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117ª Leva - 02/2017 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Mariana Basílio

 

Ilustração: Bianca Lana

 

Tríptico Vital

 

Do Sentir  Do Descobrir  Da Extensão

 

 

Tenho pedido a todos que descansem
De tudo o que cansa e mortifica.
Mas o homem não cansa.
Hilda Hilst

 

 

I

Se me disseres, amor, sou teu sonho.
Dir-te-ei, rema, ardor, entre os olhos.
Pois o canto que cantas é efêmero.
E o que sou é estandarte do sol.

A crescer frágil e rígido.
A rasgar os votos sagrados.
Entre a ruptura dos galhos.

Repara no que te digo.

Se me disseres: voa, sou teu laço.
Fugirei hoje mesmo, desertora.
Pois onde amo, não caibo.
Pois onde vivo, não meço.

Vaga, eu te vago.
Vaso do vazio.
Pureza do perene.

Um adeus inerente.

***

II

São hemisférios os meus olhos.
Ainda que crepitem os séculos.
Ainda que naufraguem no presente.
E não posso adiar o amor que sinto.

O amor suporta o peso corpóreo.
Atravessa a pobreza, o ódio, o abandono.
Abraça o que se renega.
Conduz o que não se mede.

À sombra de uma árvore, resistimos.
O amor e eu. No coração que é vertigem.
Em vias remotas e poeiras estelares.
Tudo é afinal, indiferente.

Porque não posso adiar a vida.

***

III

Divino Nada.
Toca-me o espírito.
Como o fugaz sopro da morte.
Como se o tempo fosse vida.
E o futuro, minha sorte.

Apresenta-me: desfecho.
A inacabada via.
Oferenda terrena.
Inevitável meio.

Divino Nada.
Salva-me o corpo
Em linhas versais.
Sela os segredos
Fluindo silêncios,
Abismos minerais.

Preposições são cantares,
No princípio da imagem.
Tu, fascínio em milagre.
Por campos lacunares.
O vasto total.

Amiúde, o haver nos restará.
O haver em branca transparência.
Construções em pás de silício.
Gravuras que se entrelaçam.

O oco fundo, Divino Nada.

***

IV

Tem sido de manhãs tecida
A minha sombra.
Sutilíssima na luz.
Translúcida nos olhos,
Em meu exíguo espaço.

A vida: plena.
O viver: insuportável.
Ou és carne ou és embaraço.

Sulcando os desvios do sangue.
Uma vida esculpida de sonhos.
Como foi que aprendemos a ser?
O perecível costura o presente.
O imperecível é paisagem da mente.

***

V

Porque o meu universo
É um todo de palavras
Golpeando o estado da fome.
Boca-alaúde de sentimentos.
Fino contraste do instante.

No desgaste do som,
Atemporal intempérie.
Na membrana diária,
Vendaval de mistérios.
Pelas lacunas do céu,
Tessitura da morte.

Minuto-terra em espumas.
Entre salmos: fleuma.
Entre braços: feixe.

Porque o meu universo
São pálpebras em corais.
Desde a língua.
Saltando melismas.
Sou um inteiro.

***

VI

À memória de Allen Ginsberg

 

O peso do mundo é o peso do sonho.
Sob o fardo do amor,
Sob o feitio da ilusão.

O peso do mundo é um fator irreal.
Sob o feitiço do perverso,
Sob a finura do convexo.

Mas quem de nós poderá negá-lo?
Se a leveza é invenção abstrata.
Se a natureza é limite brutal.

Paraísos movem-se mais adentro.
Peregrinos progressos rarefeitos.
Moléculas de uma frágil história.
Em céus que desabam, petrificados.

Pois nenhuma elucidação, América,
Há de salvar-nos.
Nenhuma religião, Kaddish,
Será poesia.
Nenhuma dor, atemporal.

 

Mariana Basílio é pedagoga, mestre em Educação e poeta. Atualmente cursa pós-graduação em Língua Portuguesa e Literatura. Autora dos livros Nepente (Giostri Editora, 2015) e Sombras & Luzes (Editora Penalux, 2016), versa no presente os dois próximos livros, Tríptico Vital (3º lugar ProAC 2016) e Megalômana. Tem entrevistas e poemas publicados em revistas do Brasil e de Portugal, como Inefável, Limbo, Raimundo, Garupa, mallarmargens, O Garibaldi, Germina, O Equador das Coisas, InComunidade, Oceânica, Vida Secreta, alagunas, Plural, entre outras.

 

 

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74ª Leva - 12/2012 Ciceroneando

Ciceroneando

Foto: Catharina Suleiman

VI

Tudo vive em mim. Tudo se entranha
Na minha tumultuada vida. E porisso
Não te enganas, homem, meu irmão,
Quando dizes na noite, que só a mim me vejo.
Vendo-me a mim, a ti. E a esses que passam
Nas manhãs, carregados de medo, de pobreza,
O olhar aguado, todos eles em mim,
Porque o poeta é irmão do escondido das gentes
Descobre além da aparência, é antes de tudo
LIVRE, e porisso conhece. Quando o poeta fala
Fala do seu quarto, não fala do palanque,
Não está no comício, não deseja riqueza
Não barganha, sabe que o ouro é sangue
Tem os olhos no espírito do homem
No possível infinito. Sabe de cada um
A própria fome. E porque é assim, eu te peço:
Escuta-me. Olha-me. Enquanto vive um poeta
O homem está vivo.

(Hilda Hilst em Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão)

***

Mais um ano se prepara para desferir seus últimos golpes. Em seu derradeiro canto, quiçá traga até nós o gosto pelo saber e sabor das coisas fugidias. Não pelo curioso prazer de sermos tentados pelo efêmero que nos espreita permanentemente, mas sim pela ideia através da qual somos impelidos a acreditar que a única coisa que existe de fato é o presente. Já que nos são caros os efeitos da passagem do tempo, convém evitar desperdícios e marcar o solo do mundo com a marca indelével de nossas epifanias. Por isso, necessitamos enxergar além do óbvio. Por isso, urge seguir adiante mesmo com os equívocos que nos assolam os sentidos. Se ainda assim a devastação for sombra constante, é porque uma suposta normalidade nos conduz à margem de precipícios edificantes. Quem serão os arautos das novidades amanhecidas entre nós? Talvez todos aqueles que ousem perpetrar os caminhos pouco convencionais da existência. Qual um balançar de águas que nunca mais tornarão a ser as mesmas, viver pode representar a revelação de notícias pouco confortáveis e, por assim dizer, incompatíveis com nossas minicertezas. E como é bom não brigarmos pela patente da razão. Quem sabe os poetas, muitas vezes tidos como delirantes e loucos, possam nos servir de guia nessa delicada jornada rumo ao centro de nós mesmos. Onde a nostalgia do futuro a nos sorrir em toda sua tirania? A arte, então, vai prolongando nossa espécie, fazendo-nos tatear cada vez mais as paredes pelas quais imaginamos algum resquício de liberdade. Que sejamos, pois, perpetuados pelos ecos incontidos nos versos de gente como Nina Rizzi, Marcelo de Novaes, Helena Terra Camargo, Dheyne de Souza e Marcus Groza. Entre palavras e outros tantos destinos por aqui lançados, há espaço inconteste para os sensíveis registros fotográficos de Catharina Suleiman. Noutro ponto, interpelamos o escritor André de Leones numa conversa sobre suas travessias literárias. No Jogo de Cena, Geraldo Lima promove incursões no teatro de Arthur Miller. Outros enlaces de vida nos são contados por Mariza Lourenço, Rodrigo Novaes de Almeida e Nelson Alexandre. A escritora Adriana Zapparoli nos convida à leitura de Nagasakipanema, livro de poemas do uruguaio Victor Sosa. O olhar atento de Larissa Mendes atravessa a delicada temática de Amor, novo filme de Michael Haneke. Sob a agulha de nosso Gramofone, gira a sonoridade da banda mineira Transmissor. Fecha-se mais um ciclo na Diversos Afins e o gosto por novas descobertas se agiganta. Que 2013 revele-nos, como versificava Hilda Hilst, o escondido das gentes!

 

 

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