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151ª Leva - 01/2023 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Geraldo Lavigne de Lemos

 

Ilustração: Viola Sellerino

 

 

A descoberta do infinito

 

Ariel e Duda tinham uma grande amizade. Nasceram na mesma data e local. Enquanto Ariel queria agitar, Duda cuidava de tudo. E era isso que fazia a amizade tão forte. Completavam-se nas diferenças. Ariel nunca abandonou Duda no tédio. Duda jamais deixou Ariel entrar em enrascada. Contudo havia algo errado. O mundo parecia estar de cabeça para baixo. Minhocas que eram, viviam na terra. Sabiam que em direção ao centro do planeta tinha pedra e, mais para dentro, tinha muita quentura, tanta que a pedra derretia. Para a direção contrária, o mundo terminava nos limites da superfície, onde a terra se limitava com o ar. Minhocas ocuparam a região subterrânea desde o início dos tempos. Porém nenhum salto de minhoca nos ares foi registrado. E isso intrigava Ariel. Talvez temessem a captura por seres que habitavam aquele espaço, como aves, humanos e toupeiras.

Certo dia, Ariel convenceu Duda a irem aos limites do mundo conhecido. Queria testar a realidade. E queria registrar aquele momento. Por isso Duda iria também. Ariel portava uma câmera fotográfica. Quando chegou à casa de Duda com o plano pronto, a primeira foto foi da sua expressão reticente:

– Tsc tsc tsc, isso não vai dar certo, disse Duda balançando a cabeça de um lado para o outro.

– Claro que vai, Duda, e lembrarão de nós por isso, respondeu Ariel categoricamente.

Os olhares se atravessaram de forma profunda. Ariel já sabia a resposta. Se isso acontecia, Duda tinha topado. Era um desafio singular e Duda sempre acompanhava Ariel em suas ideias.

– Não passaremos por essa vida à toa, afirmou Ariel.

– Mas não faço questão de escolher algo que seja perigoso, retrucou Duda enquanto caminhavam pela rua central do vilarejo.

Caminharam uma hora pelas raízes laterais, depois duas horas pela raiz pivotante, até atingirem a zona principal das raízes do Ipê-amarelo, perto do tronco, e pararam para descansar. Pegaram o lanche na mochila, a água, e confabularam o que poderia existir na atmosfera do planeta terra. Será que de fato conheciam? O que aconteceria naquela jornada? Eram dúvidas que somente seriam respondidas depois que terminassem o dia. Finalizaram a refeição e seguiram viagem. Afastaram-se uma boa distância do tronco do Ipê-amarelo e depois subiram em direção ao fim do solo. Quando atingiram a superfície, conheceram de imediato o infinito. Que visão esplêndida! O tronco do Ipê-amarelo erguia-se imenso, com a copa aberta lá no alto, tão distante, seguida de um interminável azul do céu. Enquanto contemplavam a vista sem precedentes, a brisa acariciou os seus rostos e sentiram algo realmente novo.

– Ariel, nada que eu pudesse imaginar explicaria o que sinto agora, confessou Duda.

A manifestação não demandava resposta. Sorriram e continuaram a sentir a brisa. Era um dia de verão. O tempo estava limpo, a temperatura amena. Poderiam passar dias assim, não fosse o risco desconhecido. De onde estavam, planejaram como seria o salto. Duda permaneceu no mesmo lugar e Ariel foi até a raiz mais próxima, que estava exposta fora da terra. Subir uma raiz não era como andar no subsolo. Precisava de mais equilíbrio para superar os obstáculos sem apoio, vencer a gravidade e não escorregar. Para Ariel não foi tão difícil, mas para Duda seria. Duda suava só de ver Ariel vencer cada etapa.

– Duda, existe muito mais terra do que sempre imaginamos!

A exclamação de Ariel tentava traduzir a sensação de enxergar o gramado que circundava o Ipê-amarelo, as árvores ao fundo e o desconhecido brilho da água reunida no lago próximo. Duda interrompeu seu êxtase:

– Pule logo!

Ariel atendeu à ordem. Retorceu todos os anéis de seu longilíneo corpo e saltou aos flashes de Duda. Enquanto manobrava no ar com a naturalidade inexplicável para qualquer minhoca, um pássaro mergulhou em sua direção. Queria capturar Ariel em pleno voo. Duda assustou-se, gritou, tirou fotos e correu, tudo por instinto e medo. Sentiu então algo empurrar sua cabeça contra a terra e não viu mais nada. Ariel pressentiu a tensão e olhou para trás. O pássaro se aproximava como uma flecha até que bateu uma das asas na raiz de onde Ariel saltou. Lado a lado, Ariel e o pássaro caíram sobre a grama. O pássaro se levantou, encarou Ariel e investiu com toda a velocidade, de bico aberto. Um milésimo de segundo. Nada mais do que isso. Alguém puxou Ariel para dentro do solo e o pássaro encheu o papo de terra.

– Foi por um triz, disse ainda ofegante.

– Quem é você? Perguntou Ariel abrindo os olhos.

– Eu não tinha nome. Moro por aqui desde que nasci. Certa ocasião alguém que passava me chamou de Lee e disse significar habitante do prado. Desde então eu me apresento assim.

– Muito obrigado… mesmo!

Ariel entregou o corpo, mas de imediato se ergueu e indagou:

– Você viu Duda? Estava ali adiante.

– Sim, enfiei na terra quando passei para salvar você, contou Lee sorrindo.

Lee trouxe Duda para perto de Ariel e sentaram para descansar.

– Meu coração ainda está acelerado, disse Ariel.

– Deixe-me ver, atentou Lee ao encostar no seu corpo.

Ao sentir as batidas do coração de Ariel, a expressão de Lee causou estranheza. Duda, para evitar qualquer má notícia, disparou a falar:

– Somos do Buraco de Minhoca, um vilarejo localizado na zona pilífera das raízes laterais desse Ipê-amarelo. Moramos lá, pouco depois da região metropolitana. A capital da população de minhocas do Ipê-amarelo estende-se desde a parte antiga da ocupação, na zona principal das raízes, até a parte nova, na zona lisa, onde ocorre a expansão urbana, interligadas pela raiz pivotante. Você poderia nos visitar um dia, Lee. Agora temos que ir. Temos fotos para revelar e precisamos superar o baita susto de hoje.

– Fiquem um pouco mais, respondeu Lee. Quase ninguém passa por aqui e eu gostei da companhia de vocês.

– Duda tem razão, Lee. Temos que ir. Nós devemos essa salvação a você e será um prazer enorme receber a sua visita em nossa vila. Não deixe de aparecer. Nossa comunidade é isolada e se alegra demais quando chega alguém de fora. E esperamos ter boas fotos para mostrar.

Todos se despediram. Ariel e Duda tomaram o caminho de casa e Lee permaneceu espreitando até não ver mais ninguém.

 

Geraldo Lavigne de Lemos sofre de poesia crônica, costuma alinhavar a alma nas memórias e se imiscuir entre as letras para expressar o que sente. Escreveu cinco livros de poesia, coorganizou uma antologia e tem no prelo uma reunião dos quatro primeiros livros. Agora se arrisca em textos curtos de prosa

 

 

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138ª Leva - 05/2020 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Da crise à salvação: os novos poemas de Jorge Elias Neto

Por Geraldo Lavigne de Lemos

 

 

A recente publicação de formas fixas é um novo percurso na trajetória de Jorge Elias Neto e traduz os eventos mais contemporâneos: revisão de modelos e padrões. Contudo, a intenção do autor ultrapassa o presente, pois avalia a crise que a humanidade atravessa desde o Século XX, agravada nas últimas décadas. Nesse contexto, constrói variadas situações para conduzir o leitor por este grande observatório da alma que é Sonetos em crise. A poesia da obra resulta da ânsia da palavra enquanto entidade autônoma, desde quando apenas verbalizada até a presente escrita.

O poeta anota logo de início que as mudanças acontecem em decorrência das necessárias buscas por alternativas à sobrevivência, como modo de enfrentamento das permanentes ameaças de extinção. A crise civilizatória abordada pelo autor atravessa o existencialismo e deságua na sociedade industrial de riscos e destruição, que a ciência deu azo, mas não deu cabo ainda.

Vê-se, então, um labor complexo para dar conta de tantas relações intersistêmicas: artes, desenvolvimento e sobrevivência amalgamados nestes dias presentes. Ora as rimas preciosas e incomuns apresentam o extenso léxico do autor, ora versos brancos e intertextualidades revelam o cabedal, ora a coloquialidade torna-se instrumento de intrusão e profusão na sociedade, ora os decassílabos remontam o clássico na contemporaneidade.

O Soneto em crise, que inspira o título do livro, persegue o sentido da vida e o divino, com o pesar do pecado que amaldiçoa a vida terrena. Tal maniqueísmo persiste durante toda a obra, sem esclarecer se originado na formação do próprio Jorge Elias Neto ou se utilizado como ferramenta do eu lírico para eliciar do leitor as reflexões pretendidas. Certo é que, ao longo das páginas, o poeta manifesta o conflito entre o divino e mundano, extraindo a tensão poética a partir das qualidades exigidas para ingressar no paraíso.

Nesse fazer, ele também questiona a religiosidade enquanto construção humana e utopia, ainda que essencial à vida. E do evidente conflito de racionalidade que nasce da religião, o poeta impõe o exame permanente da morte e a salvação pela arte, capaz de perpetuar um estado de sobrevivência com significado. A vida está em discussão e todos nós, enquanto leitores e viventes, somos compreendidos pela densa e irremediável temática que assombra a nossa espécie desde a mais remota inteligência.

Nem a busca pela perfeição escapa ao atento olhar de Jorge Elias Neto, rejeitando-a se porventura manchada pela vaidade. O autor quer a sabedoria e a simplicidade. Para tanto, importa deixar os espaços de poder e privilégio, bem como os espaços de conforto e segurança. Assim, ele traça a perspectiva rebaixado, donde, à margem das coisas, é possível ver por inteiro o significado dos acontecimentos. Um genuíno mergulho no íntimo e no silêncio das coisas, tornando-os despudoradamente públicos.

É um risco e tanto, e Jorge Elias Neto parece movido por uma força impávida. Contudo, essa incessante procura pela verdade é contraposta por um certo medo das consequências da razão plena. Dizem por aí que coragem é continuar o caminho a despeito do medo, e dizem igualmente que a abstração é um bom remédio para combater o choque da realidade. Suspeito que o eu lírico tomou algumas discretas doses destes absintos, pois ele segue e chega ao destino.

Acontece que a revelação exige a imersão nesse ambiente de certo torpor para conectar simultaneamente o poeta com o universo que o rodeia e o permeia. Sem jamais dissociar-se da consciência, a embriaguez é passageira e o remédio, um mero placebo. A razão cresce ao transitarmos pelos sonetos e a realidade é cada vez mais pungente. Ao cabo, ele alcança sóbrio o limiar da consciência, ainda que isso lhe custe autodefinições ultrajosas após lancinante embate. Enfim, sentindo-se vazio e diante do nada, sabe-se invencível e inteiro.

O retorno do poeta ganha luz, cores do outono e compaixão. Sim, ele retorna compassivo para nos trazer o seu relato, volta fecundo de sabedoria para aplacar o frio de seus semelhantes. Mesmo que a consciência ainda o importune, ele é esperançoso. E tal contrariedade incomodará o autor como um infortúnio. Tanto que o retorno do poeta também ganha sombra e ele deixa de ser um amedrontado para tornar-se um amedrontador, uma figura mítica e colossal a transitar entre o divino e o humano, um arauto e semideus.

A mensagem que Jorge Elias Neto porta não visa facilitar a vida do leitor, mas conduzi-lo à igual revelação, processo que pode ser tão penoso para o leitor quanto foi para o autor. Ele bem compreende o quão custoso pode ser tocar a lâmina da verdade, mas sabe também que esta é a única forma de libertar o ser humano, dando-lhe autonomia e consciência plena diante das absolutas incertezas da vida.

Diversas áreas de conhecimento se ocuparam com as balizas da existência humana valorosa e digna. Os pensadores conectaram-se com as pessoas dentro de um arco, tendo em seus extremos a objetividade e a subjetividade – e aqui leia-se a arte, conceito retomado em diversos poemas. Dito isto, entenda o curioso desfecho que o autor trará: arte e poesia são o caminho. Ainda que o leitor ingresse nessa jornada pelo poema, é a poesia o método de alcançar o que o autor pretende, renovando no leitor a forma de olhar o mundo e o tempo presente através da arte. Quem alcança a esperada revelação, ganha visão e consciência tão destoantes que, em geral, será tido como louco, quando, na verdade, será um dos poucos a vagar liberto e verdadeiramente vivo neste mundo.

Trata-se de um itinerário de purificação das pessoas e de humanização das divindades, que reduz a vaidosa autorreferência e sobreleva a alteridade, quebrando as engrenagens tradicionais e as lógicas científicas, dando espaço a um estado sobre-humano. Pode parecer estranho, todavia o poeta alcança a recriação do mesmo espaço e da mesma vida de um modo diferente, completo e outrossim imperfeito, porque tem que haver nada no tudo para que seja inteiro, tem que haver todos em cada um para que seja tudo.

 

Geraldo Lavigne de Lemos é advogado e poeta, membro da Academia de Letras de Ilhéus, autor de seis livros. Publicou literatura nas revistas Revista da Academia de Letras da Bahia, Diversos Afins, Mallarmargens, Subversa, InComunidade, Ser MulherArte e Acrobata, nos jornais Diário de Ilhéus (Ilhéus/BA), Fuxico (Feira de Santana/BA) e A Gazeta (Vitória/ES) e no blogue LiteraturaBR. Foi curador do II Festival Literário de Ilhéus, parecerista ad hoc da Editus e membro de comissão julgadora de concursos literários.

 

 

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125ª Leva - 03/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Geraldo Lavigne de Lemos

 

Ilustração: Sadrie

 

o despertar do ódio

 

o ódio perdeu a mordaça
atrás da tela

ele agora tem voz alta
no meio digital

realidade virtual
que desvirtua
o real
– e que o expõe, também

associal, em rede,
o ódio é mais forte

 

 

 

***

 

 

 

falta

 

antes Niemeyer tivesse projetado a moral de Brasília.
nem em seu maior devaneio faria linhas tão curvas,
nenhum lápis teria grafite mais sujo,
nenhuma tinta seria mais permanente,
nenhum concreto, mais duro.

faltam os traços de Niemeyer nos homens,
faltam o sonho, a dedicação e o outro.

falta sempre alguma coisa,
dinheiro sempre dizem que falta.
ou falta no orçamento,
ou falta no bolso.
e como faz falta.

antes Niemeyer soubesse que projetava uma pocilga,
evitando, eu, falar promiscuidade,
e teria, ele, projetado pastos,
baias mais adequadas,
confinamento, e abatedouro.

 

 

 

***

 

 

 

nas malvinas

 

no peito da feira
lateja uma chaga purulenta

crianças vendem sonhos e infância,
pessoas vagam desalmadas
entre crimes e monturos

a lama – mistura de chuva, chorume e reuma
e salmoura das carnes e peixes –
que banha os pés dos ambulantes absortos
é o icor que escorre daquele lugar

o negócio é tão grave
que o piso tremula de frio e pavor
e da cobertura vazam suor e lágrima

 

 

 

***

 

 

 

dobraduras

 

barcos de papel viajam
nos rios intermitentes das sarjetas
com sonhos escritos nos costados

ágeis, no talvegue,
entre ondas do curso irregular de raso álveo,
ignoram que a esquina encerra
o sumidouro de tudo que navega
– barco, sonho, água e terra

 

 

 

***

 

 

 

o preço fora do mercado

 

30 mil reais.
esse foi o preço que o judiciário deu à minha perna.

ela, que foi boa, levou-me por aí,
pedalou bicicleta e fez tantos gols

ela, que saltou a poça naquele dia chuvoso,
esforçou-se pela minha saúde
e bailou com a pessoa
por quem eu me apaixonaria

ela, que foi má, provocou pênalti no futebol,
dilacerou o bicho e machucou outras pessoas.

30 mil reais.
esse foi o preço que o judiciário deu à minha perna.

ela, que me faltou no dia da audiência
para vencer os obstáculos do fórum,
e continua me faltando na hora do banho,
do café e do trabalho…

30 mil reais.
esse foi o preço que o judiciário deu à minha perna.

ainda tenho esperança de ter perna de novo.
não sou um louco que espera que ela cresça como rabo de
[lagartixa.
tenho esperança de um dia ter dinheiro para comprar uma
[perna mecânica, isso sim.

e, se o desenvolvimento da medicina seguir bem,
ainda verei pernas naturais serem implantadas com
[sucesso.
nesse dia, perguntarei ao juiz se ele me vende a dele.

 

Geraldo Lavigne de Lemos é graduado em Direito (UESC), especialista em Direito Notarial e Registral (Anhaguera/Uniderp) e em Gestão Pública (UESC) e mestre em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente (UESC). Membro da Academia de Letras de Ilhéus, autor dos livros À Espera do Verão (2011), amenidades (2014), alguma sinceridade (2014) e Massapê: Solo de Poesia (2016), todos de poesia e pela Editora Mondrongo. Tem no prelo o livro Poemas furta-cores, pela Editus – Editora da UESC. Foi curador do II Festival Literário de Ilhéus.

 

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120ª Leva - 05/2017 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Das profundanças

Por Geraldo Lavigne de Lemos

 

 

Há livros que são decisivos para a interpretação de um tempo. Registram fatos. Abordam temas. Promovem o diálogo. Fazem as pessoas avançarem, evoluírem. Alguns desses livros são constituídos de entranhas. São matéria viva, pulsante. São palavras vindas das profundanças. E tal conteúdo adere ao corpo do leitor. Quem o lê, ressignifica o mundo e o que nele existe. Antes, ressignifica-se.

Profundanças 2 reúne 16 escritoras: Aidil Araújo Lima, Ana Mendes, Andréa Mascarenhas, Daniela Galdino, Dayane Rocha, Débora Ramos, Erika Cotrim, Haísa Lima, JeisiEkê de Lundu, Laiz Carvalho, Larissa Pereira, Lílian Almeida, Mel Andrade, Miriam Alves, Rita Santana e Thalita Peixe de Medeiros. Não cabe a mim falar sobre cada uma delas, pois sendo uma, elas são todas, e sendo todas, elas são uma. O que eu poderia dizer sobre uma que não coubesse a outra? Incapaz de distingui-las dentro do discurso uno que o livro traz, e que assim foi feito para assumir a voz de cada mulher, coube-me expor o livro que não inaugura eventos sobre suas vidas – posto que está carregado da luta para livrarem-se de uma condição imposta –, mas assume uma voz antes inaudita, pois era calada.

Daniela Galdino organizou a antologia, que é literária e fotográfica. Ela também foi responsável pela apresentação e expõe sem meias-verdades o que precisa ser dito. A cada frase, o eco de quem hasteia uma bandeira com todos os brasões. O trecho de Conceição Evaristo que serve de epígrafe fala sobre o livro, colhido no céu da imaginação, repartido em folhas dadas às autoras e fotógrafes – como grafado no livro –, e, depois, aos leitores, antes que o sonho perca o penetrante toque da arte pura. Profundanças 2 ressalta a trajetória da mulher pelos caminhos da resiliência. Diz claramente que há um gene comum entre Frida Kahlo e elas, seja biológico ou não, e a sociedade insistentemente fracassa em desativá-lo.

Se uns textos tiram a mulher do sofrimento cotidiano e passam-lhes bálsamo nas feridas, outros são reações enérgicas contra as injustiças que lhe são imputadas. O leitor encontrará o depoimento de todas elas. E preste atenção: eu não disse confissão, segredo, desabafo… eu disse depoimento. Em alguns casos, sentirá o vento frio do inverno sobre o corpo nu; em outros, o sopro abafado do verão no areal. A própria voz é a principal ferramenta adotada pelas autoras, que, sabendo-se parte de um todo, dialogam de mãos dadas com as mulheres e olhos nos olhos com a sociedade. Quando alguma autora assume outra voz, retoma, em verdade, aquele gene comum citado acima, de forma que fala também sobre si. No entanto, não cala a outra voz. Serve, sim, de canal, para que todas sejam ouvidas. Elas são voz e porta-voz.

O leitor, por outro lado, conforme se apresente, terá orvalho ou geada, mas ambos resultantes da noite que elas atravessaram. A leitura poderá incomodar o leitor, se a mordaça estiver em suas mãos. Digo, porém, que o leitor de mãos livres sentirá confiança, se partilhar dos sinais que o livro aponta. Não vou falar ainda em felicidade e justiça, porque são dois estados a serem alcançados quando não houver mais obstáculos causando sombras e penumbras.

Tem-se prosa e verso. Na prosa, vemos regras clássicas e novas aplicações gramaticais. No verso, há os livres, os rimados, os metrificados, e as formas preestabelecidas, como o soneto. Em todo caso, há precisão. A linguagem dos textos é moderna e, embora às vezes pareça truncada, traduz o discurso interrompido pela sociedade e terminado pelas mulheres, porque elas são fortes. A inovação da literatura está presente no livro como está presente nas frestas de luz que os textos permitem ver. A novidade literária surge no desdobramento da própria reinvenção existencial das autoras, que sem perder a identidade e a meta, conseguem construir caminhos em qualquer ambiente.

A leitura flui muito bem, sempre alerta e renovada. Quando os temas são pontuais, a autora vai bem fundo, sem perder o fôlego. Quando os temas são mais abrangentes, a visão amplia sobre uma extensa superfície, até que o ponto nevrálgico seja atingido de uma forma contundente. O leitor permanece desperto a cada página, enquanto o cotidiano passa cru e objetivamente.

Umas das qualidades que se procura na literatura é a condição imagética, capaz de conduzir o leitor por cenários diversos a partir dos enredos. Os textos têm tal condição trabalhada com primor. E vão além. Em Profundanças 2 há uma via de mão dupla com a iconografia, pois as autoras foram registradas em ensaios por 19 fotógrafes, que foram, na respectiva ordem de apresentação das autoras, Camila Camila e Letícia Ribeiro, Josi Oliveira, Henrique Valença, Ana Lee, Cláudio Gomes, Andrezza Tavares, Haísa Lima, Catarina Barbosa, Lanmi Tripoli, Mariana Lisboa e João Caique, Adrian Greyce e Rodrigo Iris, Inajara Diz, Brenda Matos, João Santana, Shai Andrade, e Ytallo Barreto. Cada autora ainda recebeu uma ilustração de Bruna Risério. As fotos e ilustrações são figuras poéticas que acompanham os textos das autoras e trazem mensagens agora capazes de conduzir o observador por enredos a partir das imagens. É a inversão da arte que se espera em uma antologia literária; a transmudação para uma antologia fotográfica. A perspectiva muda. Contudo, leitor, lá estão os mesmos sinais.

Os ensaios e as ilustrações avançam sobre a descrição biográfica das autoras que, tendo deixado detalhes nas entrelinhas das poesias, deixam também nas entrecores e entreposes das figuras. Fotógrafes e a ilustradora conseguem traduzir em imagens as autoras, aproximando-as ao leitor. Um trabalho exitoso, que dá continuidade ao conteúdo, sem sabermos qual antecede qual, porque literatura e iconografia se combinam em busca de traduzir sentidos e sentimentos. Resolve-se, por ora, o impasse entre a palavra imagética e a figura que vale mais que mil palavras. O objetivo é trazer à tona aquilo que por muito tempo foi depositado no fundo.

Se o primeiro volume de Profundanças criou um neologismo, o segundo volume fixa definitivamente o verbete no vocabulário brasileiro, significando aquilo que vem do íntimo, que é da sensibilidade humana e se expõe de forma transparente. Diga-se mais. O livro não se encerra no conteúdo literário e iconográfico. Há, ainda, uma valorosa equipe de produção que permitiu tamanha qualidade. Isto porque a intenção não se resume a publicar o livro. É trazer o tema à baila, discuti-lo repetidamente até que se afastem as grades da imposição.

 

 

* Para baixar Profundanças 2, clique aqui

 

Geraldo Lavigne de Lemos é advogado e poeta. Membro da Academia de Letras de Ilhéus, autor dos livros À Espera do Verão (2011), amenidades (2014), alguma sinceridade (2014) e Massapê: Solo de Poesia (2016), todos de poesia e pela Editora Mondrongo. Tem publicações em jornais, revistas, blogues e antologias. Desenvolve os poemas furta-cores desde 2014. Foi curador do II Festival Literário de Ilhéus (2017). Mantém o instagram @geralavigne.

 

 

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111ª Leva - 05/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Geraldo Lavigne de Lemos

 

Luma Flores
Arte: Luma Flôres

 

a meu tempo

 

faço muito uso do quando
porque o tempo me parece inconstante

às vezes é água represada
por outras, atira-se como cachoeira

sabido desta verdade
não costumo confiar nas máquinas
pois meu tempo confunde os relógios

confio, sim, na linha da vida
que, tesa, dispara o carretel
e, frouxa, para-o

 

 

***

 

 

poeira iluminada

 

o inverno desce
……………..pelas galerias

nada mais o tempo tece

em minha terra,
neve é poeira iluminada

………….fato perene
………….na calçada

 

 
***

 

 
Cachoeira

 

louvo o curso deste rio
pela mensagem silente
de amar o inimigo

espumo palavras
entre meus dentes
: leito calado
e impotente

espero um dia
poder vomitar enchentes
como fez o rio em 67

 

 

***

 

 

magarefe

 

eu não descabelo mais o porco
na água fervente
enquanto ele sangra pelas ventas
e grita os meus pesadelos

não marreto mais o carneiro
para deixá-lo demente
e colher-lhe o sangue
entre os espasmos

nem trespasso mais a lâmina
na garganta do garrote
apeado aos meus pés

hoje, o máximo que me ocorre
é ver um frango
circular sem cabeça
tingindo o piso

sento em minha cadeira de couro curtido
e da varanda vejo as moscas
cobiçarem o meu jazigo

peço às larvas
que esperem meu corpo esfriar
antes de me terem engolido

 

 

***

 

 

melodia sazonal

 

o capim verde expõe as sementes
no alto de seus dois metros

o campo contrasta a cor do céu
pousa uma dúzia de cardeais

o vento enverga os talos
e todos dançam
…….folhas ornadas com vestes santas

aguardo para ouvir o canto do bando
…….coral de notas fartas

 

 

***

 

 

somos da linhagem do pau-brasil

 

temos o lenho
….duro
………bravo
…………..e resistente

….espinhos firmes
……..como dentes

nosso colorido sumo
…..denota o calor
………das nossas entranhas
enquanto as folhas miúdas
….relatam o minucioso
……. – e permanente –
………esforço

não esperamos piedade

ouçam apenas o ressoar do violino
……..através de nosso cerne

 

Geraldo Lavigne de Lemos é natural de Itabuna e radicado em Ilhéus. Membro da Academia de Letras de Ilhéus, autor dos livros À Espera do Verão (2011), amenidades (2014), alguma sinceridade (2014) e Massapê: Solo de Poesia (2016), todos de poesia e pela Editora Mondrongo. Integra a antologia Diálogos – Panorama da Nova Poesia Grapiúna (Editus / Via Litterarum, 1ª ed. 2009; 2ª ed. 2010). Realizou a Exposição Interativa Tempos Invernosos com poesias na galeria do Teatro Municipal de Ilhéus em 2008, remontada no Instituto Nossa Senhora da Piedade como parte do Ano Ibero-americano de Museus. Foi membro do Conselho Municipal de Cultura de Ilhéus no biênio 2011/2012.

 

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99ª Leva - 02/2015 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Com quais arroubos se faz um poeta? Por mais que tentemos mensurar, a resposta é imprecisa. E é bom perceber que supostas definições para tal indagação não seguem uma orientação cartesiana das coisas. Mais ainda, é preciso que nos alimentemos da falta de explicação. Noves fora nada, o saldo da dúvida é muito mais atraente.

Quem escreve poesia não intenta clarificar verdades absolutas. Pelo contrário, semeia interrogações e alguns desassossegos. Não é um ser divino. Apenas olha o mundo com a sensação de que se não flutua em torno dele, mergulha fundo no oceano dos mistérios para depois constatar que é tão comum quanto qualquer mortal. Se o resultado dessa experiência implica em estranhamento ou encantamento, talvez consigamos ler tais marcas travestidas em versos.

Ler a obra de um autor não é suficiente. O ato da leitura demanda uma boa dose de envolvimento, quiçá cumplicidade. Quando se opera o despertar de um reconhecimento ou identificação, os indícios da aposta nos levam adiante. Ao percorrermos as veredas poéticas de Geraldo Lavigne de Lemos, uma miscelânea de sentimentos nos vem fazer companhia. Nada ali é gratuito. Cada verso advém de vertentes emblemáticas na trajetória do seu criador. Nesse ínterim, agigantam-se olhares especiais em torno da memória, duma visão crítica de mundo e, também, do amor.

Nascido em Itabuna, na Bahia, mas radicado na vizinha Ilhéus, Geraldo canta seu solo e sua gente como quem redimensiona laços de pertencimento. Com o passar do tempo, soube apurar sua percepção diante das complexidades da vida, tendo em vista que sua obra encerra um marcante componente filosófico. Publicou em jornais e revistas e integrou a coletânea Diálogos – Novo Panorama da Poesia Grapiúna (Ed. Via Litterarum/Editus – 2010 – 2ª edição). O livro À Espera do Verão (Ed. Mondrongo – 2011) marcou sua estreia solo. Recentemente, dois novos rebentos sedimentaram seus arremates criativos: Alguma Sinceridade e Amenidades, ambos lançados pela Editora Mondrongo em 2014.

Ainda sob o efeito de suas novas investidas literárias, Geraldo nos revela um pouco de si. Hoje, sua obra denota um alguém comprometido com a maturidade da escrita diante de temas nada simples de confrontarmos. Tudo isso, somado às manifestações presentes nessa entrevista, faz com que consideremos a importância das escutas em torno desse talentoso poeta.

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Geraldo Lavigne / Foto: arquivo pessoal

DA – “Alguma Sinceridade” é um livro no qual vislumbramos os efeitos da lucidez.  Nele, as indagações são maiores do que as certezas, todas elas flutuando sobre um oceano de constatações. Quais marcas assinalam esse trajeto poético?

GERALDO LAVIGNE – Estou sempre tentando acertar e, por isso, sempre pensando na coisa certa a fazer. Não quero que confunda esta postura com qualquer sentimento que se alinhe ao egocentrismo. Trata-se apenas de depurar as atitudes, fazer o bem. Acredito que são estas reflexões que ensejam os meus pensamentos expostos em “alguma sinceridade”. A tentativa de amadurecer e ampliar a compreensão. A tentativa de dialogar isto com o leitor; não para ensiná-lo, mas para refletir. Lógico que os mais variados sentimentos vêm à tona no itinerário da criação (que antecede o da escrita), desde os afáveis aos censuráveis. Exponho-os e exponho-me. Deste modo, as constatações que você aponta na pergunta são as certezas que acredito ter angariado, mesmo sabendo que maiores são as dúvidas. Os poemas apresentam a minha visão sobre o mundo e o homem, bem como sobre mim e minha cidade.

DA – Na medida de sua exposição, um poeta se revela. “Alguma sinceridade” parece trazer um Geraldo muito conectado com uma espécie de sentimento do mundo. O saldo dessa percepção lhe apresenta mais espantos ou contemplações?

GERALDO LAVIGNE – Cada conjuntura pode ter um saldo avaliado. Às vezes os dissabores são maiores, às vezes não. Cada dia que vivo, novas experiências renovam a minha percepção sobre o mundo e sobre o homem, modificam a minha visão ou confirmam os meus pensamentos. Quando comecei a escrever rotineiramente, há mais ou menos 10 anos, sem dúvida o saldo era de espanto. Hoje busco converter este saldo para contemplação. Isto tem acontecido de fato nos últimos tempos. 2014, por exemplo, foi um ano decisivo para aprender que há abrigo em qualquer tempestade. Dele sobreveio um extremo sentimento de gratidão. No mais, permaneço antenado para captar as informações que vagam em cada experiência que temos. Continuarão a surgir espantos e contemplações e eu espero poder continuar a transcrevê-los para o papel.

DA – No terreno do “Amenidades”, seus versos se voltam fundamentalmente para a memória afetiva. Esse, digamos assim, encontro consigo mesmo, serve como uma espécie de renovação do olhar?

GERALDO LAVIGNE – Sim. Em “amenidades” eu perenizei temas diletos. Reuni neste livro as pessoas que me iluminam, apresentei a ternura da minha infância, resgatei a memória de minha família e discorri sobre meu querido solo, Ilhéus, entre outros lugares. Os poemas de “amenidades” trazem o meu lado afetivo, até então não publicado. Daí, posso dizer com certeza que há nele minhas boas lembranças e o agraciado presente. Nele também há um certo descanso sobre as demais questões. Sabe aquele momento, deitado na rede da varanda, ao lado de quem ama? É assim.

DA – Em que medida as lembranças desse “Olimpo do afeto” são capazes de fazer frente às inquietudes do presente? Um poeta pode afugentar suas dores?

GERALDO LAVIGNE – O sopesamento de o que prevalecerá entre lembranças e inquietudes depende da valoração que atribuímos a elas em dado momento. Acredito que as boas lembranças sempre oportunizarão felicidade na angústia, seja durante a própria recordação, seja na esperança do que virá. Destarte, e levando em consideração que recordar é viver, não só um poeta, mas toda e qualquer pessoa pode afugentar as suas dores se permitir que as boas lembranças nutram a felicidade em seu coração.

DA – “Alguma Sinceridade” e “Amenidades” estão agregados num mesmo volume. Enquanto o primeiro livro observa o mundo com olhos desnudos e certa intranquilidade, o segundo exalta um percurso sereno diante da vida. Equilibrar tais distintos hemisférios pressupõe algum significado especial para você?

GERALDO LAVIGNE – Sim. Hoje os livros impressos em um mesmo caderno representam para mim a dualidade: saber que as alegrias não são irrestritas e que as tristezas não são eternas. Saber ainda que a alegria convive com a tristeza quando levamos em consideração a vida. Para além destas questões, saber que convivemos com erros e acertos e com um mundo benevolente e cruel. Compreender esta dinâmica me parece o caminho para estar bem consigo e com os outros. Ela também nos auxilia a fazer e a respeitar escolhas, a entender o mundo – mesmo com irresignação. Quando levei os originais para o editor, Gustavo Felicíssimo, eles estavam, como ainda estão, separados, e eu disse para ele que eram livros distintos. A conformação conjunta surgiu ao longo do processo editorial. Já a revelação deste sentido mais apurado sobre a dualidade me ocorreu quando ele já estava impresso.

DA – Você faz parte de uma geração que exercita com mais habitualidade o desengavetar dos escritos, seja em sites, blogs, revistas literárias ou em livros. Com que olhos você observa esse cenário?

GERALDO LAVIGNE – Eu enxergo a literatura como expressão e diálogo. Não expor os escritos é como calar frases pensadas em típicos casos que nos arrependemos de nada ter falado. Esta geração que você diz e da qual participo está mais à vontade com a divulgação. E, a partir daí, penso que a literatura parece possível para pessoas comuns como eu, e não apenas para os extraordinários. Além disso, a divulgação está mais acessível: a internet é uma porta constantemente aberta; novas editoras têm surgido no mercado e oportunizado a publicação de autores inéditos; revistas digitais, blogs e sites criaram espaços qualificados voltados para a literatura. Assim, entendo que o cenário atual de desengavetamento de originais resulta da confluência entre a maior liberdade pessoal dos autores e a disponibilidade de meios.

Geraldo Lavigne
Geraldo Lavigne / Foto: arquivo pessoal

DA – Um autor deve estar comprometido com sua verdade pessoal ou com as expectativas dos leitores?

GERALDO LAVIGNE – Ambos são importantes, porém deve estar antes comprometido com a verdade pessoal. A verdade pessoal traduz a identidade do autor. Já as expectativas dos leitores representam o que ele tem provocado nas pessoas. Parece-me que a partir dos reflexos da obra recente de determinado autor surgem tais expectativas. Elas podem servir como guias para trabalhos futuros. No entanto, o autor jamais deve negar o seu espírito, sob pena de se ver descaracterizado e possivelmente infeliz com a própria obra. Isto, claro, levando em consideração que literatura é forma de expressão. Se o autor omitir a verdade pessoal, ele será mero veículo, não voz.

DA – O poeta está preparado para compreender as complexidades mundanas?

GERALDO LAVIGNE – A complexidade do mundo tem aumentado dia a dia. A qualidade intersistêmica dos conhecimentos tem avançado em todas as áreas. Compreender tecnicamente algo demanda cada vez mais informação. Elas estão aí para quem quiser. Por outro lado, as relações humanas dependem muito da sensibilidade. E de sensibilidade, todos nós somos dotados. É possível compreender as questões mundanas, basta se permitir. Estar preparado é um quesito difícil para todos. Por isso digo que o importante é manter a mente aberta e o coração limpo, ser prudente, estar atento para as experiências, aprender o que for possível e guardar o que for verdadeiro.

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

GERALDO LAVIGNE – A falta de realidade. Contarei isso em algumas frases. As pessoas convivem menos. As crianças brincam em ambientes virtuais, muitas vezes sem sair de casa. Elas também não conhecem os alimentos naturais ou as coisas simples da natureza. A ficção está presente no cotidiano. A pessoa é frustrada por não possuir características de personagens ou se decepciona quando o outro não as tem. Há um culto exacerbado da perfeição. A pressa é implacável. O futuro é uma sombra que as pessoas dizem se preocupar. Posso relatar aqui ainda um longo conjunto de exemplos, mas tudo se resumirá à falta de realidade. Precisamos reencontrar o ser humano.

DA – Qual a diferença do Geraldo de hoje para aquele de “À espera do verão”?

GERALDO LAVIGNE – Muitos fatos sobrevieram neste interregno. Tentei aproveitar as lições da experiência. Delas eu consegui alguma maturidade, pude me conhecer melhor e aprendi os valores da gratidão e do amor. Hoje consigo exercitar melhor os meus pensamentos e princípios. Sobre a produção literária, acredito que tenha acompanhado este amadurecimento. Os poemas estão mais fluidos e rítmicos. A linguagem melhorou. A mensagem está mais apurada com o que pretendo. Também houve uma participação acentuada de temas afetivos, sem dispensar a continuidade da temática existencialista e metafísica, nem tirar os olhos do homem e do mundo.

DA – Afinal, por que escrever?

GERALDO LAVIGNE – Literatura é linguagem e arte. A comunicação é a finalidade precípua da linguagem, enquanto a libertação, a da arte. Existem vários porquês nestes dois universos interseccionados. Há neles substrato em abundância, inclusive para os casos aquém das questões essenciais. O meu primeiro foi a necessidade premente de expressão. O seguinte foi a busca da compreensão. Vieram mais; uns eu abandonei, outros não. O império do pensamento lógico incentiva a procura pela verdade mediante o cotejamento da causa com a consequência. Por isso nos deparamos com dúvidas como a da presente interpelação. Afinal, é mesmo preciso algum porquê?