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96ª Leva - 10/2014 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

TIÊ – ESMERALDAS

 
Esmeraldas

 

Depois de trocar as passarelas pela música, pousar em um independente Sweet Jardim (2009) e dividir-se entre A Coruja e o Coração (2011), eis que a ‘menina-pássaro de rubro passional’ lança seu terceiro voo. Batizado de Esmeraldas – em alusão à cidadezinha mineira que recepcionou suas composições –, as 12 faixas do mais recente trabalho da paulistana Tiê despontam sua verve mais pop e visceral.Produzido por Adriano Cintra (ex-CSS) e Jesse Harris (parceiro de Norah Jones),e gravado entre São Paulo e Nova York, o álbum conta com as participações do músico escocês David Byrne (ex-Talking Heads) e de Guilherme Arantes. Lançado em setembro pela Warner Music, Esmeraldas revela um profundo amadurecimento da cantora de 34 anos, que desta vez transita por distintos estilos musicais – pero sin perder la ternura jamás – com uma despretensiosa segurança. Irônico, se pensarmos que, contrariando a síndrome do segundo disco, Tiê confessa ter entrado em crise criativa em seu terceiro trabalho.

 

Tiê
Tiê / Foto: Divulgação

 

A balada Gold Fish – primeira das duas canções em inglês presentes no álbum – abre Esmeraldas em ritmo sussurrante para desembocar num sofisticado arranjo e funciona como uma prévia do que se verá ao longo de toda a obra: a voz doce de Tiê desfilando por diversas sonoridades. Se o pseudo-blues Par de Ases (nem sempre a gente acerta em tudo/e muitas vezes fala demais/mesmo assim/se você me pedir, eu mudo/e ainda prometo um par de ás) aborda o sempre desgastante jogo de amar, a divertida Máquina de Lavar traz o piano de Guilherme Arantes e a guitarra de Tim Bernardes (O Terno) numa sensual pegada radiofônica. Apesar da letra densa, Urso (errava a dose/errava sempre/erradicava a palavra/e ouvia com o coração) mantém a animação, desta vez, utilizando bases eletrônicas, enquanto o rock de Mínimo Maravilhoso (eu nem vi dezembro passar/tanta coisa boa que aconteceu/destranquei a porta para entrar/o que um dia já foi meu) contrasta com o regionalismo épico da canção-título Esmeraldas (e nesse silêncio/meu sotaque vai mudar/e então meu pensamento vai divagar).

A romântica Isqueiro Azul (e quantos quase cabem num segundo/me vi chegar no fim do mundo/me vi sofrer na solidão/de um jeito que não suportei) dá início a um imaginário lado B do álbum, lembrando a suavidade das composições de Sweet Jardim. Depois de um Dia de Sonho (nunca fugi, nunca escondi/os meus desejos por você/eu sempre fui o seu brinquedo/mas tudo tem um tempo pra durar) – uma das melhores do álbum e os violinos de Vou Atrás (posso fingir/que não mexeu comigo/posso inventar/que sou só seu amigo/mas na verdade/essa canção/é um recado/à solidão) dão uma tônica mais dramática ao disco. A Noite (qual é o peso da culpa que eu carrego nos braços/me entorta as costas e dá um cansaço/a maldade do tempo fez eu me afastar de você), primeiro single do álbum, é uma versão da balada La Notte, da cantora Arisa, sucesso na Itália e México. Meia Hora – escrita curiosamente em 15 minutos– é um rockzinho de bateria marcante que aponta para o final do álbum em alto astral, junto com All Around You (na minha vida catalogada/podem até me dar um search e coisa e tal/mas ninguém sabe do que eu sinto), cantada em português por Tiê e em inglês por David Byrne e aborda a nossa controversa [falta de] privacidade atual.

Por não se acomodar entre a simplicidade de Sweet Jardim e a alegria de A Coruja e o Coração – que teve até canção executada em novela global –, a compositora firma-se definitivamente no rol da nova geração da MPB, composta por nomes como Tulipa Ruiz, Céu, Marcelo Jeneci e Thiago Pethit. Tiê segue compondo suas próprias histórias de letras simples sobre o cotidiano e o amor, talvez agora de modo ainda mais refinado e liberto: se os instrumentos e arranjos das canções agigantaram-se, o mesmo aconteceu com sua intérprete. Em tempo, a cantora com nome de passarinho ‘reescreveu as memórias, deixou o cabelo crescer’ e já têm sua própria ninhada de três álbuns e duas filhas. A vida ainda é nossa joia mais preciosa.

 

 

Larissa Mendes tem olhos de esmeraldas e só pia no twitter.

 

 

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68ª Leva - 06/2012 Gramofone

Gramofone

 

Por Fabrício Brandão

 

OQUADRO – OQUADRO

 

 

 

Há coisas que maturam no tempo de modo inexplicável. E eis que qualquer ânsia ou desejo imediato de realização poderiam até distorcer um sentido mais puro do que se pretendia transmitir num impulso primeiro. Mas o senhor dos instantes é destemido, ignora barreiras aparentemente intransponíveis e aposta firme na resistência dos bravos e coerentes consigo mesmos.

Quem conhece a história de pessoas como os integrantes da banda OQuadro entende perfeitamente o significado do primeiro parágrafo desse texto. Depois de alguns bons anos de estrada musical, a trupe originária das paisagens litorâneas da baiana Ilhéus reúne num só feito parte valiosa de seus ímpetos criativos. O disco de estreia premia de modo intenso a paciência e a expectativa de se materializar uma obra sonoramente bem arquitetada.

Do início ao fim, as expressões de Rans, Jef, Freeza, Ricô, Victor Santana, Rodrigo Dalua e Jahgga harmonizam-se em torno de um verdadeiro mosaico sonoro. E o motor principal das razões por aqui está no vigor do discurso. A capacidade de verbalizar do rap, gênero predominante no estilo da banda, dá lugar a uma perspectiva diferenciada de representação. Basta ouvir cada uma das faixas com esmerada atenção para perceber que estamos bem longe de qualquer proposta demagógica ou panfletária. Pelo contrário, a verve ideológica que pulsa no trabalho nos toma de assalto pela certeira capacidade de encadear visões de mundo e, com isso, causar efeitos necessários de provocação.

Por todos os cantos do disco, tudo está devidamente em seus lugares. Desde a precisa escolha do repertório, passando pelos arranjos e elementos vocais, é possível perceber que o equilíbrio é ponto forte do álbum. Se o grande desafio de nossa contemporânea idade é o de apostar na originalidade, OQuadro o faz com maturidade e personalidade, sem dar margem a desvios e excessos, tudo apoiado em influências que derivam de elementos como Hip-Hop, Jazz, Reggae, Rock, Samba e Afrobeat.  Ao nos depararmos com a primorosa arte da capa, cartão de visitas inalienável do grupo, a matriz africana, com seus elementos rítmicos e discursivos devidamente encaixados, já é capaz de prenunciar o traço essencial da obra.

Sob a batuta do produtor Buguinha Dub, que traz no currículo gente do quilate da Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, Racionais MC’S, Mestre Ambrósio, dentre outros, o disco ainda conta com o auxílio luxuoso de Guilherme Arantes, da rapper Lurdez Da Luz e do Mc Dimak.

Marcado por um tom inteiramente autoral, é difícil eleger destaques no cd. No entanto, não há como ignorar a força que brota de canções como Evolui (Bem Aventurados), Seja Bem Vindo Ao Meu Lar e Valor de X² (Parte 2). A incisiva letra de Tá Amarrado é ponto alto do disco, trazendo à tona toda uma sorte de referências advindas dos signos afro-brasileiros, tudo com uma provocação construída de forma bem inteligente e aguçada. Noutro ponto, chama atenção a belíssima composição e interpretação de Fogos de Artifício para o Precipício À Vista, canção que de modo poético evoca uma prece à esperança no porvir. Como se não bastasse, a qualidade aponta também em cheio para os arremates instrumentais de Sapoca Uma de Cem e O Soco.

Em meio à Babel de nossos tempos, sempre cai bem uma boa dose de lucidez em frente ao espelho de nós mesmos. O que perceberemos do outro lado? Quiçá a coragem das reflexões possa lançar algumas pistas. Enquanto isso, é bom que, exercitando a compreensão das complexidades humanas, permitamo-nos ouvir o que de mais genuíno o outro possa nos ofertar. Evoé, OQuadro!

* O disco está disponível para download gratuito aqui.