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140ª Leva - 07/2020 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Geraldo Lima

 

Foto: Cristiano Xavier

 

DEZ NANOCONTOS DE AMOR E OUTROS CASOS

 

Atração

                      

Assim que adentrou a sala, tudo começou a gravitar em torno dela. Nunca mais serei o mesmo, ele pensou, já preso à sua órbita.

 

 

***

 

 

Fugaz

 

A fumaça do incenso forma galáxias no centro da sala. Ana cruza esse universo e evapora-se sem dizer adeus.

 

 

***

 

 

Expectativa

 

Vai esperar por ela até tarde. O pensamento armado até os dentes.

 

 

***

 

 

Conto de fada I

 

Beijou e esperou pela metamorfose. Mas o príncipe apenas coaxou, escorregou-lhe das mãos e mergulhou novamente no lodo.

 

 

***

 

 

Conto de fada II

 

Matou o dragão, salvou a princesa e casou-se com ela. Tempos depois, arrependeu-se: a princesa era uma megera.

 

 

***

 

 

Amor estrangeiro

 

Na noite de núpcias, descobriu a verdadeira natureza do marido. Tarde demais: na rota de fuga, teria que cruzar um oceano.

 

 

***

 

Crime perfeito

 

Às vezes a fatalidade só precisa de uma ajuda: no dia seguinte, o marido passou desta para melhor.

 

 

***

 

 

Onírico

 

Encontrou, enfim, a mulher dos seus sonhos. Ironia do destino: perdeu-a assim que acordou.

 

 

***

 

 

Lenda

 

– Mãe, tô pegando uma sereia.

A mãe nem deu ouvidos: o filho fantasiava demais.

 

 

***

 

 

Coisas do coração

 

O marido abriu a porta e deparou-se com a cena devastadora. Os amantes? Salvos por um ataque cardíaco.

 

Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista. Tem alguns livros publicados, entre eles, Uma mulher à beira do caminho (contos, Editora Patuá), Tesselário (minicontos, Selo 3×4) e UM (romance, LGE). Contato: gerallimma@gmail.com

 

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137ª Leva - 04/2020 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

Uma leitura de Cinevertigem, livro instigante de Ricardo Soares

Por Geraldo Lima

 

 

Cinevertigem, de Ricardo Soares, é um livro inovador, provocador, escorregadio. Publicado pela Editora Record, em 2005, é obra que cruza a fronteira dos gêneros literários e busca, com certeza, ampliar os horizontes da criação literária. Durante a sua leitura, o leitor provavelmente indagará: isso é prosa ou poesia? É um romance ou um longo poema?

Num primeiro momento, o leitor, certamente, será tentado a ler essa obra como um longo poema, já que o ritmo, as aliterações, as rimas internas e as imagens atestam isso: “veloz dentro dessa noite oriunda quem, quem, quem me acende a boca do fogão que está entupida, quem que me frita um ovo do avesso, quem me paga comida, compra ração para o cão, entende que os livros estão espalhados pelo chão porque assim eles são…” A repetição do pronome “quem” enfatiza e reverbera o desejo do eu lírico [ou seria do narrador?], assinalando mais ainda o caráter poético do texto.  Assim se inicia o texto: “quem, quem, quem, quem, quem é que me cobre de beijos? Quem, quem me lambe a ponta do nariz…?” Essa repetição, que se pode dizer também icônica, já que indica um sentido de urgência, de obsessiva solicitação, aparece ora no início da estrofe [ou parágrafo?], ora no meio, mas sempre introduzindo um novo núcleo de ideias, de pedidos, de coisas desejadas, um novo rol de objetos, lugares, pessoas, profissões etc.

Cabe salientar aqui, e creio que sem perigo de dar spoiler, que estas são, também, as palavras que encerram o texto, expondo sua estrutura circular, ou inscrevendo-o no rol das obras que começam pelo final. O autor, num gesto tipicamente machadiano, marcado pela ironia, parece brincar com o leitor, querendo surpreendê-lo numa falta.  Senão, vejamos: “para os que começam lendo um livro pelo fim devo dizer que morri no meio da história; sou um defunto que jaz e pergunta: quem, quem…?” Há que se observar, também, que “veloz dentro dessa noite oriunda” é uma referência clara ao livro de poemas de Ferreira Gullar, Dentro da noite veloz, publicado pela Editora Civilização Brasileira, em 1975. Aliás, a referência a outras obras literárias, a personagens de ficção [“quem, quem, quem me dá essa vida de Macunaíma, brincando com o pau dentro do jirau…”], a nomes de autores ou figuras de destaque no mundo intelectual [“quem, quem, quem me dá a vida do cabeludo pajé Darcy, boca seca de tanto falar”] será, ao longo do texto, um procedimento bastante usado por Ricardo Soares, mas evitando, sempre, o tom de exaltação ou de discurso elevado.

Mas aí, na ficha catalográfica, diz que se trata de um romance. Entendemos que o romance é um gênero híbrido, que acomoda em sua estrutura outros gêneros, como bem nos mostrou Bakhtin, mas seria esse o caso deste livro do jornalista, diretor de TV e escritor Ricardo Soares? Se formos enumerar nele a presença de elementos próprios de um texto narrativo ou ficcional, talvez nos frustremos. O narrador, no caso, se confunde com o eu lírico da poesia. Há mais uma voz que explicita seus desejos, sua subjetividade, do que um ser fictício que conta uma história. É mais uma voz que clama, como numa oração, ou num cântico pagão, do que uma voz que narra. Não se trata nem mesmo de um poema narrativo, de caráter épico, já que não há a figura de um herói realizando grandes feitos, tampouco o tom elevado do discurso que caracteriza essa forma literária. [Da página 70 à 73 há de fato um poema, com versos, estrofes, rimas e composto num ritmo próprio da poesia feita pelos cordelistas; mas a inserção desse poema, claramente narrativo, no corpo do romance, – aqui admitindo-se que se trata de fato de um romance – encontra-se, ainda, dentro do caráter híbrido desse gênero narrativo.] Os personagens, ou pessoas referenciadas, melhor dizendo, não chegam a mover-se, dando início a uma ação concreta, progressiva. Vez ou outra surgem fragmentos de histórias que poderiam se desenvolver, mas logo se esgotam e somos introduzidos em outro núcleo de coisas evocadas pela voz masculina ou consciência desejosa de experimentar novas vivências. Os espaços são variados, já que há um vagar constante da alma ansiosa desse ser que se agita no texto. Desse modo, a narrativa em si, ou o escoar poético da voz que fala no texto, resulta num amplo passeio por vários lugares da nossa geografia, por vários aspectos da nossa cultura e da de outros povos, nessa tentativa angustiada de alcançar, realizar ou incorporar aquilo que se reitera com a pergunta: “quem, quem, quem, quem, quem é que me…?”

Para ampliar ainda mais o seu aspecto de obra fora do convencional, há a sua aproximação dos recursos da montagem cinematográfica. Cada bloco que se inicia, quase sempre com a pergunta obsessiva “quem, quem…”, parece expor um fotograma que registra uma unidade de desejo ou súplica que vai se desdobrando e agregando outros elementos ao núcleo temático, justapondo sensações ou ambientes, para ser, logo em seguida, substituída por outra, criando sempre uma atmosfera de vertigem. Mas, ainda que aparente ter uma estrutura fragmentária, há um sentido de encadeamento, de ligação, de amarra entre os parágrafos, ou as estrofes, ou as cenas, como queira. Como se dá isso? Às vezes a unidade seguinte ganha corpo a partir da retomada de uma palavra da unidade anterior, sugerindo a técnica de “palavra puxa palavra”. Um exemplo: “… este velho na ativa dava inveja a outros tropeiros…” Inicia-se, então, a unidade seguinte retomando a palavra “tropeiros” no singular: “quem, quem, quem me dá essa vida de tropeiro absoluto…” O vasto painel de realidades díspares que o autor vai agregando ao texto, ora com visão crítica sobre questões sociais e políticas, ora movido pela ironia e pelo espírito de carnavalização, cria a imagem de um mundo caótico, de cinema glauberiano, em que a câmera gira nervosa, registrando tanto o delírio poético do cineasta quanto o seu olhar que desvenda criticamente a nossa sociedade.

Em suma, o Cinevertigem de Ricardo Soares é esse passear delirante, aflitivo, obsessivo, desejoso por vários meandros do fazer humano, da experiência de vida do outro, enfim, da cultura, numa sequência que se processa entre o ritmo e a imagética da poesia e o possível novelo da narrativa ficcional que vai se desenrolando num único fôlego, até desembocar num final que é puro cinema, ou referência/reverência ao cinema.

 

Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista. É autor de “Uma mulher à beira do caminho” [contos, Editora Patuá, 2017], “Trinta gatos e um cão envenenado” [peça de teatro, encenada em 2016 em Brasília] e “O colar de Coralina” [roteiro de um longa de ficção dirigido pelo cineasta Reginaldo Gontijo]. E-mail: gerallimma@gmail.com

 

 

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132ª Leva - 04/2019 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra III

Um recorte da construção de Brasília no romance de Lima Trindade

Por Geraldo Lima

 

 

Brasília tem servido de cenário ou tema para obras de gêneros literários diversos, mostrando, com isso, sua importância como centro do Poder e, ao mesmo tempo, como cidade que vai, aos poucos, criando sua própria identidade cultural. Quase sempre a vemos retratada já como centro urbano consolidado, em pleno desenvolvimento, exibindo tanto sua beleza arquitetônica, seu inusitado plano urbanístico, quanto os problemas sociais que a cercam ou espalham-se em seu interior. Vê-la retratada ainda durante a sua construção, ora com olhar de encanto, ora com olhar de crítica severa, é coisa rara de se ver. Em As margens do paraíso [romance, Cepe Editora, 2019, 269 páginas], o escritor Lima Trindade, nascido em Brasília e vivendo atualmente em Salvador, cumpre esse papel e nos transporta para o cenário de avenidas empoeiradas, canteiros de obras sob o comando de empreiteiras e empresas públicas, alojamentos precários, escritórios, boates e zonas de baixo meretrício, numa Brasília que marcha para ser inaugurada, impreterivelmente, no dia 21 de abril de 1960.

Antes, porém, de fazer com que a vida de seus protagonistas – três jovens brancos de diferentes camadas sociais – convirja para esse cenário épico da construção da nova capital do país, ele apresenta cada um deles em sua respectiva cidade: Juazeiro, Anápolis e Rio de Janeiro. É nessas localidades, distantes umas das outras, que vemos como se deu a formação intelectual e afetiva desses jovens e de como os ecos da construção de Brasília chegavam até eles.

 

A estrutura do romance e a vida dos personagens

 

Como há dois momentos importantes marcando a vida dos protagonistas Leda, Rubem e Zaqueu, Lima Trindade optou, acertadamente, por dividir o livro em duas partes.

Na primeira, a narrativa é feita em 1ª pessoa e cada capítulo recebe o nome do narrador-personagem [Leda, Rubem, Zaqueu], assemelhando-se, nesse aspecto, ao romance Enquanto agonizo, de Faulkner. Desse modo, ficamos sabendo das frustrações, desejos e aspirações de cada protagonista, quase sempre em confronto com o meio em que vive. Leda sofre ao ser explorada na casa do padrinho, em Juazeiro, enquanto sonha com os artistas do rádio e do cinema. Aos poucos, o desejo que sente pelo padrinho vai complicando sua vida, a ponto de levá-la a um desfecho trágico.  Rubem, ao mesmo tempo em que se anima com a ascensão no emprego, frustra-se na vida amorosa, e isso será decisivo para que mude radicalmente seu projeto de vida longe dos bares e praias do Rio. Zaqueu, filho de pais ricos, pertencentes à elite anapolina, rebela-se e nega-se a continuar os estudos. O pai, que o leva ao prostíbulo para que se inicie na vida sexual, é o mesmo com o qual tem duros embates. Todos eles, impactados por acontecimentos trágicos, como é o caso de Leda e Zaqueu, ou frustrantes, no caso de Rubem, vão amadurecer e ganhar, praticamente, uma nova personalidade no universo agitado e tenso da capital que se ergue em pleno cerrado.

Na segunda, ainda que haja dois capítulos curtos, que recebem também o nome do narrador-personagem [Mauro] e com narrativa em 1ª pessoa, vai predominar a narrativa em 3ª pessoa no longo capítulo intitulado “Brasília”.  No novo cenário de cidade em construção, de busca de novos horizontes, de adaptações ao novo ambiente, o narrador onisciente cumprirá bem a função de nos apresentar os personagens com maior riqueza de detalhes, tanto física quanto psicológica. Assim, ficará bem clara a mudança de caráter de Zaqueu e de estilo de vida de Rubem, e isso terá papel fundamental no desfecho da história. O uso do narrador onisciente permitirá, também, que o autor nos forneça um panorama das atividades desenvolvidas na construção da capital, envolvendo desde as empreiteiras até os prostíbulos na Cidade Livre, os quais, de certo modo, ganham relevo nesta narrativa de Lima Trindade. Aliás, o sexo tem um grande destaque nessa história, chegando a influenciar no seu andamento. Assim, podemos perceber que é nos prostíbulos e boates da Cidade Livre que ocorrerá boa parte dos encontros dos personagens. “Zaqueu estivera em outros bordéis da Cidade Livre antes. Divertira-se, bebera e, afora o prazer que desfrutara nos braços femininos, descobriu ser nesses espaços que as oportunidades de negócios se apresentavam com maior frequência. Não quaisquer negócios. Mas justamente os mais lucrativos. Assim como não se apresentavam em quaisquer bordéis” [página 180].

É interessante observar também que a construção frasal muda de uma parte para outra. Na primeira, ouvimos a voz de cada protagonista narrando, no presente, seu cotidiano e os conflitos nele inseridos, e sempre num ritmo mais acelerado, entrecortado, devido ao uso sistemático de frases curtas. Esse procedimento está bem de acordo com a estratégia narrativa adotada pelo autor para esse momento da história. Já na segunda, sob a ótica do narrador onisciente, com amplitude de olhar, as frases longas imprimem à narrativa, que se dá no passado, um ritmo mais lento e possibilitam um maior detalhamento do espaço, dos estados psicológicos e das características físicas dos vários personagens que aí transitam.

 

Pesquisa histórica e imaginação

 

As margens do paraíso é fruto de apurada pesquisa histórica realizada por Lima em cada localidade em que ocorrem os fatos narrados. Durante sua leitura, deparamo-nos com personagens reais envolvidos na construção de Brasília, como é o caso do político Israel Pinheiro e do escritor e também engenheiro Samuel Rawet, e com fatos do conhecimento de todos hoje em dia, como o massacre no alojamento da Pacheco Fernandes. No livro, já com a interferência da imaginação do autor, assistimos a esse triste episódio acontecer em outro lugar: “Meia hora depois, dois caminhões repletos de soldados da GEB ultrapassaram a fronteira dos portões da Estevão Muniz e estacionaram na parte dianteira do alojamento de solteiros, onde havia a maior concentração de operários da empreiteira” [página 258]. Em Juazeiro, Anápolis e Rio de Janeiro, percebe-se o cuidado do autor em apresentar ambientes e situações culturais pertinentes ao momento histórico em que os personagens vivem. Vemos já a presença de mulheres com discurso e postura feminista, jovens articulando ações de esquerda no ambiente estudantil, uma juventude influenciada pelas novidades no campo da música e da moda etc.

Assim, a trama deste primeiro romance de Lima Trindade envolve um elemento ficcional, em que a imaginação do autor molda e move as ações dos personagens, até se cruzarem no cenário da construção de Brasília, e um elemento histórico, que serve tanto como cenário, ou pano de fundo, quanto como elemento fundamental no desenvolvimento da história e do seu desfecho.

Lima Trindade, nesta sua obra, além de nos apresentar de modo intenso a trajetória de três jovens brasileiros na década de 1950, nos transporta a um momento singular da história do nosso país, em que se sonhou verdadeiramente grande. Porém, ele não se furta ao dever de apontar os sérios problemas que essa empreitada, levada a cabo por Juscelino Kubitschek, produziu, como, por exemplo, a exploração da mão de obra dos candangos pelas empreiteiras. Em As margens do paraíso, como o título mesmo sugere, de modo irônico, já anunciam-se os graves problemas sociais que ainda hoje cercam o Plano Piloto e dão conta do fracasso do sonho de JK, Oscar Niemeyer e Lúcio Costa.

 

Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista.

 

 

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129ª Leva - 01/2019 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

A Literatura que não economiza no humor e na fantasia

Por Geraldo Lima

 

 

Claudio Parreira é desses escritores que enxergam a realidade pela ótica da zombaria, do humor, do escracho. Sua crítica aos poderosos ou ao comportamento humano passa sempre pelo rebaixamento ou pela ação de despir qualquer gesto grandioso da sua aura de importância. Na sua narrativa não cabem a sisudez, a dramaticidade ou o discurso grandiloquente. Não que ela seja marcada pela frivolidade, muito pelo contrário: esse seu caráter de desconstrução do que se determina como sério aponta exatamente para a descrença do autor na ideia de redenção do ser humano por intermédio de um discurso edificante. Claudio Parreira é, nesse sentido, um pessimista. Daí o modo zombeteiro com que trata literariamente as aflições humanas. É esse modo de narrar irreverente que o leitor encontra em A Lua é um grande queijo suspenso no céu, romance que o autor publicou, em 2017, pela Editora Penalux.

Para os que leram Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, fica mais fácil entrar no clima fantástico e irreverente desse romance de Parreira. Não que isso se imponha como exigência para se entender a história contada por ele, mas, com certeza, os que leram a referida obra de Machado vão sacar de imediato que o romance A Lua é um grande queijo suspenso no céu dialoga diretamente com ela. Não só dialoga, como traz, para dentro da sua narrativa, a figura do Bruxo do Cosme Velho.

“Sem considerar o absurdo de estar conversando com alguém, digamos, tecnicamente morto, mandei uma pergunta:

– O que é que você, senhor…

– Assis. M. Assis ao seu dispor – ele respondeu, o cigarro lançando uma fumaça preguiçosa para o alto” [pág. 35].

À semelhança do livro de Machado de Assis, o romance de Parreira traz também um defunto-autor [que faz constante uso da metalinguagem e da intertextualidade]. Só que, neste caso, um defunto-autor que está escrevendo um diário, cujos eventos dão-se entre os muros de um cemitério. O livro abre, na verdade, com um prólogo narrado em terceira pessoa. Nesse prólogo, sabemos que um corpo está sendo levado para o IML, numa ambulância, acompanhado por um médico e um enfermeiro.  Junto ao corpo encontra-se um caderno. E é através da leitura, feita pelo médico, do que está escrito nesse caderno que somos conduzidos à história que se passa no interior de um cemitério. Essa história, para espanto do leitor, ainda está sendo escrita pelo protagonista, que, inicialmente, denomina-se Pafúncio [a questão do duplo é uma das tensões presentes na narrativa]: “– Admiro a sua determinação. Não é nada fácil viver uma aventura e escrevê-la ao mesmo tempo” (pág. 109). Essa trama pode parecer absurda e inverossímil num primeiro momento, mas, durante o desenrolar da narrativa, somos constantemente alertados de que, ali, no reino dos mortos [e no reino da fantasia, também!], tudo é possível. O engraçado é que, assim como a protagonista da peça Valsa nº 6, de Nelson Rodrigues, o tal Pafúncio não se reconhece como morto. E vai levar um bom tempo até reconhecer a sua nova condição, apesar de todas as evidências de que já não se encontra no mundo dos vivos.

Se Brás Cubas, no além-túmulo, decide escrever suas memórias com “a pena da galhofa e a tinta da melancolia”, o personagem de Parreira não fará muito diferente: com a caneta da galhofa e da fantasia, ele, instigado por outro personagem, o misterioso Bernabé, dá início às suas idas e vindas em busca da panaceia, neste caso, pela cura do grande mal que aflige a humanidade: a Miséria. A partir daí, o que se vê é o nonsense, o fantástico, a irreverência, num universo em que se misturam vivos e mortos. Esse jogo entre vida e morte, entre o anseio pelo conhecimento e a dúvida de que se vale a pena mesmo buscá-lo, cria uma certa tensão entre o protagonista e aquele que o instigou a procurar a panaceia. Mas nada aí se propõe a criar discussões muito engajadas ou climas dramáticos. Quando a narrativa se encaminha nessa direção, o defunto-autor trata logo de desconstruí-la, apelando, até mesmo, para o juízo crítico do autor de Memórias póstumas de Brás Cubas:

“Poucos fatos, é verdade, mas ainda assim. Esta seria, portanto, a minha salvação (e a de Bernabé também) e, paradoxalmente, a minha maldição. Ó!

– Larga mão de ser dramático!

O forte cheiro de cigarro não deixou dúvidas: era o tal M. Assis de novo…” (pág. 107).

No esforço de afastar o discurso de qualquer tom solene, o autor procura manter a linguagem num nível menos elevado, apelando, às vezes, para a linguagem chula, coloquial. “Em busca da fórmula de porra nenhuma, de uma panaceia tão concreta quanto um unicórnio” (pág. 53). “Estava sobre uma laje de mármore fria pacarái” (pág. 99).  Assim, qualquer palavra mais sofisticada ou expressão mais poética da linguagem que apareçam, como que por descuido do narrador, eis que são logo sacaneadas, rebaixadas, usando-se, para isso, divertidas notas de rodapé. “– Bobagem – pensei enquanto o vento chicoteava meu rosto e cabelos com a fúria das suas carícias.”²9 E a nota de rodapé: “29. Deusolivre! Que expressão…” (pág. 81).

O tom da narrativa de Claudio Parreira é esse. E nessa narrativa marcada pelo gracejo impera a constante desconstrução do sentido elevado da linguagem. Cabe então ao leitor desconstruir-se também e entregar-se ao clima de gozação que a permeia. Muitas vezes, somos alertados pelos autores sobre os riscos ou consequências da leitura da sua obra [o que só nos instiga mais ainda a lê-la].  Assim o faz Lautréamont [ou o eu lírico/narrador dos seus Cantos de Maldoror] logo no Canto Primeiro: “Não convém que qualquer um leia as páginas a seguir; só alguns conseguirão saborear este fruto amargo sem maiores riscos. (…) Ouve bem o que te digo: dirige teus passos para trás e não para frente, assim como os olhos de um filho que se afasta respeitosamente da contemplação augusta do rosto materno” (pág. 31). Ou o próprio Brás Cubas, em tom bem debochado: “A obra em si mesma é tudo; se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus” (pág. 12).  Parreira, ou seu defunto-autor, só vai se dirigir ao leitor, nesses termos, lá para a página 41, quando percebe que a sua narrativa circular, ou seu eterno retorno ao ponto de partida, pode enfastiar o leitor mais impaciente: “Mas aqui, cá entre nós, já percebi uma coisa: esta narrativa vai e volta, se enrola sobre si mesma, não fode nem sai de cima. Acho que é bom dar logo um norte a esse negócio, senão vocês aí podem ficar entediados e fechar o livro, o que não é bom pra mim e muito menos para a editora. Sigamos então!” (pág. 41).

Então, caro leitor, mergulhe sem medo nas páginas fúnebres e delirantes dessa obra de Claudio Parreira e se divirta um bocado.

 

Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista.

 

 

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122ª Leva - 07/2017 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra

Contos que traduzem a conflitante realidade do povo negro brasileiro

Por Geraldo Lima

 

 

Cristiane Sobral [poeta, escritora, atriz, diretora e professora de teatro, nascida no Rio de Janeiro e radicada em Brasília] é uma das vozes mais contundentes da literatura negra brasileira. E, ao falar de literatura negra, falo do texto literário (poesia ou prosa) que, segundo Zilá Bernd, no seu livro Introdução à literatura negra (Editora Brasiliense, 1988, pág. 95), “configura-se como uma forma privilegiada de autoconhecimento e de reconstrução de uma imagem positiva do negro”. É, também, literatura que tem o compromisso de denunciar a discriminação racial e o quadro de exclusão em que vive a maior parte da população negra no Brasil. É, em suma, uma literatura que se propõe como militante, engajada, com todos os riscos que isso acarreta. E é assim nos dezoito contos que compõem o livro O tapete voador (Editora Malê, 2016), de Cristiane Sobral.

Nesse seu livro, Cristiane Sobral nos dá mostra de como esse tipo de narrativa se propõe como objeto estético e, ao mesmo tempo, como instrumento de conscientização do indivíduo negro sobre a importância de assumir a sua verdadeira identidade racial e cultural. O confronto, aí, é contra a ideologia do embranquecimento. A estratégia, nesse caso, é tomar uma situação cotidiana que exponha o problema da discriminação racial ou do conflito identitário do negro brasileiro, de modo objetivo, quase didático, de maneira que o leitor saia da leitura do texto com sua consciência mudada, ou, na linha do que alguns dos contos de O tapete voador sugerem, renasça com nova identidade cultural ou resista sem abrir mão das suas convicções raciais.

De imediato, ficamos tentados a ver nesse tipo de procedimento literário um defeito ou uma pobreza estética, ao qual faltaria sutileza na construção da narrativa e na representação psicológica das personagens. Sobre isso, nos alerta Zilá Bernd (ibid., pág. 98): “Assim, em literatura negra, a questão de avaliação do nível estético atingido não deve se pôr como elemento exclusivo de análise, ou como preocupação única da crítica. Jack Corzani, autor da importante obra La Littérature des Antilles-Guyane Françaises (1978), (…) recoloca o problema de privilegiar o estético no estudo de obras que se querem essencialmente funcionais, concluindo que esse critério corresponderia a condenar a pesquisa, a priori, à esterilidade”. Assim, devemos ver, em primeiro plano, o caráter de funcionalidade desse tipo de procedimento narrativo para explicitar, no caso, os problemas raciais e sociais que afetam o negro brasileiro.

E é de modo consciente e corajoso que Cristiane se equilibra entre estes dois polos (o estético e o ideológico) na construção dos dezoito contos que compõem esse seu livro. A sua habilidade na construção da narrativa que privilegia o elemento estético e a fabulação fica visível no conto Bife com batatas fritas. Nesse conto, a questão estética e a temática social são bem articuladas, de modo que o leitor não tem como não se comover com o quadro de miséria e orfandade de uma criança de periferia. Esse é, aliás, um dos melhores contos do volume e poderia figurar em qualquer antologia dos melhores contos brasileiros. No conto O limpador de janelas, o que chama a atenção é o modo como a narrativa se constrói a partir de frases muito curtas, fragmentadas, o que torna o ritmo acelerado e surpreendente, dando conta das várias peripécias amorosas do protagonista.  Ao final, o personagem Samuel, um quase pícaro, um “pegador” nato, verá que a sua condição de negro em terras tupiniquins vai sempre lhe reservar surpresas desagradáveis. Por falar em final, é de se observar que há, propositalmente, um elevado tom de idealização em alguns casos, beirando o inverossímil, como o que acontece no conto Metamorfose, em que tudo acaba exageradamente bem.

Ainda que predomine o realismo, algumas histórias flertam com o fantástico, como nos contos O galo preto e A samambaia.  O tom de sarcasmo, de deboche e de ironia molda algumas dessas narrativas, tornando ainda mais agudo e crítico o olhar da autora sobre os episódios de discriminação racial e de negação da própria negritude, como é o caso dos contos Lélio e Afrodisíaco (neste, ironiza-se o propalado vigor sexual dos negros). Ora narradas em terceira pessoa, ora em primeira – nesse caso, majoritariamente narradas por mulheres –, as histórias compõem um painel de situações variadas em que o indivíduo negro se vê frente a frente com a questão do preconceito racial, da miséria ou da crise de identidade. A subjetividade feminina é também ponto de destaque nessas histórias de enfrentamento e reconstrução da imagem, como nos contos Vox mulher, em que a protagonista expressa, numa linguagem marcadamente poética e intensa, seus desejos e seu orgulho de ser mulher negra, e Pixaim, no qual uma mulher rememora, de modo comovente, sua infância passada no Rio de Janeiro e marcada pelo sofrimento de se ver obrigada a mudar sua imagem, com o alisamento desastroso do cabelo, e reafirma, já residindo em Brasília, seu orgulho e sua alegria de se ver no espelho como ela realmente é: uma mulher negra e madura. “A gente só pode ser aquilo que é”, afirma ao final, num claro recado aos que procuram negar a sua origem.

Nem sempre os personagens são pessoas que negam a sua negritude. Algumas, pelo contrário, assumem a sua ancestralidade e suas características negras e as defendem com convicção. Tomemos, como exemplo, o conto O tapete voador, que abre o volume, e o conto Renascença, que o fecha. No primeiro conto, narrado em terceira pessoa, a personagem Bárbara, de origem humilde e orgulhosa da sua cor, é funcionária de uma grande empresa e tem o reconhecimento pelo seu trabalho. No momento, ela pretende se aperfeiçoar mais ainda e pede o apoio da empresa para fazer uma pós-graduação. Mas qual não será o seu espanto e a sua decepção ao ser levada à presença do presidente, que deve autorizar esse apoio, e encontrar lá, no posto mais alto, um homem negro? A decepção ficará por conta do que ele, partindo da sua estratégia de ascensão profissional e social, vai lhe aconselhar a fazer em relação à sua aparência. No segundo conto, também narrado em terceira pessoa, encontramos a personagem Teresa prestes a romper com a sua orientação religiosa. Negra, charmosa e orgulhosa da sua cor, sente-se preterida pelos homens negros da igreja evangélica que ela frequenta. “Teresa gostava muito da sua igreja, mas seu corpo negro também sentia naquele ambiente o peso do preconceito, da discriminação. Isso gerava muitos questionamentos. Por que não despertava o interesse dos rapazes da congregação? (…) O fato é que, naquela comunidade, os homens negros normalmente costumavam casar com mulheres brancas…” O fato de ser independente e ter um estilo próprio (“não alisava os cabelos”), chocava os outros fiéis, e sempre era aconselhada a mudar a sua aparência. Assim como Bárbara, só lhe resta resistir e ir em busca de um convívio em que seja valorizada sem precisar negar a sua identidade racial.

Num país em que a representatividade da população negra é baixíssima nos meios literários, nos quais circulam com maior desenvoltura as obras dos autores brancos e das autoras brancas, é de se celebrar o trabalho de escritores e escritoras como Cristiane Sobral, que dão voz e vez em suas narrativas e poemas à nossa gente tão excluída.

 

Geraldo Lima é natural de Planaltina-GO e reside em Brasília, DF. É escritor, dramaturgo e roteirista. Tem algumas obras publicadas, entre elas, “Baque” (conto, LGE Editora), “UM” (romance, LGE Editora), “Tesselário” (minicontos, Selo 3×4, Editora Multifoco), “Trinta gatos e um cão envenenado” (teatro, Ponteio Edições) e “Uma mulher à beira do caminho” (Editora Patuá). Participou de algumas antologias literárias e tem textos publicados em jornais, suplementos literários, revistas impressas e revistas eletrônicas, sites e blogs. É autor do roteiro do longa de ficção “O colar de Coralina” – direção de Reginaldo Gontijo – e da peça de teatro “Trinta gatos e um cão envenenado”, encenada em 2016 em Brasília. E-mail: gera.lima@brturbo.com.br

 

 

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113ª Leva - 07/2016 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Geraldo Lima

Rety Ragazzo
Desenho: Rety Ragazzo

 

TRAJETO

 

Esperou por ela ali no quarto.

Esperou que ela entrasse e fosse direto para o banheiro, como era de costume. Ah, sempre com a bexiga cheia, prestes a estourar. Ouviu o baque da porta sendo fechada e em seguida o jato do xixi batendo na água do vaso sanitário. O barulho da descarga, da porta sendo aberta e, por fim, o som de passos vindo em direção ao quarto.

Esperou sentado na borda da cama. Mas a espera tornava-se mais longa do que ele desejava. Os passos pareciam fazer um trajeto enorme, como se de repente a casa tivesse triplicado de tamanho. Para aumentar-lhe a ansiedade, ela fez um pequeno desvio e passou primeiro pela cozinha. Havia se esquecido de que, vez ou outra, ela chegava faminta. Cansada e faminta.

Esperou sentado na borda da cama e com o envelope pardo numa das mãos. Ela iria perceber, tão logo passasse pelo vão da porta, que o rosto dele não trazia aquela serenidade de sempre, o sorriso e a alegria por vê-la chegar em casa depois do trabalho. O quadro era outro, turvo e sombrio.

Esperou sentado na borda da cama até os passos começarem a ressoar como se já estivessem dentro do quarto. O coração deu um salto grande e sufocante, obrigando-o a se pôr de pé. No envelope pardo, as mãos deixavam marcas de suor e nervosismo.

Esperou sentado na borda da cama até aquele instante, em que ela adentrou o quarto com o rosto banhado em luz e graça. Ela vinha de uma outra alegria que não podia se conter, mas, ao deparar-se com a imagem corrompida pela dor e exposta com tanta nitidez, acusou o baque, – o rosto desbotou-se e ela entendeu logo a razão daquele envelope brandido com fúria diante dos seus olhos.

 

 

***

 

ASSIM, DO NADA

 

A duas camadas de tecidos abaixo da pele negra, sentiu o motor da máquina-corpo falhar. A disritmia. O corte brusco no bombeamento de combustível através da malha de veias. A fisgada, não de peixe, mas de faca que penetra aguda e tensa.  Queria duvidar: cessar assim, sob sol matinal, o pulsar forte de todos os dias? O pulsar sanguíneo, ininterrupto? Pois não estava de pé há anos, numa demonstração de vigor e saúde esse tempo todo? Árvore frondosa, milenar, que não tomba nunca – baobá invencível pelo tempo. Até uma certa arrogância, de pretensa eternidade, nesse modo de viver. A esposa, mesmo pregando no deserto, alertava sempre, Não facilita, com saúde não se brinca.

Ainda há pouco havia planejado uma série de ações para os próximos dias, tal o estado de excitação e energia que lhe tomava o ser. Bebeu uma xícara de café bem quente e acendeu um cigarro. Ah, não poderia haver prazer maior que esse. Fuma lá fora, a esposa lhe pediu. Então abriu a porta e a brisa morna da manhã bateu de leve no seu rosto. Uma carícia tão agradável que o fez lembrar-se dos primeiros anos ao lado de Alice. Afastou-se alguns metros e foi aí que sentiu como que um soco no peito.

A duas camadas abaixo da pele negra, o motor da máquina-corpo enguiçando, dando sinais de uso e corrosão, de sobrecarga de emoção e estresse. Um bater agora fraco, quase nenhum. O som abafado do motor de um Teco-Teco pifando no alto, até vir abaixo e bater no solo. A mão invisível que puxa uma cortina enorme para diante dos olhos, isolando-os da paisagem. Não poderia esperar jamais um final assim tão abrupto, fora do script, sem tempo nem para agradecer ou dizer adeus.

***

 

DONA DE SI

 

Era uma mulher livre – no sentido pleno da palavra.

Ele a conheceu assim, um horizonte amplo e indefinido. Ainda que o amasse, não conhecia fronteiras nem amarras. Era uma dessas capazes de nos fazer sofrer mesmo em pleno gozo, tal a sensação de fluidez do seu espírito e o estado sempre movediço do seu corpo. Um corpo que, estando em nossos braços, já escorregava para outro plano, outros desvãos de desejos e sonhos.

 – Morri no dia em que ela me deixou – ele me revela com a voz ainda doente, cravada de pus e dor. Essa sua voz sem cura reverbera em minha pele e atravessa minha mente de ponta a ponta.

Dela, ele se recorda principalmente do cheiro de carne e de alma em brasa. Isso que, para ele, é uma incisão profunda na memória, como essas que o vento, ao longo de séculos, milênios, inscreve nas rochas.

***

 

 

ODISSEU

 

Estou prestes a adentrar uma região vasta, assustadoramente vasta. Mundo ermo, movediço, imprevisível. A partir daquele ponto ali, onde a luz cega e alucina, meu ser vagará à deriva, entregue aos caprichos da sedução.

Posso, nesse caso, fechar os olhos e tapar os ouvidos, blindando-me contra o fascínio da beleza e a magia da voz. Poderia, inclusive, fazer meia-volta e retornar daqui, onde sinto ainda a terra, firme e segura, sob meus pés. Poderia. Mas uma força extrema me arrasta para fora de mim.

Ah, um deus furioso deve ter me atirado nessa aventura insana, pois nunca alimentei em mim tanto desvario. O fio da razão rompeu-se. Ouço o canto da sereia e avanço despido de juízo e prudência.

 

 

***

 

 

GRITOS

 

De repente o tempo fechou dentro do salão. Vi um brilho de metal luzir sob a luz da lâmpada e dezenas de pessoas precipitarem-se em direção à porta. A porta, como era de se esperar, tornou-se estreita demais para tantos corpos, para tanto desespero. Consegui vazar pela janela e sumi dentro do breu. Parei uns quinhentos metros depois, sem ar nos pulmões e coragem para avançar no escuro. Então fechei os olhos e tapei os ouvidos para não ouvir nada, nem o tinir do aço nem o estalido das armas de fogo. Mas na mente, sem que eu pudesse interromper, a cena continuou a desenrolar-se violenta e gangrenada.

 

Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista. Tem algumas obras publicadas, entre elas, “Baque” (conto, LGE Editora/FAC), UM (romance, LGE Editora/FAC), “Trinta gatos e um cão envenenado” (peça de teatro, Ponteio Edições) e “Tesselário” (minicontos, Selo 3×4, Editora Multifoco). Participou de algumas antologias literárias, como: Antologia do conto brasiliense (org, por Ronaldo Cagiano, Projecto Editorial/FAC, 2004); Todas as gerações – o conto brasiliense contemporâneo (org. por Ronaldo Cagiano, LGE Editora, 2006); e Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro (org. por Anderson Fonseca e Mariel Reis, Oito e Meio Editora, 2013).  É autor do roteiro do filme O colar de Coralina (em fase final de edição).

 

 

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106ª Leva - 09/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

Mais uma etapa de encontros consolida-se na Diversos Afins. Nossa missão editorial ganha corpo na medida em que conseguimos expandir as fronteiras do diálogo. Atrair pessoas e fazê-las expressarem as suas epifanias pessoais é algo relevante. Cada colaborador que se une ao nosso projeto ajuda a compor um vasto e incessante mosaico de sensações. Nada é linear. Se somos seres distintos, carregando uma determinada marca de individualidade, é porque no somatório das ações não damos crédito à conformidade das coisas. A concordância plena não passa de um devaneio sem forças para seguir adiante. É na multiplicidade do pensamento que tudo ganha mais vigoroso sentido. Quão fabulosa é a literatura na medida em que consegue fazer desfilar tantas mentes de características diferentes. Ao fim, o que cada autor vem apresentar aqui na revista é a sua capacidade única de vislumbrar a existência.  Por vezes, quantos de nós não explicitamos o desejo de construir uma obra semelhante a de alguém? No entanto, essa vontade, movida por um sentimento de identificação, mais uma vez reafirma o poder da diferenciação entre as pessoas. Definitivamente, nenhum criador é igual ao outro. Daí, a grandeza da arte sob os seus mais variados aspectos. Hoje, com a participação valiosa de escritores e artistas, completamos 106 investidas à frente da revista. Importa saber que há o eco singular da voz de poetas do quilate de Rita Medusa, Airton Souza, Roberta Tostes Daniel, Ana Peluso e André Rosa. Vale a pena contemplar as sutilezas humanas expostas no trabalho da fotógrafa Sinisia Coni. É recompensador ouvirmos o que tem a dizer o nosso entrevistado de então, o experiente músico Sabará, baterista, professor e verdadeiro símbolo da cultura baiana há mais de meio século. No quesito prosa, Vanessa Maranha, Caio Russo, Aden Leonardo e Geraldo Lima vêm fazer do mundo um observatório de ideias e outros tantos contextos. É Guilherme Preger quem nos chama atenção para a elaboração do filme “Táxi Teerã”, nova produção do diretor iraniano Jafar Panahi. Larissa Mendes destaca a marca das sonoridades de “Júpiter”, mais recente disco do cantor e compositor SILVA. “O beijo na parede”, romance de Jeferson Tenório, é cuidadosamente sondado pelo olhar apurado de Sérgio Tavares. No âmago de cada imagem ou palavra que compõe a nossa mais nova Leva, a vida assume contornos próprios. A vocês, caros leitores, ofertamos mais um experimentar de sensações. Boas leituras!

Os Leveiros

 

 

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106ª Leva - 09/2015 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa IV

Geraldo Lima

 

Sinisia Coni
Foto: Sinisia Coni

 

 REJEITOS, UMA PALAVRA E SUA SINA

 

De repente a palavra REJEITOS, feito um monstro de pesadelo, invadiu nosso sono tranquilo, nossa consciência cansada de batalhas vãs, nosso universo cultural saturado de tudo e nada, nosso cotidiano de uma aflição contínua e mórbida. Veio na enxurrada dos acontecimentos imprevistos e indesejados. Saltou dos manuais técnicos das mineradoras e dos órgãos de fiscalização ambiental, dos calhamaços da legislação brasileira, dos discursos vazios e inoperantes, das páginas amarelecidas de jornais e revistas semanais, para o palco do embate verbal que, pelo menos por enquanto, nos lembra da nossa humanidade e do nosso compromisso com a preservação do planeta.

Então a palavra REJEITOS sempre esteve aí, porém confesso que havia me esquecido da sua existência de coisa nociva e latente, acreditando que uma barragem, por sua musculatura de concreto, rocha e terra, pudesse mantê-la presa ad aeternum. Mas sua presença a partir de agora, sinistra e incômoda, parece-me impossível de ser ignorada, pois sabemos da tragédia que se instala quando ela atinge o pulmão de rios e oceanos.

A palavra REJEITOS camufla em sua semântica as palavras MORTE e DESTRUIÇÃO. Nela a palavra ESTÉRIL encontra um ventre que lhe dá vida e força. É irmã do ESGOTO e da LATRINA. Mistura-se à LAMA em concubinato suspeitíssimo. Não é palavra em que floresçam o sonho e a esperança. No seu espelho opaco não se reflete a “aurora de dedos róseos” de Homero nem o rosto de Diadorim após um dia inteiro de luta e amor inconfesso. Não há limpidez no seu sentido, não há humanidade no seu emprego. Nela cabem coisas como dinheiro e lucro, poder econômico e descaso, exportação e divisas, negócios e frieza, política e corrupção. Nela só não cabem coisas como oxigênio e cardumes de peixe, crianças nadando no remanso e lavadeiras entoando cantos de labor e festa, bichos saciando a sede e humanos se refrescando do calor. Nela não cabe, enfim, a água límpida (doce ou salgada) em que a vida, na sua multiplicidade, cresce em abundância e alegria.  Ela rima (rima pobre, é bem verdade) com DESLEIXO e DEFEITO. Bem poderia ser expulsa de todos os dicionários, mas, em tempos democráticos, não seria de bom-tom uma atitude tão extrema. Então conviveremos com ela, desassossegados sempre? Ou, num gesto de basta, a rejeitamos com tudo que há nela de ferro, alumínio e manganês?

 

Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista. É autor de “Um” (romance), “Baque” (contos) e “Tesselário” (minicontos).

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103ª Leva - 06/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Caroline Pires
Ilustração: Caroline Pires

Buscar a inscrição do nome das coisas entre os dias. Cultivar palavras antigas, saberes novos, sabores de um porvir. Evocar imagens que atravessam as horas desavisadamente. Percorrer o vasto campo dos mistérios à procura de perguntas. Sim, perguntas, pois respostas significam uma espécie em extinção. Se é que algum dia será possível chegar ao ponto extremo de nós mesmos, tentemos ao menos absorver um mínimo do transcorrer incerto do tempo. Ao guardarmos nossos supostos tesouros, corremos o risco de perdemos a capacidade de contemplá-los e obtermos deles o que realmente importa. Quem sabe a vida não seja um poema maldito em eterna construção, requerendo métodos descartáveis de tentativa e erro. Queremos tanto: matéria, sopro, comida e algum alento intangível. No entanto, o reino da dúvida à espreita, como uma divindade inexplicavelmente cultuada. Dentro desse inadvertido território, a arte intenta algum fôlego. Quiçá um salto no abismo para um desfecho imprevisível. Sobremaneira, há quem julgue serem os estados melancólicos do ser verdadeiros combustíveis da criação. Nesse sentido, os lampejos de contentamento e efusão diante da vida seriam menos eficazes? Discussões à parte, nada está em perfeita ordem debaixo do sol. Enquanto a caravana passa ante nossos perdidos olhares, podemos nos permitir conhecer o que outras tantas pessoas têm a nos dizer com seus feitos. É assim com as epifanias poéticas de gente como Sara F. Costa, Samuel Malentacchi, Ana Horta, Nilcéia Kremer e Floriano Martins. Um efeito de trazer à tona recortes incisivos da vida toma os contos de Geraldo Lima, Márcia Denser e Fernando Rocha. Há uma atenta leitura de Sérgio Tavares para o novo livro de contos de Luís Roberto Amabile. No quesito cinema, Larissa Mendes convida-nos a perceber a delicadeza poética contida no filme brasileiro “A História da Eternidade”. Num diálogo movido essencialmente pelos sensíveis territórios da música, Graccho Braz Peixoto entrevista o cantor e compositor Mário Montaut. Por meio das escutas de Gustavo Rios, uma valiosa apresentação do disco da banda “A Flauta Vértebra”. O romance “Java Jota”, de Thiago Mourão, é alvo das anotações de Fabrício Brandão. Com a vigorosa contribuição da artista plástica Caroline Pires, desenhos e ilustrações vêm fazer par com outras tantas vozes aqui dispersas. É tempo de uma 103ª Leva, caro leitor!

Os Leveiros

 

 

 

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103ª Leva - 06/2015 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Geraldo Lima

 

Ilustração: Caroline Pires

 

MULHER NA CADEIRA DE VIME

 

O cenário, uma sala com decoração minimalista. Só a reprodução de Mulher sentada apoiada sobre os cotovelos, de Pablo Picasso, fixada na parede frontal, atrai de chofre os olhos do visitante.

Depois disso, percebe-se o tom suave do azul brisa do mar das paredes. Tudo isso, obviamente, se os olhos não captarem com mais interesse a silhueta feminina exposta no lado esquerdo do cômodo. Não se trata de uma reprodução, e isso logo se vê. Tampouco está decomposta como numa pintura cubista.  Embora ele não a veja ainda por completo, o ser no seu todo, seus olhos já transbordam.

Ela está sentada numa cadeira de vime natural, o corpo todo resumido nesse espaço de fibras e reentrâncias.  Os olhos, cerrados, parecem entregues aos caprichos da memória e seus labirintos. Ela não o viu entrar, ou finge não tê-lo visto. Finge, é o que se pode deduzir, pois a porta foi aberta sem nenhuma delicadeza. As dobradiças, carentes de lubrificante, rangeram alto. Ela, no entanto, permanece assim: a cabeça levemente jogada para trás, como quem tira um cochilo.

Ele para diante dela, esperando que abra os olhos e o veja.  Espera inútil, alguém precisa lhe dizer. A mulher, movendo-se um pouco na cadeira (deixa, talvez, os pés escorrerem e tocarem a frieza do porcelanato), poderá até descerrar os olhos opacos e tentar focá-los na direção dessa voz que agora a cumprimenta. Tenta, sem desespero, buscar essa figura que ela imagina como sendo um homem alto e forte. Um homem que ela decompõe e vai remontando a seu bel-prazer.

 

 

 

***

 

 

 

DOIS

 

Aí ela inventava umas coisas, meio que no desespero. Quanto tempo isso dura?, devia se perguntar, enquanto tinha aqueles insights, aquelas malícias próprias de uma mulher tentando fincar as raízes do amor na areia movediça de encontros furtivos. Ele chegava, ela abria a porta, e lá estava a surpresa, a isca, a invenção do dia, o jeito de cativá-lo para que aquilo durasse pelo menos um dia a mais, aquele resto de tarde, quem sabe? Colocava uma música lenta, romântica de partir o coração em pedacinhos, colava o corpo ao dele, dança comigo?, e então dançavam, quase sem sair do lugar, apenas sentindo, sentindo, sentindo. Ela queria que aquilo durasse uma eternidade, mesmo sabendo que iria acabar, acabar ainda reverberando, trincando por dentro, chamuscando a carne, assombrando a memória. Talvez por isso tivesse aqueles achados só para não afundar definitivamente no desespero, na sensação de finitude, no magma que sufoca até a morte. Você me carrega no colo até o quarto?, ela lhe pediu da última vez em que se encontraram.

 

 

 

 ***

 

 

ELA

 

É como se não tivesse ficado tanto tempo longe de casa. Como se não tivesse, num rompante do mais louco romantismo, abandonado tudo em nome do amor mais extremo. Olhando-a assim, tão desenvolta na casa que ela renegou um dia, podemos nos espantar com a sua certeza de que ainda cabe ali, de que não há outra em seu lugar, de que ele não trocou a fechadura exatamente para que ela entrasse sem precisar tocar a campainha. E aí está ela, desfazendo a mala, indagando sobre o comportamento das crianças (nem percebe que cresceram, que praticamente não a reconhecem), e reclama do guarda-roupa bagunçado, reafirmando, talvez, a necessidade de sua presença ali. Ele, até agora, observa tudo pasmo, com um engasgo, uma vontade de dizer algo, uns desaforos, uns desafogos, indagar, se impor, mas sente-se atravessado por sentimentos contraditórios: enquanto busca em si o ódio, a faca que trincha, um fiapo de alegria deixa-o mole, aliviado, quase a ponto de chorar. Intenta reagir contra essa fraqueza, porém já é tarde, ela domina o ambiente, preenche o vazio de antes, dando a nítida impressão de que tudo está começando agora, sem pus algum na ferida que lateja ainda exposta.

 

Geraldo Lima é escritor, dramaturgo e roteirista. Autor de Baque (contos), Tesselário (minicontos) e UM (romance).