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155ª Leva Destaques Olhares

Olhares

O gesto silente das transformações

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Nicole Marra

 

A vida em seus diferentes modos de uso: universos que coexistem na arena das singularidades e que nos fazem atentar para as delicadezas que habitam esferas íntimas do ser. Desde o recorte daquilo que há de mais cotidiano, passando pelos detalhes abrigados nas mais diferentes sinas, nossas humanidades despontam na paisagem diluída pela sucessão dos dias que trilhamos sobre o planeta.

E há quem esteja alerta a tudo isso com o toque marcado pela atenção aos pormenores que escapam diante da fugacidade imposta pelo imponderável deus tempo. Nesse ínterim, o olhar sobre o mundo revela seus pontos de ênfase, descortinando imagens que traduzem um vasto panorama de sentimentos. É assim que Nicole Marra lança mão de sua condição de artista para evidenciar a poética da existência que sabe a gestos e formas de uma intricada cartografia de afetos.

De imediato, não há como deixar passar a marcação do feminino como fio condutor da obra de Nicole. Nesse painel através do qual transitam múltiplas expressões, é o corpo quem rege o destino das formas exploradas, pois ele, em larga medida, funciona aqui como catalisador de sensações e ímpetos. Assim, a artista nos oferta vertentes de apreciação que flutuam entre a dimensão física e imaterial das personagens apresentadas, sugerindo um equilíbrio entre as tensões internas e externas do ser mulher.

 

Ilustração: Nicole Marra

 

Diria que a particularidade do traço de Nicole Marra é também capaz de harmonizar o caos interior que mobiliza as paixões humanas. E nesse fio delgado que molda seres e lugares, está fundamentada a percepção de que estamos por um átimo limítrofe, seja para a contenção dos arroubos ou a explosão daquilo que precisa ser manifestado aos olhos do mundo.

Residindo em Berlim desde 2017, Nicole destaca que a arte é um instrumento que auxilia sua compreensão sobre a condição de migrante, algo decorrente de uma trajetória de vida que mescla adaptação e introspecção. É, por assim dizer, a busca pelo entendimento do que seja construir sua própria identidade enquanto pessoa e artista, porções amalgamadas pelos efeitos das escolhas e movimentos.

 

Ilustração: Nicole Marra

 

De posse dessas confissões dela sobre os fatores que impulsionam seu trabalho, é preciso assinalar que as ilustrações levadas a cabo por Nicole Marra simbolizam as metamorfoses pelas quais experimentamos no transcurso da vida. As personagens femininas retratadas pela artista exprimem seus diferentes estados de fruição do viver, arregimentadas especialmente pelo experimentar silencioso do recolhimento, sendo que o emprego das cores parece redimensionar os mapas da solidão tão caros ao exercício do autoconhecimento e da individualidade.

Em seu curso, as ilustrações de Nicole delineiam sublimes maneiras de expansão da consciência da mulher diante de seu corpo-território. Mas eis que essa assunção daquilo que emana de tal corporalidade transcende os aspectos meramente materiais, fluindo da linguagem expressa pelos contornos e formas em direção ao ambiente abstrato das emoções saboreadas. É na apreensão das revoluções internas que o salto acontece, pois elas noticiam lúcidas epifanias de feminilidade.

 

Ilustração: Nicole Marra

 

* As ilustrações de Nicole Marra são parte integrante da galeria e dos textos da 155ª Leva

 

Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais. 

 

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151ª Leva - 01/2023 Destaques Olhares

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Uma sublime travessia imagética

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Viola Sellerino

 

Entre cores, impulsos e concretudes, a meta de se transitar pelas paisagens dos dias. Daí que as abstrações da vida, nosso campo intangível, parecem quase impossíveis de serem registradas como sintomas de um testemunho permanente. O que fazer com os sentimentos que transbordam no horizonte das perspectivas? Como reproduzir em imagens uma quantidade imensurável de coisas que nos invadem sem nenhum precedente sinal?

O imagético é esse mar de infinitudes a nos lembrar teimosamente que tudo pode ser representado, ainda que muito habite o campo do incompreensível. Afinal, precisamos mesmo de guias nesse percurso de signos complexos por natureza? Defender a ideia de que a Arte (propositalmente grafada aqui com inicial maiúscula pela característica de ser universo de possibilidades móveis) venha a ser desfrutada de maneira aberta talvez seja o melhor caminho para a fruição de seus dotes.

E como é fabuloso ver que cada pessoa empresta seus significados a todo o engenho criativo manejado por quem faz arte. Se a vida é um livro em construção, dificilmente as vias artísticas não o seriam também. A cada tempo, um espírito peculiar, marcas pungentes que cartografam sentidos experimentados por artistas e os receptores das obras. Nesse ínterim, talvez seja quase uma verdadeira proeza encontrar formas diferenciadas de apresentar as pulsações do cotidiano.

Desconfio que uma artista como Viola Sellerino saiba executar isso com especial destreza. Em seus trabalhos, a representação daquilo que está abrigado no dia a dia vem acrescida de um componente poético que desacomoda lugares comuns de observação. E estamos a falar de uma artista que, ao lançar atenções para a vida ordinária, retira desta os frutos diferenciados da contemplação. Na dicção de Viola, esse ato de contemplar não se baseia no foco passivo sobre certas vivências e cenários, mas lança sobre eles uma lente que redimensiona os saberes e sabores postados na jornada existencial.

 

Ilustração: Viola Sellerino

 

Dentro dessa esfera cotidiana, o olhar de Viola parece vislumbrar as alternativas de liberdade protagonizadas pelo corpo. Assim sendo, as investidas humanas são expostas como um tributo à emancipação de corpos e mentes, tomados que estão por certo gesto sublime do ser/estar no mundo. Daí que há espaço consagrado em sua arte para enlaces afetivos, flagrantes da delicadeza, pausas, arremates sintéticos dos entreatos humanos e sua ritualística, além de acenos que sugerem mergulhos meditativos diante dos mistérios do existir.

Todos esses atributos fazem das imagens concebidas por Viola Sellerino um painel que coloca como centralidade o humano e algumas de suas epifanias. Em seu modus operandi, a artista lança mão das ferramentas ofertadas pelo digital, além de se utilizar de técnicas mais convencionais como a aquarela e a acrílica. Italiana de nascimento, Viola reside em São Paulo, possuindo formação em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Napoli e, também, em Ilustração editorial pelo Mimaster de Milão.

Uma imersão mais aprofundada pelas imagens de Viola Sellerino sugere certo envolvimento dela com uma forma própria de apreensão da realidade. Nesse sentido, ao fazer o entrecruzamento do vivido com o imaginado, a artista ultrapassa as zonas de conflito inerentes a nossas humanidades. Tal escolha não faz dessa proposta um lugar de fuga, mas de conversão de perspectivas, ambiente este que, sem renunciar às tensões impostas pelo real, transforma o embrutecimento da vida numa tomada de consciência mais serena.

 

Ilustração: Viola Sellerino

 

* As ilustrações de Viola Sellerino são parte integrante da galeria e dos textos da 151ª Leva

 

Fabrício Brandão é editor da Diversos Afins, sonhador, míope, baterista amador, gosta de labutar com as palavras e de construir enredos para os espantos existenciais.  

 

 

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149ª Leva - 04/2022 Destaques Olhares

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Sobre o que transborda

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Drika Prates

 

Nas paisagens que vão por dentro, habita uma aurora de sensações. São cenários que movimentam paixões dispersas pela vida. Observações que brotam do que há de mais genuíno quando a viagem a ser feita é totalmente aquela que atravessa o painel das interioridades do ser. Nesse mergulhar fundo, a imersão traz vestígios das passagens por momentos dos mais diversos e faz com que a memória seja uma disseminadora de rastros afetivos.

É uma travessia em que o artista volta com um legado de capturas nas mãos. Como se não bastasse, sabe reverter isso a favor de sua criação. Difícil não levar em consideração os mergulhos que alguém como Drika Prates empreende com sua arte. São ilustrações que operam no continuum entre o dentro e o fora, tornando possível a coexistência entre tais dimensões. Durante a sua abissal incursão, não sentimos ali a contraposição entre as porções internas e externas do ser que a tudo observa com seus olhares atentos.

 

Ilustração: Drika Prates

 

Drika é, antes de mais nada, aquela que no engenho de seu ofício transborda as pulsações interiores da condição humana. O resultado disso é a materialização das zonas de percepção mais oníricas e abstratas possíveis em favor de uma arte que se afigura poeticamente desperta. Assim, vão ganhando forma sentimentos, corpos e espaços diante do tão almejado ideal de verdade propalado por todos os cantos. Ao que parece, buscar a tal verdade das coisas seria mesmo uma luta vã e não é sobre essa procura que se apoia a arte de Drika. Nela, importa muito mais saber que as modelagens que constroem suas ilustrações são movidas pelo desejo pleno do existir, essa maquinação mental capaz de harmonizar os mais dignos contrastes da nossa experiência como seres tão contraditórios que somos.

Entre o afago e as durezas do caminho, as representações de mundo engendradas aqui vão além desse gesto que extravasa interiores e os põe ali, na linha de frente com o externo. E é certo que as dualidades do ser também estão na ordem do dia quando pensamos o trabalho de Drika. Mas talvez isso não roube tanto a cena quanto a capacidade sensível que a artista tem de ressignificar os corpos femininos segundo uma ótica alimentada pelos desígnios da delicadeza. Esse mesmo feminino é moldado como um imenso e variado panteão de libertações, através do qual o ideal de amor-próprio e o gesto afirmativo diante de um mundo que dizima mulheres em todos os sentidos se consolida como uma ferramenta crucial de resistência.

 

Ilustração: Drika Prates

 

Atuando com design gráfico e ilustração, Drika Prates também se diz inspirada em primazia pelas formas da natureza. E não seria prematuro concluir que muitos de seus trabalhos artísticos contemplam essa fusão entre as humanidades e a natureza. Quando o assunto é falar de si num sentido de definição, a artista nos revela que não poderia ser tomada objetivamente ou de modo deveras óbvio. Prefere ser como um alguém que, assim como outras pessoas, é portadora de interesses múltiplos, humores e projetos. E aqui, pelo que sua arte sugere, tomamos a liberdade de incluir nesse rol também outra faceta para ela, a de pessoa sonhadora.

Com sensibilidade aguçada, um dos lemas da artista é deixar que a vida siga seu fluxo sem que se possa prever o resultado dos caminhos. Quiçá tal forma de pensar seja a chave para que, por meio dos profundos mergulhos de vida, sua arte ganhe um arcabouço estético que se prolongue no tempo. Quanto a nós, apreciadores dos trajetos aqui propostos, caberá a insondável tarefa de nos deixarmos tomar pelas alamedas revigoradas do inexplicável.

 

Ilustração: Drika Prates

 

* As ilustrações de Drika Prates são parte integrante da galeria e dos textos da 149ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam autobiograficamente pelo mundo virtual. Hoje, entre acertos e tombos, parece estar perdendo o medo de errar.

 

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147ª Leva - 02/2022 Destaques Olhares

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A pulsação do intangível

 Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

O mundo e suas esferas possíveis. Fluxos do que vai por dentro e por fora de nossas perspectivas. Na confluência entre o duo interno/externo, sensações das mais abstratas assumem contornos de visibilidade pela materialização do gesto artístico. E ser artista, bem no meio do turbilhão nosso de cada dia, pode ser um ato de transformação de horizontes. É converter, por exemplo, o aborrecido em poesia.

Num certo sentido, o olhar do artista sobre a paisagem mundana revela opções que nos sugerem atravessamentos. Esse estar-se atravessado fala de como as complexidades humanas são capazes de afetar a visão de quem cria, pois é praticamente impossível não se levar em conta o quanto os nossos sentimentos e ímpetos orientam a dinâmica da vida que engendramos enquanto seres pensantes.

Observar o trabalho de Bianca Grassi é pensar também no quanto essas complexidades que se revelam na condição humana são eixos fundamentais a mover a Arte. Em suas ilustrações, a artista evoca sensações que dissolvem as formas convencionais de representação do humano. Em lugar de corpos e faces definidos num mar de expectativas tradicionais, vemos a matéria alongada dos seres, envoltos em proporções agigantadas, disformes, verdadeiro agregado de sintomas das perturbações que nos assomam na travessia dos dias sobre a Terra.

Mas o redimensionamento das formas proposto na arte de Bianca não parece ser uma mera escolha estética. Diz muito sobre como as experiências aqui vividas por todos nós mobilizam inquietudes, posto que estar no mundo é ato constante de alteração dos estados de existência, ou seja, é prover as mudanças do ser, de modo voluntário ou não.

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

O humano em Bianca Grassi é confrontado quando se mira no espelho. Nesse enfrentamento, irrompem espantos, medos, estranhamentos, dores e prazeres, fazendo-nos lembrar a todo instante que viver é um flerte incessante com a consequência dos caminhos escolhidos. Nesse trajeto, a ilustradora traz à baila o ímpeto da provocação, estímulo que ora nos desnorteia pelo desamparo de algumas imagens ora nos une pela sugestão de que não compreendemos a mínima parte do mistério que é o existir.

Autodidata, Bianca mescla diferentes técnicas como nanquim, carvão e aquarela, transpondo-as para o digital. Nesse ínterim, busca comunicar muito daquilo que está imerso no emaranhado cotidiano. Como ela mesma nos confessa, sua arte está voltada para reflexões sobre o indivíduo, as relações humanas e a sobrevivência do efêmero diante das dores do mundo. A artista também se dedica ao design e à literatura, tendo poemas e contos publicados em espaços e coletâneas digitais.

Na via que demanda a abordagem sobre as emoções humanas, as ilustrações de Bianca Grassi estão situadas num eixo marcantemente filosófico, posto que simbolizam incertezas do nosso caminhar, dúvidas que se manifestam sob a forma de indagações na miríade de sentimentos expostos. Nesse colossal painel de humanidades, imergimos nas profundezas, retirando dali vestígios do que outrora fomos, além de memórias desejosas de um porvir. Ao fim e ao cabo, somos o corpo de escrituras vivas, inserindo em nossa sina a marca portentosa da imprevisibilidade do ser.

 

Ilustração: Bianca Grassi

 

* As ilustrações de Bianca Grassi são parte integrante da galeria e dos textos da 147ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam autobiograficamente pelo mundo virtual.

 

 

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145ª Leva - 05/2021 Destaques Olhares

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Cores e expansões: a vida em Paula de Aguiar

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Paula de Aguiar

 

Pensar as cores que contornam tudo. Ter as formas como horizonte de perspectivas num campo aberto de observação. Sorver da existência mundana a experiência dos gestos, os idiomas do tempo e as múltiplas faces da condição humana. Vislumbrar rostos embotados de silêncio, expressão e rotina. Percorrer a ciranda dos tons para depois enaltecer a pulsação que anuncia a vida.

Viver pela Arte é um estado de atenção, ver-se desperto para flagrantes e voltar o olhar também para o que parece imperceptível. O artista é esse alguém de espírito inconformado, posto que ousa  perscrutar até mesmo o insondável e trazer dali lampejos e mergulhos. No retorno dessas imersões, o apreciador da obra sabe que os trajetos ofertados lhe causaram toda sorte de revoluções internas. Nós, espectadores ávidos, somos parte da construção almejada pelo criador quando ecoamos por dentro de nosso âmago os impactos saboreados.

E como é bom desfrutar de possibilidades da descoberta ao nos depararmos, por exemplo, com a arte de Paula de Aguiar. Nas ilustrações da artista, as formas regem os caminhos. Suas cores acusam a aurora do humano sobre corpos que transbordam sentimentos dos mais variados. Mas eis que a temática do corpo ganha uma dimensão especial quando o alvo passa a ser o universo feminino.

Em Paula de Aguiar, o ser mulher é tido em amplitude, posto que carrega em si cenários de manifestação que vão desde o recolhimento íntimo até a expressão mais efusiva de suas personagens. No bailado das formas, pairam ante nossos olhos corpos alargados como se tal escolha refletisse uma necessidade de marcar posições contundentes diante da vida que inevitavelmente nos toma de assalto. Trata-se de um verdadeiro trajeto por onde desfila a face plural das emoções, caminho que denota a predileção pelo olhar poético sobre as mulheres ali pensadas. Nesse caldeirão de rostos e gestos, há um misto de delicadezas, silêncios, inquietações e enigmas.

 

Ilustração: Paula de Aguiar

 

Um dos pontos altos das ilustrações de Paula está no uso das cores. Nelas podemos notar um sentido de expansão das sensações gozadas através de uma experiência estética que contempla o diálogo com os mundos interno e externo. O efeito dessa coexistência entre o íntimo e o exterior não opera dissonâncias entre essas duas esferas de percepção do tempo e da vida; pelo contrário, mais parece harmonizar dimensões que naturalmente sugeririam algum tipo de oposição ou confronto.

A pernambucana Paula, que é formada em computação gráfica e atualmente estudante de artes visuais, viu no aprendizado e manejo com as ilustrações digitais uma valiosa estrada a ser trilhada profissionalmente, tanto que vem atuando como freelancer nos últimos tempos.

As veredas percorridas pelo trabalho da ilustradora recifense mostram uma especial relação entre o real e o imaginário. São imagens que sugerem também uma interposição entre os caminhos do sonho e da fantasia com a visão do mundo que não cessa de acontecer debaixo de nossos narizes. O resultado de tudo isso é também a ideia de que um todo orgânico paira sobre a obra da artista, fazendo com que os elementos constituintes se mostrem interligados, seja pelos laços humanos de nossa vivência terrena, seja por projeções que decorrem diretamente duma capacidade de reinvenção sensível da existência.

 

Ilustração: Paula de Aguiar

 

* As ilustrações de Paula de Aguiar são parte integrante da galeria e dos textos da 145ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

 

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143ª Leva - 03/2021 Destaques Olhares

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Do tempo que não coagula

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

O mundo e seus sinais. Gestos por todas as direções apontam um pouco do que somos, esse misto de espanto e estranhamento no terreno desavisado das descobertas. O vento carrega tudo, desacomoda poeiras, certezas e segue seu curso de transformações. Somos esquina quando divisamos um rumo e outro das escolhas a serem sentidas e executadas. Somos substância fluida, tal como águas que apontam sempre para a mudança, ainda que esta se manifeste à revelia de nossos desejos mais profundos.

A ideia de se estar vivo vem como sopro que atravessa bem mais que o organismo que possuímos. O corpo, por si só, é expansão, morada que projeta a liquidez do sonho ante a visibilidade e concretude da matéria. Cada passo dado é sintoma da consciência, muitas vezes submersa em razões imprecisas. E o que pode a arte diante dos nossos lampejos e arroubos existenciais?

Tentar achar respostas parece não ser tarefa que esgote as possibilidades. É olhar para todas as direções e também para o que está em nossos arredores e perceber ali correspondências com o que pulsa dentro de nós. A arte se materializa a partir de um estado de atenção sobre as coisas, o mundo e seus fenômenos. É esse tipo de percepção que atravessa o trabalho de Marjorie Duarte, artista que ressignifica o caos interior a ponto de forjar a partir dele condições de produção.

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

Falar do caos que assoma alguém é também perceber que um novo sentido é dado às coisas e situações. Um turbilhão, quando não paralisa, conduz à aparição de outros rumos. E foi justamente esse tipo de movimento que norteou a trajetória artística de Marjorie. Sob o ponto de vista das tensões urbanas, o motor da ansiedade foi capaz de fazer com que, por exemplo, a artista desse azo à invenção de uma personagem muito cara em seus trabalhos, a menina-mulher Síndrome.

Um olhar detido em Síndrome parece nos revelar que sua materialização em imagens vem constituída por um conjunto de sensações que transbordam os desdobramentos do real. Ela é, então, a porta-voz de uma existência inquietante e crítica, mas também o reflexo da busca de uma ternura enevoada pelos desafios da vida prática. E a saída para as tensões da personagem é pensada por Marjorie através dos usos poéticos que a autora não abre mão de utilizar.

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

Em Marjorie Duarte, a imagem é vontade da palavra e vice-versa. Na interface entre desenhos, textos e colagens, a artista remonta a seu modo os fragmentos de um mundo acelerado, prenhe de verbos que saltam aos olhos pela urgência em comunicar. Seja na conjunção de frases ou na solidão das palavras, o imperativo de dizer algo sobre o ato espantado de existir é gênero de primeira necessidade para a ilustradora. E tal gesto se abriga na poesia dispersa da vida, condição de olhar a tudo com a avidez da descoberta.

Professora de Literatura e Artes no ensino fundamental, Marjorie também se dedica a ilustrar livros. Adepta do que chama de pensamento acelerado, que é esse estar perceptível ao instante, ela abraça a tudo com o ímpeto de agarrar o presente e aquilo mais que tal investida pode gerar. E deixar o agora se esvair pelos desvãos da memória parece uma perda incalculável para a criadora. Nessa dinâmica de uma atenção permanente aos sintomas do mundo, verdadeira recusa em dissipar o laço com a vida, o compromisso com a arte é exercício que revela um extremo teor de sensibilidade,  epifania com causa pungente que abriga as paisagens mais íntimas da artista.

 

Ilustração: Marjorie Duarte

 

* As ilustrações de Marjorie Duarte são parte integrante da galeria e dos textos da 143ª Leva

 

Fabrício Brandão é frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual.

 

 

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135ª Leva - 02/2020 Destaques Olhares

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Esses insondáveis olhos que nos miram

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

A Arte não é apenas esse complexo de possibilidades, concretudes e experiências que se prestam ao território de uma já tão costumeira e reduzida noção de entretenimento. E talvez esse discurso visa reduzir o real impacto que o ofício artístico pode representar para quem se digna a produzir seus conteúdos. Ao lado disso, há a necessidade de percebermos que o artista é, para além de seus gestos humanamente transformadores e contemplativos, um alguém que vive do seu labor, um trabalhador que também oferta seus produtos e precisa se manter profissionalmente dentro de uma determinada lógica de sobrevivência.

Essa discussão toda acaba trazendo à tona o próprio valor que atribuímos aos bens culturais. E fica a questão: por qual razão ainda tomamos a Cultura como algo secundário numa sociedade que demanda sempre pautas urgentes? Indo mais além, por que a seara cultural não seria um gênero de primeira necessidade em nossas prateleiras pessoais? Talvez nos falte informação ou, melhor dizendo, educação suficiente para que consolidemos a Cultura num amplo nível de aceitação social.

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

Mas por que levantar todas essas questões num texto que se dedica a destinar olhares sobre uma artista em especial? A melhor resposta talvez seja considerar que, assim como poderia ocorrer com qualquer outro ramo de atividade profissional, as escolhas e o poder do chamamento pessoal influenciam e mudam rumos. Foi o que aconteceu com Ana Luiza Tavares, que, ao longo de anos consideráveis, viu-se dividida entre as feições de dentista e artista plástica. Ela confessa que, numa certa altura de sua vida, chegou a se afastar da arte por dilemas atinentes à subsistência financeira, chegando a colocar em xeque a própria vocação artística.

Para nossa satisfação e descoberta, o tempo, este senhor que também atenua fardos, foi capaz de apresentar a Ana Luiza caminhos de permanência pelas vias artísticas. Hoje, sua arte coexiste com a ainda trajetória de odontóloga, mas de modo mais firme, decisão que certamente redimensionou sua vida a patamares nítidos de realização pessoal.

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

A seu modo, os desenhos de Ana Luiza Tavares rendem especiais visitas a um universo feminino que sabe a territórios de delicadeza e força. Nesse ínterim, chama especial atenção o emprego das cores, pois estas representam um verdadeiro termômetro de sensações aplicadas às personagens que nos são apresentadas. Cada tom utilizado traduz a performance feminina diante dos mais distintos cenários mundanos, condição tal que pode refletir tanto serenidades quanto inquietudes.

Flertando com elementos poéticos, dos quais a síntese se destaca, Ana Luiza condensa imageticamente sentimentos que pulsam na intimidade humana. Dessa maneira, percebemos alguns de seus desenhos comunicando e reunindo, a um só tempo, temas como o silêncio e o recolhimento, gestos tão necessários em meio ao turbilhão contemporâneo a que somos submetidos.

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

A artista, nascida em Salvador, vive no Rio de Janeiro há cinco anos. Desde muito pequena, testemunhou no seio de sua família a presença ativa da arte, pois sua mãe é ceramista e seu pai um geólogo aficionado por artes plásticas, literatura e música. Quando retomou seu ofício artístico, Ana viu as coisas acontecerem numa velocidade que nem supunha pudessem ocorrer. Conseguiu impulsionar sua carreira de ilustradora, passando a divulgar e comercializar suas obras tanto nas bandas virtuais quanto em espaços físicos no Rio.

Há o algo que se destaca na expressão facial das mulheres dispostas nos desenhos da artista. É como se cada gesto, cada olhar em particular, nos despertasse para contextos peculiares de contemplação e reflexão, sugerindo mergulhos ensimesmados e nem sempre leves de assunção. Aliás, dizer do que somos também denota um infindável complexo de narrativas marcadas por tensões de natureza múltipla. Seja na via de um clamor profundo ou na transmissão de um simples encantamento com a vida, as mulheres de Ana Luiza Tavares olham bem dentro nos nossos olhos, ofertando-nos possivelmente um banquete de estranhamentos e espantos.

 

Ilustração: Ana Luiza Tavares

 

* As ilustrações de Ana Luiza Tavares são parte integrante da galeria e dos textos da 135ª Leva

 

Fabrício Brandão é caótico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfarça no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre em Letras e doutorando.

 

 

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129ª Leva - 01/2019 Destaques Olhares

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O fluxo natural de uma leveza

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Joana Velozo

 

Certamente, muitas existências estão abrigadas em nosso íntimo. Há aquelas que se expandem rumo ao contato com o mundo exterior; outras, como num movimento de retração, voltam-se para o confinamento interior dos mistérios pessoais que carregamos conosco. Temos o poder de decidir qual das nossas esferas de vivência deve vir à tona sob o olhar alheio. No território da alteridade, carecemos da troca que advém do Outro, este alguém que, mesmo não estando próximo, contribui para que tudo o que expomos seja compreendido também como sendo o resultado dos encontros humanos.

Talvez a melhor experiência que possamos adquirir com a Arte seja aquela que aponta para o entendimento sobre quem somos. Por óbvio, esse não é um mecanismo tão simples de se apreender e quiçá exija até mesmo certo engajamento filosófico para sua compreensão. Num misto de contemplação e lucidez, o universo artístico é capaz de desacomodar estruturas e promover também observações mais críticas sobre a realidade. O artista, reconhecendo-se parte integrante do mundo que registra, passa a ser alguém envolvido com as tramas do seu tempo.

Pelos delicados traços da arte de Joana Velozo, o ato de existir pode ser tido como um lampejo poético diante do mundo que nos apresenta incessantemente suas complexidades. Por entre as frestas do cotidiano, surgem vívidas as imagens construídas pela artista, processo criativo a engendrar facetas humanas.

Brasileira radicada em Barcelona, Joana nos apresenta em seu trabalho todo um painel de cores e formas devotadas ao sublime exercício das constatações. E quais seriam elas? Todas aquelas que simbolizam gestos pertencentes a certas andanças humanas. Nesse contexto, impera vigorosa a representação do universo feminino, especialmente alicerçado em contornos que expressam o lado orgânico e substancial do ser mulher. Tais incursões nos remetem a uma conexão que estabelece laços telúricos com a condição feminina disposta numa permanente transformação. Ser mulher aqui dialoga com a ideia de que emergem subjetividades no seio cotidiano das libertações individuais.

 

Ilustração: Joana Velozo

 

Nas ilustrações de Joana Velozo, vislumbramos também interfaces da natureza. Da confluência entre fauna e flora, emanam representações de vidas que correm paralelas ou até mesmo harmonizadas com a interferência dos homens. Assim, animais e vegetais contribuem para a construção de todo um imaginário que, divisando as fronteiras do real e do fantástico, proporcionam uma viagem amplamente sensorial a partir das imagens da artista. Nesse trajeto de percepções, homens e natureza surgem intimamente conectados.

A utilização das cores é outro ponto de destaque nos trabalhos de Joana. Os variados tons e intensidades ali dispostos revelam camadas distintas de apreensão, todos eles a tratar a passagem humana pela Terra como algo essencialmente marcado pela leveza. As cores sugerem um contrabalançar de sentimentos que marcam a expressão dos personagens e ambientes simbolizados. Mesmo diante de certas intempéries, os seres que protagonizam as ilustrações da artista têm suas tensões atenuadas pelos contrastes cromáticos escolhidos. Desse modo, tons de diferentes escalas não se prestam a um mero jogo de oposições; pelo contrário, advogam por papéis específicos dentro da narrativa visual proposta.

Mesmo sabendo que o mundo em que vivemos não nos permite mergulhar em estados de encantamento permanente, talvez a mensagem mais significativa do trabalho de alguém como Joana Velozo se apoie na ideia de que o lado sereno das coisas precisa emergir com mais frequência diante de nossas práticas usuais. É possível suportar a realidade com requintes necessários de quietude e reflexão.

 

Ilustração: Joana Velozo

 

* As ilustrações de Joana Velozo são parte integrante da galeria e dos textos da 129ª Leva

 

Fabrício Brandão confessa que, definitivamente, não consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, é baterista amador e, atualmente, mestrando em Letras pela UESC, aliando Literatura, Comunicação e Cultura.

 

 

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125ª Leva - 03/2018 Destaques Olhares

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Delicados percursos de uma paisagem humana

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Sadrie

 

Cada vez que um artista descortina um véu de coisas ante nossos olhos, é como se outros tantos mundos surgissem com toda sua intraduzível aparência. Mas de onde partem essas novas esferas da existência em meio a uma carga pungente de invenção? A busca pela palavra certa e que melhor define as sensações pode apontar para alguma espécie de reinvenção, ainda mais se considerarmos que a novidade, debaixo do sol que nos guarnece e acalenta, pode não passar de uma quimera.

Eis que duas porções que mais parecem antagônicas teimam em habitar o mesmo espaço abstrato. De um lado, a visão onírica da vida a pulsar desejos e projeções íntimos; do outro, a concretude abraçada ao olhar que considera a porção racional uma ferramenta de constante inquietação. Parece ser possível ter em conta a coexistência de tais dualidades quando observamos detidamente o trabalho artístico de um alguém como Sadrie. Pelo modo como a artista apreende as epifanias mundanas, vemos brotar certo equilíbrio entre o intangível e o corpóreo.

Nas ilustrações de Sadrie, delineiam-se contornos de uma complexa paisagem humana, toda ela entrevendo rituais do corpo e da mente. A essa altura, convém ressaltar o modo como os desdobramentos do feminino assumem uma condição de destaque. A partir desse enquadramento, a artista direciona nossos olhares para o modo como a representação da mulher serve de guia para se perceber a pulsação de um mundo feito tanto de traços sublimes quanto de revelações incômodas. Seja sob a forma da contemplação do belo ou na disposição de um viés crítico, as nuances femininas prenunciam aqui um universo no qual podemos também vislumbrar uma noção de unidade a achar abrigo ideal no reino da poesia.  Assim sendo, à figura da mulher, guardiã das dimensões que nos são mostradas nesse tipo de arte, é confiada a missão de unificar todo e qualquer sentimento, independente de quaisquer denominações que insistam em classificar pessoas.

 

Ilustração: Sadrie

 

Sadrie é, na verdade, a persona artística de Sarah Adriaenssens, uma brasileira que atualmente mora em Antuérpia, na Bélgica. Segundo ela nos confessa, um dos intuitos maiores de sua arte é poder contar histórias através das imagens criadas. Além de se dedicar a ilustrações, a artista também trabalha com quadrinhos e animações. Sua arte também está associada a uma busca pelas raízes que remontam a um resgate pessoal da identidade brasileira. Algumas de suas influências derivam de nomes do quilate de Carybé, Lygia Clark, Louise Bourgeois e Ana Mendieta.

Sadrie evidencia a presença marcante das cores como se estas provocassem um efeito de ressignificar objetos, corpos e lugares. Diante da constatação de que o mundo oferta narrativas nem sempre tão carregadas de leveza, a artista parece subverter tamanha sensação que algum desalento pode nos causar quando engendra temas pueris em alguns de seus trabalhos. Em lugar de considerar como fuga, podemos conferir a tal atitude uma tentativa de mostrar que a serenidade é uma válida maneira de se conceber as coisas que nos cercam. De resto, agigantam-se visões em torno da vida, esta mesma que pode ser tomada em plenitude por marcar em nós a valiosa imprevisibilidade das pequenas coisas e gestos.

 

Ilustração: Sadrie

 

* As ilustrações de Sadrie são parte integrante da galeria e dos textos da 125ª Leva

 

Fabrício Brandão edita a Revista Diversos Afins, além de buscar abrigo em livros, discos, filmes e no ato apaixonado de tocar bateria. Atualmente, é mestrando em Letras pela UESC, cuja linha de pesquisa reúne Literatura e Cultura.

 

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103ª Leva - 06/2015 Destaques Olhares

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Por Fabrício Brandão

 

Caroline Pires
Ilustração: Caroline Pires

 

As cores e contornos sobre o papel. Diálogo entre dois universos. De um lado, o de quem vislumbra imagens; do outro, uma gigantesca nação de coisas a serem descobertas através do olhar. A arte impulsiona o criador quando este é capaz de compreender que pode fundar mundos no mundo.

Ao perceber que o elemento diferencial está na sua individualidade, o artista introduz seus ingredientes próprios numa mistura de signos e sentidos. Diga-se de passagem, o caráter especial da arte é nos mostrar que tudo, até mesmo as coisas aparentemente mais óbvias, podem ser vistas de uma maneira também inusitada. É então que refletimos que a convergência cartesiana de visões não é útil na representação dos universos artísticos.

E o que nos traz à baila uma artista como Caroline Pires? Quiçá mensagens de um admirável mundo novo. Seus desenhos e ilustrações transitam numa dimensão que harmoniza realidade e fantasia. É como um passeio pelo onírico, buscando sorver da vida um sopro de requintes poéticos. Mesmo no despertar do sonho, a artista constata que a existência revela outras camadas, as quais superam a noção meramente física das coisas.

Um aspecto que chama atenção na obra de Caroline é o fato de estarmos diante de caminhos de libertação. Em tal característica, a artista convida-nos a um percurso pelas alamedas lúdicas de sua consciência. Aqui, o anseio de liberdade está representado pela suavidade dos traços e contornos, sobretudo pela forma como se pretende um caminho feito de desprendimento, ou seja, sem excessos e ruídos do ponto de vista visual.

 

Ilustração: Caroline Pires

 

Andar com reduzidos pertences não significa andar de mãos vazias. No desafio de ilustrar um mundo tradicionalmente repleto de fardos desnecessários, Caroline abraça os rumos da leveza como forma de tentar compreender quem é. Mas o fato é que há ventos soprando em todas as direções e, nessa busca, a criadora depara-se com o estranhamento ante os desafios da existência. As rotas são inexatas, complexas, e por trás dessa verdadeira odisseia de sentidos a recompensa maior é a construção de uma linguagem íntima e consistente, capaz de compartilhar algo com os saberes alheios.

A trajetória artística de Caroline remonta à sua mais tenra idade. Nascida em São Paulo, desde pequena ela preenche espaços em branco com traços, linhas e cores. Atualmente, reside em Vargem Grande Paulista, trabalha como designer e ilustradora freelancer no Estúdio Capima. Dentre outros trabalhos, integra o Estúdio Azulê (parceria com a fotógrafa Diana Freixo), o Portal Mobilize Brasil e o novo blog Entreminas, espaço que aborda principalmente a arte feita por mulheres.

Abandonar o mundo em que se vive não é uma alternativa interessante para quem deseja fazer de sua arte uma expressão de identidade. Por mais voláteis que possam parecer, algumas sensações integram a natureza humana de modo inalienável. E a descoberta de novas dimensões existenciais não significa escape, mas sim transcendência, esse sublime estágio que delineia a obra de pessoas como Caroline Pires.

 

 

Caroline Pires
Ilustração: Caroline Pires

 

 

* As ilustrações de Caroline Pires são parte integrante da galeria e dos textos da 103ª Leva.

 

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.