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139ª Leva - 06/2020 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Como escrever bem sob uma rajada de tiros

Por Gustavo Rios

 

 

Ao falar sobre quadrinhos, música pop, televisão e outros expedientes que, em tese, existem fora dos limites da arte mais elevada, por assim dizer, seria legal de minha parte citar aqui um fragmento de uma entrevista que Umberto Eco deu ao jornalista Ben Naparstek. Quando instigado a falar sobre cultura pop, Eco, que possuía na época 34 doutorados honorários, disse: “muitos acadêmicos liam histórias de detetives e quadrinhos à noite, mas não falavam nisso porque era considerado uma masturbação”.

Ainda que eu não conheça nenhum dos acadêmicos citados pelo Umberto, e ainda que eu saiba que o Pornhub salvou muito escritor amigo meu em momentos difíceis, ao esconder a influência dos quadrinhos, da música chamada pop e da TV em nossa arte, negamos a outros conhecerem a fonte e a essência de uma boa fatia de nosso trabalho: a beleza do que produzimos como resultado de uma louca, inventiva e caótica junção.

A coisa não se resume a essa trinca, evidentemente. Quando se trata de livros, a literatura conhecida como Pulp também deu a muita gente boa lastro e fôlego pra seguir em frente – ou mesmo pra se despedir em grande estilo, vide Nick Belane e o seu criador, o nosso querido Charles Bukowski.

No caso dos livros Pulp, talvez uma das características mais legais seja o desprendimento de seus autores na criação de universos – coisa sem relação alguma com descuido, friso. Nesses livrinhos, dogmas travando os limites da fantasia parecem não existir. Tampouco o desejo de entrar na marra para a história da literatura através de hermetismos e outras traquinagens. Do pouco que li e gostei desse divertido quinhão literário, as questões psicológicas eram facilmente resolvidas e a pancadaria comia solta. Naquelas páginas a linguagem era simples e eficaz, no final das contas. E até hoje tento imaginar o que seria do Paul Auster e do Thomas Pynchon sem as histórias de detetive.

Bruno Ribeiro, autor do romance Bartolomeu, me parece o tipo do cara que curte um livrinho Pulp. Nas 122 páginas de sua “sátira burocrática e violenta” envolvendo “assassinatos encomendados”, nas palavras de Mateus Rodrigues no que parece ser um posfácio, o uso das estratégias comuns aos famosos livros de papel barato (pulp paper) abunda. Ou mesmo sobeja, se quisermos usar um termo à maneira do linguista e semiólogo italiano.

Com um enredo eficaz e interessante, mesmo para os que nunca curtiram a literatura “barata”, Bartolomeu salta aos olhos. Dono de uma linguagem rápida e multifacetada, que evolui de maneira alucinante, Bruno Ribeiro constrói a trama sem abrir mão de inovações.  E de alguns riscos. A forma que Ribeiro escolheu para seguir com seu livro foi muito feliz. E tal escolha deixou o trabalho acima da média de outros Pulps que conheci – se fizermos uma relação direta entre as opções e considerando meu conhecimento no tema.

Bartolomeu, o protagonista, é um assassino dos bons; um artista em seu ofício. Além de ser o eixo de todo o livro, esse anti-herói negro trabalha para uma empresa chamada Indústria. A Indústria é uma corporação regida por normas parecidas com as de qualquer grande firma – ou quase isso, já que ela dá a seus funcionários “(…) desconto em motel, cesta básica, restaurante, férias, décimo terceiro recheado, desconto em lojas de departamentos, roupas estilosas e a puta que pariu”. Afora ser uma corporação que tem “a puta que pariu” como benefício trabalhista, outro detalhe que a distingue das demais é o seu, digamos, ramo de negócio: a eliminação de pessoas sob encomenda, aqui conhecidas como Trabalhos.

A Indústria, que emprega hackers, snipers e assassinos, possui semelhanças com outra “empresa”: a Comissão, da HQ Umbrella Academy; quadrinho que virou série na Netflix e que foi magistralmente desenhado pelo brasileiro Gabriel Bá.

Com isso, diante das escolhas do Bruno, creio que posso assinalar dois pontos que me chamaram a atenção de imediato: a provável influência dos quadrinhos e o modo escolhido pelo autor para contar sua vibrante história

Grosso modo, a literatura Pulp transcorre de forma linear. A história é contada com começo meio e fim (com alguns flashbacks, é bem verdade), geralmente tendo uma voz narrativa firme durante o trajeto. Essa voz observa, pontua, muitas vezes ironiza e sacaneia, mas sempre se mantém estável, presa ao estilo e amarrada à personalidade do protagonista-narrador. No caso do Bruno a coisa funciona de forma diferente.

Mesmo que o livro não se resuma a um amontoado de relatos, tipo papo de divã ou algo parecido (tem muita ação, muita coisa rolando), as páginas de Bartolomeu são um apanhando de vozes distintas. E tal expediente enriquece muito a história, em minha opinião.

Colegas, inimigos (ou colegas que viraram inimigos), pessoas, figuras macabras e tantas outras, falam sobre Bartolomeu na primeira pessoa. Cada uma o descreve de forma pessoal e única. Todo o processo, entretanto, ocorre sem que Ribeiro perca o fio condutor: raramente o novo elemento confunde o leitor, já que enxergamos o mesmo Bartolomeu à nossa frente. Com suas manias, escolhas, habilidades e aspectos.

Criança Branca, Eraldo, Vegetal, Lobo Cego, entre outros, contam e vivenciam as mais variadas e perigosas situações. Assim sendo, a cada voz que surge (e incluo também Vegetal nessa onda, lá do seu jeito), fica óbvia a aptidão de Bruno em definir as características de cada personagem, mesmo que todos girem ao redor do protagonista. De Mona à Criança Branca, Bruno altera um pouco as regras do jogo Pulp, quando nos apresenta uma narrativa meio psicológica e individual. Indo além do uso atabalhoado de clichês.

Clichês são usados sempre que preciso, todavia. E esse procedimento em nada prejudica Bartolomeu – diante do fato de que tais clichês são o fundamento do estilo aparentemente escolhido por Bruno, ficamos bem em seguir com eles. Assim como cowboys devem usar chapéus e marcianos só conseguem invadir a terra se vierem de Marte, livros com a temática de Bartolomeu devem conter bebidas fortes, cigarros e charutos, drogas, quartos de hotel, socos, armas, tiros, conspirações, cadáveres, homens e mulheres ressentidos, tesão em suspenso, facadas, femme fatales, traições e gente esquisita.

Além disso, esse mineiro radicado na Paraíba traz para o livro uma série de questões pertinentes e atuais. Referências à Lava Jato, ao presidente do executivo e à nossa política apodrecida, surgem com ironia e até justificam o rumo da história – vide o trecho, “O troglodita chuta uma cadeira, ‘você é um dos maiores hackers do país, crioulo. Invadiu o celular do Moro e da galera da Lava Jato. Um gêniozinho (sic)’”, página 18; ou então: “O Brasil se tornou um paraíso para nós, mas os comunistas estão voltando. Povo brasileiro é besta. Não será uma eleição fácil, saca? Estão nos vigiando sem parar. Temos que nos manter mais discretos, pelo menos por enquanto.”

 

Lirismo, imagética, tiros e escopetas

 

Não é tão raro identificamos em Bartolomeu passagens dotadas de lirismo e até mesmo com um pouco de poesia, diria eu. Esse recurso, quando aparece, sempre surge no momento exato.

Bruno, autor de Febre de Enxofre, livro escrito em Buenos Aires sob a orientação do poeta Guillermo Saavedra, trabalho que serviu como parte do mestrado em Escrita Criativa na Universidad Nacional de Tres de Febrero, parece gostar do jeitão portenho de se resolver as coisas.

E é nessa mesma Buenos Aires que o lirismo e um pouco dessa poesia ficam evidentes pela primeira vez: “Sou conhecido como a Criança Branca e estou em Buenos Aires, hospedado em um quarto na Pousada Díaz, no bairro de San Telmo. Local apertado, cama com cheiro de mofo, aquecedor pequeno, poltrona com desenhos tribais e um abajur quebrado. Um paraíso às avessas” – destaco aqui a última frase.

Em outro instante o canto de uma coruja se converte em “(…) um assovio em forma de enterro.”, enquanto nas já citadas páginas iniciais, o tiro disparado por uma mulher surte efeito semelhante ao se transformar em  “(…) o assovio de um pássaro negro, o canto de uma flauta doce, tão doce quanto aquele cheiro que agora significava o meu fim.”

Ainda que pareça repetição, achei legal a definição literária que Bruno Ribeiro deu para a morte. Para mim, uma boa estratégia.

A ironia também é outro item presente em Bartolomeu. E isso não poderia faltar de qualquer forma. A começar pelos nomes e codinomes dos personagens, desembocando nas frases em que Bruno descreve, de forma macabra e ácida, situações e trejeitos do seu rol de personagens pra lá de excêntricos, me flagrei diversas vezes rindo alto.

Cito como exemplos os trechos: “Vegetal só verbaliza grunhidos através da sua máscara de gás surrada e acinzentada. Regata branca desbotada da banda Legião Urbana. Jeans preto e rasgado. Um corpo esquelético e meio morto. Os olhos azuis arregalados no vidro da máscara encaram Bartolomeu, que depois de alguns segundos, decidiu pedir uma água para o garçom.

“’Não precisa ter medo. O Vegetal aqui tem uma função nessa reunião.’”

No que Bartolomeu, tempos depois, retruca: “’Da próxima vez, não traga o psicólogo. Não confio em quem gosta de Legião Urbana.’”

Fundamental para o bom andamento da obra, a linguagem simples também dá o tom. Assim como a agilidade das frases e uma forte carga imagética na descrição de algumas cenas.

“Os meninos estão felizes. Eles insistem em perguntar sobre minhas armas e a resposta é sempre a mesma ‘papai gosta de colecionar’. Tão pequenos, sagazes, tão vivos. Deito na grama, enquanto a esposa cuida da janta. Digo que é tarde, devemos entrar. A janta está maravilhosa. Elogio minha esposa. Coloco os meninos na cama. Transo com minha esposa. Pego a cadeira de balanço e coloco do lado de fora. Em meus braços, a escopeta carregada. Três carteiras de cigarro no bolso da jaqueta preta: refeição para uma madrugada.”

“Se estivéssemos fora da sala eu já poderia prever os olhares mortos em nossa direção. A última marcha nessa enorme empresa, entre os corredores infinitos e largos, paredes nuas, sem janelas, portas distantes, fechadas e cheias de códigos, espectros de terno e sem terno, heróis e codinomes sem noção, e eu me perguntando se tudo isso faria sentido, e eu me perguntando: onde fica a Indústria? Até hoje não sabemos… Chegamos aqui e não sabemos como, mas chegamos. Em algum ponto entre São Paulo e Rio de Janeiro. Um ponto recôndito, eterno. E os homens e mulheres deste estabelecimento de morbidez e cifrão finado balançando a cabeça, falando em suas mentes ‘meus pêsames’ para o nosso Departamento, enquanto caminhamos rumo ao céu aberto, o exterior, o mundo real. E ali, a qualquer momento, nossas vidas seriam extraídas dos corpos, seja por Bartolomeu ou por qualquer um, o nome não importa.”

Digressões também são bem vindas, já que romances permitem isso com o manejo adequado. E no caso do Ribeiro as digressões me lembraram do Tarantino: personagens falando sobre Bolsa de Valores, sobre a obsolescência de produtos industrializados e sobre orgasmo feminino antecedem fatos novos, muita ação e rupturas.

A presença de raríssimos ecos, pleonasmos e assonâncias não prejudica tanto a leitura. Porém, como não captei a intenção do escritor em ser irônico ou mesmo poético nesses trechos, fato que permitiria mexer e brincar com a sonoridade sem derrapar, melhor seria se ele revisasse algumas frases, tais como: “Todos nós simulamos um luto. O silêncio não é absoluto, pois meus soluços (…)” e “ (…)um ruído sutil foi audível (…).”

 

A pressa: o inimigo mais perigoso para Bartolomeu

 

Na leitura que fiz de Bartolomeu, não pude deixar de perceber alguns erros simples de se resolver: se considerarmos o suporte em que o livro foi lançado (digital), é crível que Bruno os reveja.

Da grafia da palavra iPhone que surgiu por duas vezes como “iPHONE” e uma vez como “Iphone”, até o uso da palavra Nordeste – digitada como “nordeste” em outra página, sendo que ambas pareciam ter a mesma finalidade -, temos aí itens que merecem atenção. Outra coisa que pode melhorar é a formatação do texto que, no livro, parece ser aquela do tipo “justificada” (usem essa resenha como exemplo). Espaçamentos menores nos diálogos também ajudariam na leitura.

Certamente no afã de entregar um trabalho ao seu público, que não é dos menores e me parece bem qualificado, Bruno e os revisores devem ter se passado em tais questões. Esses vacilos, contudo, não diminuem o itinerário do Bruno nem o livro, com absoluta certeza.

Finalmente, diante de tudo que vi e li, indico com sobra Bartolomeu para todos aqueles que curtem uma boa história. Para a turma que gosta de uma escrita ágil e cheia de surpresas, o livro do mineiro-nordestino Bruno Ribeiro é uma excelente pedida. Um tiro certeiro, sem dúvida. Ou uma rajada de tiros, a depender do caso, do Trabalho e da encomenda.

 

Gustavo Rios é baiano e autor do livro Rapsódia Bruta (Mariposa Cartonera, 2016), entre outros.

 

 

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138ª Leva - 05/2020 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra I

O olhar atento do escritor 

Por Gustavo Rios

 

 

Acredito na ideia do escritor que trabalha com o que observa. E pouco me importa se esse argumento já foi repetido aos milhões ou bilhões, das mais variadas formas. Para mim, tal atributo costuma render bons livros, independente de ser um lance nato ou inato – sendo o “não nascido” aquele que aprende no caminho, sob o desejo de lastrear a imaginação e enriquecer a própria narrativa.

O conceito acima é simples, mas não simplório: o escritor deve olhar tudo atentamente. E deve gostar do jogo. Sem titubear, o “escriba” tem de ser aquele tipo de artista que passeia, capta, dando um novo significado ao seu entorno. Talvez algo bem próximo do que Walter Benjamim descreveu em seu livro, A modernidade e os modernos, ao citar G. K. Chesterton que, por sua vez, falava sobre Dickens: “(…) Dickens não absorvia no seu espírito a cópia das coisas; antes era ele que imprimia seu espírito nas coisas”.

Ney Anderson, escritor e crítico literário pernambucano, é um cara jovem e tarimbado que gosta realmente de livros. Em seu site Angústia Criadora, desde 2011 ele vem nos mostrando isso através de resenhas lúcidas e cuidadosas e de entrevistas. Como se não bastasse, Ney parece não ter grilos com essa coisa de participar de oficinas literárias, apesar dos riscos (uma oficina deve ampliar as escolhas do aluno, não formatá-lo; mas esse papo fica pra depois). O que me leva a crer que ele é do time dos que trabalham e retrabalham a escrita. Encarando sua arte com esmero.

O Espetáculo da Ausência, lançado pela editora Patuá em meados de março, é um livro de contos com uma belíssima capa (precisamos falar sobre essas pequenas obras de arte, o excelente trabalho do artista gráfico Leonardo Mathias). Surpreendido em meio ao estrago que a pandemia nos causou e ainda vem causando, O Espetáculo da Ausência bem que anda merecendo um maior destaque fora do metiê, lugar onde teve boa repercussão entre os pares. O Ney tarimbado que apontei acima foi referendado por gente de renome. E ele bem que merece, diante do seu já extenso currículo que inclui resenhas para a imprensa, participações em diversas coletâneas e o seu trabalho como colunista de literatura na rádio CBN de Recife.

Pegando carona na apresentação de Raimundo Carrero, e roubando um de seus adjetivos, posso afirmar também que Anderson é um cara sofisticado – e parece que isso vai além do trabalho literário. Em seu livro, cada detalhe, fala e cada gesto nunca surge à toa. Fruto do bom observador que ele é, suas descrições são exatas, finíssimas (falo do cuidado e do critério, tipo lâmina e corte, não de pedantismo), sejam elas um cigarro aceso ou uma taça de vinho e alguns comprimidos. Ou até mesmo uma viagem de metrô onde um micro universo de vozes se impõe, num dos melhores momentos do livro (vejam o conto “Estação final”).

Com Ney não tem essa de acaso, considerando aqui “acaso” como aquela frase solta, desvinculada, perdida e inútil.

A forma com que as histórias são contadas demonstra em si um profundo respeito pelo humano, sujeito-objeto de sua labuta. E pelo o que esse mesmo sujeito esconde dentro de sua cabeça e de sua alma. O olhar atento do jornalista, aquela coisa do repórter que investiga, parece se misturar ao do escritor, vai o mais fundo possível, enxergando o monstro que habita dentro de nós, parafraseando numa boa outra das ideias do Carrero.

Já de cara a gente percebe o talento. Em “Máscara rasgada”, por exemplo, o primeiro conto, somos convidados a acompanhar bem de perto os passos e as escolhas do personagem, seguindo com ele como voyeurs de ocasião. Os passos que vagueiam por esquinas onde se “guardam segredos que poucos conheciam” são visíveis, palpáveis, mas sugerem e escondem muito. E o protagonista sem nome (recurso que potencializa o mistério) quando age, obediente ao próprio desejo, nos leva junto com ele, num momento que pode parecer ruptura, mas que, ao final, se mostra talvez corriqueiro – a imagem da máscara rasgada no chão de um apartamento dá o tom perfeito à ideia de nos mostrar que, ao menos em algumas noites, nenhuma máscara cabe, esconde ou serve.

Não demora nada para termos outras boas evidências. Na sequência, “Nana neném” nos arrebata diante de um sofrimento inesperado, e de suas consequências, enquanto que em “Neon horizontal” a mudança ágil de vozes e perspectivas, aliada aos cortes temporais feitos com precisão digna de uma navalha das antigas, nos prendem e nos empolgam sob o efeito de frases tais como “Quer algo mais estúpido e sem graça do que o nome morte? Mas para que adiantaria um nome bonito para a morte?”.

Não achem, contudo, que a obra pede convencimento através do uso batido de frases meio, digamos, filosóficas. Ainda que Ney, com sua tarimba, provavelmente conseguisse trabalhar nessa base, sem escorregar praquela coisa chata do “papo cabeça” que desvirtua a voz do personagem, as escolhas que ele fez para conduzir o livro se apóiam na simplicidade (o “papo cabeça” quando surge faz parte do conjunto e das intenções; a voz correta no momento idem). No encaixe exato, porém amplo. No gesto banal descrito abertamente, aquele movimento antes da ruptura ou mesmo da descoberta. Gesto que carrega um mundo de possibilidades, sugerindo algo, tudo contribuindo para que o conto funcione e nos agrade.

 

O diapasão Carver      

 

Outro ponto a ser destacado é a minuciosa forma de narrar esses pequenos momentos e fatos, recurso que sustenta o livro na maioria das páginas. Nessa riqueza de detalhes e na descrição das ações, pude identificar afinidades benquistas com o Raymond Carver, um dos maiores contistas que o mundo conheceu (em minha humilde e reverente opinião). Assim como o Carver, Anderson estica até o limite do possível suas histórias, gerando a tensão necessária para que não o abandonemos em qualquer rua à beira do Capibaribe.

Como bons exemplos, posso listar os contos “Tela em branco”, uma aventura meio pictórica, “A história nunca termina”, “Janela secreta”, “Já não sou o único que encontrou a paz” ou o já citado “Máscara rasgada”. A técnica que Ney usou para construir tais narrativas se parece com a do ficcionista Carver em seus melhores momentos. Contudo, ao afinar a escrita dessa forma, Ney conseguiu trazer para o contexto escolhido por ele (seus personagens, a comovente lembrança de seu pai e o lado mais sombrio e volátil da metrópole Recife) a influência do Raymond, sem, contudo, ser um imitador vulgar do estadudinense: em O Espetáculo da Ausência a influência do Raymond serve como um diapasão, não impedindo que Anderson siga firme na busca de sua própria melodia.

E não é só isso, obviamente. Em outros textos, podemos ver o autor que arrisca na forma e que usa da ironia para criar seu universo (“Contrato exclusivo” e “Todos os corpos”). Vemos também um escritor que constroi a profundidade em suas histórias, sem ser um janota, sendo “A casa vazia” um bom exemplo: a fundura nesse caso aparece de forma natural, como consequência e desdobramento do propósito do escritor, dos caminhos trilhados por ele.

Outro elemento que merece destaque, talvez pela surpresa que me causou, é o jeitão particular e eficiente de utilizar, sem vacilos, um pouco dos macetes comuns às narrativas de suspense e, por que não dizer, de terror. Aqui ele também dá conta do recado (“Um conto possível”).

Típico de quem gosta da literatura e de quem tem domínio sobre ela (ou seria um pacto, um acordo entre amigos?), a gente se depara com trechos marcantes, tais como:

“- A gente deve virar música quando morre.”

“Ambulantes gritam os preços de suas mercadorias, pessoas correm para entrar nos ônibus, outras descem dos coletivos, caminham a passos largos. Os amigos conversando amenidades. A cidade é dele. A agitação, o cheiro, as pessoas. O Recife do extremo calor. E ali, naquele centrão, tudo se encontra. Você sabe, não é, meu filho? Eu estou em cada pedaço dessa cidade.”

Ou então:

“E segue. Não acredito em literatura que não tenha uma base no real. Um real fantástico até, interessante e fora do comum. Preciso sempre que algo de verdade tome conta de mim e me faça querer escrever. Que seja mais forte e violento do que qualquer coisa.”    

Ainda que em alguns casos o Ney tenha, talvez por escolha, evitado riscos maiores – coisa que escondeu um pouco seu talento – temos aqui um grande livro a ser descoberto. E diante de tudo disso, a leitura das 33 histórias me confirmou a ideia de que Ney Anderson respeita demais o fazer literário. E que seus contos, trabalhados com primazia e atenção, são retratos humanos riquíssimos, um mosaico de “gentes” e almas que habita a cidade do Recife. Sempre vivendo no limite do limite de algo. Para o deleite de todos nós, leitores sortudos e, certamente, atentos e felizes voyeurs de ocasião.

 

Gustavo Rios é baiano e autor de Rapsódia Bruta (Mariposa Cartonera, 2016), entre outros.

 

 

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136ª Leva - 03/2020 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

Paulo e seu “Lirismo de Chorume”

Por Gustavo Rios

 

 

É legal quando eu me deparo com um escritor fino, talentoso e sincero – quase um refrão do Lulu. Aquele tipo de pessoa que sabe aonde quer chegar. Que não se envergonha de suas influências, as usando com talento e sagacidade. Tudo em prol de um bom livro.

Paulo Bono é desses. Não se intimida se é Bukowski quem sopra melodias em seu ouvido. Ou se algo de Hammet desliza no teclado de seu computador. Ele segue na boa. Na busca de uma boa história.

Lançado em 2019, Sexy Ugly é um livro de 133 páginas editado pela baiana Mondrongo. Livro que me surpreendeu por vários motivos. Dos diálogos certeiros que dizem mais do que mostram, ao humor sem assepsias, esse escritor baiano, além de publicitário e flamenguista, mostrou ser um daqueles que respeitam o leitor.

E por que digo que fiquei surpreso? Antes de qualquer coisa, é preciso dizer que a “surpresa” em questão não tem a ver com a suposição de que Paulo fosse um escritor meia boca. É bem verdade que, antes de Sexy Ugly, havia lido pouca coisa dele – e isso tem mais a ver com minhas limitações. E também é fato que eu andava desconfiado de autores que assumiam o risco que Bono assumiu: transpor para uma realidade verossímil (e bem tacanha) aquela pegada forte e densa comum ao tipo de literatura que gente como nós admira.

O lance é que esse flamenguista assumiu o risco e vendeu o peixe. Desde a capa sensacional até cada palavra escrita, o que vi foi um autor com domínio total de suas intenções. Do começo ao fim.

De cara, posso dizer que Paulo é daqueles que curtem os escritores de “pegada forte”. Além dos já citados acima, identifiquei no livro coisas do Fante, por exemplo, mesmo com todo o humor inserido. Todavia, não falo aqui de imitações toscas, um tipo de literatura que simplesmente copia para um universo próximo – a realidade do autor, “por supuesto” – o estilo sem firulas dos gringos. Ao ser franco com suas certezas e ter em mente exatamente o que desejava, ainda que isso demandasse um trabalho de “levantar e derrubar pilastras”, Bono soube escolher o tom de sua obra. E tais autores serviram justamente pra isso: dar o tom; lastrear a história do Deco Ramone, o protagonista.

Os personagens são caricatos, mas não falsos. E nos lembram outras grandes figuras literárias e cinematográficas da mesma estirpe. A linguagem é crua e suja, sem desculpas nem receios. Algo louvável, principalmente em tempos de álcool gel e outras assepsias – ou, como bem disse o capixaba Saulo Ribeiro na orelha do livro: “lirismo de chorume”. De sujeitos com chapéus de cowboy, a femme fatales, temos um desfile genial, divertido e convincente (dentro da proposta do escritor) de pessoas que nos prendem e nos cativam. Pouco importando se elas conhecem o Conjunto Habitacional Feira VI ou se tomam umas no Rio Vermelho.

Daí o primeiro risco: ao escolher trabalhar com indivíduos tão marcantes, os colocando em “cenários” tão próximos – Salvador e Feira de Santana -, Bono poderia ter errado feio a mão. Ou a demão. Não foram poucos os livros que li onde o artista, preso ao sedutor “complexo de Factótum”, apenas copiou, de forma deliberada, ideias centrais e batidas dos escritores pertencentes a essa linhagem. Ainda que suas influências fossem claras, e aparentemente pensadas, Paulo soube dosar bem o uso de tais “personas”. Ele foi muito hábil ao mesclar tais escolhas com suas próprias experiências. E nada sobra no desenrolar da narrativa.

Assim como Paulo Bono, Deco Ramone, protagonista do romance, é um publicitário à beira de algum abismo. Sem grana, sem escolhas, e prestes a ficar longe da filha, ele é contratado para um estranho “job”: criar um roteiro para uma casa de tolerância que atende somente aleijados e párias em geral, incluindo os de “pau pequeno”.

A partir desse ponto, o que vemos é uma obra deliciosamente maldosa, ácida, direta, sedutora, curta e instigante. Em resumo: arriscada.

E isso se deve não somente às inspirações vindas da literatura. Ao ler Sexy Ugly, coisa que fiz em duas tardes (e isso não é demérito), percebi que o também roteirista Paulo bebeu (e fumou) em outras fontes artisticamente válidas: falo dos grandes seriados que, nas últimas décadas, vêm mudando nossa maneira de entender e perceber a linguagem televisiva e/ou cinematográfica.

De Breaking Bad à série A Sete Palmos, desconfio que Bono captou algo escrito pelo jornalista Brett Martin em seu livro Homens Difíceis. Além disso, suspeito que ele também compartilha, de certa forma, alguma coisa das ideias defendidas pelo Enrique Vila-Matas, num artigo onde o espanhol cita Mad Men e sua reconciliação com o que ele chamou de “formas breves”.

Isso sem falar no Tarantino ou no lendário Lebowski, presentes diretamente em Sexy Ugly.

Existe muito de cinematográfico no andamento de sua escrita, bem como na elaboração dos diálogos, outro ponto fundamental na obra: os diálogos são o seu “parque de diversões”, como ele mesmo chegou a dizer numa entrevista aqui mesmo. As conversas, por si só, conseguem preencher boa parte do livro, sem travar a leitura nem trazer confusão. Capítulos inteiros (apesar de curtos) são “só” isso. E “tudo“ isso é feito de forma tão direta e ritmada, que até as reticências se tornam menos reticentes.

Paulo põe na boca (sem malícia, por enquanto) dos personagens falas que refletem o que ele realmente deseja mostrar: se profundidade ou escracho, tanto faz. Entretanto, mesmo que a ideia seja filosofar ou sacanear (coisas bem parecidas às vezes), tudo é feito com destreza e humor, umas das melhores formas de entender, enxergar e suportar esse mundinho que precisa lavar as mãos, inclusive entre os dedos.

 

– Sério, pai? Você deu em cima da Cássia Eller?

– Só pra descolar uns ingressos.

– E aí?

– Ela preferiu minha namorada.

– Eu queria muito ter ido num show dela.

– É, mas só pagodeiro que não morre.

 

Isso é Deco e sua linguagem suja. Para que possamos lavar a alma…

Quanto à profundidade, elemento tão buscado no fazer literário, não posso afirmar que Bono teve isso em mente durante o processo. Acho até que não foi sua intenção: continuo acreditando que ele buscava uma boa história. O que já vale muito a pena.

Contudo, e nem sei bem por qual motivo, em alguns momentos consegui perceber e enxergar algo mais, digamos, “cabeça”. Como uma mensagem subliminar e escondida, meio de bobeira. E isso tem muito a ver com o humor, elemento chave em Sexy Ugly.

“Comerciais de presunto. Nada mais distante da realidade. Ninguém ostenta tantas fatias de presunto dentro do pão. Lembro de quando garoto. Era preciso dividir uma fatia entre quatro irmãos. É uma das poucas vantagens de alcançar a vida adulta. Comer quantas fatias de presunto o rabo aguentar.”

Tudo bem, tudo bem, já até posso enxergar um ou outro torcendo a boca. Perguntando-se como Gustavo enxergou profundidade nisso. E não vou elencar as possíveis mensagens contidas nesse trecho ácido e bem humorado. Entretanto, creio que não podemos também esvaziar por completo o fragmento acima. Defendo a ideia de que o leitor faz o livro. E costumo exercitar isso com frequência.

Além do mais, podemos enxergar críticas ao que somos nesses dias terríveis em outras páginas: do racismo na publicidade à necessidade de gourmetizar tudo que é bom e vital, incluindo sorvetes e churros. Numa vidinha morna e sem lactose.

Na base do humor (sempre ele), e de um cinismo bem articulado, Deco Ramone nos atiça com questões que geralmente deixamos pra lá, enquanto ele mesmo luta para sobreviver. Todavia, o cara faz isso sem forçar a barra. Sem querer voltar no tempo, e viver sob o mesmo teto que a Simone de Beauvoir.

Bem sei que toda resenha é tendenciosa. E, sempre que faço uma, pareço exagerado nos elogios – e provavelmente não muito retórico nas justificativas. Porém, ao ler Sexy Ugly, realmente enxerguei um bom livro. Sincero, bem contado, engraçado e direto.

E pouco me importa se ele será criticado pela suposta imitação de um estilo “maldito”, o tal clubinho Factótum (nada a ver com a moçada boa que divide com Paulo inspirações e viagens literárias). Quando o autor, ao trabalhar em sua obra, se sente conciliado com as próprias escolhas, tudo dá certo. Na medida em que ele também se insere nela.

O fato é que Bono é um cara de talento. E, ainda que algumas figuras presentes no livro nos pareçam a priori estereótipos, como o sujeito com pinta de cowboy num bar do Rio Vermelho, a dúvida sobre o artista e suas capacidades acaba se diluindo no caminho. Ao vermos que o desejo do mesmo é o de nos contar uma história. Sabendo como nos conduzir em sua ideia.

Ao trazer aquele tipo meio caricato de pária e marginal, essencial para que Sexy Ugly funcione, Paulo bem que poderia ter caído no ridículo. Se a gente pensar nos autores sem talento que costumam replicar suas influências, reescrevendo um bando de figuras deslocadas e sem brio.

Para mim, entretanto, de nada vai adiantar reduzir o valor da obra com teorias vazias e rancorosas. Se um cara resolve tocar um bom blues, Howlin’ Woolf deve ser lembrado.  O mesmo pra Gonzagão.

Com isso, pensar em criticar Bono pelas escolhas, é meio que reforçar a ideia de que, enquanto nordestinos, somos eternamente responsáveis por um tipo de reserva estilística. Aquele regionalismo arrastado e chato, ou aquela urbanidade estereotipada, multicolorida e batuqueira (não sejam mesquinhos ao interpretar essa ideia, por favor).

Acredito que devemos ser livres. E devemos confiar em nossos passos cada vez mais longe desse “comportamento de Nonada”. Se tal comportamento resultar em bons livros, obviamente.

Foi o caso de Paulo. E é por isso que digo: confiem nele. Nele, no livro e no Deco Ramone. A viagem será boa, eu mesmo garanto.

 

Gustavo Rios é baiano. Autor de “Rapsódia Bruta”, entre outros.

 

 

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125ª Leva - 03/2018 Aperitivo da Palavra

Aperitivo Palavra II

“Felicidade é a queda, o abismo”

Por Gustavo Rios

 

 

Autor de vários livros, entre eles o comovente O caçador de mariposas (Mariposa Cartonera, 2013) e o romance Estrangeiro no labirinto (Confraria do Vento, 2013), semifinalista do prêmio Portugal Telecom, o escritor pernambucano Wellington de Melo deve gostar bastante do que faz – e ele faz muitas coisas – para conseguir juntar tudo, ou quase tudo que envolva seu interesse, em seu mais recente livro.

Ele, que foi traduzido para o espanhol e francês, e é editor pelo selo Mariposa Cartonera, com o qual publica diversos autores de forma artesanal, é também figura atuante nos meios literários, defendendo claramente suas escolhas políticas, ministrando oficinas cartoneras pelo Brasil e comandando a Cepe Editora.

Não bastasse ele é professor e tradutor. E um sujeito com estilo (não “estilagem”, é bom frisar).

Felicidade, sua mais recente obra, saiu em 2017 pela Editora Patuá. O livro em si é um primor em sua parte gráfica. E um petardo em sua essência.

Dividido em três partes (Beleza, Julgamento e Misericórdia), Felicidade é resultado de um trabalho extremamente poético, sucinto e poderoso. Um trabalho onde o autor consegue unir assuntos relevantes (coletividade, poesia, luta de classes, questões de gênero etc.) com habilidade, sem se perder no caminho – até porque o caminho é ele quem cria.

Em cada página o leitor se sente livre para escolher como construir em sua mente essa ou aquela cena (a necessidade básica de “entender” o enredo e apreender o estilo, simplificando-os na busca de repetições e convergências). Porém, essa sensação é aparente, na medida em que Melo tem o intuito de nos manter por perto, na base da rédea curta – e a tal simplificação cai por terra: cada nova leitura força a admitir que algo sempre nos escapa, que não vamos aprisionar a escrita de Wellington. E ficamos gratos por cair na armadilha.

A poesia (ou prosa poética, fiquem à vontade) serve como base para as situações a priori surreais, mas que trazem em si o elemento político tão caro ao autor– falo de 40 pessoas prontas para um suicídio coletivo na mesma noite em nome de uma causa, dentre outras coisas. Contudo, ao seguir adiante com Ademir, o personagem principal, começamos a perceber que as cenas e os acontecimentos se tornam parte do jogo. Um jogo que vai se mostrando profuso, verossímil e doloroso, onde o indivíduo não se dilui em nome da tal causa. Para nossa sorte.

Um jogo saturado de brutalidade, desespero, poesia e coesão. Uma incrível história.

Então, seguimos. E nos jogamos de edifícios altos e imponentes em nome de um ideal. E caminhamos pela cidade, onde “Duas colunas com capiteis sobre as quais dormem cabeças infantis fraturadas pelo vento e pela cal (…)” surgem numa “ (…) paisagem precária e teimosa, babel silêncio argamassa tijolos e desejo”. E somos violentados, encarando nosso passado, desprovidos do conceito tacanho de gênero (uma aposta certeira do escritor, não somente para aderir ao discurso tão atual, mas para dar a um dos personagens a merecida amplidão), sem paz e sem chances, buscando qualquer tipo de redenção.

Nada é fácil em Felicidade. Mas tudo é sucinto. E direto. E belíssimo.

Wellington faz parte daquele time de escritores que subverte a lógica na descrição de qualquer cena, seja ela crucial ou simplesmente transição entre acontecimentos: são frases curtas e afiadas, em diferentes ritmos. Contudo, essa subversão não é a impossibilidade da leitura e do entendimento, mas a chance de multiplicar esse entendimento, essa construção – sempre lembrando de que existe uma trama por trás e que nada é gratuidade, muito menos confusão.

Não foi raro me deparar com trechos onde supus não entender a ”cena” e o momento. Todavia, uma nova leitura (a doce armadilha do autor) me fez perceber as diversas chances de reconstruir aquilo, sem sair do rumo – o lance da rédea curta. Eu poderia reinventar um determinado instante, um rosto, uma dor, um suicídio, mas estava sempre jogando dentro das regras estipuladas pelo escritor pernambucano, pois havia uma história a ser narrada.

Então a cena era recontada, sempre com um novo brilho (não me arrisco a entregar o enredo, por medo que isso reduza as escolhas do leitor; e vamos em frente).

Num texto onde “(…) pombos de chumbo e acrílico zumbem (…)”; onde os sorrisos dos meninos estão “(…) mergulhados no vácuo (…)”, é fundamental entender que, mais cedo ou mais tarde, durante a leitura, estaremos subjugados e entregues. E que os trechos acima, ainda que pareçam belíssimas falcatruas poéticas, servem para compor a narrativa. Na base da boa literatura.

Em Felicidade existe maestria na condução do texto. Há uma trama sutil em sua forma (poesia ou prosa poética, mais uma vez fiquem à vontade), mas brutal em sua essência (a sequência dos acontecimentos, a tal história; a morte e o esquecimento como atos políticos; o passado dos personagens à tona).

Um movimento de distração nos custa o retorno à página. E esse retorno, curiosamente, pouco nos custa – considerando o ganho na nova leitura, sai barato, uma pechincha. É nessa volta que surge o renovado entendimento.

E um novo livro aparece. Com a mesma trama, todavia: é o desejo do autor.

A liberdade conduzida em Felicidade nos permite interpretações, mas sem nos perder numa narrativa ilógica e supostamente poética – aquele amontoado de palavras soltas; a manjada armadilha das vanguardas vazias, onde o leitor é sempre o ignorante, não importa se a obra foi publicada em mandarim: a gente que se vire com a “lisergia autoral” do gênio.

Wellington nos mostra que a literatura de qualidade, aquela que arrebata e instiga, sempre é resultado de escolhas, labuta e talento. E que é possível converter em poesia qualquer enredo, causa, tragédia, narrativa ou recurso literário, sem se extraviar no percurso.

Felicidade deve ter também alguma relação com o trabalho de um bom carpinteiro (Monteiro Lobato foi mais feliz no uso da metáfora, mas enfim), consciente do resultado de seu ofício. Um troço que transforma madeira rude em alicerce. Aprumado e firme, sim senhor. Mas igualmente repleto do que a literatura e a arte têm de melhor.

 

Gustavo Rios é baiano e escritor invisível.

 

 

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105ª Leva - 08/2015 Aperitivo da Palavra Destaques

Aperitivo da Palavra I

A linguagem e o limite

Por Gustavo Rios

 

 

Talvez uma das formas mais comuns de literatura seja aquela que está vinculada a um território. E aqui uso a palavra não como representação de lugar, mas sim de um nicho. Fundamentalmente, uma escolha.

Grosso modo, temos autores “regionais” na forma e na construção de seu eu-personagem – a imagem que o mesmo escolhe de si para o mundo; o chapéu na foto, a biografia na orelha do livro. Outros preferem a urbanidade em suas infinitas formas. E se inventam. Muitas vezes indo além do tripé “asfalto, quebrada, concreto”.

Usando o raciocínio simplório acima, quando o autor faz sua escolha traz consigo a linguagem, matéria e antimatéria de seu trabalho. Isso é terrivelmente óbvio, sei. O “urbano” vai buscando o entendimento através das gírias, do fraseado louco e comum das ruas, enquanto o “regional” se vincula ao que de mais rincão existe. Tal situação os obriga a uma busca incessante. Talvez na tentativa de manterem proximidade com seu universo, seu quinhão. Ainda que as novas possibilidades artísticas os afastem de suas raízes, é preciso encostar o ouvido ao chão. Sentir a trepidação, escutar; manter a essência – seja ela inventada ou não, pois quem cria a paisagem é o autor, não o contrário.

Existe, porém, outra espécie de escritor. Um tipo que vai além. Geralmente tal artista em algum momento arrancou de si a aldeia. Aquela, universal por natureza. E nesse movimento certamente revelador, se fez completo, um autor sem amarras. Arrancando de si também a linguagem que o vinculava ao seu possível território. Convertendo-a, de limitadora em ilimitada.

Em Fernanflor (Iluminuras, 2015, 112 páginas), de Sidney Rocha, tive tal impressão logo no começo. As palavras existem, não fogem de nossa compreensão. Os elementos narrativos não são disparates. Nem viagens sem volta no doce mundo das abstrações. Todavia, Rocha demonstra saber utilizar a linguagem a seu favor. Ampliando-a até outro patamar. Indo além.

Para ele, o território, o lugar, ou qualquer conceito semelhante é a própria linguagem.

Não existem ali as dificuldades comuns aos pretensiosos. Dos que se excedem no uso de palavras complicadas. Nem tampouco o fluxo de consciência, tipo de arte que, nas mãos dos tolos, se torna artifício. Apesar da velocidade com que o ganhador do Jabuti de 2012 desenvolve seu romance, fica bem evidente o cuidado com a construção, com a estrutura e com a intenção, principalmente. A velocidade aqui é fruto de seu intento. A rapidez é resultado de trabalho, um artesanato, lido, relido, analisado não de forma obtusa e engessada, mas com a paixão dos que sabem aonde querem estar – não por acaso, o livro levou cerca de oito anos para terminar, além de ter sido submetido a uma leitura pública há cerca de quatro anos em várias capitais do Brasil.

Apesar de não ser hermético, Fernanflor também não pode ser lido de forma desleixada. O fato de Sidney ser um autor que subverte a noção/ideia de território nos obriga a reinventar nossa leitura. A literatura flui e nos escapa, se a gente vacilar.

Cada página nos força a construção de possibilidades. E nunca estamos satisfeitos, pois a todo instante vemos algo distinto. Jeroni, o protagonista, poderia ser resumido a um dândi. Talvez possua as mesmas posturas e angústias comuns aos outros da história da literatura. Porém, cada novo instante é de fato novo, exige mais do leitor.

Sidney consegue uma literatura de deslocamentos. E, antes que tal afirmativa se transforme somente numa frase de efeito, é possível tentar justificá-la com uma ideia simples: a cada página conquistada entendemos que nada é linear nem previsível. Em nenhum aspecto.

Do enredo à linguagem, as coisas se renovam. O novo não surge somente nas ações do personagem – aonde ele vai, o que fará em seguida, qual seu destino, sua tragédia e seu triunfo. O novo surge também na linguagem. Na escrita. Em diálogos que aparecem do nada, surpreendem, dilatam a literatura “deslocada” de Rocha.

Uma epifania não é fato isolado. Ela se desdobra. Atinge não somente o instante na história, mas também a linguagem que lhe dá guarida. É um conjunto de sensações. Pluralidade, literal e literária:

“Retirada a laje, a areia volta ao bojo das pás. Milhões de pétalas são lançadas para cima e, outra vez, se pode ver o vidro limpo. Os cordames grossos, de algodão puro, se enfiam na terra e içam o diamante. Sentimos o cheiro das rosas, mas é a respiração da terra ruminando o odor da terra molhada. Por um segundo crê que o diamante levita, depois as mãos o carregam até o suntuoso catafalco.

“Na câmera ardente, não há mais espaços para mais rosas nem palmas.”

E presenciamos cisnes que “desnadam”. E um Jeroni que vê “(…) lágrimas subirem das faces das mulheres e serem sugadas de volta ao fundo dos olhos”.

Outro ponto a ser destacado é o uso de elementos pictóricos. Sendo Jeroni pintor, tal recurso é fundamental. Justificável em maior ou menor escala. Contudo, aqui mais uma vez insisto nas teses do deslocamento e da pluralidade, para dizer que em cada trecho onde Sidney resolveu usá-los, o risco (ou seria traço, ou pincelada?) valeu.

Ou seja, supondo que o autor não seja artista plástico, ou que ele tenha algum grau de intimidade com a pintura, os trechos onde isso foi necessário não serviram somente de arcabouço para o protagonista. Nem descrições frias resultantes de pesquisas. A pintura que Lourenço Mutarelli cita na orelha do livro tem a ver com a linguagem – e opiniões como as dele, escritor e um dos melhores quadrinistas do país, tem peso e medida, assim como as do português Gonçalo M. Tavares, dono de um texto fundamental sobre Fernanflor. Provando mais uma vez que ela é o alicerce. A mesma linguagem inovadora que nos conduz desde a primeira página. Com cores, vibrantes ou não – o vermelho e o cinza são escolhas firmes do autor, mesmo quando desbotam: o desbotamento também sendo escolha, recurso. Com os retratos e com a vida que deixam Jeroni Fernanflor sempre à beira de um precipício. Usando seus sapatos lustrados, suas roupas bem cortadas.

Somos seduzidos pelo artista. Pelo dândi que desde novo olhava o mundo como um quadro vigoroso, mas nunca estático. Pelo artista que se mostra nos silêncios que o Mutarelli diz, mas que se esconde nas “(…) frases claras, mas nunca evidentes.”, opinião do escritor português Gonçalo M. Tavares em seu texto.

Fernanflor é o começo. A primeira parte de uma trilogia arquitetada por um grande autor. Um inventor de possibilidades: e que os outros dois livros nunca encerrem a aventura, ainda que tenham um fim.

 

Gustavo Rios é autor do livro de contos “Allen mora no térreo” (Mariposa Cartonera, 2015), entre outros.

 

 

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103ª Leva - 06/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Caroline Pires
Ilustração: Caroline Pires

Buscar a inscrição do nome das coisas entre os dias. Cultivar palavras antigas, saberes novos, sabores de um porvir. Evocar imagens que atravessam as horas desavisadamente. Percorrer o vasto campo dos mistérios à procura de perguntas. Sim, perguntas, pois respostas significam uma espécie em extinção. Se é que algum dia será possível chegar ao ponto extremo de nós mesmos, tentemos ao menos absorver um mínimo do transcorrer incerto do tempo. Ao guardarmos nossos supostos tesouros, corremos o risco de perdemos a capacidade de contemplá-los e obtermos deles o que realmente importa. Quem sabe a vida não seja um poema maldito em eterna construção, requerendo métodos descartáveis de tentativa e erro. Queremos tanto: matéria, sopro, comida e algum alento intangível. No entanto, o reino da dúvida à espreita, como uma divindade inexplicavelmente cultuada. Dentro desse inadvertido território, a arte intenta algum fôlego. Quiçá um salto no abismo para um desfecho imprevisível. Sobremaneira, há quem julgue serem os estados melancólicos do ser verdadeiros combustíveis da criação. Nesse sentido, os lampejos de contentamento e efusão diante da vida seriam menos eficazes? Discussões à parte, nada está em perfeita ordem debaixo do sol. Enquanto a caravana passa ante nossos perdidos olhares, podemos nos permitir conhecer o que outras tantas pessoas têm a nos dizer com seus feitos. É assim com as epifanias poéticas de gente como Sara F. Costa, Samuel Malentacchi, Ana Horta, Nilcéia Kremer e Floriano Martins. Um efeito de trazer à tona recortes incisivos da vida toma os contos de Geraldo Lima, Márcia Denser e Fernando Rocha. Há uma atenta leitura de Sérgio Tavares para o novo livro de contos de Luís Roberto Amabile. No quesito cinema, Larissa Mendes convida-nos a perceber a delicadeza poética contida no filme brasileiro “A História da Eternidade”. Num diálogo movido essencialmente pelos sensíveis territórios da música, Graccho Braz Peixoto entrevista o cantor e compositor Mário Montaut. Por meio das escutas de Gustavo Rios, uma valiosa apresentação do disco da banda “A Flauta Vértebra”. O romance “Java Jota”, de Thiago Mourão, é alvo das anotações de Fabrício Brandão. Com a vigorosa contribuição da artista plástica Caroline Pires, desenhos e ilustrações vêm fazer par com outras tantas vozes aqui dispersas. É tempo de uma 103ª Leva, caro leitor!

Os Leveiros

 

 

 

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103ª Leva - 06/2015 Gramofone

Gramofone

Por Gustavo Rios

 

A FLAUTA VÉRTEBRA – A FLAUTA VÉRTEBRA

 

Flauta Vértebra

 

Eu suspeitaria de imediato só com a simples menção do nome da banda: teria algo de pernóstico, e talvez me trouxesse de chofre a imagem batida de jovens barbados – as mulheres teriam rostos pálidos -, meio tristonhos e bem antipáticos em seus ideais de arte. Do tipo que força a barra com letras difíceis. Seria algo excessivamente intelectual e vazio; uma coisa estranha, monótona.

A lógica para isso é simples: dentro desse meu novo mundo (o dos quarenta e tantos), supor que algumas pessoas pensaram no Maiakovski para nomear a própria banda seria motivo suficiente para me manter afastado. E não queimar óleo. Nem pestanas. E nem digo isso pelo poeta, nem pelo poema – um achado, para mim que não conhecia o texto. Mas pela pretensão.

A Flauta Vértebra, além de ser o nome de um poema do Vladimir, é basicamente uma banda baiana, da capital, com cerca de sete anos de existência com interrupções. Formada por cinco jovens que estão na batalha para mostrar sua obra – aquele trabalho espartano de convencer um público escasso numa cidade de chances escassas – notadamente diferente. E de extrema qualidade. Que começa a ganhar projeção neste Ep produzido pelo sempre irrequieto Irmão Carlos (líder da banda Irmão Carlos e O Catado e mentor do Tv Caverna, do Youtube) e prensado pela parceria Bigbross Records / Brechó Discos.

Além de saber que eles não vieram para serem cópias das cópias, nem muito menos prisioneiros de conceitos obtusos do que pode ser música original, A Flauta Vértebra possui a leveza de quem não se incomoda com a responsabilidade de ser, atualmente, uma das coisas mais legais e interessantes que estão acontecendo por aqui. Não por não saberem onde pisam. Mas pela percepção clara de que assim o trabalho flui. E não só em termos de musicalidade, mas também em relação às letras belamente interpretadas pela vocalista – figura central do projeto, uma espécie de guia, de ponto de equilíbrio -, dotadas de inesperada maturidade. Com o peso e a fúria de belos poemas, perfeitamente encaixados nos arranjos.

 

A Flauta Vértebra / Foto: Gether Ferreira

 

O que pensar quando na faixa “Renato” nos deparamos com coisas tais como: “Num momento eu me sinto bicho, / É tão estranho / Desencantar a nossa história / É falsa a claridade / Não foi sonho / Não consegui dormir / Não vê que os que dormem são reféns” e, sem saber o que concluir, resolvemos seguir em frente?  O que de fato podemos supor quando percebemos que em “Revolução (parte 1)” estamos diante de uma das mais interessantes, pessoais e francas abordagens sobre o que fizemos e deixamos de fazer em junho de 2013, quando as ruas foram tomadas em nome de algo – enquanto a PM desencavava seu estoque de lacrimogênio e das suas bombas de efeito “moral”?

O que dizer, afinal de contas, da guitarra que dá inicio à leveza da faixa “Polaroid”, resultando na combinação belíssima entre o teclado, o baixo e a bateria de Breno Pires (bastante competente e talentoso), numa espécie de celebração ao que pode ser legítimo, arte, música? (“Fotos instantâneas trazem doses espontâneas de ilusão / E ao mesmo tempo a lente mostra a gente / O que há de mau e o que há de bom / Eu quero mesmo é seguir viagem na canção / Ah, e já é dia no Japão / Tenha um bom dia então”). E de “Epílogo Atroz” que, além de ser um rock divertido e bem executado, contém a surpresa de frases como: “A festa acabou / A porcelana que encobria o seu rosto se quebrou / Esse suor gelado que escorre dos meus poros / Também te atacou / As cortinas se fecharam, meu bem / Ninguém recita seus idílios, suas trovas, seus sonetos / Ninguém engana ninguém / Ninguém engana ninguém”?

Sohl (vocal), Carlos Vilas Boas (guitarra), André Rodrigues (baixo), Ricardo Vilas Boas (teclado) e Tita Gracille (a mais nova baterista, no lugar do já citado Breno Pires) não refugam as próprias influências. Que podem muito confundir a todos, pelo simples fato de serem bem aproveitadas e servirem como lastro para uma musicalidade própria, uma postura nova diante de tudo – e não como cópia da cópia da cópia, se vendendo como a última novidade na grande feira das obviedades. Podemos perceber algo dos Secos e Molhados. Arranjos que lembram alguma coisa do Tropicalismo, passando pelo rock classicão e pela fatia mais interessante de toda a nossa MPB, atual e antiga.

Podemos dizer que são cinco faixas. Num Ep que vale a pena escutar. São cinco jovens que estão tornando as coisas bem melhores para a música. E que gostam de correr riscos, ainda que seja de uma maneira assombrosamente leve. Para a sorte de todos nós.

 

 

Gustavo Rios é baiano. Autor do livro de contos “Allen Mora no Térreo” (Mariposa Cartonera, 2015), dentre outros.

 

 

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98ª Leva - 01/2015 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Foto: Pedro Alles
Foto: Pedro Alles

 

É tempo de continuar os caminhos. Levar adiante a primeira investida editorial do ano traz consigo um sentido de renovação de ânimos. Abertas estão as escutas para que outras tantas vozes consolidem por aqui o ideal essencial de diversidade. E assim o maior desejo que rege os instantes é o de promover encontros em torno da arte. Poder harmonizar as energias que atravessam textos e imagens favorecendo um mosaico vivo de expressões múltiplas. Erguer uma edição da revista representa agregar individualidades rumo a um norte coletivo que não se dilui pelo caráter da heterogeneidade. Por mais que cada colaborador traga sua carga pessoal e distinta, algo torna o resultado final curiosamente dotado de um equilíbrio. Nunca houve uma espinha dorsal premeditada quando a intenção era a de solidificar uma determinada leva. Autores e artistas se aproximam ou são convidados e, a partir disso, a convergência de atuações segue fluxos de naturalidade como se um único e permanente tema se apresentasse: a busca pela qualidade. Cada criador que por aqui desfila seus verbos e imagens cristaliza a identidade da revista. Hoje, é tempo de percebermos o que nos dizem as vozes poéticas de Carla Carbatti, Roberto Dutra Jr., Neuzamaria Kerner, Alexandre Guarnieri e Mariana Fernandes. Oportunidade de percorrer as densas linhas dos contos de Márcia Denser, Jorge Mendes e Lia Beltrão. Lermos o que o escritor Rafael Mendes tem a dizer sobre seu engajamento literário numa entrevista capitaneada por Sérgio Tavares. Por seu curso, Igor Fagundes resenha o novo livro de poemas de Alexandre Guarnieri. A conturbada trama do filme “Garota Exemplar” encontra respaldo nas anotações de Larissa Mendes.  O escritor Gustavo Rios fala de suas impressões sobre o mais novo disco da banda de punk rock Pastel de Miolos. Os recentes lançamentos poéticos de Geraldo Lavigne recebem a leitura atenta de Jorge Elias Neto. Entremeando os trajetos da nova edição, as fotografias de Pedro Alles remontam às nossas complexas paisagens humanas. 2015 pede passagem trazendo junto uma vasta gama de perspectivas. E os caminhos apenas estão no seu início. Seja bem-vindo à 98ª Leva, caro leitor!

Os Leveiros

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98ª Leva - 01/2015 Gramofone

Gramofone

Por Gustavo Rios

 

PASTEL DE MIOLOS – NOVAS IDEIAS VELHOS IDEAIS

 

The Weapons of Mystery

 

Não seria coerente falar em longevidade quando o assunto aqui é simplesmente um CD, ainda mais se tratando de uma banda de punk rock baiana surgida numa década em que, ao menos para mim, frequentador raso e esporádico da cena, parecia perder seus melhores representantes. A palavra longevidade, quando metida no contexto do que me proponho a fazer agora, poderia ser citada quando falamos de Stones – só para ficar no óbvio terrivelmente ululante. Ou seja: ao falar de rock and roll, e vincular tal palavra ou qualquer um de seus sinônimos a esta resenha, corro o risco de converter tudo em exagero e banalidade.

Mas antes de qualquer coisa, é bom deixar claro que é exatamente nisso que pensava toda vez que tentei escrever (e reescrever) esta resenha: longevidade. Ao falar do mais novo lançamento da Pastel De Miolos, Novas Ideias, Velhos Ideais, é impossível não lembrar meu sentimento nas noites em que acompanhei a banda. Era uma sensação nova e incomum, coisa que de quem está acostumado a observar por hábito – situação reforçada pelo fato de que eu era uma espécie de câmera/roteirista de um documentário abortado; ou seja, eu tinha que absorver tudo ao meu redor.

Minha conclusão, talvez equivocada e muito simplória, foi a de que uma banda se faz com uma mistura de elementos que não são pra qualquer um: vocação artística, paixão, vontade de se expressar, amizades duradouras, muito trabalho e talento. Afinal são 19 anos ININTERRUPTOS e envolvidos numa rotina de ensaios, shows e tudo o mais inserido nesse contexto: plateias ruidosas, casas de show quase desconhecidas ou badaladas, bares, festivais independentes, sessões exaustivas de ensaio, tudo isso desembocando numa recente e merecida turnê por países do velho mundo. Tudo o que uma banda necessita para pensar seriamente num legado consistente e verdadeiro. Na tal longevidade. Como algo possível.

Em seu novo CD, mixado no Canadá e produzido por Jera Cravo, encontramos tudo aquilo que faz parte do que podemos chamar “grande disco”. E antes que algum de vocês perceba a existência de exageros de minha parte, aqui vai a defesa: o que a PDM nos apresenta em seu novo trabalho não é simplesmente uma obra impecável, tecnicamente falando (incluindo aí a parte gráfica do artista carioca Flávio Flock, que também já trabalhou para a Pitty, entre outros), cheia de qualidade e de “pegada”; não são simplesmente letras corrosivas com imenso poder de fogo e reflexão; nem a combinação certeira de guitarra, bateria e baixo: Novas Ideias, Velhos Ideais é o resultado de um trabalho que surge numa sequência de outros, feitos ao longo desses anos, que foram sendo aperfeiçoados em sua produção sem nunca dever nada em seus shows.

 

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Pastel de Miolos / Foto: Júnior Américo

 

Novas ideias, velhos ideais, a primeira faixa, dentro de sua simplicidade absurda, já nos mostra aonde a coisa pode chegar: a frase repetida, o peso – realçado pela presença do novo baixista, André, que trouxe à banda uma maior aproximação com outros estilos de rock and roll, um peso e uma coesão maior -, tudo, enfim, conspira pra uma grande festa, “como antigamente”. Em Desobediência Civil, cujo clipe presente na internet vale ser assistido, a gente pode pensar em cada momento de nossas vidas em que desistimos de agir com alguma coragem: poderia ser uma pedra arremessada ou simplesmente se recusar a votar em qualquer canalha cujo discurso hábil nos enche a paciência.

Na próxima, Insegurança Masculina, com a presença ilustre de Vital Cavalcante (da banda Jason), o que vale é bater de frente com os machos que escondem sua fragilidade doentia nas atitudes violentas que por vezes surgem nos noticiários. A Ilha traz em si uma série de questionamentos sobre para onde finalmente iremos algum dia (se é que isso será possível). E na faixa Sem Nome E Sem Razão a bola da vez é a destruição gradativa que presenciamos todos os dias ao nosso redor, em nome de um sonho equivocado de progresso. Vou Tentar, composição de Tony Lopes, cujo som desacelera um pouco para dar maior sonoridade a outra letra simples, o que vale é o olhar certeiro e sensível do compositor. Já em Hardcore a ordem é pogar, sem deixar de atentar para a mensagem evidente – afinal em todas as letras existe algo a ser captado. Porcos, em minha opinião, a melhor do disco, contém tudo que um punk rock deve ter: coragem, metáforas corrosivas, peso, veemência, inquietação e fúria. Logo depois Homem Ao Mar, com seu estilo surf music, também parece servir de base para outra daquelas mensagens nada subliminares que fazem de Alisson um compositor de respeito. Quarteto II é na verdade uma junção bem feliz de textos, dentre eles o do grande poeta Lupeu Lacerda, e em Quando A Vítima Se Transforma Em Algoz e A.E.P, sincera homenagem a uma banda paraibana, o que vale é enlouquecer. E admitir que a essa altura não se pode mais achar o caminho de volta. Homem Sério, que conta com a participação de Frango Kaos (Banda Galinha Preta), serve como uma crítica aos que de alguma forma entregaram completamente os pontos. Essa Porcaria Que Me Faz Feliz encerra o CD, como uma espécie de celebração aos que ainda hoje – apesar dos cabelos grisalhos e das barrigas proeminentes -, estouram os próprios tímpanos com aqueles clássicos sem ligar para o resto.

E aí talvez todo esse papo sobre longevidade finalmente não tenha feito sentido algum, apesar de saber que os anos serão generosos com Alisson, André e Wilson; e que a PDM cumprirá com raro louvor seu papel na cena rocker de qualquer lugar do mundo. Mas, sinceramente, pouco importa. A essa altura dos fatos, depois de ouvir o Novas Ideias, Velhos Ideais uma dezena de vezes, o que vale é celebrar. Com algumas cervejas honestas, ou uma dúzia de granadas nos bolsos.

 

 

 

Gustavo Rios é baiano e escritor.