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129ª Leva - 01/2019 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Elis Matos

 

Ana Mendes nasceu em São Paulo do Potengi, interior do Rio Grande do Norte, em 1994. Graduanda em Filosofia, pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, escreve desde os 12 anos e declama desde 2014. Teve poemas publicados na coletânea Profundanças 2, publicou nas antologias CidaDelas (2017, Sebo Vermelho) e Blackout (no prelo), participou do grupo de declamadores Dirocha, assina a fan page Erro Errante, no Facebook,  e o blog Pensamentos avulsos. Utiliza-se ainda de zines, como forma de publicar seus escritos, tendo publicado: Birgona, diário de um Cego; Prazer Pega Mate e Come e Terno. Seu feito mais recente foi ganhar o Concurso Othoniel Menezes, com a antologia poética intitulada Bélica. Os traços desencontrada(mente) brilhantes que marcam a identidade poética da potiguar falam muito sobre seus embates com o mundo, ao passo que geram o encontro perfeito da inspiração com a palavra. De olhar emblemático e postura crítica, Ana Mendes denuncia em seus escritos vários dos problemas sociais brasileiros e mundiais. Para além das lutas identitárias, percebe-se certa agudez nos versos que instigam reflexões variadas aos leitores. Mulher lésbica, poeta, declamadora e educadora, é no encontro com o papel que o brilho de Ana se faz forte. Quando Ana declama, aí sim, é Açofrio entrando pelos olhos e ouvidos e significando ainda mais do que se pode denotar, no aqui e agora da arte!

 

Ana Mendes / Foto: Talne Freitas

 

DA – Captar os múltiplos sentidos que a palavra assume, tanto no momento da feitura, quanto na emissão e recepção da poesia, cremos ser uma das sensações mais intensas vivenciados pelos poetas. Quando a poesia é impressa em livros, esta troca se dá com um intervalo de tempo mais espaçoso do que quando a obra é declamada! Você participa junto com outros sete poetas do Coletivo itinerante Di Rocha, cujo lema principal é: “Poesia pede rua!”. Conte-nos um pouco sobre a experiência de declamar seus poemas para o público, no aqui e agora da arte.

ANA MENDES – Grata pelo convite, esta é uma linda oportunidade de me aproximar das pessoas que possam vir a ler meus poemas.  Anterior ao Di Rocha, eu já me experimentava declamar na cidade de Natal, mais ou menos desde o final de 2014 para cá, pois o Di Rocha é de 2016 e encerrou as atividades no mesmo ano. Então, antes disso, eu já declamava em saraus improvisados ou organizados, festas (tipo “invadir a programação” e irromper nas brechas, entre uma atração e outra, com um poema), eventos culturais de modo geral. Declamar foi um desses acontecimentos ébrios e espontâneos, fui percebendo sua potencialidade através das reações das pessoas, a princípio, e pelas sensações que performar me suscitavam; não necessariamente nesta ordem, mas achei curioso dizer assim… Como todo acontecimento, não sabia ao certo tudo o que o impulsiona, mas sempre tentei refletir o que eu queria com isso, além de gostar da adrenalina (risos), isto é, o que fazer disso, a ponto, inclusive, de precisar dar uma pausa para pensar sobre.  Apesar de comunicativa e fazer um curso (Filosofia), que dá uma boa base argumentativa, eu me percebi silente em alguns espaços de debate (ou do cotidiano mesmo) por ene motivos. Assim, compreendi a voz-palco como a guisa de me projetar no mundo, ou, pelo menos, na cidade de Natal, já que sou uma interiorana estudando na capital, acredito que foi também a forma que encontrei de conhecer a cidade e me fazer conhecer. Sobre a experiência em si, para mim, é ato puro, pois tenho impressão que minha mente/pensamento, por alguns minutos, está em suspensão. Acredito que declamar, no hoje, é um manifesto de liberdade, seja qual for a forma/estilo ou conteúdo do poema.

 

DA – Em seus poemas há algumas menções a palavra erros, como no zine independente Bigorna – diário de um cego, onde, ao final, você assina: “diagramação e todos os erros sobrepostos: Ana Mendes”, além disso, você é autora da página erro errante, criada em 2017, na rede social Facebook, que funciona como uma vitrine com parte de seus escritos. Qual a acepção do ritmo errante em seus textos? Há alguma relação existencial? A seu ver, em qual medida o erro é importante à existência humana e qual sentido eles tomam em seus poemas? 

ANA MENDES – Birgorna foi minha primeira zine, a versão que te passei foi a primeirinha.  A frase no final era uma ironia aos possíveis erros gramaticais e de estrutura, que eu poderia ter deixado passar. Não apenas ironia, porém assumindo os “erros” que são próprios de escritos de diário, uma vez que fiz uso de “automatismo”, isto é, deixar me levar pelo subconsciente.  Em outra versão, tem a revisão de Ayrton Alves (risos). Bom, creio que Bigorna é um marco. Porque eu tive muita resistência de criar um material físico, pois era um tipo de “exposição”, que foge do meu controle, ao contrário do blog, da página no Facebook. Mas é marco não apenas por isso, porque também é uma transição na minha forma de escrever, aqui assumo a prosa e certo surrealismo. Apropriei-me de erro e errância, refletindo sobre como me sentia na época e ampliei isso para uma perspectiva mais “universalista” sobre a vida. Então, sim, possuía uma veia existencialista nesse movimento. Apropriei-me das palavras também, como que relembrando a mim do engodo da perfeição, dessa busca obsessiva que, por vezes, caio. Quando criei a página era a fim de dar mais visibilidade aos textos, de perder o medo de me expor, pois até então utilizava apenas no blog e num grupo de Facebook. Mas, com o passar do tempo, fui percebendo que erro errante se tratava de um projeto, de me tornar mais íntima de mim mesma e da minha escrita, a tentativa de romper com minha própria maneira de escrever, fazendo uso do automatismo e depois “lapidando”, retirando vírgulas, maiúsculas, quebrando a sequência das orações, por exemplo, e, contraditoriamente, empreender a busca por uma identidade. Sobre a importância do erro: acredito que quando não o confundimos com a perspectiva cristã de pecado, é uma delícia, pois é abertura aos múltiplos significados na literatura e, também, se atentarmos mais aos processos do que à finalidade (o certo), iremos perceber o quão plural foi o aprendizado sobre algo (na educação). Então, meu exercício é me voltar mais ao movimento de cada “estilo” de escrever (quando observo meus poemas antigos) do que uma execução fidedigna do que projetei – isso quando o escrito tem uma intencionalidade “traçada”. Não sei se expliquei direito (risos). Hoje, acredito que estou muito mais analítica do que errante, mas gosto de relembrar os processos pelos quais passei…

 

DA – Falando em processos, conte-nos: como ocorrem seus processos criativos? Muito da abordagem estética dos poemas decorre das influências e vivências dos seus criadores. No poema “Escrever poemas é…”, você deixa escapar algumas dicas de como sua criatividade passeia por um eterno pique esconde / de enxergar o olho ocultar o choro. Seu locus social enquanto mulher lésbica influencia em sua poesia? De que maneira isso reverbera?

ANA MENDES – Acho que não sei responder a estas perguntas, acredita? Mas posso tentar pensar aqui e agora alguns elementos: sobre processos criativos, quando os mencionei, é como um olhar em retrospectiva, de ter me percebido mudando. Mas há algumas intenções que sempre me permearam, como, por exemplo, intentar poemas concretos e poemas cada vez mais concisos e precisos, ainda que sempre me parta de um “descontrole”, quando bate a vontade de escrever, isto é, não tenho muito controle no exato momento que tenho vontade de escrever. Às vezes, parto de palavras específicas, que vejo se repetirem nas minhas leituras. Talvez muito do meu processo criativo se dê por repetição, ou seja, aquilo que sempre me visita, em sons/gestos, ideias, imagens. Fico intrigada quando estou “perseguindo” a mesma coisa, por certo tempo. Ultimamente, tem sido elementos bélicos. Sobre ser mulher lésbica, creio que sim, reverbera, só não sei descrever como na poesia ou em processos criativos isso se dê. Mas faço questão de declamar um poema que tenha algum conteúdo explícito sobre minha sexualidade, o amor por uma mulher, entre outros. Inclusive, a primeira coisa que tentei escrever (acho que aos doze anos) foi uma música que eu falava que gostava de uma “pessoa”. No começo, eu ocultava os pronomes femininos para que ninguém soubesse. Mas acredito que parte de não saber responder tua pergunta também seja porque estou refletindo muito sobre meu gênero, e isso perpassar, experimentar a minha feminilidade e masculinidade, ou algo entre os dois. O que ainda posso comentar sobre ser lésbica e a poesia é que fico puta em ver que quando nós temos espaço na literatura, ou quando somos reconhecidas em certos espaços, é sempre através da poesia erótica, que, para mim, só escancara o quanto há de fetichismo e hipersexualização.

 

Ana Mendes / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Na sua fala “quando somos reconhecidas em certos espaços, é sempre através da poesia erótica, que para mim só escancara o quanto há de fetichismo e hipersexualizaçãohá uma clara denúncia à construção estereotipada da mulher lésbica dentro do campo editorial. Estereotipação essa que condiciona a escritora a uma temática específica: a erótica. Qual o mecanismo utilizado por você para se desvincular dessa armadilha? Além disso, há entre os seus escritos textos que problematizem estas questões? Se não, quais os perigos em se abordar estas questões de identidade do mercado literário?

ANA MENDES – Sendo curta e grossa: eu não escrevo mais poemas eróticos, e, se escrevo, não publico online e tento experimentar passear por estilos de escrita de tempos em tempos. De imediato, não foi uma escolha consciente, mas, quando li sua pergunta sobre quais mecanismos utilizo, me veio essa resposta súbita. Sobre a segunda pergunta, acredito que, quando voltei a escrever em 2014, eu problematizava muito sobre a questão da gramática, não apenas como crítica, mas foi também a guisa de expurgar a ideia de não ser “boa”, por não dominar tudo da gramática e da história da literatura. Sobre os perigos, eu não saberei responder a essa questão porque, sinceramente, não penso a respeito do “mercado literário” convencional como um risco ou obstáculo para mim. Por que eu estou no mundo, sabe? A melhor publicidade é estar na rua, trocando com as pessoas, e outra, estou atenta às micro editoras e pessoas que desenvolvem seus trabalhos alternativos e afetivos em suas produções, como a Muganga Edições (RN), Sol Negro (RN) Padê Editorial (DF). Numa perspectiva mais crua, empoderamento e questões identitárias ganham cada vez mais força, portanto, vendem. Então, acho que o mercado deva se adaptar (suponho que já esteja, pois capitalismo é isso (risos)). No mais, boto fé em micropolíticas; por isso, minha atenção voltada para essas editoras.

 

DA – No que toca as temáticas, quando analisamos a história da escrita das mulheres, notamos que existe uma grande luta no sentido de colocar a voz da mulher enquanto uma voz humana, capaz de falar sobre mais variados temas. Isso porque, durante muito tempo, os temas ditos universais eram reservados aos homens, enquanto às mulheres foi oferecido o recorte “literatura feminina”. Nesse sentido, também caminhou o espaço reservado às escritoras lésbicas. Como você enxerga o comportamento do mercado literário com relação a sua literatura? Qual importância tem a coletânea Profundanças 2, que utiliza selo online, como forma de driblar a dinâmica desse mercado?

ANA MENDES – Huumm…  fiquei surpresa e grata com o convite da Daniela Galdino. Um convite como este, que integra uma diversidade de mulheres e de conteúdos – pelo modo que foi e é manejado (muito dialogado e articulado para dar visibilidade a singularidade da todes) – amadureceu minha visão sobre produção e divulgação da literatura, como também me pôs a refletir sobre o meu ser escritora e o que eu queria disso, ou seja, amadureceu minha confiança, pois alguém (que admiro o trabalho) gosta e confiou naquilo que produzo. Assim, creio que a importância e o diferencial do projeto é o diálogo que a coletânea Profundanças 2 estabelece entre ela e o social, a fim de resolver o problema  que é a invisibilidade do nosso trabalho literário e intelectual. Sobre o mercado em relação à minha literatura, irei me ater a minha cidade e como tenho visto a dinâmica por aqui, pois minha vivência sobre publicações que envolvam outrem é muito restrita, já que produzo independentemente meu material (zines). No geral, vejo que há poucas editoras interessadas numa troca sincera para além do lucro. Será que beiro a ingenuidade descrevendo assim? (risos). Percebo como há um movimento de usura, de apropriação de algumas lutas para obter vantagem (financeira) apenas para si, uma vez que o “apoio” às pautas é apenas pontual e não sistemático.

 

DA – A autopublicação pode guardar duas faces distintas, por um lado o autor tem a liberdade criativa garantida, por outro, a responsabilidade sobre o processo de distribuição aumenta significativamente. Você disse que produz independentemente o seu material (zines). Explique sobre esta forma de auto publicar. O que é uma zine? Qual a dinâmica da produção e da divulgação?  Aproveite e fale um pouco sobre as temáticas abordadas por você nestes materiais.

ANA MENDES – Ah! Zine, a palavra é um diminutivo de fanzine, que consistia numa revista improvisada (não profissional) e de baixo custo de produção, feita por fãs, sobre bandas ou outro conteúdo, que surgiu nos EUA no século 19. Foi largamente utilizada com diversas intenções, tanto no movimento punk, literário e de artes gráficas, como é o caso dos quadrinhos. No Brasil, é conhecida como qualquer produção independente e muito usada pelo movimento literário. Sobre a dinâmica de produção e divulgação, sigo intuitiva e orgânica. Produzo conforme vai me batendo a vontade de ir a algum evento cultural da cidade; no geral, sigo escrevendo e “guardando” material e, quando vejo ali um padrão de narrativa, passo a organizar para impressão. Assim, por ser uma produção/escrita espontânea, não há uma temática escolhida de antemão. Mas sobre os temas nos zines já publicados: Bigorna, diário de um cego é um relato em prosa, em micro textos, de sonhos; Prazer, Pega Mata e Come são pequenos poemas eróticos; Terno, concisos poemas sobrepostos como cílios, escritos movidos pelo tom terno de conteúdos diversos.

 

DA – Nas imagens contidas na obra Profundanças 2, você tem um olhar bem emblemático, forte, além disso algumas delas estão em preto e branco. Fale um pouco sobre o processo criativo dessas fotografias. Você pôde dar sugestões ou aprovar as imagens? Outra coisa, o quanto de Ana Mendes há naqueles frames? Conte um pouco de sua trajetória enquanto intelectual e escritora fazendo uma correlação com as imagens da coletânea.

ANA MENDES – Ah! Adorei a ideia de uma antologia literária e fotográfica, as fotos deram corpo e cor à diversidade literária ali. Inclusive, nunca tinha feito um ensaio antes. Sobre o processo criativo das fotografias, foi algo bem dialogado entre nós, eu e Josi Oliveira, a fotógrafa. Ela captou bem as características recorrentes nas minhas fotografias pessoais postadas no Instagram, como também daquilo que, por vezes, se faz intenção nelas, que é propriamente esse jogo de luz (claro e escuro). Também tentamos aproveitar o espaço que tínhamos disponível, utilizando como cenário alguns bairros que gosto muito na cidade de Natal, a Ribeira Cidade Alta e Alecrim, por exemplo. Sobre o que há de Ana naquelas fotos, hoje, talvez uma objetividade mais concreta a respeito desse jogo de luz: comecei a fotografar e filmar, neste ano, com uma câmera mesmo (antes só por celular). Minha trajetória intelectual… Bom, acredito que comecei a pensar mais sistemática/filosoficamente sobre o entremeio da filosofia e poesia, porém “performando” não apenas com a declamação, mas utilizando de recursos audiovisuais, nos quais não sou a protagonista, a princípio.

 

DA – O seu poema sem título publicado em Profundanças 2 é uma criação muito forte, com imagens e  mensagens bem diretas: “Sempre que resisto/ Sou arrastada, esfolada, pisoteada. (…) Quem eu sou?/ Sou o sonho da Humanidade/ Que vocês esquecem e perseguem”. Acreditamos ser uma poesia de protesto. Fale um pouco sobre as denúncias pretendidas por este poema. Em qual lugar de sua identidade ele toca?

ANA MENDES – Este é o poema que acho muito “completo” e o que uso de front em todo espaço novo, portanto, é um poema para ser declamado.  Foi escrito em 2016, após o rompimento da barragem da Samarco (empresa da Vale) de Mariana, num período no qual estava acontecendo muita coisa e eu estava muito atenta. Ah! Enquanto recorte, este poema é medo e violência, por esta mulher, LGBTGI+, baixa renda e também fala sobre muitos dos meus, em outros recortes de situação de vulnerabilidade social.

 

DA – O poema é uma catarse que denuncia a situação de medo e vulnerabilidade vivenciada pela comunidade LGBTGI+, no Brasil e no mundo. Mas um trecho chama a atenção pela sua menção à parte oriental do globo: “Afogam-me na lama/ Me bombardeiam no oriente / Às vezes, caminho com um fuzil / Que me pesa mais que meu corpo/ E a fome, minha companhia inseparável”. Se possível, fale-nos um pouco mais sobre o processo criativo e a rede de significados presentes em seu poema. 

ANA MENDES – Confesso que receio dissecar demais o poema, mas tendo em vista seu conteúdo, acho necessário discutir sim. Bom, como foi escrito em 2016 não recordo muito bem, mas lembro de ter escrito de uma vez só e precisei fazer pouquíssimos arranjos, de tão súbito. Deu-se a partir de diversas imagens, que ora oscilam sobre o oriente, ora quanto às periferias do Brasil. Intentei uma diversidade.

 

DA – Por fim, estamos em um período de transição presidencial bastante delicada, favorecida por uma onda conservadora bastante forte. Como você analisa a atual conjuntura? Quais seus sentimentos e prognósticos para os próximos anos, no Brasil? Qual papel assume a arte nos processos de resistência? Quais reflexões imediatas que movimentos de repressão provocam em você, enquanto escritora?

ANA MENDES – Uau… Muitas questões. Então, há um tempo venho no autocuidado de me preservar e fortalecer, filtrando pessoas, ambientes e discursos. Apesar de uma sensação de maior sobriedade, de perceber todos esses movimentos individuais e políticos, não me sinto hábil para fazer uma explanação sobre a conjuntura de modo geral, porém, me vem uma palavra: estreitamento, de direitos e oportunidades, portanto, de realizar sonhos, sim, sonhos, projeções de nós mesmos em outro espaço-tempo, em plenitude e com dignidade. Em 2019, me formo, sem perspectiva de atuar como professora de Filosofia (algo que descobrir que gosto e quero, de fato). Porém, em 2018, quando precisei repor a grana da bolsa do PIBID (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência) do qual participava (foi então que trabalhei num sebo, desde abril), então eu percebi o quão é improviso e também possível delinear estratégias a longo prazo (dentro de um ano?!). Precisamos nos lembrar da experiência de ver pessoas fora da bolha da universidade, tanto em coletivos como também individualmente (minha mãe), que se fazem de improviso-estratégias, desde sempre, não se encerrando numa perspectiva de medo. Assim, atentar o olho para o que acontece em minha cidade e atuar cotidianamente-vivendo, habitando a cidade, em toda sua confusa interação. Desde eventos culturais às economias criativas, intercâmbio de conhecimentos e autocuidados em práticas. Como exemplo, pretendo dividir, junto ao Ateliê Sunsarara, uma oficina/minicurso de argumentação lógica, o ateliê da artista visual (grafiteira) Solar Shana Precária, que visa criar um espaço, no qual se reúnam mulheres, para trocar conhecimentos e artes, regularmente, em 2019. Então, acredito que a arte, pelo menos em minha vida, enquanto catarse me provoca uma “força-cuidado” criativa de me projetar no mundo, é minha espinha dorsal. Desse modo, enquanto escritora/performer/educadora, estou atenta aos improvisos-estratégias que possam me desviar. Desejando que as repressões não alcancem meu íntimo e oferecendo, no diálogo com o outro, a mesma brecha.

 

Elis Matos é “cria” da Universidade Estadual de Santa Cruz, licenciada em Filosofia e bacharela em Comunicação Social, especialista em Gestão Cultural e mestranda em Linguagens e Representações. Trabalhou enquanto Coordenadora de oficinas, workshop e mesa do Festival de Cinema Baiano, nas suas IV, V e VI edições. Pesquisadora, cronista e palestrante feminista, lançou a tag #ondeofeminismomechamaeuvou e vai!  Aprendeu a sonhar uma vida justa até as últimas consequências…

 

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124ª Leva - 02/2018 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Elis Matos

 

Qual sentindo poético terá a vida para alguém cujo existir exige re-existir, a todo o momento? Resistir ao ódio, ao preconceito, às múltiplas violências, e, por uma espécie de catarse, encher o mundo com beleza, movimento e poesia. Com quais cores tinge-se a face dessa artista, que joga com a sua não-existência, com o seu não-lugar no universo das representações binárias?  De quantas performances se constitui o cotidiano dessa poeta multifacetada? Entender o artista como este ‘ser no mundo’, que reflete, dialoga e problematiza a realidade, nos possibilita definir o fazer artístico, enquanto ferramenta social. No caso da poesia, por mais intuitivo que seja o ato de escrever, nesta atividade estão imbricadas todas as questões que permeiam a existência concreta daquele que escreve.

Atraídos por seus escritos, começamos a entrevistar JeisiEkê de Lundu. Mas, para nossa surpresa, nos deparamos com um delírio de artista. Uma angústia criativa capaz de animar mil corpos e deslumbrar todos os olhares de quem topar pela frente. É multi, tem mil facetas, não há como colocá-la no singular. JeisiEkê de Lundu é plural. Artista visual, performer, poeta, costureira, artesã e criatura de si mesma, a monxtra não-binária nascida na fronteira de Minas\Bahia, vive em Salvador, onde realiza performances nas ruas, em festivais de música eletrônica e na Terça Mais Estranha do Mundo, em que atua como Dramaqueen, e em saraus poéticos. Estuda Artes na UFBA, já produziu desde saraus a exposições, viradas culturais e shows espetáculos. Atualmente, flerta com o cinema e com o design de joias. Com poemas publicados na coletânea online Profundanças 2, JeisiEkê de Lundu fala de suas existências, enquanto artista transexual fora da representação binária homem/mulher, por meio do seus escritos e acaba por realizar uma militância poética cujos efeitos já se notam.

 

JeisiEkê de Lundu /Foto: Levi Mendes

 

DA – No processo criativo da escrita, é profunda a relação entre a geografia interior e o local onde nascemos. Em seu poema intitulado Enquanto meus pés balançam, publicado na coletânea Profundanças 2, você faz uma analogia entre seu local de nascimento “fronteira entre Bahia e Mina Gerais” e o seu “não-lugar” entre as categorias de gênero configuradas unicamente a partir do binarismo homem/mulher. Discorra a respeito do modo como ocorrem as relações entre as suas vivências e o processo criativo em sua poesia.

JeisiEkê de Lundu – Para pensar no que você chama de geografia interior busco o deslocamento. Nasci em uma família cristã tradicional, fui educada dentro desses preceitos, esse corpo que desde a primeira infância já percebe que não faz parte daquele território. Dentro de si cresce uma imensa vontade de buscar novas experiências para desvendar o seu interior, essa viagem emancipatória, não só de lugar – tornando o não-lugar um habitat – mas também de identidade, vagar por territórios outros me permitiu entender a transitoriedade, que é como enxergo tanto minha criação, quanto minha identidade de gênero. E a escrita encontra o lugar de cartografia, como alfinetes em um mapa na parede, marcando tanto o tempo-espaço, quanto o corpo e a experiência. Hoje, sou artista visual, trabalho com a imagem, com a forma, as linhas e a cor, e é interessante que até pouco tempo atrás eu tinha a escrita como uma ferramenta de registro do tempo e das minhas relações. Colocava esses escritos na gaveta, guardava esses restos de papel, meados de letras e encontros de palavras para futuras meditações. No rio dos encontros fui despertada.

 

DA – Profundanças 2, obra colaborativa lançada em plataforma online pela Voo Audiovisual, em 2017, é descrita por sua organizadora, a professora mestra e performer Daniela Galdino, como “resultado de uma desobediência à dinâmica do mercado literário marcada pela hierarquia”. Nesse sentido, qual a sua opinião acerca do significado desta coletânea para o contexto do sul baiano? E, em maior escala, no contexto brasileiro atual? Fazer parte do conjunto de dezesseis escritoras inéditas (em sua maioria) e dezenove fotógrafes, oriundas de diversas cidades baianas e de outros estados brasileiros, que compõe esta coletânea, gerou frutos em seu fazer criativo e na sua visão de si, enquanto escritora?

JeisiEkê de Lundu – É sempre dito pela mídia que nós – pessoas que vivem nesse ‘continente’ que chamamos Brasil – lemos muito pouco. Mas o que nunca é colocado em reflexão é o acesso à produção literária. Onde ela se concentra? Quem são os protagonistas da produção e difusão? Quem tem lugar de destaque nas feiras literárias? É uma resposta difícil? Eu diria que não, já que ela é a mesma se realocarmos a pergunta para outros campos da arte e da própria construção da sociedade. Uma pesquisa coordenada pela professora Regina Dalcastagnè, da Universidade de Brasília (UnB), revela esses dados: os autores, na maioria, são brancos (93,9%), homens (72,7%), moram no Rio de Janeiro e em São Paulo (47,3% e 21,2%). O que vivemos na arte de escrever está ligado a quem pode falar – escrever nesse caso – contar sua história e se fazer visível nessa mata fechada e espinhosa que é a literatura. Eu passava por um período bem difícil, quando recebi uma mensagem de Daniela Galdino me convidando para fazer parte da antologia.  De início, me questionei se eu escrevia. Rabisco frases há muito tempo, mas contava minhas histórias para eu mesma, sempre enxerguei como diário, cartografias que guardava em uma gaveta. Selecionei alguns textos que estavam mais próximos e enviei. Não sei bem ao certo o que passou na cabeça daquela criatura, me selecionou e hoje estou publicada junto com Lanmi Carolina, minha irmã travesti que fez fotografias incríveis para a mesma coletânea. Perceber que o que eu escrevia podia dialogar com outras pessoas, que aquelas palavras poderiam servir de flecha, chamar para reflexão foi um dos primeiros impactos que tive com a antologia. Encontrar escritoras, perceber pessoas próximas abrindo suas gavetas e revelando seus escritos em recitais ou nas redes sociais, mostra que já existe fruto desse trabalho nessas ações. Hoje escrevo mais do que antes, entendo melhor o que é essa visceralidade, que vem e só nos deixa quieta quando o papel está borrado de tinta. Escrevo pra respirar, para que as palavras não me sufoquem, para que um suspiro novo venha. Não sou a primeira pessoa trans a publicar, tiveram várias outras, não é algo novo, mas ainda existe pouca visibilidade. Profundanças 2 causou muita coisa dentro de mim e sei que o mesmo aconteceu com as várias escritoras e fotografes, que publicaram junto comigo. Reunir escritoras, em sua maioria nordestinas, que não têm a escrita como profissão, mas que têm potência e existência como discurso é uma desobediência, como fala a própria organizadora. Profundanças é um ato de guerrilha e na mão da cada combatente tem uma vara de cansanção esperando o momento certo para o ataque.

 

DA – No poema Enquanto meus pés balançam, ao declarar seu não-lugar no mundo das representações, como nos versos “nem menino nem menina”/ sempre do lado de fora, sempre à margem”, você demarca, ao mesmo tempo, seu lugar de luta. Os lugares da invisibilidade, da não representação,  o “não lugar”, expostos no poema, denotam total consonância entre uma poesia quase autobiográfica e sua postura combativa. Conte-nos como ocorreu o processo criativo desta poesia, em especial, na qual a pulsação dos desejos conduz a fluidez dos corpos para longe de qualquer categorização estanque do gênero.

JeisiEkê de Lundu – Enquanto meus pés balançam começou a ser desenhada na rua, depois de uma ofensa, fui atacada e estava voltando para casa com a mente cheia de questionamentos, do tipo: ‘quem eu sou no mundo e de como isso interfere em como as pessoas em volta me leem’, e de ‘como minha postura pode interferir nas minhas relações’. Naquele momento, foi como um manifesto pra mim mesma, foi escrita no início de 2016, estava voltando de um tour pelo nordeste, onde me aproximei de pessoas com posicionamentos políticos, que me trouxeram várias reflexões importantes. Essa viagem também me trouxe à tona questões geopolíticas, entender esse trânsito que fiz da fronteira de Bahia-Minas para a capital baiana. Tudo isso influenciou, criei um vídeo-art para trabalhar a poesia em outra linguagem. Agora, eu acredito que o poema fala por si. É de longe uma das coisas mais potentes que já criei, no nível que dá conta de si, é a poesia por ela mesma. Ela conta de mim, sem que eu me apresente. Ou ela me apresenta, sem que eu conte de mim. Diferente dos outros escritos é a poesia que recitei logo, em poucos dias soltei-a na rua. Foi como uma resposta ao ataque, e um grito (sabe?) que não era pedido de socorro, Isso é um grito de alerta, não de socorro. É anúncio de guerra, como um: tenha cuidado!  O que vem depois de mim pode te confundir ainda mais. Por mais que a categorização dos corpos seja rápida, a fuga e a desobediência às normativas são ainda mais velozes. Os corpos estão nascendo cada vez mais desprogramados – e aqui eu não tô falando de biologia – longe de mim. Estamos reprogramando as culturas, culturas que oprimem e dilaceram desejos são, sim, alvo dessa reprogramação. Que é o sentido no qual termino o poema: criando leitos para que outres deságuem.– abriram espaço para que eu pudesse escrever e caminhar sem medo, é essa também uma das minhas funções no campo do desejo, ser rio para que outres naveguem e naveguem com segurança. Eu tenho certeza que não escrevo sozinha, que escrevo com muitas e para muitas, que as palavras que marcam esse papel não são só minhas.

 

DA – São tempos de problemas políticos e sociais graves no Brasil. As minorias que, no decorrer da história, foram subalternizadas convivem com um perigo constante. Neste contexto, como você compreende o papel da arte, enquanto ferramenta de crítica social? No que toca a violência contra transexuais, a sua poesia pode ser entendida como um espelho de denúncia, por exemplo? Em quais outros campos da crítica social sua escritura perpassa?

JeisiEkê de Lundu – É bem verdade que os problemas sociais que dizem respeito à população dissidente vivem momentos de ebulição, tanto no que tange às lutas, visibilidade e conquistas, quanto a resistência. Nós não morremos agora mais do que antes, mas também o número de pessoas trans que são cruelmente assassinadas ou se suicidam ainda é alarmante, e ainda falamos muito pouco sobre isso. A arte sempre teve em suas características a crítica como um ponto muito forte. Em tempos turbulentos, isso se torna quase que uma obrigação, quase que um dever do artista analisar o tempo em que vive e falar sobre ele, usando códigos e linguagens. Por outro lado, a arte também se apropria de pautas emergentes para criar poéticas e fomentar a criação, o que eu não vejo como um problema por si só, desde que o sujeito, que se apropria, saiba realmente o que está acontecendo. Um exemplo disso são espetáculos de teatro retratando a vida e a luta de pessoas trans, protagonizados por artistas cisgêneros que não têm elementos em suas vivências para tratar de um assunto tão vasto e potente. Ignoradas a existência e arte de pessoas trans, que são varridos dos espaços de criação, divulgação e fomento de seu fazer artístico. E aqui cito o MONART, Movimento Nacional de Artistas Trans, que recentemente lançou um manifesto sobre esse assunto, acredito que é de suma importância ler e acompanhar essa pauta.

Eu entendo que, enquanto biografia, o meu trabalho, se denuncia ou critica, é porque vai de encontro a uma norma, ao binarismo, ao mundo encaixotado em identidades fixas e castradoras. Acredito que, quando lançada, a palavra pode atingir não sei ao certo qual a estaca que segura essa estrutura toda, mas sei que existe potência nesse lançamento. Se atingirá um alvo, ou não, o importante é que houve o deslocamento e o percurso em que isso acontece. Seria prepotência uma artista traçar a rota de sua arte e ter plena certeza do que/onde ela vai atingir. A arte é muito mais ampla e viva. Nós estamos morrendo. Se levarmos em conta as estatísticas, meu corpo tem menos de 10 anos de vida, posso ser atacada a qualquer momento, ainda mais com a força da onda do conservadorismo querendo nos arrastar e nos lançar contra as pedras. Criar, ver meu trabalho publicado em uma antologia tão forte, que reúne artistas com uma representatividade tão ampla, como a Profundanças 2, já é, por si só, uma crítica. No entanto, minha principal crítica é continuar viva, é subir no palco, empunhar o pincel ou caneta, minha crítica é rasgar o véu da arte elitista e privilegiada e dizer que nós, apesar das pedradas, continuamos vivas!

 

DA – Além de poeta, você é também artista visual e performer.  O que nos faz pensar uma existência multifacetada de Jeisiekê de Lundu, enquanto artista. Quais as relações estabelecidas entre estes vários lugares de atuação artística, aos quais você disponibiliza seu tempo e dá vazão a sua criatividade? As questões de gênero são postas em discussão em suas performances. Com relação às artes visuais, existe alguma conexão entre a poesia e sua produção neste campo?

JeisiEkê de Lundu – Tenho me considerado uma artista visual, não que eu atue somente nessa área. Viajo no audiovisual com certa frequência, mas a arte visual me dá possibilidades para flertar com temas que acredito terem maior importância para a criação que desenvolvo. Dentro dessa caixa de multifaces da linguagem, consigo transitar pelo tridimensional, trazendo estruturas e subvertendo no corpo, nesse sentido, entendo o corpo como suporte – tanto de ação quanto de discurso. E, para isso, eu recorro à performance art, uma linguagem que bebe muito de outras linguagens da arte, se apropria de ferramentas e subverte conceitos, ressignificando os sentidos, para, nesse lugar, conseguir falar sobre o que é minha existência, sobre minha visão de resistência, de coletividade, de construção social, de normativas sociais.

Dizer o que se pensa em arte é um trabalho muito doloroso. Falar sobre assuntos emergentes é mais complicado ainda. Quando você constrói uma célula artística falando sobre “o vento que passou e arrancou a flor do jardim”, pode até ser que nenhum questionamento ocorra, ou que venham aplausos, contratos ou coisas do tipo. Mas, quando se tem trabalhos que questionam atitudes e performam lugares, que a estrutura não quer que seja visível, o questionamento nem sempre é feito baseado na obra em si, mas no sujeito que cria. Ou seja, no sujeito que se apropria da linguagem para questionar. Eu trago isso, nesse momento, porque meu lugar enquanto artista é questionado, minha arte é poucas vezes vista como ela é de fato. Meu corpo é questionado, minha validade enquanto artista é questionada pelo simples fato de não corresponder a uma expectativa hegemônica. E isso não acontece somente comigo, várias artistas do meu círculo mais próximo sofrem com atitudes parecidas. Corpos que deveriam – segundo a lógica higienista – nem existir, quanto mais se afirmar enquanto artista. Isso acontece com várias amigas da Casa Monxtra – coletivo de arte dragg formado por artistas negras, não binárias, mulheres, periféricas – do qual faço parte aqui em Salvador. Vários ataques e questionamentos acontecem não pela qualidade ou pela estética abordadas no trabalho, mas sim por quem protagoniza o trabalho e usa o discurso para enfiar o dedo nas feridas da sociedade. Agora sim, respondendo à pergunta, eu não consigo deslocar a escrita da visualidade porque de certa forma uma linguagem nutre a outra, a escrita compõe a imagem e o contrário também acontece. Boa parte dos textos publicados em Profundanças 2  fizeram parte de uma performance que fiz com Lanmi Carolina, em 2016, denominada “Rapina – ou a metamorfose do ser”. Os escritos eram parte da bagagem que carregamos na criação e na execução da obra. A escrita em algumas obras é como o registro fotográfico, só que em grafia, não em luz.

 

JeisiEkê de Lundu / Foto: Lanmitripoli com retouch de Juan Pablo Gutierez

 

DA – Haja vista a quantidade de colaboradores, podemos dizer que a obra Profundanças 2 se desdobrou em um coletivo, que tem desenvolvido o evento chamado Roda de Conversas em Profundanças. Tendo circulado por cidades da Bahia e Pernambuco, a roda intenciona conversar com o público, entre outros temas, a respeito das formas de ativismo literário, circulação alternativa, sentidos da criação artística em tempos de golpe(s). Como foi e está sendo participar destas rodas de conversa? Há algo de provocador nas plateias que têm frequentado? Como ocorrem essas trocas?

JeisiEkê de Lundu – Na época da publicação, eu não achava que tinha feito pacto de sangue com Daniela Galdino (risos). Mas se configurou em coisa parecida, viu? (mais risos). Brincadeiras à parte ou não, eu participei de uma roda de conversa e estou indo pra segunda agora. A primeira foi no campus do IFBA, em Ilhéus, o público de secundaristas, funcionários e professores do campus, dentro de uma semana de atividades bem intensa. Eu cheguei um dia antes e tive o prazer enorme de conhecer Aildil Araújo Lima (escritora cachoeirana), ganhei dela o livro Mulheres Sagradas, passamos boa parte da noite e da manhã sentadas na varanda conversando, fumando e bebendo café. Já havia começado a roda de conversa ali e não tinha me dado conta. Conversávamos sobre a “escrevinhência”, sobre a palavra – como encontramos com ela. Foi um momento único, marcou muito minha trajetória. De manhã encontramos Daniela e seguimos para o IFBA. Eu estava super nervosa, falar sobre minha escrita (coisa há pouco revelada), mesmo tendo experiência com palco, ali na frente de vários adolescentes me gerou um frio na barriga de primeira vez assim. Foi interessante, a dinâmica da roda aconteceu e li um texto sobre uma agressão, não é bem uma narrativa, eu criei alguma coisa, unindo experiências negativas com agressões e como isso se fixou em meu inconsciente. Como a sensação de ser agredida sempre volta e como ações do cotidiano podem se tornar disparadores para essas lembranças ruins. Eu estava lendo de cabeça baixa, quando terminei, várias pessoas estavam chorando, em prantos mesmo, nunca havia lido um texto meu em público pra tanta gente, e, quando termino, tem lágrimas – aquilo foi desconcertante. Eu não sabia se tentava sair dali, ou se chorava junto, mas eu não queria chorar, minha mente começou a pensar mil coisas. No fim da roda, fui almoçar no restaurante do campus e me sentei com alguns adolescentes, que fizeram parte da plateia. Ouvi histórias muito parecidas com as que eu vivi, foi reconfortante ouvir deles uma resposta e saber que as palavras, de certa forma, tocaram.

 

DA – A internet se constituiu numa importante plataforma de divulgação artística deste século. Esta entrevista, por exemplo, será divulgada no universo do www, seus poemas também foram publicados na  coletânea Profundanças 2,  que tem disponibilização online. Qual sua relação artística com as redes? Tem pensado em algum projeto artístico voltado para internet ou já utiliza as redes como maneira de divulgar sua produção artística?  

JeisiEkê de Lundu – Minha vida na arte começou e a internet já não era mais “mato”. Eu não conheci o tempo em que a divulgação e a promoção da arte estavam fora do campo virtual. De certa forma, o virtual interfere no modo como fazemos arte, de como formatamos nosso trabalho para caber nesse suporte. Existe certa preocupação, eu diria, mais com o mundo virtual do que com o dito real, se é que ele existe! Não sei, talvez esse mundo dos bits e do www seja o real. Em Profundanças, isso se tornou uma coisa interessante, o lance do livro digital, publicado em uma plataforma, o que gera uma certa democratização da linguagem, aí volta para o que eu já havia dito antes, sobre  “quem pode ler?”, “quem pode escrever?”, sobre o quão inacessível é publicar escritos no mercado editorial no Brasil e na mão de quem isso está. A internet possibilita trazer para a luz pessoas anônimas, escondidas pelo véu da invisibilidade, guardadas na “escrotidão” das máquinas. O simples ato de postar um texto em uma plataforma pode transformar toda uma cadeia, alterar várias rotas. Atualmente, eu trabalho muito com visualidades, usando meu corpo como plataforma para a criação artística, e a internet é sim a maneira mais fácil de divulgar esse trabalho e ter um retorno e um contato maior com o público.

 

DA – É bastante estreita a relação entre referências e reverências, seja em qual campo de trabalho estivermos falando. Sem reverências, quase impossível ter referências. E o contrário também poder ser verdadeiro. No fazer artístico, esta conexão aparece de maneira ainda mais intuitiva e forte. Comente sobre as reverências que norteiam o seu conjunto de referências, na constituição de seu leque de memórias enquanto poeta e performer.

JeisiEkê de Lundu – Não se escreve sozinha, por mais que o ritual de escrita seja solitário. No próprio ato de empunhar a caneta e rabiscar o papel, várias mãos fazem essa ação em conjunto, seja de forma consciente ou não. Eu estou falando sobre aquelas que não podem escrever ou sobre aquelas que escreveram antes de mim, e aqui trago minha referência, Simone Portugal, escritora baiana, que publicou, artesanalmente, seu primeiro livro, Filosofia do esgoto, e vende de forma autônoma e independente – traz em suas linhas a revolta e o escárnio como poética. Eu reverencio também Suzernagle Bento, poeta sertaneja, residente em Salvador, que carrega a seca e as memórias do sertão para enaltecer as bravas mulheres do semi-árido brasileiro. Enalteço e trago pra esse panteão de mulheres Michelli Mattiuzzi, performer e escritora negra, que trava uma imensa guerra para ser artista, nessa parte colonizada do planeta, jogando contra a branquitude e denunciando o racismo. Enalteço Annie Ganzala – grafiteira e aquarelista – que carrega a poética sapatão em seus murais e aquarelas. Enalteço Negrindia – Gabi – poeta, sapatão, mãe, cartoneira, distribuidora de zines e cadernos artesanais, que luta bravamente para construir novas distopias. Hija del Perra, Gisberta Kali, Vanusa Alves, Tieta do Agresta, Lanmi Carolina, Aranda Sousa, Frutífera Ilha. É bem mais que um leque, é uma arvore que dá frutos muito grandes, nessa revolta que é fazer poesia, façamos poesia, os fascistas odeiam poesia.

 

DA – Ao escrever, brincamos com as linhas do tempo. Passado e futuro podem se entrelaçar numa dança jamais imaginada. Como sua poesia lida com o tempo? Como a mente criativa de JeisieKê de Lundu trabalha os acontecimentos do passado? Sublimando-os? E como são as projeções de futuro? Há alguma bandeira de re-existência hasteada com desejos de mudanças?  

JeisiEkê de Lundu – Às vezes, o sentimento de revolta é tão grande que não sentimos o tempo, a escrita às vezes fica estagnada, parada, feito água barrenta, o sentimento de paralisia causa pessimismo. Você não consegue enxergar quais ações podem mover e causar transformações. As utopias desaparecem da mente, o que sente é que tudo se petrificou e só existe o regresso como caminho. Eu tenho certo receio com a linearidade do tempo. Às vezes, minha mente da um bug e começo a pensar que vivemos em círculos, que o tempo é um círculo e não uma linha – como ditam por aí. Quando escrevo, estou sempre pensando sobre isso, de como podemos projetar passado no futuro e presente no passado, de como essas noções de tempo estão imbricadas e são complementares e divergentes. Seria determinista entender o passado como ponto fundante para o futuro, seria aceitar a linha do tempo simplesmente, acreditar em predestinação, talvez, que tudo está escrito ou pronto pra ser vivido, sem a necessidade da mudança. Aqui, eu quero retornar ao pessimismo, pensar a mudança nos tempos que estamos vivendo, pode ser revolução, mas em meu caso é um tanto pessimista. Hastear bandeiras e lutar tem se tornado cada dia mais impossível. As forças estão cada vez mais miúdas, eu tenho sido pessimista. Meu desejo tem sido acordar e continuar viva, como aquela frase pichada em muro: “A gente combinou de não morrer’”. Aí mora a mudança, talvez quando os corpos dissidentes tiverem o direito de viver, simplesmente, continuar existindo, aí sim, possivelmente, alguma mudança pode ocorrer; antes disso, não acredito em nada.

 

DA – Falando em futuro, terminamos esta entrevista com votos de ainda mais progressos em sua multifacetada carreira e perguntando a cerca dos planos subsequentes. Há algo em mente que possa ser contado à Diversos Afins? Quais seus planos mais imediatos? E, a longo prazo, quais suas metas artísticas?

JeisiEkê de Lundu – Sempre digo que sou uma artista multilinguagem, atuo na performance, no vídeo, na tela, na escultura, na costura e a música sempre foi um desejo e uma vontade. Agora, estou trabalhando num projeto muito lindo, não cantando, que ainda não desenvolvi isso, mas na direção de visualidade da banda Saramandaia, um grupo de artistas residentes em Salvador, falando sobre dissidências, política, arte, inclusão e temas emergentes.  Tem sido um trabalho muito forte e lindo. Para além disso, a Casa Monxtra com A terca mais estranha do mundo, no bar Âncora do marujo, todas as terças-feiras, e estou rabiscando e enchendo uma gaveta para editar um livro(digital) que espero lançar esse ano ainda – uma mistura de contos, poemas e textos sobre dissidência, corpo ciborg e existências à margem. Várias ideias na mente e a tentativa que ela mesma não se sabote, porque a própria estrutura já faz esse trabalho bem feito. Mas vamos seguindo o baile e fazendo o que tem que ser feito. Ai, estou super empolgada com tudo isso que Profundanças me proporcionou! Foi lindo demais! Aproveito para agradecer a Daniela pelo convite sempre, a todas as pessoas que compõem esse projeto mais que maravilhoso, a todas que leram e compartilharam a ideia, e por mais agregadoras e engrandecedoras como esta. Gratidão sempre.

 

Elis Matos é “cria” da Universidade Estadual de Santa Cruz, licenciada em Filosofia e bacharela em Comunicação Social, especialista em Gestão Cultural e mestranda em Linguagens e Representações. Trabalhou enquanto Coordenadora de oficinas, workshop e mesa do Festival de Cinema Baiano, nas suas IV, V e VI edições. Pesquisadora, cronista e palestrante feminista, lançou a tag #ondeofeminismomechamaeuvou e vai!  Aprendeu a sonhar uma vida justa até as últimas consequências…