larissa Mendes destaca a produção norte-americana “Eu, Você e a Garota que Vai Morrer”. Nos cadernos de prosa, os contos de Dheyne de Souza, Krishnamurti Goes e Poliana Paiva pedem passagem. O disco de estreia da banda Caim gira nas linhas do gramofone de Fabrício Brandão. “Corpo Sepulcro”, novo romance de Mike Sullivan, recebe a atenta leitura de Maurício de Almeida. Em todos os recantos da 105ª Leva, os desenhos, ilustrações e tiras de Juca Oliveira interagem com outras tantas formas de expressão. Assim, caros leitores, mais uma edição ganha corpo. Evoé!

Os Leveiros

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105ª Leva - 08/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética III

George Pellegrini

 

Juca Oliveira
Arte: Juca Oliveira

 

O Pai (Paisagem amorfa sobre superfície plana)

 
1. [a desculpa]
Por todo esse caminho de ódio
por todo esse chão de abandono
creiam-me, meus filhos
havia uma intenção maior de acudir o mundo

Por isso
tirem-me da cabeça
o perfume das baleias
e o seu candor

Não quero
em inferências
amarrar o tempo
Não quero ditar
com que madeixas amarrar o vento
porque de sol, a vertigem
porque de chão, o suor
porque de lastro, o falar estreito
o fulgor desfeito
o farol

Por isso, filhas de meus caminhos
abracem as estrelas
que passem ao seu alcance
porque viageiras de outras vertigens

Abracem os meus cabelos azuis
meus olhos autóctones
porque únicos
no despenhadeiro da perdição

Abracem as tímidas lágrimas
que um dia irão brotar
como prova do ensinamento aprendiz
Acompanhem seu nascimento
e sua caída louca
como uma intenção suicida

 
2. [a verdade]
E quando todos olhavam
as marginais imagens
produzidas por meus gestos

E quando todos traziam
por baixo das pálpebras turvas
dos olhos comandados
as armas da censura

E quando todos diziam
em inoportuna voz
dos possíveis erros cometidos

Eu lhes ofertava a parede
com a paisagem à óleo
de brincadeiras ao ar livre

Eu lhes ofertava o livro
com histórias da selva
de animais encantados

Eu lhes manchava de amarelo:
um único ponto
na superfície negra
para que explodissem em luz

Eu lhes entregava
o vaso de flores frescas
roubado da mesa contemporânea
de minha tia Anita
de meu tio Orlando
de minha tia Carmélia

 
3. [o castigo]
Vieram sobre mim
os lábios poucos de pão
as mãos ávidas de Maria

Vieram sobre mim
as pedras de Madalena
o golpe na única face
o cuspe ácido das estrelas
a corda cheia de cortes

Vieram sobre mim
a culpa pela insônia
por dias de pesadelo
pela agonia da noite
pelas lágrimas de Ester

 
4. [o discurso]
Há que sair um sol
no céu de infinitas bocas
para incrustar as espécies mínimas
de intenções prosaicas
de todas as línguas
que ao comunicar
transmitem o vírus
da intolerância servil

Hão de perder a coerência
todas as ideias vis
todo discurso alienado
todas as manifestações
em prol da paz e da ordem
de um tempo deserdado

Hão de esvair-se em sangue
as veias abertas pela tormenta
a jugular do medo
a inaproveitável lágrima

Mas há, também
que se encantar com o trivial
os ouvidos autocensurados
por tambores apáticos
por gritos estereotipados

 

5. [o conselho]
Meus filhos
busquem meu perdido rosto
nos velhos álbuns de fotografias
nos antigos negativos embaçados
guardados por suas famílias

Procurem meu desconhecido rosto
nas paisagens bordadas
por suas avós,
onde sempre constarão um girassol
uma casa, uma cerca, uma árvore
uma montanha, um sol

Busquem meus submergidos rostos
nas ações revolucionárias das crianças
quando saltam as pedras
quando inventam rios
quando constroem cidades imaginárias e fantásticas
quando conseguem enumerar as estrelas

 

George Pellegrini vive em Castanhal, no Pará. É professor de Literatura Hispanófona da Universidade Federal do Pará e Mestre em Literatura Espanhola pela Universidad de Sevilla. Tem contos, poemas e artigos científicos publicados em jornais e revistas. O poema aqui publicado integra o livro “As Confissões de Plomo” (Ed. Resistência – 2015), vencedor do Prêmio de Poesia Belém do Grão Pará 2014.