Categorias
79ª Leva - 05/2013 Destaques Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes


CLARICE FALCÃO – MONOMANIA


 

 

 

Para a psiquiatria, monomania “é a definição de uma obsessão doentia por uma ideia, objeto ou pessoa”. Em seu álbum de estreia, a atriz, roteirista e compositora Clarice Falcão parece ter apenas uma fixação: a meiguice. Filha do cineasta João Falcão e da escritora Adriana Falcão, esta pernambucana criada no Rio de Janeiro transita desde cedo entre diversas esferas da arte. Aos 23 anos, Clarice já possui um extenso currículo – como atriz e roteirista – na televisão, teatro, cinema e principalmente na internet, onde há pouco mais de um ano e meio começou a postar vídeos de suas canções de voz e violão, somando mais de 10 milhões de visualizações. Aliás, sua primeira composição foi a trilha sonora do curta-metragem Laços (2007), também estrelado por ela, que ganhou o concurso mundial Project: Direct, do YouTube. Parte deste sucesso virtual deve-se ao canal de humor Porta dos Fundos, onde a multifacetada artista escreve e participa ativamente das esquetes, muitas vezes ao lado do namorado Gregório Duvivier, um dos idealizadores do coletivo.

Suas canções de amor – de rimas fáceis e melodias suaves –, repletas de ironia e humor negro, são na verdade pequenas construções narrativas, o que talvez justifique a ausência de refrão da maioria das faixas. Lançado pelo iTunes no final de abril, Monomania não possui gravadora ou formato físico oficial, visto a relação direta que a cantora já estabelece com seu público. Atualmente, o álbum figura entre os mais baixados na Apple Store brasileira e é comercializado, de forma quase artesanal, apenas em suas apresentações ao vivo. Com influências de Magnetic Fields, Kate Nash e Chico Buarque e comparada à atriz e cantora Zooey Deschanel (da dupla She & Him), Clarice soa como um mix da canadense Feist com Mallu Magalhães. O primeiro registro de estúdio da menina de voz doce e canções despretensiosas ganha arranjos mais elaborados do que as versões acústicas disponibilizadas na internet e conta com a consultoria e produção musical da sogra, a cantora Olívia Byington.

“Só pra você saber”, como um mantra, Eu Esqueci Você abre o álbum enumerando as vantagens de superar um amor do passado. Na sequência, a insensata Macaé (e se eu mostrar o cianureto que eu comprei pra gente se matar/você manda me prender no amanhecer?) e Monomania (se juntar cada verso meu e comparar/vai dar pra ver/ tem mais você/que nota dó) elucidam a tal patologia do título. A minimalista Um Só talvez seja uma de suas letras mais inspiradas (o meu desespero/é que quando acaba/você fica inteiro/e eu fico o pó), juntamente com o filmete-dançante Fred Astaire (mas, cuidado/me deixa no canto da sala/que se eu tiver alguma fala/eu mudo pra “amo você”), que ganha também uma versão em inglês no encerramento do álbum. A divertida Talvez (se eu não tivesse um troço/lá dentro da barriga/que eu sinto que está dançando a dança da garrafa) e Qualquer Negócio são sussurradas quase à capela – a última na companhia do violoncelo de Jaques Morelenbaum, que assume o instrumento em outras três faixas do disco.

A segunda metade de Monomania inicia com a balada De Todos os Loucos do Mundo – uma declaração à Duvivier – e fala do encontro de dois seres pra lá de criativos (de todos os loucos do mundo/eu quis você/ porque a sua loucura parece um pouco a minha). A etílica O Que Eu Bebi narra as mágoas amorosas que todos já tentamos afogar (o que eu bebi por você/dá pra encher um navio/e não teve barril/que me fez esquecer), enquanto A Gente Voltou oferece um clima circense à reconciliação do casal da canção (não entra na bad, Romeu/Julieta morreu/mas a gente voltou). O ponto alto do disco fica a cargo do dueto de Clarice com o capixaba SILVA (que também toca violino em algumas faixas) na valsinha Eu Me Lembro, com as impressões masculinas e femininas do primeiro encontro. A deliciosamente mórbida Oitavo Andar, uma de suas letras mais teatrais, (e aí, só nos dois no chão frio/de conchinha bem no meio fio/no asfalto riscados de giz/imagina que cena feliz) reforça toda sua veia literária, bem como a singela Capitão Gancho e sua listagem de coisas que fizeram Clarice ser quem é. Definitivamente, a graça da autora/obra é a simplicidade, doçura e frescor adolescente. Sua audição provoca aquela sensação de riso bobo nos lábios: quando você se dá conta, já está totalmente arrebatado.

 

 

 

 

(Larissa Mendes, falco-monomaníaca)

 

 

 

Categorias
78ª Leva - 04/2013 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

LUIZA BRINA E O LIQUIDIFICADOR – A TOADA VEM É PELO VENTO

 

 

 

A grande metáfora que suscita o valor da impermanência das águas é substancial alimento de muita coisa em matéria de arte. Assim como não é possível banhar-se duas vezes numa mesma porção aquática, muita coisa escapa ao controle dos sentidos num átimo de nossos lampejos pela vida. O que seria de nós se tudo fosse absolutamente fixo em todas as suas formas e proporções? Como curvarmo-nos frente à ciranda viciosa dos determinismos que nos soam muito mais como armadilhas do que qualquer outra coisa?

Desejosa mesmo seria a perenidade de saborearmos o sublime e toda a surpreendente força que brota de sua delicadeza. E quanto a nós, cabe bem entregarmo-nos ao fluxo constante das marés que assinalam o tempo das transformações. Ainda que típicas incertezas se façam companheiras dessa jornada, viver traduz-se por um mergulho atento ao presente.

Tudo principia no mar: eis uma definição especial para o disco de Luiza Brina. Juntamente com a banda O Liquidificador, a artista nos apresenta um álbum repleto de signos os quais evocam as imagens que correm paralelas ao dinamismo das águas. É uma verdadeira viagem pelas dimensões sensíveis tão peculiares aos olhares poéticos sobre a vida. De modo marcantemente autoral, Luiza penetra nas veredas dos dias, visitando os vestígios e povoando de esperanças e serenidade a existência. O resultado aponta para uma reunião de canções que primam pelo lirismo e cujo teor das letras reflete um vigoroso arremate filosófico.

A toada vem é pelo vento é um trabalho feito de arranjos e cuidados melódicos que não passam despercebidos. Há de um tudo no disco, principalmente estilos como o maracatu, salsa e boi, entre outros mais. Sem dúvida alguma, o aporte vocal tanto de Luiza quanto do coro da turma de O Liquidificador tornam as escutas bastante atraentes. A acertada reunião de violoncelo, sopros, percussão e violão constrói um painel que reforça um especial sentido de brasilidade ao disco.

Luiza Brina e O Liquidificador / Foto: Divulgação

Entre as faixas que roubam a cena, está a bela e intensa Catamarã, canção que situa a voz de Luiza numa ambientação precisa e forte. Ali, a letra harmoniza o denso contraste entre mar e sertão, exaltando um equilíbrio possível entre forças que se opõem por natureza. No jogo de palavras, o “tão” do ser explicita as distâncias entre dois mundos supostamente improváveis de conciliação, evocando momentos como na passagem “O meu violão é Dorival / o dele é obrigação”.

Também não há como deixar passar a presença extremamente virtuosa de Back in Bahia, desejoso retorno a uma terra idealizada, e que aqui aparece materializado numa vontade sublime de ouvir o canto de Maria Bethânia.  Diga-se de passagem, o título da música deixa entrever as sensações advindas da homônima composição de Gilberto Gil quando do seu desterro em Londres. No entanto, essa valiosa referência não retira a originalidade da letra escrita pela jovem compositora. Atravessando a canção, eis que um disco de Gil irrompe ao fundo, entrecortado por um liquidificador, retrato de sentimentos misturados, uma alusão a um baú de lembranças, abrigando a procura serena e nostálgica de uma Pasárgada cuja musa é Bethânia. Em meio a isso tudo, a voz de Luiza penetra nos ouvidos como uma espécie de acalanto.

E tudo também se prolonga no mar, esse colossal reservatório de sentimentos, que, aos olhos de muitos, abriga o desejo do infindável. Assim, somos conduzidos pelo balançar de águas. Assim, Luiza Brina e seus companheiros de existência nos relembram os caminhos que vão e vem, exaltando a sede do inominável, esse deus que habita todas as dúvidas.

 

 

 

 

 

Categorias
77ª Leva - 03/2013 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes


SILVA – CLARIDÃO

 


O cantor e compositor capixaba Lúcio [da] Silva Souza – vulgo SILVA, assim mesmo, em maiúsculas – carrega no nome a brasilidade de um som universal. Se à primeira vista, alcunha e letras soam minimalistas, é na riqueza sonora que o músico derrama toda sua eloquência. Com uma formação musical erudita calcada em piano e violino, Lúcio mescla clássico e moderno, pop e experimental, orgânico e sintético. Lançado em outubro pelo selo SLAP (Som Livre), Claridão, seu álbum de estreia, figurou em várias listas de melhores de 2012, o que valeu ao jovem músico de voz suave o prêmio de melhor cantor do ano, concedido pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte). Ainda ano passado, sem mesmo ter gravado o disco, o artista teve a oportunidade de se apresentar no Sónar São PauloFestival Internacional de Música Avançada e New Media Art – em sua segunda edição brasileira. O multi-instrumentista conta com a parceria do irmão e letrista Lucas Silva para compor (sempre em português) os quase-poemas que parecem preencher suas elaboradas notas de MPB de vestes eletrônicas.

Com algumas alterações instrumentais, 5 das 12 faixas de Claridão pertencem ao seu elogiado EP lançado em 2011 e disponibilizado via web, enquanto as inéditas conferem o tom de unidade que talvez faltasse na ocasião. Vale ressaltar que mesmo com o respaldo de uma grande gravadora, o músico não perdeu sua essência caseira, optando por registrar o álbum de forma quase artesanal, revezando-se entre voz, piano, violão, guitarra, violino, percussão, sintetizadores e programação eletrônica. Os vinte e poucos anos e a doçura do rapaz de Vitória contrastam com a segurança impressa em Claridão, fazendo de SILVA nome e sobrenome da autenticidade.

 

SILVA / Foto: divulgação

Se a apocalíptica de batidas modernas 2012 abre o álbum sugerindo o otimismo do artista diante do caos (gosto mesmo do incerto/pode ser belo o feio visto de perto/o avesso às vezes dá certo), a ritmada Falando Sério reitera sua ambivalência (não curto o tédio/mas ele é tão “cute” em você). A eletro-erudita Cansei, possivelmente uma das melhores canções, dita a tônica mais poética do álbum, juntamente com as intimistas Ventania e Posso. Aliás, certa melancolia – pontual ao longo de quase todas as faixas – está presente também na atmosfera etérea de Mais Cedo, que fecha a primeira metade do álbum. Enquanto a dançante Claridão, que intitula o disco, possui elementos de uma espécie de drum’n’bass oriental, em determinado ponto o instrumental folclórico de 12 de Maio lembra os americanos do Beirut. Acidental e Imergir, ambas integrantes do EP do cantor, possuem um tom mais delicado e um lirismo peculiar. A graciosa e penúltima faixa Moletom (não quis o frio de só te ver/agasalho é ter você) parece aquecer o ouvinte tal qual o tecido da canção. Com som de cantiga de ninar ao violino e ukulele, a bela A Visita, composta ainda em sua passagem de estudos pela Europa, encerra Claridão de forma mais orgânica e alegre, demonstrando toda a versatilidade do artista.

Comparado ao britânico James Blake e aposta entre os nomes da nova geração, talvez a dificuldade de se rotular a sonoridade de SILVA seja proporcional à quantidade de referências acumuladas pelo músico, que, apesar da formação e refinamento melódico, nunca pretendeu soar elitista. Seria redundância (e exagero) afirmar que Claridão é um lampejo de criatividade no atual cenário musical brasileiro?

 

 

 

 

 

(Larissa Mendes carrega no DNA o silva de qualquer brasileiro que se deixa ofuscar pela boa música)

 

 

 

 

Categorias
76ª Leva - 02/2013 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

OTTO – THE MOON 1111

Segundo místicos, o “Portal 11:11” foi aberto em 11/01/1992 e teve seu ciclo por um período de 20 anos. Concebido como uma lacuna ou ruptura entre dois mundos, este portal energético estaria ligado ao conceito de sincronicidade, de Jung. Entusiasta de tal filosofia cabalística a qual tem como preceito a coincidência desta combinação numérica (principalmente em relógios digitais), o compositor pernambucano Otto – que possui inclusive uma tatuagem dos dígitos nos dedos – lançou no final de outubro (o álbum chegou às lojas mais precisamente em 11/11) seu mais novo registro de estúdio. Cercado de simbolismos, definitivamente The Moon 1111 é um disco conceitual. Influenciado pelo “bombeiro incinerador de livros” Guy Montag, protagonista do filme Fahrenheit 451 (1966), do cineasta francês François Truffaut, o quinto álbum solo do artista mescla música [pop]ular brasileira com a psicodelia de The Dark Side of the Moon (1973), do Pink Floyd e o afrobeat de Fela Kuti, músico nigeriano que Criolo nos ordenou escutar em Mariô.

Com uma discografia que transita por diversos estilos, do eletrônico à MPB, do manguebeat ao romântico, a verdade é que Otto sempre foi um transgressor de ritmos (não à toa a banda que o projetou como percussionista atende pelo nome de Mundo Livre S/A), que o digam Samba Pra Burro (1998), Condom Black (2001), Sem Gravidade (2003) e Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos (2009). Ancorado pelos músicos Fernando Catatau (Cidadão Instigado), Dengue e Pupillo (Nação Zumbi), que assumem respectivamente guitarra, baixo e bateria e a co-autoria em diversas canções, o álbum tem a produção também assinada pelo baterista da Nação e conta ainda com a participação do multifacetado Kassin. Figurando em várias listas de melhores discos de 2012, The Moon 1111 não tem analogia imediata com nenhum de seus trabalhos anteriores (seria cada álbum o fechamento de um pequeno ciclo?) e, apesar do título lunar é, até então, sua obra mais ensolarada. Gravado entre Peixinhos e São Paulo, o álbum mescla sonoridades orgânicas e experimentais, num paralelo entre a periferia afro (“qualquer favela carrega a África”, disse certa vez o cantor) do Recife e a cosmopolita terra da garoa.

Nos primeiros acordes de Dia Claro, canção que abre The Moon 1111, um Otto que parece saído da Jovem Guarda lamenta em off: ‘e pensar que sonhar era só viver/e pensar que amar era só se perder’, para logo desembocar num grito de libertação (era um sofrimento, um tormento, um sentimento que acabou!). A regravação de A Noite Mais Linda do Mundo – autoria de Donizete e famosa na voz de Odair José nos anos 70 – mantém a tônica piegas que permeia todo coração apaixonado. O primeiro single do álbum, a radiofônica Ela Falava – tecnopop oitentista que traz nos vocais a discreta participação da atriz Tainá Muller – parece evocar lembranças peculiares desse tal amor não-linear documentado no álbum. Na sequência, o candomblé eletrônico Exu Parade brinca com a sonoridade do título e eterniza o bordão populesco ‘chupa que é de uva’, presente na música homônima da banda Aviões do Forró. The Moon 1111, faixa que dá nome à obra, tem um groove regional que já acompanhava o músico em seu elogiado disco anterior.

A segunda metade do álbum traz Selvagens Olhos, Nego!, homenagem ao rapper paulista Sabotage, morto em 2003. Composta há quase 10 anos, a canção conta com os vocais da jovem cantora paraense Luê Soares nos belos versos ‘a vida bate calada, desafogada, bota pra valer/ensaiou o ano inteiro e por derradeiro, escorreu pelas mãos, entre os dedos’. Se HDeus flerta com uma espécie de disco rígido divino em clima psicodélico, Miss Apple e Zé Pilantra tem batuque e refrão incisivos (na vida tudo clareia/na vida tudo se apaga). Talvez a mais bela canção fique a cargo das cordas de O Que Dirá O Mundo, inspirada parceria com Lirinha (extinto Cordel do Fogo Encantado), onde declara: ‘eu divido contigo minha angústia e o meu pão’. A ousada DP (gíria para dupla penetração) encerra o álbum celebrando o erotismo. Ao mesmo tempo em que Otto visita uma estética retrô-futurista, as 10 faixas de The Moon 1111 confirmam sua singularidade artística e apontam para “um novo começo de era”, onde todo aparente cenário caótico é transformador e revolucionário.  Se ‘o melhor da vida é quando a vida se acaba’, não podemos dizer o mesmo sobre o álbum.  Bora lá decorar o conteúdo desta obra.

 

 

 

 

(Larissa Mendes é dona de ouvidos lusco-fuscos e tem na Diversos Afins seu portal particular)

 

 

 

Categorias
75ª Leva - 01/2013 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

ORQUESTRA IMPERIAL – FAZENDO AS PAZES COM O SWING

 

 

Se no começo da década passada Los Hermanos e seu Bloco do Eu Sozinho indagavam Cadê Teu Suín-?, quase num poema concretista, 11 anos depois a Orquestra Imperial – coletivo de músicos nada solitários radicados no Rio de Janeiro – parece responder: aqui está! Lançado em outubro pela Universal, Fazendo As Pazes Com O Swing celebra os 10 anos da big band e é dedicado a Nelson Jacobina, integrante do grupo desde sua fundação, morto em decorrência de um câncer poucos meses antes do disco ser finalizado. Não por acaso, uma espécie de Jacobina-Frehley verde-amarelo – que apesar da enfermidade participou ativamente como compositor, instrumentista e/ou arranjador em todas as faixas – estampa a capa do disco numa tônica da sempre aflorada brasilidade e irreverência da banda.

Formada pela vanguarda da cena musical atual e composta por mais de 20 nomes – entre eles, Wilson das Neves, Domenico Lancellotti, Moreno Veloso, Rodrigo Amarante, Rubinho Jacobina, Kassin, Duani Martins, Thalma de Freitas e Nina Becker, para citar alguns – e com apresentações ao vivo repletas de convidados especiais do porte de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Jards Macalé, a Orquestra Imperial definia-se no início como um grupo de amigos dispostos a formar uma banda de gafieira descompromissada, que interpretasse boleros, marchinhas e clássicos de salão com novos arranjos. Dez anos se passaram e a definição foi atualizada (e sintetizada) para “jardim de infância para adultos”, tamanho o clima de alegria e diversão entre os integrantes, que fazem do grupo seu projeto paralelo-central.

Há muito tempo os bailes pré-carnavalescos da Orquestra Imperial movimentam os verões cariocas, desfilando em shows Brasil afora e em diversos festivais internacionais. Além de homenagear o eterno parceiro de Jorge Mautner, Fazendo As Pazes Com O Swing (batizado pelo bem-humorado percussionista Léo Monteiro, padrinho oficial dos dois álbuns) tem o compromisso de ser mais festivo e coeso que o estreante Carnaval Só Ano Que Vem (2007), quase unicamente composto por boleros e sambas-canções. Com produção de Berna Ceppas e Kassin, ambos componentes do coletivo, o álbum oscila entre bossa nova, samba, gafieira e demais ritmos latinos, com temáticas nostálgicas sobre o amor e os festejos de fevereiro. Salve às bodas [dançantes] de confete e serpentina.

Baile comemorativo 10 anos Orquestra Imperial / Foto: Caroline Bittencourt

Nina Becker introduz-nos ao álbum com a [des]aceleradora Moléculas e seu aglomerador de partículas eletrônicas e de percussão. Na sequência, a gafieira Tamancas do Cateretê, interpretada por Rubinho Jacobina, é uma boa prévia do tal swing que está por vir. Duani empresta sua voz e sua presença de palco à lá Tim Maia setentista (porém, sem os reclames) para, talvez, os melhores e mais carnavalescos momentos do disco: Cair na Folia e Velha Estória, esta última, composição de Domenico e Kassin. Completam o auge samba-no-pé, Aguenta Mais e a malandragem dos versos de Rubinho (pra viver na maciota dispensei o caviar/quando o santo não ajuda vou subindo devagar) e o sensacional pseudo-maxixe A Saudade É O Que Me Consola, onde Moreno Veloso e Wilson das Neves dividem os vocais. Thalma canta a doce Fala Chorando (ouço vozes que me dizem: nada tem explicação/pois mesmo a dor quer ser alegria), composição de Nelson Jacobina e Jorge Mautner, e a sexy Enquanto A Gente Namora, parceria com João Donato. Para os saudosistas dos barbudos, tem Rodrigo Amarante e a sua poética-temporal Pode Ser (que presente eu ganhei/se o futuro ficou pra trás/o quê o passado tem pra dar?).

A sequência final traz a literalmente adocicada Alcaçuz e seu eterno jogo do amor e da mágoa, mais uma dobradinha Jacobina/Mautner interpretada por Nina Becker, e o lamento lírico de Moreno em Ouvindo Vozes, no melhor estilo pierrô & colombina. O veterano Wilson das Neves e sua bela Apaixonado (a paixão dói um bocado/mas quem rasga cicatriza o corte) encerram com romantismo o segundo cd da banda. Possui ainda a instrumental Mocotó em Tijuana, do trompetista Altair Martins, que poderia ser uma perfeita vinheta introdutória com ares de filme de ação para o novo baile-show da Orquestra. Em suma, a verdade é que, apesar de ser um álbum de estúdio e de inéditas, as 13 faixas de Fazendo As Pazes Com O Swing parecem captar a energia contagiante que a banda possui ao vivo, em todas suas nuances, desde a urgência de um grito pré-carnavalesco, passando pela folia em si e pelos amores de quatro dias, até a melancolia de uma quarta-feira cinzenta. Quem disse que todo carnaval tem seu fim?

(Larissa Mendes é ouvinte-plebeia e faz mensalmente as pazes com as palavras escrevendo para a Diversos Afins)

 

 

 

Categorias
74ª Leva - 12/2012 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

TRANSMISSOR – NACIONAL

 

Não há nada mais valioso do que poder usar dos recursos da liberdade e fazer ecoar a própria voz. Na seara musical, isso até pareceria uma mera redundância não fosse a perspectiva de também se poder passar algo coerente através das canções. E é aí que entra a veia autoral a atravessar espaços com sua sedutora proposta de autenticidade.

Talvez seja um exagero falar de originalidade abundante em matéria de criação musical. Mesmo a máxima caricatural do “nada se cria, tudo se copia” revela em si o germe da transformação das coisas que, ao final das contas, sempre estiveram no mundo, seja de modo latente ou explícito. Importa mesmo saber quem percebeu a faísca inicial de algo e, com isso, promoveu a aparição do supostamente novo?

Escutar o trabalho da banda mineira Transmissor pode servir como uma sucinta e serena resposta a isso tudo. E predicados não faltam aos moços de Belo Horizonte quando o assunto é converter olhares sublimes sobre a vida em forma de letra e música de qualidade. Da reunião de Thiago Correa, Leonardo Marques, Jennifer Souza, Henrique Matheus e Pedro Handam, surge um ambiente sonoro carregado de sensibilidade e, o que é melhor, conteúdo.

Nacional, segundo disco da banda, é desses álbuns que atrai pelo conjunto. Há lugar para tudo ali, tanto para densidades típicas de nosso incorrigível trajeto pelo mundo quanto para a leveza necessária ao olhar por vezes aborrecido de todo o tipo de gente. É assim que, sem levantar falsas esperanças e tolas bandeiras, a trupe do Transmissor chega desnuda aos nossos ouvidos e nos apresenta um trabalho cuja simplicidade nem de longe representa um raso mergulho por sobre as coisas da existência.

Transmissor / Foto: divulgação

Pensando um pouco sobre essa miríade de sensações, é que conseguimos entender porque uma canção como Bonina merece ser eleita uma espécie de síntese do disco. Há ali uma leitura possível sobre as relações que suplanta a gratuidade tão recorrente do tema. Fala-se de amor sem, no entanto, repetir fórmulas, apelos desgastados ou subestimar a inteligência de quem escuta cada uma das faixas. Nesse percurso, músicas como Vazio, Outra Ela, Longe Daqui e Hoje ilustram bem a habilidade do grupo em se mover pelo pantanoso território das emoções.

Ao traço pop rock de Transmissor vem se juntar um repertório cujas escolhas melódicas refletem um cuidado com arranjos e outros importantes detalhes. Além disso, o revezar de vocais entre Jennifer Souza, Leonardo Marques e Thiago Côrrea é um retrato lírico de como as composições são interpretadas no seu mais preciso teor. Transportar, por exemplo, a especialíssima Nada Será Como Antes, canção de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, e que é verdadeiro símbolo do Clube da Esquina, para Nacional só trouxe mais vigor ainda ao disco. Sem dúvida alguma, um ingrediente bem digno de uma valiosa referência das férteis paragens mineiras.

Num cenário no qual se multiplicam artistas e bandas das mais distintas frentes, não seria precipitado apontar Transmissor como sendo um grupo que tem muito ainda a oferecer. Pelo engajamento de seus componentes e, claro, o resultado direto de seus dois trabalhos já lançados, o caminho futuro afigura-se aberto. E a espera vale a pena quando se tem algo consistente e despretensioso a dizer.

 

 

 

 

Categorias
73ª Leva - 11/2012 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

DELIA FISCHER – PRESENTE

 

 

Quando nos deparamos com a descoberta de um disco, muitas podem ser as direções para as quais nossos sentidos apontam. Se arranjos, vocais e toda a ambientação instrumental já são, por si sós, componentes indispensáveis de um adequado conjunto sonoro, imagine os efeitos quando uma determinada obra transcende a materialidade e nos desloca para um cenário onde habita o intangível.  É o que a cantora e compositora Delia Fischer nos proporciona em seu Presente, álbum que nos conduz por uma atmosfera de sensações etéreas.

Desde seus primeiros caminhos, Presente se revela um trabalho que prima pela densidade. Tudo ali é dotado de uma força delicada e de uma maneira sublime de se sentir e perceber a vida. É como se cada canção fosse revestida de uma aura carregada de contemplação e êxtase. E não é prematuro arrematar que o fio condutor do álbum é uma vigorosa celebração da existência. Quiçá um caminho de escutas espirituais.

De imediato, duas virtudes são caras ao belo resultado do disco: a interpretação e o piano da artista. Nenhuma música passa despercebida por seu canto suave e cativo. E as composições, quase que inteiramente arquitetadas por ela, pedem uma entrega à qual Delia não se furta. Sentir faixas como Vozes no Mato, Das Plantas (com uma participação bastante especial de Hermeto Pascoal), Aluvião, Nascimento da Vênus e Sozinhesa é constatar que Presente é um disco feito de profundidades. Avançando nas escutas, não tem como deixar passar impune a força de canções como Das Águas, Mercado e Minha Avó, todas elas a construir um painel feito de memórias e apelos sinestésicos.

Sem dúvida alguma, um aspecto marcante no disco é a influência de Egberto Gismonti que, além de ser parte fundamental da formação musical de Delia, assina juntamente com ela a canção que dá título ao álbum. Outros nomes são também importantes na construção de Presente, tais como o de Pedro Mibielli (violino), Luciano Correa (cello), Pedro Guedes (violão, programação e arranjo) e Marcio Bahia (bateria e percussão).

Misturando evocações à natureza com percursos pelos recônditos humanos, Delia Fischer consolida um trabalho marcado pela singularidade. Há um caminho pelo qual um olhar sereno e poético confere amplitude ao fato de se estar no mundo. As imagens que povoam o álbum revelam que, por mais delicada que seja a vida, urge-nos atravessá-la com toda a sorte de coragem e entrega. O resto da travessia é feito de luz e mistério.

 

 

 

 

Categorias
72ª Leva - 10/2012 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

TULIPA RUIZ – TUDO TANTO

 

 

 

Tulipa Ruiz ataca de novo: fato consumado. Não foi uma emoção “efêmera” acreditar que a cantora e compositora aconteceria bem mais do que um instante primeiro. Não, não foi. E o ato de pensar que as coisas não cabem em si mesmas pode até justificar, de imediato, o título da nova investida. Tudo Tanto é, sim, uma espécie de incontido, talvez o algo indefinido da pós-modernidade. E deixemos de lado as redundâncias aparentes desse somatório de palavras que se traduzem no rumo da intensidade.

O segundo disco dessa arrojada criadora é um beijo de língua na contemporaneidade. Sem exageros e afetações, a moça se agarra ao presente como o único lugar quase certo que habitamos. Seu canto preciso emana de lugares que não deixam a vida parar de girar. Nada de promessas do paraíso nem tampouco receitas prontas de felicidade, principalmente quando a tônica é falar do amor e seus apetrechos. Viver, aqui, é fazer travessias sem saber o que está do outro lado. A receita é tatear o invisível e não profetizar os desvios. Apenas seguir.

A marca autoral de Tulipa confere uma singularidade aos caminhos percorridos, tanto que seu traço criativo está espalhado por todas as faixas do disco. Diga-se de passagem, o peso que a porção de compositora exerce sobre o trabalho da artista é significativo e reforça as bases de um perfil cada vez mais próprio. Se em Efêmera (primeiro disco da cantora) já tínhamos pistas do terreno valioso no qual nossos ouvidos estavam penetrando, agora fica a certeza de que algo muito melhor estaria à nossa espera.

Tudo Tanto é, sobremaneira, um disco sensorial, repleto de experiências não apenas sonoras, mas também imagéticas e quiçá táteis. A canção “É”, por exemplo, espécie de abre-alas, já nos coloca em conexão com a dinâmica dos sentimentos sublimes em torno do amor e da vida. E tudo ali a passar como num filme no qual cada um de nós se identifica à sua maneira. De fato, o que há de sobra no álbum é uma multiplicidade de cenários possíveis para nossa volátil existência.

Cada trecho desse agradável percurso musical tem algo a ser degustado e digerido sem medo de reações adversas. Mais provas? Basta captar as vibrações de Ok, Quando eu achar, Desinibida, Dois Cafés (com Lulu Santos), Bom e Cada Voz. Em Víbora, canção escrita em parceria com Criolo e que pode muito bem servir como verdadeiro ápice do disco, Tulipa mostra que seu momento é precioso, intenso e agarra com todas as forças de sua lírica voz o universo que a canção lhe oferta.

Para tornar o ambiente ainda mais especial, é impossível passar despercebido pelos arranjos de cordas e madeiras assinados por Jacques Mathias e devidamente regados a violino, violoncelo, viola, clarinete, flauta e clarone. Some-se a isso o dedo valioso de Gustavo Ruiz, irmão da cantora, na produção do álbum e na composição de algumas canções.

Em sua atmosfera essencialmente pop, Tudo Tanto é bem construído em forma e conteúdo. A simplicidade das letras ganha uma dimensão mais ampla quando somada ao precioso trabalho vocal de Tulipa e aos vigorosos arranjos. Falar de relações, sobretudo amorosas, não é tarefa das mais fáceis. E isso parece fluir com certa leveza nas mãos habilidosas da artista que sabe, como ninguém, transitar por lugares que tiram a maioria das pessoas do sério. No embate entre sentimentos certeiros ou imprecisos, tudo se desloca para adiante e o passado pode representar apenas uma mera lembrança nada nostálgica. Tudo isso talvez “porque estar vivo já foi mais estranho”.

 

 

* Tudo Tanto está disponível para download no site da artista


 

 

Categorias
71ª Leva - 09/2012 Gramofone

Gramofone

Por Fabrício Brandão

 

LEO GANDELMAN – VIP VOP

 

 

 

Entre aquilo que efetivamente somos e o que pensamos ser, há um hiato por vezes imperceptível. Coisas se agigantam e somem diante de nossas mais firmes certezas e arremates. Cenários se revezam de forma frenética, transpondo o pano de fundo de tantas investidas e revelando que o fio delicado da existência atravessa toda sorte de pretensões. Caminhando um pouco mais por sobre a passagem do tempo, talvez consigamos perceber que o jogo dos extremos flerta a todo instante com nossas hesitações. E assim, sabendo-nos duais por natureza, firmamos o pacto de sermos som e silêncio na medida em que a vida e seus imperativos pedem passagem.

Quando a arte assinala lembranças em torno dessa ciranda de signos em que estamos envoltos, muitos horizontes podem se descortinar. E gente disposta a tecer representações dessa natureza não é algo tão raro. Exemplo vistoso disso é quando nos permitimos ouvir VIP VOP, o mais novo trabalho do saxofonista Leo Gandelman.  A começar pelo título, o músico já deixa clara a sua intenção de provocar nossa atenção rumo a uma jornada que sabe ao instigante e complexo universo das porções humanas.

Enquanto a porção VIP (Very Important Person) remonta a uma espécie de Olimpo do ser/estar, sua correspondente antagônica, VOP (Very Ordinary Person), por sua vez, firma os pés no chão sem aniquilar as asas de Ícaro. Da combinação desses dois termos, prevalece muito mais uma noção de complementaridade do que uma mera oposição de sentimentos. E sermos, ao mesmo tempo, especiais e comuns é condição necessária para que a lucidez não afaste o sonho, ou vice-versa.

O fato é que o norte escolhido por Leo Gandelman aponta veredas sublimes em torno dos contrastes que moldam nosso barro. O disco de então prima por um traço bem digno de um vigor poético, trazendo à tona todo um percurso apoiado em gêneros como a Bossa Nova, o Samba e o Jazz. Nesse ambiente de fusões rítmicas, cada faixa deixa exalar o quanto de pesquisa musical habita a vasta carreira do artista. A condução dos arranjos e a disposição do repertório são pontos precisos do álbum, tecendo um painel de sensações que se apoiam em recortes valiosos de nossa brasilidade.

Do mosaico de imagens sonoras percebido no disco, chama atenção a intensidade de composições como Sinal Vermelho, Nego Tá Sabendo, Vip Vop e Numa Boa. Do mesmo modo, uma aura de delicada beleza toma conta das escutas em torno de Luz Azul, Neshama (Para o Meu Pai) e Alma Cubana. O time de músicos, composto por David Feldman (piano), Alberto Continentino (baixo) e Renato Massa (bateria), é virtuoso e reforça de modo especial o caráter de permanência da obra.

Com 10 discos solo na bagagem e uma trajetória de projeção nacional e internacional, Leo Gandelman consolida em VIP VOP uma maturidade musical deveras importante. O artista visita cenários de nossa rica sonoridade sem apontar para a tão desgastada noção da releitura. O resultado é um mergulho autêntico por sobre aquilo que está entranhado de modo valioso em nossa cultura. Ao penetrar cada espaço materializado na alameda instrumental do álbum, cotejamos o equilíbrio do ser como forma de sabermo-nos parte de um lugar que nunca estará cheio nem tampouco vazio. Bom mesmo é saber que o lado sublime das coisas afugenta excessos.

 

 

 

Categorias
70ª Leva - 08/2012 Destaques Gramofone

Gramofone

 

Por Larissa Mendes

 

O TERNO – 66

 

 

“(…) E hoje faz sucesso quem faz plágio diferente”.
(O Terno, 66) 

 

Terno: grupo de três coisas ou pessoas; vestimenta clássica composta por três peças (paletó, colete e calça); sentimento de doçura ou suavidade. Seja qual for a vertente interpretativa adotada, ela dará pistas sobre as singularidades desta banda paulista formada por Martim Bernardes (voz e guitarra), Guilherme Peixe (baixo) e Victor Chaves (bateria). Fundada em 2006 pelos então colegas de colégio Tim e Peixe (Chaves completou o trio em 2009), 66 é o primeiro registro de estúdio da banda. Com um rock de roupagem retrô, letras inteligentes e bem humoradas, o videoclipe de seu single possui mais de 60 mil visualizações no youtube e a banda foi indicada ao prêmio Aposta VMB 2012, da MTV. Influenciados por Mutantes, Caetano Veloso, Beatles e The Kinks e apadrinhados pelo músico – e pai do vocalista Tim Bernardes – Maurício Pereira (Os Mulheres Negras, duo com André Abujamra), O Terno contou ainda com a presença ilustre do cantor Marcelo Jeneci tocando órgão hammond no álbum.

Como nos antigos vinis, as 10 faixas são divididas em lados A e B. Enquanto o primeiro lado é totalmente autoral, com composições de Tim, o segundo é formado por releituras de canções de Maurício Pereira. O single 66 abre o disco e dá o tom das inevitáveis comparações que qualquer banda nova sofre: ‘Me diz, meu Deus, o que é que eu vou cantar/Se até cantar sobre ‘me diz meu Deus o que é que eu vou cantar’/Já foi cantado por alguém/E além do mais, tudo o que é novo hoje em dia falam mal’. A melancólica Morto tem uma pegada blues, enquanto a divertida (e sádica) Zé, Assassino Compulsivo conta a história de um serial-killer deveras passional. Completam o lado A, Eu Não Preciso de Ninguém e Enterrei Vivo, talvez as mais expressivas canções do álbum. No lado B, pai e filho dividem os vocais e Pereira assume o saxofone. A inspiradíssima Quem é Quem (‘quem é quem pra dizer quem é o quê’) parece advertir os novatos contra eventuais rótulos. A graciosa (e quase sertaneja) Modão de Pinheiros faz um passeio pelas ruas do bairro da zona oeste paulistana e adjacências, enquanto Purquá Mecê, do disco Música e Ciência, d’ Os Mulheres Negras, de 1988, fala de pássaros e ganha arranjos mais melódicos que o original. Se Compromisso carrega nas guitarras para embalar a poesia de ‘um beijo terno/um abraço gravata’ de Pereira, Tudo Por Ti encerra o álbum em ritmo de ska.

Por razões óbvias, é natural a [boa] influência que Maurício Pereira exerça sob Tim Bernardes e O Terno, visto que a parceria entre compositor e banda data de 2009, quando os músicos foram convidados para elaborar novas versões para o padrinho, culminando no show O Terno & Mauricio Pereira. Além disso, sob o codinome “Pereirinha & Pereirão”, Maurício pai e Martim filho também tocam ao lado de convidados como Wander Wildner, Theo Werneck e do próprio Abujamra. Talvez Maurício Pereira tenha até seu terço de parcela no bom resultado final do cd, mas nada que comprometa os méritos musicais desses rapazes de 20 e poucos anos que, com letras elaboradamente irônicas, fazem um rock nostálgico, meso sessentista, meso anos 2000 e trazem um tom sépio às coloridas (porém, desbotadas) sonoridades atuais. Bem estruturado e com a classe que o modelito impõe, O Terno está devidamente repaginado e tem tudo para ser tendência na(s) próxima(s) temporada(s).

 

* 66 pode ser ouvido, na íntegra, aqui

 

(Larissa Mendes não usa tailleur nem black-tie, mas aprecia música de alta-costura)