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155ª Leva Janelas Poéticas

Aperitivo da Palavra I

SOBRE MENINOS E HOMENS

 Por Gustavo Rios

 

 

Gosto de Amora, publicado em 2019 pela Editora Malê, é um livro com 15 contos divididos em duas partes. Nele, Mário Medeiros nos mostra, entre outras coisas, que a verdade, a proximidade com a vida e um bom bocado de talento podem nos trazer muito mais do que uma simples leitura.

Mário, que além de escritor é doutor em sociologia pela Unicamp, parece se valer da própria vivência para produzir seus contos. Todavia, diante do que li, posso dizer que esse recurso não se aproxima da chamada autoficção – aqui considerando o conceito do  Doubrovsky -, servindo apenas para dar a medida exata das suas verdades. Verdades que passam pela realidade de milhões tais como ele, sendo Medeiros um homem negro num país essencialmente, terrivelmente e estruturalmente racista.

Já pela parte gráfica, concebida pelo talentoso artista paulistano João Pinheiro que, entre outras coisas, foi ganhador de prêmios pelo seu trabalho com a Hq Carolina, uma parceria com a escritora Sirlene Barbosa, Gosto de Amora já nos mostra para que veio. E para aonde quer ir e estar.

 

Linguagem

       

Nas 146 páginas da obra nos deparamos com uma linguagem simples e direta. As histórias se baseiam na vida de pessoas que muitas vezes trafegam num mundo invisível. Num tipo de invisibilidade que extrapola o enfoque “social”, negando-os até mesmo a própria perspectiva ao contar suas histórias.

Ao entrar como homem e indivíduo nos textos, o tom supostamente confessional enriquece o trabalho. Assim, além da leitura propriamente dita (a que se prende ao estilo, a linguagem, ao ritmo e a beleza; ao texto em si), Mário nos oportuniza duas coisas: a de conhecermos e/ou confirmarmos uma realidade terrível que berra ao nosso redor, e a de podermos enxergar que, dentro de uma coletividade, existem indivíduos; cada um com sua voz e com sua, importante dizer, subjetividade.

O olhar do leitor extrapola o entendimento, ou mesmo a lembrança fundamental de que, como sociedade, estamos apressados indo para um abismo, apesar das generosas lufadas de esperança decorrentes da última eleição. Porém, essa necessária visão do todo (as pessoas no geral), deve nos comover a partir do uno (uma pessoa: uma vida e, por que não dizer, um coração).

Como exemplo, descrevo um belíssimo trecho do conto “Meias de seda se esgarçando”: “Eu escrevia, no meio da tarde, no meio da sala. Era um domingo. Ela apareceu do nada. Eu, inocentemente, perguntei se havia dormido bem, se estava se sentindo mais disposta. A tudo ela respondeu que sim. Ambos sorrimos. Sabíamos que, do contrário, iriamos nos ferir mais que há três horas, quando tentáramos, mais uma vez o amor.”

 

Crianças e homens

 

Novamente me valendo da professora Mariana (sem ela eu seria incapaz de fazer esta resenha), no livro também podemos ter a ideia de nos depararmos com contos infantis, “dentro dos moldes ocidentais”.

Em “Fábrica de balas”, por exemplo, Medeiros já nos mostra suas intenções. No conto o personagem sofre, transita em sua comunidade, encara a miséria ao redor, se relaciona com amigos e com suas próprias angústias – e devemos entender angústia como algo muito além das dores do tipo existenciais, mas que, ainda assim, são calcadas no privilégio de poucos.

O que era para ser doce, ao menos de forma sugerida da bala, vira enjoativo, numa realidade em que a fábrica produzia “balas que (o protagonista do conto, Rubi) não podia chupar, balas que não podia pagar no mercadinho de merda ali perto da favela (a não ser quando as recebia de troco, fato raro, pois sempre tinha o dinheiro contado).”

Uma fábrica “velha, feia, suja, fedida, cuja chaminé – preta, para variar – deixava sair aquele cheiro doce e enjoativo, impregnando todos os cantos, todos, todas as roupas, todos os narizes.”

O trecho abaixo deve confirmar a ideia de que Mário Medeiros não está para brincadeiras:

 

“Às vezes o Preto Rubi agradecia por não tomar café, porque no barraco da dona Maria Baiana, ela, a filha, o genro, o filho da filha dela, enfim, todo mundo parecia ter as tripas soltas à noite toda, fazendo tudo num barraco só. E como era o primeiro barraco ao lado do córrego que ficava perto da ponte por onde Rubi passava…bom, como era o primeiro barraco, tinha uma espécie de escadinha por onde às cinco e quarenta e cinco, pontualmente, alguém jogava o líquido feito chocolate quente no córrego. Às vezes aquilo dava nojo no Rubi Preto e ele cuspia de lado. Antes, quase vomitava. Depois de dez anos, nem isso”.

 

Notem no parágrafo acima: Mário trabalha de uma forma simples, como se conversasse conosco. Ideia reforçada pelo uso das reticências e da repetição proposital que se segue (…bom, como era o primeiro barraco…”), recurso que se mostra fundamental para o bom andamento da cena.

 

Família

 

A relação com a família também é outro tema recorrente. E não poderia ser diferente. Medeiros muito nos comove com suas descrições de uma “mão preta, grande, gorda e boa” que o conduzia do portão até o “Grupo Escolar.” Ou mesmo de sua vó, conforme outro belíssimo trecho abaixo:

 

“Eu adorava seus cabelos brancos e bem penteados, trançados para trás. Seu cabelo branquinho e sua pele preta lisa. Sua voz arrastada e seus olhos vivazes. Vovó. Vó. Vó Paina. Vó desbocada, Vó palavrão, que me ensinou vários, cabeludos feitos suas madeixas largas. Vó Paina que, ao tombar, um dia, derrubou todos nós, deixando um vazio tão grande.”

 

Da relação familiar, à relação com a comunidade ao redor, Mário nos mostra que, grosso modo, a dinâmica familiar também existe na relação com o outro. Seja o amigo de infância ou mesmo com as pessoas de um bairro. Para exemplificar, sugiro a leitura do conto “Pau, panela, apito”.

 

A maturidade

 

Assim, confirmo a ideia de que Gosto de Amora é o trabalho de um escritor maduro e talentoso. Um artista que não vai permitir que lhe determinem o espaço e as escolhas individuais: ele seguirá falando sobre o que desejar, seja algo “coletivo” ou íntimo; ou as duas coisas juntas. Por escolha própria, esse mesmo autor também não deixará de se assumir como parte de um todo, no que podemos chamar e literatura negra e periférica – que conta com outros nomes, tais como Allan de Rosa, Ferrez, Nelson Maca e Fábio Mandingo, entre tantos outros e outras (os nomes citados priorizaram homens de estilos bem distintos, mas com algo em comum; ao menos na minha visão).

A viagem individual de Medeiros é grandiosa pela própria natureza. Mas abarca diversas outras vozes. E isso o torna uma grande pedida. Sem dúvida.

 

Gustavo Rios é baiano e autor do livro Céu Ausente (Cepe Editora, 2023), dentre outros.

 

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153ª Leva - 01/2024 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Gustavo Rios

 

O roteirista e escritor Victor Mascarenhas costuma dizer que “Sete dias em setembro” era para ter sido o seu segundo livro. Autor de vários livros, com destaque para “Cafeína”, ganhador do Prêmio Braskem Cultura e Arte, da Fundação Casa de Jorge Amado, livro prefaciado por ninguém menos que Fausto Fawcett, esse feirense nos surpreendeu ano passado com o lançamento de um romance histórico em que, baseado em pesquisas criteriosas, ele criou uma história envolvente, tendo como escolha principal a visão de dois protagonistas quase anônimos – Paulo Bregaro e Antônio Ramos Cordeiro; o primeiro, oficial do Supremo Tribunal Militar e correio-geral da Corte, e o segundo, major.

Lançado pela P55 edições, em parceria com o selo do próprio autor, a Cafeína – Produção de Conteúdo, “Sete dias em setembro” parece trazer uma nova abordagem quanto aos fatos ocorridos há 200 anos. Fatos que culminaram com a Independência do Brasil. No livro, além de optar por uma bem elaborada ficção para preencher “lacunas”, Mascarenhas nos conduz por uma viagem em que, além das pesquisas, da preocupação histórica e da vontade de se publicar um bom livro, o que prevalece é o gosto pela literatura e por uma ficção de qualidade.

Abaixo, segue uma breve, mas enriquecedora conversa que tivemos sobre o seu romance.

 

Victor Mascarenhas / Foto: Ari Capela

 

DA – Duas coisas me chamaram a atenção em seu livro: a forma escolhida para se contar a história, em que o narrador se utiliza de uma “oralidade”, tal como Cervantes em Quixote, e o fato de que a Independência do Brasil foi um processo mais lento do que o  ensinado nas escolas.  Você concorda que essa forma “oral” serviu para nos mostrar de maneira mais ampla esse momento histórico, já que ela permitiu que fossem relatados outros fatos que extrapolam, em tese, o enredo, mas que são fundamentais para o desenvolvimento do livro, incluindo aí seu viés ficcional?

VICTOR MASCARENHAS – A gente tende a minimizar nossa história quando não enxerga a Independência como resultado de um processo complexo e de muita luta dos brasileiros. É um desserviço reduzir tudo a um arroubo de D. Pedro, ignorando o cenário internacional, onde o liberalismo estava derrubando o velho absolutismo, ou minimizando a luta do povo brasileiro que se uniu para vencer o exército português e na defesa do então príncipe regente contra os desmandos de Lisboa.  Um exemplo que traduz bem a mobilização popular e o papel do futuro imperador está no nome do batalhão onde Maria Quitéria lutou durante a guerra na Bahia: Batalhão de Voluntários do Príncipe D. Pedro. Diante de tudo isso, o desafio era levar o leitor para esse cenário sem ser didático ou redundante e eu queria fazer isso num livro de aventura a la Alexandre Dumas, com o humor e a coloquialidade do “Memórias de um sargento de milícias”. A oralidade que você apontou, que tem como ancestral infinitamente superior o “Dom Quixote” de Cervantes, vem dessa escolha e permeia o livro através do seu narrador, que tem como tarefa principal relatar a viagem dos protagonistas – os dois mensageiros que levam as cartas do Rio até Pedro nas margens do Ipiranga – mas que vai traçando o panorama de um país convulsionado através da história de vários outros personagens, passando por cidades diferentes, comentando os fatos, conversando com o leitor e fazendo paralelos da época com o presente. Mas o que era mais importante era fazer tudo isso mantendo o rigor histórico, enquanto operava com personagens reais em situações fictícias. Por isso, tratei logo de avisar na epígrafe: “Esta é uma obra de ficção, mas qualquer semelhança com nomes, pessoas ou acontecimentos reais não terá sido mera coincidência”.

 

DA – Além dos acontecimentos reais que lastreiam o enredo, temos aí um delicioso rol de histórias também reais e no mínimo curiosas, envolvendo D. Pedro e outras figuras, conforme você vem divulgando em entrevistas. Conte-nos um pouco sobre elas. E de como foi escolher algumas, dentre tantas, visando dar um direcionamento ao livro.  

VICTOR MASCARENHAS – D. Pedro é um personagem tão extraordinário que parece até inventado. Era um tipo complexo e com um humor absolutamente instável, dividido entre suas responsabilidades políticas e uma compulsão pela vida mundana que rendeu muitas histórias, digamos assim, inusitadas. O critério para seleção de algumas dessas histórias e personagens foi ter ligação direta ou indireta com o processo e o período da Independência. O curioso é que mesmo usando apenas fatos documentados, tem coisas que estão no livro que parecem ficção, como no trecho em que os protagonistas se hospedam em um puteiro em Taubaté e são informados que D. Pedro havia dormido lá. Parece mentira, mas a estadia do futuro imperador no bordel realmente aconteceu. Outro exemplo: Pedro, quando criança, costumava se entediar durante a cerimônia do beija-mão no palácio e se divertia dando petelecos no nariz das pessoas. Usei essa informação para explicar a razão do ódio de um dos personagens por ele. Outra informação real que parece mentira é a história da dívida de 12 contos de D. Pedro com um bodegueiro chamado Pilotinho, que surge no livro num encontro entre o agiota e Plácido, um amigo picareta do príncipe, que renegocia o débito e revela que sua origem está nos gastos de Pedro com uma amante francesa, a atriz Noely. Todos os personagens envolvidos nessa história são reais, assim como a dívida, mas a situação que vemos no livro é totalmente fictícia. Esse processo se repete em toda a obra, até na célebre diarreia que acomete Pedro às margens do Ipiranga, quando o leitor descobre que ele parou oito vezes para se aliviar e que tomou um chá de goiabeira numa estalagem em Cubatão para tentar conter a dor de barriga. Tanto as oito paradas quanto o chá estão documentados em relatos da época, mas é algo tão inusitado para um vulto histórico que até parece invenção.

 

DA – Daí que você pareceu se apegar a alguns outros acontecimentos marcantes, fartamente documentados, menos pitorescos e, até então, incontestáveis – a participação popular e heroica de alguns personagens, por exemplo, além da grandeza dos quase anônimos, habilmente convertida em ficção de qualidade em suas mãos. Em algum momento, você temeu ser tachado de ufanista, considerando que a Independência também está sujeita aos tais revisionismos?

VICTOR MASCARENHAS – Apesar de ser o recorte de um período histórico e ter como motor da ação os atos de vários personagens reais, o livro é uma obra de ficção. Meu trabalho como escritor foi atuar nas lacunas deixadas pelos documentos históricos, mantendo a coerência com os fatos. Os personagens e acontecimentos são narrados sob o ponto de vista mais humano possível, o que afasta qualquer leitura ufanista ou heroica ao apresentar razões bem pouco nobres para atos que sempre nos foram apresentados como algo grandioso. O que melhor exemplifica como o livro foi construído é a história da viagem dos mensageiros, que é o eixo central da trama. O único registro sobre ela é que durou cinco dias, que era menos da metade do tempo usual. Esse dado, somado ao fato deles irem sozinhos e sem uma escolta, já mostra que havia uma urgência e uma tentativa de passar despercebidos, o que já remete a uma missão secreta. O clima belicoso entre defensores de Portugal e da Independência adiciona perigo à receita e os relatos da mesma viagem, feita por D. Pedro semanas antes e que foi fartamente documentada, serviu de roteiro para a jornada dos mensageiros, assim como o impacto da passagem do príncipe por várias cidades forneceu as histórias que eles foram ouvindo pelo caminho. Esse mecanismo que cria situações fictícias a partir de fatos e personagens reais está presente no livro todo.

 

DA –   Em algumas entrevistas, você já falou que recorreu a outros livros para trabalhar a linguagem dos personagens. E essa pesquisa pareceu extrapolar um pouco a linguagem em si, influenciando também a técnica usada na sua escrita. Dessa forma, podemos dizer que seu livro possui também algumas características clássicas do folhetim, sem, contudo, perder a complexidade comum ao romance, ainda mais sendo o seu um romance histórico e fiel ao rigor dos fatos ocorridos?

VICTOR MASCARENHAS – A questão da linguagem dos personagens foi um grande desafio. Não podia construir os diálogos com o português contemporâneo e nem escrever como se falava 200 anos atrás, sob o risco de tornar o livro chato ou até incompreensível para o leitor. A solução que encontrei foi recorrer à literatura do século XIX em busca de expressões, palavras, gestos e comportamentos que ajudassem a criar uma linguagem estilizada para os personagens, que fosse crível como o português falado há 200 anos e compreensível hoje. Nessa pesquisa, acabei por revisitar vários clássicos da literatura brasileira que foram publicados em formato de folhetim, um formato que casaria perfeitamente com a estrutura do “Sete dias em setembro”, que é dividido em sete partes, uma para cada dia entre 2 e 8 de setembro de 1822. Então, esse ritmo de folhetim foi algo que a estrutura do livro já impunha de certa forma e que utilizei de forma estilizada, como fiz com a linguagem, para que o leitor tivesse a experiência de curtir a leitura como se estivesse na época dos eventos do livro, participando daquilo tudo.

 

DA – Essa pesquisa deve ter ajudado também na construção dos protagonistas, Bregaro e Cordeiro, imagino. Já que sobre eles pouquíssimos registros foram encontrados por você em suas investigações. 

VICTOR MASCARENHAS – Tudo que encontrei na pesquisa sobre os mensageiros Paulo Bregaro e Antônio Ramos Cordeiro foi que o primeiro era oficial do Supremo Tribunal Militar e correio-geral da Corte, e o segundo era major. Ou seja: eram personagens reais, mas suas biografias eram páginas em branco, o que abria espaço para a ficção. Como o ambiente da época estava polarizado entre liberais defensores da independência de um lado e absolutistas defensores de Portugal do outro, tive a ideia de colocá-los em lados ideológicos opostos. Bregaro, por ter um emprego no palácio e ser mais próximo da corte, pendia para o lado liberal e, como o exército era majoritariamente leal a Portugal, o militar Cordeiro seria um absolutista contra a Independência e um moralista que não gostava de D. Pedro pelo seu comportamento que desrespeitava a “moral e a família”. Essas diferenças entre eles criaram um conflito que permitiu dar maior profundidade aos personagens e também abriram espaço para estabelecer um paralelo com a polarização que vivemos no presente, dando um tom contemporâneo ao livro. A viagem da dupla, que vai descobrindo mais sobre o Brasil, sendo impactada pelas notícias e vendo o cenário se alterando ao redor deles, também se assemelha à clássica Jornada do Herói e serve de metáfora para a própria formação do nosso país que, aos trancos e barrancos, vai se entendendo e se ajeitando como pode para seguir em frente.

 

DA – Aliás, isso fica bem evidente no decorrer do livro: os personagens vão mudando diante dos conflitos e das descobertas ao longo dessa “jornada de heróis” (já pedindo perdão ao espírito do Campbell pelo trocadilho). Outra coisa é a aparição de alguns personagens, como o Baltazar por exemplo. Creio que sua aparição carrega um forte significado.  

VICTOR MASCARENHAS – Baltazar é um dos personagens fictícios do livro e tem um papel fundamental na trama. Ele é um ex-escravizado que trabalha como ferreiro e auxilia Bregaro e Cordeiro numa das paradas da viagem em que eles são atacados por militares contrários à Independência. A construção do personagem traz algo de mítico e místico para a história. Baltazar é um trabalhador altivo e um homem de fé, que traz na sua religiosidade uma marca genuinamente brasileira: o sincretismo religioso do candomblé. Baltazar entra na história para simbolizar o papel do povo brasileiro no processo da Independência, que foi para o campo de batalha em vários pontos do país e conseguiu derrotar um exército organizado e profissional, como era o português. O que veio depois disso pode não ter sido grandes coisas, mas o processo da Independência foi uma grande conquista.

 

Victor Mascarenhas / Foto: Ari Capela

 

DA – A atitude do Baltazar tem muito de coragem e nobreza, decerto. Mas o fato de ele ter sido libertado a pedido do D. Pedro não tiraria um pouco da beleza dessa metáfora, na medida em que, dessa forma, me pareceu algo concedido e não conquistado? Ou isso também foi intencional. Um tipo de simbolismo a nos mostrar que a liberdade sempre passou pelas decisões e conveniências de um governo ou de um Estado?

VICTOR MASCARENHAS – Há duas abordagens para responder essa questão. A primeira é que o ato de D. Pedro interceder para conceder a alforria a Baltazar entrou no livro para reforçar a informação histórica de que Pedro era contrário à escravidão. Há vários exemplos e citações sobre isso no livro, como a informação que ele concedeu alforria e terras para escravizados que viviam nas propriedades reais ou a transcrição de uma frase em que ele diz: “Eu sei que o meu sangue é da mesma cor que o dos negros”, por exemplo. Infelizmente, o fim da escravidão, que também era defendido por José Bonifácio, não veio com a Independência e esperou muitas décadas para ocorrer, mas como o meu livro termina antes mesmo da entronização de D. Pedro, acabo não abordando essa questão, embora deixe pistas sobre o que viria pela frente. A outra abordagem – sobre a liberdade passar por decisões e conveniências de um governo ou de um Estado – é mais pragmática. Há 200 anos, a única maneira de um escravizado ser libertado era se o seu proprietário concedesse a sua liberdade, assim como a única maneira do Brasil se emancipar de Portugal era apostar suas fichas em D. Pedro. A metáfora pode até perder um pouco da sua beleza com essa leitura que você aponta, mas era a realidade que o Brasil vivia naquela época e, mesmo sendo uma obra de ficção, não seria verossímil explicar o fato de Baltazar ser um homem livre de outra maneira.

 

DA – Seus livros anteriores prezam por temáticas mais, contemporâneas, digamos. E você já disse algumas vezes que “Sete dias em setembro” era para ter sido o seu segundo livro. Considerando que o seu primeiro foi no ano de 2008, e que os seguintes mantiveram essa linha “urbana”, pergunto: por que só tanto tempo depois você resolveu trabalhar nesse romance histórico e por que a escolha por esse tema?

VICTOR MASCARENHAS – A ideia do “Sete dias em setembro” é decorrente da minha obsessão por tentar entender o Brasil, o que me faz ser um leitor compulsivo de livros de história, ciência política, sociologia e o que me passar pela frente e possa ajudar. Cheguei a iniciar a pesquisa para o livro por volta de 2010, mas a história era um pouco diferente. O que me fez parar foram as dificuldades do processo, que exigia muito tempo, dedicação, pesquisa e uma maturidade que talvez eu não tivesse naquele momento. Sobre essa pegada mais urbana, acho que isso está mais forte nos meus livros de contos (“Cafeína”, “A insuportável família feliz” e “Um certo mal-estar”) do que nas narrativas mais longas, onde acabei construindo uma trajetória mais heterogênea. Meu primeiro romance, o “Xing ling”, é uma ficção científica distópica e meio farsesca, onde uma empresa chinesa compra o centro histórico de Salvador para fazer um parque temático. O segundo, “O som do tempo passando”, é mais intimista e se passa praticamente todo numa oficina onde uma banda de quarentões se reúne para tocar, alternando com flashbacks da vida dos personagens. Por fim, veio o “Sete dias em setembro”, que teve dois gatilhos fundamentais para ser escrito: o aniversário dos 200 anos da Independência em 2022, que forneceu o prazo, e a pandemia, que me trancou em casa e deu o tempo necessário para a pesquisa e a escrita.

 

DA – Agora, gostaria que você nos falasse sobre projetos e planos futuros: o que podemos esperar do escritor e/ou do roteirista (incluindo audiovisual e quadrinhos) Victor Mascarenhas?

VICTOR MASCARENHAS – Quero seguir trabalhando o “Sete dias em setembro” para levar o livro para mais pessoas, aproximar a obra dos estudantes e tentar ajudar a pensar mais sobre o Brasil. Outro objetivo é retomar projetos audiovisuais que foram interrompidos pelo governo anterior, que praticamente parou tudo no setor, e também começar a trabalhar em novos. Para a literatura, tenho uns contos na gaveta e muitas ideias rabiscadas que podem virar livro em algum momento nos próximos anos. A ideia é seguir escrevendo sempre.

 

 

Gustavo Rios é baiano e autor do livro Céu Ausente (Cepe Editora, 2023), dentre outros.

 

 

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152ª Leva - 02/2023 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

A “segunda natureza” de Santiago Fontoura

Por Gustavo Rios

 

 

Influenciado em certa medida por gente como Gullar, Bandeira e Drummond1, com alguma coisa da postura do João Cabral de Melo Neto, Antipática Lira, do escritor Santiago Fontoura, parece ter sido concebido a partir do observável e do trivial. O miúdo e o comezinho surgem como matéria e o ponto de partida desse trabalho. Lançado pela editora Segundo Selo, no livro percebemos o olhar do poeta que abarca o todo. Que o expande e o reverbera, sem vacilar em seu trajeto.

O poema Empada de Belém talvez seja um bom exemplo para tentar explicar essa minha primeira impressão: “Há eternidade nesta empada de Belém / (é que ela desperta em mim, / já na primeira mordida, / a certeza – que me foge nos intervalos / em que não degusto a guloseima – / de que a vida, somente a vida, / interessa)”.

Do simples ato de comer a iguaria de origem portuguesa, conhecida também como pastel de Belém, Santiago Fontoura desenvolve um dos fundamentos de sua escrita, que é: todo momento vale a pena; tudo merece atenção e questionamento; todo pequeno gesto contém mais do que mostra, e pode se eternizar para quem tem talento e firmeza.

Daí, as perguntas: qual o verdadeiro alcance da ideia que une, num corpo textual, a eternidade presente num momento tão comum (comer algo) e a comoção causada por esse mesmo momento? Talvez um devir em que a vida, “somente a vida” interessa, e que poucos conseguem expressar? Pensemos no ponto de partida, a empada (sim, a empada!). Na motivação que deu origem ao poema. Agora adicionemos o olhar certeiro do poeta (e o paladar também: a empada vale uma epifania, sim!).

Não é exclusividade de Santiago o uso de tal modus operandi, por assim dizer. Essa coisa de converter momentos imperceptíveis aos olhos cegos em literatura de qualidade já vem de longe, sabemos. E os já citados grandes poetas, assim como outros que também influenciam Antipática Lira e que desconheço, agiram ou agem dessa forma; flâneurs ou não, eles arrancam do banal algo maior do que se mostra.

 

O EU E O CABRAL

 

Quanto ao Cabral, na leitura que fiz do livro entendo que a influência do pernambucano reside na ideia da construção pensada. E numa diluição marota do “eu” sem resvalar para a frieza. Nem para a rigidez.

Santiago Fontoura, o tal “eu” dessa minha teoria amalucada, está presente como persona e pronome-da-primeira-pessoa, até, quando necessário, não escondendo a inquietação diante das coisas simples e de um mundo cheio de pressa e ruínas. Mas a forma escolhida para o texto dialoga com o leitor de perto, digamos. Sem firulas nem hermetismos.

Os chamados versos livres despertam um genuíno interesse pela apresentação e pela integração desses versos à construção do resultado final. Tudo flui, numa boa. Fontoura finca pé trabalhando com o trivial, com o alcançável em termos de linguagem. Contudo, apesar do uso de palavras corriqueiras, o poeta onsegue usá-las de uma maneira em que a cadência do texto, assim como sua força metafórica, instiga.

A tal lira surge não de forma esquemática: não cabe o tal decassílabo, muito menos uma estrutura “rígida de rimas consoantes” ou mesmo toantes, usadas pelo “poeta engenheiro” (o nosso João Cabral). Assim como não há a defesa peremptória de qualquer estilo, formalidade, modernidade fajuta, questionamento banal ou posicionamento estético que trave sua criatividade. Antipática Lira nos conquista pelo pungente, essencial no fazer literário, e por um tipo de clareza transcendente, fruto das escolhas de seu criador.

 

A POESIA QUE PERGUNTA

 

No caso de Santiago, o empenho é pela poesia como veículo de indagação sincera e expressão elevada, sem barroquismos. E esse talvez seja o seu trunfo, se levarmos em conta outra obra, Leitura Neon-reciclada, indicando a mesma linha – ao menos em relação ao tratamento formal e o intuito em se fazer uma literatura de respeito.

Vejamos agora se o exemplo abaixo consegue explicar o que digo: “Macho Ômega / “Ninguém sabe, / mas sou um homem triste. / “Desconheço as ternuras cotidianas: / grandes árvores centenárias, / beijo amigo sem escárnio, / música que somente o vento é capaz de reger. / “Trago entre as pernas uma angústia / – esta carne mole (que faz parecer / que apodreço) explicita que, de fato, / sou feito de camuflado tormento / e nenhuma sabedoria.”

Assim sendo, para melhor definir a visão de Fontoura talvez eu deva apostar minhas fichas no que o velhinho Pound um dia escreveu sobre a chamada “segunda natureza”2, em vez de vinculá-lo à obra Cabralina. Quem sabe seja mais próximo da realidade do que uma possível influência do pernambucano que, com seu belíssimo trabalho, deu “à vertigem, geometria”.

 

OS TEMAS

 

Quanto à temática, nas 122 páginas Fontoura reflete sobre muita coisa: religião, ao menos em seu aspecto humano (“Ratzinger”; “Oração”); o amor real, sem um traço de pieguismo sequer; a amizade franca e a questão do “macho”; a literatura e a sua relação com a vida; a própria vida em si (“Antibudismo”, um dos melhores); a política sem partidarismos (“Conclusão de um homem sem partidos ou legendas”); a paternidade; e, para encerrar, a relação dele com nossa cidade, Salvador, com suas ladeiras e idiossincrasias, sendo o poema abaixo um exemplo válido:  “A praia é o limite – e a cidade, então,/ chega ao fim: não há curvas, becos ou ladeiras. / Mesmo a pressa – tão típica –, mesmo a desordem / – inevitável –, assumem uma estranha distância / quando é a ilha o horizonte alcançável.”

Dando uma olhada no conjunto, penso que o autor consegue a proeza de ser cuidadoso na forma abarcando, com seu olhar atento, diversos conteúdos. Isso sem transigir no seu belo trabalho – fato que tornou seu livro um achado para mim. Santiago pode não ter inventado a roda, ao escolher trabalhar com elementos conhecidos (e acho que nem foi essa a ideia, para ser bem sincero). Mas sua escrita, extremamente pessoal muito por conta de sua personalidade, se mostram ao leitor como verdadeira poesia, entendendo (e estendendo) o termo da melhor forma possível.

Assim sendo, vos digo que, se um dia me perguntarem o que resta aos escritores contemporâneos, ficarei em dúvida entre o pastiche proposital e a cópia descarada – a falsa noção de que está se fazendo e se discutindo algo novo. E o poeta “antipático”, foco desta resenha, me pareceu não se perder, sabendo muito bem o que faz e para onde ir ao evitar ao máximo um desses possíveis extremos.

E caso algum dia me perguntem sobre o que achei do livro dele, acho que vou sugerir uma olhada no Ezra Pound3. Ao menos em alguns dos seus conceitos sobre o fazer literário, antes que meu interlocutor pense em julgar Santiago Fontoura. Ou supor que faltou ao cara arrojo e “novidade”.

 
1 Drummond: mais para a chamada “fase do não”, seguindo a crítica; Bandeira: “Estrela da Manhã” já resolve a parada. Gullar: na forma e na poética em si, desconsiderando a fase “partidão”.

 

2 “É precisamente aqui que tem lugar o sistema usual de sofismar com meias-verdades. De fato, as melhores obras provavelmente ‘brotam’, mas só DEPOIS que a técnica se tornou uma ‘segunda natureza’, e o escritor não precisa mais pensar em CADA DETALHE, da mesma forma como Tilden não precisa pensar na posição de cada músculo em cada lance de tênis. A força, o impulso, etc., seguem a intenção principal, sem dano para a unidade do ato.” Ezra Pound em Abc da Literatura, página 72.

 

3 Como disse um amigo escritor: “O livro é quase um manifesto e, pra isso, é preciso ler um pouco a história da literatura, onde estava e para onde ele queria levar. Depois tem isso da tradução. Bom, vencidos esses pequenos obstáculos, o livro flui na leitura ahahahaha”. A gargalhada é verídica.

 

Gustavo Rios é baiano e autor do livro Céu Ausente (Cepe Editora, 2023), dentre outros.

 

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152ª Leva - 02/2023 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Jussara Azevedo

 

“Céu ausente” é o terceiro livro de contos de Gustavo Rios, autor revelado em 2007 na coleção Rocinante, da 7Letras, onde publicou “O Amor é uma coisa feia”, e fez parte de um time de jovens autores, surgido na internet, com o interesse comum em narrativas curtas.

A coleção foi inspirada no selo “Cantadas Literárias”, da Brasiliense, e dava vazão a uma geração com vigor criativo, habituada aos computadores e ao universo dos blogs e revistas virtuais. Clarah Averbuck, Julián Fucks, Carola Saavedra, José Rezende Jr. e Veronica Stigger são alguns dos nomes que, ao lado de Rios, se destacavam neste cenário e continuam fazendo literatura até hoje.

Se uma canção do grupo punk rock paulistana Kleiderman batizaria o seu livro de estreia, o interesse de Gustavo Rio pela música não se resumiria a simples homenagens e citações textuais. Durante os anos de 2008 e 2009, junto com os escritores Wladimir Cazé, Lima Trindade e Sandro Ornellas, ele participou do coletivo C.O.R.T.E., realizando diversos “rockcitais” (algumas dessas apresentações estão disponíveis no YouTube) ao lado da Pastel de Miolos, banda icônica da cena punk e hardcore soteropolitana, e escritores convidados (Kátia Borges, Paulo Scott, Katherine Funke, Nelson Magalhães Filho e Leonardo Panço).

Em seguida, pela Mariposa Cartonera, publicou “Allen mora no térreo” (2015) e, “Rapsódia Bruta – poemas e outras brutalidades” (2016).

Sobre “Céu Ausente”, uma coletânea de 13 impactantes histórias onde Rios aborda temas como casamentos fracassados, solidão, delírios amorosos, medo e tédio, o crítico Maurício Melo Júnior, em uma resenha publicada recentemente no jornal Rascunho, disse: “Enfim, a literatura é a causa primordial de Gustavo Rios. Há denúncias? Sim. Aponta injustiças, também, mas não lamenta a condição inferior de quase todos seus personagens. Descreve a vida, e ponto. Sem beletrismos parnasianos fez literatura. Tudo é literatura em suas narrativas. E certamente aí está sua mais perfeita qualidade como escritor.”

 

Gustavo Rios / Foto: Solange Valladão

 

DA – O título do seu novo livro, “Céu ausente”, sugere uma perspectiva em que o destino humano está imune a soluções transcendentes para os seus problemas e impasses. A que se deve essa visão? Há nela alguma influência do pensamento de filósofos como Camus?

GUSTAVO RIOS – O título surgiu de algo mais simples: um poema de minha autoria. Ao final dele, escrevi “(…) a beleza passa longe / desse céu ausente / de gaivotas.

O estado de espírito do cara que escreveu o poema era bem semelhante ao do protagonista do conto que intitula o livro: um garoto de bairro tentando se firmar num mundo hostil. Esse cara amava os beatniks, andava lendo Bakunin e sonhava em cair fora num navio. No conto, ele conversa com o pai numa noite de outono, depois de ter levado uns socos na rua sem motivo. E entre cigarros sem filtro, divagações, um livro do Artaud e a janela do seu apartamento, ele percebe que não terá muitas chances.

E aí vem a beleza de sua observação, pois o título diz muito mais do que eu mesmo pensei. Ele vai além da cena do conto; da força contida nele. “Céu ausente” significa, sim, que em alguns momentos nada poderá nos salvar. Que estamos à mercê e que andamos imunes a quaisquer transcendências ou redenções. Por aí.

Gostaria apenas de frisar que todos os outros contos não possuem a mesma intenção. Nem o mesmo estilo. E que os protagonistas que aparecem ao longo das páginas passam longe do tal garoto de bairro. Isso seria maçante para mim e para o leitor.

Temos o filho pródigo, o marido entediado, mulheres que amam acima de tudo e casamentos fracassados; temos um homem que encontra o amor de sua vida num parque e James Brown tentando decifrar um pesadelo. Temos também um sujeito se descobrindo numa noite de chuva e um casal que se reencontra no Japão.

O livro é uma tentativa de enxergar a vida partindo de vários pontos. Com isso, cheguei aos treze textos. Cada um com seu universo, sua estrutura e suas mensagens involuntárias, pois não acho que a literatura deva ter esse tipo de obrigação.

Em resumo, posso afirmar que “Céu ausente” é um belo título e diz tudo isso aí que você bem pontuou. Mas não é o único mote para o conjunto que surgiu.

Quanto ao Camus, creio que suas ideias atravessaram o tempo. E por serem poderosas, contemplam e contaminam parte da literatura feita ainda hoje, a gente goste ou não.

Não foi diferente comigo. Sua filosofia pode ter vindo até mim de forma indireta ou enviesada, e está tudo bem. “O estrangeiro” me marcou profundamente, assim como “O muro”, do Sartre — e ambos meio que jogam no mesmo time, sendo o argelino um excelente goleiro. Contudo, não me recordo de ter ouvido a sua “voz” durante meu trabalho. Não conheço profundamente os seus textos, o que é um grande vacilo de minha parte.

 

DA – Quando você adota o título do conto para o livro, demonstra o quanto essa imagem é potente, ultrapassando em muito o verso do poema. São novos contextos e significados a partir desses deslocamentos. Penso que, para além das mudanças de estilo, temas e perspectivas das histórias, “Céu ausente” também confere responsabilidade (consciente ou não) às escolhas de suas personagens. Estou errada?

GUSTAVO RIOS – Está certa. Falei sobre algo parecido em outras entrevistas. Sobre os meus personagens se encontrarem em situações limite e tendo de fazer escolhas, incluindo a de desistir. Essa ideia do limite é uma das características em “Céu ausente”. Não a única.

Meus personagens podem optar por nada fazer, pois escolher nem sempre significa agir, ou podem desejar mudar a vida drasticamente. Colocar o ser humano cara a cara com situações extremas é o tipo de recurso que admiro na literatura. Para mim, boas histórias possuem esse atributo.

Fugir de casa usando os olhos do Borges recortados de uma foto, ou colocar uma armadura para encontrar seu grande amor numa manhã de sol? Ficar na praia dos primeiros encontros e aguardar seus ossos virarem pó sob o efeito do salitre, ou se entregar a alguém numa noite de luxúria com “o azul mais puro represado nos olhos”? São escolhas feitas por cada um. Conscientes ou não.

E para cada um, uma falta, uma ausência; até mesmo do céu, das tais gaivotas. Dessa falta vem o deslocamento. Desse movimento para fora, o tal deslocamento, surge a impossibilidade que pode se converter num tipo de liberdade ou numa prisão.

Ao perderem qualquer tipo de esperança, meus protagonistas fazem escolhas. Sempre pungentes e irrevogáveis. Coube a mim trabalhar arduamente a linguagem e mostrar isso ao leitor.

 

DA – Essa condição limite, que você alude com precisão, também se faz presente nos seus dois livros de contos anteriores, “O amor é uma coisa feia” e “Allen mora no térreo”. Neles, você equilibra o peso dramático com doses de humor e muita ironia. Já em “Céu ausente”, eu sinto que o acerto da balança se dá pelo lirismo, um olhar menos judicioso em relação às vidas ali apresentadas. Você sente uma evolução ou amadurecimento no seu modo de narrar?

GUSTAVO RIOS – Com certeza. Essa maturidade deriva de diversos fatores. Uns óbvios e outros nem tanto. Dos óbvios, listo o mergulho em novos autores. Além das vivências pessoais em geral. Dos nem tão óbvios, acho que, com o passar dos anos, eu perdi a fé na ideia de que escrever é um processo “mediúnico”.

É uma ideia engraçadinha, mas explicável: durante muito tempo, acreditei que a escrita era um processo totalmente baseado em inspiração, nada mais. Acreditava que qualquer tipo de intervenção nesse contato com o “plano astral” arrancaria a carga emocional e vital de meus textos.

Nada disso! A linguagem é o veículo, digamos. É com ela que devemos trabalhar. Tratá-la com dignidade. Entender que o leitor é um outro. Diria até um objetivo, pois queremos ser lidos — algo diferente disso é ser um mentiroso patológico ou um louco; não cola esse papo de escrever para si mesmo. Precisamos encantar essa pessoa sem nome nem rosto. Fazer que ele nos siga e se comova.

Ao acreditar nessa mediunidade, o temor era perder o “caráter intenso e sufocantemente humano” de minhas histórias, usando aqui uma ideia do britânico E. M. Forster quando fala sobre o romance. Entretanto, aprendi que devemos “sacrificar o papagaio” algumas vezes. Coisa que o Poe fez lá atrás, ao trocar o papagaio pelo corvo (imaginem!).

Essa busca, que passa pelo trabalho com a linguagem, não deve nos ferir, todavia. Não aceito qualquer coisa pra agradar essa figura mítica, necessária, cruel e silenciosa. Temos de ter um limite, um acordo. Meus contos têm de estar encharcados de vida. Não negocio nada menos. Fora disso, escreveria coisas e as enfiaria na gaveta, numa boa. É preciso acreditar num tipo de harmonia, manter a vitalidade do conto e da história que é o motivo único dele surgir.

“O amor é uma coisa feia”, por exemplo, é de 2007. É enxuto, franco e menos lírico. Mas foi o meu melhor na ocasião, nada mais. Já o “Allen mora no térreo” tende a ser mais longo. Corri alguns riscos na busca de uma voz lírica adequada. E, bem, nem sei se consegui o que desejei em todos os seus contos, sendo bem franco. Mesmo assim, amo os dois. Assim como o de poesia, “Rapsódia bruta: poemas e outras brutalidades” e as participações nas coletâneas – falo dos contos “Ernest”, presente na coletânea “Tempo bom”, e “A noivinha do Cabula”, da coletânea “As baianas”. Todos eles são etapas de minha busca. Que só está começando.

 

DA – Acredita na máxima “é fácil escrever difícil e vice-versa”?

GUSTAVO RIOS – Para um escritor, será sempre difícil, ainda que ele deseje facilidades. E não me entenda mal; não se trata de dramatizar a coisa toda. Quero apenas lembrar que, onde há intenção e certo grau de transcendência, há trabalho a ser feito. Dificuldade, portanto.

Todo escritor nasce vocacionado, está sujeito a epifanias e tem seu olhar mais aguçado para o que supostamente é banal. Se ele irá converter esse poder em ofício e se denominar escritor, é outra conversa. Para ele, a literatura deve ser resultado de sua intenção. Sem intenção, nada feito.

Sou filho dos quadrinhos, da coleção “Vaga Lume”, da televisão, dos beats, dos fanzines, da música e do cinema. E tudo isso me levou a buscar a literatura. Em algum momento, entendi que escrever era maior.

Parte dessa escolha foi enxergar o real alcance da minha vocação. Foi quando comecei a escrever poemas, textos, roteiros de HQ nunca publicados e bobagens para, em seguida, tentar vencer alguns cânones, numa tentativa de aprimoramento. Lembro agora de quatro: António Lobo Antunes, Faulkner, Joyce e Cervantes.

O primeiro é fabuloso; parece reinventar a literatura a seu modo. É denso e inigualável. O segundo não foi tão complicado quanto parecia. Precisei, sim, de concentração e de entrega. Levei tempo, mas o admiro demais pela força de sua obra.

O terceiro, Joyce, ainda hoje luto com empenho — no caso do “Ulysses”; os outros foram devidamente lidos e admirados —, mas tento encontrar um caminho para chegar ao real motivo que faz essa obra repercutir até hoje. Já Cervantes, consegui vencer suas mil e tantas páginas, da tradução do Sérgio Molina, sempre curtindo e tentando captar a essência.

E, bem, por que eu lhe falo isso, mesmo correndo o risco de parecer um boçal? Digo pelo fato de que eu desejo enxergar o que cada um deles realmente buscava. Quais eram as suas intenções e como foi que eles conseguiram.

Então, respondendo a sua pergunta, creio que escrever será sempre difícil, no sentido de ser trabalhoso e árduo. Mas não enxergo isso como flagelo.

 

DA – Outro ponto curioso está no uso que você faz do tempo e do espaço da narrativa. A maioria dos seus contos dispensa a intriga, o enredo mirabolante e um efeito surpresa, concentrando-se na carga dramática das situações limites que já falamos. Há momentos que me remetem ao teatro. Você aprecia o gênero? É leitor de dramaturgia?

GUSTAVO RIOS – Aprecio o gênero e já li algo dos grandes dramaturgos e poucos contemporâneos, como o Artaud, citado no conto que dá nome ao livro, o Nelson Rodrigues, fabulosamente obrigatório para escritores, tudo da Hilda Hilst e o Matei Visniec. Quanto ao tempo e ao espaço da narrativa, fiquei intrigado com sua observação. Pois não me passou pela cabeça que eu poderia estar me aproximando de qualquer técnica de dramaturgia, seja ela clássica ou mais arrojada. Achei curiosa sua observação, por não enxergar muito de teatro no que faço.

 

DA – Quanto à matéria-prima de seus contos, a maneira como você descreve a vida e o cotidiano pequeno burguês, evoca para mim muito de Nelson Rodrigues. Em sua opinião, o que mais mudou na vida privada brasileira do século 20 para cá?

GUSTAVO RIOS – Na essência, quase nada. Continuamos hipócritas, temerosos, crédulos, esperançosos e egoístas. Traímos, buscamos a felicidade e sonhamos com dias melhores. Parte de nós deseja a Revolução Bolchevique — contanto que não invadam nosso quintal num belo domingo de sol e “churras” —, enquanto a outra espera que Jesus resolva finalmente voltar e, num singelo movimento de mãos, arranque todo o mal desse mundo, menos o praticado por nós.

Em resumo: a vida privada é uma fonte sem fim para escritores. Pode ser para um enredo, uma cena, um personagem. E o Nelson sabia se aproveitar disso. Devo muito a ele, sem dúvida.

O ambiente familiar do menino Cipriano, do conto “O encontro”, foi fácil de construir. Assim como a angústia do esposo em “Margherita”: quantos homens e mulheres não passaram por aquilo, e “ainda, ainda, ainda…” seguem casados? “Céu ausente” é meu pai, obviamente reconstruído para o leitor, enquanto “Cadelinha” poderia ter sido algum vizinho meu. Por sua vez, “Chuva para dois” é um apanhado de amigas e mulheres que conheci. E “O menino dança” tenta falar sobre a morte do garoto João Pedro no ano de 2020, no Rio de Janeiro, o único conto baseado numa notícia.

A vida privada me interessa na medida em que, por ser um tanto secreta, permite que nosso verdadeiro sujeito venha à tona.

Quanto a nossa evolução, acho que do século passado para cá evoluímos. Mas não o suficiente para nos tornarmos seres isentos de brutais contradições. Como falei acima: somos seres humanos. Continuemos!

 

DA – Como foi a experiência de estrear pela Rocinante, coleção da Sete Letras onde passaram diversos autores hoje badalados como Carola Saavedra, Julián Fuks e Ana Paula Maia, dentre tantos?

GUSTAVO RIOS – Foi minha primeira relação com uma editora. Até então, eu publicava em sites, blogues e em fanzines. E foi uma experiência bacana, um aprendizado. Parte da postura citada na outra pergunta veio desse momento: entender a importância de se editar, de selecionar, do corte, dos tais sacrifícios. Tive uma liberdade imensa no resultado final. Mas era algo discutido e proposto. O “bater do martelo” era meu, incluindo a ideia da capa.

Além do mais, foi um salto; o que chamam “furar a bolha”. O livro saiu nacionalmente, tendo sido divulgado em diversos jornais. Algumas resenhas surgiram, resultando em convites para publicação de outros textos meus. A Rocinante foi um marco. Tanto para mim, quanto para vários escritores, incluindo os que você citou. Tenho certeza que eles concordariam.

 

Gustavo Rios / Foto: Solange Valladão

 

DA – Você (e uma boa parte desses autores) migrou dos blogues, onde reinava total liberdade criativa, para as páginas impressas. Como avalia o papel das redes sociais como incremento para a independência do pensamento artístico na contemporaneidade? A internet foi domesticada aos interesses do capital ou ainda possibilita a rebeldia?

GUSTAVO RIOS – De fato, havia uma grande liberdade ali. Porém, como antes eu publicara fanzines, essa liberdade já me era comum. A gente podia roubar citações do Nietzsche, fotos do Duchamp e do Dali, bem como poemas do Murilo Mendes e do Chacal. Ao lado colocávamos nossos escritos, tirávamos cópias e isso era vendido a um real na Praça da Piedade; ou menos que isso, não lembro. O que o blogue nos deu foi um alcance infinitamente maior.

Quanto às redes sociais, digo que elas são ferramentas importantes. E pelo mesmo motivo dos blogues: alcance para qualquer artista, não só os escritores. No aspecto da independência, creio que as redes ajudam bastante, apesar de serem espaço para todo tipo de baboseira. Mas são meras ferramentas. Nada mais. E assim devem ser tratadas, iguais ao papel, as máquinas Olivetti, os fotocopiadoras, as impressoras offset, o lápis e a caneta. Só acho que não devemos acreditar piamente que esses suportes não sofrem vigilância e censura.  Daí essa liberdade pode estar comprometida.

 

DA – E depois, com a Mariposa Cartonera, como foi? Você já conhecia a proposta do movimento cartonero antes do convite? Alinha-se com as causas verde e ambiental? Nutre algum tipo de filiação política?

GUSTAVO RIOS – Filiação política, sim. Nunca a partidária. Aprendi com os anarquistas. Meu conhecimento dos ideais “anarco” me ensinou sobre essa estrutura de poder que muda a cara, mas não a essência. Mesmo assim, não acho que votar nulo seja um caminho. Ainda…

Fui contrário ao antigo governo, uma canalhada sem tamanho. E tenho votado na esquerda há décadas, esperando que ela aja como tal, apesar das evidentes melhoras de uma maneira geral.

No movimento cartonero, cada livro é verdadeiramente único. Pequenas obras de arte. Não só pelo conceito, mas pelo resultado final. “Rapsódia bruta: poemas e outras brutalidades” e “Allen mora no térreo” possuem capas fantásticas. Uma nunca sendo igual à outra; e isso é incrível – fora a encadernação e a proposta. Fiquei realmente lisonjeado com a chance de publicar dessa forma.

Sobre a causa ambiental, obviamente me alinho com suas pautas, por entender que, sem nenhum tipo de atitude, teremos um futuro terrível em todos os aspectos. E gostaria de ser mais atuante nessa luta.

 

DA – Você sente que seu trabalho tem alguma marca geracional? Identifica-se com alguma vertente da literatura brasileira realizada hoje?

GUSTAVO RIOS – Gostaria muito de dizer que não carrego marca alguma, e isso seria o máximo. Caso fosse verdade, eu seria uma bela exceção, quiçá um gênio – dois ou três degraus acima do restante do mundo, olhando já para o futuro, ou pra um espaço além do tempo.

Os anos, os fatos, a política e a vida em si: como fugir desse poderoso conjunto? Como negar que produzo e me comporto sob, e não sobre, a força dos fatos da história que não para de nos surpreender em seus repetidos erros? Seria prepotente e falso.

Uma geração pode compartilhar angústias, mas a resposta sempre carrega algo de pessoal. Dessa forma, creio que eu possa ter algo comum com outros escritores; não vejo problemas nisso. Contudo, e francamente, não consigo identificar padrões de trabalho com algum grupo. Ao menos na forma, pois as temáticas tendem a se repetir, independente da geração.

Toco no assunto da temática porque suspeito que todas as histórias já foram contadas. Do amor. Das viagens. Das guerras. Porém, pela forma de dizer, eu posso dar uma resposta particular. E com isso pretendo cravar algo meu na literatura. Sei que essa marca também é resultado de influências, de outros antecedentes. Mas não estou inventando a roda. Estou tentando embelezá-la mais um pouco, quem sabe.

 

DA – No conto “O menino dança”, você faz de James Brown personagem. Já em “Caso você fique”, a música de Jimi Hendrix serve como exemplo para uma vida ideal. Em seus livros, as referências musicais são constantes e nada gratuitas. Qual a importância da música pop na sua formação de escritor?

GUSTAVO RIOS – Em 18 de maio de 2020, o garoto João Pedro foi morto numa operação policial no Complexo do Salgueiro, no Rio. Os familiares só encontraram o corpo 17 horas depois. Por essa época, George Floyd morria asfixiado por um policial que colocou o joelho em seu pescoço, em Minesotta. Certa noite, enquanto eu escutava as duas notícias na televisão, por acaso rolava numa playlist “My Thang”, do James Brown. Assim surgiu a ideia do conto “O menino dança”.

“Caso você fique”, escrito há mais de uma década, foi resultado do término de um relacionamento conturbado.  Ela havia acabado de sair de meu apartamento. Resolvi que “Spanish Castel Magic”, do Hendrix, ajudaria a melhorar o meu estado. Sentei e escrevi a primeira versão. Os vizinhos não gostaram daquilo às sete da manhã de um domingo.

“Japão” foi totalmente inspirado numa música chamada “Polaroid”, da banda baiana “A Flauta Vértebra” (por sinal, título de um poema do Maiakovski). Depois do primeiro rascunho, foi só arrumar. “The Day After” surgiu depois de ter assistido “Amacord”; escutei Nino Rota, que não é pop, durante as primeiras versões.

Em resumo: dentre outras fontes de inspiração, a música pop é uma das mais importantes para mim. Mas não só ela: já escrevi poemas ouvindo Piazzolla, já criei contos ao som do Ravel, e o meu primeiro livro tem como título o nome de uma música, “O amor é uma coisa feia”. Uma pancada “roquenrol” de poucos minutos.

 

DA – E como se deu sua descoberta da arte? Recebeu algum estímulo na infância?

GUSTAVO RIOS – Não sei te dizer, com franqueza. Eu acho realmente que escritores nascem com a vocação. E que a seguem, com maior ou menor intensidade. Ou as ignoram e seguem suas vidas. Plantando tomates ou vendendo seguro de vida. Quanto aos estímulos, poderia citar aqui as revistas em quadrinhos que ganhava sempre de meus pais. Além de um punhado de amigos de infância que adoravam desenhar super-heróis tentando salvar o mundo em ruínas.

 

DA – Pra finalizar, conte-nos quais são seus projetos futuros. Está trabalhando num novo livro?

GUSTAVO RIOS – Sempre tenho contos para arrumar, além do esboço de uma novela que vai levar bastante tempo para ficar pronta. Preciso rever, cortar, essas coisas. Enquanto isso, continuo trabalhando duro na divulgação de “Céu ausente”, que é, sem sombra de dúvida, o meu melhor livro. Até agora.

 

 

Jussara Azevedo é carioca, graduada pela Escola de Belas Artes da UFRJ e cursa mestrado em Letras na USP.

 

 

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150ª Leva - 05/2022 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Do mimeógrafo ao Arnaldo

 Por Gustavo Rios

 

Emoções em trânsito é o mais recente trabalho do escritor gaúcho Ricardo Mainieri, publicado pela Patuá. Ricardo, que além de poeta nascido nos “loucos e áridos anos sessenta”, é publicitário, aparenta prestar um genuíno tributo justamente aos tais-e-loucos anos sessenta, que cresceu muito bem nos setenta e desembocou com moral e pompa nos oitenta (ajudando a criar a geração oitentista, chamada “Geração Mimeógrafo”). Ao buscar referências desses períodos para o seu trabalho, do ritmo rápido e dos trechos curtos, tipo um Leminsky ou um Torquato, às temáticas, Mainieiri consegue nos trazer um bom livro.

Dividido em partes, situação que agradará o leitor, no sentido de que serve como guia para o conjunto de textos que seguem (dentro da proposta), Emoções em Trânsito se apresenta de forma coerente. A concepção de se fazer uma poesia leve, simples, direta e sem barroquismos ou classicismos, mas com alguma profundidade, deu o tom da obra.

Podemos começar pela primeira parte: “Poiesis”.

Já no primeiro poema, percebemos a forma e a intenção do autor para seguir em frente. O texto, chamado “Minor poet” pode ser definido como uma boa apresentação: “sou poeta / de palavras escassas / imagens esparsas / meios-tons / não me imponham /  a audácia da lâmina / nem o incêndio dos versos / prefiro o reverso / lado alvo da lua / melodia de sílabas / com cadência e refrão / sou poeta menor / confesso / mínimo e lírico animal / a ode e o épico / ficam bem para Homero / sou mero homem comum.”

Podemos ver de cara que a escrita do Mainieri possui, sim, qualidades. Na aparente busca por um tom, tendendo mesmo para a musicalidade (como um bom letrista de rock and roll, por exemplo), a gente consegue também fisgar, aqui e acolá, preciosidades que acabam por validar o conjunto.

Vejamos a seguinte frase: “não me imponham / a audácia da lâmina / nem o incêndio dos versos”. Agora, vamos prestar atenção à carga poética contida aqui.

Como uma boa escrita sempre sugere, ao se esquivar do que ele chama “audácia da lâmina” ou de um “incêndio dos versos”, podemos nos perguntar (foi o que ocorreu comigo) o que o poeta deseja: fugir de um lirismo tacanho e/ou escrever sem amarras, evitando o corte (lâmina)? A recusa de “ser” um Homero para ser “mero homem comum” talvez nos dê algumas pistas.

Desse modo, posso dizer que todos os seus poemas seguem essa estrutura, digamos. Mesmo as que pertencem aos outros blocos temáticos (“Menoridade”, “Viagens atemporais”, “Biodiversidade”, “Eros tropical”, “Inventário das horas”, “Urbanagonia” e “Paisagem dilacerada”), carregam essa mesma musicalidade.

Entretanto, ainda que enxergue um fio condutor ao longo das páginas, não seria correto afirmar que ele se repete infinitamente. Conforme já dito acima, a divisão por temas foi de grande ajuda na leitura que fiz. Para cada parte, o escritor buscou uma forma.

Em “Menoridade”, por exemplo, o segundo bloco, Ricardo nos confronta com perguntas mais profundas e pessoais. A diferença é que os questionamentos parecem surgir do ponto de vista de uma criança. Como alguém (uma criança, no sentido metafórico da coisa, por supuesto) que se pergunta (e pergunta ao próximo) sobre o sentido da vida.

Vejamos o exemplo a seguir: “tarde / de domingo / depois do almoço / do futebol / e do programa televisivo / o menino / se pergunta / sobre a vida / é só isso?”.

Notem que a linguagem se converte em fala. Fala de uma criança, de alguém que perscruta o mundo ao redor com passos iniciais. Ideia que pode muito bem se justificar pelo título: “Precoce Filosofia”. Essa mesma voz, suposta e docemente infantil, representa a busca por respostas. Ou talvez a busca por mundo menos ordinário (o mundo que “podia ser / – quem sabe – / um recanto ideal”).

Em “Viagens atemporais” é o tempo que lhe dá guarida e mote (elementar, meu caro Watson!). E aqui mais uma vez o poeta consegue um resultado interessante, com destaques (trechos) louváveis em alguns poemas: “relâmpago que corta / a moldura da face / num sorriso”; “alguns projetos / viraram frutos / outros inútil / semeadura”.

A noção de que quanto mais lemos, mais profundo o texto fica pode ser defendida com alguma moral. Porém, a profundidade no caso não seria necessariamente uma viagem “para dentro”, aquela introspecção chatinha e ininteligível. Mainieri amplia o escopo de seus temas. Como no bloco seguinte, chamado “Biodiversidade”, um das mais interessantes se não pelo tema (necessário, mas amplamente conhecido), pela forma (Ricardo aqui arrisca “tipo uns haicai”; e podemos dizer que ele acerta): “noite compacta: / é de néon cintilante / o trajeto que a lesma traça” (“Natureza”); “flores lilases / no espelho do dia / apaziguam o olhar” (“Ipês”); “em teu verdeazul / ancoro meus olhos / ainda preservados” (“Mata Atlântica”).

“Eros Tropical”, de cunho fundamentalmente sensual (alguma dúvida, meu caro Watson?), talvez seja o bloco que menos instiga o leitor, apesar da tentativa louvável do autor em trazer à tona imagens com tal pegada. Nos textos que compõem essa parte, o que percebi foi uma certa repetição de clichês. Algo que poderia ter sido subvertido (a-subversão-da-subversão, se considerarmos o tema “sexo” como um tabu) na tentativa de se descolar da comum abordagem.

Em “Inventário das horas”, o seguinte, com certeza o que mais exigiria de qualquer artista pela importância do assunto, encontramos um escritor bem tranquilo e seguro de seu labor. E aqui, mais uma vez, fisgamos trechos que merecem destaque pela carga poética contida: vide “Tempo Atroz”, “A Face do Espanto”.

“Urbanagonia” e “Paisagem Dilacerada”, ambos com alguma semelhança entre si, só ratificam o talento do Ricardo Mainieiri. Sob um olhar francamente crítico diante das mazelas do mundo (incluindo o caso da Boate Kiss), o escritor mantém o prumo.  Abordando desde o consumo que norteia boa parte de nossas relações à política (“Mais-valia”). Desse modo, Mainieiri nos coloca frente a frente com questões urgentes.

Portanto, ainda que a gente possa enxergar o uso recorrente da forma e da estrutura (mas não ad infinitum, bom frisar), como se os poemas servissem apenas de justificativa para um suposto gran finale (a frase de impacto; a derradeira), creio que o Emoções em Trânsito irá agradar bastante aos que, assim como eu, gostam de poesia. Ainda mais sendo daquela de certa forma vinculada à moçada da chamada “Geração Mimeógrafo”. Ou mesmo semelhante ao experimentalismo bacana e benquisto de um Arnaldo Antunes.

De minha parte, posso dizer que gostei do cara. E que venham mais coisas desse interessante poeta porto-alegrense.

 

Gustavo Rios é baiano e autor do livro Rapsódia Bruta (Mariposa Cartonera, 2016), dentre outros.

 

 

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149ª Leva - 04/2022 Gramofone

Gramofone

Por Gustavo Rios

 

ANDRÉ LISSONGER – CANÇÕES DEMO SESSIONS 2

 

 

Apesar de ter sido feito durante a terrível situação da pandemia, CANÇÕES Demo Sessions 2, novo trabalho do músico André Lissonger, passa longe de ser um álbum sombrio e tristonho. Ou mesmo uma reunião de anêmicas bravatas “roquenrol” contra o establishment que matou mais de meio milhão.

Com uma bela capa criada pelo próprio, também artista plástico, CANÇÕES Demo Sessions 2, lançado pelo bravíssimo selo Trinca de Selos no começo de 2022, é composto por um apanhado de músicas sensíveis, cativantes e melódicas que elevam ao extremo as composições nela inseridas. Cheio de efeitos que emprestam ao trabalho aquela característica classuda e etérea (scratches instigantes, loops certeiros, vozes dobradas e ruídos meio “outonais”), as 11 faixas do álbum sofrem influência de muitos gêneros, com destaque para o Trip Hop, oscilando numa boa entre os londrinos do Morcheeba e a moçada arrasa-quarteirão da portuária e multirracial Bristol (Tricky, Massive Attack, Portishead; só para ficar na turma dos anos noventa).

Valendo-se também da onda Lo-fi, com sua mistureba relaxante de hip hop, música eletrônica e jazz, André nos surpreende tendo como princípio o espírito “demo” da coisa; espírito que pressupõe arrojo, genuína disposição para experimentar e uma boa dose de liberdade nas escolhas em geral (a vinheta “Olha, Mas Não Mexa” é um exemplo, pela “incitação” a “Girl From Ipanema” de Anitta).

André Lissonger, figura tarimbada no panorama musical baiano, com participações em diversos projetos e bandas, se trancou em casa com seu “estúdio de bolso” (nada menos que o celular pessoal da artista com uns aplicativos geniais) e decidiu viajar. Viajar para dentro – apesar da pompa do release sobre “um olhar sob a tempestade do ‘status quo’ do consumismo e sua quintessência”, ainda defendo a tese do intimismo; mais pertinente, na moral. Da necessidade de criar arranjos para as belas composições de gente como o irrequieto Tony Lopes e do também artista gráfico Joniel Franco (sem falar no “poeta das coisas simples”, Mário Quintana), esse carioca-baiano conseguiu o que, para mim, tem jeitão de proeza: converter imperfeição (basicamente a ideia de um “demo” feito num celular) em música de indubitável qualidade.

 

André Lissonger / Foto: divulgação

 

Explico: hora ou outra, o ouvinte se depara com uma voz que parece desafinar, ou mesmo com letras aparentemente ingênuas e mal trabalhadas – noções para lá de equivocadas. Entretanto, e curiosamente, foi esse combo inusitado e inteligente que me chamou a atenção logo de cara. Lissonger me fisgou pela visão do todo, pelo talento na criação e na execução das músicas, pela consciência do resultado de seu labor (a voz que supostamente desafina tem um motivo, é fruto de uma escolha, de uma concepção) e pelo já citado incomum, fatores que me fizeram pensar a obra inicialmente em termos de experimentalismo.

As letras (ou poemas) se encaixam perfeitamente nos arranjos e vice-versa, numa simbiose merecedora de elogios – e que só o fazer musical proporciona. Temos o hermetismo poético em “Topázios”, passando pela extasiante “Flutuando Sonhos”, do Tony Lopes (“A rua ruge os seus barulhos / Acalenta saudades / Ela livre apenas ri / Com os olhos no Louvre / Sinuosas linhas / Sombras / Com um sol a se opor / A solidão / Quatro paredes / Portas e janelas / Abertas / Como o sorriso / Da Mona Lisa”).

Em “Leblon” percebemos a cadência charm com um piano, enquanto na adaptação musical do texto de Mário Quintana, “Canção do Primeiro do Ano”, a batidinha meio downtempo (considerando o conceito dos 120 bpm’s; aqui bateu 82, 83, de boa) segue abrindo caminho para a complexidade do baixo e para os efeitos de uma guitarrinha wah wah, não na maneira usada no rock e no blues, por exemplo: aqui, a guitarra surge como textura e reforço à atmosfera do som.

Dessa forma, ainda que o baiano-carioca (a ordem dos fatores não altera o produto) André Lissonger não tenha pensado em experimentalismos no decorrer de seu projeto (conceitos e abstrações que só nos levam a labirintos chatos e falsamente intelectuais; o lance é fazer boa música e pronto!), o resultado de seu trabalho me causou aquele tipo de sentimento em que a gente se vê diante de algo novo, mesmo conduzido por elementos já conhecidos – a ideia de um artista em seu estúdio (celular, no caso) criando novos sons sob o método conhecido como bricollage, ou bricolagem, me agradou bastante.

Assim, mesmo que minhas ideias sobre pandemia e experimentos musicais pareçam forçar um pouco a barra na tentativa de explicar CANÇÕES Demo Sessions 2 sugiro que você, querido leitor, escute o cara. E o conheça. Quem sabe você, assim como eu, acerte as contas com a história musical, já que Lissonger está por aí há décadas. Fazendo coisas que valem demais a pena.

Torço pela longevidade dele. E de sua boa música também.

 

Gustavo Rios é baiano e autor do livro Rapsódia Bruta (Mariposa Cartonera, 2016), dentre outros.

 

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146ª Leva - 01/2022 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

UM CARA CHAMADO JOÃO

 Por Gustavo Rios

 

 

Geralmente, é assim: o escritor, num ato solitário e meio transcendente, trabalha para, num outro extremo, ser lido por alguém que muitas vezes nunca o encontrará, mas que precisa ser um cúmplice, apesar da distância. Dessa forma, suponho ser assim também com o cronista que, entre outras coisas, mistura fatos com percepções e sentimentos para seguir em frente com seu trabalho.

Resolvida a introdução desta resenha, venho dizer que Quando a luz do sol desaparecer nada vai se alterar no universo, do jornalista e escritor João Mendonça, pode, sim, ser considerado um bom livro de crônicas conforme a sua catalogação. Mas não apenas isso.

Nas 122 páginas da obra, publicada em 2018 pela Via Litterarum Editora, temos o protagonista que se mostra solitário e que usa do expediente comum aos cronistas (o trivial como inspiração) para escrever. Como o autor afirmou em seu site, Quando a luz do sol desaparecer nada vai se alterar no universo foi todo produzido “sem a intenção de transformá-lo em livro. Todo ele foi escrito entre 2015 e 2017. Nesse período, eu adquiri o hábito de escrever antes de dormir, deitado na cama”, atitude que cabe numa boa nesse gênero textual de possível origem francesa.

No livro, porém, é evidente a busca pelo melhor texto, o que refuta um pouco a tese defendida por ele sobre não ter a intenção de publicá-lo. Mesmo que essa busca seja algo inconsciente, naquele esquema do fluxo, enxergamos claramente uma vontade, por assim dizer. Além de percebermos um encadeamento de escolhas e gostos, principalmente na relação de Mendonça com a cidade que o cerca e, de forma mais particular, com o seu bairro, o tradicionalíssimo Corredor da Vitória.

Usando como ponto de partida uns bocados de seu cotidiano – frequentar a banca de jornais; tentar conversar com um italiano antipático, enquanto a baiana do acarajé trabalha; a visita de um sobrinho -, conforme uma das “regras” da crônica, desse mesmo ponto de partida surge uma escrita que se mostra muitas vezes etérea. Os textos do Mendonça tendem ao poético, meio no sentido clássico da coisa (plenitude, essas coisas), talvez ligados a um dos conceitos gregos de poiésis que fala sobre a disposição em criarmos algo belo a partir do sentimento e da imaginação (1).

Pois, conforme o próprio Mendonça, as “palavras quando são colocadas de maneira errada precisam ser corrigidas antes da primavera”, no que conclui: “O erro da palavra é o erro da vida”.

Caso prefira, o leitor pode ficar com a ideia do Quintana que fala sobre os poemas (uma das manifestações da tal poiésis) terem ritmo “para que possas profundamente respirar”.

No caso de Mendonça, respira-se bem. Muito bem, por sinal.

 

Poesia, ainda

 

Deixando um pouco de lado esse papo envolvendo gregos, troianos e “quintanas”, outro ponto forte do trabalho é justamente a liberdade. Principalmente em relação à linguagem propriamente dita.

No livro de 89 textos, dividido em partes (“Delírios de uma alma abstrata”, de tratamento mais subjetivo; “Afetos, ausências e fragmentos”, mais autobiográfico, e “A vontade que tenho de abraçar o mundo”, sentimental e franco), o autor baiano extrapola a “simplicidade” comum às crônicas – entendendo “simplicidade” como algo corriqueiro captado pelo olhar de um autor, que se converte em algo belo e comovente, mas que busca o entendimento sem cair em hermetismos. Daí que a escolha de João é acertada.

Ele não se priva de viajar um tanto aqui, outro acolá, sempre calcado na beleza do texto. Seus devaneios fogem da descrição direta, se estendem. E, ainda que o leitor se pergunte o que ele realmente quis dizer com determinada frase, a pergunta se perde na fundamental cumplicidade que esse mesmo leitor deverá ter com o autor para seguir em frente. Cumplicidade que deve se manter, já que não devemos esperar a todo instante fechamentos ou conclusões, daquele tipo de frase que encerra algo (uma ideia, um sentimento, um efeito). O compromisso de João Mendonça é com a escrita.  Com as possibilidades dela.

É preciso viajar com João, antes de tudo. Enxergar que seus caminhos são internos, abstratos, metafóricos, bonitos pacas e baseados em verdades e em sentimentos bem pessoais. Na relação marcante com o pai, ou mesmo com amigos, parentes, com a cidade e com as namoradas – estímulos do mundo exterior -, Mendonça nos dá a dica: sempre confie no que escrevo, não nos fatos causadores.

Fatos são “molduras novas para meus quadros”, como ele mesmo diz na página 35. Por sinal, a mesma página em que afirma: “já deixei a poesia se livrar de mim. Ela precisa voar” (tendo como base o conceito de poiésis exposto acima, e considerando que tal comparação feita por mim valha algum Real, sequer um Dracma).

Possivelmente, a ideia de trabalhar sem o intuito de converter sua escrita em livro tenha o feito derrapar em alguns momentos. Em miudezas de seu cotidiano, como a ligação de um amigo que se mudou para Londres, por exemplo, o leitor poderá se perguntar o porquê daquilo, pois nesses exemplos a poesia não brota e o ritmo falha. Frases como “O acarajé é a hóstia de quem mora em Salvador” (um pouco estereotipia), ”Uma flor sombria busca incansavelmente sua pigmentação mirando-se para o sol” (aliteração), podem não agradar tanto ao leitor. E quem as lê pode achar um tanto esquisito. 

Entretanto, assim como toda viagem tem lá seus trechos de paisagem modesta, cabe mais uma vez ao leitor confiar que logo adiante a coisa melhora. E muito. Além do mais, e curiosamente, não consigo imaginar Quando a luz do sol desaparecer nada vai se alterar no universo sem essas paisagens-passagens mais simples, digamos. Talvez por sacar que elas fazem parte da vontade do escritor e do caminho escolhido por ele. Um caminho firme.

Não demora e Mendonça retoma ao devaneio que comove. É quando ele, autor de O Sol Partido, dentre outros, nos surpreende com frases longas, sutis, belas, meio herméticas e ritmadas (olha o Quintana de novo!), tais como:

“Já fui ao Iraque e não te vi na balaustrada perfurada pelas crateras do tempo. Volto sempre ao mar que grita teu nome. Volto sozinho e esperançoso. Nunca mais entregarei a caixa de bombom sem o endereço correto da última casa em que moraste no fim do grande vazio.”

 

Aforismos legais para mesas de bar (ou para umas camisetas hype)

 

Em minha opinião, quando um escritor nos dá alguma frase boa e curta, daquelas que nos orgulhamos em repetir em mesas de bar, geralmente ele está no caminho certo.

Evidentemente, tais frases-de-efeito devem ser o resultado de depuração, de um processo coerente, de literatura boa e da reflexão. No caso de João Mendonça, identifiquei algumas dessas pérolas. E em todos os casos as tais frases me trouxeram a certeza de que o livro dele é bom.

Em tempos de “lacrações” e “memes”, pode ser perigoso destacar algo do tipo num escritor. Todavia, considerando o contexto a que essas frases (bacanas e eficientes) estão submetidas e o efeito direto que elas podem causar, acho que vale a pena arriscar.

O fato é que eu não poderia fingir não ter visto coisas como as que seguem: “Assim é a vida: uma sensação de dúvida intermitente”; ”A saudade é o sonho na contramão”; “O mundo transformou-se numa máquina quebrada que se repete contra a vontade dos homens”; “O vento é a chave que transpõe portas”; não esquecendo a já citada, “O erro da palavra é o erro da vida”.

Sabendo que tais aforismos não surgiram de forma isolada e não surgiram para serem “aforismos”, e que eles são, antes de tudo, consequências de parágrafos bem trabalhados, concluo que a intenção de Mendonça não foi “lacrar”. A coisa meio que brotou como final, meio, mote ou princípio; como boa prosa, boa poesia.

Dessa forma, esse autor baiano, além de nos agraciar com um texto fluído e bacana, nos oferece pensamentos que valem uma dessas camisas legais que a moçada usa em saraus – ainda que eu ande meio desconfiado com essa turma; coisa de quem está beirando os cinquenta-de-idade.

Outro ponto a ser destacado é o olhar de Mendonça que também parece capaz de enxergar a conjuntura social e política (acho que as manifestações de 2016 mexeram com ele de alguma forma), muitas vezes reagindo a ela quase imediatamente (ele caminha pela cidade e vê; depois, em seu quarto, discorre sobre). Reação trabalhada com a mesma pegada poética e metafórica de sempre.

Ontem, o fogo queimou lojas e as praças foram fechadas por precaução. O menino de rua viu tudo do alto da árvore da vida. A mesma árvore que testemunhou inúmeros massacres contra o povo desarmado de ódio e ávido por lutar. O menino viu tudo e não contou a ninguém porque ele vivia sozinho e nesse mundo estranho ele só conhecia a ele mesmo.

O fogo se alastrou com força em direção às margens dos palácios dos brancos. Logo o acusaram e seu rosto parecido ao de tantos bandidos certificava que ele se tratava de um bandido mesmo. A polícia foi atrás dele porque lugar de menino é atrás das grades.”

A infância como tema é também algo presente. E marcante. No caso de Mendonça, boa parte dos trechos mais comoventes nasce daí:

“Deixei então a pá encostada na parede e comecei a cavar com as minhas próprias mãos. Logo percebi que tinha anoitecido rapidamente, desde cedo estávamos cavando. Foi quando comecei a encontrar os primeiros objetos.

O relógio preto que meu pai me deu de presente quando fiz dez anos, a foto de minha primeira namorada, a bola de basquete, o badogue com que eu brincava atirando pedras, o murro que eu levei na cara do meu melhor amigo, os carrinhos de ferro que eu colecionava, o grito da professora, meu sonho de ser astronauta, meus óculos quebrados, a imagem que tinha de Deus, o medo da morte, todos os fantasmas que vinham me atormentar à noite, as músicas de Moraes Moreira, o fim do mundo, o mendigo que morreu na porta do meu prédio, o sorriso de minha irmã, minhas primeiras observações sobre o sol, o escuro das escadas vazias, as mulheres velhas que me assustavam, as cores dos potes de tinta com que eu pintava, a barraquinha de camping…

Continuamos cavando, até que meu sobrinho olhou para tudo aquilo que estava exposto e disse: ‘Todas essas coisas não são mais suas. De quem são?’.”                

Apesar de longo, defendo que o trecho acima é digno de ser lembrado; vamos combinar?

 

Breves comparações

 

No quesito paralelos-e-comparações (estou tentando ser didático, tenham paciência), outros autores e livros me vieram à mente na leitura de Quando a luz do sol desaparecer nada vai se alterar no universo: Lupeu Lacerda e seus “prosoemas”, pela vontade de romper a couraça da linguagem a partir de observações “puxadas” do trivial; José Agrippino de Paula e seu PanAmérica, pela liberdade na criação de cenários, cenas, percepções e possibilidades; e, finalmente, Richard Brautigan, com seu livro Pescar truta na América, pela atemporalidade, pela carga metafórica e pelo tema “vida adulta”. O livro de João Mendonça também me remeteu a outro publicado no Brasil em 1995 pela José Olimpo, chamado Primeiro o amor, depois o desencanto (e o resto de nossas vidas), do canadense Douglas Coupland. Embora ambos sejam bem diferentes na forma e nas intenções (2).

O autor canadense nos mostra uma face bem melancólica da vida, todavia. João, apesar de tudo (incluo aí a homenagem a um tio, no que suponho algo marcante e talvez grave), nos traz alguma esperança. Com uma boa dose de leveza e outro tanto de espiritualidade não no sentido religioso, mas da transcendência, Mendonça se afasta da tristeza vã e segue.

Portanto, e esquecendo um pouco essa coisa minha de comparar-para-parecer-um-gênio, ainda que o Quando a luz do sol desaparecer nada vai se alterar no universo tenha sido catalogado como crônica, eu não o vejo dessa forma – não simplesmente. Nesse gênero textual e literário (por que não?), em que nomes como Sabino, Rubem Braga e, aqui em nossa vizinhança, Kátia Borges (também poeta e jornalista), são referências de pompa, creio que o João Mendonça se sairia bem. Entretanto, a sua habilidade em ampliar a linguagem acabou transformando seu livro num trabalho de maior alcance – ainda mais sabendo que as 89 “crônicas” foram selecionadas entre cerca de 300 textos prontos, num trabalho que contou com a ajuda preciosa do escritor e fotógrafo Tom Correia.

Dessa forma, afirmo que mesmo que o leitor se depare vez ou outra com abstrações, sugiro se deixar levar pela beleza e pela poesia contida neles, pois, assim como qualquer viagem, muitas vezes esbarramos em horizontes aparentemente confusos, mas não menos necessários.

Para mim, parceiros, a viagem com João valeu cada minuto. Assim como valeram também as passagens. Tanto a de ida quanto a de retorno.

 

(1) São muitos os conceitos e suas derivações. Daí que usei uma ideia bem simplória, tipo voo rasante. Tenho pouquíssima bagagem no quesito “Filosofia” (seria Platônico supor que eu manjo do assunto), mas acho que dá para o gasto. 

 

(2) Tais analogias seguem guardadas-as-devidas-proporções e não são limitadores para a leitura de nenhum dos escritores citados, incluindo nosso querido Mendonça. Antes, podem servir como tentativas minhas de compreender esses trabalhos. Além do mais, as semelhanças podem não estar evidentes para você, leitor, pois minha cachola não tem a mesma precisão sacal dos algoritmos (alguém digita a palavra “amor” e o Google indica motéis, flores em promoção, perfumes Jequiti e caixas de Lexotan).

 

Gustavo Rios é baiano e autor do livro Rapsódia Bruta (Mariposa Cartonera, 2016), dentre outros.

 

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145ª Leva - 05/2021 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Entre o Rio e a Riviera

 Por Gustavo Rios

 

 

Sou mais um que acredita no poder de uma boa história. E quando falo em acreditar, me refiro àquele tipo de encantamento simples e direto que flui numa boa, num tipo de literatura em que tudo se encaixa e funciona, também de forma simples e direta, de acordo com as escolhas feitas pelo autor.

Considero-me um escritor. Diante disso, declaro ter sido esse o motivo principal (ler uma boa história) que me fez querer ser um. Obviamente, com o decorrer dos anos, e o significativo aumento de livros em minha estante, algumas vezes derrapei na pista. Tentei ser mais “cabeça”, mais sabido, envolvido pelo suposto poder da palavra em detrimento ao que realmente interessa: a vida, no sentido mais franco do termo.

Em vez de seguir reto na boa estrada da clareza, andei pegando uns atalhos. Atitude que, no fim, apenas confundiu os meus pouquíssimos leitores (e não enxerguem ironia aqui). Pois ainda que lhes pareça piegas falar sobre vida, esse é o único fundamento que resguarda e mantém a melhor literatura existente no mundo: Henry Miller, Bukowski, Hermilo Borba Filho e Kerouac não me deixam mentir – só para citar alguns, pois a lista é imensa.

Foi então que percebi claramente: independente da forma usada num texto, precisamos estar ligados ao entorno (a vida, no caso) para que uma obra se mostre verdadeira.

E assim foi e é com Riviera.

Francamente não sei se Rodrigo Melo alguma vez em sua trajetória, que envolve dois livros de contos (Jogando dardos sem mirar no alvo e O sangue que corre nas veias) e um de poesia (Enquanto o mundo dorme), embarcou nessa viagem de experimentar e se perder. Riviera, romance publicado em 2020 pela editora Mondrongo, é a primeira coisa que leio dele. E, ainda que Rodrigo tenha supostamente derrapado em algum momento de sua carreira, coisa que repito não saber, acho que Riviera poderá o redimir. Colocando-o de novo na reta.

Michel Rodrigues, o protagonista, é um cara apaixonado. E o nome dela é Sandra D’Angelo. Sandra, uma poeta (ou poetisa, nunca sei direito) do tipo que curte saraus, praias e outras ondas, depois de viver um romance de verão com nosso herói, na Bahia, acaba voltando para sua cidade, o Rio de Janeiro.

Daí é que Michel Rodrigues, o apaixonado, resolve correr atrás dela algum tempo depois. Munido de um número de telefone, ele pega uma grana com um primo agiota, se despede da mãe, e segue reto, ou nem tão reto assim. É quando o encontramos já na primeira página, num “final de uma tarde de domingo”, sobre a Ponte Rio-Niterói, em que o “asfalto tremulava por conta do mormaço e o céu rebentava em uma mistura de azul claro, cor de rosa e laranja”.

Com base no resumo dos parágrafos anteriores (quase uma sinopse fuleira de Netflix), o autor inicia sua bela jornada. Junto ao protagonista, Michel. Logo, e fazendo jus à tradição dos bons livros que, em essência, se resumem a poucos elementos principais (o amor, as descobertas e uma viagem, no caso de Riviera), mas que crescem e se dignificam no percurso, Rodrigo nos conduz por essa estrada (ou ponte). No que ficamos gratos.

 

Sobre influências

 

Não creio que Rodrigo ficará ofendido se eu disser que John Fante foi uma das grandes referências. Claro, não estamos aqui reduzindo sua escrita a uma única fonte, visto que outros matizes surgiram na leitura que fiz. Entretanto, as semelhanças e as convergências (um tipo de zona comum aos dois em que, suponho, Knut Hansum reside) com Fante são claras.

E isso é bom, em minha opinião. Ainda mais inferindo que a “forma” desse grande escritor não foi aceita de maneira premeditada e infantil, aquela coisa em que o autor imita determinado estilo na cara dura, tentando disfarçar sua incompetência.

Rodrigo Melo escreve bem, muito bem. Por méritos próprios.

Ainda que o Fante tenha tido lá sua importância no chamado “paiol de influências” de Melo, como bem afirmou Marcus Borgón na orelha de Riviera, essa influência, quando surgiu, foi algo que ele soube dosar e aproveitar.

Temos o protagonista incondicional e crédulo, na acepção mais legal das palavras. Temos os diálogos bem estruturados e sem firulas, além de um elenco de personagens marcantes com suas características e particularidades, meio que gravitando ao redor do protagonista em situações e cenários em que Melo se mostra bastante à vontade, num tom aparentemente confessional – suspeito que alguns trechos só puderam existir graças às experiências de vida do seu autor; ainda assim, não posso bater o martelo e dizer que Riviera é uma obra fortemente autobiográfica.

No conjunto do livro existem descrições que se equilibram bem entre a beleza pungente, que define o nosso herói e o mundo que o cerca, e a riqueza de detalhes, que nos coloca dentro de determinada cena sem nunca nos deixar enfadados.

Das ruas de uma cidade em que os “prédios gritavam por conta de tanta história para contar”, aos cômodos de um imóvel pronto para venda, em Riviera nada-nos-agride-e-tudo-nos-agrada (Pignatari gostaria dessa frase). Acompanhar Michel em sua busca, “arrebatado pela vastidão da cidade que se espalhava ao seu redor: maior e mais frenética do que imaginara, mas que, de fato, existia, porque estava bem ali” é uma das formas de confirmar a qualidade do livro.

E essa discussão de termos ou não muito de autobiográfico, me fez lembrar outro escritor estadunidense, o grandioso Nathanael West. Lembrança trazida pelo próprio Rodrigo numa entrevista recente a uma rádio.

West, que se utilizou da própria vida em prol de seus livros, tendo sido um grande observador nos períodos em que trabalhou em hotéis baratos em Manhattan, também pode ser identificado na “realidade” mostrada em Riviera, bem como nas escolhas do autor: para mim, o romance de Melo possui muito da poética e da também famosa carga imagética, tanto no sentido da imagem transformada, quanto no sentido de descrição pura e simples.

Assim, o estilo da escrita de Rodrigo também pode ser comparado ao de Nathanael, de várias formas. Da escolha de um hotel como um dos cenários, local que, nas palavras de um tal Brad Darrach, para West era como “zoos de fracasso, enfermarias terminais cheias de ‘inocentes desmantelados’”, aos parágrafos que, apesar da fluidez, são seguros e bem estruturados, e visam atingir em cheio o leitor, Rodrigo também não se importou em escutar mais essa “voz” – uma das mais aguçadas da literatura, em minha opinião.

Nathanael West, que foi considerado pelo Nabokov (o “pai” da Lolita) um “fenômeno visual”, foi certamente mais uma figura a ajudar o autor baiano em sua escrita. Tanto na questão das imagens que constroem e determinam o andamento de um bom romance, bem como no belo jogo de metáforas, eufemismos e similares. Recursos que embelezam demais a escrita de ambos.

 

Imagética versus poesia?

 

O leve arranhar sobre os trilhos, o pulsar da fera de metal que cortava a cidade com o seu rugido silencioso e veloz. Botafogo, Flamengo, Catete, Glória, Cinelândia, Carioca, Central do Brasil… A cada estação, as pessoas iam se transformando, ganhavam outras caras e jeitos. Em vez de madames e jovens com fones de ouvido, Michel passou a ver office boys, vigias, vendedoras da Avon, caixas de supermercados e toda aquela gente que vivia nas sombras dos cartões postais, enchendo filas, morrendo nas ruas e em corredores de hospitais.”

Grosso modo, a prosa, ao menos a que considero boa, quando contém em si elementos da poesia (eufemismos legais, metáforas certeiras e ritmo), ganha bastante com isso – e notem que essa é uma opinião que se repete em minhas análises. Então, desconsiderando a obviedade terrível do que acabei de escrever, venho pedir desculpas afirmando apenas o seguinte: quando o escritor possui talento e competência, o uso da imagética, da poesia e de quaisquer outros expedientes não põe em risco seu trabalho.

Rodrigo tem a manha. Ele é o tipo de artista que, acima de tudo, enxerga o lado humano na literatura. E o coloca em primeiro lugar, entendendo que uma escrita sincera e direta não deve ser necessariamente tosca e simplória.

Filosofando um pouco durante a leitura, algumas perguntas surgiram em minha cachola: de que adiantaria usar a tal “carga imagética” sem sacar um tanto de poesia? E o contrário disso, daria certo? Como encantar o leitor sem pôr no livro figuras humanas, mas humanas-de-verdade, do tipo que se presta ao salto, à busca e a felicidade?

Não dá para ficar imune à força de um Michel Rodrigues, por exemplo. Bem como não há como fingir que não viu Louis Buade de Frontenac, o francês boa praça, vizinho de quarto de nosso herói, só para ficar no básico de série, por enquanto.

Como já dito antes, o rol de personagens, bem como o uso de seu “paiol de influências”, ainda que lembrem o West ou o Fante, ou qualquer outro, é formado por figuras arrancadas da cuca, da vivência e, com certeza, do coração (arrisco, sim, uma boa pieguice!) de Rodrigo.

No caso de Melo, eu até consigo imaginá-lo numa noite insone, naquele tipo de luta que só escritores bons travam, tentando reescrever, encaixar, fazer surgir ou mesmo comemorando efusivamente uma boa página ou um vacilo de nosso Michel, justamente por esse vacilo conter muito de ingenuidade, sentimento, beleza e, principalmente, busca.

Ter essa imagem em minha mente já justifica esse trabalho.

Suas inserções poéticas são exatas, firmes, sem pieguices nem choramingos. E quando lemos algo que chega perto daquele sentimentalismo barato (que no fundo muitos de nós curtimos), tal trecho ou frase se revela somente um importante mecanismo que visa dar fala e personalidade ao jovem Rodrigues:

“Siga em frente, ó, contrafeito taxista — Michel pensou —, uma vez que todo homem tem direito à glória e estou prestes a alcançá-la. Se quisesse, poderia passar um longo tempo falando sobre a pessoa que encontrarei, não no hotel para onde me leva, pois já é tarde e a felicidade nos força a certas provações: uma admirável e encantadora poeta de nome Sandra D’Angelo, ou simplesmente Sandy.”

Com o trecho seguinte, destacando a parte em que lemos “alma esquiva e saturada”, talvez eu consiga fazer uma boa comparação entre a poética usada para dar voz ao Michel (acima e, digamos, piegas) e a usada pelo narrador para seguir com o livro (abaixo e, digamos, mais madura):

“Era uma morena baixa com os cabelos negros até a cintura. Seus olhos transitavam entre uma malícia dissimulada e algum tipo de tédio ou cansaço, como se o tempo inteiro estivesse prestes a abandonar o palco ou a gritar. Mas ela não gritou, apenas continuou a rebolar e a tirar as peças de roupa, enquanto Tina Charles cantava “Love to Love”. Por vezes, seu gingado não batia com o ritmo da música, talvez rápida demais para o estado de espírito em que se encontrava (…). Ela se agarrou ao poste e começou a girar. Possuía uma boa elasticidade, mas nada parecia muito natural. Somente a repetição de um movimento que aprendeu, a saga de uma alma esquiva e saturada.”

Para encerrar, ainda falando sobre o imagético e o examinando de forma isolada, arrisco dizer que ele embasa e justifica todo o livro – dentro do equilíbrio e da beleza já descritas nas linhas anteriores. Na descrição da cidade ou na cena de sexo num banheiro de escritório, tudo se mostra visceral. Afinal de contas, Rodrigo quer nos falar de vida, antes de tudo.

Diante disso, quem leva a melhor mais uma vez é o leitor.

 

Arco narrativo e tigelas de açaí

 

Considerando o entendimento de que arco narrativo é simplesmente a divisão de uma história em partes ou capítulos (uma ideia simples, apesar do nome marrento), Riviera tem, sim, o seu arco. E ele funciona.

Valendo-me desse jargão (arco), usado largamente para analisar livros e para fundir nossa cabeça nas aulas de geometria, acredito que o risco que todo autor mediano corre ao usar o seu “arco” é o de se perder em algum “ponto da curva” (o “mediano” se atrapalhando no “radiano”?), pois, ainda que os capítulos não precisem ser fundamentalmente lineares, a coerência ajuda no entendimento geral. Seja na trama, seja no estilo, ou mesmo na definição clara da personalidade do protagonista e de todos os outros “participantes”.

Dessa forma, afirmo sem gaguejar que, ao longo dos 25 capítulos, Melo não derrapa nesse quesito.

Do francês à tia amargurada; do corretor de imóveis Aldo Lomma (não sei se uma sutil homenagem ao Alto Loma Hotel, que se erguia “numa colina, lá na crista de Bunker Hill”) à Arlete, Melo segura bem a onda. Na base da simplicidade que busca a fluidez na leitura e a cumplicidade do leitor.

Pois para todo artista, sempre existe o risco do erro, ao se firmar a personalidade e a voz de cada pessoa que habita o seu trabalho, já que muitas vezes nos deparamos com obras onde não identificamos o ponto de mutação de determinado personagem, muito menos a transição de algo que ocorreu com ele. Transição que, “noves fora”, foi somente uma derrapada do artista, no arco, na tangente ou mesmo na reta, certamente preocupado com sutilezas, concretismos e bricolagens.

Portanto, quando numa boa história a forma linear é quebrada sem aviso prévio – o que seria legal quando temos uma proposta adequada e um escritor com moral para tanto -, nos deixando confusos e perdidos, é nessa hora que geralmente abandonamos o livro.

Isso não ocorre com Riviera. Independente da situação ou da ruptura, temos o estilo que se preserva e não nos engana de forma grosseira, mudando somente quando o livro exige, no caso do andamento da trama e das experiências de Michel. Dessa maneira, temos um jovem se transformando, sentindo medo, vacilando feio e devorando tigelas de açaí, além de seguir apaixonado, tentando encontrar a sua poetisa (ou poeta, nunca sei direito) em meio “a complexidade da tal Cidade Maravilhosa”, conforme Kátia Borges citou no posfácio, no que ela também chamou de “mescla de paraíso tropical e pesadelo”.

Como conclusão, digo que Riviera segue seu rumo (ou estrada, ou ponte…), pois não são poucos os que consideram o livro interessante, ainda que, por conta da pandemia e por conta do fato de Rodrigo Melo não residir no chamado eixo, o romance ainda não tenha alcançado o seu devido status.

Status que o deve colocar como um grande lançamento de 2020, no mínimo. Além de colocá-lo também como uma obra belíssima, franca e humana. Bem ao gosto do que todos nós precisamos em tempos tão bicudos, toscos, demorados e doentios.

 

Gustavo Rios é baiano e autor do livro Rapsódia Bruta (Mariposa Cartonera, 2016), dentre outros.

 

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143ª Leva - 03/2021 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

QUAL A DISTÂNCIA ENTRE OS HOMENS E OS BICHOS?

 Por Gustavo Rios

 

 

Júlia Grilo poderia ser apenas uma jovem estudante com pretensões artísticas não muito bem definidas. Afinal e a priori, o que às vezes se mostra na superfície é tão somente isso: uma escritora que publica um livro, num contexto em que publicar (no sentido de imprimir, divulgar nas redes e se considerar literato) se tornou relativamente fácil. Mas eis que esse “relativo” pode muito bem nos enganar.

Afora esse papo cabeça que mistura relatividades e jovens com ganas de escrever, o que posso dizer é que, com seu primeiro livro, Cães, publicado em 2021 pela bravíssima Penalux, Júlia me pegou na contramão e no contrapé, no sentido de boa surpresa, não aquela surpresa que vem depois do desdém; aquele lance de olhar a pessoa e pensar em segredo “Esperava bem menos de você”, ou “Achei que você fosse mais uma nesse mercado de pulgas”. No único encontro que tive com ela, numa live de divulgação da coletânea Soteropolitanos, de cara percebi a firmeza e a seriedade do propósito da quase-psicóloga Grilo.

Portanto, e lutando contra esse desdém paternalista (o cara de quase-cinquenta que resenha versus a jovem escritora), tentarei explicar minhas ideias acerca do livro (que, é bom frisar, conta com uma belíssima capa). E logo de imediato, já posso usar a meu favor o fato dela ser uma futura psicóloga – isso se ela não se invocar e enveredar de vez na escrita; coisa que, acho, ela faria com moral.

Vamos falar então sobre análise. Mas não no sentido “Jungiano” da coisa. Eu quero falar é sobre o olhar atento e extremamente “analítico” de Júlia, já que em Cães uma das coisas que mais me chamou a atenção foi o interesse da autora em esmiuçar e detalhar todas as questões propostas por ela mesma e pela história em si – o andamento de um bom livro às vezes foge de nosso controle e de nossa vontade; daí que ele se impõe e também propõe.

Os parágrafos às vezes parecem longos, e os instantes em que a descrição chega no limite não são poucos. Todavia, ainda que tal recurso seja frequente, nada é sacal. A escrita de Júlia sempre exige do leitor atenção, inteligência e entrega. Mas nunca paciência, ao menos aquela do tipo “estou de saco cheio”.

 

“Júlias”

 

Ainda que a autora se mostre firme em seu trajeto, considerando parte das ideias expostas no tópico acima, é bom que se repita que tal escolha não implica num livro maçante.

Nos trechos em que Júlia é descritiva e, digamos, cerebral, podemos enxergar facilmente um bom bocado de poesia (misturada à prosa, por supuesto). Além do mais, ao se pôr inteira na história, talvez de acordo com uma ideia de Coetzee, em que “no calor extremo da criação a identidade individual do artista é consumida e monopolizada por seu lado criador” (1), a escrita de Júlia Grilo se mostra bem acima e além de um simples amontoado de frases cabeçudas e falsamente poéticas.

A complexidade no texto algumas vezes se encerra com uma frase simples que busca concluir uma ideia. E tal movimento se mostra eficaz, na medida da poesia utilizada, e, principalmente, do momento vivido – por vezes a narradora se mostra belamente pueril, noutras arredia e rebelde; as metáforas e as reflexões se encaixam numa boa, enquanto isso.

Como exemplos, destaco:

“Vinha até meus pés, esticava as patinhas e enfiava a cara por entre meus joelhos, lambendo-os até ser atendida. Eu atendia; não demorava muito para atender, exceto quando queria vê-la gracejar por mais tempo, os olhinhos brilhando. A vontade era sufoca-la de beijos – e torcer para que nenhuma pulga me atingisse.”

“Nesse mesmo período, meus pais começaram a carinhosamente me chamar por lobisomem, numa tentativa desconcertante de amenizar o espanto que causavam os meus olhos vívidos, cintilantes, contra os quais eles se chocavam em quase toda madrugada (…). O dia me irritava, o calor incessante, a quantidade de gente que se movia, que me atrapalhava.”

“Já seus ossos, por sua vez, foram vinculados conjuntamente dentro de uma designada lógica própria, reminiscência bruta dos vincos de sua mãe, dos sulcos do seu pai, da posição em que brotou do ventre, de como de lá foi retirada e passou a rastejar faminta para as tetas pingando leite; do sangue fetal que lhe permaneceu seco e digno.”

Os poucos momentos em que a sonoridade me incomodou não reduziram em nada o andamento da obra (“A culpa ecoava ininterruptamente ao meu redor, perseguia-me com violência, num fulgor insuportável”; “Qualquer coisa que ameaçasse fissurar a consistência deste véu era recebida com muita violência.”). Mas sugiro revisão, se possível.

Ao abrir o jogo e contar sua vida, essa jovem soteropolitana, criada no Recôncavo Baiano, eleva a qualidade do seu trabalho, o particularizando (o mundo a partir de sua individualidade, mesmo que na dedicatória do meu exemplar ela meio que defenda outro ponto de vista). Dessa maneira, Cães se torna único e cativante, a partir do olhar e da vivência de uma garota que, afinal, vai crescendo e sentindo tudo de maneira intensa.

Para “fechar essa conta”, concluo que a tal complexidade de que tanto falo não é daquelas que servem para justificar braçadas no raso em temas profundos. Aquele papo furado de quem sempre se esquiva do problema ao dizer para si e para o mundo “Isso é muito complicado. Não arrisco um juízo de valor”. Júlia não foge ao nado, nem à luta; e tanto um quanto o outro possuem muito de coragem, fôlego e escrutínio. Dessa forma, somos levados a refletir sobre várias coisas. Tendo como ponto de partida as diversas “Júlias”. Que seguem evoluindo a todo instante, na cara, no crown e na coragem.

Eis alguns exemplos:

“Eu fui convocada a assistir ao espancamento como se fosse ele um espetáculo, estruturado de tal forma para que assim eu aprendesse as consequências que recairiam sobre meu corpo, caso eu me comportasse mal também” (sobre um fato ocorrido com uma prima).

“Mas o amor e o conhecimento carregam a mesma lógica por trás de seus funcionamentos. Talvez não só se assemelhem, feito coisas distintas que se encontram em paralelo, como cheguem a ser exatamente o mesmo: é preciso amar para estar disposto a conhecer, e é preciso estar disposto a conhecer para amar.”

“Há quantos passos de distância entre a maciez curiosa de um recém-nascido e a esperteza barbada de um homem adulto, de pênis rijo e lábios ágeis? Quão fina é essa linha que separa as suas mamadeiras de leite dos seus sagrados copos de cerveja puro malte? Mas o que é que separa estes tão fortes e espertos e cerebrais meninos das lágrimas primitivas que lastimavam quando foram paridos.”

 

Feminismos e protagonismos

 

Dentro de uma visão esquemática, mas não menos importante, que define protagonismo como uma ou poucas figuras centrais em detrimento a todo o resto, eu até poderia me contentar em dizer que em Cães temos somente duas protagonistas: Júlia e, de certo modo, Cafeína, a cadela – se isso for possível, conforme os estudiosos.

Entretanto, e não querendo contestar quaisquer teorias (não tenho cacife para tanto), posso afirmar que senti o peso de outra personagem na história: a mãe da autora-narradora.

Entendendo peso como algo marcante, me aventuro a dizer que, sem essa “persona”, talvez o livro não tivesse tanta força. Evidentemente ao me ler assim, você pode ficar confuso. O que é cabível (afinal, ela é ou não é protagonista? Gustavo anda fumando o quê?). Com os fragmentos abaixo, porém, talvez eu consiga me explicar, mesmo correndo riscos ao expor uma pequena parte do que li sobre:

“Ela mesmo me dizia, fingindo brincadeira, que eu havia roubado a sua beleza. Nasci parasita insaciável, tirando-lhe a graciosidade, obrigando-a a permanecer acordada por noites a fio, sugando-lhe os peitos doídos. Minha mãe quase morreu ao me parir. Seus pés saltaram do número 35 ao número 38. Até hoje eu desconfio que a violência que ela impunha contra mim na infância foi uma resposta à violência imposta sobre ela, imposta por um mundo inteiro.

“O feminismo acadêmico do qual eu tanto me orgulhava não havia me ensinado metade do vigor que mamãe me ensinou.”

Levando-se em conta o fato de que, apesar da importância, a mãe de Grilo não é única mulher a surgir e a definir o rumo do livro (que foi dedicado a ela, é bom que se diga), isso sem falar nas cadelas, mais uma vez invento outra teoria: para mim, Cães é um livro essencialmente feminino. E boa parte de sua beleza vem daí.

O que nós, homens, costumamos chamar de “universo feminino” parece se mostrar um pouco para o leitor. E Júlia mais uma vez me surpreende ao se utilizar do alegórico e de uma boa dose de fabulação, na tentativa de nos fazer enxergar esse universo, que atrita com a realidade ainda hoje “imposta” às mulheres, realidade bem distinta da que nós, homens, conhecemos.

No caso de Cães, porém, a fábula quando utilizada não se parece com aquela tradicional, em que a “moral da história”, necessária em algum momento de nossas conquistas cognitivas, é a única resposta viável (o Lobo que sopra enquanto os Porquinhos trabalham; moral: dê duro e tenha uma casa de tijolos). Para mim, o uso de animais no livro, no caso os cachorros, tem mais a ver mesmo com o esperto Pedro Vermelho, citado no prefácio pelo professor Wagner Teles. Ou até com um pouquinho do Orwell, sem o lance da distopia.

No entanto, e acima de tudo, os cães que existem e coexistem na obra são escolhas feitas pela autora. Prioritariamente por causa de seu declarado afeto por Cafeína – a mesma que, segundo Júlia, “era tão miudinha que cabia nos meus sapatos” -, além de ser fundamento para Grilo desenvolver bem a sua arte. Arte que, conforme escreveu Laerte (sim, ela: a Laerte-Genial!) na orelha do livro, se organiza “(…) às vezes em folia, às vezes em sofrimento.

 

A humanidade em Cafeína

 

Com o desejo de se tornar humana, pois só “quem pode abrir os portões são os humanos”, em determinado momento do livro Cafeína foge. E dentre todos os acontecimentos envolvendo de forma direta a cadela, talvez esse seja o mais importante para mim, pois ele causa uma mudança no ritmo, na forma e na narrativa de Grilo.

Após um acidente corriqueiro e um distanciamento entre Cafeína e a sua dona (a própria Júlia Grilo), presente no capítulo 8, “Café” começa a planejar sua fuga, ainda que o desejo de partir talvez não seja resultado direto desses dois eventos. Então à noite, quando a garagem se abrisse para a entrada do carro do pai de Júlia, “Café” iria se esgueirar entre o veículo e a parede, correndo para bem longe em seguida.

“Foi o que ela fez.”

A partir desse ponto, o rumo da história dá uma boa guinada. E mais uma vez somos pegos de surpresa. No contrapé e na contramão.

O que vemos a seguir é uma sucessão de fatos e acontecimentos envolvendo os cães. E aqui Júlia consegue desenvolver a história com uma petulância incomum, como se ela não enxergasse sequer os riscos adiante: o de misturar formas de escrita e cair inevitavelmente num buraco sem fim de obviedades infantis, tolices, falcatruas intelectuais e imitações no varejo.

São poucos os capítulos onde acompanhamos Café em seu mundo. Mundo em que cachorros conversam, sentem inveja, lutam por posições de poder e se afeiçoam uns aos outros. A petulância da autora, todavia, em vez de cegá-la para os erros, confirma seu talento e se converte em moral, intenção e mais uma vez coragem, principalmente numa estreia. Pois, para mim, muita gente competente na escrita derraparia nessa vereda.

Júlia nos provou que o risco valeu a pena.

A transição entre uma visão “humana” para uma visão “canina” não nos agride. E a mudança se faz numa boa, a partir da simplicidade de uma frase-ato (“Foi o que ela fez.”) que nos mostra a concretização da fuga e do plano (eu disse “plano”) de uma cadela (eu disse “cadela”).

Daí que Cafeína, com “os olhos saltando como espátulas de batedeira, brilhando junto à lua”, segue “passando em frente a árvores que miavam, capins que coaxavam, muros que latiam, sempre adiante, empurrando com as fuças a vontade de escorrer diluída, desgarrada das coleiras.”

Ratificando, digo que colocar num animal o desejo de se tornar humano, e fazer isso de forma bacana e coerente, não é para muitos. Agora imaginar que esse desejo de se humanizar surgirá com leveza e poesia, servindo também de suporte para questionamentos, já paga o preço e justifica minha labuta ao tentar explicar a vocês o romance.

“ – Quem é você?

– Eu sou Cafeína (Por que sempre faziam essa pergunta?)

– E o que você está fazendo aqui?

Ela não sabia como explicar. A mãe, os humanos, a dor, Duquesa (a boxer alemã que divide a casa com Café), o portão, tudo, ela não sabia como explicar.

– Eu estou me tornando humana.

Riram.”

Entendo que as palavras “mãe”, “dor”, “portão” e, principalmente, o ”tudo” que encerra a frase dizem muito sobre Júlia Grilo, nossa estreante-petulante.

Portanto, afirmo que o fato do livro ser feminino ou não, fábula ou simples ficção, não tem importância. Cães é merecedor de elogios e de atenção, e pronto. Pois a obra, ainda que não se dê ao luxo de ser facilmente entendida, dentro da definição de um estilo, se mostrou para mim profunda, interessante e envolvente.

Mesmo que a gente não entenda de que se trata (ficção, fábula, autoficção ou literatura à toa), digo que Cães é uma estreia “de prima”. Além de ser uma amostra da literatura feita na Bahia atualmente. Pouco importando o resto, pois, conforme E. M. Foster, o “(…) teste final de um romance será a nossa afeição por ele, o que é o mesmo teste dos nossos amigos e de todas aquelas outras coisas que não conseguimos definir direito.” (2)

 

……………(1) Trecho extraído da resenha “A literatura segundo Coetzee”, de Willian Vieira; revista Quatro Cinco Um, edição 41. Mas relaxem: o livro resenhado já está nos Correios. 

…………..(2) Trecho da página 44 do livro “Aspectos do Romance”. Esse eu li até o final.

 

Gustavo Rios é baiano e autor do livro Rapsódia Bruta (Mariposa Cartonera, 2016), dentre outros.

 

 

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141ª Leva - 01/2021 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

NOTAS SOBRE UM POVOADO MÁGICO

Por Gustavo Rios


 

São evidentes os elementos que vinculam o livro Rio das Almas, do escritor baiano Pawlo Cidade, à tradição do Realismo Fantástico. Das famílias que atravessam o tempo da narrativa com suas histórias e idiossincrasias, às situações inusitadas envolvendo determinado rol de personagens, Pawlo nos traz uma obra interessante. E parece bem à vontade nesse universo.

Publicado pela portuguesa Chiado Editora, o romance Rio das Almas conta a trajetória de um povoado de mesmo nome que viveu seu apogeu com a extração de carvão (fato importante na trama) e com as ferrovias. Em suas 304 páginas, somos convidados a conhecer esse lugar mágico, que aos poucos vai se mostrando a alegoria perfeita para as ambições do seu criador.

No primeiro capítulo nos deparamos com o hidrólogo Pedro Parigot. Pedro, movido por uma espécie de milagre (uma cura que o personagem tenta entender com o olhar da ciência), viaja até o povoado na busca de respostas. O ano é 1968, período marcante para a história brasileira – e não é raro encontramos laços entre o mundo proposto pelo autor e o real, historicamente falando.

Dentro desse enredo inicial e aparentemente simples, e entre observações precisas e competentes do ambiente e da situação em si (o encontro entre dois desconhecidos, Pedro e o andarilho de nome Miguel Cervantes, num cenário que tenta fugir do trivial tão comum nos livros “regionais”), Pawlo dá início à sua jornada. E o que poderia ser o “núcleo duro” do livro, no caso a busca de Pedro Parigot por respostas, acaba por se converter numa parte. Fundamental no todo, mas nunca limitadora do muito.

E não demora nada para que outros personagens, com suas histórias inusitadas e bem construídas, surjam, ampliando o escopo do autor e nos mostrando o tamanho exato de suas ambições.

A mudança de cenário, por assim dizer, já começa no segundo capítulo. Nele, embarcamos com Pawlo Cidade, enxergando cada vez mais seus propósitos e a força de sua escrita.

 

O “povoado dos Santos”    

Seguindo a linha de trabalho escolhida pelo artista ilheense, é importante destacar algo que prende o leitor e terá certamente a capacidade de mantê-lo no prumo: a história dos Santos.

Em minha opinião, as páginas em que ele descreve as peculiaridades dessa família (para usar um termo bem comportado) são umas das melhores partes do romance – talvez pela lembrança que me trouxe dos tipos que habitam Macondo.

Da família que “(…) todos os sábados, no lombo de burros, iam à feira de Rio das Almas negociar os alimentos que produziam na fazenda: leite, batatas, alface, mandioca, inhame, gabiroba e algumas peças artesanais como embornais (…)”, avançamos entre belas representações (lembro que a crueldade apresentada é parte do jogo; parte da necessária construção literária: aqui, então, justifico o termo “belo”), envolvidos por um ambiente mítico.

Para exemplificar parte dessa ideia inicial, e mostrar como Cidade trabalha tais questões, cito o trecho abaixo:

“A cada meia hora, Jairo Santos, arrastando os pés nas tábuas aparelhadas do piso da sala, saía na varanda e olhava para o céu, anunciando a chegada de uma chuva que nunca vinha. Com o dedo em riste, dava ordens à mulher e às filhas, apontando a direção, sem precisar dar uma palavra. De tanto apontar o dedo na direção das coisas e dos acontecimentos, o indicador da mão direita endureceu. A mulher, que era espichada, achou engraçado. Disse que o dedo duro foi castigo de Deus pelas vezes que ele a fez crescer, forçada, mas ‘por amor’, até ficar do tamanho dele. Dona Santaninha dos Santos cedera ao desejo desvairado e esdrúxulo do marido de fazê-la se esticar até ficar de sua estatura, para que os filhos, quando nascessem, tivessem o mesmo tamanho dos pais”.

Então, usando o “amor” como justificativa, “(…) antes mesmo do sol cobrir todo o Vale dos Absurdos, Jairo Santos deitava a mulher sobre o ‘estirador’, um instrumento que inventou para alongar a estatura do corpo, embora um aparelho similar tenha estado em uso durante toda a Idade Média, sobretudo por padres inquisidores que o utilizavam para extrair confissões e que ficara conhecido com a alcunha de ‘cavalete’”.

Pawlo Cidade, pseudônimo do escritor João Paulo Couto Santos, prossegue com firmeza no uso dos ingredientes comuns a essa literatura chamada de fantástica: a família que “conversa animadamente” com os animais do pasto; a família que cria gatos selvagens em coleiras para torná-los mais mansos; os Santos, que devem aprender a viver como raposas e corujas que se escondem em buracos no chão, pois “(…) lá será o destino de toda vida na face da Terra.”, já que, segundo o velho Jairo Santos, “um dia o sol cresceria tanto que queimaria quase toda a terra e só depois de tanto crescer ele explodiria. ‘Toda a luz se tornará em trevas para sempre’”.

Ainda que eu destaque o uso de tais elementos, que vão muito além da família Santos no decorrer das páginas, devo lembrar que essa escolha não restringe as ideias do autor. Ou seja: não existe cópia, apenas inspirações certamente assumidas (a citação do livro Incidente em Antares, por exemplo), e outras talvez mais sutis (o cheiro dos grãos de mamona num copo de metal me lembrou das amêndoas amargas que deram fim às “inquietações da memória” de um tal refugiado antilhano; mas isso é pura especulação de minha parte). Para fechar a questão, digo que nada é deliberado nem confuso, apesar de nos parecer muitas vezes que a cronologia e o enredo se perdem.

A verdade é que Pawlo também joga com isso, e joga bem. Ele nos traz novos personagens, novas vidas que se mostram ao longo da obra. Em seu romance, o tempo pode dar um salto entre um capítulo e o outro (anos, às vezes décadas), mas essa escolha tem o efeito de nos manter interessados em seus desfechos, na promessa de algo mais.

E essa diversidade de personagens, de casos, de tempos que saltam e de vidas distintas, acaba sendo a grandeza do livro. E o enredo ganha com isso.

 

Ressurreição e Bíblia

Deocleciano, um velho que após perder o grande amor de sua vida está “determinado a morrer”, sem conseguir finalizar o ato, é o primeiro a perceber que a morte talvez tenha abandonado o povoado. E para um livro que tem como epígrafe um trecho da Bíblia (“’E naqueles dias os homens buscarão a morte, e não a acharão; e desejarão morrer, e a morte fugirá deles’”), não à toa do famoso Apocalipse (que também significa Revelação), é interessante analisar o romance na tentativa de ligar os pontos. Tentar associar uma ideia bíblica com a vida da localidade em si.

O livro sagrado (ao menos para algumas religiões) vez por outra é citado na história, seja pelos personagens ou mesmo pelo autor-narrador. Quando Deocleciano grita na página 35 que “A morte morreu, Céo!”, ou mesmo quando ele escuta sua amiga, Céo, repetir o mesmo trecho da epígrafe, “(…) meio absorta, olhando através da janela, os malditos redemoinhos que se formavam no Vale dos Absurdos”, podemos inferir a ideia de Pawlo em colocar na obra uma ideia comum, mas bastante aceitável e apropriada: a religiosidade característica em diversas regiões do país. Na literatura brasileira os exemplos são fartos. E, para não ficar no vazio, cito Dias Gomes e Hermilo B. Filho, entre tantos outros.

O cotidiano do povoado merece destaque, visto que é o arcabouço do romance, obviamente. Todavia, aqui a gente também enxerga o fabuloso na medida certa, no detalhe e no comezinho, não somente no evento que pode mudar de alguma forma o destino da trama.

Além disso, suspeito que nesse fabuloso “miúdo” exista um pouco de cinematográfico, do tipo cinema-que-devaneia-e-amplia: parte do trecho citado acima (“malditos redemoinhos que se formavam no Vale dos Absurdos”) deve me ajudar a explicar a ideia, na medida em que surge como algo trivial. Como se “malditos redemoinhos” não fossem acontecimentos tão incomuns para aquela gente.

Do Conselho de Anciãos que “(…) se reunia para tratar dos assuntos mais complexos do povoado.”, podendo ser convocado por qualquer cidadão, à uma rotina que envolvia um Deocleciano que às “(…) 15h, lia sobre os grandes filósofos da humanidade: Sócrates, Descartes, Aristóteles, Platão; às 16h, compartilhava o que havia lido com os jovens que o esperavam na praça do Chafariz, induzindo-os à busca de si mesmos e à solução dos problemas mais simples da humanidade, sempre com base na filosofia e nos seus questionamentos pertinentes (…)”, o leitor vai construindo em sua mente Rio das Almas. Suas ruas, seus habitantes, os acontecimentos e a magia que cabe dentro dele. Assim, esse mesmo leitor vai se tornando algo além de um mero espectador. Seu olhar vai se igualando em essência aos dos moradores do lugar.

Também a forma escolhida pelo escritor para pôr no livro tamanha variedade de situações se mostra acertada, na proporção em que ele resolve os dilemas propostos, e faz as devidas ligações ao longo do texto: a falsa impressão de que, em parte da obra, estamos diante de cenas descontinuadas, não impede de vermos a beleza do conjunto (o capítulo 17 pode ser um bom exemplo, e não só pela questão da cronologia, mas pela inventividade). No final das contas, esse método valoriza o trabalho, na justaposição de situações curiosas, belíssimas, engraçadas, incríveis e literárias, no sentido lato da palavra.

Usando como base o Realismo Fantástico, Cidade nos agrada com os mais diferentes acontecimentos, tendo como pano de fundo aquilo que chamamos realidade. Mas que podem muito bem subverter essa mesma realidade amuada e sem graça, extraindo dela o encantamento, o pomposo, a picardia e o mundano. Tudo que esperamos para combater essa vida que insiste num cinza duradouro e sufocante.

 

O protagonista que interessa: o ser humano

É um erro pensar, todavia, que Rio das Almas não passa de um amontoado de histórias absurdas, com personagens marcantes e loucuras no atacado e no varejo. Ainda que Pawlo tenha optado por uma narrativa não linear em parte do livro – como já dito e recontado acima, às vezes um detalhe só é explicado alguns capítulos depois (vide o momento em que Chico Rola ressuscita “sem mastro e sem bandeira”, fato explicado várias páginas depois) -, o que prevalece mesmo é a história do humano em si. O verdadeiro eixo de tudo. Para o autor, o que importa é o que cada indivíduo sente e como ele age diante do mundo que se apresenta, ainda que esse mundo seja do tipo que acolhe, sem sustos, uma Mulher Pisadeira que esmagava o peito das pessoas que dormiam de barriga cheia.

Rio das Almas, povoado, é uma potente metáfora sobre as tais idiossincrasias do ser humano. Tornando-se uma espécie de síntese criativa e instigante que coloca o homem no protagonismo, à frente e acima.

Em Rio das Almas, livro, o que salta aos olhos de verdade são as pessoas. Os amores, as amizades, as crenças e os rancores. O que releva nas 304 páginas são as fronteiras e as nuances. As buscas e as perdas. Tudo bem estruturado num cenário fascinante, que não confunde o leitor com enganações.

Não é a ressurreição ocorrida na história que se destaca no final das contas, mas os motivos e as causas da morte que não acontece. Da traição nunca perdoada, à velhice que deixa o Chico Rola impotente (“deixou de ser cavalo para ser égua”), passando pela dor da viuvez, onde Deocleciano vê a interrupção dolorosa de uma rotina em que ele “(…) às 17h, voltava correndo para casa, pegava a esposa, e regressava outra vez para a praça, onde podiam contemplar, às 17h45, carinhosamente abraçados, o pôr do sol, a hora mais espetacular do povoado, em que o céu tingia-se de tons azul-violáceos, rosa choque, roxo, tons alaranjados e uma infinidade de tons vermelhos que se distribuíam em degradê pelo Monte Marrom.”, o que enxergamos é o personagem no centro de tudo.

A injustiça social causada pelo lucro e pela ganância também é assunto presente no livro, tendo como mote a existência da Betânia and San Francisco Railway Company, empresa de mineração de carvão. Desse modo, além de conter os tais elementos fantásticos (forma, labor e estilo), o livro traz também a lembrança de quanto os humanos são absorvidos e devorados pela ganância, pela desumanização e pela fome de lucro (realidade e conteúdo).

 

A voz narrativa e as escolhas

Um ponto que talvez incomode a quem vai ler a obra é o jeitão por vezes empolado com que o artista prossegue no romance. Mesmo em cenas engraçadas, provavelmente ao se deparar com trechos tais como “(…) inalar, involuntariamente, os odores nada agradáveis de suas flatulências” o leitor vai achar algo exagerado.

Outros exemplos reforçam tal impressão: “chorou copiosamente”; “Cria nisso. Como creu naquela noite”; “nitidamente absorto”; “assaz eufóricos”; “desmesuradamente perplexos”, entre outros.

Todavia, diante do que li (a obra em seu conjunto), consigo entrar em defesa do Cidade com alguns argumentos que talvez consigam explicar o caso: para mim, é outra voz que nos narra Rio das Almas; além disso, Pawlo trabalha no livro com um tipo de narrador que conversa diretamente com quem o lê.

Sobre a primeira hipótese, posso resumir da seguinte forma: a voz do livro pode não ser a do João Paulo ou mesmo a do Pawlo Cidade. Mas a de alguém criado por ele (ou eles) para tal.

Deixando de lado a questão do pseudônimo para não confundir, e sendo o autor do livro um dramaturgo, acredito na capacidade dele em “dar voz” a outros – como um “item de série”, digamos, para um bom homem de teatro. Com isso, e considerando sua experiência, acho que Cidade optou por criar uma persona que deve falar desse jeito “assaz” presunçoso.

Um narrador que precisa explicar o que é bronha (“o ato de se masturbar”), por exemplo, é o mesmo que pode nos deixar um pouco confusos quando fala sobre os telômeros que não conseguem mais se dividir (outros trechos me fazem suspeitar que a voz do livro seria a de um médico aposentado, meio sábio, bom de copo e de prato, chegado numa picardia e um grande observador; mas isso é especulação minha, um jogo interessante para o Gustavo leitor).

Sobre a voz ser a do tipo narrador que conversa com o leitor, diferentes momentos podem comprovar essa ideia. Na medida em que ele opina e compartilha experiências.

Como exemplo, cito os trechos a seguir (com grifos meus):

“Se fôssemos enumerar as coisas absurdas (e incríveis!) que povoavam o Vale, como o fato de uma vez por ano o sol brilhar em plena meia-noite, seria preciso escrever outro livro.

Vamos ver se consigo explicar. Quando completou sete décadas de vida, o filósofo professor leigo e funcionário da Estação de Tratamento de Água de Rio das Almas (…)”

Enfim, Rio das Almas é um livro que merece ser lido. Com atenção e prazer, se permitindo entrar no jogo proposto por seu criador.

E entre coveiros gêmeos bivitelinos de pais diferentes, burros alados, olhos violetas e assombrações, acredito valer muito a pena entrar, sim, no jogo. Na deliciosa leitura desse mundo-povoado. Lá, onde bar se chama taverna. E onde “A fragrância das gardênias só era abandonada quando as flores da Praça da Matriz desabrochavam com grande intensidade e magnificência”. Um lugar que eu gostaria muito de passar uns dias. Ou mesmo passar uma vida inteira, quem sabe.

 

Gustavo Rios é baiano e autor do livro Rapsódia Bruta (Mariposa Cartonera, 2016), entre outros.