Ruído nos dentes. Embora, no título, a provocação seja à minha arcada dentária e ao meu maxilar que, volta e meia, expressam minha pulsão de vida e, volta e meia, meus picos de raiva e desconforto, quem, de verdade, se exalta diante dos versos e da prosa deste livro, estranhíssimo no melhor sentido, da Vivian Pizzinga, são os meus olhos.
E o que leem os meus olhos que embaralham os meus pensamentos como se eu estivesse sem óculos ou dentro da dissonância de um sonho permeado pelos poemas e histórias que leio e que, então, recrio e reescrevo enquanto durmo? Sim. Reescrevo o que me absorve, quase sempre com as mesmas palavras que suas autoras e autores, nas horas que eram para ser de repouso. Horas destinadas a regeneração do meu corpo que acabo por usar em favor da minha imaginação.
Imaginação. Eis algo que se multiplica e transborda em grande escala e ressonância no Ruído nos dentes. Imaginação construída em cima da linguagem, dos versos em ruptura com sua própria natureza e em conluio com a prosa, híbridos e livres além do conceito de versos livres. Insubordinados. Desobedientes.
E imaginação construída também em cima da vida no que ela tem de trivial, com suas repetições quase necessárias, no ato de se tomar um café e de pegar o metrô e de tirar a remela dos olhos porque a rotina tem encanto. “A rotina tem seu encanto”. Adoro essa frase. É o título de um filme do Ozu. E falo sobre um filme aqui porque o Ruído nos dentes é muito visual e entrou em cartaz no meu cérebro faz semanas.
Faz semanas que escuto e vejo os seus poemas. Todos em movimento. Em várias sessões. Os meus favoritos são aqueles à beira da crueldade, um tanto malignos, que se movem rasteiros pelo lado mais de dentro de tudo que há de mais inquietante no meu lado de dentro. E que aí me machucam enquanto transformam as minhas percepções em memórias e em elaboração e resistência estéticas. O Ruído nos dentes é um livro sobre resistir. Resistir de verdade.
“A verdade raramente é compreendida por pessoas sem imaginação”, uma personagem de um outro filme, Os inocentes, dirigido pelo Jack Clayton, diz. Livros também raramente são compreendidos por pessoas sem imaginação, eu digo cá com o meu teclado testemunha das tempestades que atingem os meus neurônios. O livro da Vivian Pizzinga é uma. O Ruído nos dentes é uma rota elétrica, de energia. Quanto mais a gente o lê, mais forte ele se torna e indecifrável e inalcançável como devem ser as obras de arte.
Helena Terra é de Porto Alegre. É jornalista, criadora e coordenadora do Grupo de leitura e escrita A palavra tem nome de mulher, dentro do presídio feminino Madre Pelletier, com as mulheres privadas de liberdade. Faz leitura crítica de originais e mentoria de escrita com escritores iniciantes. Cursou a Oficina de Criação Literária, do escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, na PUC/RS, e frequentou os grupos de produção e de leitura crítica da professora Lea Masina. Em 2013, publicou o seu primeiro romance: “A condição indestrutível de ter sido”. De lá para cá, participou de antologias e organizou, com o escritor Luiz Ruffato, a antologia “Uns e outros”. É coautora na novela “Bem que eu gostaria de saber o que é o amor”, publicada em 2020, com o ator e escritor Heitor Schmidt. E lançou o seu segundo romance “Bonequinha de Lixo”, em 2021.
Eu estava no lado de dentro. Ele estava no de fora. E entre nós havia a vitrine estreita e com muitos livros. Quase todos cinzas e do mesmo tamanho, encaixados uns nos outros como se fossem pedras de uma calçada. Uma ideia, em um certo sentido, interessante e poética: no meio do caminho tinha uma história e mais outra e mais outra. E talvez, em algum lugar do futuro, no meio do caminho, poderia haver uma única para nós dois. A história de A e de A. De Ana e de André. Vamos fazer de conta de que são esses os nossos nomes. Juntos. Não separados como estávamos. E separados, assim tão perto, nos chamávamos de Lígia e de Gilberto e nos conhecíamos vagamente de uma rede social. E, na rede social, ele não estava com ela, não como ali do outro lado da vitrine. Se bem que ali, apesar da proximidade física, havia também algum tipo de espaço divisor entre os dois, e eles pareciam mais uma dupla de irmãos do que um casal.
Lígia estava no lado de dentro da livraria, sozinha, com o mesmo enigma e beleza que em suas fotografias, folheando um livro. Três novelas femininas, do Zweig. Eu estava no lado de fora, parado em frente à vitrine, fingindo grande interesse por alguns títulos porque eu queria vê-la, porque eu estava fascinado por vê-la ao vivo e em cores e queria que ela me visse. Se ela me visse, eu poderia sorrir e acenar e, quem sabe, dizer: ei, Lígia, sou eu, o Gilberto, da internet, vamos tomar um café? Mas em uma outra ocasião, infelizmente, porque, naquele final de tarde, a minha mulher, que há semanas, meses, anos me beijava como se eu não tivesse língua, dentes e um céu na boca e, noite após noite, desencorajava o meu corpo, estava comigo. Não deveria. De acordo com suas próprias palavras, fazia o enorme favor de me acompanhar para ver mais um desses filmes cabeça quando ela poderia estar em casa, de pantufas e de pijamas, bordando mais uma almofada.
Eu vi o exato instante, não foi impressão, em que os olhos do Gilberto não conseguiram mais se focar nos livros para se fixar em mim. E com tanta força e cobiça que eu poderia dizer, como a protagonista de uma das poucas séries de TV que tive paciência de ver: eu ouvi sua mente me observando. E eu, em vez de sair de seu campo de visão ou de apontar o dedo e de falar, o que é isso, abusado, você está acompanhado, como eu faria, já fiz tantas vezes por sororidade às outras mulheres, mexi nos meus cabelos, acariciei o meu pescoço e sorri. Sim, sorri, oferecida, fêmea, ignorando à minha falta de ética e os riscos do jogo em que eu estava entrando. E ele viu que eu o vi e que entendi o seu desejo. E, talvez, ela tenha visto e entendido também. Ou pressentido o perigo, porque parou de fuxicar no celular e o puxou pelo braço. Vamos, Gilberto, ela pareceu ter dito. Fique, não vá, venha, eu pensei.
“Eu nunca sonhei com você, nunca fui ao cinema, não gosto de samba”, cantarolei sem me mover um centímetro antes de responder a minha mulher: não, ainda não está na hora, vá indo na frente pegar uma água, eu vou passar no banheiro e depois quero comprar um livro. Dois, três, cinco, na verdade, quantos fossem necessários para que Lígia tivesse tempo de vir falar comigo ou para que eu pudesse me aproximar dela. Ou, sei lá, que o destino nos desse um empurrão maior do que já estava nos dando, porque as chances de nos encontrarmos, de novo, eu sabia, sempre soube, eram mínimas, ainda mais assim, com Lígia sem ninguém no entorno, com nenhum outro homem tentando invadi-la, transpassá-la. E foi aí que ele surgiu, do nada, pelas costas, em um bote territorialista, colocando as mãos peludas sobre os olhos delas, cheirando os seus cabelos longos e escuros e falando, em seus ouvidos, as palavras que eu não pude dizer.
Helena Terra mora em Porto Alegre. O seu interesse, despertado na infância, por literatura a levou a cursar a Oficina de Criação Literária, do escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, na PUC/RS e a frequentar os grupos de produção e de leitura crítica da professora Lea Masina. Em 2013, publicou o seu primeiro romance: “A condição indestrutível de ter sido”. De lá para cá, participou de antologias e organizou, com o escritor Luiz Ruffato, a antologia “Uns e outros”. É coautora na novela “Bem que eu gostaria de saber o que é o amor”, publicada em 2020, com o ator e escritor Heitor Schmidt. E acaba de lançar o seu segundo romance “Bonequinha de Lixo”, pela Diadorim Editora.
No livro “Sobre a literatura”, Umberto Eco explica que as obras literárias nos convidam à liberdade de interpretação por oferecerem um discurso aberto a diferentes planos de leitura ao mesmo tempo em que pontuam o que nelas deve ser assumido como relevante e à prova de dúvidas. Pois bem, no romance “Entre outras mil”, da escritora Rochele Bagatini, lançamento da Diadorim Editora, há um ponto de partida indiscutível: a educação sentimental e cultural das mulheres brasileiras por meio das telenovelas nas décadas de 70, 80 e 90. Quem passou horas e horas semanais, de segunda a sábado, diante de uma televisão nesses anos, ainda que não tenha parado para refletir, testemunhou e absorveu a organização e condução de modelos e estereótipos femininos. Às vezes, tendo à frente uma protagonista chamada Raquel, como a que dá nome a do livro “Entre outras mil”; outras vezes, tendo uma Helena, como eu que agora desenvolvo esse texto, as telenovelas impuseram valores e comportamentos. Em grande parte, nocivos. Registre-se.
A protagonista do “Entre outras mil”, por exemplo, batizada de Raquel por ter nascido no dia da morte de um ator e em homenagem à atriz central da novela “Sol de Verão”, tal como nessa trama televisiva, subitamente, vê-se frágil e desamparada diante da partida de uma mulher, sua mãe, que não suporta mais a rotina com o marido. Não sabe, a Raquel menina, as razões que a levaram a deixá-lo e a incluí-la no pacote do abandono. Não sabe, também, a Raquel adulta:
“Minha mãe sempre foi calada dentro de casa, mas com as pessoas na rua era simpática, falante. Eu tinha ciúmes quando se abria com outras pessoas e contava coisas que eu não sabia sobre ela. Era carinhosa comigo, embora distante. Nunca falava o que pensava sobre a vida. Algumas pistas eu identificava em comentários sobre as novelas, pistas essas que bem podiam ser fruto da minha imaginação.”
Essa Raquel literária, de fato, é imaginativa e dada a devaneios tanto quanto é dada ao enfrentamento do mundo. Oscila dentro de um pêndulo de ingenuidade e de lucidez, recapitulando a própria história e o vínculo com os pais, em especial com a mãe, como se estivessem todos atrelados ao horário nobre da programação de uma emissora de TV sem, no entanto, simplificá-los e desumanizá-los. Sua percepção, senso de justiça, espírito crítico e sua capacidade de narrar, apesar das memórias conectadas com as telenovelas, são apuradas e trabalham a favor de seu despertar e amadurecimento.
Raquel dedica-se ao bem-estar do companheiro e revende cosméticos para melhorar o orçamento do casal enquanto sonha com sua independência financeira e prepara-se para uma carreira jurídica. Em um primeiro momento, parece exagerado e paradoxal ela questionar o papel social e doméstico para que foi programada, querendo fazer parte de uma estrutura conservadora e masculina como é a do Poder Judiciário. Mas querer ser juíza e atuar fora do universo estético e subserviente das mulheres que conhece desde criança está de acordo com o seu processo de ruptura de padrões. Raquel não está mais sentada no sofá em frente à televisão decorando textos. Ela não quer mais ser manipulada. Tampouco manipular. Portanto, não manipula. E não se afunda em culpas, temores e condenações. Quer é entender:
“Não sinto falta do meu pai. Sentia pena. Talvez tenha sido vítima dele mesmo, por ter escolhido para vida uma mulher acima do que ele poderia suportar, ou que poderia suportá-lo. Não sei por qual motivo coloco ambos em níveis diferentes, e sequer sei dizer de que substância é feita essa diferença. Talvez ele seja superior a ela, porque não fugiu da vida que lhe foi dada, porque não quis ser outro. No caso do pai, não querer ser outro deu errado. Será que, no caso dela, deu certo?”
Como saber o que deu, o que não, no romance, nas novelas, na vida? Eu li e reli o “Entre outras mil” em uma espécie de “vale a pena ver de novo” sem controle, mesmo o remoto. Penso ter encontrado algumas respostas e muitas perguntas. Um livro é uma interrogação fincada na mente. E é, voltando a citar o Umberto Eco, uma máquina preguiçosa que pede a quem o lê que faça parte do seu trabalho. Você tem feito o seu?
Helena Terra é escritora e jornalista. O seu interesse, despertado na infância, por literatura a levou a cursar a Oficina de Criação Literária, do escritor Luiz Antonio de Assis Brasil, na PUC/RS, e a frequentar os grupos de produção e de leitura crítica da professora Lea Masina. Em 2013, publicou o seu primeiro romance: “A condição indestrutível de ter sido”. De lá para cá, participou de antologias, organizou, com o escritor Luiz Ruffato, a antologia “Uns e outros” e é coautora na novela “Bem que eu gostaria de saber o que é o amor”. Atualmente, ela coordena o grupo de leitura “A literatura tem nome de mulher”, que se propõe a ler, a pesquisar e a pensar os livros escritos por mulheres em Porto Alegre.
De que geografia e de que mortes, afinal, Priscila Pasko fala?
Por Helena Terra
“Como se mata uma ilha”. O título, se fosse um livro de poemas, já seria impactante e original verso.
Mas não é.
É um livro, não, é mais que um livro, é uma requintada literatura de contos e de alegorias de várias ilhas ou torrões ou grãos de areia humanos ou, ao contrário, da comunhão de toda essa humanidade em um arquipélago de palavras ancoradas na perspectiva, na sensibilidade e no desprendimento da escritora e de cada leitora ou leitor.
Umberto Eco diria se tratar de uma obra aberta pronta para se desdobrar e desdobrar.
Salvador Dalí a pintaria com sua visão de mundo surrealista, exigindo o olhar astuto e atento aos símbolos em crítica e em movimento que permeiam as entrelinhas.
Simone de Beauvoir, acredito, aplaudiria, assinando embaixo de cada texto, de cada potente testemunho e testamento de que o que somos nem sempre é o que nascemos e menos ainda por nossa livre e espontânea vontade.
Por quê?
Porque o “Como se mata uma ilha” fala de nós, as mulheres, dentro dos territórios sociais, culturais, corporais e psicológicos em que vivemos e dentro de nós mesmas. Nós, as mulheres, sendo o útero e o parto que embala a criação – em seu sentido mais óbvio e, também, em seu mais complexo – e nós, as mulheres, sendo forçadas a ser os limites e a sepultura do que inspira e dignifica a existência em seu todo e em nossas particularidades.
O “Como se mata uma ilha” fala sobre quem somos, nos discute e debate. No entanto, não nos julga. E quem não julga, não condena. É preciso coragem para evitar a autoridade das sentenças, para não optar por elas, para não aceitar e perpetuar os estigmas, os rótulos e os preconceitos. É preciso coragem para não condenar com a própria ignorância. E é preciso consciência, acréscimos de consciência, para não se deixar moldar e constituir por meio de opiniões carregadas de experiências, valores e indiferenças alheios.
As personagens, da Priscila Pasko, se parecem e não se parecem umas com as outras, exatamente, como nós, mulheres e homens, também, nos parecemos e não nos parecemos. Em comum, elas têm uma espécie de apego pela verdade e de intimidade com ela, do mesmo modo que a escritora tem com a laboriosa tarefa que é escrever.
Por incrível que pareça, o “Como se mata uma ilha” é o seu livro de estreia. Talvez, todos os livros, os bons livros, sejam mesmo de estreia por não se parecem com nada além de obras de arte.
Helena Terra é escritora, jornalista e coordenadora literária do grupo de leitura “A literatura tem nome de mulher”, que se propõe a ler e a pensar as obras escritas por mulheres, em Porto Alegre, na Livraria Cultura.
O livro é o de estreia na poesia, mas os versos se apresentam encorpados dentro de uma rota em que a linguagem, a subjetividade e o imponderável, da delicadeza à brutalidade, clarificam-se em uma expressão pessoal e em uma estética representativa do que nos é universal e inesgotável em confronto com o que nos é singular e finito e vice-versa. Bífida e outros poemas, de Alexandra Lopes da Cunha, uma das vozes mais originais da nova poesia brasileira contemporânea, concilia, em sua dicção ora coloquial ora sofisticada, a escalada e a queda, não necessariamente nessa ordem, dos sentimentos e das inquietações peculiares a todos os seres humanos, em especial, às mulheres, suas nuances e seus espaços.
O título do livro não é aleatório. Bífida, feminino de bífido, vem do latim bífidu, aquele que está fendido em duas partes, que foi partido ou separado. “Dividida de nascença, / bipartida na origem,” são os versos que abrem o poema que leva o mesmo nome da obra e que serve também como indício, quem sabe porto seguro, da visão de mundo complexa, reflexiva e dialética da autora. Seu pensamento é lúcido, autoconsciente, crítico. Suas emoções, viscerais. Se por um lado, há ponderação, quase meditação, sobre o sentido da vida, por outro, há indisciplina, quase revolta, sobre o desconcerto de estar no mundo.
Os desdobramentos dos poemas, quarenta e nove organizados em ordem alfabética, são diversos. O corpo na multiplicação da vida: “Na nudez do meu útero / acumula-se o pó dos anos.”; as obrigações do narcisismo culturalmente impostas: “Sou mulher sem qualidades / Desqualificam-me os adjetivos / e os advérbios ignoram-me / solenemente.”; e a pulsão sexual em constante combate com as intimidações da sociedade patriarcal: “Penetra meu corpo pelos poros de minha pele, / imprime em minhas retinas tua onipotência.” são três temas recorrentes do mosaico poético inaugurado por uma das questões mais presentes, senão a maior, da humanidade: a morte.
Os três, repetindo-se e reproduzindo-se, funcionam como uma espécie de tripé ou de paradigma social e emocional para as invasões e desenvolvimento dos demais assuntos e para a consumação do todo poético, do mesmo modo, político, filosófico e ideológico, não havendo um maior ou mais impactante. Por detrás das fragmentações e da discreta falta de nitidez, comunicam-se e convergem-se identidades que nos traduzem.
Nada disso, entretanto, nos permite desvendar ou dominar o Bífida e outros poemas. A abrangência e o significado mais profundo de cada poema se ampliam a cada releitura, renovando o campo semântico e as possibilidades de apropriação e de fruição dos leitores. Uma experiência ressignifica a outra e a outra e assim por diante assim como, também, ressignifica a herança literária e cultural das gerações passadas.
Não há citações, mas é possível vislumbrar influências, rastros; é possível estabelecer conexões e diálogos do Bífida e outros poemas com a produção de outras mulheres poetas: Marina Tsvetáieva, “ não serei animal ferido que se / arrasta”; Wislawa Szymborska, “habitualmente, acordo na condição da testemunha atrasada, / com o milagre já consumado”; e Emily Dickinson, certeira com o seu “uma palavra morre / quando falada / alguém dizia. / Eu digo que ela nasce / exatamente / nesse dia”, são alguns exemplos da substância contagiante e libertadora da poesia, que se for de verdade, não há por que duvida, já nasce assim de pé e inteira.
Helena Terra é gaúcha, escritora e ilustradora. Publicou contos, poemas e textos em antologias e revistas literárias e o romance A condição indestrutível de ter sido.
O que registro agora aconteceu anteontem, ontem e hoje de madrugada quando abri a porta do quarto de trabalho. Talvez tenha acontecido também em outras noites e mesmo durante outros dias. Não me lembro dos dias. Passaram, devagar, sem testemunhar a nudez da luz noturna. Nunca escrevi sobre eles. Pensei que escrevia enquanto dava nomes às plantas e substantivava os perfumes e os detalhes da casa. Mas as palavras nunca foram minhas. As letras e os sons sempre pertenceram aos rasgos e à caligrafia do mundo dele, torrão alquebrado pelas estantes e pela imortalidade da mesa – madeira de lei como a carne de seus pés úmidos – perdido por entre os papéis amassados e os relógios repletos de hiatos.
Ele me viu espremida no canto, e não se mexeu na cadeira. Por um momento, abriu e fechou os olhos, mapeando minha presença em seu solo sagrado. Por um momento, pensei ele vai estender-me as mãos e depois aferrolhar-me em seus braços. Dos meus, escorriam saudades. No entanto, nem nossos olhos nem nossos corpos se falaram. Então, avancei, escondendo, ainda, a súplica sob a camisola. Ele não disse nada. Tampouco eu pude. Dizer seria uma desonra. Apanhei o bloco de rascunho e um lápis e, sem arrancar a folha, fui vencida pela repentina desobediência dos dedos: vim em busca de amor, escrevi. Frase curta, certeira. Dentro e fora do coração. Ele, o náufrago capaz de chorar apenas de rir, manteve o olhar pregado nas ranhuras da mesa, provavelmente, calculando em que momento as lágrimas me avassalariam o sangue e a debilidade. Responda, insisti em uma letra desesperada, jogando o bloco em seu peito para que ele rompesse com a falsa concentração do que antes fora sua labuta. Não tenho afeto para dar foram as cinco palavras escolhidas.
Zelosa, ajeitei o bloco no lugar de costume, ganhando tempo para refletir sobre a sentença. Meu marido não seria capaz de acreditar em meia palavra do que escrevera. Se sua verdade escapava deformada, era porque ele pensava não precisar mais dela. Precisava, sem saber o porquê, ofender, esfolar de modo absurdo. Portanto, não hesitei em dar a volta na mesa e, como em tantas vezes, parar atrás de sua cadeira. Ele continuou imóvel, decidido a ignorar-me, mas eu, habituada a seu ritmo, não me dei por vencida e, com a ponta das unhas, rocei seu pescoço e cabelos como antigamente nos pedíamos nos instantes de gozo. Ele fechou sobre a minha mão o punho, apertando-me os dedos cada vez mais e mais até a dor calar o gemido. E foi nessa altura que eu, num gesto explícito, puxei meu braço, flutuando, rápida e miserável, em direção à janela em busca de um copo de ar.
Deparei-me com o meu colo sufocado pelos botões e pelo laço da camisola. A rotina a usara contra mim, contra ele. Cerceara-me os contornos, os vícios. A fidelidade dos meus desejos secara sob o tecido opaco como murchara a de meus seios e de meu ventre inconfundível, o ventre seco e desprezado pelo sêmen dele, pela vontade do deus e dos demônios dele. Meus demônios. Devassos e impuros, ao alcance também de minha fome e das artimanhas, todas, mescladas a tudo, misturando tudo, inconfidentes, terríveis no comando, provocando os limites do perigo. E eu cedi a elas e voltei à ação, desamarrada, quase despida, crua, oferecendo-me para um último golpe, esfregando-me na densidade de sua pele, abocanhando os seus pelos, forçando com o pé a entrada do meu prazer, do meu amor, mas ele se desembaraçou sem pressa, ajeitando o pijama e recolhendo os pés dele um por um sob a cadeira como se eu estivesse parada na vida e ausente feito um sonâmbulo.
Helena Terra é gaúcha, escritora e ilustradora. Publicou contos, poemas e textos em antologias e revistas literárias e o romance “A condição indestrutível de ter sido”.
Do lastro da imaginação, emanam cenários, personagens, espectros emblemáticos de nossa condição sobre a Terra. Divisamos o que foi e o que será em tênues fronteiras de percepção. Cada um sabe de si no complexo desafio de apreender os caminhos da arte. Interpretar é, antes de tudo, viver o que está sendo ofertado aos nossos olhos e sentidos difusos. É banhar-se em águas que já não são as mesmas de quem criou. É trazer a si mesmo para um território antes estrangeiro. Ao cruzar os acessos, traduzir-se como protagonista de enredos por vezes inusitados. Ler é aceitar convites, embora nem sempre tal ato represente um sinal de concordância com o que nos é proposto. E também as recusas e negativas podem encerrar alguma espécie de reinvenção. No hiato que constitui a alteridade, cruzamos bem mais do que desertos. Ali, podemos também estabelecer aproximações como quando alguém nos sugere trilhar veredas nunca antes forjadas de alguma coragem. E o termo coragem vem dotado de um ato de se permitir experimentar o que está situado além de domínios certeiros e controláveis. Diante desse ponto específico e à medida que caminhamos, parecemos buscar algo que seja capaz de proporcionar algum arrebatamento em termos de originalidade e emoção. Sob a ótica do receptor, indagamos se a visão autêntica das coisas não estaria na percepção de quem lê ou observa os produtos artísticos. Caberia tão somente ao criador o ímpeto do novo? A questão só não se perderá embalada por algum vento aleatório caso alguém ouse também a aceitar que, sob a pele de um leitor, habitam camadas passíveis de criação autônoma. Assim sendo, vamos cruzando novas zonas de vivência no que tange à articulação de conteúdos. Para saber se poderemos de fato manipulá-los conforme nossa conveniência, só a fluidez dos enredos será capaz de atestar. Acima de tudo, esse caráter, digamos assim, libertário funda instâncias potencialmente criativas, redimensionando os tradicionais papéis de criadores e receptores. E a arte com seu movimento constante de signos nos revela entendimentos sobre nós mesmos, desses muitas vezes revestidos de instigantes descobertas. É tal como ocorre com as narrativas de Mariel Reis, Helena Terra e Yara Camillo, a nos mostrarem cenários alternativos de vida. Num caminho sedimentado em sutilezas, a arte da ilustradora e desenhista mineira Rebeca Prado abre passagem por todos os recantos dessa nova edição. Num trabalho de refinada pesquisa musical, a escritora Daniela Galdino chama atenção para o disco “Acorde”, registro precioso da cantora baiana Roze. Entre versos e destinos, os poetas Patrícia Porto, Willian Delarte, Lourença Bella, Jorge Augusto da Maya e Cleberton Santos. Numa entrevista que promove reflexões sobre o fazer literário, o poeta Roberval Pereyr é o centro dos questionamentos de Clarissa Macedo. O mais novo livro de contos de Anderson Fonseca é tema das apreciações de Sérgio Tavares. A inusitada produção “Boyhood”, novo filme do diretor Richard Linklater, aparece marcada pelas percepções de Larissa Mendes. O poeta Gustavo Felicíssimo recorda seu último encontro com o saudoso escritor João Ubaldo Ribeiro. Atingimos 95 levas, certos de que você, caro leitor, é nosso principal protagonista. Boas leituras!
A cadência do tempo corrói e aumenta a dor de uma criatura mesmo quando a esvazia. E não adianta o coração bater mais forte, o sangue se derramar, o comprimido mergulhar em um organismo. Quanto mais lenta, mais forte ela se torna. É o processo. É a mecânica. O trucidamento é sua matriz. O útero que a expulsa em milhões de pedaços, em partículas de angústia e de verdades sem amor. E quando tudo isso acontece, quando alguém é escolhido, não há cor que permaneça e não há vida que não exploda em coágulos. E foi, por isso, que no momento em que eles se encontraram no quarto, ele veio correndo até ela com os olhos fixos em um corpo invisível, obcecado pelo reflexo da ausência. E ela, indiferente, não disse nada. Atravessou o espaço, guardando os frascos do sentimento espancado, surda aos movimentos do afeto. Ele parou, surpreso. A mão roçando a cabeça, prevendo as inflexões de uma ruína. Quer tomar um banho? Ela sentou-se na cama. Não tive culpa por essa demora. Só agora liberaram o leito, minha querida. Onde está minha mala?, ela o interrompeu, vasculhando, com os olhos, o ambiente. As paredes se aproximando, perdendo largura, caindo profundas. Irradiando o calor opaco. Transformando os seus restos de fêmea em um concentrado disforme. E ele, ao lado, contínuo, homem ambivalente dos bastidores, estático em sua permanência secundária, incapaz de romper a cena de inércia e desalento. Onde está a minha mala, ela voltou a perguntar, dessa vez, mais alto. Não está vendo o sangue escorrendo por essa roupa horrível? O vermelho revelado na altura do ventre e das coxas. A solidão revelada nas manchas, em seu papel de mãe túmulo, mulher sepultura encarregada de abrir a própria carne e desenterrar, espasmo por espasmo, célula por célula, o filho. Também sinto muito, ele disse, também sintomuito, e, então, encolhendo-se, bombeou uma lágrima e mais outra e mais outra até ela, exausta, deixar-se levar, repousando o sofrimento sobre a água multiplicada, e desdobrando, finalmente, o seu colo destroçado sobre o do marido.
Helena Terra nasceu em Vacaria. Mora em Porto Alegre. Já colaborou em sites, revistas e jornais literários. Publicou, em 2013, o romance A condição indestrutível de ter sido, pela editora Dublinense. É jornalista e ilustradora.
Com o tempo, fica a marcante impressão de que as coisas precisam seguir um curso natural, sem a geração de expectativas demasiadamente projetadas. Vontades existem, isso é fato inegável, mas o bom mesmo é fazer delas uma peça favorável à instigante engrenagem das descobertas até mesmo involuntárias. Em que medida a palavra resistência pode representar o principal mote dos caminhos que norteiam a Diversos Afins? De modo especial, o convívio e, por conseguinte, o aprendizado estabelecido com as pessoas que se aproximam de nosso projeto à frente da revista torna a trajetória um tanto mais serena. A busca pela qualidade é uma meta editorial que não sofre os efeitos de regramentos limitadores da criação. Entendemos que critérios pautados no bom senso, razoabilidade e, sobretudo, sensibilidade são definitivamente aspectos fundamentais em nossa jornada de pesquisa e seleção de materiais publicáveis. E é sempre bom frisar que, nesse ponto, o apego a verdades universais nada contribui para que novos diálogos se consolidem. Então, é preciso rechaçar a imutabilidade do pensamento, principalmente quando ela impede que o entendimento sobre os fenômenos que nos cercam possa se efetivar. Talvez aqui o termo resistência possa ser empregado, tendo em vista a importância de combatermos a mediocridade do pensamento. Sem dúvida alguma, o grande lado benéfico dessa reflexão é sustentar a amplitude da busca pela diversidade sem perdermos os referenciais indispensáveis a uma adequada análise e difusão dos conteúdos. O comprometimento maior que se opera a cada nova publicação está na perspectiva de estreitar laços entre criadores e o público almejado. A partir do momento em que uma obra se lança ao mundo, já não é mais a mesma, pois seus leitores e apreciadores, com suas esferas interpretativas próprias e quiçá singulares, conferem a ela um status de renovação sem a perda do seu ímpeto originário. Nesse exercício permanente e dinâmico de aglutinações, traçamos percursos dotados de certa autonomia quando, por exemplo, contemplamos e também internalizamos as sensações tidas a partir da expressão de Marcantonio, artista que expõe entre nós a espinha dorsal de sua epifania mundana. Compartilhando também desse sentimento libertário, apreendemos as vivências poéticas de gente como Juliana Krapp, Dheyne de Souza, Zeh Gustavo, Madjer de Souza Pontes, Winston Morales Chavarro e Pedro Du Bois. Na entrevista com a escritora Helena Terra, os densos caminhos da palavra atravessam a vida de uma autora que veio fazer morada entre nós. Na seara da música, o mais recente disco dos pernambucanos da Nação Zumbi vira alvo dos apontamentos de Larissa Mendes. Os diferentes modos de usar a vida enredam os contos de Paulo Bono, Thays Berbe e Mariza Lourenço. O mais novo livro do poeta Zeh Gustavo é tema das precisas observações de Leonardo D’Avila. No caderno de cinema, todas as atenções estão voltadas para o intenso Tatuagem, filme dirigido por Hilton Lacerda. O espírito reinante na Leva que agora surge rende homenagens ao saudoso escritor e parceiro Nilto Maciel, autor que dedicou imensa parte de sua vida à sua cumplicidade com as palavras. Com ele, aprendemos, dentre outras coisas, a cultivar a continuidade dos caminhos editoriais. Assim, fundamos mais uma especial edição.
De modo pungente, os caminhos que levam a um entendimento sobre a condição humana nos tomam de assalto. Com eles, algumas cômodas certezas vão sendo questionadas e muitas vezes colocadas numa complexa perspectiva de reformulação. No universo das palavras, o ato primevo e substancial da leitura representa uma experiência impactante sob o ponto de vista da alteridade. O que seria, então, de nós sem essa vigorosa perspectiva de olhar o Outro como uma imprescindível fonte de compreensão das coisas que nos cercam?
O fato é que a Literatura, com seu acentuado caráter de revolver mundos, é capaz de nos dar indícios de que tudo gira ao nosso redor como as imagens de um caleidoscópio. Nesse processo, leituras e escrituras são faces de uma mesma moeda: a do desejo irrefreável de nos vermos com certa dose de profundidade. Por mais libertário que possa parecer, o ato de ler revela também uma necessidade que temos de exercitar um mergulho em nós mesmos. Com isso, se o que buscamos são respostas, as dimensões vividas ganham proporções verdadeiramente abissais.
Sob o ponto de vista de quem escreve, o ofício não é menos ruidoso. E o ato contínuo de vislumbrar os recortes humanos é um elemento deveras motivador da criação. Nesse sentido, autores como Helena Terra parecem nos ofertar uma bússola para algum tipo de orientação. Quem se permite desfolhar as páginas do romance de estreia da moça gaúcha, alcunhado de A condição indestrutível de ter sido (Ed. Dublinense – 2013), pode suspeitar por quais veredas sua criadora transitou. Num tempo em que nos acostumamos a tratar a temática do amor com certa reserva, o livro de Helena nos mostra que, para além da viciada noção efêmera, o terreno das relações não se presta a observações reducionistas. Engana-se quem pensa que o escapismo do outro diante de nossos projetados domínios é a razão de ser da obra. Um lapso temporal da delicadeza move a narrativa de tal modo que flutuamos pelas acepções possíveis da incompletude humana. Especialmente pela atmosfera que emana desse seu rebento literário, Helena acolheu a Diversos Afins para um breve diálogo. Para nós, fica o testemunho de uma autora altamente comprometida com as implicações de seu tempo, vertendo, de modo favorável, suas íntimas imagens em hábeis letras.
Helena Terra / Foto: Arquivo pessoal
DA – “A condição indestrutível de ter sido” marca sua estreia no romance e traz um tema cuja presença na contemporaneidade é bastante emblemática. O amor, da forma como o percebemos hoje, não lhe parece impregnado de uma substancial volatilidade?
HELENA TERRA – Não. O que me parece é que há uma urgência em encontrá-lo e em se dizer eu estou amando, o que complica as relações afetivas contemporâneas e as torna sujeitas a inúmeros equívocos. Primeiro, porque o amor não é um produto disponível nas melhores lojas do comércio ou em sites de internet. Amor não é algo que se escolhe em uma vitrine, que se digita no google, se diz quero esse modelo e se veste, consome, exibe para depois ser devolvido no setor de produtos com defeitos ou descartado diante de uma nova oferta. E segundo porque o amor é um sentimento exigente, que implica sabedoria emocional, virtudes de caráter e constância, trabalho mesmo. Como a felicidade, o amor exige trabalho. Raduan Nassar e Charles Bukowski escreveram duas frases relevantes sobre ele. Escreveu Raduan, no Lavoura Arcaica: eu que não sabia que o amor requer vigília. E, Bukowski, em o Amor é tudo que nós dissemos que não era: o amor é uma palavra usada muitas vezes e muitas vezes cedo demais. Concordo inteiramente com eles.
DA – A protagonista do seu livro transita pelos, digamos assim, territórios protegidos do amor. Nesse aspecto, há a presença dos mecanismos de defesa proporcionados pelas redomas tecnológicas que tanto nos envolvem. Como você percebe tal questão?
HELENA TERRA – A narradora do livro me parece ser, por natureza, uma pessoa reservada e, até conhecer Mauro, estar intensamente focada em sua relação com as palavras e com os livros. Em algum momento, o leitor sabe que ela esteve dentro de uma relação afetiva com alguém do que entendemos por mundo real, mas não há pistas sobre como esse encontro/desencontro se desenvolveu e porque acabou. E não há de propósito. Não acredito em modelos amorosos e em espaços perfeitos para o amor e para as paixões. Os motivos que levam casais a se unirem e desunirem, não importando o tempo em que permaneçam juntos, fogem da nossa compreensão e fogem também das partes envolvidas. O, digamos, diferencial da internet é que ela permite uma maior ousadia e uma maior velocidade no processo de se conhecer ou desconhecer outra pessoa. Mas essa ousadia e essa velocidade são opções e não uma regra. As pessoas que criam personagens de si mesmas no mundo virtual costumam fazer o mesmo no real. As que tendem a mentir, mentem. As que tendem a exagerar, exageram. As que tendem a enlouquecer, enlouquecem. E as que tendem a amar, amam. Os simulacros não se sustentam a longo prazo. A internet é um dos espaços mais democráticos para a circulação das verdades e da maturidade emocional de cada um.
DA – Ao passo que sua protagonista e o Mauro, objeto da paixão dela, vão estabelecendo aproximações no campo do real, o impacto das sensações se modifica e vai perdendo um tanto do vigor inaugural. Em que medida a intimidade pode ser também um lugar de desconstrução?
HELENA TERRA – A intimidade, paradoxalmente, pode ser a nossa zona de conforto e também a de confronto. Fantasia e realidade ganham dimensões diferentes com o convívio com outra pessoa. Ela, de certa forma, funciona como um filtro em que o incompatível com a natureza de cada um e com suas expectativas é eliminado ou purificado. Na relação da narradora com Mauro, o impacto das sensações se modifica porque, apesar da sintonia virtual, eles não esperam o mesmo um do outro e, porque, como é comum na internet, a sedução se estabelece por meio da literatura e das palavras. Os dois não deixam de ser uma ficção, mesmo depois do encontro na cidade em que ele mora, porque fazem o recorte de si mesmos, selecionam as facetas e o que desejam que o outro saiba quando se escrevem mais por impulso que por tempo de maturação do relacionamento.
DA – Há algum aspecto marcante desse turbilhão chamado pós-modernidade que moveu fundamentalmente suas escolhas narrativas?
HELENA TERRA – Não, creio que não. Não optei por uma narradora em terceira pessoa porque queria dar a sua voz o máximo de carga dramática e optei por ter como pano de fundo desse discurso o ambiente virtual porque ele se constrói a partir da palavra. Na internet, ela é o carro chefe. Por mais que imagens possam contribuir para o desenvolvimento de qualquer tipo de relacionamento, sem a linguagem escrita não se tomam decisões nem se avança em direção alguma.
DA – A afirmação de algumas bandeiras de gênero parece tomar significativa proporção no debate literário moderno. É o caso, por exemplo, de se considerar a existência de distinções como literatura gay, feminista e etc. Essa territorialização limita as possibilidades criativas na medida em que volta suas atenções para focos de resistência?
HELENA TERRA – Não compactuo com essas distinções e considero qualquer uma delas como uma forma de auto-exclusão. Essa ideia de se encaixar em um grupo é redutora e alimenta preconceitos. Não me considero uma escritora de literatura feminina por ser do sexo feminino, não me considero uma escritora gaúcha por ter nascido no Rio Grande do Sul. Sou uma escritora de língua portuguesa por ser essa a minha língua mãe. E é dentro dessa circunstância, livre dentro do imenso vocabulário e de todos os recursos gramaticais que o nosso idioma nos oferece, que exerço meu potencial criativo e a minha sensibilidade. Literatura implica humanidade e humanidade está acima de rótulos.
Helena Terra / Foto: Arquivo pessoal
DA – Quais aspectos você julga serem os mais importantes na composição do atual cenário literário brasileiro?
HELENA TERRA – Não sei exatamente pontuar o que é mais importante. Mas o cenário atual me parece mais generoso no sentido em que hoje há uma série de instrumentos a favor da profissionalização de um escritor e da divulgação de um livro. Na última década, surgiu uma quantidade significativa de cursos, oficinas, laboratórios etc., buscando a qualificação dos textos; surgiram novos prêmios, alguns com incentivo financeiro; o interesse estrangeiro pela literatura brasileira se confundiu um pouco com o interesse pelo próprio Brasil, criando um novo público de leitores e um novo mercado editorial fora do país; e também houve uma abertura maior, uma curiosidade maior de público e de editoras em conhecer o que está sendo produzido agora. Isso não significa que esteja tudo em ordem. A cultura no Brasil está, como nós todos, buscando cidadania.
DA – Uma outra feição sua é a que lhe faz trilhar os caminhos das artes plásticas. De que modo você vislumbra o mundo a partir desse lugar?
HELENA TERRA – Por natureza, sou uma criatura estética. Procuro e vejo beleza, expressão, força, emoção, mesmo que em um recorte pequeno de algo, em tudo. Tenho no olhar e na linguagem os meus dois interesses mais desenvolvidos, e os dois se misturam. Vejo uma imagem configurando-a em som e palavras. Escuto palavras e sons atribuindo a elas imagens. Do ponto de vista profissional, são universos, embora artísticos, diferentes, em que as carreiras seguem com completa autonomia.
DA – Gabriel García Márquez dizia que, para escrever, um autor deve saber muito bem quais rumos sua narrativa vai tomar. Há pouco tempo, você deu indícios de que um novo livro já faria parte de seus planos. Nesse futuro trajeto da criação, como você engendra a arquitetura da obra?
HELENA TERRA – Não sei até que ponto esse saber muito bem quais rumos uma narrativa vai tomar é realmente importante. Os processos criativos são inúmeros. No meu caso, preciso saber sobre o que quero escrever, saber qual o ponto a ser carregado por toda a narrativa. No A condição indestrutível de ter sido, meu foco era a confiança tanto nas pessoas quanto nas palavras, mas eu não tinha um projeto definido que envolvesse início, meio e fim. Tinha o título em mente como um fio condutor. Nesse novo livro, a escrita está se construindo de outra forma. Escrevi, em uma caderneta, uma espécie de mapa e de quebra-cabeça da narrativa e algumas instruções em causa própria de como proceder para manter a disciplina. Aparentemente, a Helena que está escrevendo esse novo livro não é a mesma que escreveu o outro. Mas é. E o interessante em ser gente é exatamente isso: ser um podendo crescer, se transformar e ser quem se é sendo também outro.
DA – Na fluidez de palavras e imagens, o quanto Helena Terra conhece Helena Terra?
HELENA TERRA – Bastante. Dois caminhos me conduziram nesse sentido: a literatura e a análise psicanalítica. Na literatura, lendo mais que escrevendo, ainda que o processo de escrita exija muita reflexão. Lendo autores de várias gerações, geografias, estilos, ampliei minha visão de mundo. Com Dostoiévski, por exemplo, compreendi que os homens nunca sentem da mesma maneira, então, os castigos a eles impostos serão sempre desiguais. Temos de levar em conta o significado de cada sanção para cada espírito. Os livros, e aqui me refiro aos livros corajosos que servem à vida e não às vaidades, nos provocam, sacodem e reconfiguram.