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147ª Leva - 02/2022 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

OQUADRO – PRETO SEM AÇÚCAR

 

 

“Não sei se sirvo o rap ou o rap é quem me serve”, já dizia Marcelo D2 em “Vai Vendo” (2003). Tal verdade é incontestável quando se trata das cabeças fervilhantes dos rapazes d’OQuadro. Formada em Ilhéus (BA) e com mais de duas décadas de estrada, OQuadro é representante de uma tendência do hip-hop denominada New School, movimento que promove inovações estéticas a partir do diálogo com outros estilos musicais e movimentos culturais. A banda lançou em novembro passado seu terceiro álbum de estúdio, Preto Sem Açúcar (2021), com uma sonoridade resultante de suas múltiplas pesquisas e influências artísticas, sem abandonar jamais o discurso contundente do rap. Ainda que o título pareça insinuar uma alusão ao fruto do cafeeiro, o conteúdo desse “bule” é muito mais denso: analisa os tempos sombrios da escravidão para demonstrar as implicações desastrosas causadas pelos barões do café e senhores de engenho.

Há que se dizer que o septeto baiano, composto atualmente por Jef Rodriguez (voz), Nêgo Freeza (voz), Ricô (voz e baixo), Rodrigo DaLua (guitarra e synth), Vic Santana (bateria), DJ Mangaio (programações) e Jahgga (percussão), apresenta um hip-hop peculiar no decorrer dos anos e não seria diferente ao longo dessas (bem servidas) 15 faixas. Trata-se de uma ode à negritude e a sua história, sem precisar “adoçar” nenhuma das mazelas da vida. A lista de participações especiais também é expressiva e extensa (14 ao todo), e inclui Jorge Du Peixe, Tuyo, Ellen Oléria, Russo Passapusso, Rodrigo Piccolo (Mato Seco), BillyFat, entre outros nomes da cena musical brasileira. Por falar nisso, vale destacar que a banda teve uma elogiadíssima participação no projeto de releituras de canções de Adriana Calcanhotto, Nada Ficou No Lugar (2019), com a canção “Negros”.

 

OQuadro / Foto: divulgação

 

A vinheta de abertura Um Brinde A Minha Gente (um conflito interno/bem-vindo ao meu inferno particular/(…)/eu vejo tudo/mas ninguém me enxerga) dá o pontapé inicial a pouco mais de 45 minutos da história do Brasil passada a limpo. A literalmente fuzilante Kalashnikov, por exemplo, tem a participação da não menos potente Ellen Oléria. Se I Can Feel It adverte que “em cima do muro é um lugar perigoso”, Motor da Fome, parceria com Davzera (ícone do rap underground), analisa os quase 19 milhões de brasileiros em situação de fome. Nas primorosas Asas (o sol na carne sob o sol/pra lavar, pra limpar esse banho de sangue/abre as asas sobre nós/passarão passarinho voos rasantes no mangue/e o sol virá depois que as tempestades calmarão), em companhia de Jorge Du Peixe, e em Não Vai Passar Batido (eles sabem que não vai passar batido/cada gota de sangue no chão, cada tiro/cada lágrima da mãe por seu filho), parceria com MCDO, da banda Afrocidade, a crítica é sobre a violência urbana, especialmente contra o povo negro.

Se a malemolente Caça tem a participação das cantoras Xênia França e Vanessa Melo, Meu Game tem a companhia de Russo Passapusso, do BaianaSystem, e brada que “aqui é preto sem açúcar, não tente me refinar!”. A vinheta Paz nos dá um importante conselho: “cuidado em quem você bota bandeira, seja você sua revolução!”. Santo (chorei dilúvios por sua atenção/mundos e fundos movi, comovi/resolvi deletar essa devoção), conta com a belíssima participação dos afrofuturistas curitibanos do Tuyo e Campo Minado — uma das melhores canções do álbum — tem a presença da cantora e compositora Cronista do Morro (revelação do hip-hop baiano) e de Billyfat, membro do #OMC (Oferecimento Máfia Crew), expoente da nova geração do rap de Ilhéus.

Desafio você a não bater palmas no compasso de Fala Pra Mim (fala pra mim, o seu lamento/dispensas já não cabem mais ressentimentos/já não consigo mais dormir, com esse tormento/sem medo é só deixar fluir, o sentimento) ou se pegar assoviando no ritmo de Ascende… o pavio e apavora! A africaníssima LULULULULU, faixa junto ao ganês DJ Sankofa, se encaminha para o final de forma quase transcendental, porém é a vinheta I Tal, narrada por Bia Ferreira, que encerra o álbum alertando que a alimentação ofertada pelo colonizador ao povo negro causa até hoje problemas de saúde como a pressão alta e o diabetes.

Preto Sem Açúcar sucede os álbuns OQuadro (2012) e Nêgo Roque (2017) e está disponível em todas as plataformas digitais. Apesar de não se tratar exatamente de uma trilogia, arremata de forma perfeita o conceito de evolução sonora e estética do grupo. Enquanto o primeiro disco dialogou com as bases do reggae e o segundo com as raízes do rock, este último passeia por sonoridades influenciadas por elementos eletrônicos. Já em relação à narrativa, ela se mantém cirúrgica e aborda questões como o combate à fome e a luta contra o preconceito racial. Sem fazer “média”, o som d’OQuadro é puro e certeiro como um café forte. Sem açúcar, com afeto.

 

 

Larissa Mendes não dispensa um cafezinho [com adoçante] e uma boa música.

 

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124ª Leva - 02/2018 Gramofone

Gramofone

Por Pérola Mathias

 

ARRETE – SEMPRE COM A FROTA

 

 

Não faltam mulheres protagonizando uma cena e mudando rumos e paradigmas, seja na música, no mundo da arte, na política ou em qualquer área da vida social. Mas quando estas mulheres chegam a ser vistas e reconhecidas, podemos saber que há uma longa trajetória de luta, afirmação e busca por reconhecimento para que chegassem a ocupar este lugar. É a velha história de que as mulheres precisam estudar, pesquisar, se especializar e falar grosso três vezes mais (no mínimo) do que os homens para serem reconhecidas. Se for mulher e da periferia, então, a questão se aprofunda ainda mais.

A trajetória de Ya Juste, Nina Rodrigues e Weedja Lins, que compõem o grupo de hip hop pernambucano Arrete, não é diferente. Vindas de uma longa estrada de criação e produção no hip hop nordestino, o grupo lançou em 2017 o seu primeiro disco: Sempre com a frota. As MCs estão na estrada desde o começo dos anos 2000, tanto como MCs, quanto como pesquisadoras da cultura popular nordestina e, no caso de Weedja, também como dançarina de break.

O Arrete começou em 2012 e leva o nome do primeiro single que lançaram: “Arrete não”. O single foi divulgado através de um clipe, produzido, gravado, editado e locado pelas próprias Ya, Nina e Weedja na comunidade em que moram, Cajueiro Seco, em Jaboatão do Guararapes, município da região metropolitana do Recife. Esse primeiro single foi um anúncio e uma mostra do tom e da estética do grupo, tanto visual, quanto musical.

 

Arrete / Foto: divulgação

 

O disco veio cinco anos depois, gravado entre 2016 e 2017 e lançado em julho deste último ano com o apoio do Funcultura. Segundo as próprias integrantes do grupo, o processo de criação do disco expressou os anseios delas em relação à música que queriam fazer e à forma como equilibrariam a arte com a vida pessoal – as paixões, a família, a maternidade, as amizades, etc. O álbum agrega composições engavetadas e composições novas, que fizeram com que o trabalho tivesse uma coesão entre a estética e a personalidade de cada uma. O nome do disco é o título de uma das composições de Nina, que é também uma das faixas com o instrumental mais pesado e sóbrio. A letra traz os parâmetros de uma ação e existência ética no mundo: “hip hop incendeia no ritmo e poesia/ na filosofia com a frota sem censura/ então assuma agora/ postura, ideologia/ sem hipocrisia, falsa conduta”.

A faixa que abre o álbum, “Poetizar”, dá o tom da mistura sonora que o disco traz aliado à poesia das meninas. Sons tradicionais da música popular nordestina, como o pandeiro e a viola – que são, inclusive, citados na letra -, aliados à guitarra distorcida, compõem essa abertura em que as MCs se identificam e definem seu lugar de fala:  “Somos versos mais que prosa/ somos todas muito caras/ Esse é o projeto Arrete/ poetiza nordestina com orgulho/ pernambucana da terra de Aruanda /trago as guerreiras de lança”. E ao longo da letra outras muitas referências à cultura regional vão sendo invocadas, costurando as influências que as próprias meninas trazem em sua trajetória artística e de vida, que vão do cenário do manguezal e do canavial à influência de Luiz Gonzaga, “trilha sonora do nosso povo”. E definem: “arquitetas de uma grande e intensa batalha […] seguirei sempre com a frota, com as mais finas rosas e com a mais forte prosa”.

“Arrete não”, o single lançado em 2012, vem no disco com uma batida eletrônica que mescla o brega e o hip hop. Na letra, assim como em “Sempre com a Frota”, que dá nome ao disco, há uma espécie de manifesto: “Queimei as pestanas pra fazer o som do bom/ se tem o dom/ prove e mostre o do bom/ não arrudeie/ com fala solta nesse vento/ se for pra provar/ tem que ser só no talento/ tô com a gota serena/ pra esculhambação […] Ideologia/ o que te falta nessa vida”. A letra é recheada de expressões locais e do sotaque regional.  A expressão que dá nome à faixa já é um exemplo. O verbo “arretar” significa fazer voltar; fazer parar; ou parar o movimento. Mas como expressão quer dizer abusar; irritar; tirar do sério. “Arrete não” seria, assim, algo como “não perturbe”: “Arrete não/que o bonde aqui é bravo”, dizem as meninas. O disco todo é permeado por esse vocabulário idiomático, o que pode dificultar o entendimento de algumas letras para um público não nordestino, mas não impede que o resto do Brasil compreenda, mergulhe e escute essa cultura. É uma forma de fazer conviver, inclusive, a riqueza da linguagem que configura nossa formação cultural dentro de um país continental, que não pode ter uma única imagem para se representar.

Já “Le Plaisir” é uma das composições novas, feitas para o disco. A música fala de amor e o som se aproxima de referências do hip hop brasileiro contemporâneo, como o feito por Tássia Reis, por exemplo, explorando ritmo e balanço mais lentos. A faixa é outra que ganhou clipe com roteiro, direção, fotografia e figurino executado pelas próprias MCs, que convidaram estudantes de dança da Universidade Federal do Pernambuco para fazer dialogar o break com a dança contemporânea. O cenário também foi desenhado por elas mesmas e é composto por diversos objetos que remetem às famílias de cada uma. Como os quadros do pai de Yanaya, que é artista plástico, as madeiras que fazem referência ao avô carpinteiro de Nina e os vinis. O título e os versos em francês também vêm da descendência de Ya. Elas falam que se remetem muito à família no trabalho porque a família foi sempre muito presente para elas no processo artístico.

O ragga aparece nas faixas “Faya” e “Bang Bang”, somando no arco de referências sonoras que o Arrete agrupou neste seu primeiro disco: o brega, o eletrônico, o hip hop, os sons de viola nordestina, pandeiro e de guitarras distorcidas (mescla que outrora havia irrompido no movimento manguebeat) etc.

 

Arrete / Foto: divulgação

 

Todo o instrumental do disco foi feito pelos músicos Riva Le Boss e Felipe Maia, que conseguiram traduzir as influências das integrantes do grupo. Ya diz que gosta muito do ragga, do rock dos anos 70; Nina, de música popular nordestina e de música pernambucana; e Weedja soma com o rap old school, gangsta e também com o brega. No leque de influências contemporâneas, elas citam os conterrâneos Flaira Ferro, Juliano Holanda e Johnny Hooker. Além da nova cena do hip hop brasileiro que, felizmente, agrega cada vez mais mulheres, como Flora Matos, Karol Konká e a já citada Tássia Reis.

Por fim, é preciso destacar que o Arrete reúne em seu projeto todas as linguagens da cultura hip hop, acompanhadas nas batidas pelo DJ Rimas.INC e por dançarinas convidadas.

Com pouco mais de seis meses de disco lançado, o Arrete já fez inúmeros shows em Recife e pelo interior. Ao longo do carnaval foram duas apresentações: no som na rural na Cena Peixinhos e no palco do Rec Beat no domingo, dividindo a programação com Larissa Luz, Lucas Estrela, Don L, Javier Díez-Ena e Dj Flavya. Além das músicas do disco, aproveitaram a ocasião para mostrar um novo single, “Não te quero mais mizéra”, feita pelo DJ Rimas.INC, com produção de Patrick Torquato, que pesquisa e defende a música periférica, empoderamento e combate aos preconceitos em seu trabalho. Assim, na expressão, nas linguagens artísticas que agrega, no vocabulário, nas expressões, no sotaque e no timbre, o Arrete é uma amálgama de valores e postura estética, cultural e política.

 

 

Pérola Mathias é doutoranda em sociologia, pesquisadora e crítica musical. Editora da revista Polivox e do site Poro Aberto.

 

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68ª Leva - 06/2012 Gramofone

Gramofone

 

Por Fabrício Brandão

 

OQUADRO – OQUADRO

 

 

 

Há coisas que maturam no tempo de modo inexplicável. E eis que qualquer ânsia ou desejo imediato de realização poderiam até distorcer um sentido mais puro do que se pretendia transmitir num impulso primeiro. Mas o senhor dos instantes é destemido, ignora barreiras aparentemente intransponíveis e aposta firme na resistência dos bravos e coerentes consigo mesmos.

Quem conhece a história de pessoas como os integrantes da banda OQuadro entende perfeitamente o significado do primeiro parágrafo desse texto. Depois de alguns bons anos de estrada musical, a trupe originária das paisagens litorâneas da baiana Ilhéus reúne num só feito parte valiosa de seus ímpetos criativos. O disco de estreia premia de modo intenso a paciência e a expectativa de se materializar uma obra sonoramente bem arquitetada.

Do início ao fim, as expressões de Rans, Jef, Freeza, Ricô, Victor Santana, Rodrigo Dalua e Jahgga harmonizam-se em torno de um verdadeiro mosaico sonoro. E o motor principal das razões por aqui está no vigor do discurso. A capacidade de verbalizar do rap, gênero predominante no estilo da banda, dá lugar a uma perspectiva diferenciada de representação. Basta ouvir cada uma das faixas com esmerada atenção para perceber que estamos bem longe de qualquer proposta demagógica ou panfletária. Pelo contrário, a verve ideológica que pulsa no trabalho nos toma de assalto pela certeira capacidade de encadear visões de mundo e, com isso, causar efeitos necessários de provocação.

Por todos os cantos do disco, tudo está devidamente em seus lugares. Desde a precisa escolha do repertório, passando pelos arranjos e elementos vocais, é possível perceber que o equilíbrio é ponto forte do álbum. Se o grande desafio de nossa contemporânea idade é o de apostar na originalidade, OQuadro o faz com maturidade e personalidade, sem dar margem a desvios e excessos, tudo apoiado em influências que derivam de elementos como Hip-Hop, Jazz, Reggae, Rock, Samba e Afrobeat.  Ao nos depararmos com a primorosa arte da capa, cartão de visitas inalienável do grupo, a matriz africana, com seus elementos rítmicos e discursivos devidamente encaixados, já é capaz de prenunciar o traço essencial da obra.

Sob a batuta do produtor Buguinha Dub, que traz no currículo gente do quilate da Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, Racionais MC’S, Mestre Ambrósio, dentre outros, o disco ainda conta com o auxílio luxuoso de Guilherme Arantes, da rapper Lurdez Da Luz e do Mc Dimak.

Marcado por um tom inteiramente autoral, é difícil eleger destaques no cd. No entanto, não há como ignorar a força que brota de canções como Evolui (Bem Aventurados), Seja Bem Vindo Ao Meu Lar e Valor de X² (Parte 2). A incisiva letra de Tá Amarrado é ponto alto do disco, trazendo à tona toda uma sorte de referências advindas dos signos afro-brasileiros, tudo com uma provocação construída de forma bem inteligente e aguçada. Noutro ponto, chama atenção a belíssima composição e interpretação de Fogos de Artifício para o Precipício À Vista, canção que de modo poético evoca uma prece à esperança no porvir. Como se não bastasse, a qualidade aponta também em cheio para os arremates instrumentais de Sapoca Uma de Cem e O Soco.

Em meio à Babel de nossos tempos, sempre cai bem uma boa dose de lucidez em frente ao espelho de nós mesmos. O que perceberemos do outro lado? Quiçá a coragem das reflexões possa lançar algumas pistas. Enquanto isso, é bom que, exercitando a compreensão das complexidades humanas, permitamo-nos ouvir o que de mais genuíno o outro possa nos ofertar. Evoé, OQuadro!

* O disco está disponível para download gratuito aqui.