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95ª Leva - 09/2014 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Yara Camillo

 

Rebeca Prado
Ilustração: Rebeca Prado

 

CHEGAR JUNTO

 

Desta vez chego sem voltas. Acabo de cortar o parágrafo que abria este conto, a introdução considerável que escrevi para evocar prima Jaci e nossos jogos-meninos. Explicar quem é Jaci, como fomos parar na mesma escola e na mesma casa depois da morte da avó, como isso e como aquilo, até que o miolo das coisas se perca, se esfarele em minhas mãos, desta vez não.

Digo apenas que eu e Jaci, quando crianças, gostávamos muito de cantar, e como perturbávamos demais os semelhantes e dessemelhantes com esse costume que nos arejava a alma, desenvolvemos uma habilidade notável, de modo que nos passeios com a turma do colégio, no ônibus ou metrô, conseguíamos às vezes cantar uma estrofe inteira de boca fechada ou quase, os lábios se movendo de forma imperceptível, o suficiente para a passagem do som, que como um gato se alongando entre grades flanava pelo coletivo, encafifando uns e outros. No final da estrofe, a coisa começava a pegar. A turma se olhava com ares de quem ouviu o galo cantar, sem saber onde. Não haveria, para nós, aplauso mais lisonjeiro. Com a corda toda, passávamos para a segunda estrofe, abusávamos do volume e da sorte, até que o professor se levantava, olhos e dedo em riste, buscando o criminoso. Acabávamos delatados, não pelos colegas, mas por nosso ar de bem cuidada inocência.

Já quando tomávamos o metrô sozinhos, a tática era outra. Buscávamos bancos separados e, com um rápido olhar, decidíamos a música.

Começávamos baixinho, com o trem ainda parado, mas já de portas fechadas. Depois ele partia, ganhava velocidade e nós volume, num crescente, fortíssimo, fortissíssimo, até o máximo, além do máximo. Daí chegávamos à próxima estação, ou ela que chegava a nós, de vez em quando era assim que acontecia.

Com o trem de portas abertas e nós de goela fechada, esperávamos o próximo ato. Nesse momento, que precedia a continuação do jogo, aprimorávamos nossa arte, exercitando em bocca-chiusa a próxima melodia, para que a voz, liberta, fosse de novo o gato que vencendo as grades ganhasse a rua e uma boa farra. Em palavras outras, para que nossa música tocasse o passageiro ao lado que, se portador de bom ouvido, daria um sinal de vida, ou seja, nos olharia de relance, com aquela dissimulação – que nunca enganou ninguém – travestida de bom-tom.

Quando isso acontecia, quando o passageiro ao lado nos olhava de lado, era uma alegria só, porque a ponte estava armada e isso nos franqueava outro estágio do jogo, muito mais arriscado, um pulo no vazio, o contato. Para confirmar a legitimidade do dom musical, ou ao menos auditivo, do passageiro, repetíamos o primeiro estágio… O metrô parava e nós também; o metrô começava a andar e nós começávamos a cantar; o metrô acelerava e nós também; o metrô gritava nos trilhos e nós gritávamos como loucos; e com o coração aos saltos, em contraponto com o ar impassível e a boca-de-siri, recebíamos a resposta: se o passageiro nos olhasse de repente, na nota mais aguda e com indisfarçável estranheza, a confirmação ali estava. O homem tinha ouvidos mesmo. Se não, se abrisse um jornal ou mexesse na carteira ou apenas consultasse o relógio, indicando uma disposição de indiferençafinal de jogo.

A dificuldade seguinte resumia-se em controlar o impulso de chutar a canela do pobre idiota, ou gritar um palavrão. Era um parceiro que não valia a pena. E quase não havia nada que nos deprimisse mais.

Agora: se estivéssemos com sorte, se o parceiro chegasse junto – como costumávamos dizer –, mostrando-se mais curioso ainda, aí sim, o jogo decolava, coisa de veteranos, não de principiantes.

Dividíamos esse estágio em sete tempos: 1, entrega-se o intrigado. 2, posicionam-se os palhaços. 3, vamos ver essa esperteza. 4, é mais que certo que o tipo não tira os olhos de nós. 5, que vai fingir-se atento ao geral. 6, menos ao que realmente lhe interessa. 7, porque agora tudo pode acontecer.

Desfechos memoráveis não faltam para coroar os jogos daquele tempo, desde um maestro que nos levou para um coral formado por ex-delinquentes e bancado pelas bibliotecas municipais, com direito a uma bolsa que era quase o que meu pai ganhava nos Correios, até uma encrenca dos diabos, uma dona dizendo que era professora de violino e nós encantados, porque eu sempre quis aprender violino, pinicar aquelas cordas, empunhar aquele arco, seria minha chance, eu pensava, a anos-luz da realidade, mas a mulher só queria nos seduzir, e não estou falando daquela trepadinha rápida, isso aí geralmente me agradava, Jaci não, fazia um drama danado, já eu era tranquilo, a sedução que me arrepiou foi o negócio dos escoteiros, a dona era chefe-não-sei-do-quê, quando dei por mim havia me empulhado um hino pavoroso; com a desculpa das aulas grátis arrancou-me a promessa de que no dia seguinte, às cinco da manhã, eu estaria na praça para hastear a bandeira e prestar juramento, mas acordei a tempo. Já o mesmo não se deu com Jaci, que acabou embarcando na estória a sério, e isso durou meses, com severo prejuízo de nossos jogos a dois, todos eles.

Depois, não vi mais a prima Jaci. É verdade que nos encontrávamos naquelas reuniões de família, todo mundo sabe que quase não há como escapar… Nos encontrávamos, mas não voltamos a nos olhar com aquilo que, para mim, era a mais-valia de nossa infância desperdiçada por tanta aporrinhação da ala séria da família que agora cobrava, de nós, a continuação da novela: tínhamos crescido e pretendíamos o quê? Sempre achei difícil, senão impossível, responder a isso. Eles, não. Pareciam ter certeza do que queriam: que atormentássemos os pequenos com a mesma gana que tinham nos dedicado. Recusei-me e, ao que parece, Jaci também. Nunca nos casamos. E se tivemos filhos foi por aí, fora dos sagrados laços com que as famílias sufocam seus bebês, manufatura de imbecis em franca progressão. Não há como escapar, dizem eles a qualquer sinal de rebeldia, por mais tímido que seja, até que a incansável repetição estabeleça de vez a desesperança, levando a crer que não há porquê. E perder o porquê (assim falou Jaci, num porre de Páscoa) é perder o eixo. Eu não seria tão veemente. Não fui.

Agora, depois de todos esses anos e eternidades, a caminho de um fim que me assusta quase tanto quanto me seduz, um dia ou outro, quando acordo de bom humor, eventualmente esquecido do desconforto e das dores, arrisco uma viagem de metrô e volto a jogar… É verdade que já não sou meticuloso na escolha do parceiro, que me sento em qualquer banco (muitas vezes quase me sentam, porque todo mundo sabe o quanto é insultuoso um velho recusar tamanha gentileza), enfim, não sou mais aquele veterano. Que falta me faz Jaci, alguém a quem piscar um olho. É verdade tudo isso. Mas quem é rei não perde o cetro, o sestro da majestade, ainda sei cantar de peito aberto e boca fechada.

O problema não é esse. O problema é que ninguém liga para um velho cantando no metrô. Nesses tempos de obsolescência programada, ou já em qualquer tempo, não há viagem que sempre dure nem loucura que nunca se acabe.

Yara Camillo nasceu em São Paulo. Formada em Comunicações – Cinema – pela Fundação Armando Álvares Penteado, FAAP. É autora de Volições (Massao Ohno Editor, 2007) e Hiatos (RG-Editores, 2004). Em sua trajetória, fez trabalhos para Teatro, traduções, participou de antologias e sites de Literatura, coordenou Oficinas de Teatro e Oficinas Literárias, além de ter vários contos premiados. Contato: yaracamillo@gmail.com

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79ª Leva - 05/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa III

Yara Camillo

 

Desenho: Bárbara Damas

 

DONA MENINA

 

Penso que desde muito menina hei de ter tido um coração vermelho e até que faceiro, como as penas do tiê. Mas se pena é para o passarinho como realeza, comigo há de ser sempre em sinal de tristeza, de resto como para o resto das gentes em geral.

Beleza assim, de se ver, Deus não me deu. Um cabelo meio que ruim, cor de mijo em lençol de cambraia; um porte até que de esteio avantajado, porém cortado sem prumo nas linhas de brando e cumeeira — de modo que não combinou: nem gordura com gostosura, nem magreza com esbelteza. Mas hei de ter agradado alguns homens, assim mais por brincadeira do que por bem-querer de noiva, companheira. Tenho cá minhas prendas, que é saber um forró como quê, moquecar badejo com dendê, coser colcha de retalhos e bordado de qualquer ponto.

Mas, no fim, eu me pergunto do que é mesmo que adianta, quando não se tem para quem? Parece um ouro que nunca hei de gastar, por me faltar assim uma pessoa a quem fazer agrado. Riqueza sem porquê desgraça mais que miséria.

Mas choradeira é coisa que não presta, afora em hora certa, como no frio da morte, ou em avesso de grande alegria. No mais, xô égua.

Para tudo nesse mundo há de haver uma compensação, como por exemplo a de eu ser Madrinha de tanto menino-homem e menina-mulher nessa terra de Deus. Se não de batismo, que conto sessenta, ao menos e mais tenho um tanto de afilhados de sal, o que é também de tanta importância quanto os santos óleos lá do santo padre lá da santa igreja: dia desses, um franzino vai lá em casa, pede um copo d’água e eu, sem que ele veja, entrouxo uma pitada de sal. O bichinho bebe, diz:

– Vôte!

Eu me rio de entortar a cabeça de lado, ele um pouco se amofina e desata a rir também. Pronto que virei madrinha, Madrinha de Sal; o menino pede bênção e eu: Deus te abençoe. Mais um. Mais um moleque para eu confeitar bolo, ensinar conta das quatro operações, acudir na hora da precisão, dar pancada – levinha – quando na malcriadez e, no caso de pai e mãe faltar, virar cria minha, que eu gosto de criança, demais.

A bem dizer, eu andei sendo uma virgem muito velhinha nessa minha vila, até que um dia retei: se cada gente mulher foi feita com fechadura, é pois porque cada homem nasceu com uma chave, que só serve mesmo numa portinha. Que Deus fez assim, eu acho, mas é um modo de falar, só para o meu entender.

Eu assuntava e desassuntava, sentada numa cadeira, espiando a janela, que devia de existir um amor meu andando por esse mundão, com uma chave que só havia mesmo de servir no meu segredo. Porque todo mundo é um e para um existe o outro.

E onde estava esse homem? — eu matutava comigo, fazendo caraminhola… Agora ele há de estar armando um mundéu, mor de pegar os bichos desavisados que passam na trilha. Ou o diacho será pescador e haverá de estar em alto mar, com esse Vento Sul, meu Deus?

Ou será um mestre carpina de boa lavragem, um viajante mascate, até quem sabe um gringo? Um gringo estrangeiro que haverá de chegar nesse veranico mesmo, da Suíça mais francesa, como tantos que aqui aportam, sempre.

Onde haverá de ficar a Suíça mais francesa?

Longe, lá longe, no avesso desse mundo.

Um homem louro, lourinho, de cabelo afogueado e olhos d’água, até quem sabe gateados?

Um índio moreno, moreninho, de cabeleira escorrida e mais preta que o assum.

Ou baiano aqui das terras da Bahia, cor de jambo, cabra de prumo, risonho, valente.

Um qualquer, que beleza não é o que vale primeiro.

Beleza a gente inventa no olhar o outro, quando se aprecia e se gosta, gosta tanto que vira amor e luz maior. E até que o outro seja um papa-capim a gente enxerga nele um tiê-sangue, o passarinho mais caprichado de Deus.

Um qualquer pode vir a ser meu bem-querer, porque depois que eu me tiver nele, aí sim, eu acho que ainda dá tempo de desabrochar e até fazer menino.

Mangabeira boa não é torta e põe fruto temporão? Assim, que eu possa ser uma desse tipo, quem sabe lá de minha sorte cigana, dos desalinhos da minha mão?

Enquanto ele não vem, meu Deus, eu vou por aqui tenteando, armengando um que outro namorico, só assim para ir mascando um pouco esse vazio que chega a doer no meio das pernas do mês, quando entro nos dias da fertilidade de terra roxa, roxa terra morena-morená.

Entra ano, vai des-ano, ninguém me vem aqui plantar, de modo que acabo aceitando uma que outra semente que o vento toca ou o passarinho solta, só para não ficar assim, sem função.

Falando sem zás-trás, eu aceito um convite no depois do baile, um perfume e um abraço roliço, chamegos… No mais das vezes de gente de fora, que a gente aqui de dentro chamamos por nome de Turista, Branquelo, Gringo, Biribando… Dependendo do ar de cada um.

Pois eu numa noite que outra me vou com um desses aí, por que não hei de ir? Dá assim uma alegriazinha curta e depois uma tristeza mais fundada, mas e daí, ouri-curi? Tu pões coco pra ninguém. E vai, e vem, na hora do momento a gente só quer mesmo se alegrar. É menos pior se arrepender no depois que arrenegar no antes.

Mas toda vez, no instantinho mesmo em que vou, digo para mim, na minha fonte, que aquele ali é o meu amor. Então, que a bem pensar, eu nunca deixei de bem-querer-amar esse um que tem minha chave.

Enquanto ele não vem, eu fico brincando com o boneco dele; abraço um e digo: é ele. Beijo uma carne e falo: é a dele.

Quem sabe um dia eu acerto? Quem sabe se minha natureza não é assim a de um licor de jenipapo que precisa de muito, mas muito reforço de tempo até chegar ao ponto de adoçar um homem?

Agora: eu também penso aqui comigo que um licor não tem serventia se ninguém bebe e só formiga bole, na falta de alguém que o guarde num armário de carinho. Eu acho.

E do que adianta eu achar, meu Deus? Ô vida de dura travessia de ponte caída, vida boa não fosse a morte, que eu por hoje ando arretada e falando sozinha que nem criança de colo e velho caduco que volta a menino, porque mocidade sem aquele quê é o mesmo que um fruto verdinho que se perde sem amadurecer, e nem passarinho quer comer, nem o tempo faz moldar.

Mas meu coração não foi arrepanhado de vez, nasceu assim encarnado como as penas do tiê, voa, voa tiê-sangue, por esse mundo sem fim, vá dizer a meu amor que nunca se esqueça de mim.

 

 

(Yara Camillo nasceu em São Paulo. Formada em Comunicações – Cinema – pela Fundação Armando Álvares Penteado, FAAP. É autora de Volições (Massao Ohno Editor, 2007) e Hiatos (RG-Editores, 2004). Em sua trajetória, fez trabalhos para Teatro, traduções, participou de antologias e sites de Literatura, coordenou Oficinas de Teatro e Oficinas Literárias, além de ter vários contos premiados. Contato: yaracamillo@gmail.com)

 

 

 

 

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73ª Leva - 11/2012 Destaques Jogo de Cena

Jogo de Cena

SOBRE GRAÇAS E DESGRAÇAS

Por Yara Camillo

 

Há pouco tempo traduzi um conto oriental que fala sobre graça e desgraça, ambas se alternando como se girássemos uma moeda e suas faces opostas se mostrassem quase que simultaneamente, quando talvez o que valesse a pena estivesse justamente no desconsiderado ínterim entre ambas.

O conto fala de um garoto fascinado por cavalos que encontra um potro selvagem, nas montanhas. O animal o segue. Que graça! – diz a família. Que graça ímpar vinda diretamente dos céus! Entre o garoto e o cavalo desenvolve-se um singular afeto. Certo dia, durante uma cavalgada, o garoto cai e quebra a perna. Que desgraça! – diz a família. Pouco tempo depois, todos os jovens do povoado são recrutados para a guerra. O garoto, ainda convalescente, é dispensado. Que graça! – diz a família. Certo dia, o cavalo, que tem o hábito de passear sozinho pelas montanhas, já que seu cavaleiro ainda não se curou de todo, desaparece. Que desgraça! Algum tempo depois, o animal retorna, acompanhado de uma égua já prenhe. Que graça! E por aí segue a estória, alternando graça e desgraça, cara e coroa, frente e verso…

Conheci minha primeira desgraça aos seis anos, quando perdi a avó, em quem depositava minhas esperanças de amor e compreensão, entre os humanos. Perdi, com ela, o espaço e o afeto que me acolhiam durante as tardes, depois da escola. Passei então a ficar com meus tios.

O tio e a tia, João e Maria, tinham seis filhos; quatro deles, bem pequenos. Comigo, o contingente dos pequenos chegava a cinco. Resultado: cinco crianças no exíguo espaço de um apartamento. Resultado do resultado: a saudosa tia Maria enlouquecia diariamente, com aquele bando que ela – filosofica e às vezes desesperadamente – chamava de “uma plantação de capetas”. A tia acabou descobrindo o que ela chamou de pracinha, um quarteirão inteiro, com muito verde, que podíamos avistar da sacada do edifício. E decidiu conhecer o lugar, para ver se poderia soltar os capetas por lá, ao menos durante uma parte do dia.

Certamente a tia não imaginava que seu justo anseio por um pouco de paz seria também o início de um infinito bem, que nos acompanharia por toda a vida.

Foi o início de um longo trecho. Na praça, além dos jardins e das árvores muito antigas, havia a Biblioteca Monteiro Lobato, que oferecia atividades dirigidas ao público de seis a dezesseis anos: Leitura, Pintura, Música, Teatro: meu primeiro amor, na Arte, a primeira forma de expressão que descobri, quase junto com a Literatura.

A desgraça, traduzida na morte da avó, havia dobrado a esquina… Agora, era a vez da graça. A rotina dos capetas mudava consideravelmente: saíamos da escola, almoçávamos e íamos para a biblioteca, onde passávamos a tarde, as tardes de todos aqueles anos.

Muita água correu por baixo da ponte que liga a já longínqua tarde em que Iacov Hillel reuniu alguns frequentadores da Monteiro Lobato para a montagem de um Auto de Natal. Meu personagem, no auto, era um anjo que desafinava e, por isso, fora expulso do coro celestial… Uma simbologia para a estranheza que sentimos, quando tentamos nos enquadrar um pouco na normalidade das coisas?

Ocorre-me agora um conto de autor desconhecido, que se chama “O Macaquinho e a Desgraça”: uma mulher, caminhando pela trilha de um bosque, levando um grande pote de mel na cabeça, tropeça numa raiz e cai. Contemplando o mel espalhado pelo chão, ela se lamenta: “Oh, meu Deus, que desgraça!” Um macaquinho curioso assiste à cena e, quando a mulher se afasta, resolve bulir no mel, que ele até então desconhecia. Experimenta e se deslumbra: “Ah, que delícia! Como a desgraça é gostosa!” E nos dias que se seguem não tem outro pensamento em mente, senão este: “Quero mais desgraça! Não posso viver sem ela!”

O Teatro, cujas reservas de desconhecido mel espalham-se entre graças e desgraças, trafega muito bem por esse aparente paradoxo. Ali, na mágica inexatidão de seu território, pode-se trafegar entre tragédias e comédias, passear pelas esquinas que se dobram após cada limite, prometendo outros que vão além, sempre além. Assim, encontram-se os lados opostos da moeda, um extremo deságua em outro, o que parece morte pode virar vida, o que parece miséria pode prometer riquezas.

Uma estória engendra ou chama outra… Uma forma de expressão pressupõe outras, como na Literatura, por exemplo, quando, como diz Borges, “um livro encontra seu leitor”. E então se dá algo que tem a ver com o Teatro, com o leitor armando seu palco de intimidades para que ali aconteça vividamente o enredo que seus olhos e seu espírito captam do livro e transpõem para esse palco particular.

Todo ser humano deveria praticar uma forma de Arte. Seja qual for a profissão ou caminho escolhido, a criatividade pode e deve fazer parte de sua trajetória. É um modo de exercer a infância, de trilhar o território lúdico, o primeiro, talvez, que todos conhecemos quando crianças. É um modo de não abandonar a criança, de deixá-la respirar livremente no adulto que somos, preservando assim nossas reservas de curiosidade, coragem e alegria.

Caminhando mais por essa ponte, invoco agora uma coletânea de contos populares espanhóis, de José María Guelbenzu, que traduzi há alguns anos. Seguindo um critério de sempre, minha ideia era conhecer a obra inteira, antes de começar a tradução. Mas, quando li um dos contos, A Pereira da Tia Miséria, resolvi iniciar a tradução por ali. Não imaginava, claro, que a pereira daria tantos frutos. Apenas, senti que era um conto que ia muito, muito longe: Tia Miséria é uma velha senhora, mãe da Fome (sua filha que saiu de casa há muito tempo e vive caminhando pelo mundo, espalhando sofrimento). A Tia vive sozinha, sustentando-se de uma velha pereira que tem no quintal – cujos frutos os meninos da vizinhança roubam, antes que amadureçam – e das poucas doações que consegue, de alguns moradores do povoado. Certo dia, recebe a visita de um santo do céu, disfarçado de mendigo. Ajuda-o, e consegue uma graça: todo aquele que subir em sua pereira ali ficará grudado, até que ela o autorize a descer. Com isso, consegue afugentar os meninos, consegue colher e vender suas peras. Sua vida fica mais confortável, até que um dia recebe a visita da Morte. Mas a Miséria não quer morrer. E engana a Morte, fazendo-lhe um último pedido: “Por favor, vá colher alguns frutos da minha pereira, para eu ir saboreando durante minha última viagem.” A Morte concede… E então fica presa à pereira. Assim, desaparece do mundo… E o caos se instala, em vários desdobramentos, até a conclusão do conto.

Cinco anos depois do lançamento dos Contos Populares Espanhóis, pela Landy Editora, em 2005, o Núcleo Ás de Paus, de Londrina, Paraná, fez uma montagem teatral com base na Pereira. Assisti ao espetáculo, que segue em cartaz até hoje, e concluo este texto transcrevendo aqui algumas de minhas impressões sobre o trabalho:

Tia Miséria e Pereira por Natalia Turini

A adaptação e montagem do conto popular espanhol, A Pereira da Tia Miséria, pelo Núcleo Ás de Paus, preserva e honra a tradição desse gênero, desde o texto, trabalho raro da Palavra, até o trabalho de Corpo, com os atores se movimentando muito à vontade, em pernas-de-pau, como se brincassem em cena. Que no Teatro se brinca a sério, se rapta e conduz o espectador até a plataforma de decolagem. E voa o espectador, enquanto os atores engendram novos encantamentos para a próxima cena.

A idade ideal para se assistir à Pereira da Tia Miséria? Todas, porque o espetáculo tampouco tem idade e chega a resvalar no atemporal.

A plateia – essa entidade que se forma e se recria diante de todos os palcos – complementa a magia. Talvez seja este outro mérito do Conto Popular: o de falar a todas as idades, porque os contos vêm de épocas em que as pessoas ouviam, em volta do fogo, da mesa – ou em qualquer cenário onde ocorresse essa comunhão –, as estórias trazidas e levadas pelos contadores, jograis, andarilhos, menestréis, saltimbancos, precursores dessa linha que agora o Ás de Paus leva adiante.

Pereira por Natalia Turini

Outra magia da Arte, e já do Afeto: a de fazer viver o que se evoca. É assim que Tia Miséria, mais viva do que nunca, acontece. O espetáculo tem ritmo, a cenografia e os figurinos são impressionantes. As linhas de interpretação são claras e mergulham fundo; o resultado é Arte. Percebe-se uma linha de direção que, no entanto, é coletiva: criação coletiva, surpreendente e possível porque, além do talento, o grupo consegue uma unicidade – que não ocorreria, sem um reconhecimento recíproco das percepções individuais.

Há um momento no espetáculo em que a música, entoada pelo coro, assim anuncia a entrada de um personagem:

“O que é desprezível não se deve desprezar.

O que é invisível é preciso enxergar.”

Recado precioso, nesse tempo. Em todos os tempos.

Esse trabalho do Ás de Paus precisa cumprir seu destino de ir longe e para muitos, porque leva em si a essência do Teatro, nas cores e no texto, na música e cenografia, nos figurinos e na interpretação, na concepção do cômico e do trágico. Na beleza, enfim.

O Teatro habita a alma e o trabalho do Núcleo Ás de Paus. A Arte se faz. Saímos mais ricos e com as mãos cheias de frutos depois de conhecer A Pereira da Tia Miséria, através da visão desses artistas.

Bruna Stéphanie e Rogério Costa por Natalia Turini

De novo a graça e a desgraça, alternando-se nas faces da moeda… Como se tudo tivesse apenas dois lados! Como se não houvesse, entre um sim e um não, uma quase infinitude de possibilidades.

(Yara Camillo nasceu em São Paulo. Formada em Comunicações – Cinema – pela Fundação Armando Álvares Penteado, FAAP. É autora de Volições (Massao Ohno Editor, 2007) e Hiatos (RG-Editores, 2004). Em sua trajetória, fez trabalhos para Teatro, traduções, participou de antologias e sites de Literatura, coordenou Oficinas de Teatro e Oficinas Literárias, além de ter vários contos premiados. Contato: yaracamillo@gmail.com)

 

 

 

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72ª Leva - 10/2012 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Yara Camillo

 

Foto: Mercedes Lorenzo

 

DUAS VIAS

 

Ele abriu a porta do carro para que ela entrasse.

– A velhice dando passagem à juventude?

– Não: a sabedoria dando vez à pretensão.

Riram. Era uma brincadeira antiga, da época em que se conheceram: ela, preparando a tese. Ele, o orientador que não chegou a sê-lo… A relação aconteceu e, de comum acordo, decidiram que ela procuraria outro professor. Nem por isso a pressão foi menor. Em muitos olhares, o imediatismo rotulava, sem sursis: veterano-estende-as-asas-sobre-a-novata. E poderia ter sido pior; tivesse a “vítima” alguns anos a menos e o crime estaria consumado, não se podia brincar com essas coisas.

A maré do politicamente correto extrapolou, afrontando os limites do bom senso – dizia ele. – Facilite… E até Lolita e Morte em Veneza acabarão queimados em praça pública.

– Não exagere – dizia ela.

Ele ria:

– E a lei contra os Adônis que enfeitiçam os velhinhos? Deveria existir uma, não?

Ela ria:

– E qual seria o nome desse crime… Gerofilia?

– Sim… Muito próprio. – E ele improvisava a premissa: – Não gerofile, para não ser pedofilado.

– Proponha esta na próxima reunião e estaremos condenados em duas vias, sem direito a habeas corpus.

– Falando em habeas

– Falando em corpus

A brincadeira se repetiu ao longo dos anos, mesmo depois de perder a graça; ela, mais que ele, chamava o riso como tábua de salvação, como refúgio das crises que também se repetiam, indefinidamente.

Passado o espanto geral, que de roldão consumira também certos encantos, as coisas começaram a se acomodar. Ninguém mais estranhava a parceria, nem a ironia que permeava o enredo natural daquele amor: ela, já não bastasse os muitos anos a menos, aparentava ser tão menina… Para entrar no cinema, só mostrando Identidade que provasse ao menos dezoito, dos vinte e três já completos. Ele, em contrapartida, já aos dezesseis se passava por “maior”, nos bailes e cinemas da cidade interiorana onde nascera. Cabelos precocemente grisalhos e o sagrado costume da cerveja completavam o quadro, adiantavam o tempo e, aos olhares alheios, alongavam mais ainda a distância entre os dois.

O tempo. O curso. Da universidade e das coisas. E a tese, que não saía nunca.

– Se você não pode ser meu orientador, então não quero mais ninguém – ela dizia. E se por algum tempo esse argumento surtiu efeito, foi também se desgastando, como tudo, como um todo.

– Não era isso – ela confessou, numa das raras noites de cerveja que conseguiram a sós, porque a universidade era um mundo que se estendia para além do campus, até o bar, até a casa, até os amigos e tantas horas compartilhadas. – A Dança seria o princípio e, a Geografia, o meio… Sabe? O meio pelo qual a Dança viria a acontecer, sem as amarras das concessões profissionais necessárias à sobrevivência. Mas tudo virou do avesso, a Geografia se espalha e não faço outra coisa a não ser projetos.

– Não há lugar para dois, com a Geografia. Ou é ela ou é ela, se é que você me entende, e eu às vezes acho que não.

– Dois corpos não ocupam o mesmo lugar no tempo e no espaço? Nunca, dirá você.

– Nunca, tu o disseste.

– “Salvo quando se amam”, disse o poeta. E se essa verdade não pode harmonizar a Dança e a Geografia, então quero nascer de novo.

– Você já nasceu tantas vezes, lembra… Ou não, não mais?

Ela fechou os olhos, fazia isso quando sentia dor ou acusava o golpe, claro, quantas vezes não dissera “acho que nasci de novo”, depois do amor?

Foi naquele amanhecer que os dois se descobriram de partida, ele para o campus, de corpo e alma, porque aquela era mesmo sua vida, sua escolha, desde antes dela e, com um pouco de sorte, também depois dela – embora no momento ele não soubesse, não tivesse a menor ideia de como faria para sobreviver àquela ausência. E ela enfim para a dança, habeas corpus, habeas anima. Ele, que não acreditava em deuses, acabou maldizendo os desígnios que deram a ela uma bolsa, no ano seguinte, para um estágio fora do país.

Encontraram-se uma vez, na Europa, mas aquela não valeu: ela estava embriagada demais com a liberdade e ele embriagado demais com a alegria de revê-la.

Agora, anos depois, um novo reencontro: ele gostou de achá-la, ainda, bela. Gostou de gostar de vê-la, embora a dor.

– Você ficou bem famoso – ela brincou, recurso que sempre usava para driblar o embaraço. – Ouvi falar, por aí.

– E você?

– Como? Você não ouviu falar de mim?

Ele ficou sério, um segundo antes do riso. Ela riu, também, e tudo foi como antes, por um instante.

– Você está dançando?

– Às vezes.

– O que houve?

– O de sempre. Não sou articulada, não me relaciono com as pessoas “certas”, não me enquadro muito nas coisas. – E imitou o tom de voz que ele usava, quando queria ser categórico: – Se é que você me entende, e eu acho que não.

Ele riu, de novo, agora sem muita vontade. Ela continuou:

– Mas eu tinha que ver, não é? Eu precisava ir. E fui bem, por uns tempos… E “ir bem”, ainda que por uns tempos, deixa um gosto de “sempre”, quando se trata de Arte.

– Isso me lembra aquela sua velha máxima: “A Arte acima de tudo.”

– Não – ela responde. E ele vê nisso algo de novo. – Não existe acima, nem medida alguma, nesses casos. Só uma sensação de que as coisas têm um sentido.

– Isso você podia ter…

– Você podia. Não eu.

– Então, perdemos uma geógrafa brilhante… para uma bailarina…

– Apenas razoável?

– Eu não disse isso.

– Claro que disse. Mas não faz mal.

– Escute, ainda dá tempo.

– Tempo do que, meu amor?

– Esse “meu amor” me pegou de surpresa.

– O que prova que você continua o mesmo… Surpreendendo-se com o óbvio e olhando com cara de velho para o que é realmente novo. Agora me leve daqui para um lugar mais decente, onde se possa tomar um bom vinho.

– Você também não mudou. E isso, não sei por que, me faz bem.

– Não era o que você dizia.

– Não era o que você pedia.

Ele abre a porta do carro, ela sorri:

– A velhice dando vez à juventude?

– Não, o cansaço dando lugar a algo que não quero definir agora.

– E quem disse que é preciso definir?

– Temes definhar ao definir?

– Idiota! – Ela ri. – O fim vai chegar, para nós. Para todos nós. Mas não hoje.

– Você não vai acreditar, mas isso, para mim, já é alguma coisa.

“Acredito”, ela quis dizer, mas achou que não seria preciso.

 

(Yara Camillo nasceu em São Paulo. Formada em Comunicações – Cinema – pela Fundação Armando Álvares Penteado, FAAP. É autora de Volições (Massao Ohno Editor, 2007) e Hiatos (RG-Editores, 2004). Em sua trajetória, fez trabalhos para Teatro, traduções, participou de antologias e sites de Literatura, coordenou Oficinas de Teatro e Oficinas Literárias, além de ter vários contos premiados. Contato: yaracamillo@gmail.com)