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147ª Leva - 02/2022 Gramofone

Gramofone

Por Larissa Mendes

 

OQUADRO – PRETO SEM AÇÚCAR

 

 

“Não sei se sirvo o rap ou o rap é quem me serve”, já dizia Marcelo D2 em “Vai Vendo” (2003). Tal verdade é incontestável quando se trata das cabeças fervilhantes dos rapazes d’OQuadro. Formada em Ilhéus (BA) e com mais de duas décadas de estrada, OQuadro é representante de uma tendência do hip-hop denominada New School, movimento que promove inovações estéticas a partir do diálogo com outros estilos musicais e movimentos culturais. A banda lançou em novembro passado seu terceiro álbum de estúdio, Preto Sem Açúcar (2021), com uma sonoridade resultante de suas múltiplas pesquisas e influências artísticas, sem abandonar jamais o discurso contundente do rap. Ainda que o título pareça insinuar uma alusão ao fruto do cafeeiro, o conteúdo desse “bule” é muito mais denso: analisa os tempos sombrios da escravidão para demonstrar as implicações desastrosas causadas pelos barões do café e senhores de engenho.

Há que se dizer que o septeto baiano, composto atualmente por Jef Rodriguez (voz), Nêgo Freeza (voz), Ricô (voz e baixo), Rodrigo DaLua (guitarra e synth), Vic Santana (bateria), DJ Mangaio (programações) e Jahgga (percussão), apresenta um hip-hop peculiar no decorrer dos anos e não seria diferente ao longo dessas (bem servidas) 15 faixas. Trata-se de uma ode à negritude e a sua história, sem precisar “adoçar” nenhuma das mazelas da vida. A lista de participações especiais também é expressiva e extensa (14 ao todo), e inclui Jorge Du Peixe, Tuyo, Ellen Oléria, Russo Passapusso, Rodrigo Piccolo (Mato Seco), BillyFat, entre outros nomes da cena musical brasileira. Por falar nisso, vale destacar que a banda teve uma elogiadíssima participação no projeto de releituras de canções de Adriana Calcanhotto, Nada Ficou No Lugar (2019), com a canção “Negros”.

 

OQuadro / Foto: divulgação

 

A vinheta de abertura Um Brinde A Minha Gente (um conflito interno/bem-vindo ao meu inferno particular/(…)/eu vejo tudo/mas ninguém me enxerga) dá o pontapé inicial a pouco mais de 45 minutos da história do Brasil passada a limpo. A literalmente fuzilante Kalashnikov, por exemplo, tem a participação da não menos potente Ellen Oléria. Se I Can Feel It adverte que “em cima do muro é um lugar perigoso”, Motor da Fome, parceria com Davzera (ícone do rap underground), analisa os quase 19 milhões de brasileiros em situação de fome. Nas primorosas Asas (o sol na carne sob o sol/pra lavar, pra limpar esse banho de sangue/abre as asas sobre nós/passarão passarinho voos rasantes no mangue/e o sol virá depois que as tempestades calmarão), em companhia de Jorge Du Peixe, e em Não Vai Passar Batido (eles sabem que não vai passar batido/cada gota de sangue no chão, cada tiro/cada lágrima da mãe por seu filho), parceria com MCDO, da banda Afrocidade, a crítica é sobre a violência urbana, especialmente contra o povo negro.

Se a malemolente Caça tem a participação das cantoras Xênia França e Vanessa Melo, Meu Game tem a companhia de Russo Passapusso, do BaianaSystem, e brada que “aqui é preto sem açúcar, não tente me refinar!”. A vinheta Paz nos dá um importante conselho: “cuidado em quem você bota bandeira, seja você sua revolução!”. Santo (chorei dilúvios por sua atenção/mundos e fundos movi, comovi/resolvi deletar essa devoção), conta com a belíssima participação dos afrofuturistas curitibanos do Tuyo e Campo Minado — uma das melhores canções do álbum — tem a presença da cantora e compositora Cronista do Morro (revelação do hip-hop baiano) e de Billyfat, membro do #OMC (Oferecimento Máfia Crew), expoente da nova geração do rap de Ilhéus.

Desafio você a não bater palmas no compasso de Fala Pra Mim (fala pra mim, o seu lamento/dispensas já não cabem mais ressentimentos/já não consigo mais dormir, com esse tormento/sem medo é só deixar fluir, o sentimento) ou se pegar assoviando no ritmo de Ascende… o pavio e apavora! A africaníssima LULULULULU, faixa junto ao ganês DJ Sankofa, se encaminha para o final de forma quase transcendental, porém é a vinheta I Tal, narrada por Bia Ferreira, que encerra o álbum alertando que a alimentação ofertada pelo colonizador ao povo negro causa até hoje problemas de saúde como a pressão alta e o diabetes.

Preto Sem Açúcar sucede os álbuns OQuadro (2012) e Nêgo Roque (2017) e está disponível em todas as plataformas digitais. Apesar de não se tratar exatamente de uma trilogia, arremata de forma perfeita o conceito de evolução sonora e estética do grupo. Enquanto o primeiro disco dialogou com as bases do reggae e o segundo com as raízes do rock, este último passeia por sonoridades influenciadas por elementos eletrônicos. Já em relação à narrativa, ela se mantém cirúrgica e aborda questões como o combate à fome e a luta contra o preconceito racial. Sem fazer “média”, o som d’OQuadro é puro e certeiro como um café forte. Sem açúcar, com afeto.

 

 

Larissa Mendes não dispensa um cafezinho [com adoçante] e uma boa música.

 

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145ª Leva - 05/2021 Drops da Sétima Arte

Dedos de Prosa III

Marcus Vinícius Rodrigues

 

Ilustração: Paula de Aguiar

 

EU NUNCA ATRAVESSEI O RIO

 

Eu nunca atravessei o rio Almada. Estive sempre em sua margem brincando no raso enquanto meus irmãos se aventuravam mais fundo, onde meus pés não alcançavam. Um fundo ainda raso porque, embora maiores, eles eram, como eu, crianças. Mas podiam nadar e mergulhar por baixo das canoas. Penso que poderia, também, fazer aqueles mergulhos. Uma vez eu tentei, mas parecia tão larga aquela canoa. Não tive coragem.

Minhas brincadeiras eram naquela beirinha em que o cobre do rio ficava mais transparente, como se um pouco de mel tivesse sido dissolvido na água. Eu sentava sentindo o sol nas costas e a água fresca nas pernas.  Ali as piabas chegavam bem perto. Eu tentava cercá-las como quem pastoreia vacas no curral. Elas eram mais rápidas. Escapavam como as galinhas do quintal de minha avó, mas sem algazarra. Espantadas e silenciosas. Escorregavam pelos meus dedos como a água do rio talvez escorresse para o mar. Sim. Talvez. De meu raso eu não percebia a correnteza do meio do rio. O único movimento eram as ondas do mar no horizonte, onde o rio finalmente despejava suas águas castanhas no azul espumoso do oceano. Eu achava um mistério aquelas ondas que não terminavam na praia como acontecia na praia do Malhado. Que sabia eu, tão criança, sobre o movimento dos rios? O rio Almada não corria à porta da minha casa. Para mim ele estava parado. Eu não conhecia o rio Cachoeira do outro lado daquele grande ilhéu que era minha cidade. Sabia da ponte que atravessava para o Pontal, onde morava minha avó. Mas aquela era uma água vista de longe, de dentro de um carro. No Pontal, havia a praia salgada e os navios encalhados na areia. Nada que lembrasse um rio. O Almada, na porta da minha casa, era aquele rio que parava antes do mar. Imóvel. Para sempre.

Sentado no meu raso, descansei as mãos no fundo, espalmadas para cima como se, em posição de ioga, esperassem a energia do mundo penetrar por elas. Minha calma atraiu, enfim, algumas piabas. Uma nadou por sobre minha mão e, de surpresa, consegui agarrá-la. Que delicado o toque daquele corpo minúsculo e saltitante. Fiz das minhas mãos duas conchas que se fecharam suavemente em torno. Ela pulsava ali dentro como um coração. Gelado, escorregadio. Fazia cócegas. Eu me senti poderoso por conquistar aquela vida para mim. O peixinho não pertencia mais ao rio.

Era meu.

Quis mostrar para meus irmãos. Chamei os dois. Procurei entre as canoas. Não estavam mais na água. Já subiam o barranco para a nossa casa ali em frente, na vila militar. O almoço. Eu queria ficar com a minha piaba, mas eles, parados no meio do caminho, gritavam a ordem de subir. Não podiam ir sem mim. Eu não podia ficar.  Fui atrás, resignado. Era um dia de domingo. Eu sabia que poderia descer no meio da tarde. Eles voltariam para o futebol e mais mergulhos. Eu voltaria com meus carrinhos para a beira da água, para os peixes, para o meu peixe. Bastava guardar o meu tesouro em um lugar seguro, para que ninguém pegasse.

Não contei a ninguém do meu tesouro. O almoço foi lento. As conversas em volta da mesa. Eu quase não falei. Tinha um segredo. Qualquer palavra que dissesse poderia deixar escapar o peixe de minhas mãos em concha. Ele saltitava dentro de mim como uma alegria. Brincava na minha imaginação dando saltos de um lado a outro da água. Eu fazia túneis com as mãos, barreiras com as pernas… a piaba nadava veloz pelos labirintos do meu corpo, mais água do que peixe. Bastava esperar a tarde. Bastava guardar o segredo. O silêncio.

Mas aquela não seria uma tarde de domingo silenciosa. Antes de acabar o almoço, vieram gritos do rio. Alguém veio chamar meu pai. Um alvoroço se espalhou pela rua. Minha mãe nos proibiu de sair. Ela saiu. Meus irmãos cuidariam de mim. Ficamos a tarde inteira sozinhos vendo a televisão com seus chuviscos dissonantes. Era meu pai quem movia a antena até a imagem estabilizar. Da rua não vinha nenhuma notícia. Todos estavam na beira do rio. De casa não podíamos ver. O barranco. Dali, nossa visão do rio era a outra margem, onde havia um grupo de pessoas observando.

Alguém se afogou, meu irmão mais velho disse. Aquela frase instaurou uma realidade de medo em mim. Alguém tinha ido para a parte funda do rio e tinha se afogado. Eu sabia que aquilo podia acontecer. Minha mãe sempre nos prevenia para não nadar para o fundo, onde não dava pé. Podíamos nos afogar. Disso eu sabia. Eu não sabia exatamente o que era se afogar, mas não era algo bom. Eu sabia o que era fundo. Era onde meus irmãos nadavam quando brincavam nas canoas. Com a revelação, meu corpo tremeu. Meus irmãos podiam se afogar. Vocês já se afogaram? Eu perguntei preocupado. Eles riram de mim. Claro que não. Fiquei com raiva das risadas e da gozação, mas aliviado porque eles não se afogaram. Eu nunca tinha me afogado. Não ia nunca para o fundo. Voltei a pensar na minha piaba. Ela também não se afogava. Estava sempre no raso como eu.

Passamos toda tarde em espera. A noite chegou e minha mãe voltou. Eu procurei o medo em seus olhos, aquele de quando ela avisava do afogamento. Mal consegui ver. Ela nos disse que estava tudo bem, que nada tinha acontecido. Meu pai? Estava resolvendo alguma coisa de trabalho. O quê? É verdade que alguém se afogou? Não era assunto de criança. Nós devíamos fazer os deveres da escola. Meus irmãos não tinham feito. Eu já tinha pintado os desenhos do meu livro com o cuidado de não sair das linhas. Era preciso dormir para a escola cedo.

Eu já estava na cama quando ouvi a história toda entre os meus sonhos. Eram vozes de meu pai e mais alguém — minha mãe ouvia entre soluços. Depois, meus irmãos repetiram a história no quarto. Havia um menino no fim da rua, na primeira casa da vila. Já era grande… três pescadores… a rede se enroscou em alguma coisa no fundo do rio… a mão dele estava presa… os amigos tentaram salvar, mas não conseguiram… gritaram. Só à noite conseguiram tirar o menino de lá. Os peixes já estavam começando a comer. Meu irmão disse aquilo muito assustado. Eu quis acordar e perguntar como o menino estava.  As feridas doíam? Foi então que ele falou respondendo a pergunta que não fiz: morreu.

Eu nunca tinha imaginado que, se alguém se afogasse, morria. Morrer era ir para debaixo da terra. Mas o rio…? Fechei muito os olhos para não ver o menino dentro da água sendo comido pelos peixes. Não queria ver a cara dele faltando pedaço. Os olhos abertos. Em algum momento eu dormi e senti a água acobreada do rio me envolvendo. Cobrindo minhas pernas, avançando pela barriga, pelo peito, pelo pescoço. Eu estava completamente mergulhado — as piabas em volta. Abri a boca e a água entrou. Bebi muito, sem querer, sem poder resistir. A barriga ficou cheia. Eu pensei que era daquele jeito que a gente se afogava. Achei que ia morrer, mas tinha vontade de fazer xixi. E fiz.

Minha mãe não me deixou ir à escola naquele dia. Tinha acordado no meio da noite gritando e chorando. Era melhor ficar em casa. Ficamos sozinhos os dois. No meio da manhã a casa se encheu das mulheres da rua. Elas começaram a conversar sobre o afogado. Eu queria escutar as conversas, saber dos detalhes, mas minha me mandou brincar no quintal. Nada de ir para a rua.

Foi a primeira coisa que fiz. Desci o barranco e fui atrás da minha piaba. Por sorte, tinha deixado atrás de uma pedra. Mesmo com toda a confusão, eu tinha certeza de que ninguém tinha encontrado.

Ela estava lá.

Mas não estava saltitante como antes. Nem molhada. Estava seca e dura. Peguei com cuidado em minhas mãos e levei para a água. Ela afundou como uma pedra. Imóvel. O rio também não se movia naquele meu raso.

Não entrei na água naquele dia, nem depois. Ficamos proibidos de nadar no rio e, quando o ano acabou, nós nos mudamos. Saímos de Ilhéus e nunca mais.

Adulto, voltei à vila, ao rio, mas sempre passei apenas de carro. Nunca mais desci o barranco que, na verdade, era apenas uma descida muito curta.

O rio Almada. Ele vem do interior muito mais ao norte, mas deságua no oceano. Vira-se para a direita e percorre um longo caminho paralelo à praia. Ele resiste a entrar no mar, ele não quer morrer se misturando às águas claras e salgadas do atlântico. Na frente da minha casa, enfim, dobra-se para a esquerda, contorce o corpo desenhando uma interrogação de cabeça para baixo. É ali, em frente à casa da minha infância, que ele morre — todos os dias — murmurando seu porquê sem resposta.

 

Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-Ba e mora em Salvador. Publicou, entre outros, os livros O mar que nos abraça (contos, Ed. Caramurê, 2019); Manual para composição de Vitrais (poesia, Selo João Ubaldo Ribeiro da Fundação Gregório de Mattos, 2019); Café Molotov (contos, Editora 7Letras, 2018); A eternidade da maçã (contos, Editora 7Letras, 2016) — vencedor do Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia de 2016; Arquivos de um corpo em viagem (poesia, Editora Mondrongo, 2015) e Cada dia sobre a terra (contos, EPP Publicações e Publicidade, 2010). É membro da Academia de Letras da Bahia.

 

 

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144ª Leva - 04/2021 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Elis Matos

 

Artistas como Tereza Sá nos fazem compreender que algumas almas expandem a vida imaginativa em várias nuances, porque desde muito cedo foram expostas ao máximo de realidade possível. Entendendo os atravessamentos dos que vieram antes, bem como a importância das referências que lhe foram apresentadas durante a infância, ela se declara resultado da força de gerações anteriores, em sua família. Mulher negra, professora, poeta e atriz, filha do professor e poeta Eléus Leonardo de Sá e de Tereza Soares de Sá, mãe de Èbano Bencos e de Luan Bencos, a entrevistada da Pequena sabatina ao artista é ilheense, Graduada em Letras/Espanhol e Pedagogia (UESC), Especialista em Leitura e Produção Textual e Educação e Relações Étnico-raciais (UESC), Mestranda em Ensino e Relações Étnico-raciais (UFSB). Atualmente, Tereza Sá faz parte da Cia Trapizonga de Teatro e do Coletivo Afro em Cena (UFSB), que trabalha na perspectiva do teatro negro, tendo o corpo negro também como protagonista da cena. Além disso, ela integra a Coletânea Literária e Fotográfica de mulheres: Profundanças 3. Seja com expressões faciais fortes, em performances marcantes; ou versos intrigantes, em poemas bastante atuais, Tereza Sá mostra que há mais para se ver e interpretar em suas expressões artísticas. Com uma carreira que inclui o concurso de poesia da Revista Brasília, que lhe rendeu o prêmio da categoria “destaque” e a publicação coletiva no livro Valores Literários do Brasil, Volume XV(1992), a artista conta à Diversos Afins sobre sua trajetória artística, suas experiência de vida e como tem pensado a arte no atual cenário pandêmico, no Brasil.

 

Tereza Sá / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Mulher negra, ilheense, professora, poeta e atriz. Co-autora do Projeto “Mulher Negra: a força que se explica”, na Escola Municipal Themístocles Andrade, no Teotônio Vilela, em Ilhéus. Tereza Sá, a sua biografia em constantes transformações e atravessamentos, em alguma medida, se explica pela sua árvore genealógica? Quais influências, dos que a antecederam, você consegue identificar em seus percursos individuais e coletivos? Mais, quais as divergências e desconstruções?

TEREZA SÁ – Sim. Eu posso afirmar que a constituição do que eu sou é inteiramente atravessada pela força dos que me antecederam. Sempre me vi fortalecida pela referência individual e também coletiva de pessoas que muito contribuíram e contribuem para a formação da mulher que me constitui. Como criança negra, conheci desde muito cedo os percalços que o racismo nos coloca. Foram justamente essas referências que me encorajaram no processo de enfrentamento ao racismo, sexismo e tantos dilemas que envolvem o ser mulher negra. Sinto-me uma mulher múltipla, intensa, cheia de sonhos e projetos. Minha influência primeira acontece dentro de casa. Meu pai, intelectual negro, professor de Esperanto, sempre nos possibilitou contato com a cultura e a arte. Fomos expostos ainda crianças a ambientes onde o poético e o estético se estabeleciam, mesmo diante das dificuldades que a vida nos impunha. Cresci ouvindo meu pai tocando bandolim, recitando poesias, escrevendo artigos em jornais e participando de coletâneas poéticas. Minha mãe sempre precisa em cobrar, de nós, leituras.  Era certo que em algum momento eu enveredaria pelos caminhos das artes para além do lugar de expectadora. Essas referências iniciais foram decisivas para as minhas projeções, a curto e longo prazo, e com o passar do tempo foram somadas a novas experiências, novos contatos com pessoas, em sua maioria mulheres negras, que influenciaram e me encorajaram a seguir na composição das coisas que acredito. Certamente seria muito mais difícil para eu caminhar e crescer sem os diálogos que se estabeleceram, o exemplo e principalmente os ensinamentos dessas pessoas para que eu persistisse nos sonhos e na coragem de ser feliz. As divergências encontradas se deram mais precisamente no campo da raça e do gênero. Ainda que não fosse dito com palavras, desde a infância já esbarrava na imposição de um lugar para a mulher negra na sociedade e, por mais que meu ambiente familiar me desse suporte de superação, eu me vi por diversas vezes afetada por impedimentos do sistema de opressão e violência que me colocaram em condição de silenciamento e inércia, em diversas situações. A escrita literária foi uma delas. Por muito tempo me tranquei para o ato da escrita acreditando não ser esse meu lugar. Mas a minha trajetória é de lutas e a força da ancestralidade sempre me colocou no trilho da história, renovando as águas da minha existência. Tenho caminhado e seguido os passos de nossos antepassados que resistiram para que pudéssemos (re)existir e ocupar todos os espaços que nos foram negados. Os desafios são muitos e as redes de apoio estabelecidas entre as mulheres negras vêm fortalecendo nossa consciência ancestral, nos fazendo revisitar memórias, que nos encorajam a um constante movimento em busca de estabelecer nossas trajetórias enquanto mulheres negras.

 

DA – “Sinto-me uma mulher múltipla”, esta é uma afirmação sua sobre a composição contínua de sua identidade, no mundo. Outro dado importante de sua biografia é o fato de ter sido criada em ambientes onde o poético e o estético se comunicavam. Como é possível, em retrospecto, identificar os contornos estéticos construídos na e a partir de seus escritos? Quais as referências visuais e literárias ganham sentido e materialidade nas suas construções artísticas?

TEREZA SÁ – A palavra realmente se fez a força motriz no que me constituí. Minha memória remota aos sons impactantes, seja vinda dos provérbios proferidos por minha mãe, seja através das músicas que meus irmãos ouviam na “radiola”. Eu gostava de ouvir os discos de vinil lendo os encartes que acompanhavam as músicas. Lembro de um disco de Raimundo Fagner intitulado Eu canto (quem viver chorará) e, dentre todas que gostava, uma me chamava atenção e dizia: “Eu canto porque o instante existe/e a minha vida está completa. / Não sou alegre nem sou triste:/sou poeta.” Eu deveria ter uns dez anos. Essa canção me consumia os instantes. Não sei se por conta da letra ou da interpretação do cantor. Só mais tarde tomei conhecimento de Cecília Meireles como poeta. E assim eu cresci consumida pela palavra cantada e reconhecendo também essa força na escrita. A minha consciência da escrita veio muito sutilmente e não era nada compulsório. Aconteceu ainda na infância, justamente nessa época em que era afetada por canções e bordões de minha mãe. Já na fase adulta eu compreendi que o que eu escrevia era poesia, mas uma poesia que não se atrelava a uma estética especifica. Meu pai, que era trovador, ao perceber que eu escrevia, passou a me orientar sobre a métrica da trova. Arrisquei os versos rimados dentro da métrica, mas confesso que sempre tive dificuldade com aquele processo matemático e, ao tentar encaixar pensamento/sentimento na métrica, sempre fracassava. Isso foi um dos fatores também que me travaram no processo do escrever, pois papai me dizia que a forma com que eu escrevia era coisa da modernidade e deixava transparecer que não era muito “elegante”. Mais adiante, aprendi sobre versos livres, poesia concreta, entre outras coisas da “modernidade” que me permitiram mais liberdade. E eu continuei a escrever da forma que os poemas me vinham e registrava. Apenas isso. Registrava, guardava e muitas vezes os revisitava, da mesma forma que revisitava os poemas de Cecilia Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira… Note que a literatura que eu consumia era majoritariamente masculina. Posso garantir que muito do que escrevi inicialmente (e muitas vezes atualmente) foi afetada por essa literatura. Atualmente reconheço a riqueza da escrita de mulheres, principalmente das escritoras negras e fico triste com o tempo em que essa literatura esteve tão distante do alcance de minhas mãos. Hoje sou afetada pela escrita de Mirian Alves, Esmeralda Ribeiro, Conceição Evaristo, entre tantas que os Cadernos Negros me apresentaram.

O teatro me chegou paulatinamente e sei que seu prenúncio se deu na infância quando ainda na pré-escola eu decorava os versos para o dia das mães e outros eventos. Sentia prazer naquilo, mas não sabia que me acompanharia para a vida toda. Foi no Ensino Fundamental, nas atividades para as Feiras de Ciências que eu compreendi o quanto o palco me tornava imensa e que queria muito aquilo. Busquei cursos de teatro na cidade, que só fortaleceram a certeza de que representar era algo fundamental pra mim. Tive poucas experiências com teatro clássico.  As oportunidades me levaram às técnicas de Boal e ao teatro de rua. Poder atuar ao lado de Jorge Batista, Mônica Franco, Telma Sá, Rita Santana, Val Kakau, Tereza Damásio, Justino Viana, Ester Santana e João Marcelino, no Grupo Caras e Máscaras nos finais dos anos 80 em Ilhéus, foi algo imenso e revelou em mim a atriz. Nosso repertório textual era referendado pela música popular e a literatura brasileira, fortes dispositivos para nossa atuação enquanto teatro de/na rua, de direção coletiva. Os artistas da região foram grandes influenciadores na arte em que me propus navegar. Os grupos Macuco, de Buerarema, Arte em cena, de Itabuna, e os atores e atrizes, como Carlos Betão, Ramon Vane, Marcos Cristiano, Alba Cristina, Eva Lima, são figuras que introjetaram o gosto e a possibilidade de fazer teatro no Sul da Bahia e são as referências mais marcantes, pois reverberam até hoje em minhas construções artísticas.

 

DA – Interessante pensar que sua biografia transita por várias artes, como uma espécie de tessitura que desenha um conjunto muito singular. No fazer teatral, temos uma infinidade de formas de atuação e composição de cena, a performance é uma delas. O teatro de rua, digo a performance realizada na rua – encontra sempre o contingente, o inesperado, tal qual a vida. Como você descreveria a relação entre este espetáculo de rua, seu percurso de vida e a troca com o público espectador? Esta relação sempre foi a mesma sempre? Quais as variantes?

TEREZA SÁ – O teatro de rua foi um grande divisor de águas para mim e acredito que para todos os integrantes do Grupo Caras e Máscaras, pois vivíamos em um processo decisivo no que se refere à entrega de sermos atores/atrizes, mas nos deparávamos com a dificuldade de não termos diretor e, por estarmos frequentemente ausentes do palco, já não éramos convidades a atuar em espetáculos. Acreditamos por muito tempo que para um grupo existir de fato deveria contar com a presença de um diretor para desempenhar única e exclusivamente essa função. Só quando passamos a entender que o teatro poderia acontecer em espaço não convencional e que poderíamos dinamizá-lo em uma direção coletiva, foi que realizamos nosso sonho de atuar. Isso foi engrandecedor. Fizemos da rua nosso palco e essa relação se estabeleceu por muitos anos, movimentando a cidade e nossas vidas. Esse teatro foi para mim uma escola e o aprendizado se estende até hoje. Aprendi a reinventar-me sempre. No teatro de rua eu aprendi a perseguir sonhos, criar meu próprio jogo de cena, superar obstáculos. Sinto a vida como um verdadeiro espetáculo, no qual estamos constantemente performando as diversas versões de nós. Eu, por exemplo, tenho a sala de aula, o teatro, a poesia, entre tantos papéis sociais a desempenhar. A vida tem me surpreendido ultimamente com situações de desafios. Tenho vencido esses desafios como quem entra em cena naquele teatro de rua de outrora, na certeza de que nem todos que cruzam meus caminhos são meros transeuntes. Muitos aparecem justamente para formar a rede de apoio, idêntico como acontecia naquela época com o Caras e Máscaras, que sempre contava com uma plateia que colaborava com silêncios, risos, gargalhadas e até lágrimas. Ela aparecia em determinada praça ou rua porque sabia que nossa trupe estaria lá.  Erámos impelidos/as por esse encorajamento e sempre foi fortalecedor contar com o apoio de tanta gente boa naquela época em que fazer teatro sempre foi muito desafiador pra nós. Com isso eu acabei aprendendo a ser múltipla e a desempenhar papeis distintos que exigiriam de mim muita dedicação num mesmo tempo/espaço. Como no teatro, aprendi a ser intensa em todos eles. Lembro-me de um fato em minhas experiências teatrais em que eu, ainda em resguardo do parto do meu primeiro filho, já estava em cena ensaiando a peça “O fiscal e a Fateira”, sob a direção de Équio Reis. Em determinados momentos, parava para amamentar e retomava os ensaios. Isso porque eu nunca consegui fragmentar em mim a mãe, poeta, atriz e professora. Esses papeis sociais são a minha motricidade e um fortalece o outro. Tenho buscado intensidade em tudo o que me proponho e agora com uma certa dose de suavidade. A sala de aula sempre foi para mim espaço de reconstrução e de poéticas. As trocas que comumente estabeleço ali estão para além da grade curricular e, por conta disso, a professora exigiu mais permanência em cena. Aliás, a sala de aula consumiu a poeta e a atriz (na ordem apontada) desproporcionalmente. Sempre foi difícil viver de arte em nossa cidade. Sair em busca de novas possibilidades quando já se tem dois filhos era algo bem longe de minhas expectativas. Agarrei a carreira docente, mas de certa forma fui vivendo “tudo ao mesmo tempo agora”, como canta a banda Titãs. Assim, eu vivi intensamente a gravidez/maternidade imbricada na aprovação do vestibular e também na atuação como professora da educação Básica; a segunda graduação conectada ao Mestrado, este, por sua vez, integrado à participação no Coletivo de teatro negro Afro (en) Cena e paralelo à Cia Trapizonga de Teatro. Sem contar essas últimas atuações, concomitante com a participação como poeta no livro virtual Profundanças 3. Ufa! Parece que falta folego, né? Às vezes, falta. Mas “me recomponho/ feito rabo de lagartixa”, como afirma a cantora e compositora ilheense Eloah Monteiro. Minha trajetória é assim: pulsa num emaranhado de variantes que reforçam meu existir. São minhas escolhas e não deu para escolher uma em detrimento de outra. E assim, sigo intensa, sendo acolhida e fortalecia por uma rede de mulheres negras que me revigoram e seguram em minha mão o tempo todo para que eu tenha certeza de que a vida continua e o espetáculo não pode parar. Como diz Arlindo Cruz: “o show tem que continuar”.

 

Tereza Sá / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Quando você diz que nunca conseguiu fragmentar em sua identidade a mãe, a poeta, a atriz e a professora, sinto que há uma integridade na expressão, que é corroborada pelos relatos que se seguem na sua narrativa. Você poderia falar um pouco dos atravessamentos que o ser “mulher” na contemporaneidade impõe? Partindo de suas experiências, desde o seu lócus social, conte um pouco para a Diversos Afins sobre estas intersecções que atravessam sua existência.

TEREZA SÁ – Historicamente, a condição do feminino sempre foi marcada sem o mínimo de dignidade humana, excluída de todo e qualquer processo político, sociocultural, em ambiente violento, predominantemente racista e machista. O espaço que lhe fora reservado foi o da marginalidade, amarga herança da dominação colonial que espoliou a condição dos colonizados de se colocarem como sujeitos e autores de pensamento e de conhecimento.  Mas as mulheres vêm assumindo uma postura de ruptura frente a essa imposição histórica que por tanto tempo nos colocou em condições de subalternidade. Estamos assumindo postura de enfretamento às desigualdades, reinventando nosso lugar histórico e criando a cada dia condições para garantir participação ativa em todas as esferas da sociedade. Isso tem exigido de nós muito enfrentamento no combate às desigualdades e resistência para garantir conquistas e validação de nossas escolhas. Mas não nos intimidamos, ao contrário, temos marcado fortemente nossas presenças em movimentos de diferentes lutas pelo fim de opressões e conquistas de direitos. Sabemos que toda a conjuntura de nossa sociedade se estruturou com base no patriarcado e consequentemente sustentou-se em ideologias heteronormativas, sexistas, racistas, profundamente segregacionistas. Mesmo com tantas lutas já conquistadas pelas mulheres, muitas desigualdades ainda precisam ser superadas, dentre elas a mais urgente é justamente a desigualdade racial. As mazelas da escravidão ainda nos atingem em cheio e a presença negra no movimento de mulheres é de grande importância, pois exige amplitudes nas lutas, traz para evidência a necessidade de combate às mais variadas formas de opressão, além de impulsionar a mobilização de uma sociedade mais equânime. Ser mulher negra nesse contexto demarca situação muito mais desafiadora, pois exige a defesa de território do ser mulher e negra, condições extremamente marginalizadas socialmente. Eu, como mulher negra, o tempo inteiro vivi os atravessamentos dessas marginalizações. Desde a infância até os dias atuais. E, como toda preta, aprendi desde muito cedo que nossa luta é muito mais complexa, fazendo com que estejamos em militância o tempo todo, em constante alerta para diariamente nos defendermos contra todo tipo de discriminação e assédio. Tenho me comprometido com lutas antirracistas em sala de aula e através do teatro. A minha poesia também se apresenta como uma forma de combate e tenho feito uso dela como dispositivo para contribuir nas reflexões das questões de gênero/raça, somando minha voz a de muitas mulheres em um grande movimento que marca a inserção de nossas presenças em espaços tidos no passado como inacessíveis para nós.

 

DA – Por falar em poesia, no poema Profundeza, você encerra da seguinte maneira: “Já não possuo superfície/Sou toda profundeza”. O fazer poético envolve inspiração, mas também técnica e processos variados. Conte-nos um pouco sobre seus processos criativos, suas inspirações semânticas e, caso queira, fale um pouco sobre este poema em específico.

TEREZA SÁ – Eu sempre percebi o fazer poético como um movimento antecipado de imagens, cores, sons, desvelo criativo, entre tantas subjetividades que podem ser tecidas por quem escreve. Antes de se consubstanciar-se em poema, a poesia já é movimento na essência do/a poeta e a sua corporificação é o resultado da cumplicidade entre o sentir e a decisão de externar. O processo de escrita é um poço profundo e secreto que nutre todos os atravessamentos e inquietações que povoam o existir. Já mencionei que não sigo uma linha técnica específica no processo de escrita, mas certamente quando a poesia em mim se apresenta, traz em sua configuração uma roupagem entrelaçada com linguagem literária e a carga emocional. De certa forma, percebo que embora não haja, até então, uma escolha consciente com determinada técnica literária, essa escrita é bastante influenciada pelas autoras e autores que leio. Por ter contato constante com vários textos poéticos, na condição de leitora e também de professora, sou afetada intimamente pelas diversas estéticas literárias dos/as autores/as que devoro. Isso certamente influencia em minhas subjetividades. Escrever é também aprendizado. Tenho aprendido muito nessa construção de aceitar-me como poeta. Sinto que a técnica vai se apresentando, mas não quero que ela represente limitação para minhas enunciações criativas. Quero seguir no registro de minhas inspirações, me comprometendo mais e mais na cumplicidade com o estético, me permitir ser atravessada pela palavra sem tantas cobranças. Escrevo por prazer, por impulso, mas noto também que em muitos discursos narrativos certas estruturas textuais aos poucos acabam se manifestando, sendo utilizadas porque cabem melhor em determinados poemas que em outros. Isso tem se apresentado naturalmente com a presença de metáforas, metonímias, sonoridade, sinestesia, que dão fluxo aos versos que arrisco. Ultimamente, tenho me dedicado mais a apropriação da palavra escrita, como registro de sentimentos, me permitido brincar mais com essas palavras num jogo de escolhas e adequação das mesmas na disposição do processo criativo que tem insistido em se apresentar.   Em Profundeza eu trago o caráter intimista de encorajamento e desprendimento da poética. Um poema em primeira pessoa, que traz um traço bem característico de minha escrita: muitas vezes uso a palavra com brevidade, como na capoeira regional, que ataca e defende em golpes precisos, que crescem, dilatam-se, destrincham-se, até se concluírem como um só fôlego, ou um trago.

 

DA – (…) Há lugares que se instalam e me adentram como ostra na pedra fi(n)cam mesmo quando não estou. Há lugares que em mim habitam e me povoam do que já sou. Em Pertença, você se refere à influência que a localização geográfica tem na (des)construção da identidade do seu eu poético. Como este processo de identificação se deu em sua biografia?

TEREZA SÁ – Na verdade, tudo é muito um processo de construção. Como falei, não dá para fragmentar a multiplicidade do que sou. O mesmo ocorre com o processo de escrita. Tenho feito muitas andanças e elas têm me conectado a dimensões cartográficas que têm interferido de forma ativa em minha construção identitária e consequentemente em meu processo criativo. Elas me fortalecem à medida que revelam pessoas e lugares que traçam os paralelos e meridianos que me constituem. Trazem-me os campos históricos da minha essência de mulher afrodescendente. É um rico processo de (re)afirmação que se completa com o sentimento de pertença que adentra as narrativas justamente porque me atravessa. Sinto que vivo um momento abundante, de águas cujos rios confluem e se completam. A força ancestral que determinados lugares e determinadas pessoas me transmitem, me conduz ao engajamento com essas forças que são/estão em mim, fortalecendo a memória coletiva que muitas vezes é ressignificada em minha inteireza.

 

Tereza Sá / Foto: arquivo pessoal

 

DA – Tenho feito muitas andanças e elas têm me conectado a dimensões cartográficas, isso antes da pandemia ou mesmo neste momento? Sabemos que o artista, o criador tem as experiências do cotidiano como respiros para a vida, de maneira geral, e memória criativa de forma específica para as artes. Como têm sido lidar com este momento tão delicado? Há alguma criação poética deste período, em seu repertório? E mais: criticamente, como você visualiza as dificuldades oriundas do momento pandêmico para a classe artística? 

TEREZA SÁ – Infelizmente, esse tempo pandêmico fez uma ruptura nessas andanças. As rotas foram interditadas, mas boa parte das trocas permaneceu e até se fortaleceu. Realmente é um momento de extrema delicadeza e não tínhamos proporção do quanto ele remexeria nossas vidas. Eu fui extremamente afetada por essa situação. Passei momentos difíceis, inclusive precisei de ajuda profissional para superar. É triste perceber que o momento de crise, incertezas e instabilidades em vários setores do país estão atrelados a falta de ação efetiva e seriedade política no enfretamento à Covid-19 por parte de nosso governante, em esfera federal. A classe artística foi bastante prejudicada, pois foi atingida em cheio por conta do isolamento social. As casas de espetáculos e os espaços ligados à cultura foram os primeiros a serem interditados, possivelmente serão os últimos a retomarem. Muitos trabalhos foram interrompidos, projetos adiados. Tem uma frase que é atribuída a Che Guevara, mas não sei se realmente é dele, que diz: “hay que endurecerse pero sin perder la ternura”. De certa forma, isso nos descreve, nessa catástrofe. Nós não perdemos a capacidade de sonhar. Fomos verdadeiramente golpeados pela pandemia e toda sua conjuntura nos deixou um tanto endurecidos/as diante de tanto caos. Mas percebi também que em certo momento foram acontecendo determinadas atitudes isoladas e, aos poucos, como onda, foi-se ampliando e contagiando o coletivo. A classe começou a se mobilizar para fazer atuar como dava. Todo mundo se virando, usando a internet a seu favor. Isso nos trouxe novas e desafiadoras possibilidades de fazer arte. Não retomamos o fôlego ainda, pois o processo se estende e não temos a real dimensão de como/quando tudo vai se resolver, mas os artistas se reinventaram nesse cenário, o que foi muito bom. Aprendemos muito com tudo isso, principalmente a não desistir. Sabemos que o auxílio emergencial contribuiu em alguns aspectos, mas faltam políticas públicas mais eficazes nesse setor. Eu sempre afirmo que produzo no caos. Sempre tive dificuldade em afirmar-me como poeta, principalmente por não ter uma disciplina rígida com a escrita. Não sou das que organiza tempo/ambiente. Geralmente, sou arrebatada pela poesia e me flagro criando em momentos inusitados de bastante ebulição de atividades. A pandemia me pegou em um momento de conclusão de escrita de mestrado, o que gerou em mim ansiedade descontrolada. Ainda assim produzi alguns poemas. Um deles, inclusive, foi postado como vídeo-poema na página do Profundanças: Influxo. Além disso, junto com um grupo de visionários, fomos contemplados com Edital emergencial do Calendário das Artes, que resultou no trabalho Corpos Negros Insurgentes. E mais, produzi outros vídeo-poemas para @amataode e Teatro Popular de Ilhéus, em 2020. Sigo viva sonhando com novos momentos de encontros, abraços e aplausos.

 

DA – Pensando neste momento delicado que requer de nós fortaleza e lucidez, mas também capacidade de olhar além de si, em direção ao outro, como você concebe o valor das palavras humanidade e futuro, na sua criação artística e, de forma mais ampla, no sentimento do mundo?  A arte pode ser motriz de mudanças necessárias neste e em outros cenários? Se sim, de que forma?

TEREZA SÁ – A arte tem nos dado respostas, “régua e compasso”, não apenas para esse momento, mas em todas as circunstâncias de crise tem oportunizado condições de superação tanto para quem produz, quanto para quem consome. Nessa situação atual, ela vem, sim, como motriz da vida e do sonho. Dessa forma, edifica e liberta a alma do artista e de quem aprecia e a valoriza. O momento delicado, como disse, fez com que a arte se reinventasse para se fazer chegar ao público, já que a aglomeração de afetos, talentos e aplausos está restrita. Mas o poder criativo não está. A humanidade experimentou o medo, a angústia e de fato a morte. Mas a arte vem como alternativa de vida, fazendo aflorar não apenas sensibilidade do artista, aumentando seu poder criador, mas ascende o sentido da esperança. Esperança no futuro para o público em geral. A arte afeta de forma demasiada. Leva a refletir, entretém, eleva… O amanhã se viu ameaçado, mas o presente se viu validado e isso é bom. A arte é motriz de mudanças quando ela mesma muda sua configuração para chegar ao público sem perder a forma e a estética, quando aborda temas atualizados aumentando perspectivas e dando vazão às neuroses que aumentaram muito nesses tempos. A arte alerta que o que se externa pela privação é uma essência que pode ser melhorada. A arte sinaliza que o belo pode florir e libertar mentes e corações. Não está fácil para ninguém, mas o artista consegue renascer das cinzas. Aliás, Mateus Aleluia nos afirma que “o amor há de renascer das cinzas”. Eu acredito nisso.

 

Elis Matos é doutoranda em Linguagens e Representações, mestra em Linguagens e Representações (2019), especialista em Gestão Cultural (2017), bacharela em Comunicação Social (2013), licenciada em Filosofia (2009), pela UESC. Com pesquisa voltada à guerrilha literária empreendida pela escrita de mulheres em obras produzidas colaborativamente, a partir da perspectiva da Análise de Discurso materialista. Pesquisadora, professora, produtora, feminista, antifascista, acredita na construção coletiva de um mundo justo e livre.

 

 

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125ª Leva - 03/2018 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

É relevante considerar que o trabalho de um artista ganha sentido mais vigoroso quando aparece conectado às questões de seu tempo. Na verdade, estamos a falar aqui da percepção que a arte evoca quando, imbuídos da consciência de seu lugar no mundo, aqueles que labutam com a cultura conseguem comunicar o conteúdo de seu ofício de modo a refletir aspectos comuns a toda uma coletividade. De toda sorte, falar ao mundo não pode ser uma mera atitude retórica, um jogo de cena a representar algo apenas em sua superfície e aparência. Requer propriedade para além de um discurso que reflita a vivência de quem o profere.

Mas dizer as coisas todas relatadas acima é apenas um indicativo para chegar a um ponto desejado, ou seja, abrir caminho para apresentar um projeto artístico que se converte em música da melhor qualidade. É dessa forma que a trajetória de uma banda como OQuadro pode ser referenciada. Para quem ainda não conhece, importa mencionar que estamos diante de um grupo com mais de 20 anos de estrada marcados, sobretudo, pelas vias do rap. E não é apenas isso. Esse rap praticado pelo grupo surgiu e se desenvolveu ao longo do tempo dentro de um contínuo processo de diálogo com outros ritmos, principalmente os de influência africana e latina.

A junção de Jef Rodriguez, Ricô, Victor Santana, Freeza, Jahgga, Rans, Dalua e Mangaio foi capaz de produzir um todo orgânico que hoje melhor define os caminhos do grupo. Com dois discos na bagagem, os baianos de OQuadro parecem ter encontrado um equilíbrio que, na verdade, demonstra ser um misto de independência, maturidade e engajamento. Some-se a isso o fato de que suas produções, além de expressarem o resultado de um cuidadoso e coletivo processo de criação, derivam de um amplo diálogo com parceiros valiosos na estrada musical.

Na entrevista que agora segue, Jef Rodriguez, Victor Santana e Ricô falam um pouco sobre os percursos da banda em meio a uma jornada que mescla raízes, pesquisa musical, identidade e visões de mundo. Também por aqui o foco está nos desdobramentos trazidos pelo segundo disco do grupo, Nêgo Roque, lançado em 2017. O álbum, que já foi alvo de uma matéria aqui na revista, representa todo um momento de escolhas, influências e percepções dos músicos em torno daquilo que hoje melhor define sua trajetória. Por essas e outras vias, nada mais apropriado do que conferir atenção às falas de tais artistas.

 

OQuadro / Foto: divulgação

 

DA – Nêgo Roque é um trabalho que mantém aceso todo um potencial discursivo que já se tornou uma marca forte de OQuadro. Suas letras são janelas de lucidez abertas para o mundo. O olhar que não acomoda coisas é o que faz permanecer vivos os caminhos da banda?

JEF RODRIGUEZ – Sim. Existe um filtro, um processo seletivo na confecção das letras e das músicas que vêm marcando nossa caminhada até então. Não queremos que essa seleção pareça um limite, pelo contrário, é uma escolha. A pretensão é ampliar ainda mais esse raio temático para além das questões sociais. Afinal, existem muitas coisas a serem ditas. Mas existe um fio condutor, um nível de relevância que não queremos perder de vista, tanto na forma quanto no conteúdo.

 

DA – Uma das características principais da banda é o modo como as criações são pensadas e executadas coletivamente. Isso é perceptível, sobretudo no novo álbum. Qual é o maior desafio de se chegar a um resultado orgânico quando há uma pluralidade de mentes convivendo?

VICTOR SANTANA – Na verdade, não tem muito desafio. Podemos até demorar para chegar no resultado que seja bom para todo mundo, que todos concordem, mas é fácil. Uns chegam com um rif, um arranjo de guitarra, baixo, teclado, bateria ou percussão e isso vai se juntando a letras ou à ideia de algum refrão já cantado; outros chegam com um tema ou ideia de letra. Vai se juntando tudo. Todo mundo muito atento à musicalidade tanto moderna quanto do próprio grupo. E chega a um resultado fácil. O maior desafio é compor. O rif pronto, o beat pronto, a letra pronta, é só juntar. Agradar a todos também não é muito difícil. Esse disco novo foi fácil de ser feito. A gente ficou só dez dias juntos, sendo que compomos dezessete músicas nesse período. Nunca tínhamos ficado reunidos antes para poder criar essas músicas. Compomos tudo quase que do zero.

 

DA – O novo disco traz um mergulho numa perspectiva, digamos assim, mais voltada para o experimental. De que modo a escolha dos arranjos refletiu essa aposta criativa? 

RICÔ – Acho que OQuadro sempre foi experimental. Teve um momento em que criamos até um subtítulo pra gente, que era o “clube de música experimental”, pois já flertávamos com muitas outras coisas em termos de sonoridades, referências de artes plásticas, cinema etc. Então, estávamos sempre antenados com muita coisa, com estilos musicais que não fossem apenas o rap, até pra poder fazer um rap diferente. Ao mesmo tempo, tudo fluía muito natural e espontâneo. Às vezes, eu chegava com uma base pronta, daí outro complementava. Nesse último disco, acabei chegando com mais força no sentido de preparar bem as coisas antes, de vir com arranjos mais prontos, mas apontando pra questão da tecnologia que a gente não teve no primeiro. Na verdade, a gente já queria ter, mas, por algum motivo, escolhas e recursos, naquele momento ficamos mais no artesanal. Depois decidimos flertar mesmo com o eletrônico de forma mais sincera do que acreditamos, ter essas texturas, buscar essa coisa dos sintetizadores, das frequências ultra graves, enfim, e usar o rock como atitude mais do que distorção. Tem distorção no disco, mas também há várias frequências que pra gente são rock. E a postura, o nome do disco, são várias coisas que levam pra essa transgressão. Ao mesmo tempo, eu mirei muito, junto com o coletivo, a ideia de tentar um pop com conceito, inteligência. Dá pra fazer coisas sem precisar ser apelativo, fazer a galera, do mesmo jeito, entender e cantar melhor. Tivemos mais cuidado com as frases também no sentido de não ter muitos excessos, mas sim falar o que é preciso ser dito, pois às vezes falamos muito e não dizemos muita coisa, como vemos por aí. A gente tentou ficar focado na escrita e numa linguagem bem simples para que todo mundo pudesse entender o que estávamos falando. O primeiro disco tinha coisas assim, mas era muito mais complexo, mais denso, outras vivências também. Então, os arranjos refletiram justamente essa nova fase de outros contatos, outras experiências com outras músicas e pessoas. Eu, aqui mesmo no Rio, com Marcelo Yuka, vi que outros horizontes se abriram pra mim. Comecei a produzir coisas com ele e isso me deu uma abertura muito maior de música, melodia. O próprio Yuka me orientou muito pra gente, no trabalho com a banda, ir no caminho da melodia, das harmonias, da música, enfim, e não se preocupar se é rap ou se não é, sabe? Acho que vem muito daí.

 

DA – É perceptível nesse segundo disco da banda uma ampliação dos laços que remetem à matriz africana. Num tempo em que a temática identitária do povo negro vem sendo ressignificada e intensamente debatida, o que é relevante destacar?

JEF RODRIGUEZ – Em relação aos ritmos, posso dizer que sempre esteve presente desde o primeiro álbum em 2012. Em Nêgo Roque isso se reacendeu numa perspectiva mais contemporânea pelo acréscimo de elementos eletrônicos, além da conexão com outras células que agora tivemos a oportunidade de expandir. Mas o que gostaríamos de destacar como referência em relação à matriz africana é a questão humana. Existe um genocídio da juventude negra acontecendo nas periferias do Brasil e do mundo. Questões históricas que ainda não foram resolvidas e parecem distantes de uma resolução razoável. Estamos tocando no assunto de maneira direta sem medo de soar clichê.

 

OQuadro em show no Circo Voador, no Rio de Janeiro / Foto: Roncca

 

DA – O rap tem algum compromisso?

VICTOR SANTANA – O rap já teve algum compromisso consigo mesmo. Na verdade, o rap começa ali no Bronx, em Nova Iorque, sendo a voz daquele povo esquecido. Num lugar que era um super gueto, quase uma zona de guerra, com assassinatos e muitos incêndios. Se não me engano, em um ano aconteceram mais de doze mil incêndios no Bronx. Sabe o que é isso? Um bairro inteiro queimando, vários focos e essas pessoas pobres lá se lascando. Então, o rap começa primeiro como uma festa daquelas pessoas e, na sequência, torna-se um jeito de se falar sobre o assunto, já que eles tinham discotecagens e também o microfone na mão. Faziam rimas falando sobre a coisa. Aí começa o rap. Surge um compromisso de resgate das origens com artistas como Afrika Bambaataa, que começa a falar mais sobre África através da Zulu Nation. No Brasil, já se começa ali a falar sobre Zumbi, nosso herói nacional negro. Inicia aí esse caráter político. Um compromisso que fala sobre nós, pretos, o modo como vivemos e tal. Esse compromisso vem com certas regras. Todo mundo quer trabalhar, ganhar dinheiro, viver disso. No Brasil, tem uma máxima de que as coisas que fazem sucesso não dão certo, pois entraram na mídia. Nos Estados Unidos, o pessoal quer fazer sucesso e ganhar dinheiro. O compromisso passa a ser a questão de se ter dinheiro e poder sustentar a família. São vários compromissos e eles são: sobreviver, ganhar dinheiro, fazer a coisa pelo certo e protestar sobre coisas ruins que acontecem ao negro (a politização, o crime policial). O compromisso talvez seja o jornalismo em torno dessas coisas ruins e boas que acontecem no gueto contra o povo negro, chamar atenção sobre estereótipos. É abrir os olhos da população sobre as mazelas que existem. Agora, compromisso em manter-se pobre, em não fazer sucesso, não é compromisso. Os Racionais MC’s, por exemplo, tiveram como pauta nunca aparecer na Rede Globo e até hoje eles não apareceram lá enquanto Racionais MC’s, nunca tiveram música na novela, nem se apresentaram no Caldeirão do Huck e no Faustão. Muita gente entrou nessa coisa de imitar os Racionais, dizendo que quem entra na Globo é vendido, é ruim, mau, playboy etc. Então, confunde-se muito a coisa toda. O Edi Rock, que é um dos integrantes dos Racionais, foi ao Faustão mostrar um trabalho solo certa vez, teve até uma reportagem e tal. Isso não impede deles serem amigos e estarem juntos apresentando o trabalho do grupo. Você vê que Criolo vai à Globo, Gabriel Pensador também (contemporâneo dos Racionais MC’s), e nem por isso tira o mérito do conteúdo de contestação. Enfim, o compromisso é consigo mesmo, fazer seu trabalho, ganhar seu dinheiro e falar sobre as coisas que incomodam. O rap tem algum compromisso, claro, mas é mais uma condição hedonista coletiva, se é que é possível dizer assim (risos), do que um conjunto de regras que te impedem. Não, elas não te impedem, te motivam.

 

DA – Como fazer arte num país que parece cada vez mais desintegrado politicamente?

JEF RODRIGUEZ – Penso que essa desintegração sempre existiu, a novidade em relação a isso é a consciência da mesma. Em momentos de crise econômica, o primeiro corte que o cidadão brasileiro faz é no consumo de cultura. Não fomos educados a entender as manifestações artísticas/culturais como elemento fundamental no processo educativo, no exercício intelectual, na construção de referências para um jovem em formação. A retirada das disciplinas como sociologia e filosofia da grade curricular obrigatória só confirma o tipo de cidadão que se espera formar no modelo educacional vigente. No caso específico do OQuadro, fazer a música que fazemos e como a fazemos já é uma luta política por natureza. Por não ser um rap convencional, por ser do sul da Bahia, por não fazer parte de nenhum grupo de amigos do meio. É um caminho árduo, mas o resultado tem sido sincero.

 

DA – Vocês têm ideia de qual lugar ocupam no cenário contemporâneo da música independente?

RICÔ – Acho que a gente ocupa um espaço interessante na música, e flerta com muita coisa moderna que vemos não só no Brasil, mas no mundo mesmo, sendo modesto. Pelo que já andamos pelo mundo, em alguns festivais, pequenos e grandes, estávamos sempre sendo colocados num lance mais moderno, experimental. E sempre as pessoas descrevem nosso trabalho, pelo menos no olhar de fora, como uma coisa de vanguarda. Uns acham que é um rock de vanguarda; outros acham que é um rap de vanguarda. Isso é bom porque mostra várias facetas nossas. No Brasil, tem muita gente interessante, mas, misturando o som do jeito que fazemos, na base do rap com várias outras coisas, não há muitos artistas. Infelizmente, o reconhecimento ainda não aparece em números, palpável, em termos de público Brasil afora também. Temos a consciência da importância daquilo que estamos fazendo. Não sei se agora, mas, de repente, num futuro próximo seremos mais reconhecidos, enfim. Mas é isso, estamos trabalhando e seguindo esse mesmo objetivo.

 

DA – As plataformas digitais modificaram profundamente o comportamento da indústria fonográfica. Para os artistas independentes, isso representou a necessidade de uma consolidação de espaços próprios, dando-lhes certa autonomia na produção e divulgação de conteúdos. Como prosseguir nesses verdadeiros lugares de resistência?

VICTOR SANTANA – As gravadoras perderam o poder, inclusive sobre os artistas. O trabalho para o artista fica mais pessoal mesmo. Na verdade, tem que procurar divulgar seu trabalho usando as plataformas digitais, que são uma facilidade para uns e extremamente difíceis para outros. Acho que você tem que ter assunto para ser atual ou uma relevância artística muito peculiar, algo que chame atenção de todo mundo. Na época das gravadoras, eles meio que empurravam isso, pagavam o tal do jabá, botavam para tocar nas rádios, no Faustão etc. Ainda tem isso dos produtores que pegam a grana e pagam rádios para fazerem divulgação, mas, em termos de plataforma digital, ou você tem um conteúdo muito foda ou tem que estar ligado nas tendências e tal. Tem uma coisa que acontece, uma pauta justa, muito séria, que é a dos músicos LGBT, e esses músicos, hoje em dia, estão em ascensão, não necessariamente pela qualidade extrema do seu som, mas pela pauta, pelo assunto. Então, às vezes, o cara não é um bom músico, cantor ou rapper, mas a pauta está em voga. Tem a coisa do feminismo mesmo, que é necessária, mas tá acontecendo uma, não sei se posso dizer, supervalorização, algo que está além da qualidade artística. Os youtubers, por exemplo, têm textos engraçados, pessoas que falam coisas legais, de acordo com certa juventude, e aí já funcionam, ganham dinheiro logo no próprio Youtube. Um super vídeo de um rapper da moda já faz dinheiro logo no Youtube antes mesmo do artista sair pra fazer show. Então, as pessoas estão se preocupando com esses conteúdos e, de repente, esquecendo o conteúdo real de sua arte. Para quem está preocupado só com a arte é difícil se adequar a umas coisas assim, apenas pela “modinha”. É uma faca de dois gumes. Por um lado, é independência; por outro, é estar atento às novas plataformas. Não dá para ter certeza sobre nada. Você pode fazer um clipe bobo e virar uma coisa assistida por quinhentos milhões de pessoas. Ao mesmo tempo, outras pessoas nem atingem essa visualização, sendo que fazem um trabalho com a qualidade bem boa.

 

OQuadro em show na Concha Acústica de Salvador / Foto: André Fofano

 

DA – Desde o primeiro disco, vocês sempre se aproximaram de parceiros importantes, principalmente no processo de produção. Que tipo de buscas marcam esses diálogos com outros artistas?

VICTOR SANTANA – No primeiro disco, a gente procurou Buguinha Dub porque era um cara mais acessível e que tinha trabalhado com bandas que eram referência pra gente, como Nação Zumbi, Mundo Livre S/A. Tinha a proposta do dub, que é um estilo de som jamaicano, psicodélico e tal, que nem ficou tão presente assim no disco como eu, por exemplo, imaginava, mas ficou o peso do dub com os baixos e bateria pra frente, fortes. Gravamos ele num estúdio que era bom e que atendia a nossas necessidades através do projeto da Vivo. Por acaso, foi o estúdio de Guilherme Arantes e a gente não contava com esse artista lá, mas aí ele apareceu e participou do disco. Ainda nesse álbum, tivemos Lurdez da Luz, que é uma rapper de São Paulo, e que trouxe ideias para fazer um refrão ou parte de música. No primeiro disco, não houve uma busca, as coisas foram acontecendo naturalmente. A mix foi de Buguinha Dub e a master de Gustavo Lenza, que foi quem trabalhou com Chico Science e Nação Zumbi, no Afrociberdelia, um disco de bastante referência pra gente. Para o Nêgo Roque chamamos Basa para produzir porque ele é o produtor de um grande disco de rap do Brasil, que é o Babylon By Gus, de Black Alien. Já tínhamos trabalhado juntos com esse produtor num evento em Itacaré, o Conexão Vivo. A gente pensa qual artista pode contribuir com o trabalho. Nunca é pelo nome, mas pelo que pode ser aproveitado. É dizer “nessa música caberia uma rima de Snoopy Dogg” sem que se tivesse acesso a Snoopy Dogg naquele momento. Foi o que aconteceu, por exemplo, com Indee Styla, que se tornou nossa amiga, com os caras do Attoxxá, que também estiveram junto conosco. A gente pensou em nomes pra atingir certas necessidades nossas. Poderia ter sido Pablo Vittar para um agudo, Baco e Vandall numa música y, porque o beat é um trap que combina com esses dois caras. Poderia ter sido Pitty em Nêgo Roque para fazer o refrão, ou seja, uma mulher que dá uma outra tônica, BNegão, ou Yuka falando alguma coisa. E a gente sempre pensando na música e não no artista. Com quem temos acesso, obviamente entra com mais facilidade. Pensamos em muita gente pra produzir até chegar em Rafa Dias, que era quem estava mais próximo da gente e entendia nosso conceito muito mais facilmente.

 

DA – De que modo uma banda que se originou em Ilhéus, no interior da Bahia, hoje, tendo alcançado alguma projeção, olha para suas raízes?

JEF RODRIGUEZ – Ilhéus é e sempre será o berço d’OQuadro, temos um cordão umbilical com vínculo eterno. Mas não me identifico com a cidade enquanto instituição, ela não foi feita para pessoas como nós. Vivemos aí tempos de um amor não correspondido. Testemunhamos desde sempre gestões que se apropriam de uma cidade que é projetada pela cultura, mas não devolvem a esse setor o mínimo de investimento que possa fomentar o nascimento de novos Jorges. Quem faz arte em Ilhéus, faz por amor, sem contar com incentivos ou iniciativas que projetem trabalhos autorais com o mínimo de dignidade. Pelo contrário, desenvolvem em nós um complexo de vira-lata, onde sentimos a obrigação de ser menor diante de qualquer manifestação artística que venha da capital ou de outro estado, o que é um exercício prático de autoestima baixa, de autodestruição. Nesse sentido, prefiro olhar para Ilhéus pelos vínculos com nossa família e amigos que nos incentivam sempre.

 

DA – Hoje, com mais de 20 anos de estrada, é possível dizer que a banda atingiu uma maturidade musical desejada?

RICÔ – Acho que a gente atingiu uma maturidade enquanto também pessoas, seres humanos, e nas questões das vivências, tanto pessoais quanto profissionais, pois a gente fica em lugares diferentes, vivendo coisas diferentes, e quando junta isso tudo, vem essa maturidade também da relação com outras pessoas, outros músicos e artistas. Isso influi totalmente na produção do som, do disco. Então, Nêgo Roque mesmo teve muita coisa das vivências que eu tive aqui no Rio com outros artistas, outras experiências de som, de imagem, de tudo, assim como a galera também teve. Quando nos juntamos, estávamos cheios de referências. Nesse disco, conseguimos expressar melhor o que queríamos, coisas tecnológicas. Então, tivemos todo o acesso possível pra construir isso. Não tivemos tanta limitação pra conseguir as coisas, pois contamos com pessoas trabalhando conosco para que conseguíssemos tirar o som da melhor maneira. Construímos coisas do jeito que a gente pensava, com bem mais facilidade, experimentalismo, direcionamento. Então, esse é um disco com certeza bem maduro. Claro que a arte sempre te dá a possibilidade de fazer mais, depois você reflete sobre o que poderia ter feito, mas têm sempre ene possibilidades, pois a gente não termina um disco, a gente desiste dele, senão a coisa vai se transformando e não tem fim. Partindo desse princípio, foi uma desistência madura (risos).

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

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106ª Leva - 09/2015 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Premedito o encontro com meu entrevistado sem que ele sequer desconfie. Aguardo paciente, porém não menos ansioso, pelo momento de conversarmos. O ano de 2015 já começa a desferir seus últimos golpes. É uma tarde quente de sexta-feira e, enquanto espero o meu alvo de interlocução findar suas tarefas profissionais, vislumbro cenários possíveis para nosso diálogo.

Há uma certa magia a envolver a pessoa de Adalmiro Leôncio da Silva. Estamos na litorânea cidade de Ilhéus, no sul da Bahia, e nessas paragens ele não é conhecido pelo nome de batismo que acabo de mencionar. Ao se pronunciar o nome Sabará, é difícil encontrar alguém, sobretudo no meio cultural daquela região, que pelo menos não tenha ouvido falar da representatividade desse consagrado artífice da música.

Contabilizando, como ele mesmo sustenta, seus bem vividos 81 anos, Sabará iniciou a vida artística em torno dos 11 anos de idade. Entrou no mundo da percussão, especialmente na bateria, em Ilhéus. Como baterista, acompanhou grandes nomes da música brasileira. Colecionou encontros com figuras de relevante expressão artística, o que o fez expandir seus horizontes profissionais. Há mais de 50 anos, aprofundou-se nos estudos e vem dando aulas de bateria, ofício que sem dúvida alguma ocupa um sentido especial em sua trajetória.

No contexto da música da Bahia, a reverência à expressão de Sabará é algo patente. Uma atmosfera de refinamento e sabedoria ronda a imagem desse artista, tornando-o alguém notadamente popular. Ao mesmo tempo, o modo como ele se dedica ao incessante ato de ensinar bateria a pessoas de todas as idades, driblando os arremates do tempo, chega a assumir uma feição eminentemente poética.

Nesse diálogo que agora fica aberto aos leitores, Sabará compartilha saberes e sabores de sua trajetória. Entende a música como sua genuína forma de oração pessoal e ressalta o compartilhar do conhecimento como um dos traços fundamentais de sua existência. É conversa que emprega um ânimo renovado, principalmente para quem concebe a vida como um ciclo dinâmico e espirituoso.

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Sabará / Foto: Fabrício Brandão

DA – Num determinado momento, você identificou a necessidade de sistematizar o estudo da bateria, incluindo o aprendizado da teoria, mudando um modelo que andava meio obsoleto na região em que vivia. Como se deu esse processo?

SABARÁ – Era realmente uma necessidade fazer. Na época, eu tocava no Lorde Hotel, do saudoso Nelson Muniz Barreto, e recebi uma visita de um músico russo famoso, chamado Henry Polar. Ele e a esposa. Henry fazia o violino; ela, a coreografia. Então, na sala de visitas do hotel, onde eu era o baterista, haveria um show com esse violinista consagrado. Foi nesse momento que eu percebi que tocar apenas não era o bastante. Era preciso aprender a teoria musical, a linguagem do instrumento, e fazer aí a base para se tornar um músico profissional. Quando Henry trouxe as partituras, eu fiquei sem saber o que fazer, não consegui tocar no show. Foi quando eu decidi aprender algumas coisas, fiz alguns cursos e falei com muitos bateristas da região sobre a importância de se dominar aqueles conhecimentos, pois imaginava que as exigências do mundo iriam mudar a maneira de ser dos músicos do interior. Pessoas competentes e com capacidade musical superior ao que fazíamos iriam chegar até nós e precisaríamos ficar sabendo sobre aquilo. Foi aí que eu instalei um curso de bateria do qual saíram alunos músicos que hoje estão espalhados por diversos cantos do país e do mundo. Era imperativo realizar isso, pois não se justifica ser um profissional sem estar capacitado para tal.

DA – Naquela época, essa mudança de paradigma causou algum estranhamento, uma espécie de resistência entre os músicos?

SABARÁ – Sim. Alguns chegaram a dizer que não era necessário aprender porque julgavam que já tocavam bem e sabiam acompanhar as músicas da época. No entanto, aos poucos, eles foram mudando de opinião, perceberam a necessidade e passaram a estudar. O princípio de estudo que eu lancei em Itabuna ajudou a mudar esse panorama.

DA – É uma grande fantasia supor que um músico conduz sua carreira apenas com os ouvidos, sem ter uma noção teórica ou saber ler uma partitura?

DA- Exatamente. É necessário se informar e formar consciência do conteúdo com o qual se trabalha. Quando eu falo da interpretação, digo que quando um músico tem uma partitura em mãos ou não, ele tem que tocar com sentimento. Isso leva o músico a expressar o que vem de dentro. Como digo sempre, as interpretações estabelecem os contextos onde os elementos da música ganham significado. Aquele que está executando a música tem, antes de tudo, consciência de causa, ou seja, de conteúdo. Juntando isso ao sentimento, o músico cresce. O que está ali escrito é algo inanimado, sem vida, e quem vai incitar aquilo a ganhar corpo é o músico, o intérprete. Isso é o óbvio ululante (risos). É uma questão de sensibilidade.

DA – Em sua trajetória, você acompanhou diversos músicos, cada um com sua devida importância. O que dizer dessa experiência?

SABARÁ – É justamente nesse ponto que eu ressalto a importância do conhecimento a respeito da teoria. Foram muitas as experiências, mas cito algumas delas, como é o caso de ter tocado com artistas como Cauby Peixoto, Wanderley Cardoso, Adriana, Joelma, Tito Madi, Nelson Ned, Wando, Osvaldo Fahel, Miltinho, dentre outros mais.

DA – Sua formação vem do contexto de banda de baile, não é?

SABARÁ – Exato. A banda de baile, para quem não sabe, é uma verdadeira escola na qual se tem o conhecimento de todas as estruturas musicais ou rítmicas, sobretudo dos estilos populares brasileiros. Você toca do maracatu ao axé. Hoje, por exemplo, o axé é um movimento que tem uma interferência muito grande na coisa da dança de rua, e o baterista tem que saber tocar. Inclusive, o baterista tem que ser eclético, pois o baile exige muito, da valsa ao axé, sem falar em ritmos como a salsa, dentre outros tantos. Até o hino nacional brasileiro nas comemorações cívicas a banda de baile toca (risos).

DA – O grande desafio do músico é ser versátil?

SABARÁ – Sim, e estar sempre a par do que acontece, pois o Brasil, por exemplo, é um país que sempre lança coisas novas. Eu costumo dizer, em algumas oportunidades, que a arte inaugura, de tempos em tempos, formas de tornar presente o inexplicável. O que é que é isso? Você está aqui hoje, vivendo o axé, o arrocha, e daqui a algum tempo vai perceber um outro ritmo, uma outra denominação, outra maneira de tocar e dançar gerada a partir desse conhecimento e enorme variedade de ritmos que o artista tem a sua volta. De repente, ele consegue construir uma consciência cultural ampla pelo fato de experimentar essas várias estruturas rítmicas.

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Sabará / Foto: Fabrício Brandão

DA – A gente sabe que vive num país onde a cultura popular tem um apelo muito forte. E há questionamentos antigos que acabam implicando em juízos de valor sobre o que presta ou não nessa seara. O que você pensa a respeito disso? Não há ritmo ruim?

SABARÁ – Sua pergunta é pertinente. Existem músicas que estão aí fazendo sucesso pela capacidade de observação mal orientada do povo brasileiro. Há músicas de péssima qualidade, do ponto de vista de harmonia e melodia. Existem músicas intelectualmente pobres, com letras vazias e há também aquelas apelativas dizendo coisas que nada têm a ver em relação a um trabalho de arte. A arte é única. Não existe arte pior nem melhor. Agora, quem sabe fazer mais, faz mais.  Como dizia um músico, do qual não me recordo agora, não existe música ruim, existe música mal tocada. Não tenho nada contra nenhuma forma de manifestação artística. Qualquer manifestação artística é ótima, válida. Se é bem feita, realizada com inteligência, ou se é algo que se merece gostar e apreciar, é uma questão de gosto, é diferente. Tem gente que fala mal de músicas tocadas em dois tons. Conheço canções tocadas em apenas três tons e que são ótimas. A coisa está na forma, na capacidade de quem produz. Essa que é a realidade.

DA – Na sua vivência com a música, tanto do ponto de vista da escuta, da percepção, quanto da experiência de ter tocado com artistas de todo os estilos, o que essencialmente marcou o seu trabalho?

SABARÁ – Tive o prazer de tocar com Humberto Clayber, um dos maiores gaitistas do mundo, e para mim foi um sonho realizado, até porque ele era também o baixista do Sambalanço Trio, compondo o conjunto com Airto Moreira, na bateria, e César Camargo Mariano, no piano. Era um grupo que ali, na época da bossa nova, me emocionava demais. Certa vez, em Ilhéus, eu e Clayber fizemos um show juntos e foi um verdadeiro sucesso. A casa estava lotada e, do lado de fora, ainda tinha muita gente querendo entrar. Foi uma experiência que me marcou demais por poder tocar com um músico como ele. Outros também foram importantes, como foi o caso de acompanhar Cauby Peixoto, que fazia um sucesso e tanto na década de 60. Talvez as pessoas de hoje não lembrem muito bem, mas havia também o Nelson Ned, que era conhecido como o “pequeno gigante”. Para mim, que fui criado numa localidade pequena de Ilhéus, chamada Banco Central, na fazenda de meu avô, e depois poder conhecer pessoas de relevância musical, evoluir na profissão e testemunhar também o crescimento de músicos que foram meus alunos, hoje espalhados em diversos cantos do mundo, é uma emoção muito grande. Por tudo isso, me sinto realizado. E quisera eu ter podido dar uma canja com os Beatles, com George Benson (risos).

DA – Você passou um período tocando no Rio de Janeiro. Como foi essa fase?

SABARÁ – Eu tocava numa boate chamada Balalaika, em Copacabana. Muitas vezes, depois das apresentações a turma saía em direção ao famoso Beco das Garrafas. Foi nesse contexto que eu troquei ideias com bateristas muito bacanas, como Dom Um e Milton Banana. Não cheguei a estourar e ficar famoso, mas me sinto realizado. Quando retornei à Bahia e vim morar em Itabuna, fui conquistando reconhecimento a ponto das pessoas me chamarem de mestre Sabará, isso e aquilo. Quando as pessoas me chamam de mestre, digo que isso se dá por reconhecimento e respeito, não por desempenho acadêmico que o possuísse por direito. Tenho consciência disso.

DA – Ali no Rio você teve a possibilidade de acompanhar a efervescência da Bossa Nova. O que significou testemunhar tudo isso de perto?

SABARÁ – Eu morava em Realengo, era bem jovem e, naquele momento, não tinha noção da importância daquele movimento. Nem mesmo aquela turma que se juntava no apartamento da Nara Leão, com João Gilberto e tantos outros, sabia o que era a Bossa Nova, até porque não se sabia o que se estava fazendo. Mais adiante, o termo surgiu de modo informal. Eu mesmo só fui sentir a grandeza disso tudo algum tempo depois, quando a coisa estourou e, na maioria das grandes cidades brasileiras, se fazia o chamado power trio, que era composto de piano, baixo e bateria para tocar o gênero. Nem mesmo o próprio João Gilberto, que saiu lá de Juazeiro, tinha ideia de onde o movimento iria chegar. Eu só lamento que a coisa tenha se perdido um pouco hoje em dia, talvez pela enorme quantidade de ritmos que surgiram no país. O próprio Tio Sam, naquela época, ficou com receio daquilo tudo, até mesmo quando abriu as portas do Carnegie Hall. A Bossa tem seu lugar hoje em dia, mas me parece que para poucos.

DA – Assim como a Bossa Nova, o Tropicalismo também fincou suas bandeiras. De que modo você acolheu esse movimento?

SABARÁ – O Tropicalismo foi importante porque quebrou estruturas musicais. E o novo, além de ser diferente, provoca curiosidade. Era uma bandeira forte. Vou até fazer uma brincadeira: o Brasil por ser um país tropical é tropicalista sempre (risos).

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Sabará / Foto: Fabrício Brandão

 

DA – Você é saudosista?

SABARÁ – Todos nós somos. Quem disser que não, está mentindo. De uma maneira atávica, você volta ao passado.

DA – Aquele menino que nasceu em Banco Central tinha a mínima ideia de que trilharia um caminho com a música?

SABARÁ – Não. Eu, menino correndo as roças de cacau, subindo em pés de jaca, tomando banho de rio, brincando de picula, jamais poderia imaginar.

DA – O rádio compôs a sua primeira memória musical naquele período?

SABARÁ – Sem dúvida. E vou dizer uma coisa que marcou e que não é música. Lá na fazenda, ainda garoto, meu avô comprou um rádio que na época era ligado numas baterias que mais pareciam essas de carro. Nunca esqueci a marca do rádio. Era Mullard, com dois ganchos que se ligavam à bateria. E a minha família se reunia em torno do rádio para ouvir uma novela chamada “O Direito de Nascer”. Olha que coisa! Ficou na minha mente até hoje. Assim como ficou também a paisagem, aquele cheiro de roça, ambientes que nem existem mais. Portanto, não vá em busca do passado porque ele não mais existe. Está dentro de nós.

DA – O nome Sabará vem de onde?

SABARÁ – Ah! Que coisa incrível! Essa é uma das coisas que não entendo porque aconteceu comigo. Eu torço pelo Flamengo. Quando cheguei para jogar na praia em Ilhéus, havia os famosos babas, que era como se chamavam as partidas. Eu, modéstia à parte, era bom de bola e, pela ponta direita, era um raio, driblava bem. As pessoas começaram a me apelidar de Sabará porque havia no Vasco da Gama um ponteiro direito com o mesmo nome e características de jogo. Ficou esse nome. E na música também pegou.

DA – Nessa sua faceta de professor, o que foi determinante para você criar um método próprio do ensino de bateria?

SABARÁ – Quando eu descobri a possibilidade de estudar bateria, fiz cursos com Reinaldo Martinelli Filho, que era um músico de formação acadêmica, Phd em música na Alemanha. Fiz também um aprendizado sobre divisões com o professor Florisvaldo, que era o mestre da filarmônica de Ilhéus. Esse conhecimento me deu a oportunidade de passar as informações. Então, o que eu aprendi nesse contexto, além de ter estudado em livros e outros materiais, me deu condição de passar exercícios aos meus alunos. Agradeço muito ao professor de música Aderbal Duarte, da Universidade Federal da Bahia, que me enviou um livro de suma importância na aplicação dos exercícios.

DA – Há um sentimento especial no resultado desses mais de 50 anos de ensino?

SABARÁ – O de ver alunos meus tocando profissionalmente em diversos lugares do mundo. Fico satisfeito porque o trabalho deu a alguns perspectivas de vida.

DA – O quanto Sabará conhece Sabará?

SABARÁ – É uma pergunta profunda demais. Conhece-te a ti mesmo, já disse o homem lá. E não é tão simples conhecer a si próprio. Ninguém se conhece inteiramente. Então, eu diria que sou um cão que ladra para os que me amedrontam, adulo os que me tratam bem e mordo os maus (risos).

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

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100ª Leva - 03/2015 Dedos de Prosa Destaques

Dedos de Prosa I

Marcus Vinícius Rodrigues

 

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Foto: Gabriel Rastelli Quintão

O sabor dos anjos

Por trás da vitrine, o olhar e o doce. O sonho brilhava encoberto em açúcar, minúsculos cristais faiscantes sob a luz da vitrine. Abel, ainda pequeno, com os olhos na altura do doce, uns olhos arregalados para o recheio de goiabada que escorria, olhos de quem adivinha um sabor nunca experimentado. Do outro lado, além do sonho, o filho do padeiro, um pouco mais alto, um pouco mais velho. Eles se viram aquela vez e, por muitos anos, não se conheceram.

*

— Oi! Me vê aquele quindim ali?
— O maior?

A resposta foi um sorriso entre as bochechas gordinhas.

— Você eu não conheço.
— Meu pai é o dono.
— Ah! É verdade. Tinha um garoto aqui quando eu era criança.
— Eu.
— E…

O outro sorriu.

— Eu morava com minha mãe.

Abel sorriu um sorriso de compreensão. Agradeceu o doce e foi saindo.

— Meu nome é Amaro.

Abel se virou da porta interrogativo e apontou para o alto. Amaro fez um gesto conformado. Padaria Santo Amaro.

A padaria ficava numa esquina e o letreiro se repetia para cada uma das ruas. Letras vermelhas sobre um fundo amarelo claro. Há muito já não tinha a imagem do santo, de quem Abel tinha uma lembrança apenas vaga.

**

— Já pensou se fosse Santo Expedito?
— Ou São Basílio.
— Santo Antão.
— Sabia que tem um São Frutuoso?
— Nossa! Ia ser muito pior.
— Eu não gosto é do José.
— Eu também tenho José.

José Amaro e Abel José. Eles riram da coincidência e se reconheceram ainda mais como amigos.

— Uma prima me chama de Belzebu.
— Por quê?
— Bel, Zé, ela foi juntando e lembrou do danado. O apelido pegou.
— E você é assim endiabrado?

Riram. Amaro estendeu um doce para o novo amigo. Abel sequer perguntou do que se tratava. Colocou o doce inteiro na boca. Um gosto de amêndoas lhe invadiu a boca.

— Beijinho de freira.
— Humm!
— Gostou?
— Acho que comi o papel junto.
— Não é papel, não. É uma hóstia.

Amaro falou para o novo amigo do desejo de colocar novos doces para vender. Pensava em recuperar o ar de padaria portuguesa que tinha no tempo do avô. Estava experimentando receitas.

— Eu gostei. Vou querer experimentar todas.
— Vou querer que você experimente.

Quem acompanhasse a conversa dos dois jovens poderia perceber que havia ali um encontro.  Eles eram tão diferentes. Amaro era alto e magro, uma pele levemente morena, uma morenice mediterrânea, coberta por longos pelos negros. Abel era mais branco, uma brancura também mestiça, sem os avermelhados dos brancos do norte. Tinha os cabelos também muito pretos, mas não tinha pelos. Era gordinho. Braços e pernas roliços escapando das camisas e das bermudas. Amaro tentava disfarçar, mas quase sempre seu olhar escorregava para aquelas partes do amigo em que a carne forçava os tecidos das roupas. Tinha sido assim desde que o tinha visto saindo da padaria com um quindim. Abel tinha as pernas grossas sustentando uma bunda volumosa. As gorduras sem exageros doentios faziam curvas sinuosas e pareciam dançar quando ele andava. Amaro quis chamá-lo, retê-lo um pouco mais, mas não sabia como. Foi assim que gritou o próprio nome para o rapaz.

Depois daquele primeiro encontro, não viu a hora de ver o rapaz de novo. No dia seguinte, mesmo sem estar previsto, fez mais quindins. Escolheu de propósito formas maiores. Abel retornou, mas não quis o quindim. Preferiu uma tortinha de limão. Depois, no outro dia, quis um brigadeiro. No fim de uma semana, já tinha experimentado todos os doces da vitrine. Um por dia. Amaro percebeu seus olhos procurando alguma novidade. Lembrou-se do sonho.

— O recheio desse é de creme de baunilha.

Abel mordeu o doce num prazer genuíno. Logo depois, entretanto, o brilho nos olhos diminuiu. Não havia mais novidade. Ele comia o doce com avidez ainda, mas uma avidez tensa, de quem apenas se deixa levar.

— Você tem tempo?
— Hum?

Amaro foi para a cozinha. Uma rápida mistura: açúcar, manteiga, farinha de trigo, baunilha. Um forno quente, um pouco de conversa. Logo, os biscoitos ficaram prontos.

— O que é isso?
— Areias de Cascais.
— Bom!
— É o que há de mais simples em doces.
— Nunca tinha experimentado.

Amaro sabia. Abel gostava da novidade, sabores novos, mesmo que fossem simples.  Foi assim que ele começou a seduzir o amigo. A cada dia fazia um doce diferente. De simples biscoitos de natas a bocas de damas. Fez os mais diversos manjares, ambrosias, madalenas, pães-de-ló. Não faltaram os pastéis de Belém e outros doces de convento. Amaro seguia as receitas de um livro antigo do avô. Abel vinha todos os dias para experimentar a novidade. A cada dia, Amaro se mostrava mais próximo. Abel já não era um mero cliente. Era convidado para a cozinha onde podia ver os doces sendo feitos. Lambia as massas cruas das panelas, provava cada etapa até o doce estar pronto. Ele se perdia num labirinto de sabores às vezes tão iguais, mas sempre apresentados de maneira diferente. E enquanto o menino guloso se lambuzava nas delícias, Amaro se deliciava de ver as bochechas gordinhas, os braços roliços que pegava com as mãos cheias para mostrar ao amigo alguma panela fervente. Ele degustava o corpo do rapaz aos poucos, em esbarrões casuais, em gestos fraternos. As coxas de Abel eram tocadas na espontaneidade de uma piada. O corpo todo do jovem se debruçava sobre Amaro numa tentativa de alcançar um doce que lhe era negado. Eles viveram essa dança por semanas. Um encontro de desejos. Encontro? Assim pensava Amaro.

— Hoje à noite vou fazer papos de anjo.
— Hum. Eu gostei desses.
— Mas vou fazer diferente: papos de anjo na hóstia…
— Quer me ver fazendo?

Abel voltou à noite quando a padaria estava fechada. Amaro lhe abriu a porta dos fundos, apenas o suficiente para o rapaz passar roçando no outro. Amaro sentiu a bunda inteira do rapaz passar por seu corpo. Chegou a estremecer.

Abel perguntou dos doces, os papos de anjo de que já tinha gostado tanto.

—Antes você vai experimentar esse bolo dos anjos.

Era um bolo de claras, muito leve. A forma estava de ponta cabeça equilibrada no alto de uma garrafa.

— O que é isso?

Abel estava maravilhado.

— É um bolo tradicional americano. Tem de deixar esfriar assim, se não murcha. Tinha de aproveitar as claras, né.
— Podia ter engomado umas roupas.
— Da próxima vez traga suas camisas.
— Prefiro experimentar esse bolo.

Amaro desenformou o bolo. Era levíssimo. Abel comeu aos bocados.

— Parece mesmo comida dos anjos.

Falava de boca cheia. O bolo era tão leve que logo já tinha comido a metade. Enquanto isso, Amaro colocava a massa dos papos de anjo em hóstias, fechava-as como um pastel, besuntava de gemas e passava em açúcar.

— Agora experimenta os papos de anjo desse jeito.

Pegou um dos doces e ofereceu a Abel diretamente na boca. O rapaz mordeu o doce no meio. A Hóstia partida deixou escorrer o creme pelo braço de Amaro. Num gesto instintivo, o rapaz lambeu o braço do amigo. Junto com o doce, os pelos longos e negros do braço foram sugados. O suor se intrometeu no meio do doce. Uma mistura alegre e inusitada.

Amaro percebeu o maravilhamento do outro. Então, espremeu mais creme no braço e ofereceu. Abel hesitou. Antes, tinha lambido por reflexo, dominado pelo desejo do doce. Agora, sentia que não devia. Lamber um homem? Nunca tinha querido isso. Não gostava. Mas aquele gosto? O sal misturado ao açúcar e às gemas?  Ficou uns instantes parado olhando para o amigo. Entre eles, o doce. Amaro rasgou outro envelope de hóstia e espalhou mais creme. O braço estava todo lambuzado de papo de anjo.

Abel não resistiu. Dessa vez, talvez porque já não era um ato impensado, talvez porque sabia do passo além que dava, lambeu o braço devagar. Assim, o gosto lhe veio mais calmo, mais definitivo. Parecia que experimentava uma revelação. Depois daquilo, sentia que não se contentaria com nada menos.

Lambia o braço peludo do amigo. Lambia meticulosamente. Lambia o creme e lambia o braço sem creme. O doce e depois o sal. Abria a boca para sentir ambos na língua. Os olhos fechados. Deleitava-se.

Amaro extasiava de sentir aquela boca suave na própria pele. Sentia-se beijado. E, vendo na bochecha do outro um pouco de creme, não resistiu. Sentia que também tinha o direito de provar o doce e provar o outro. Avançou sua boca, primeiro no creme; depois, direto nos lábios de Abel. Não lambia. Beijava.

A reação foi susto e rejeição. Abel o empurrou com força quando a língua já lhe entrava pela boca a dentro. Não teve sabor, não teve prazer. Ele não saberia, depois, descrever o que sentiu. Não sentiu nada. Talvez, bem mais tarde, chegasse a compreender que era simplesmente isso: não gostou, não se sentiu atraído, não desejava. Aquela ausência de querer, para alguém que era movido pelo desejo de experimentar, era assustadora. Talvez porque fosse um homem? Talvez porque nunca tivesse pensado a respeito? Talvez porque fosse além do paladar e esse era o único sentido que importava para o rapaz. Abel fugiu.

Amaro se sentiu perdido. Até aquele momento achava que vivia um perfeito encontro de desejos; o seu pelo amigo, um desejo de pele e de amor; e o do amigo, um desejo talvez mais difuso, mas ainda assim um desejo por si. Ele acreditava nesse encontro, nesse ponto de chegada de dois caminhos. Só depois de ser empurrado com força — e Abel era forte—, é que se deu conta de que os desejos apenas se cruzavam e se atravessavam. Ele via a gula de Abel como um reflexo de seus desejos. Não era isso. Descobriu não um reflexo, mas uma refração. Um desvio, um trágico desencontro. Abel fugiu e ele ficou só em meio aos doces com nomes de anjo.

***

Abel saiu da padaria assustado. Pensou que talvez tivesse culpa pelo que tinha acontecido, mas repetia pra si mesmo: eu não imaginava, eu não imaginava. Dizia e não conseguia apagar as imagens do amigo tocando em seu braço, em sua perna. E no meio das imagens, os doces; tantos sabores delicadamente diferentes e iguais, como um contínuo crescente. Amaro tinha lhe seduzido com aquele desfile sem fim. Ele se deixava levar feliz, guiado pelo desejo de mais um novo sabor; e, então, o sal no braço do amigo, o suor nos pelos. Aquela incrível descoberta. Abel seguia pela rua meio tonto. Resolveu sentar numa escadinha de tijolos de uma casa abandonada. As mãos sujas de açúcar apoiadas no degrau descarnado. O açúcar, a gordura, o barro. Abel sentiu aquela textura. Olhou aquela nova mistura nas mãos. Um comando de aventura na cabeça. Será? Pensou uma última hesitação antes de lamber as pontas dos dedos.

Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-BA e vive em Salvador. Escreve ficção e poesia. Publicou os livros “Pequeno inventário das ausências” (Poesia, Prêmio Fundação Casa de Jorge Amado, 2001); “3 vestidos e meu corpo nu” (Contos, P55 Edições, 2009), “Eros resoluto” (Contos, P55 Edições, 2010),  “Cada dia sobre a terra” (Contos, Ed Caramurê/EppPublicidade, 2010) e “Se tua mão te ofende” (Novela, P55 Edições, 2014).  Participou de várias antologias poéticas, além de figurar no volume “Anos 2000 – Coleção Roteiro da Poesia Brasileira” (Global Editora, 2009). Mantém o blog Café Molotov.  

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99ª Leva - 02/2015 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Com quais arroubos se faz um poeta? Por mais que tentemos mensurar, a resposta é imprecisa. E é bom perceber que supostas definições para tal indagação não seguem uma orientação cartesiana das coisas. Mais ainda, é preciso que nos alimentemos da falta de explicação. Noves fora nada, o saldo da dúvida é muito mais atraente.

Quem escreve poesia não intenta clarificar verdades absolutas. Pelo contrário, semeia interrogações e alguns desassossegos. Não é um ser divino. Apenas olha o mundo com a sensação de que se não flutua em torno dele, mergulha fundo no oceano dos mistérios para depois constatar que é tão comum quanto qualquer mortal. Se o resultado dessa experiência implica em estranhamento ou encantamento, talvez consigamos ler tais marcas travestidas em versos.

Ler a obra de um autor não é suficiente. O ato da leitura demanda uma boa dose de envolvimento, quiçá cumplicidade. Quando se opera o despertar de um reconhecimento ou identificação, os indícios da aposta nos levam adiante. Ao percorrermos as veredas poéticas de Geraldo Lavigne de Lemos, uma miscelânea de sentimentos nos vem fazer companhia. Nada ali é gratuito. Cada verso advém de vertentes emblemáticas na trajetória do seu criador. Nesse ínterim, agigantam-se olhares especiais em torno da memória, duma visão crítica de mundo e, também, do amor.

Nascido em Itabuna, na Bahia, mas radicado na vizinha Ilhéus, Geraldo canta seu solo e sua gente como quem redimensiona laços de pertencimento. Com o passar do tempo, soube apurar sua percepção diante das complexidades da vida, tendo em vista que sua obra encerra um marcante componente filosófico. Publicou em jornais e revistas e integrou a coletânea Diálogos – Novo Panorama da Poesia Grapiúna (Ed. Via Litterarum/Editus – 2010 – 2ª edição). O livro À Espera do Verão (Ed. Mondrongo – 2011) marcou sua estreia solo. Recentemente, dois novos rebentos sedimentaram seus arremates criativos: Alguma Sinceridade e Amenidades, ambos lançados pela Editora Mondrongo em 2014.

Ainda sob o efeito de suas novas investidas literárias, Geraldo nos revela um pouco de si. Hoje, sua obra denota um alguém comprometido com a maturidade da escrita diante de temas nada simples de confrontarmos. Tudo isso, somado às manifestações presentes nessa entrevista, faz com que consideremos a importância das escutas em torno desse talentoso poeta.

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Geraldo Lavigne / Foto: arquivo pessoal

DA – “Alguma Sinceridade” é um livro no qual vislumbramos os efeitos da lucidez.  Nele, as indagações são maiores do que as certezas, todas elas flutuando sobre um oceano de constatações. Quais marcas assinalam esse trajeto poético?

GERALDO LAVIGNE – Estou sempre tentando acertar e, por isso, sempre pensando na coisa certa a fazer. Não quero que confunda esta postura com qualquer sentimento que se alinhe ao egocentrismo. Trata-se apenas de depurar as atitudes, fazer o bem. Acredito que são estas reflexões que ensejam os meus pensamentos expostos em “alguma sinceridade”. A tentativa de amadurecer e ampliar a compreensão. A tentativa de dialogar isto com o leitor; não para ensiná-lo, mas para refletir. Lógico que os mais variados sentimentos vêm à tona no itinerário da criação (que antecede o da escrita), desde os afáveis aos censuráveis. Exponho-os e exponho-me. Deste modo, as constatações que você aponta na pergunta são as certezas que acredito ter angariado, mesmo sabendo que maiores são as dúvidas. Os poemas apresentam a minha visão sobre o mundo e o homem, bem como sobre mim e minha cidade.

DA – Na medida de sua exposição, um poeta se revela. “Alguma sinceridade” parece trazer um Geraldo muito conectado com uma espécie de sentimento do mundo. O saldo dessa percepção lhe apresenta mais espantos ou contemplações?

GERALDO LAVIGNE – Cada conjuntura pode ter um saldo avaliado. Às vezes os dissabores são maiores, às vezes não. Cada dia que vivo, novas experiências renovam a minha percepção sobre o mundo e sobre o homem, modificam a minha visão ou confirmam os meus pensamentos. Quando comecei a escrever rotineiramente, há mais ou menos 10 anos, sem dúvida o saldo era de espanto. Hoje busco converter este saldo para contemplação. Isto tem acontecido de fato nos últimos tempos. 2014, por exemplo, foi um ano decisivo para aprender que há abrigo em qualquer tempestade. Dele sobreveio um extremo sentimento de gratidão. No mais, permaneço antenado para captar as informações que vagam em cada experiência que temos. Continuarão a surgir espantos e contemplações e eu espero poder continuar a transcrevê-los para o papel.

DA – No terreno do “Amenidades”, seus versos se voltam fundamentalmente para a memória afetiva. Esse, digamos assim, encontro consigo mesmo, serve como uma espécie de renovação do olhar?

GERALDO LAVIGNE – Sim. Em “amenidades” eu perenizei temas diletos. Reuni neste livro as pessoas que me iluminam, apresentei a ternura da minha infância, resgatei a memória de minha família e discorri sobre meu querido solo, Ilhéus, entre outros lugares. Os poemas de “amenidades” trazem o meu lado afetivo, até então não publicado. Daí, posso dizer com certeza que há nele minhas boas lembranças e o agraciado presente. Nele também há um certo descanso sobre as demais questões. Sabe aquele momento, deitado na rede da varanda, ao lado de quem ama? É assim.

DA – Em que medida as lembranças desse “Olimpo do afeto” são capazes de fazer frente às inquietudes do presente? Um poeta pode afugentar suas dores?

GERALDO LAVIGNE – O sopesamento de o que prevalecerá entre lembranças e inquietudes depende da valoração que atribuímos a elas em dado momento. Acredito que as boas lembranças sempre oportunizarão felicidade na angústia, seja durante a própria recordação, seja na esperança do que virá. Destarte, e levando em consideração que recordar é viver, não só um poeta, mas toda e qualquer pessoa pode afugentar as suas dores se permitir que as boas lembranças nutram a felicidade em seu coração.

DA – “Alguma Sinceridade” e “Amenidades” estão agregados num mesmo volume. Enquanto o primeiro livro observa o mundo com olhos desnudos e certa intranquilidade, o segundo exalta um percurso sereno diante da vida. Equilibrar tais distintos hemisférios pressupõe algum significado especial para você?

GERALDO LAVIGNE – Sim. Hoje os livros impressos em um mesmo caderno representam para mim a dualidade: saber que as alegrias não são irrestritas e que as tristezas não são eternas. Saber ainda que a alegria convive com a tristeza quando levamos em consideração a vida. Para além destas questões, saber que convivemos com erros e acertos e com um mundo benevolente e cruel. Compreender esta dinâmica me parece o caminho para estar bem consigo e com os outros. Ela também nos auxilia a fazer e a respeitar escolhas, a entender o mundo – mesmo com irresignação. Quando levei os originais para o editor, Gustavo Felicíssimo, eles estavam, como ainda estão, separados, e eu disse para ele que eram livros distintos. A conformação conjunta surgiu ao longo do processo editorial. Já a revelação deste sentido mais apurado sobre a dualidade me ocorreu quando ele já estava impresso.

DA – Você faz parte de uma geração que exercita com mais habitualidade o desengavetar dos escritos, seja em sites, blogs, revistas literárias ou em livros. Com que olhos você observa esse cenário?

GERALDO LAVIGNE – Eu enxergo a literatura como expressão e diálogo. Não expor os escritos é como calar frases pensadas em típicos casos que nos arrependemos de nada ter falado. Esta geração que você diz e da qual participo está mais à vontade com a divulgação. E, a partir daí, penso que a literatura parece possível para pessoas comuns como eu, e não apenas para os extraordinários. Além disso, a divulgação está mais acessível: a internet é uma porta constantemente aberta; novas editoras têm surgido no mercado e oportunizado a publicação de autores inéditos; revistas digitais, blogs e sites criaram espaços qualificados voltados para a literatura. Assim, entendo que o cenário atual de desengavetamento de originais resulta da confluência entre a maior liberdade pessoal dos autores e a disponibilidade de meios.

Geraldo Lavigne
Geraldo Lavigne / Foto: arquivo pessoal

DA – Um autor deve estar comprometido com sua verdade pessoal ou com as expectativas dos leitores?

GERALDO LAVIGNE – Ambos são importantes, porém deve estar antes comprometido com a verdade pessoal. A verdade pessoal traduz a identidade do autor. Já as expectativas dos leitores representam o que ele tem provocado nas pessoas. Parece-me que a partir dos reflexos da obra recente de determinado autor surgem tais expectativas. Elas podem servir como guias para trabalhos futuros. No entanto, o autor jamais deve negar o seu espírito, sob pena de se ver descaracterizado e possivelmente infeliz com a própria obra. Isto, claro, levando em consideração que literatura é forma de expressão. Se o autor omitir a verdade pessoal, ele será mero veículo, não voz.

DA – O poeta está preparado para compreender as complexidades mundanas?

GERALDO LAVIGNE – A complexidade do mundo tem aumentado dia a dia. A qualidade intersistêmica dos conhecimentos tem avançado em todas as áreas. Compreender tecnicamente algo demanda cada vez mais informação. Elas estão aí para quem quiser. Por outro lado, as relações humanas dependem muito da sensibilidade. E de sensibilidade, todos nós somos dotados. É possível compreender as questões mundanas, basta se permitir. Estar preparado é um quesito difícil para todos. Por isso digo que o importante é manter a mente aberta e o coração limpo, ser prudente, estar atento para as experiências, aprender o que for possível e guardar o que for verdadeiro.

DA – O que você não endossa nesse estado de coisas chamado pós-modernidade?

GERALDO LAVIGNE – A falta de realidade. Contarei isso em algumas frases. As pessoas convivem menos. As crianças brincam em ambientes virtuais, muitas vezes sem sair de casa. Elas também não conhecem os alimentos naturais ou as coisas simples da natureza. A ficção está presente no cotidiano. A pessoa é frustrada por não possuir características de personagens ou se decepciona quando o outro não as tem. Há um culto exacerbado da perfeição. A pressa é implacável. O futuro é uma sombra que as pessoas dizem se preocupar. Posso relatar aqui ainda um longo conjunto de exemplos, mas tudo se resumirá à falta de realidade. Precisamos reencontrar o ser humano.

DA – Qual a diferença do Geraldo de hoje para aquele de “À espera do verão”?

GERALDO LAVIGNE – Muitos fatos sobrevieram neste interregno. Tentei aproveitar as lições da experiência. Delas eu consegui alguma maturidade, pude me conhecer melhor e aprendi os valores da gratidão e do amor. Hoje consigo exercitar melhor os meus pensamentos e princípios. Sobre a produção literária, acredito que tenha acompanhado este amadurecimento. Os poemas estão mais fluidos e rítmicos. A linguagem melhorou. A mensagem está mais apurada com o que pretendo. Também houve uma participação acentuada de temas afetivos, sem dispensar a continuidade da temática existencialista e metafísica, nem tirar os olhos do homem e do mundo.

DA – Afinal, por que escrever?

GERALDO LAVIGNE – Literatura é linguagem e arte. A comunicação é a finalidade precípua da linguagem, enquanto a libertação, a da arte. Existem vários porquês nestes dois universos interseccionados. Há neles substrato em abundância, inclusive para os casos aquém das questões essenciais. O meu primeiro foi a necessidade premente de expressão. O seguinte foi a busca da compreensão. Vieram mais; uns eu abandonei, outros não. O império do pensamento lógico incentiva a procura pela verdade mediante o cotejamento da causa com a consequência. Por isso nos deparamos com dúvidas como a da presente interpelação. Afinal, é mesmo preciso algum porquê?

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98ª Leva - 01/2015 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra II

GERALDO LAVIGNE – Ameno e sincero

Por Jorge Elias Neto

 Alguma Sinceridade

ALGUMA SINCERIDADE

Qual a idade do poeta Geraldo Lavigne? Pergunta que fiz a Gustavo Felicíssimo ao receber esses dois livros que se embrincam.  Pergunto-me por quê? Talvez por achar necessário alguma intimidade com o autor para quem se aventura a escrever uma orelha de livro. Talvez pela surpresa da promessa.

A poesia atual, em sua vertente mais celebrada pelas mídias do eixo Rio-São Paulo, se embriaga com o concretismo paulistano. Uma poética que brinca com as palavras, poética da forma, poesia da desilusão, do nada, egoísta, despida do deslumbramento.

Já a poesia de Lavigne ―… ―, ele mesmo a define “com alguma sinceridade” ao nos dizer suas meias verdades, já não escondidas atrás de uma máscara. E vai dizendo que “é no âmago que reside a centelha”, na “seiva que corre o motivo do visgo”. Lembra-nos que vivificamos o mito de Sísifo e nos avisa sobre a falácia de quem joga o bilboquê de pedra neste “mito de democracia”. E é enorme a generosidade do poeta ao nos alertar da “tirania maior” – o que nos faz recordar de Montaigne quando disse do medo dos homens que leem sempre um único livro.

Mas o “eu lírico” se percebe diferente, pois ser afeito ao silêncio e a contemplação é ser um transgressor, ser anacrônico, neste Mundo multimidiático. O homem não se irmana na globalização e sim no reconhecimento de que o “normal é diferente”. Compreende leitor?

E que bela imagem, a do coração, palimpsesto de pedra, onde é preciso “muita água da rara fonte dos olhos” para apagar o já escrito. Vejam a seriedade de um poeta jovem que se propõe buscar a síntese, o esmero técnico, sem que para isso necessite prescindir do coração. Um “eu lírico” que mantém a esperança de na busca ilusória do poema definitivo, perpetuar um coração minúsculo onde seja possível se escrever “com diminutas palavras”. Que bela imagem poética!

E o que dizer da ironia em Lavigne ― algo raro e necessário no enfrentamento das verdades ― quando no poema “aturdido” nos diz que “quando a água do chuveiro afaga meu corpo, posso ver, através da densa cortina, a minha vida com você é um filme de Hitchcock”.

Sim, a vida também é feita de perdas, e como emociona – e este é o maior objetivo da poesia – o poeta ao nos dizer da dor, no poema “meu velho”: “Faltam poucos dias para quatro anos nesse tempo dos homens que meu coração não reconhece”. E, consciente diante do absurdo do nada ― “a morte te espreita vereda por vereda” ―, ensaia o renascimento, um retorno mal sucedido ao ventre da inocência, pois já se impregnou com a verdade e se encontra “cheio de dentes e fantasmas”. Ressurge mais forte dessa viagem pela introspecção por ter “o gérmen do verde que brota quando o céu desaba”. Após o processo necessário de desconstrução, entende o silêncio, ergue os braços, toca as nuvens e “conversa com os anjos”.

Já no lúdico poema “Ocaso” Lavigne se questiona: “será que cupins alados pousarão sobre o lastro que me sustenta?”. Mas rebate, agudo, “ talvez seja mais um poente, talvez o ocaso seja o acaso em mim”. E acaba por definir ser o poeta o “tutor das plumas solúveis, que pousou altivo no patronato das aves domesticadas” e atinge a perfeição ao reconhecer que “a gota d´água não se sustenta nas asas do pássaro silvestre”.

Por fim, o poeta desafia os “borbotões de vento” que nos desfolham e nos tombam, ensaiando a transcendência “desafiando a longevidade dos ciprestes milenares”.

Agora, só nos resta tratar das amenidades …

Amenidades

AMENIDADES

O poeta do ameno deixa aqui seus fragmentos luminosos.

Toda singularidade do olhar lançado sobre o cotidiano pessoal traduz seu povo e sua terra.

Poemas imagéticos, sem dúvida; poemas de uma lentidão contemplativa, de saber de sua insignificância relativa e da importância de prosseguir no sem sentido, pois, “perfeição na terra – não há exceto o amor”. Para o ser imperfeito e portador do “fardo da consciência” o amor é “semidivino porque tem um quê de pecado” no lado debaixo do Equador…

O “chegar e partir, são dois lados da mesma viagem” nos diz Bituca, e também o fez Lavigne, autêntico poeta Grapiúna (confesso aqui minha admiração por esse nome e seus poetas) ao apreciar o entardecer neste “paraíso dos anjos”.

Como disse Ildásio Tavares: “Nada penso. Estendo os braços e curvo no meu joelho minha linha do horizonte”. Não será também esta atitude de Geraldo Lavigne nessa Ilhéus onde o céu se abre imenso, idílico, onde o “carvão abraçava a lua. A lua fogo abrasava o céu”?

Dá vontade, poeta, de apreciar esta “primeira claridade da manhã, com sabor de fruta madura, café coado em pano e tapioca”. Ver “as gotas caírem qual sais de banho” e, por saber-se nada, caminhar descalço sobre os seixos na ilha da Pedra Furada. Pois Cipango fica logo ali, onde aportou o sonho, que persiste e “cresce ao redor” e, apesar “do Mundo”.

Sabe, Lavigne, já “bebi menino as águas frias da mata” e meu mundo “era tão curto e tão vasto”… “mas o tempo dissipa as palavras como a aura dissipa a fumaça da lenha”. E por isso, também, sinto saudades de Senô, pois desejo a benção com água de coco, para quem sabe, também tornar-me doce…

É isso, leitor, já que me foi dado o privilégio de recebê-lo, o convido a entrar. O poeta é generoso, lhe oferece duas portas – dois livros: um que diz do homem como objeto refletido e repisado; outro mais ameno e bucólico, impregnado de memórias e imagens da bela região grapiúna.

Jorge Elias Neto é poeta, médico, ensaísta e membro da Academia Capixaba de Letras. São de sua autoria os livros: Verdes Versos (Flor&cultura ed. – 2007), Rascunhos do absurdo (Flor&cultura ed. – 2010), Os ossos da baleia (Secult – 2013). Recentemente, lançou seu mais novo rebento poético, Glacial (Editora Patuá – 2014).

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92ª Leva - 06/2014 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

Tantas eras já atravessadas e o caminho das palavras continua a se  guiar pelos imperativos da liberdade. Podemos aqui falar em liberdade a abranger tanto o campo criativo quanto o editorial. No primeiro caso, a conjunção entre forma e conteúdo confere vigor a todo e qualquer escrito. Com relação ao outro, novas investidas são pensadas como estratégia de trazer ao lume do mundo vozes muitas vezes nunca dantes percebidas.

O fato é que editoras não funcionam sem que tenham em suas mãos algo valioso. De nada adiantaria todo um trabalho de garimpagem de escritos os mais diversos possíveis se os sujeitos que os representam não trazem a marca da qualidade em suas expressões. O tempo em que vivemos tem trazido alternativas significativas no que se refere a publicações de obras. Nesse ínterim, um ânimo renovado irrompe. Na contramão dos ditames puramente mercadológicos, os quais segregam muitas obras a espaços confinados ou as enquadram num círculo duvidoso de preferências, o papel das pequenas editoras tem proposto novas reflexões sobre o tema.  Através do uso de tiragens reduzidas e de ferramentas de comercialização e divulgação diferenciadas, tais empresas intentam não somente um lugar ao sol, mas também servirem como espaços de democratização de expressões.

Um dos exemplos vivos dessa nova aurora editorial é o da Mondrongo Livros. Sediada em Itabuna, no sul da Bahia, a editora tem como seu fiel condutor o escritor paulista Gustavo Felicíssimo. Há pouco mais de vinte anos, Gustavo, que é natural de Marília, escolheu as paragens baianas como seu novo espaço no mundo. Sempre foi um obstinado ativista cultural e durante muitos anos fomentou a recuperação de obras de relevantes nomes da poesia baiana, bem como colaborou com a divulgação de outras tantas vozes. Sem dúvida alguma, sua vivência de poeta e de apaixonado pela literatura é que faz dele um homem mais preparado para enfrentar as vias editoriais. Dentre suas obras, estão os livros Outros Silêncios (2011), Procura & Outros Poemas (2012), Blues Para Marília (2013), todos pela Mondrongo. Experimentando um outro momento em sua feição de editor e prestes a lançar seu mais novo rebento poético, Gustavo nos recebe para um diálogo cujo tema maior não poderia ser outro: a marca indelével da literatura.

 

Gustavo Felicíssimo / Foto: Fausto Roim

 

DA – Num determinado ponto de sua trajetória com a literatura, eis que surge a Mondrongo Livros. A partir daí, sua feição de editor, já acostumado a projetos diversos, ganha um substancial impulso. Que tipo de necessidade marca a origem da editora?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – A Mondrongo nasceu de uma imensa e profunda insatisfação que eu vivia com tudo o que me cercava profissionalmente há anos. Posso dizer que foi o Teatro Popular de Ilhéus, através do Romualdo Lisboa, que em 2011 livrou a minha alma de um infarto fulminante ao me convidar para o desafio de fundar a editora com o objetivo claro de fomentar a literatura no sul da Bahia. Agora a Mondrongo está em voo solo, desvinculada do grupo, e batendo suas asas para além das fronteiras sulbaianas, mas a gratidão é e sempre será imensurável. 

 

DA – Como está sendo o processo de expansão da editora? Há uma clara intenção de abrir espaços para autores de outros recantos do país?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – Há uma assertiva atribuída a Tolstói, que diz mais ou menos o seguinte: se queres ser universal, começa por cantar a tua aldeia. Eu digo que para tornar a Mondrongo uma editora de relevo nacional, primeiramente ela precisa, além de tempo, ser importante para o local em que nasceu. Assim, após três anos de existência e já tendo consolidado uma posição de relevo na cultura sulbaiana, começamos a pensar na ocupação de um espaço estratégico na Bahia. Para tanto, criei a “Série Horizontes”, que vem, desde o final de 2013, publicando alguns dos principais poetas baianos da chamada “Geração Anos 2000”, como o João Filho, Henrique Wagner, Silvério Duque, Nívia Maria Vasconcelos, Patrice de Morais e Herculano Neto. Esse nosso empenho em prol de uma geração vem dando bons frutos, atraindo público satisfatório para os nossos eventos, e olhares interessados tanto das academias quanto do próprio meio literário, o que comprova o acerto das nossas escolhas. Até o final de 2014, somente nesta série, teremos 10 obras publicadas. Criei também a “Série Mondronguinho”, exclusivamente para a publicação de obras infantis e infanto-juvenis. Fruto de uma demanda natural, a Mondronguinho tem dado um retorno muito positivo e alargado os nossos horizontes, pois é uma seara nova para mim e com a qual venho aprendendo muito e consolidando parcerias estratégicas. Já em um plano mais amplo, mas nem por mais importante, trabalharei para tornar a Mondrongo uma referência nacional para o Haikai, essa forma poética tão importante, mas ao mesmo tempo tão marginalizada, publicando, inclusive, autores de relevância. Para isso tenho em desenvolvimento a edição das cinco primeiras obras que deverão ser lançadas até outubro deste ano. Enfim, a expansão está acontecendo de maneira natural. Ou seja: de acordo com o que avançamos no cumprimento das metas planejadas, outras metas vão se impondo naturalmente. 

 

DA – Na sua avaliação, quais características marcam a nova face da literatura baiana?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – A face é sempre a mesma. Em “Oropa”, França e Bahia, como em qualquer lugar, a literatura é multifacetada. Não há características que a possam definir. O que existem são os bons e os maus escritores. Os primeiros são capazes de escrever obras que marcam nossas vidas; outros, mal conseguem preencher os espaços vazios na estante.

 

DA – Cada vez mais, as editoras independentes vêm ganhando espaço no Brasil. Uma das alternativas de atuação delas está no uso de tiragens reduzidas como estratégia de sobrevivência e também de reação ao mercado editorial vigente. De que modo você percebe esse processo?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – Cada dia mais me parece que ser independente é, necessariamente, depender de todo mundo. Mas o que aqui se deve entender como “independente” é o fato de ser uma editora pequena, de poucos recursos financeiros, que valoriza o autor e tem um olhar diferente para projetos inusitados, muito embora, como qualquer empresa, necessite trabalhar com os pés no chão para não quebrar por conta do entusiasmo. O capitalismo nos deu tecnologias, possibilitando pequenas tiragens com boa qualidade, custo acessível e canais de venda via internet, possibilitando que nos distanciemos cada vez mais das livrarias convencionais, muitas vezes parecidas a cemitérios de livros. Deu-nos ainda, em certa medida, a condição de ignorar a mídia tradicional, que sempre nos quis ver com pires na mão. Parece-me que o caminho dessa “reação” passa por aí. 

 

DA – Desde 1993, você elegeu a Bahia como morada. E seu livro “Blues para Marília” é algo pungente na medida em que pontua a sua travessia como escritor até aqui.  Como você vislumbra esse seu exílio íntimo de poeta? 

GUSTAVO FELICÍSSIMO – Minha ligação com a Bahia é algo muito especial, transcendental, diria. E Marília é a base da minha gênese. Em 1970, meu pai, que era Caixeiro viajante, esteve em Salvador a trabalho e trouxe consigo a minha mãe. Quando retornaram, ela estava grávida. Daí por diante, sempre que ele se lançava no mundo dizia: “Mulher, cuida bem do nosso baianinho”. E na volta, inevitavelmente, perguntava: “E aí, mulher, como está o nosso baianinho?”. Daí que para mim não há mistério algum ter vindo parar ocasionalmente a trabalho na Bahia, em 1993, e daqui não ter saído mais. A par disso, posso dizer, literalmente, com as palavras do Gilberto Gil, que a Bahia me deu régua e compasso, que aqui, graças a todas as influências, sobretudo culturais, fui forjando o homem que sou, o entendimento de mundo que tenho. Foi aqui que entendi que sem a literatura a minha vida não poderia mais acontecer. E o que me é mais caro: aqui nasceu a minha filha, esse ser que amo tanto e que me mostrou o quanto sou pequeno. É à margem do que sou que sei exatamente o que não fui.

Sobre Blues para Marília, penso que essa pungência atribuída à obra se deve pela inserção de um forte componente emocional, minhas mais alegres e dramáticas reminiscências. Com elas me fiz e me desfiz nos caminhos da vida. Foram dez anos de escrita, dez anos tentando entender as minhas agonias para traduzi-las em imagens, algo que somente a poesia, com sua potência verbal, pode dar conta.  Isso se o autor trouxer consigo uma profunda consciência literária e o respeito pela tradição. Somente assim é possível manter a poesia liberta, em pleno voo. O livro foi lançado em abril de 2013 e vendeu os 500 exemplares iniciais, o que me forçou a providenciar uma segunda edição ainda mais caprichada, disponível para aquisição.

 

DA – Criar é notadamente uma confissão de pertencimento?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – Em todos os sentidos. E mais: é uma questão de identidade. Afinal, nossa escrita é o reflexo do que somos. Mas criar é também uma espécie de defesa, uma forma do ego repelir a angústia e a ansiedade, sublimando-os.

 

Gustavo Felicíssimo / Foto: Fausto Roim

DA – A memória afetiva pode ser também um terreno melindroso para o poeta?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – Se, como afirmo anteriormente, nossa escrita é um reflexo do que somos, logo a “memória afetiva” é parte da identidade do autor. É ela que repudia os contrários gerando tensão. Essa oposição gera a necessidade de se diluir a tensão, proporcionando a força motriz da criação. O Anthony Storr, em “A dinâmica da criação”, explica que uma pessoa criativa necessita de um mergulho incomum no seu interior para conter e fazer uso do que descobrir ali.

 

DA – Em “Procura e outros poemas”, você experimenta o gosto de uma maturidade literária. E há ali também uma, digamos assim, alusão ao uso responsável do verso livre. Diante dessa atmosfera, quais reflexões lhe parecem mais relevantes?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – Embora transite por diversos gêneros literários, sempre fui conhecido, ou mais conhecido, como poeta. Talvez por isso a Mondrongo venha se firmando e merecendo atenção por conta dos projetos e publicações nessa área. Quanto a meus livros, o que posso dizer é que sempre tive a consciência de que um compêndio de poesia precisa ser formado por uma unidade, um aspecto qualquer que o perpasse como uma espécie de fio condutor, afinal, um livro do gênero não deve ser um ajuntamento aleatório de poemas, mas antes de tudo uma proposta conceitual, seja ela discursiva ou formal. Daí eu ter levado, em média, dez anos para aprontar cada um dos meus livros. Mas sejam em versos medidos ou não, me parece importante que os volumes de poesia reflitam essa proposta estética, muito embora não tenha muita esperança quanto a isso, pois os poetas, de um modo geral, historicamente interpretaram de maneira inadequada o modernismo, permitindo que a sua influência lhes prestasse, em verdade, um desserviço na medida em que se confundiu liberdade com permissividade e até mesmo vulgarismo. É como disse o Elliot: não existe verso livre para quem quer fazer um bom poema.

 

DA – No conjunto de sua obra, há uma busca consciente por uma unidade formal?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – O termo “formal” da pergunta parece vir revestido de um significante pejorativo, no entanto é necessário considerar que todo poema é uma unidade formal se levarmos em conta que não poderá ser considerado como tal se não conseguir amalgamar em seu bojo elementos como “imagem”, “melodia” e “ideia”. O problema é que termos como “forma”, “métrica” e “versificação” se transformaram em verdadeiros xingamentos para os poetas na modernidade. Só que não conheço nenhum bom poeta que não domine esses elementos fundamentais, até para quem se identifica mais, ou mais especificamente, com o chamado verso livre. Todavia, como afirmou Ildásio Tavares, esse é um processo dialético e o esvaziamento de um conduz à valorização do outro. À parte essas considerações, o importante é que, seja em verso livre ou concebido dentro de alguma forma, se faça poesia. No entanto, é necessário lembrar aqui um provérbio latino que diz fit orator, nascitur poeta.

 

DA – Você está prestes a lançar seu mais novo livro, “Desordem”. Com qual clamor estes versos surgem?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – Mesmo não tendo nenhuma certeza quanto a isso, posso dizer que “Desordem” foi se construindo permanentemente assistido por um rigoroso discernimento crítico. Nele, através do uso da metalinguagem, estão contidas diversas das minhas reflexões sobre a poética e o fazer poesia, também há uma suma importante de reflexões sobre a morte, resumidas em um capítulo formado apenas por elegias, e, por fim, há um capítulo intermediário em que floresce muitas vezes o meu lado combativo em poemas de feições diversas, normalmente de características obscuras e até mesmo pessimistas.   

 

DA – Nesse universo de percepções que abriga o poeta e o homem, o quanto Gustavo Felicíssimo conhece Gustavo Felicíssimo?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – A única maneira que tenho para responder à pergunta é com um antigo poema, intitulado Autorretrato.

 

Sou como o invisível céu
que não vos inspira cuidados,
pois retorno depois das névoas
sobre os campos abandonados;

sou finito e celebro o fogo
infindável do grande jogo

a nos enlaçar a garganta;
creio no vórtice da voz
sacrossanta que a tudo encanta:

trago os haveres desse mundo;
sou terra, sou campo fecundo.

 
– 3 POEMAS INÉDITOS* –

 

À POSTERIDADE

 

Ocorreu-me de escrever
um poema à posteridade.
Um poema que assegure
a permanência do meu nome,
seja lá o que isso signifique.
Um poema tão claro e puro
quanto essa exclamação:
posteridade, vá se foder!

 

 

***

 

 

EU NASCI DECLARANDO GUERRA A VOCÊ

Para Cristiano Jutgla

 

Dane-se essa onda do politicamente correto,
essa mania de não poder desagradar nunca,
afinal, a existência não é mais que um incêndio.
Que importa restarem cinzas depois das chamas?*
Que importa a bondade dos liquidados?
Não procurar a verdade na imensidão da verdade,
senão na força falsa de um imbecil diplomado
é o mesmo que não se aplicar em traduzir
o que a vida mesma está sempre a nos dizer.
Não tecerei alvíssaras a mais pura mediocridade.
Não vencerei o tolo jogando o seu jogo.
Ele surge como se fosse o novo,
mas é o farol apagado no meio da imensidão.
Assim ele marcha: num cortejo fúnebre.
Assim se mantém: com muletas que não o sustentam.
Nenhuma filosofia o alimenta ou ampara.
Estúpido, que na estupidez se espelha,
eu nasci declarando guerra a você:
eu nasci odiando a tua mediocridade.

 

* O verso é de Mário Quintana

 

 

***

 

 

UMA FAGULHA

 

Essa corda que vibra
no poema é a vida
pois se nela um sopro insiste
se um fio de esperança
……..ainda resiste
é por que enquanto houver gente
haverá sempre o sonho
uma fantasia qualquer
que fará da poesia tão somente
…………….o sol na face
…………….o sorriso da criança
…………….o seio da amada
– e porque não –
um domingo de futebol
e a torcida na arquibancada.
É que enquanto houver no homem
a sede de afrontar a angústia
e a fome
……..implacável
………………….de viver
haverá por certo uma explosão
algo fazendo tinir
o cristal que nos move
e não deixa morrer a ilusão
de que a poesia
……..– para sempre –
……..continuará a ser
uma fagulha que inflama a existência.

 

 

* Os poemas acima fazem parte do livro Desordem, a sair pela Mondrongo em 2014.

 

 

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76ª Leva - 02/2013 Dedos de Prosa

Dedos de Prosa II

Rodrigo Melo

 

Foto: Silvio Crisóstomo

 

O SANGUE QUE CORRE NAS VEIAS

 

Moleque, imaginava que, homem feito, eu seria alguma espécie de guerreiro, herói de batalhas, conquistador (nunca um médico, como meu pai, ou contador). Transformei-me, por fim, num fiscal da Secretaria de Trânsito e Transportes da prefeitura: o bloquinho e a caneta na mão, óculos escuros pro romantismo não morrer.

O ônibus era o 016, linha 20, que entrava pelo Alto do Basílio, cortava Palmares e descia lá na Avenida Esperança, perto da Polícia Federal. Minha função era anotar o número da catraca toda vez que chegássemos ao ponto final, e o objetivo da missão, como o pessoal da Secretaria gostava de falar, era descobrir se o trajeto suportaria um ônibus maior. Eu sabia que não, mas não fazia diferença: os diretores e os seus secretários, com suas caras brutas e mal humoradas, quase nunca seguiam a lógica ou a opinião dos fiscais na hora de tomar as decisões.

Eu subia e descia as ladeiras olhando para o mar lá embaixo, pensando que, séculos antes, centenas de homens haviam cruzado aquelas águas em busca de riquezas, amores e salvação – o sangue humano, nunca derramado em vão. Agora, cruzando os morros, eu só buscava um pouquinho de emoção.

O tempo, de uma maneira ou de outra, acabava passando, da mesma forma como passavam as ruas e as janelas que eu investigava. Quem sabe a vida, minha e das pessoas que eu via, se resumisse àquilo: a sombra dos prédios e o sol marcando o asfalto, as tardes sonolentas, uma curiosidade infantil, a melancolia dos lugares e dos dias.

A empreitada acabava perto das sete da noite. O 016 me deixava a dois quarteirões de casa. Eu apertava o passo porque era justamente nessa hora que as costas começavam a doer.

Naquela noite, no entanto, enquanto eu caminhava distraído, coincidentemente pensando na história dos Aqueus (e em Aquiles, que, antes da flechada, vingou Peleu, do jeito que previram), havia uma garota lá, do outro lado da rua, gritando e assobiando pra mim. Tinha mais ou menos vinte e poucos anos, usava um short largo, estilo surfista, um top cor de abóbora e marrom. Linda não era, mas a gente nem sempre pode escolher. O mundo aperta o laço pra quem já passou dos trinta e tantos e não vingou.

– E aí, gato, tá afim?

– Tô – respondi sem pensar muito. – Quanto é?

– Trinta.

– Ela tinha uma boca carnuda, os seios grandes e pontudos.

– Tenho doze – falei.

Ficamos parados, nos encarando. Fazia frio. Eu pensava que era um tanto Aquiles também, o destemido guerreiro encarando a vida e suas provações.

– Com doze, gato, é rapidinho – ela disse, a testa franzida, o dedo me apontando a direção.

E a transcendência e a eternidade nos fundos de uma serraria em alguma noite sem estrelas de um ano que não lembro mais. Eu não sabia se era um guerreiro usufruindo das conquistas da vitória, o fiscal de trânsito e transportes da prefeitura rumo à salvação ou o sujeito ultrapassado e perdido no labirinto dos anos e da vida, gastando a grana do cigarro pra beliscar a alma. Não encontrava a resposta, mas concluí que naquele instante não necessitava encontrar: me bastava sentir, indo um pouco pra frente e pra trás, com os olhos fechados, tentando, entre as pilhas de cedros, vinháticos e putumujús, fazer valer a vida, o sangue que corria nas veias e os meus doze reais.

 

(Rodrigo Melo é ilheense, nascido em 1971, ano do javali, da marcha contra a guerra do Vietnan, ano em que Neruda vingou. De 71 pra cá, escreveu contos, alguns editados em revistas e jornais, e poemas nunca lidos ou mostrados. “O sangue que corre nas veias” (Editora Mondrongo – Ilhéus – BA – 2013) é seu primeiro livro. Se pudesse, começaria com o segundo)