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69ª Leva - 07/2012 Destaques Olhares

Olhares

Desenho: Rui Cavaleiro

 

 

A APREENSÃO DO MUNDO EM SENTIMENTOS VIVIDOS

Por Hilton Valeriano

 

“O óbvio é tão somente o resultado da cegueira ocasionada pelo desenraizamento poético do mundo.”

Em toda arte autêntica, a realidade não deve ser mostrada, e sim transfigurada em sua representação. Poderíamos dizer que o mundo do artista deve ser manifesto, e a possibilidade de desvelamento desse mundo encontra-se na representação de sua subjetividade, fonte essa, paradigmática de sua criação. Mas não podemos esquecer o centro de referência dessa subjetividade, que paradoxalmente deve ser a realidade, mas transfigurada, e por isso, compreendida como arte. Assim, o óbvio é tão somente o resultado da cegueira ocasionada pelo desenraizamento poético do mundo. A arte evita, ou se contrapõe a esse desenraizamento, ao imediatismo estéril de uma visão pragmática quando se constitui como fonte para o “olhar” apreensivo de dimensões simbólicas, porque humanas, e, portanto significativas da realidade como dimensão existencial.   No livro O discípulo de Emaús, o poeta Murilo Mendes diz:

A realidade deve ser pouco a pouco domada, até ser captada pelo lirismo – para que se opere sua transformação, e elevação ao plano do espírito. Assim se forma a criação artística.”

Podemos encontrar a ressonância das palavras do grande poeta mineiro nos desenhos de Rui Cavaleiro Azevedo, o Ruaz, desenhista de Lisboa, Portugal. Sua obra compõe o exemplo de uma arte autêntica em seus princípios. Traços de uma figuração expressionista, cuja representação artística revela uma imagética dos sentimentos.

Desenho: Rui Cavaleiro

Ante sua obra, que versa sobre diversos planos do cotidiano, paisagens, retratos de figuras anônimas ou personagens de grandes obras literárias como Moby Dick, de Melville, ou Dom Quixote, de Cervantes, ou mesmo em representações do poeta Fernando Pessoa, somos convidados como expectadores, a integrar suas cenas, pelo núcleo humano que as alimenta, ou seja, a subjetividade de seu criador. Subjetividade marcada – esteticamente – pela transfiguração de uma vivência poética do mundo circundante e suas significações.

Olhar e ver que o sentido que habita o mundo é sempre criação, ou seja, intencionalidade semântica, projeção de um ser que instaura sua existência como dimensão cultural. Olhar e ver que os sentimentos, projetos, ações presentes no mundo podem ser apreendidos e propostos como diálogo intersubjetivo. Olhar e ver os desenhos desse artista da terra das caravanas e ser, sobretudo, comovido por uma poética humanista.

Cito novamente Murilo Mendes:

“O homem terá que fazer tudo desde o princípio; deverá antes de mais nada redescobrir o sentimento.”

E concluo:

Ruaz: apreensão do mundo em sentimentos vividos.

 

 

Desenho: Rui Cavaleiro

 

 

(Hilton Valeriano é professor de filosofia. Edita o blog Poesia Diversa).