Há um horizonte humano de
esquecimento
onde palavras
não proferidas
guardam o silêncio
de ruínas e lamentos.
Um testemunho de dor
sob o céu da Somália.
Entre a esperança e o tormento,
ruínas e lamentos,
a história aguarda
seu julgamento.
Seu inaudito
veredicto
sob um horizonte humano de
esquecimento.
***
PRIMORDIAL
Como as oscilações da chuva
nas alamedas
Eu poderia lhe dizer
sobre o tempo,
sua inconstância,
de palavras ditas
e perdidas
sob o vento frio
de setembro
Mas tínhamos a certeza
dos pormenores da vida
das oscilações da chuva
das alamedas
onde
caminhávamos
lentos passos intercalados
como legítimos filhos
do século passado.
***
NOTURNO
As razões de quem ama
não são argumentos.
Estratagemas para sentimentos
no amor não se pode tê-los.
As evidências de quem ama
são fatos secundários
como as alamedas
no mês de maio.
Os amantes sabem
do improviso
– flor casual do destino.
É possível que o amor seja
mesmo sem a convicção dos teoremas.
Leve – como no sono se propaga
o sonho em Marta.
***
ALGO
Eu cumpro protocolos
sobre o túmulo das roseiras!
Eu cultivo solos
sem eira nem beira!
Meus sonhos?
Restolhos
de um vilarejo
abandonado
onde olho a vida
e digo algo.
***
LAMENTO
Onde posso estar
que não seja
em mim
mesmo?
Parada
tumulto
Avenidas
que se cruzam
Vazio crepuscular
de um vulto
Onde posso estar
que não seja
mendicante argila
sob o firmamento
Jó
pó e lamento?
***
PRIMORDIAL II
Eu poderia dizer
das circunstâncias adversas
da escassa colheita
do riso sem primavera.
Eu poderia dizer
da dor e da espera
do tempo sem fim
da noite deserta.
Mas seja em Atenas
ou Alexandria
O amor seria
E eu poderia lhe dizer
dos revezes da vida
das coisas que ficam
e das coisas que passam.
Como do tempo sem fim
da noite deserta
Nasce o dia
o riso
e a primavera.
Hilton Valeriano é poeta, professor, formado em Filosofia e História. Autor do livro de aforismos “Margens”, publicado pela editora Mondrongo em 2017.
O gosto pelas complexidades alimenta alguns feitos. Em se tratando de literatura, muito podemos mencionar a respeito. No entanto, é bastante significativo frisar que, na busca por um resultado estético e coerente com os mergulhos pessoais, cada autor se envereda por vias até mesmo surpreendentes. E não se está aqui a falar duma procura por coisas supremas ou meramente arrebatadoras, mas da forma como cada criador percebe a si e a seus iguais, tendo como pano de fundo a heterogeneidade do mundo. Nesse trajeto, podemos questionar a efetividade de fórmulas prontas, hermetismos e rigores excessivos. O tempo tem nos mostrado que aprendemos não somente com modelos consagrados, mas também com as transformações e aprimoramentos oriundos do ato constante de experimentar. Assim, exercitamos a capacidade de romper tabus e deixar de lado um exército de mitos que nos causam certa cegueira. Aprendemos, de fato, a partir do envolvimento prático com as múltiplas vozes e seus chamados a nos rodear os sentidos. Ler o mundo é algo mais colossal do que supomos, embora jamais se configure uma meta inalcançável. Há, por exemplo, todo um entendimento universal sobre a existência na mente de um criador que transpõe seus domínios através da leitura. Por causa desse fascínio, o desejo de seguir adiante não se sacia. Ao visar respostas para os enigmas que a vida lhe impõe, um autor talvez jamais encontre a saída. Enquanto isso, ocupa-se de se entregar ao fluxo incessante da memória e das projeções que supõe serem as principais aliadas de suas andanças particulares. Um pouco desse marcante espírito permeia a atual edição da Diversos Afins. Desde os poemas de Assis Freitas, Ehre, Alexandre Bonafim, Nuno Rau, Carolina Suriani Caetano e Luciano Bonfim, passando pelas narrativas de Gabriela Amorim, Antonio LaCarne e Geraldo Lima, a linha da vida segue seu difuso e incerto curso, exaltando descobertas, filhas do espanto. Nossa 84ª Leva ganha corpo com a intervenção dos signos presentes nas fotografias de Jussara Almstadter. Se a inquietude faz bem à arte, percebemos seu vigor quando entrevistamos o poeta mineiro L. Rafael Nolli. Em matéria de música, Larissa Mendes mostra porque o segundo disco de Marcelo Jeneci merece nossa especial atenção. O convite à leitura fica a cargo do escritor Hilton Valeriano, cujo texto suscita incursões pelo mais novo livro da poeta Rita Moutinho. Por aqui, há também espaço para a celebração em torno da memória musical de Tom Jobim, numa leitura para o documentário dirigido por Nelson Pereira dos Santos. Que os caminhos aqui contidos possam lhe promover renovados percursos, caro leitor!
“Que as pétalas subjuguem
os dolorosos espinhos!”
Rita Moutinho
Confrontar-se com situações limites, com obstáculos interiores contínuos às ações corriqueiras do cotidiano, defrontar-se com a busca de superação da ausência de sentido, existir sob a tensão do viver! Esse quadro característico de estados de depressão reflete a poesia lírica presente no livro “Psicolirismo da Terapia Cotidiana” (Ateliê Editorial), da poeta Rita Moutinho. Uma poesia marcada pela permanente tensão entre o “Eu” e um mundo interior fragmentado, instável, fugidio: “Frente a mim,/no meu presente,/não me desvendo/e assim permito/arroubos de pensamento/e justifico, que lá dentro,/há de estar o que não penso.” Lirismo dramático expresso em versos que mostram a crise da exacerbação do “Eu”, marcas de um Século Pós-moderno e que ainda se estabelece sobre a herança do Iluminismo, do Secularismo e do esvaziamento do referencial transcendente, ou seja, do sentido metafísico, portanto um “Eu” labiríntico: “Deve haver um lento tatear-me,/pois em mim não há outra coisa que não eu/a me querer nascer.”
Uma das características da poesia de “hoje” tem sido o experimentalismo, muitas vezes questionável, que transita entre o minimalismo, releituras do Concretismo e da poesia de João Cabral de Melo Neto, uma poesia que tem como objeto estético a própria linguagem, não obstante sua dimensão semântica “impenetrável”. A poesia de Rita Moutinho se apresenta em polo oposto. Seus versos são líricos e a linguagem apresenta-se como instrumento estético e não objeto estético. A temática subjetiva de sua poesia e a tensão de seu lirismo a aproxima de poetas como Mário de Sá-Carneiro e Florbela Espanca, poetas do drama do “Eu”:
“Aonde irei neste sem-fim perdido,/Neste mar oco de certezas mortas?/Fingidas, afinal, todas as portas/Que no dique julguei ter construído...” (Mário de Sá-Carneiro – Ângulo).
“Minh’alma ardente é uma fogueira acesa,/É um brasido enorme a crepitar!/Ânsia de procurar sem encontrar/A chama onde queimar uma incerteza!” (Florbela Espanca – O meu impossível).
“Inspiro e sou a musa avessa/explorando avidamente/aquilo que não aflorou:/certeza” (Rita Moutinho).
Mas, ao contrário dos poetas suicidas, Rita Moutinho faz de seus versos uma verdadeira catarse, no sentido aristotélico do termo, ou seja, purificação de suas vivências. Podemos dizer que a poeta faz da linguagem uma autoanálise de seu drama interior, itinerário catártico do “eu”:
“Iluminar o lado escuro/da penumbra/e se fazer radar/até que me descubra”.
“Os poemas acalmam ou são proféticos,/lavam ou surpreendem a alma quando criados./Ei-los, a um tempo, deuses e miméticos.”
“Eu lavo as veias com água e após transfiro/o sangue da ansiedade às palavras (…)”
O itinerário existencial presente nos versos de Rita Moutinho mostra-se titânico em sua recusa a uma referência semântica transcendental – “E eu, lírico clown, cato – com os demônios! -,/os piolhos que infestam meus neurônios!” – característica de um Século Pós-moderno como já assinalamos. Assim, a poeta apresenta-se como uma anti-heroína mesmo tendo a linguagem poética como uma estética catártica dos mares tempestuosos de sua subjetividade: “Os versos são fragmentos de epopeia/falsa, pois falsa heroína é a poeta,/falsa, fraca, falida, mas não cética:/crê que a maré se abaixa, mas não seca”.
Uma poesia para se ler. Uma poesia para pensar.
(Hilton Deives Valeriano é filósofo, formado pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas e Unicamp. Editor do blog Poesia Diversa. Autor de poemas, epigramas e aforismos. Livro no prelo: “Nas mínimas coisas – aforismos”)
É recompensador perceber que a unanimidade não combina com o universo da arte e da literatura. Reconhecer isso significa elevar a multiplicidade de expressões a uma potência deveras indefinida. Nesse ínterim, cabe falar de formas distintas, ou melhor, vozes distintas a compor um vasto painel cênico. E certamente a contemporaneidade nos trouxe mais desafios do que algo consolidado. O que construímos hoje é parte ativa de um discurso que parece longe de soar definitivo. Desconfiemos, pois, de qualquer tentativa de universalizar verdades, não perdendo de vista o bonde da história bem como as referências necessárias propostas por ele. Como conceber as criações ante nosso tempo? Ser vanguardista é ainda uma missão necessária e palpável? De qualquer modo, essas são apenas algumas das muitas indagações que podem flutuar por sobre nossas sôfregas trajetórias. Embora uma curiosa e delicada sensação de liberdade possa impregnar os instantes do hoje, criar sempre será um processo complexo e que requer um vigoroso mergulho nos signos do mundo. No girar da ciranda dos feitos, não há como deixar passar certas leituras e apreensões. É quando a voz de gente como Nuno Rau, Vera Lúcia de Oliveira, Cícero Galeno Lopes, Valéria Tarelho e Hilton Valeriano nos recorda da matéria sensível e densa de que somos feitos. Através de sua prosa, Carlos Trigueiro, Tere Tavares e Nilto Maciel redimensionam sentidos para a vida. Em nossa pequena sabatina, a escritora Marilia Arnaud fala sobre seu primeiro romance, Suíte de Silêncios, e revela alguns de seus percursos íntimos pelas letras. Num trajeto que sabe a memórias e reflexões, Yara Camillo promove sua estreia no caderno de teatro. O poeta e editor Gustavo Felicíssimo nos conduz por entre as tramas sensíveis de Rascunhos do Absurdo, livro de poemas de Jorge Elias Neto. O olhar apurado de Larissa Mendes sonda o legado do cineasta Rogério Sganzerla. Em nosso Gramofone, paira toda a suavidade de Presente, disco da cantora e pianista Delia Fischer. Ante as manifestações aqui presentes, reina intensa e harmônica a exposição de desenhos e pinturas de Fao Carreira. Por tudo isso e, principalmente, pelo desejo firme de continuidade, a Diversos Afins celebra uma nova e gratificante Leva.
Desde as xilogravuras medievais até as famosas iluminuras, o desenho sempre esteve presente na história da arte. O leitor poderia ser levado a pensar o ofício do desenho como uma forma periférica de uma suposta manifestação artística secundária, visto a predominância da pintura, mas nomes como Albrecht Dürer, Gustave Doré, M. C. Escher e Oswaldo Goeldi evidenciam o equívoco dessa perspectiva.
Rui Cavaleiro Azevedo, artista português de Lisboa, em nossa Sabatina, expressa suas opiniões sobre a arte e o ofício do desenho, sua importância estética, suas relações com a literatura, seus projetos futuros. O leitor é convidado a mergulhar no universo expressionista e humanista desse artista, a discorrer sobre a vivência estética de seu olhar, de suas cenas, sejam elas urbanas, naturais ou literárias.
Rui Cavaleiro / Foto: Elsa Vecino
DA – De que forma se deu sua experiência inicial com a arte do desenho?
RUI CAVALEIRO – Durante os meus estudos, em menino e adolescente, eu era incluído entre aqueles que “não têm jeito para o desenho”. Efetivamente, considero que não fui dotado com qualquer prenda divina, nem para desenhar nem para nada mais, e acho que desenho pior que a média das pessoas. Em menino e jovem, os meus desenhos decorativos e geométricos eram invariavelmente sujos, torcidos e distorcidos. Quando o trabalho parecia finalizado e a régua deslizava pelo papel e deixava atrás dela o rastro de tinta da china borrando o desenho, eu tinha a consciência da minha nulidade no mundo da Arte. Por dificuldade visual, ainda hoje não vejo a perspectiva.
Contudo, passava as tardes em casa desenhando personagens e paisagens inabituais, com lápis de cor e manchas de aquarela, copiando livros de comics.
Tenho na memória, mas talvez seja um sonho, que um dia um professor me disse que se eu quisesse candidatar-me a Belas Artes, ele me ajudaria a preparar o exame. Devo ter sonhado. Além disso, por esse tempo já tinha feito exame para entrar em agronomia.
DA – Como você vê o papel do desenho e sua relevância histórica no campo da arte?
RUI CAVALEIRO – O desenho foi uma das primeiras formas de expressão dos homens. Nas paredes das cavernas, na areia, na argila. Seria para representar a realidade do modo que o desenhista a via, para esconjurar medos e fobias, para contar os acontecimentos ocorridos. Antes da fotografia, o desenho era, para os biólogos, o modo de registrar objetos e seres dignos de nota. Para os arquitetos e cenógrafos, é o modo de organizar o espaço e a realidade de determinada maneira. Para outros, será um modo de tomar notas ou ainda de distrair a mente, como, por exemplo, desenhar flores durante as reuniões profissionais.
Almada Negreiros, um grande artista português que já não se encontra entre os vivos, disse que o desenho é o nosso entendimento a captar o instante.
Agora, uma confidência. Tentei várias vezes fazer pintura. Segui cursos em Academias em Bruxelas, experimentei várias técnicas, fiz quadros abstratos, realistas, tentei reproduzir os meus pequenos desenhos em grandes telas brancas e virgens. O resultado foi sempre desastroso. Eram quadros simplesmente horríveis. O fato de não dispor da liberdade para apagar, alterar, desenhar por cima, rasgar, faz com que a pintura não seja um modo de expressão adequado para mim.
DA – Mesmo nas cenas naturais ou urbanas, seu traço expressa um olhar que busca a paisagem como dimensão cultural, ou seja, uma vivência humana da perspectiva criadora do artista. Comente esse aspecto de seus desenhos.
RUI CAVALEIRO – Os meus desenhos estão ancorados à realidade. Pode ser uma paisagem, uma pessoa a dormir na praia, uma cena de uma velha fotografia, um cão a brincar. São imagens de outras imagens. É fácil verificar que muitos dos meus desenhos são cópias, reproduções, plágio (!) de outras obras. Parasito, assim, o trabalho de outros criadores. Contudo, gosto de ser um intérprete da cena, mais do que um observador. Que emoções estão a experimentar os personagens, mesmo sendo eles animais? Esse é um ponto interessante para mim. Se tudo está ligado no universo, se podemos sentir em São Paulo os efeitos de um bater de asas de borboleta, em Lisboa, então, os elementos desenhados numa folha de papel também devem estar relacionados entre eles, com o passado, com o futuro, com o que está fora da folha de papel mas nela está sugerido.
DA – A arte do desenho e a literatura possuem uma longa história. Você tem expressado sua arte também com figuras de escritores e personagens literários, mantendo a relação desenho e literatura.
RUI CAVALEIRO – Esses desenhos são uma simples porta para entrar no Universo do escritor: podem ser uma ilustração da sua obra, como aqueles romances ilustrados do Júlio Verne ou do Alexandre Dumas, que enchiam a adolescência. Eu via o desenho e ia à procura do texto relativo a ele. Ou pode ser a resposta à pergunta: que pensava o criador quando escrevia aquelas ideias, que emoções experimentava ele? A literatura e a poesia são, assim, uma fonte inesgotável para os meus desenhos. Como diria o Mestre Almada Negreiros, limito-me à captação de instantes já passados.
DA – Muitos de seus desenhos expressam no plano figurativo a dimensão estética de poemas de diversos autores. Como é criar um desenho a partir de um poema?
RUI CAVALEIRO – É como entrar no poema e passar para o outro lado. Uma vez mais, é captar, numa folha de papel parecida com outra em que o poeta escreveu o poema, o instante em que o poeta o escreveu. Mas não esqueçamos que, como diz Pessoa, o poeta é um fingidor. Então, o desenho tem que ir além do poema, além do poeta. O desenho pode responder às perguntas: que acontecimento fez com que o poeta escrevesse isto?, Estaria a chover no dia em que ele escreveu o poema? Estaria ele a falar a sério ou, mais uma vez, a fingir?.
DA – Qual foi a inspiração para a série de desenhos intitulada maternidade? O que você busca como artista ao expressar o nu feminino em seu momento progenitor?
RUI CAVALEIRO – Para o desenhista, o corpo humano é o princípio de tudo, a principal matéria-prima. Na pré-história, desenhavam mulheres grávidas seguramente para compreender o mistério da fertilidade, para agradecer aos deuses o fato da mulher ter engravidado, para assegurar que o nascimento fosse feliz. É maravilhoso para um desenhista ter como modelo uma mulher grávida, observar as mudanças diárias, do corpo, da pele, imaginar as mudanças do pequeno ser que ela transporta dentro. Sente-se bem? Estará a dormir? O desenhista tem, assim, dois modelos num só e, ainda como brinde, a estória da criação do bebê pelo progenitor, ausente/presente na folha de papel.
Desenho: Rui Cavaleiro
DA – Comente sobre a cena artística e os espaços para divulgação de arte em Lisboa.
RUI CAVALEIRO – Confesso que não estou muito metido nos circuitos artísticos lisboetas. Sei que a crise econômica, social, de valores que a Europa está vivendo deixa marcas na produção e comércio da arte em Portugal. O boom criativo e a especulação no mercado da arte terminaram.
Em Bruxelas era diferente. Tenho saudades das pequenas galerias, livrarias de ilustração e banda desenhada, onde ouvia jovens artistas discutirem projetos e outros a explicar os guiões das suas próximas obras. Em Lisboa, nunca consegui apanhar esse ambiente. Porventura, uma dificuldade minha.
Creio que as atuais condições sociais na Velha Europa são o adubo para novas expressões artísticas. As novas tecnologias digitais são um ótimo e eficaz instrumento, mas os grafitis nas paredes das cidades também.
DA – Acredita que, no sentido da originalidade, a ideia de aura do objeto artístico passou a ser uma utopia em nossos tempos?
RUI CAVALEIRO – A originalidade da obra de arte continuará a ser uma exigência imposta aos artistas e o seu exercício de busca permanente. A tecnologia trouxe uma nova dinâmica para a criação artística. Depois, há um aspecto fundamental: as novas tecnologias e a agenda digital permitem ao artista contemporâneo uma experiência global de diálogo e interação com o público. Os jovens artistas aprofundam a relação entre Arte e Tecnologia, de modo a refletir e a fazer-nos refletir sobre as transformações desencadeadas na sociedade e as possibilidades de socialização dos processos artísticos. Isto é magnífico.
Todos os componentes clássicos da Arte continuam presentes, sejam eles estéticos, sociológicos, morais, religiosos, mercantis, pedagógicos. E as funções mágicas e rituais da Arte continuarão igualmente a poder ser cumpridas.
DA – Há muitos espaços de convergência a serem preenchidos através do papel da crítica de arte?
RUI CAVALEIRO – Veremos o que vai acontecer nos próximos tempos. A realidade mostra que grande parte da imprensa de arte que nos últimos anos constituía uma referência na literatura, pintura, fotografia etc., está a perder público, importância e influência. Isto é fruto de vários fatores, nomeadamente da crise nas vendas da imprensa escrita. Não podemos esquecer que os grandes grupos de mídia são propriedade de grandes grupos econômicos transnacionais, todos eles com uma estratégia global. Onde enquadrar aí os críticos independentes que examinam, comparam, enquadram, opinam e doutrinam? É complicado.
Têm que ser encontrados outros espaços, talvez cyber, com os quais as pessoas se identifiquem e colaborem interativamente, gerando ideias e movimentos novos.
Os críticos, como os filósofos, são fundamentais para indicar os vários caminhos que podemos escolher e percorrer…
DA – Vislumbra algum projeto artístico futuro?
RUI CAVALEIRO – Não tenho projetos concretos. Tenho, já prontos ou em esboço, três pequenos livros de ilustração que, porventura, um dia editarei se encontrar editor. Um deles tem o título de “O cabeleireiro de macacos”. Tenho sempre a vontade de ilustrar estórias de outros autores de quem eu me considere cúmplice. Veremos.
Rui Cavaleiro / Foto: Elsa Vecino
(Hilton Valeriano é professor de filosofia. Edita o blog Poesia Diversa)
Seis anos nos separam dos primeiros passos dados por aqui. Nossa primeira infância revelava, mesmo que timidamente, um desejo de alcançar e fomentar espaços em torno das palavras e imagens. Erguer cada edição sempre foi algo visto por nós como uma tarefa deveras especial, agregando expectativas e uma salutar ansiedade pelo modo como o coletivo de expressões mensais pudesse vir a ganhar corpo e alma. Com o passar do tempo, aprendemos que os passos editoriais, por mais que sejam minuciosa e previamente arquitetados, acabam por revelar gratas conformações ao jogo dinâmico do presente. É recompensador saber que existe sempre uma vastidão de leituras há serem feitas, todas elas atraídas pela jornada que conseguimos construir até então. Congregar manifestações dos mais diversos tipos de colaboradores nunca deixou de ser nosso lema maior. Para que tudo isso ocorresse sem gerar uma falsa ideia de incorporação aleatória de expressões, nosso perfil editorial sempre norteou as escolhas com critérios coerentes de seleção, pontuando aspectos que julgamos vitais em termos de publicação. Durante todos os anos de existência da revista, as trocas humanas foram o mote de nossas ações, permitindo-nos não apenas conhecer um pouco mais das obras de inúmeros criadores, mas também perceber neles uma necessária fonte de aprendizado. Os instantes passaram e o melhor de tudo é saber que solidificamos um caminho no qual atraímos, sobretudo, o respeito e a adesão de muita gente verdadeiramente interessada nos feitos culturais. Completar mais um ano de realizações significa louvar o nome de cada pessoa que, sem exceção alguma, por aqui um dia passou. Mais do que celebrar um rito novo de passagem, interessa-nos reafirmar a missão, chamando atenção para aquilo que hoje implica na continuação dos caminhos. E seguimos, contemplando agora os traços marcantes dos desenhos do artista português Rui Cavaleiro, muito bem apresentados por Hilton Valeriano. Nas veredas da poesia, deparamo-nos com Mercedes Lorenzo, Clarissa Macedo, Marra Signoreli, Raquel Gaio e Helena Barbagelata. É deveras especial perceber que gente como a poetisa Daniela Galdino, nossa entrevistada de agora, sabe dotar a vida de uma inquietude criativa vigorosa. Larissa Mendes, com suas precisas escolhas cinematográficas, aponta atrativos em torno do filme “God Bless America”. Intensos percursos da existência resvalam dos contos de José Geraldo Neres, Roberta Simoni e Teofilo Tostes Daniel. O personagem Sinvaldo Júnior, espécie de heterônimo do escritor Rogers Silva, revisita parte significativa da obra de Álvares de Azevedo. A atriz Ivana Luckesi testemunha sobre a sua vivência na arte de contar histórias. A Leva de agora é erguida e dedicada a todos os nossos leitores e colaboradores, em especial a Neuzamaria Kerner, Héber Sales e Valéria Freitas, importantes precursores de nossas andanças editoriais.
“O óbvio é tão somente o resultado da cegueira ocasionada pelo desenraizamento poético do mundo.”
Em toda arte autêntica, a realidade não deve ser mostrada, e sim transfigurada em sua representação. Poderíamos dizer que o mundo do artista deve ser manifesto, e a possibilidade de desvelamento desse mundo encontra-se na representação de sua subjetividade, fonte essa, paradigmática de sua criação. Mas não podemos esquecer o centro de referência dessa subjetividade, que paradoxalmente deve ser a realidade, mas transfigurada, e por isso, compreendida como arte. Assim, o óbvio é tão somente o resultado da cegueira ocasionada pelo desenraizamento poético do mundo. A arte evita, ou se contrapõe a esse desenraizamento, ao imediatismo estéril de uma visão pragmática quando se constitui como fonte para o “olhar” apreensivo de dimensões simbólicas, porque humanas, e, portanto significativas da realidade como dimensão existencial. No livro O discípulo de Emaús, o poeta Murilo Mendes diz:
“A realidade deve ser pouco a pouco domada, até ser captada pelo lirismo – para que se opere sua transformação, e elevação ao plano do espírito. Assim se forma a criação artística.”
Podemos encontrar a ressonância das palavras do grande poeta mineiro nos desenhos de Rui Cavaleiro Azevedo, o Ruaz, desenhista de Lisboa, Portugal. Sua obra compõe o exemplo de uma arte autêntica em seus princípios. Traços de uma figuração expressionista, cuja representação artística revela uma imagética dos sentimentos.
Desenho: Rui Cavaleiro
Ante sua obra, que versa sobre diversos planos do cotidiano, paisagens, retratos de figuras anônimas ou personagens de grandes obras literárias como Moby Dick, de Melville, ou Dom Quixote, de Cervantes, ou mesmo em representações do poeta Fernando Pessoa, somos convidados como expectadores, a integrar suas cenas, pelo núcleo humano que as alimenta, ou seja, a subjetividade de seu criador. Subjetividade marcada – esteticamente – pela transfiguração de uma vivência poética do mundo circundante e suas significações.
Olhar e ver que o sentido que habita o mundo é sempre criação, ou seja, intencionalidade semântica, projeção de um ser que instaura sua existência como dimensão cultural. Olhar e ver que os sentimentos, projetos, ações presentes no mundo podem ser apreendidos e propostos como diálogo intersubjetivo. Olhar e ver os desenhos desse artista da terra das caravanas e ser, sobretudo, comovido por uma poética humanista.
Cito novamente Murilo Mendes:
“O homem terá que fazer tudo desde o princípio; deverá antes de mais nada redescobrir o sentimento.”
E concluo:
Ruaz: apreensão do mundo em sentimentos vividos.
Desenho: Rui Cavaleiro
(Hilton Valeriano é professor de filosofia. Edita o blog Poesia Diversa).
Criar é estar diante de um espelho e mirar detidamente nossos próprios mistérios. Mesmo o plano da imaginação, gênese de um tudo, por vezes se defronta com aquilo que podemos chamar de angústia da criação. A sensação é a de se estar diante de um marco divisor de tempos: um da inquietação pelo algo a dizer; o outro, da efetiva e consistente materialização do objeto pretendido. O desafio inicial do autor parece ser o de atravessar precipícios sem se deixar intimidar pelas profundezas contornadas. Em boa medida, a obstinação serve de virtude ao criador, sobretudo porque instaura um salutar estado de alerta em torno dos rumos a serem percorridos. E foi pensando em questões como esta que travamos uma conversa com o escritor W. J. Solha, cujo novo rebento literário, intitulado “Marco do Mundo”, pontua precisamente as legiões de desafios que se agigantam diante da missão de um autor. Entrecortando as expressões de agora, está o traço sensível dos desenhos de Felipe Stefani, alvo preciso das reflexões de Hilton Valeriano. Em matéria de poesia, somos conduzidos pelos densos signos de Edson Bueno de Camargo, Elizabeth Hazin, Ronaldo Cagiano, Mar Becker e Wender Montenegro. No quadro Jogo de Cena, o ator Rafael Morais mergulha com propriedade no fascinante universo dos palhaços. O escritor Geraldo Lima nos convida à leitura do novo livro de minicontos de Anderson Fonseca. As linhas de Marcus Vinícius Rodrigues, Homero Gomes e Priscila Miraz tecem as tramas contistas dos Dedos de Prosa. O cinema argentino é, novamente, tema da devoção cinéfila de Larissa Mendes. No Gramofone, reproduzimos em alto e bom som alguns percursos sobre o primeiro disco solo de Gui Amabis. Através das trilhas da 67ª Leva, uma nova lavra de publicações se anuncia. Evoé, caro leitor!
ASSIMETRIA, ESBOÇO E PROJEÇÃO: A ARTE DE FELIPE STEFANI
Por Hilton Valeriano
Desenho: Felipe Stefani
Pode a arte apreender o movimento primevo do nascer das coisas e dos seres, de seus gestos, acontecimentos, vivências? Antes do fato, os sonhos; antes do anseio, os projetos; sempre a possibilidade. Os desenhosdeFelipe Stefani, artista convicto em seu ofício, parecem demonstrar o fluxo premente da existência antes de sua realização nas dimensões da temporalidade. Uma obra marcada por traços assimétricos, onde início e fim confluem, onde o desfecho paradoxalmente inconcluso expressa formas vindouras, repletas da instabilidade característica do movimento, e que revelam um intento permanente de criação. Longe de uma mera abstração sintética, seus desenhos manifestam a forma, isenta de toda matéria, em seu prenúncio. Sua subjetividade de artista busca o instante nascedouro, o esboço humano de concretização, o que nos leva à questão da definição de um ser em sua essência.
Se as ações do homem não o definem como um ser estático, mas sim como um ser sempre projetado, o espaço aberto, espaço esse constitutivo da liberdade em suas múltiplas escolhas, ou seja, o futuro, evidencia o campo de possibilidades nunca definidas, nunca concretizadas, a continuidade da vida como fluxo de projetos a se realizarem como significação provisória. Assim, podemos pensar os desenhos de Felipe Stefani nas suas dimensões estéticas em três planos analíticos: assimetria, esboço como forma inconclusa e espaço de projeção.
Desenho: Felipe Stefani
Assimetria
Tendo a ação humana como realização de seu intento a possibilidade ou não de concretização, transposta para o âmbito da arte como subjetividade criadora, seus traços, simbolicamente representados como projeções, só podem ter a assimetria como apreensão do movimento intencional característico do humano em sua manifestação.
Esboço como forma inconclusa
A possibilidade de concretização da ação humana revela o projeto como significação, como instaurador de sentido, mas sendo possibilidade, só pode manifestar o esboço em seu anseio de realização, ou seja, sua forma inconclusa porque não determinada.
Espaço de projeção
Apreender a ação humana em seu intento e simultaneamente mostrar toda a dimensão provisória de sua realização, toda a possibilidade ou não de concretização de seus anseios, revela a principal característica do homem: a liberdade. A liberdade como dimensão definidora do homem, como sua essência, só pode ser percebida nos desenhos de Felipe Stefani se prestarmos atenção na relação estrutural, semântica existente entre os seus desenhos e a folha branca, que se apresenta como espaço de projeção. Seus desenhos parecem nascer, brotar da folha branca como um sentido a clamar pelo homem.
A estética de Felipe Stefani ecoa as palavras do poeta Murilo Mendes: “O homem é um ser futuro. Um dia seremos visíveis.”
Desenho: Felipe Stefani
(Hilton Valeriano é professor de filosofia. Edita o blog Poesia Diversa)