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132ª Leva - 04/2019 Gramofone

Gramofone

Por Wilfredo Lessa Jr.

 

KANYE WEST – JESUS IS KING

 

 

Kanye West é o mais importante artista para compreender o nosso tempo, uma controvérsia ambulante, o supremo idiota, gênio multimídia, trendsetter supreme, traíra, tudo ao mesmo tempo. Ye é o hip hop (dividido entre ativismo e o bling), é  o “palmiteiro mor” que pegou a Kardashian  da sex tape e casou. É o cara que pulou de Nike para Adidas e criou a percepção da Sneaker Culture pro mainstream. Sem ele não haveria Drake  e dezenas de outros. O rapper não gangsta que dividiu um disco com Jay Z e o traiu, o homem negro que admite seus problemas mentais, que chora em praça pública, que se diz Deus e põe o boné do Trump. Judas, Exu e Hermes ao mesmo tempo. Kanye é o troll  do século.

No meio de mais uma reinvenção, ele volta à sua Chicago natal e começa a fazer missas cantadas nas igrejas locais. Cercado de ótimos músicos e um coral, vai  de  Gospel (raiz da música negra americana, fonte de Aretha e Sly, entre tantos outros), atitude recebida com cinismo e desconfiança por parte dos  fãs e críticos (me incluo aqui). Resisti a ouvir Jesus is King, mas a curiosidade venceu o ranço e o disco é tão gostoso, tão… pop que tocaria em qualquer lugarzinho “muderno” sem que se note sua temática, afinal, gospel por aqui soa chato e careta.

 

Foto: : Kevin Winter

 

O álbum abre com “Every Hour”, a faixa mais típica do Gospel, uma “abertura de terreiro” com o coral e a vibe da Igreja negra dos Blues brothers, faixa curta e que te coloca no mindset das intenções do disco. Em seguida, temos “Selah”, com seu órgão, e onde Kanye começa seu sermão com a frase “… God is king, we the soldiers…”, evocando grandeza e a beleza clássica. Quando o coral entra nos “Aleluia! Aleluia!”, esperei o beat dropar e a gente cair num house. Mas ele vai de colagem e deixa esse crescendo tomar conta, faixa poderosa.

Em “Follow God”, um rap com um flow estrito e direto, daqueles pra tocar no carro ou no fone saindo para a batalha, daqueles que movem o peão.  “Closed on sunday”, canção leve com cordas, baixo pesado e aquela sensação de oitenticidade que Ye capta desde faixas como “Get by”, que ele produziu para Talib Kweli, citando o Chick a Filet, rede fast food de donos evangélicos (polêmica calculada), na qual o tema é  o amor e a família. “On God” é mais uma faixa altamente influenciada pelos 80 com seu tecladinho fazendo uma base e bateria eletrônica, caberia no Arcade Fire fácil.

“Everything we need” (com Ty Dolla $ign e  Ant Clemons), outro rap com lindos vocais de Clemons e  Ty, é curtinha (uma característica do disco, que foge da estrutura do Gospel e se integra ao déficit de atenção do nosso ambiente hiperconectado), tem batida trap e uma mensagem de gratidão. Em “Water” (com Ant Clemons), Kanye se utiliza da imagem da água, tanto como símbolo da uma pureza batismal, como da nossa busca com o cloro (elemento externo) por essa mesma pureza, faixa que evoca  e reafirma o disco como pop fundamentalmente. Por sua vez, “God is” remete ao início do disco, a canção é um soul puro, soa como  “Crazy” do Gnarls Barkeley, podia ser cantada pela Amy Winehouse e tocada pelo Dap kings, básica e focada na emoção tosca da voz de Ye.

 

Foto: Rich Fury

 

Em “Hands On”, voltamos ao ano de 2019, com o vocoder e Ye soltando os versos calmamente, indiciando os supostos “cristãos” que julgam primeiro. Mas na suave, claro. Na canção “Use this Gospel”, Ye reforma os mesmos teclados e convenções do seu último disco, com Pusha T tacando os versos com força em contraste com o minimalismo. É “Jesus is Lord” que fecha o disco numa coda imensa, hora dos abraços.

Gospel é Bob Marley, Bob Dylan (fase linda) e Take 6. Kanye traz o gênero pro século 21, explorando os temas que já trabalhava desde seu disco passado (insegurança emocional, solidão no sucesso etc.) e resolve seus medos tão nossos, com uma simples fórmula: Louvor + Humildade = terapia.

Não sei se essa fórmula funciona, se é um golpe de pastor, mas sei que funciona nos ouvidos e que o Papa é pop…

 

 

 

 

Wilfredo Lessa Jr. é professor de inglês que nunca morou fora, músico que não toca instrumento e intelectual que não se formou. Diz ele. Membro inativo do P3 (projeto 3), Infected Minds e Irmandade Arcana. Também se finge de escritor para poder falar de livro com gente que é.

 

 

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131ª Leva - 03/2019 Gramofone

Gramofone

Por Pérola Mathias

 

NOMADE ORQUESTRA – VOX POPULI

A Nomade Orquestra chega ao terceiro disco mais entrosada, mais pop e mais coesa, seguindo uma linha ascendente desde seu primeiro álbum de 2014. Sem perder a proposta de mistura de ritmos e estilos musicais que vão do jazz, do fusion, do groove, do hip hop ao afro beat e à música brasileira, Vox Populi, lançado em maio passado, traz ainda um novo e importante elemento: o canto. Por cima de bases instrumentais criadas coletivamente pela big band do ABC paulista, os convidados Edgar, Juçara Marçal, Siba e Russo Passapusso colocaram seus versos e adicionaram sua personalidade às faixas.

Cada convidado está à frente de duas faixas. Aberto por “Ocidentes Acontecem”, com o rapper de Guarulhos Edgar, Vox Populi consolida a longa parceria do grupo com o artista. Edgar participa e performa em vários dos shows da Nomade. E parte da banda também acompanhava Edgar em seus shows antes dele lançar seu disco Ultrassom (2018). Como é típico nas letras e no estilo de Edgar, “Ocidentes Acontecem” e “Constante Mesmice” profetizam verdades relativas, porém suficientemente incômodas e provocativas. Nas músicas, Edgar aponta as doenças da mente, do corpo e da alma que pairam sobre nossa sociedade cada dia mais caótica.

 

Nomade Orquestra / Foto: divulgação

 

O segundo convidado a aparecer no disco é o baiano Russo Passapusso, front man do fenômeno Baiana System. Em “Agente Russo” o baiano faz um trocadilho com o próprio nome para construir a ideia dos versos que canta. Mais otimista que Edgar e pregando o amor e a união como resistência, diz: “eu não troco a luta pra viver no tronco […] câmbio, câmbio, streets, xangô”. Além do ritmo acelerado e suingado, marcado pelos solos do naipe de metais e pela percussão, a faixa é um alívio para as cabeças com febre por causa de séries como Stranger Things, que retoma de maneira superamericanizada o período da guerra fria, e por causa do fascismo político no Brasil atual. “Plena Magia” reforça essa ideia, mas com um ritmo mais calmo e que poderia ser uma balada se fosse mais lento. Sua letra diz: “alegria e resistência: esse é o nosso lema”.

Em contraponto às frases que remetem ao momento político de agora, que estão na boca dos militantes e estampadas em suas camisetas, as faixas de Juçara Marçal e Siba mostram a força da tradição, que é por si só resistência. “Eró Iroko”, saudação a Exu, traz a voz potente e ancestral de Juçara acompanhada pela banda, em que a flauta de madeira tocada por André Calixto se sobressai. Em “Temporada de caça”, talvez a faixa mais longa do disco, Siba canta versos encantados e cheios de sabedoria sobre o mundo, como é comum em suas letras, e faz combinar sua rabeca com o som tirado pelos onze músicos que compõem a Nomade Orquestra.

Cada faixa parece deixar um dos instrumentos da Nomade mais evidente. Ora o sopro, ora o teclado de Marcos Maurício, ora a guitarra de Luiz Galvão, que nunca se perde em meio a tantos instrumentos, ora a percussão. Com Vox Populi, a Nomade Orquestra mostra que vem consolidado uma obra que se sustenta com qualidade, pesquisa e invenção.

 

 

 

Pérola Mathias é doutoranda em sociologia, pesquisadora e crítica musical. Editora da revista Polivox e do site Poro Aberto.

 

 

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130ª Leva - 02/2019 Gramofone

Gramofone

Por Wilfredo Lessa Jr.

 

THE CHEMICAL BROTHERS – NO GEOGRAPHY

 

 

A palavra “nostalgia” tem a sua origem no grego “NOSTOS”, “volta para casa”, acrescido ao vocábulo “ALGOS”, que por sua vez significa “dor”. Na Grécia Antiga, a palavra designava a dor que atingia aqueles que realizavam longas viagens.

Atualmente, entende-se por nostalgia “o estado de profunda tristeza causado pela falta de alguma coisa”. Essa definição encapsula minha relação com a música eletrônica produzida nos 90. The Chemical Brothers lançou Dig your own hole em 1997, eu tinha 23 com cabeça de 19 e o futuro era ditado pela Inglaterra, não mais no senso de um império econômico, mas na ponta da inovação musical. Jungle, Trance, Trip Hop e a cultura rave (Peace, love and unity, novas drogas, piercings na sobrancelha e noites sem fim) apontavam para um futuro hippie cínico, movido por fora do establishment que seria muito mais inclusivo, uma revolução sem violência, em que as individualidades eram respeitadas e os beats surpreendentes. Toda “dance music” fora desse escopo era “poperô” (uma brincadeira cruel com os versos de “Pump it up” do Technotronic), o velho, o chato e passado como a danceteria de anos antes. O Chemical tinha os melhores clipes, que aludiam às sensações de consumo de ecstasy, cheios de referências e com gente linda vestida para ditar um padrão estético que significava inconformismo e fofura (muito Adidas e temas infantis). A internet engatinhava no Brasil, mas o ICQ já era febre do povinho e o senso de globalismo batia em nossas portas. Tudo prometia.

Claro que tudo mudou, melhorou muito, piorou muito e 2019 tem cara de retrocesso para quem ama liberdade nessas plagas. Nesse roteiro, me senti intensamente interessado em descobrir se o novo álbum do The Chemical Brothers, No geography, seria capaz de achar minha rave de 97 ou propor uma nova.

 

O duo The Chemical Brothers / Foto: divulgação

 

O disco abre com “Eve of destruction”. A faixa tem vocais femininos modulados e robóticos e uma sensação retrô, mas não aquela de 1997, mas de 1992, a la Change on me de Cynthia. Poperô roots, ao menos a transição para a segunda faixa, “Bango”, é feita numa colagem que parece uma das famosas mega mix da rádio Manchete RJ (salve, Dj Lúcio!). O breakbeat de “Bango” é puro desperdício, mais uma colagem, e entramos em “No geography” com uma voz masculina coberta em phaser que avisa que se quisermos deixar tudo para trás, eles no levam. Com esse som tocando no carro de fuga, eu prefiro ir sozinho. Faixa autoindulgente e sem nenhuma surpresa, me vi na esteira da academia. Chega “Got to keep on”, que me lembra “Get Lucky”, do Daft Punk, pelo beat e vocais baseados em disco, mas sem nenhum brilho próprio. A rave vai cada vez mais ficando com cara de poperô de festa de debutante.

“Gravity Drops” acontece trazendo electro em beat sincopado que tem um clima de doce batendo e graves profundos. Ainda não dá para esquecer o início frau, mas já abre um pouco a mente. Peço que São Keith Flint nos traga melhores faixas daqui para frente. Sou prontamente atendido por “The Universe sent me” na voz de Aurora (cantora Norueguesa), e uma house com cordas é pontuada por uma mistura de colagens que traz melancolia e tensão num equilíbrio que só a música eletrônica é capaz. A faixa se expande e respira num crescendo doce. Aurora tem razão: “… I cave in”. Agora bateu. Dali andamos para “We’ve Got to try”, que soa como o Crystal Method (duo americano de música eletrônica, sempre considerado uma versão poperô do Chemical), ironia level hard.

“Free yourself” traz Beth Orthon e, apesar de não haver nada de muito novo acontecendo, é o tipo de faixa que o Chemical faz há 20 anos, sessão de power ioga com muito açaí. Dali pulamos para MAH (Mad as Hell), com outras das marcas dos caras, vocal black 70 remodelado para um beat frenético e uma transição para a house europeia, indo e voltando. Funcionaria em qualquer set para o DJ pegar mais uma água. O álbum fecha com “Catch me i’m falling”. Parece algo que David Guetta faria tentando ser o Chemical, com seus vocais cheios de emoções forçadas e de falsa sensibilidade, além do clichê nos beats. Bom, recomendo que você ponha Dig your own Hole de volta na playlist. Foi o que eu fiz.

 

 

Wilfredo Lessa Jr. é professor de inglês que nunca morou fora, músico que não toca instrumento e intelectual que não se formou. Diz ele. Membro inativo do P3 (projeto 3), Infected Minds e Irmandade Arcana. Também se finge de escritor para poder falar de livro com gente que é.

 

 

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129ª Leva - 01/2019 Gramofone

Gramofone II

Por Emanuel Moreno Pinho

 

GAME OVER RIVERSIDE – EMPTY

 

 

“Game over!” e “End game!” são expressões geralmente usadas em jogos eletrônicos para expressar o fim de uma partida. Em alguns casos, em especial nos jogos mais antigos, também significavam o fim de uma determinada fase e começo de um nível mais difícil e superior. Bom, deixando de lado questões geeks, Game Over também constitui o nome de uma promissora banda baiana de indie rock ou pós-grunge (no entender de alguns), hoje muito conhecida no cenário underground soteropolitano, já na estrada há cerca de quinze anos e buscando cada vez mais subir o nível do seu jogo sonoro.

Apresentando alguns trabalhos interessantes desde meados dos anos 2000, tal como a faixa Sadness Online, oriunda de seu álbum de estreia, e, após um hiato de oito anos, a Game Over Riverside (ou GOR, para os íntimos) parece ter retornado querendo mostrar uma sensível evolução na qualidade de seu trabalho nos dois últimos discos. Neles, é inegável a qualidade criativa, firmada em significativo refinamento na produção dos instrumentais e na composição das letras, além de uma boa finalização acústica (a tal pós-produção), características incomuns considerando que os álbuns foram gestados dentro do cenário underground do rock de Salvador, onde tais aspectos não costumam ser muito ressaltados ou sequer são levados em conta pela grande maioria das produções locais (embora haja algumas exceções, obviamente). Tanto Deep Water (2016, Virgo Estúdios) quanto Empty (2017, André Araújo Estúdio) demonstram intenções ambiciosas na busca por uma significativa evolução musical.

 

Game Over Riverside / Foto: divulgação

 

Por ora, vamos nos deter na análise de Empty, em que se ressalta a uniformidade da sonoridade geral obtida pela banda.

Seja em canções mais lentas como Paper flames ou Me and my band, flagramos a mesma integração fluida e precisa dos riffs de guitarra e a mesma aceleração da bateria, que se percebem na faixa-título Empty ou, ainda, em Roswell. Empty é pós-grunge, traz boas variações nas guitarras e um pequeno solo de baixo arrebatador, que se integra perfeitamente ao vocal bem destacado, assim como a pegada rápida da bateria, dando a base desta música que lembra algo da fase inicial do Smashing Pumpkins. Já Roswell é mais grunge e soturna, com algumas incursões mais profundas e ressonantes a darem um clima mais psicodélico, algo que a própria letra já remete com o tema alienígena e a inspiração na ficção científica, e que, de certo modo, faz lembrar Foo Figthers, a grande banda de David Grohl. A faixa God in a Talk Show é, sem dúvida, a mais rocker de todas, sendo basicamente um hardcore, com seu ritmo acelerado contínuo e até mesmo um coro vocal. É de longe a melhor faixa em que se evidenciam as qualidades sonoras já referidas. Se I Can`t Hardly Wait é a música mais arrastada em termos de ritmo, descobrimos nela um grunge muito bem executado com vocais bem furiosos casados a um belo arranjo de bateria. A balada Me and my band é a faixa mais solar de todo álbum, cuja sonoridade lembra muito mais algo do rock alternativo dos anos 80 do que os elementos grunge ou pós-grunge da banda, porém mantendo a mesma identidade sonora das faixas anteriores e tendo um belo e melódico riff de guitarra como fio condutor. A última faixa, Paper planes, é uma balada no estilo de bandas como Stone Temple Pilots e Pearl Jam, algo que se percebe de cara no ritmo e nos riffs das guitarras.

Em outras palavras, o som, faixa a faixa, parece seguir uma unidade harmônica na qual não se observam grandes dissonâncias ou diferenciações nos encaixes das músicas em relação à intensidade obtida em termos instrumentais e na proposta do álbum como um todo, voltada para os gêneros indie, grunge e pós-grunge.

 

Game Over Riverside / Foto: divulgação

 

Tudo isso é mérito de uma experiência apurada em termos de sensibilidade musical, principalmente se considerarmos a formação com três guitarras que, ainda assim, com toda a sua ênfase, não se sobrepõem aos vocais em nenhum momento. Isso é saber o que exatamente se quer em termos musicais. Em especial, dentro de um gênero que convida a se fazer muito barulho e a ser menos virtuose. É na sutileza destes aspectos que se evidencia a larga experiência dos integrantes da GOR: Sergio Moraes (vocal e guitarra), Leko Miranda (guitarra), JJ Oliveira (guitarra), André Gamalho (baixo) e Leonardo Cima (bateria).

Além do capricho das letras, todas bem amarradas, e da consistência da sonoridade de cada faixa, destaca-se o vocal preciso, junto às intervenções das guitarras com seus belos riffs, que não competem entre si, mas formam uma unidade coesa e que se integra ao bom trabalho da cozinha de baixo e bateria. A única coisa que se pode considerar negativa em Empty é o pequeno número de faixas, mas em torno disso fica a questão: Será o fim do Jogo da GOR ou podemos esperar que ela continue a elevar seu nível?

Para ouvir Empty, clique aqui!

Emanuel Moreno Pinho é formado em Filosofia e Geografia, frequenta a cena roqueira da Salvador desde os anos 90 e tem como uma de suas bandas favoritas a Faith No More.

 

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129ª Leva - 01/2019 Destaques Gramofone

Gramofone I

Por Pérola Mathias

 

TUZÉ DE ABREU – CONTRADUZINDO

 

 

Tuzé de Abreu é um daqueles nomes que pouco aparecem na mídia ou citado pela crítica, mas cuja atuação e trajetória costuram uma parte importante da música brasileira dos anos de 1960 até hoje. Ele faz parte de uma geração privilegiada, nos anos iniciais da criação da Escola de Música da Universidade Federal da Bahia pelo reitor Edgar Santos, que levou para ensinar lá mestres da música de vanguarda, como o maestro H. J. Koellreuter. Graduado e mestre em música, foi aprendiz do suíço inventor de sons Walter Smetak, participando da gravação do disco Interregno (1980). Tuzé foi o único músico que vi, até hoje, executar performances com os instrumentos originais de Smetak expostos no Museu Solar Ferrão, em Salvador.  Além disso, é parte da geração de grandes nomes da música popular brasileira nascidos na Bahia: Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Tom Zé, com os quais soma diversos tipos de parcerias, seja tendo suas músicas regravadas ou tocando nos discos.  Tuzé fez parte do grupo Quarto Crescente, com o qual excursionou por diversos países, tocou em grupos de choro, como o de Edson Sete Cordas, grupos de samba de roda e é, até hoje, integrante da Orquestra Sinfônica da UFBA.

Em dezembro de 2018, Tuzé de Abreu lançou seu segundo disco solo, Contraduzindo, pelo Sê-Lo Netlabel. O disco saiu depois de um intervalo de 17 anos em relação ao primeiro, Larrálibus Escumálicos Cujolélibus. Com 15 faixas que mesclam músicas novas e releituras de antigas, o disco foi produzido e arranjado por Gil Camará, que também toca violão de nylon. Contraduzindo traz já no nome a “simples complexidade” sonora e poética de Tuzé, como disse Orlando Pinho.

Tuzé transita pelas diferentes vertentes da música: a erudita, a experimental e a popular, seja ela moderna ou tradicional. Todos os elementos estão presentes em suas composições. Talvez por isso a complexidade dessa sua nova obra esteja colocada logo no título. Se “contradizer” pode ser “afirmar o oposto do que foi dito antes”, – e “traduzir” quer dizer “ser a reprodução”, “a interpretação ou expressão de”, “expressar-se através de” -, “contraduzir” poderia ter, como denominador comum de significado, “expressar o oposto”. É mais profundo do que contradizer. É diferente de não traduzir.

 

Tuzé de Abreu / Foto: arquivo pessoal

 

Na faixa título do disco, a ideia é expressa pelo jogo de apenas dois versos, ora em negativa, ora afirmativo, que se combinam em contraposição ou se sobrepondo: “Eu tenho medo / Significa eu não tenho medo / Eu não tenho medo / Significa eu tenho medo / Eu tenho medo / Significa eu tenho medo / Eu não tenho medo / Significa não tenho medo”. As frases são cantadas por Tuzé e vão crescendo até que um coro assume a faixa que explora a percussão e o sopro, encerradas pelo ritmo característico das palmas que marcam o samba de roda da Bahia.

O jogo de contrários dos versos de Contraduzindo convivem, no disco, com reflexões sobre questões mais profundas da existência. Como a religiosidade presente em “Totem”, uma adoração a Oxóssi. Em “Imensidão”, busca aquele lugar que não alcançamos, o “mistério” que se esconde na “imensidão do eu”. Eu ou o Nós, que existe apenas no presente: junção de vida e morte. Tuzé canta em “Presente”: “o passado é imenso / o futuro infinito”, entoando as vogais dos adjetivos de forma estendida. Sobrepõe a eles os versos: “E nós? E nós? E nós? Nascendo e morrendo / Nascendo e morrendo / Nascendo e morrendo”.

Diferente de Larrálibus, que somava participações das cantoras Jussara Silveira e Gal Costa, Contraduzindo traz apenas a voz do próprio Tuzé na maioria das faixas cantadas. No entanto, em ambos os discos, a impressão é a de que Tuzé vai nos envolvendo em suas canções até que elas se desfaçam e sobre apenas o som, descascado em timbres e cores. Em Contraduzindo, o auge desse movimento se dá em “Suíte Casazul”. Mas depois ele vai retomando aos poucos os fios separados e os enreda.

Talvez pareça estranho que um músico do porte de Tuzé de Abreu tenha apenas dois discos solos, ainda que sua trajetória seja riquíssima. Em uma entrevista ao programa Especial das Seis, da Rádio Educadora de Salvador, em 2015, ele disse que andava descrente do disco, que preferia colocar suas músicas na internet ou dar aos amigos. E agora, em 2019, o público recebe Contraduzindo como presente. Por outro lado, na mesma entrevista, o músico disse que gostava de se concentrar nos ensaios para os shows, deixar os números super bem ensaiados para dar margem às experimentações ao vivo, desconstruindo, assim, o formato da performance.

Tuzé é nossa história viva e acaba de lançar, no auge de seus 70 anos, um dos discos mais inventivos e melódicos da atualidade.

 


 

Pérola Mathias é doutoranda em sociologia, pesquisadora e crítica musical. Editora da revista Polivox e do site Poro Aberto.

 

 

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127ª Leva - 05/2018 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

LUEDJI LUNA – UM CORPO NO MUNDO

 

 

Qual é o nosso verdadeiro lugar no mundo? Certamente somos seres capazes de refletir sobre nossa própria condição em meio a tantas demandas e atravessamentos cotidianos. O fato é que temos essa possibilidade nas mãos, mas nem sempre o fazemos de modo a compreendermos quem realmente somos no complexo jogo da vida. Quando tal conexão com a realidade é negligenciada ou perdida, estamos distantes de nós mesmos e dos laços que podemos estabelecer com nossos semelhantes, sobretudo no que toca ao entendimento das diferenças.

De algum modo, nosso corpo é um instrumento de afirmação do ser/estar no mundo. E não há como fugir disso. Podemos ser o todo orgânico que, aliando mente, alma e fenótipo, se projeta ao ambiente universal das experiências sociais proferindo mensagens que intentam demarcar o território inalienável de nossa identidade. Diante do que falamos e executamos, temos potência quando alçamos nossas ideias em meio ao vento que dispersa vozes, este senhor que carrega as mensagens de um lado a outro das relações humanas, antevendo reações ou sendo tomado pelas surpresas de quem acolhe ou até mesmo rechaça os sinais emitidos. Paira sobre nós a noção de que falamos não apenas para nós mesmos e, a todo tempo, o exercício da compreensão da alteridade se impõe como desafio permanente.

Diante da vastidão de cenários que a vida nos apresenta, pode ser que não nos encaixemos em nada que signifique reduzir a níveis rasos demais nossa inteligência e coração. Ninguém passa impune pela vida em se tratando de mostrar sua face verdadeira. No esteio da voz que clama por se apresentar desnuda, haveremos de encontrar amparo em alguém como Luedji Luna, artista que nos provoca a repensar a responsabilidade que temos diante dos caminhos que escolhemos, frente a frente com o Outro que nos apresenta o vigor da diferença, ritmo pulsante de individualidades que nem sempre se conciliam naturalmente.

Parece ser cada vez mais necessário que alguém venha a nos lembrar que existir é colocar sempre em voga o entendimento de nossa trajetória, principalmente o que desejamos profundamente para nós mesmos e para os outros. Diante disso, temos algo em mãos, o primeiro disco de uma cantora e compositora baiana cuja trajetória é deveras promissora. Um Corpo no Mundo, eis o nome de batismo que, apenas sendo pronunciado, já é capaz de sugerir uma miríade de possibilidades. E a canção homônima ao título do álbum é uma preciosidade a definir o espírito do trabalho. Fala de ancestralidade, do lugar do sujeito no mundo, da condição de quem toma posse da própria existência sob a égide de uma marcante herança cultural. O indivíduo que fala por si, constrói suas rotas, afirma seus caminhos, seu rosto, mesmo que não queiram alguns, mesmo que outros se oponham e insistam em restringir a liberdade de quem deseja transitar pela vida sendo o que se é. Um corpo sem amarras. “Je suis ici”, canta Luedji num sonoro marco presencial de quem, lutando contra as negativas e contra a invisibilidade, insiste em dizer que está aqui. “Je suis ici, ainda que não queiram não/Je suis ici, ainda que eu não queira mais”. É o ser também dizendo que quem pode até mesmo determinar o seu não lugar no mundo é ele próprio, e mais ninguém.

Ao adentrarmos pelas faixas do disco, notamos que fica extremamente difícil eleger algo que seja um destaque isolado e, portanto, superior às demais escutas. Tudo demonstra se encaixar numa proposta que concilia os imperativos da lucidez com as vivências de uma contemplação leve e capaz de escutar o coração sem denotar mais do mesmo.

 

Luedji LunaFoto : Danilo Sorrino

 

Banho de Folhas é uma dessas canções que tomamos como bastante representativa no que se refere a mostrar quais referências são caras ao álbum. A busca pelo Outro em meio à cidade que esconde rostos diversos na multidão vem luxuosamente contemplada pela força mística dos ritos africanos que purificam e protegem os caminhos da procura.  Em Asas, vigora uma presença poética do vento, daquele que aponta rotas para quem se permite. A canção funciona como uma espécie de prece para que tudo se ordene por dentro. Mesmo advindo tempestades, há possíveis renovações, acalmando sentimentos, engendrando bons presságios.

Noutra porção do disco, mais precisamente em Iodo, Luedji deixa aflorar a consciência de um corpo político que se projeta em meio às intempéries cotidianas assomadas pelo desrespeito às mulheres, marcantemente as negras, pobres e homossexuais. Nela, há o clamor e o espanto que se insurge contra o rolo compressor de uma barbárie teimosamente cotidiana e naturalizada, aquela que violentamente nega a humanidade plena do Outro. “Eu sei ser/Trovão/E nada/Me desfaz”, arremata a voz que não se subalterniza.

“Quem vai pagar a conta?/Quem vai contar os corpos?/Quem vai catar os cacos dos corações?/Quem vai apagar as recordações?”, entoa Luedji em Cabô, diante do dizimar de um povo que se materializa em estatísticas. São questionamentos que nos provocam e assombram. E o cinismo com o qual temas como a violência contra o pobre e o negro são tratados atualmente aparece travestido no perene e tão danoso costume de relativização dos fatos.

Dentro Ali é uma forma sublime de falar de amor, sem incorrer nas obviedades do sentimento. Predominam nela gestos simples que reformulam a rotina da vida, equilibrando fardos e depositando esperanças no desejo mais sincero e puro de que uma leveza consolide sua morada em meio aos dias. Ao mesmo tempo, a vontade aqui presente é a de compartilhar a vida com o Outro com menos peso possível. Já Notícias de Salvador vem com a referência das memórias, duma ancestralidade que remonta a afetos e que impulsiona para os dias futuros. “Essa é a sina de nós todos/Janta, sobremesa, guerras e acordos de paz/ Plantar, regar, colher/Monossílabos de agouro, infernos astrais”, diz a canção conformando um espaço de ação diante das dificuldades da vida com o aconselhamento maternal que nos impele a atar os nós.

Um Corpo no Mundo é um belo começo de caminhada. Valioso por demais sob a ótica do discurso ali contido, mas também pelos elementos rítmicos e percussivos que delineiam seus arranjos. Não há melhor forma de se mostrar ao mundo do que falar de si, suas crenças, esperanças, do seu entorno e do que está além dele. Não há nada de mais verdadeiro do que mencionar que se é beleza e dor ao mesmo tempo. Lembraremos sempre de Luedji Luna a partir de agora.

 

 

Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e, atualmente, mestrando em Letras pela UESC, aliando Literatura, Comunicação e Cultura. 

 

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126ª Leva - 04/2018 Gramofone

Gramofone

Por Pérola Mathias

 

MICROARQUITETURAS – RAFAEL MACEDO & PULANDO O VITRÔ

 

 

“Vou repetir quando for necessário / deixo as vanguardas pra todos vocês” é uma das frases poéticas e provocativas que permeiam o disco “microarquiteturas”, dos mineiros Rafael Macedo e Pulando o Vitrô, lançado no último mês de junho pela gravadora Roncinante, do poeta e músico carioca Sylvio Fraga.  O verso que abre a faixa Moeda é revelador em muitos sentidos e sintetiza um pouco do que parece ser esse disco no contexto da música atual: ao mesmo tempo em que não dá a mínima para qualquer tipo de receita mercadológica ou fórmula popular, também não busca o hermetismo acadêmico. Promove um trânsito entre linguagens e sonoridades, ritmos e tradições, respeitando apenas a criação, a invenção e uma questão muito própria.

“microarquiteturas” é um disco que começou a ser gestado há mais de dez anos. Teve como matéria prima principalmente as harmonias e melodias criadas no violão e nas letras, sobre as quais Rafael Macedo trabalhou e acrescentou os demais instrumentos e as vozes. Seus principais parceiros no disco são Bernardo Caldeira e Rafael Pimenta.

O disco é composto de 11 faixas que têm formatos e durações bem diferentes, que vão dos 2 minutos aos 9 minutos. Suas músicas, às vezes, parecem mais peças do que canções. Noutras são mais canções do que peças. As camadas de vozes, o texto poético, os recortes de noticiários e as referências explícitas a músicas conhecidas de tempos, lugares e ritmos diferentes parecem construir uma narrativa quebrada, típica dos nossos tempos. Porém, a fluidez das harmonias cria uma unidade dentro desta construção pautada por uma soma de detalhes mínimos – ou, nas palavras de Rafael, “esforços ao redor do mínimo”. Assim o músico justifica o nome do projeto: “o título tem a ver com essa coisa de ir e vir, de ouvir várias vezes a mesma coisa ir se modificando, de decidir se um prato de bateria deve ser colcheia ou semicolcheia porque o clarinete tocará um segundo depois; de decidir se o contrabaixo toca mais à esquerda ou à direita do captador para que a sonoridade ideal seja alcançada. Acredito que por ali esteja o ‘micro’. Já as ‘arquiteturas’ são o resultado, de algum modo, da soma de tudo isso, da estrutura final, onde morarão os ouvidos”.

 

Rafael Macedo & Pulando o Vitrô / Foto : Luiza Palhares

 

Um exemplo é a faixa de Lá, a única inteiramente instrumental do disco, que começou a ser composta em 1999, segundo conta Rafael. A composição que inicialmente tinha 02:40 foi finalizada com 8 minutos na versão gravada. É uma faixa que vai “de uma textura homofônica a uma exploração de texturas polifônicas e heterofônicas”. Aqui a voz não chega a pronunciar nenhuma palavra, apenas emite sons. Segundo o próprio Rafael descreve, ela é um exemplo de sua relação com a ideia de “texto” num sentido amplo: “não há qualquer nota ou qualquer ‘passagem’ instrumental criada sem o desejo de discurso, sem algum tipo de necessidade de narrativa, ainda que inspirada pelo absurdo, como Delírio. Para mim, tudo, instrumentos, vozes e letras são texto, são linguagem e querem comunicar algo em comum ou dialogal entre si, cada instância a seu modo”.

Delírios explora ainda um ponto fundamental: o silêncio. Ele permeia da percussão inicial até o final da música, que termina com uma série de respirações fundas e pausadas. As letras das demais faixas do disco vão construindo, junto com as melodias, uma espécie de micro poéticas do cotidiano em seus versos. Como em Outro retrato, em que Rafael canta cenas do dia a dia – “eu só quero ver tu me dizer / de algum lugar melhor / já cansei de ser peão / quase todo dia vou na padaria ali / tomo uma branquinha” – e no fim vem a voz feminina do disco, que é da atriz e poeta Brisa Marques, que sussurra: “Se for algo, prefiro a voz do imponderável”.

Canto Troncho começa com a narração de um noticiário que é atravessado pela música, enquanto a verborragia dos acontecimentos continua soando. Depois, a voz é cortada e a melodia segue até que o canto entre – “esse canto troncho não inventa o que você quer ser” -, e depois ele volta a ser cortado pelas notícias que correm junto da música. No fim, a voz de Brisa entra pedindo “Calma! Calma! Nosso programa acaba daqui a pouco. Ele é sempre do mesmo tamanho: é o seu desejo”.

 

Rafael Macedo & Pulando o Vitrô / Foto: Luiza Palhares

 

“Quem só come sonho morre amargo”, de Vivi, é outro verso marcante do disco. Já a faixa essa não é (assim mesmo em caixa baixa, como frisa Macedo) começa com a voz de Brisa recitando o verso “Capa: um biombo entre o mundo e o livro” e termina com “Homem: um biombo entre o som e o sentido”. Esta é uma das músicas permeadas por citações. Para o ouvido leigo, de cara identificamos Lua de São Jorge, que acaba por desembocar em Alegria, alegria. É uma trama complexa de referências, colagens e experimentalismos que se referenciam também a compositores distantes da música popular, como Messiaen. Essas referências soam como “samples orgânicos”, unindo diferentes linguagens exploradas ao longo do disco. O próprio Rafael descreve essa teia criada: “é, em resumo, a canção que não quer ser canção, sendo; e que não quer – sabendo que não pode – ser única (com colagens de clássicos da MPB e da música pop norte-americana ou de Debussy, Schönberg, uma “pontinha” de Gershwin e Wagner), sendo, de algum modo, ela própria. É um resumo da angústia e da alegria e desejo de compor e criar por aqui, no espantoso século XXI”.

Além do Pulando o Vitrô, formado por Bernardo Caldeira, Rafael Pimenta e Yuri Vellasco, o time de músicos que acompanha “microarquiteturas” é formado por Alexandre Silva (clarinetes); Francisco César (bandoneon, sax e taça); João Paulo Buchecha (trombone); João Paulo Drumond (percussão) e João Paulo Prazeres (saxofones). No disco participam ainda Alexandre Andrés (flauta); Leonora Weissmann (voz); Micael Pancrácio (guitarra flamenca) e Ricardo Passos (voz); além da voz de Brisa Marques, que participa do disco e dos shows. Brisa e Rafael têm trabalhado juntos em experimentações poéticas desde 2012, quando ele participou da Mostra Cantautores em Belo Horizonte.

No show pensado para o disco, há também a participação de Leandro César, pesquisador da linguagem da performance. O show do disco promete inserir no palco uma lógica teatral e uma apresentação mais concentrada, sem falas ou pausas, mesclando cena e som. Por enquanto, os shows estão acontecendo apenas em Belo Horizonte.

 

 

 

Pérola Mathias é doutoranda em sociologia, pesquisadora e crítica musical. Editora da revista Polivox e do site Poro Aberto.

 

 

 

 

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125ª Leva - 03/2018 Gramofone

Gramofone

Por Saulo Dourado

 

SAMBA DE RODA ESMOLA CANTADA DA LADEIRA DA CADEIA

 

 

“À margem do Paraguaçu, grande rio, grande alma vivente que nasce na Serra do Ouro do Monte do Cocal, desce serpenteando e deságua na Baía de Todos os Santos…”, declama Mateus Aleluia na quarta faixa do disco Samba de Roda – Esmolada Cantada da Ladeira da Cadeia, lançado no fim de maio em Cachoeira. Ele, o belo tincoã, foi o convidado especial deste grupo que começou há 60 anos para pedir, de casa em casa, doações aos festejos em louvor à Santa Cruz e que agradeciam aos generosos com sambas. Hoje, misturando a primeira geração de cantadores com uma nova, a Esmola Cantada reúne os moradores da Ladeira da Cadeia, esta subida em pedras de fogo ao lado da Praça da Câmara Municipal, que vivem com a vista panorâmica da cidade e um convívio de vizinhança de porta, para continuar.

O álbum, todo ao vivo, produzido por Alan Lobo com apoio do Fundo de Cultura da Bahia, tem o primeiro mérito de expressar a energia do samba de roda em forma gravada: os instrumentos de corda delineados com os cavaquinhos fortes, as vozes entre tons de ladainha e de cantos de roda, a “gordura” mesma da música como é e se faz. Afinal, a música de raiz não deve ser registrada apenas enquanto memória e preservação, mas mostrar o ânimo alegre e fazer dançar. Tocar cantigas do Recôncavo como Flor de Laranjeira e Cachoeira e Muritiba dá vontade de arriscar passos com as mãos na cintura. Fazer um disco de samba e não uma compilação de patrimônio é um mérito de direção (Claricio Marques) e de gravação e mixagem (Braulio Passos e Sandro Mascarenhas), que aqui se atinge.

 

Esmola Cantada / Foto: Lavínia Conceição

 

O segundo mérito é a composição. A maioria das faixas é de domínio público, alguns são clássicos como Retrato da Bahia, de Riachão, Maracangalha, de Dorival Caymmi, Quem Samba Fica, de Jamelão e Tião, e outros títulos são de membros atuais do grupo, Na Margem do Paraguaçu, A Viagem e Esmola e Cachoeira. Destaco esta última canção como uma música vivíssima, tão ligada à sua tradição que, mesmo autoral e atual, é como se tivesse sido feita desde sempre no Recôncavo. Um samba gostoso todo refrão. A compositora é Bety, quem também a interpreta, que mostra um talento melódico para se pedir mais. “No samba miudinho, ô pra levantar poeira lá em Cachoeira. Entre na roda de samba da Esmola Cantada de Cachoeira…”.

O terceiro mérito é a presença de Mateus Aleluia, como já foi dito, mas não detalhado. Nas três faixas em que ele se apresenta, a percussão já muda – seja para um tom mais grave, ancestral em Na Margem do Paraguaçu ou acelerado em Raposa e Guará -, e as vozes ganham várias camadas, cujo coro é um lençol sobre o qual a sua voz se movimenta. Com as interpretações de um cancioneiro popular, também em Cantigas de Cosme e Damião, é possível sentir um griô a narrar uma história de bichos e gente, com um segredo por trás.

Com a Ladainha de Abertura (“Nos abra a porta, devoto!”) e a Ladainha de Encerramento (“Senhora dona da casa, é hora da despedida”), entre uma hora e quinze minutos de roda incansável, temos a sensação que também nós fomos visitados. Bateram à nossa porta pedindo um pouco do que temos, com a cruz, a bandeira, as fitas, os chapéus e as saias, e nos agradeceram com música. A casa é vossa. Assim o samba popular prossegue por força própria, e na mesma fonte em rio corrente que toma a Pedra do Cavalo, passando pelo Subaé, é claro, continua-se a alcançar quem chega e a ganhar criação.

 

Saulo Dourado é escritor e professor de Filosofia e vive em Salvador/Ba. Autor dos livros de contos “O Mar e Seus Descontentes” (Via Litterarum) e “O Autor do Leão” (FB Publicações), além de obras infanto-juvenis, escreve para o A Tarde e para portais de literatura.

 

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124ª Leva - 02/2018 Gramofone

Gramofone

Por Pérola Mathias

 

ARRETE – SEMPRE COM A FROTA

 

 

Não faltam mulheres protagonizando uma cena e mudando rumos e paradigmas, seja na música, no mundo da arte, na política ou em qualquer área da vida social. Mas quando estas mulheres chegam a ser vistas e reconhecidas, podemos saber que há uma longa trajetória de luta, afirmação e busca por reconhecimento para que chegassem a ocupar este lugar. É a velha história de que as mulheres precisam estudar, pesquisar, se especializar e falar grosso três vezes mais (no mínimo) do que os homens para serem reconhecidas. Se for mulher e da periferia, então, a questão se aprofunda ainda mais.

A trajetória de Ya Juste, Nina Rodrigues e Weedja Lins, que compõem o grupo de hip hop pernambucano Arrete, não é diferente. Vindas de uma longa estrada de criação e produção no hip hop nordestino, o grupo lançou em 2017 o seu primeiro disco: Sempre com a frota. As MCs estão na estrada desde o começo dos anos 2000, tanto como MCs, quanto como pesquisadoras da cultura popular nordestina e, no caso de Weedja, também como dançarina de break.

O Arrete começou em 2012 e leva o nome do primeiro single que lançaram: “Arrete não”. O single foi divulgado através de um clipe, produzido, gravado, editado e locado pelas próprias Ya, Nina e Weedja na comunidade em que moram, Cajueiro Seco, em Jaboatão do Guararapes, município da região metropolitana do Recife. Esse primeiro single foi um anúncio e uma mostra do tom e da estética do grupo, tanto visual, quanto musical.

 

Arrete / Foto: divulgação

 

O disco veio cinco anos depois, gravado entre 2016 e 2017 e lançado em julho deste último ano com o apoio do Funcultura. Segundo as próprias integrantes do grupo, o processo de criação do disco expressou os anseios delas em relação à música que queriam fazer e à forma como equilibrariam a arte com a vida pessoal – as paixões, a família, a maternidade, as amizades, etc. O álbum agrega composições engavetadas e composições novas, que fizeram com que o trabalho tivesse uma coesão entre a estética e a personalidade de cada uma. O nome do disco é o título de uma das composições de Nina, que é também uma das faixas com o instrumental mais pesado e sóbrio. A letra traz os parâmetros de uma ação e existência ética no mundo: “hip hop incendeia no ritmo e poesia/ na filosofia com a frota sem censura/ então assuma agora/ postura, ideologia/ sem hipocrisia, falsa conduta”.

A faixa que abre o álbum, “Poetizar”, dá o tom da mistura sonora que o disco traz aliado à poesia das meninas. Sons tradicionais da música popular nordestina, como o pandeiro e a viola – que são, inclusive, citados na letra -, aliados à guitarra distorcida, compõem essa abertura em que as MCs se identificam e definem seu lugar de fala:  “Somos versos mais que prosa/ somos todas muito caras/ Esse é o projeto Arrete/ poetiza nordestina com orgulho/ pernambucana da terra de Aruanda /trago as guerreiras de lança”. E ao longo da letra outras muitas referências à cultura regional vão sendo invocadas, costurando as influências que as próprias meninas trazem em sua trajetória artística e de vida, que vão do cenário do manguezal e do canavial à influência de Luiz Gonzaga, “trilha sonora do nosso povo”. E definem: “arquitetas de uma grande e intensa batalha […] seguirei sempre com a frota, com as mais finas rosas e com a mais forte prosa”.

“Arrete não”, o single lançado em 2012, vem no disco com uma batida eletrônica que mescla o brega e o hip hop. Na letra, assim como em “Sempre com a Frota”, que dá nome ao disco, há uma espécie de manifesto: “Queimei as pestanas pra fazer o som do bom/ se tem o dom/ prove e mostre o do bom/ não arrudeie/ com fala solta nesse vento/ se for pra provar/ tem que ser só no talento/ tô com a gota serena/ pra esculhambação […] Ideologia/ o que te falta nessa vida”. A letra é recheada de expressões locais e do sotaque regional.  A expressão que dá nome à faixa já é um exemplo. O verbo “arretar” significa fazer voltar; fazer parar; ou parar o movimento. Mas como expressão quer dizer abusar; irritar; tirar do sério. “Arrete não” seria, assim, algo como “não perturbe”: “Arrete não/que o bonde aqui é bravo”, dizem as meninas. O disco todo é permeado por esse vocabulário idiomático, o que pode dificultar o entendimento de algumas letras para um público não nordestino, mas não impede que o resto do Brasil compreenda, mergulhe e escute essa cultura. É uma forma de fazer conviver, inclusive, a riqueza da linguagem que configura nossa formação cultural dentro de um país continental, que não pode ter uma única imagem para se representar.

Já “Le Plaisir” é uma das composições novas, feitas para o disco. A música fala de amor e o som se aproxima de referências do hip hop brasileiro contemporâneo, como o feito por Tássia Reis, por exemplo, explorando ritmo e balanço mais lentos. A faixa é outra que ganhou clipe com roteiro, direção, fotografia e figurino executado pelas próprias MCs, que convidaram estudantes de dança da Universidade Federal do Pernambuco para fazer dialogar o break com a dança contemporânea. O cenário também foi desenhado por elas mesmas e é composto por diversos objetos que remetem às famílias de cada uma. Como os quadros do pai de Yanaya, que é artista plástico, as madeiras que fazem referência ao avô carpinteiro de Nina e os vinis. O título e os versos em francês também vêm da descendência de Ya. Elas falam que se remetem muito à família no trabalho porque a família foi sempre muito presente para elas no processo artístico.

O ragga aparece nas faixas “Faya” e “Bang Bang”, somando no arco de referências sonoras que o Arrete agrupou neste seu primeiro disco: o brega, o eletrônico, o hip hop, os sons de viola nordestina, pandeiro e de guitarras distorcidas (mescla que outrora havia irrompido no movimento manguebeat) etc.

 

Arrete / Foto: divulgação

 

Todo o instrumental do disco foi feito pelos músicos Riva Le Boss e Felipe Maia, que conseguiram traduzir as influências das integrantes do grupo. Ya diz que gosta muito do ragga, do rock dos anos 70; Nina, de música popular nordestina e de música pernambucana; e Weedja soma com o rap old school, gangsta e também com o brega. No leque de influências contemporâneas, elas citam os conterrâneos Flaira Ferro, Juliano Holanda e Johnny Hooker. Além da nova cena do hip hop brasileiro que, felizmente, agrega cada vez mais mulheres, como Flora Matos, Karol Konká e a já citada Tássia Reis.

Por fim, é preciso destacar que o Arrete reúne em seu projeto todas as linguagens da cultura hip hop, acompanhadas nas batidas pelo DJ Rimas.INC e por dançarinas convidadas.

Com pouco mais de seis meses de disco lançado, o Arrete já fez inúmeros shows em Recife e pelo interior. Ao longo do carnaval foram duas apresentações: no som na rural na Cena Peixinhos e no palco do Rec Beat no domingo, dividindo a programação com Larissa Luz, Lucas Estrela, Don L, Javier Díez-Ena e Dj Flavya. Além das músicas do disco, aproveitaram a ocasião para mostrar um novo single, “Não te quero mais mizéra”, feita pelo DJ Rimas.INC, com produção de Patrick Torquato, que pesquisa e defende a música periférica, empoderamento e combate aos preconceitos em seu trabalho. Assim, na expressão, nas linguagens artísticas que agrega, no vocabulário, nas expressões, no sotaque e no timbre, o Arrete é uma amálgama de valores e postura estética, cultural e política.

 

 

Pérola Mathias é doutoranda em sociologia, pesquisadora e crítica musical. Editora da revista Polivox e do site Poro Aberto.

 

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123ª Leva - 01/2018 Destaques Gramofone

Gramofone

Por Daniela Galdino

 

Rafique Nasser – Arado

 

 

Ventos de dentro, quando nascem e tomam corpo de gente, ignoram contenções. Precisam soprar e dançar nos quintais dos dias, das noites e das madrugadas. Precisam varrer emudecimentos, rodopiar nos terreiros de que somos feitas/os, acordar o chão e lançar nuvens de poeira ocre-vermelho-cobre no mundo.  Esses ventos são abalos necessários que incham de vida a arte e de arte a vida; só têm significância se sentidos por outres também atravessades por dentro (esse espaço ainda nem tanto conhecido) – cada qual ao seu modo de intensidade(s).

Ventos profundos e dançadores têm espalhado para outras paragens o universo sonoro de Rafique Nasser. Nascido e vivido em Valença (território cultural do Baixo Sul Baiano), com seus 19 anos, esse jovem negro do quintal de si dialoga bela e intensamente com o vasto acervo do cancioneiro nordestino setentista: Fagner,  Ednardo, Orquestra Armorial, Ave Sangria, Lula Côrtes e Zé Ramalho manifestados nos poderes do invisível em Paebirú (e tantas outras possibilidades musicais daquela década vibrante). Também Rafique Nasser acolhe em si outras cantorias no que há de mais esperançoso, logo afrontoso: quem sabe um Dércio Marques na sua potência sonhática, por exemplo. Esses sobrevoos de Rafique reverberam aqui e acolá no EP Arado (2017).

Num ano bastante ebulido no cenário musical baiano, Arado, primeiro registro sonoro de Rafique Nasser, ficou entre os dez finalistas na votação de melhor disco de 2017, organizada pelo site El Cabong. Muito bem produzido no interior da Bahia, o EP reúne compositores e músicos de Valença, Ilhéus, Itabuna, Ipiaú, o que me faz pensar num elemento a mais dessa profundeza, desse lado de dentro que é tão saltante em Arado. Não por estar nas indicações do El Cabong esse EP captou a minha atenção. Conheci Arado a partir da indicação virtual feita por um amigo. E confesso: dei o play em casa mesmo, nos trânsitos de afazeres de casulo. Logo na abertura, suspendi as movimentações domésticas e fui colecionando pequenos assustamentos provocados por deliciosas descobertas. Foi primeiramente na interioridade do casulo que fiz o mergulho (novamente o lado de dentro).

 

Rafique Nasser / Foto: arquivo pessoal

 

Fiquei e fico sem poder baixar a guarda da esperança quando me re-inaugurei (e continuo reinaugurando-me a cada nova sessão sonora) ao ouvir o EP de um jovem que, com menos de vinte anos de permanência neste mundo, salta para trás e nos traz um caçuá transbordante em diálogos musicais. Rafique Nasser chega e não vem só. Uma falange de cantadores (os de ontem, os de hoje, todos permanecentes) toma assento e lança focos de incêndio nas nossas profundidades – que resguardam os sonhos, amores, as esperanças políticas. Já na primeira música, manifestado em psicodelias cortantes, Rafique brada e canta com a rouquidão macia de quem muito tem a dizer ao mundo: “Depois da bomba atômica vem/ um cogumelo para nos alimentar” (Rafique Nasser, Na Valença)

“O rasgo na terra é preciso” (Rafique Nasser/Ayam Ubráis, Arado). Diria que certeiro, necessário. Daí brotam os sentidos do novo, dos poderosos frutos teimosamente gestados em tempos tão ameaçadores quanto estes que nos cortam a experiência de existir. E assim é Arado: “esse canto torto”, que fere a inércia e alimenta movimentos de re-existências. Sensivelmente gestado pelas vias da marginalidade e camaradagem artística, esse EP pode ser acessado nas principais plataformas virtuais e vem como intenso chamamento para que a gente, do lado de cá, avie, tome rumo e corra trecho negando a imobilidade que parece ter se transformado no mote do agora que nos é imposto. São cinco canções, cinco chamamentos, cinco desafios/ventos de dentro, cinco intensidades imãtizando as nossas veredas do sensível.

Penso Arado como inauguração do jovem músico Rafique Nasser e também (re)inauguração nossa. Ver Rafique Nascer em poetência sonora é enxergar em nós ovo das esperanças cortantes, é “Deixar que Deus se vingue por nós/ já que o nosso algoz/ está sentado no trono do poder” (Rafique Nasser, Nessa terra). E assim, Rafique, nascido, vai conosco (re-inaugurades) cosendo e colhendo ameaças ao desencanto, dançando em pontas de facas e lançando ao mundo canções cortantes que mantêm “teso o arco da promessa”, como bem diz outro baiano, Caetano Veloso. Com olhar poético e voz dissidente, Rafique Nascer, acompanhado por tantes, é também o que eu chamo de “interrogação vagando com pressa”. Daí a experiência imprescindível de ouvi-lo em Arado.

 

 

Daniela Galdino (BA) é Poeta, Performer e Produtora Cultural. Docente da UNEB. Como Poeta, publicou Espaço Visceral (Editora Segundo Selo, 2018), Inúmera/Innumerous (Mondrongo, 2017), Inúmera (Mondrongo, 2013), Vinte poemas CaleiDORcópicos (Via Litterarum, 2005). Organizou Profundanças 2: antologia literária e fotográfica (Voo Audiovisual, 2017) e Profundanças: antologia literária e fotográfica (Voo Audiovisual, 2014).