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72ª Leva - 10/2012 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Mercedes Lorenzo

Erguer uma nova edição é, de certa forma, deixar-se conduzir pelos imperativos de um fluxo especial de comunicações. Nessa perspectiva, dois pólos mostram-se intimamente relacionados: a manifestação espontânea dos criadores, através do interesse em terem suas obras apreciadas e, do outro lado, a busca própria da revista pelo conjunto de expressões que melhor se identifiquem com sua linha de publicações. Desse equilíbrio de ações, surgem descobertas significativas as quais reforçam o valor dos encontros, aspecto tido como essencial em nossa jornada editorial. Não haveria sentido em tocar o projeto adiante se, diante de tais convergências, não fosse possível estabelecer uma conexão de linguagens múltiplas e consistentes. Mais do que uma proposta supostamente ordenada de resultados criativos, estamos sempre à procura de epifanias que permitam a transgressão. E transgredir sugere um algo muito além de uma mera quebra de barreiras. Aponta também para a capacidade que uma determinada obra possui de deslocar nossas leituras de mundo para lugares desabitados de obviedade e inércia. Basta observar detidamente a verve poética de gente como Carla Diacov, João Filho e Carolina Caetano para percebermos que o “modus operandi” da criação reflete um teor singular. Contribuem também para o ambiente onde os versos denotam um cuidado valioso com forma e conteúdo as manifestações de Diego Tardivo e Silvério Duque. No campo das imagens, as fotografias de Mercedes Lorenzo retiram da matéria cotidiana os vestígios deixados pelas complexas andanças humanas. Há substância, entrega e domínio textual que roubam a cena na prosa de Alice Fergo e Yara Camillo.  Na Pequena Sabatina ao Artista, o poeta e editor Floriano Martins estabelece um diálogo musical vigoroso com o cantor e compositor Graco Braz Peixoto. Em sua resenha sobre o filme argentino “Elefante Branco”, Larissa Mendes pontua o denso apelo social presente na obra. W. J. Solha nos propõe um percurso pelos ensaios e poemas dispersos em “Psi, a penúltima”, livro de Soares Feitosa. Outro valioso convite à leitura nos é apresentado pelo escritor Geraldo Lima, quando discorre sobre o novo rebento literário de Vera Helena Rossi. O dramaturgo Paulo Afonso de Souza Castro expõe reflexões e perspectivas em torno do teatro. Em nosso gramofone, giram as canções do segundo disco de Tulipa Ruiz. Eis uma nova Leva, caro leitor, coberta de signos e outras tantas vias por descortinar.  


Os Leveiros

 

 

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72ª Leva - 10/2012 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

De um belo e profundo mergulho na alma humana

Por Geraldo Lima


Mind the gap é um livro de contos – alguns são tão curtos que podem ser chamados de minicontos. É, também, um livro visualmente muito bonito (cabe, aqui, ressaltar o belo trabalho de edição da jovem editora Patuá).  É, por fim, o livro da escritora, jornalista e mestre em literatura e crítica literária Vera Helena Rossi. Ela é autora premiada em concursos literários e tem textos publicados em revistas e sites, como a Revista Língua Portuguesa e o site Cronópios. Seu romance Estamos todos bem foi finalista do VI Prêmio da Jovem Literatura Latino-Americana. Ou seja, não estamos diante de uma escritora inexperiente ou que ainda engatinha na difícil arte de escrever ficção.

Mind the gap é composto por dezoito contos. Alguns deles, como já foi dito, podem ser considerados minicontos.  É o caso de “Eu e você qualquer dia”, “Ninguém dia a dia”, “Narciso” etc. Nesses textos mais curtos, Vera Helena Rossi parece buscar não a clareza, a linearidade, a narrativa pura, mas sim a ousadia de situar suas histórias mínimas nos limites entre os gêneros. Mas é nos textos mais longos que ela consegue realizar plenamente a construção de uma narrativa que nos revela o talento de uma autora madura e dona de um estilo próprio. Nesses contos que se estendem por cinco ou mais páginas, podemos perceber a habilidade da autora na caracterização psicológica das personagens, na construção dos diálogos e na sutileza com que conduz a teia narrativa de modo a prender a atenção do leitor até o final surpreendente. Destacam-se, nessa linha, “As caixas de papelão da família A. Almeida”, “Boa nova’” (este, para mim, o melhor de todos: vamos até o final, cheios de temor e aflição pelo que pode acontecer aos filhotes de gato) e “Lady Day”, em forma de diário ou simples desabafo da amante que se dirige ao amante em tom áspero e irônico. Não ouvimos a voz do amante, apenas o discurso denso e ácido da mulher contrariada.  E é com frases como esta que ela desnuda a relação com o amante: “Calados, meus solitários gritos, calados. Você devia me agradecer por ajudá-lo a se encontrar na sua solidão”.  Lendo esses contos mais longos, não nos resta dúvida de estarmos diante de uma escritora que sabe conduzir, sem excessos, uma boa narrativa.

A temática desses contos (e minicontos) compostos por Vera Helena Rossi é variada. Temos o caso da velhice e suas idiossincrasias, em “Boa nova”, do amor e seus conflitos, em “Lady Day”, até os embates cotidianos, no metrô ou no shopping, como nos são apresentados em “Assento vazio” e “À vista ou no cartão” (nesse o confronto físico se dá de fato e com violência assustadora).  Assim, podemos dizer que a violência se destaca em quase todos os contos de Mind the gap, sendo, de certo modo, o elemento que mantém uma unidade entre os textos. Fora isso, é bom seguir o que nos diz o título: mind the gap, ou seja, cuidado com os degraus, ou com os desníveis, no caso desse livro, preste atenção, caro leitor, à variedade de enfoques, temas e rupturas com a realidade. Num sentido mais metafórico, à queda cotidiana dos seres que povoam essa obra perturbadora.

 

 

* “Mind the gap” pode ser adquirido através do site da Editora Patuá.

 

 

(Geraldo Lima é professor, escritor e dramaturgo. Já publicou alguns livros, entre eles Baque (conto, LGE Editora) e Tesselário (minicontos, Selo 3×4, Editora Multifoco). É colunista dos sites O BULE e Portal Entretextos e do blog Dona Zica tá braba. Colabora com o Jornal Opção (Goiânia), o Jornal de Sobradinho (DF), e as revistas eletrônicas Triplov e Diversos Afins. Bloga ainda em: Baque. E-mail: gera.lima@brturbo.br / Twitter: @gerassanto.com)

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67ª Leva - 05/2012 Ciceroneando Outras Levas

Ciceroneando

 

Desenho: Felipe Stefani

 

Criar é estar diante de um espelho e mirar detidamente nossos próprios mistérios. Mesmo o plano da imaginação, gênese de um tudo, por vezes se defronta com aquilo que podemos chamar de angústia da criação. A sensação é a de se estar diante de um marco divisor de tempos: um da inquietação pelo algo a dizer; o outro, da efetiva e consistente materialização do objeto pretendido. O desafio inicial do autor parece ser o de atravessar precipícios sem se deixar intimidar pelas profundezas contornadas.  Em boa medida, a obstinação serve de virtude ao criador, sobretudo porque instaura um salutar estado de alerta em torno dos rumos a serem percorridos. E foi pensando em questões como esta que travamos uma conversa com o escritor W. J. Solha, cujo novo rebento literário, intitulado “Marco do Mundo”, pontua precisamente as legiões de desafios que se agigantam diante da missão de um autor. Entrecortando as expressões de agora, está o traço sensível dos desenhos de Felipe Stefani, alvo preciso das reflexões de Hilton Valeriano. Em matéria de poesia, somos conduzidos pelos densos signos de Edson Bueno de Camargo, Elizabeth Hazin, Ronaldo Cagiano, Mar Becker e Wender Montenegro. No quadro Jogo de Cena, o ator Rafael Morais mergulha com propriedade no fascinante universo dos palhaços.  O escritor Geraldo Lima nos convida à leitura do novo livro de minicontos de Anderson Fonseca. As linhas de Marcus Vinícius Rodrigues, Homero Gomes e Priscila Miraz tecem as tramas contistas dos Dedos de Prosa. O cinema argentino é, novamente, tema da devoção cinéfila de Larissa Mendes. No Gramofone, reproduzimos em alto e bom som alguns percursos sobre o primeiro disco solo de Gui Amabis. Através das trilhas da 67ª Leva, uma nova lavra de publicações se anuncia. Evoé, caro leitor!

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67ª Leva - 05/2012 Aperitivo da Palavra Destaques Outras Levas

Aperitivo da Palavra

UNIVERSO MENTAL POVOADO POR SERES MINÚSCULOS

Por Geraldo Lima

 

O que se pode esperar de uma obra literária é que ela provoque, no mínimo, o estranhamento no leitor, arrancando-o do automatismo da vida ordinária. O leitor que se aventurar na leitura de ‘Notas de Pensamentos Incomuns’, de Anderson Fonseca (Editora Multifoco, 2011), será, com certeza, tocado por esse estranhamento. O livro é composto de minicontos, sem título, e quase sempre narrados em primeira pessoa, ou fragmentos que se articulam como se fizessem parte de uma única história, mas que, ao mesmo tempo, mantêm uma independência em relação ao todo. E esse já é um dado do estranhamento que o livro provoca, pois, ao final, sabemos tratar-se de uma obra cuja tessitura só se completa com a junção de todos esses fragmentos aparentemente autônomos.

E o estranhamento se aprofunda com a presença dos seres minúsculos, bizarros, fantásticos, que povoam o universo ficcional criado por Anderson Fonseca. Tamagotchi, Delírios, Gloeb, Jhungols, Flopers, Dabie-Dabie e Móbile são alguns dos estranhos personagens com os quais o leitor irá se deparar durante a leitura de ‘Notas de pensamentos incomuns’.

Alguns desses seres minúsculos habitam a cabeça (e às vezes dela brotam) ou outras partes do corpo de um quase sempre atormentado narrador-personagem. É o caso de Apple, um “bichano muito interessante, redondo, peludo, amarelo e saboroso” que um dia escapa da cabeça do narrador-personagem: “E para que eu não me esqueça do propósito inevitável da vida, evoluir, Apple agarra-se a certas partes do meu corpo iconoclastas da evolução humana: uma hora está numa das pernas, outra na nuca para que me lembre da coluna vertebral, e noutra sobre a cabeça” (pág. 51). Às vezes esse processo de coabitação é mais radical, e o ser intruso penetra o corpo do narrador-personagem ou interfere na sua capacidade de articular o pensamento. Imagine uma mosca que pousa certo dia na mão do sujeito e, depois de algum tempo, já se encontra morando embaixo da sua pele. Ou seja, ele se torna o seu hospedeiro. Noutro miniconto, uma bactéria começa a interferir nos pensamentos do narrador-personagem. Diz ele: “Faz um tempo que meus pensamentos estão sob a regência de uma bactéria” (pág.85). E para que o leitor não ache que isso seja inverossímil, improvável, o narrador-personagem cita como argumento de apoio a matéria publicada na Scientific American confirmando a existência de uma bactéria capaz de “alterar o estado cognitivo do ser humano”. Mas nem precisava usar esse argumento, pois, desde o início, o leitor terá notado que a narrativa de Anderson Fonseca, nesse ‘Notas de pensamentos incomuns’, dá-se fora dos limites do realismo. O que se vê aí é a mais viva manifestação do fantástico e do absurdo.

E é nesse sentido, dessa forte presença do fantástico e do absurdo, que podemos falar das influências que permeiam essa obra de Anderson Fonseca. É visível o diálogo dessas suas narrativas curtas com a obra de Jorge Luís Borges (estão lá os espelhos que simulam outras realidades ou imagens, os corredores formando labirintos, o espírito de fábula), a de Julio Cortázar (o seres minúsculos e fabulosos lembrando cronópios, famas e esperanças), a de Kafka (a metamorfose, a sujeição do personagem a uma realidade que escapa à sua vontade) e, também, o universo mágico da obra de Escher. Esse, aliás, é citado literalmente numa das narrativas: “É embaraçoso viver numa casa desenhada por Escher, e muito mais embaraçoso saber que ela existe numa folha de papel…” (pág. 73). De tudo isso surge um texto de feições próprias, mas que mantém suas raízes fincadas na tradição que subverte o real.

Mais que qualquer outro mecanismo de forjar realidades, é a imaginação que prevalece nesses textos ficcionais de Anderson Fonseca. É da imaginação do narrador-personagem, do seu pensamento incomum, atormentado, que brotam todas essas notas e todos esses seres e universos perturbadores. E, aqui, o leitor irá se deparar com outro elemento que destoa do normal: o narrador-personagem e o autor fundem-se, aparentemente, numa só pessoa. O autor Anderson Fonseca, à maneira de Borges, se coloca na narrativa. (E os limites entre realidade e fantasia quase que se dissolvem.) Todo esse universo de perturbações e estranhamentos situa-se na sua mente. E diante da sugestão do médico para extirpá-lo (a cura mataria a capacidade criativa do autor), ele escolhe permanecer coabitando com os seres que, muitas das vezes, sugam a sua energia e a sua paz de espírito: “Vendo hoje o meu estado, tenho vontade de esmurrá-lo, lançá-lo para longe dos meus olhos; (…) me apeguei de tal modo a essa pequena criatura inocente, que sacrificá-la seria o mesmo que me destruir”, diz ele sobre Gloeb (pág. 18).  Criador e criatura estão, nesse caso, unidos de maneira indissociável. Criar é, de certa maneira, deixar-se habitar pela existência do ser criado. E o leitor que se aventurou por esses estranhos mundos criados por Anderson Fonseca não escapará ileso: os minúsculos seres que pululam na mente do autor, ou do narrador-personagem, passam a habitar também agora a sua imaginação.

 

(Geraldo Lima nasceu em Planaltina, GO, em 1959. Mora, atualmente, em Sobradinho, DF. É professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, escritor e dramaturgo. Já publicou seis livros, entre eles: A noite dos vagalumes (contos, Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária, FCDF), UM (romance, LGE Editora/FAC) e Tesselário (minicontos, Selo 3×4, Editora Multifoco). É colunista dos sites: O BULE, Dona Zica tá braba e Portal EntretextosColabora com o Jornal Opção, em Goiânia, o Jornal de Sobradinho e a Revista TriploV. Contato: gera.lima@brturbo.com.br)