Categorias
89ª Leva - 03/2014 90ª Leva - 04/2014 Destaques Olhares

Olhares

A poética dos intervalos

Por Fabrício Brandão

 

Arte: Leonardo Mathias

 

No diapasão tempo-espaço, a matéria apresenta suas diferentes formas de estar no mundo. Revestida com seus tons aparentes, ela ora explicita muitos de seus significados, ora cumpre um ritual que permanece oculto diante do nosso imediatismo questionador. Quando a margem para a revelação se processa além das esferas físicas, algo marcante instaura-se em torno das nossas percepções. Nesse novo e enigmático território, resiste o verbo segredado e habitante de uma morada regida pelos imperativos do ser.

A busca pela essência é em muito representada pelo enfrentamento dos mistérios, sobretudo quando adentramos um ambiente que desafia nossa mais primitiva capacidade de compreensão das coisas. Assim, vislumbrar cenários contidos nas entrelinhas do ser é como se voltar ao eu tentando captar dele seus sinais genuínos. Noutros momentos, pode também ser uma espécie de déjà vu por entendermos que certas paisagens nos soam curiosamente familiares.

Em meio a tais caminhos, feitos de delicada e inexplicável substância, Leonardo Mathias deixa correr soltas suas visões da existência. Entre desenhos, ilustrações e aquarelas, inscreve-se um tempo marcado pelo sabor dos intervalos. No jogo que permeia a visão imediata de pessoas e objetos, esse artista elege os recônditos como sendo os símbolos preferenciais de seu trabalho. Interessam-lhe desvãos e sendas, elementos que protagonizam o indizível.

 

Arte: Leonardo Mathias

 

Ao passo que sua arte preconiza um recorte intimamente compartimentado das coisas, Leonardo também prefere a antevisão dos cenários e ações, característica que torna robusta a sua perspectiva de conceber a um tudo com olhares de experimentação. Dentro dessa ótica, a vida mesma pode ser recriada segundo uma ordem que equaciona saberes e sabores. O mecanismo que antecipa sensações não é apenas uma tentativa de enxergar o essencial nas entrelinhas do mundo, mas, principalmente, um modo de vivenciar as nuances complexas que se abrigam no interior dos dias.

Outro aspecto que merece ser destacado na obra de Leonardo é o modo como se processam as intervenções humanas nos ambientes.  Aqui, o interessante é notar que se opera uma convergência entre corpos e lugares permitindo a ambos uma espécie de translucidez não somente física, mas também algo abstrata. Nesse hiato de territórios que se fundem, o artista encontra a poesia capaz de engendrar recortes da alma.  A luz que atravessa os pontos de observação do criador redimensiona o caráter conceitual das coisas e, como ele próprio confessa, intenta consolidar uma matéria de encantamento.

 

Arte: Leonardo Mathias

 

As frentes de atuação de Leonardo Mathias não se restringem apenas ao campo das artes visuais e do design. Na seara literária, tem devotado especial atenção à poesia. Seu livro “De Pé” foi recentemente reeditado pela Editora Patuá. Possui colaborações em jornais como O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo, bem como nas revistas ZUPI e InPrint Magazine. Participou de várias mostras coletivas, sendo que, em 2012, realizou sua própria exposição individual, intitulada As Janelas de Rilke, premiada pelo ProAC Artes Visuais (Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo). No meio editorial, sua participação tem sido bastante expressiva, pois ilustrou e assinou projetos gráficos de mais de uma centena de livros.

Dada a aguçada sensibilidade do artista, suas imagens estão à serviço de uma compressão na qual tempo e espaço se conjugam de modo a transmitirem uma peculiar noção de unidade. O olhar que vislumbra o viés orgânico de corpos e objetos transcende a materialidade e nos faz contemplar um universo densamente etéreo. Seu porta-voz, Leonardo, se encarrega de nos ofertar os códigos da sutileza para um deleite autônomo.

 

Arte: Leonardo Mathias

 

* Os desenhos e ilustrações de Leonardo Mathias são parte integrante da galeria e dos textos da 89ª Leva.

 

 

Categorias
87ª Leva - 01/2014 Destaques Olhares

Olhares

A virtude das tensões

Por Fabrício Brandão

Ilustração: Vera Lluch

Levar a cabo as inquietudes do mundo. Ainda assim, perceber que a existência não é uma só e que outros cenários convivem paralelos bem diante dos olhos. Quiçá invisíveis, tais lugares serpenteiam sob certezas e outras tantas ilusões cotidianas. Não há nada melhor do que rasgar o manual da objetividade que tanto vicia nossos dias aqui no planeta azul. Ou seria melhor planeta água, no qual as esperanças se liquefazem tanto na dor quanto no prazer?

Em meio a tudo, é sempre bom poder falar na epifania de um artista. De como esse ser incomodado projeta esferas do pensamento, o tal subproduto da alma. No caso específico de Vera Lluch, é bom ter em conta que o caminho trilhado através da arte reflete não apenas um motivo crucial de expressão da vontade e do olhar, mas principalmente uma forma de entender a vida como sendo um corpo orgânico, amalgamado por sentimentos que habitam na morada secular dos contrastes humanos.

De modo hábil, Vera sabe conjugar o verbo de nossas interrogações diante do pathos mundano. De suas ilustrações, explodem certeiros alguns arremates da consciência. Da avalanche fragmentada que atravessa o relógio do tempo, a artista reúne os cacos de um mundo ainda pouco sabedor de suas reais contradições, tomado que está pelo desfoque das ideias.  O resultado disso fica por conta de um delicado jogo de embates entre matéria e espírito, parceiros inalienáveis do ponto de vista da natureza das coisas, mas que, simultaneamente, se atraem e se repelem no fosso monumental da pós-modernidade.

Ilustração: Vera Lluch

Os recortes humanos presentes na obra de Vera Lluch demonstram que a gênese de nossos estados do ser são a consequência mais pura das escolhas intuitivas. Desse modo, o curso interno das coisas, com toda sua necessária carga de abstração, molda o leito do rio da sensibilidade, sem negar fogo ao terreno da provocação e do espanto diante de tudo o que presenciamos no continuum do tempo.

Nascida no Peru, a artista cresceu dividida entre o Brasil e o Chile. Atualmente, vive e trabalha em Burlington, no Canadá. Diante de todo esse seu deslocamento territorial, ela encontrou na arte um motivo valioso para fundar seu próprio universo, transcendendo a mera noção de pertencimento geográfico.

Na mescla de desenhos, pinturas e colagens, Vera repensa o ato de existir. O efeito maior de seu trabalho talvez seja o de experimentar caminhos e deslocá-los a um ponto mais próximo do cume de nossas hesitações. Mesmo nos pontos de tensão, as ilustrações sugerem uma convivência com a porção lúdica das coisas. Revestidos de um olhar lúcido, os personagens da artista mergulham fundo no lago límpido, sedutor, porém imperfeito, da vida.

 

 

Ilustração: Vera Lluch

 

* As ilustrações de Vera Lluch são parte integrante galeria e dos textos da 87ª Leva.

 

 

 

Categorias
83ª Leva - 09/2013 Destaques Olhares

Olhares

Fluxos virtuosos da liberdade

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Denise Scaramai

 

Como num álbum de memórias, a vida se expande no alongar do tempo. Aquilo que chamamos de passado não necessariamente fica retido numa experimentação de outrora. Nesse deslocamento, recortes da existência parecem não se exaurir por si próprios, algo que reproduz a sensação de que os instantes, mesmo já consumados, ainda sugerem a presença ativa das coisas e seus inalienáveis sentimentos.

Diante desse painel a agregar estratos pormenorizados da alma humana, surge como testemunha a arte de Denise Scaramai. Suas ilustrações transitam, de modo sensível e delicado, por entre o ambiente das reminiscências.  Dos gestos aparentemente mais simples do cotidiano até aqueles mais complexos, seus personagens têm em comum a densa perspectiva da subjetividade. Ali, o caráter da liberdade surge bem delineado pelo exercício amplo da individualidade dos sujeitos retratados. É quando a consciência de se estar no mundo confere sentido à diversidade de situações vivenciadas por cada um.

Na profusão de cores e formas, Denise extrai um resultado poético para os cenários escolhidos, fazendo com que cada lampejo humano extrapole a dimensão física das situações. Nesse ponto, a artista redimensiona o ato de existir para esferas que sugerem o estreitar de laços entre o vivido e o imaginado. Aqui, a dualidade entre o concreto e o abstrato denota a harmonização de dimensões paralelas. Diga-se de passagem, o mundo, tal como o apreendemos em sua inteireza física, já não é mais capaz de comportar as projeções de toda ordem, tornando a via onírica um acesso deveras significativo.

 

Ilustração: Denise Scaramai

 

Paulistana por nascimento, Denise Scaramai possui uma predileção por observar detidamente a manifestação das coisas, bem como suas formas e aspectos singulares. Confessa-se uma obstinada pela inatingível perfeição. Formada em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo, a artista mantém uma especial relação com a via digital, algo que contribuiu para a experimentação de novas possibilidades de criação.

Sem estar necessariamente ligada a um viés artístico específico, Denise professa a independência de suas formas. O conceito de autonomia presente em seus trabalhos permite à criadora reinventar modos de agir e sentir. Diante da passagem do tempo, pouco importa saber dos momentos consolidados ou até mesmo presos num átimo qualquer da existência. Fundamental mesmo é constatar que a vida é algo incapaz de ser domado.

 

Ilustração: Denise Scaramai

 

* As ilustrações de Denise Scaramai são parte integrante da galeria e dos textos da 83ª Leva.

 

 

Categorias
81ª Leva - 07/2013 Destaques Olhares

Olhares

PARA ALÉM DAS ÁGUAS

Por Fabrício Brandão

 

Ilustração: Mario Baratta

 

 

Deixar que o tempo manifeste seus desígnios livremente, apontando direções a seguir. Intuir o curso das águas rumo ao mar que espelha a relativa eternidade das coisas. Um pouco de nossas infinitudes marca o pensamento, e navegar adiante é, sobremaneira, atracar o barco da esperança num cais onde impere a serenidade. O tão projetado porto seguro insiste em ser a grande metáfora da busca imprecisa que carregamos em vida. A partir disso, existir é tão somente uma questão de reter os sinais da odisseia que frequentemente empreendemos.

Há quem nos sirva de guia numa jornada que sabe ao desejo de chegada, e divide conosco o aportar em cada novo lugar como sendo uma experiência de profunda descoberta de si mesmo. São peregrinos como Mario Baratta, que, superando procelas, instauram em nós um sentido sublime para a existência.

Ilustração: Mario Baratta

Ao trilharmos uma rota comum à do artista, percebemos que o fluxo das coisas resiste às intempéries, fazendo com que outros cenários se mostrem com todo o vigor da simplicidade. Se o caminho da revelação é tortuoso por natureza, a arte de Mario subverte as limitações impostas e pretende reinvenções. É, então, que águas bravias sucumbem diante da beleza, esta senhora que apazigua os caminhos do mundo.

Natural de Belém, no Pará, Mario Baratta é íntimo do mistério das águas. Desde a mais tenra idade, acostumou-se a enxergar além das paragens físicas do Rio Amazonas, absorto que estava pela curiosidade de tentar entender a simbologia incontida das águas.

Ilustração: Mario Baratta

Assim, deixou-se conduzir pelos ensinamentos do pai, primeiro cicerone na sua lida com tintas e papéis.  Formou-se em arquitetura e, no meio do trajeto, apaixonou-se pelo ato de lecionar na área, missão da qual não mais se apartou. Entre os feitos de seu currículo, o artista considera como especiais as ilustrações criadas para livros infantis. Aquarelas inspiradas em barcos também são outro ponto importante de sua carreira.

Com uma temática que agrega a arquitetura, as cidades, os rios, o mar, os barcos (batizados por ele como arquiteturas flutuantes), pescadores, trabalhadores urbanos e pessoas, enfim, traços da simplicidade da vida, o artista é testemunha cabal de que tudo se traduz num dinamismo incessante.  Nele, percebemos que o muito de que se precisa para viver é estarmos atentos às manifestações singulares que nos cercam. Um sentido de liberdade está impregnado em sua obra, a tal ponto que partidas e chegadas da permanente viagem humana são faces duma mesma moeda. Parafraseando Milton Nascimento, a arte de Mario Baratta inventa um cais e sabe a vez de se lançar.

 

 

Ilustração: Mario Baratta

 

 

*As ilustrações de Mario Baratta são parte integrante da galeria e dos textos da 81ª Leva.

 

 

 

 

 

Categorias
79ª Leva - 05/2013 Destaques Olhares

Olhares

Uma Dama, Uma Damas

Por Carla Diacov

 

Desenho: Bárbara Damas

 

Desde que a simplicidade se deu, Bárbara resenha, desenha, põe gente, passarinhos e medos pra voar no papel:

A primeira vez que Bárbara pegou numa folha, a folha tragou a Bárbara.

Era de cheirar dum tudo o que tocava.

Conhecia as coisas pelo tato que no tato da coisa, dizia, pequenininha, dizia, que no tato das coisas está a cor e o contorno em luz e sombras.

Tinha muita dó de apontar os lápis, achava que podia doer, não nos meninos, os lápis, mas nela. Podia doer fundo nela, ela a Bárbara. E desde sempre que é desde então, desde que a simplicidade se deu, Bárbara desenha, por conta daquela primeira vez em que a folha tocou nela e porque tudo, pele de coisa, urubu, estado, gente-coração, minhoca vendida, violão velho, gato fedido, pensamento doente, pedra jogada e pedra contente, Monalisa estragada, tudo-tudo, tem cheiro de cor e de mundo e de gente:

Aos dez anos já fazia gente e chamava URUBU aos pássaros que fazia. Vestia pessoas com corações, dava bolsinhas, sorvetes e bracinhos aos corações.

Entrou para a escola de desenhos aos treze anos e abandonou a escola de desenhos aos treze anos quando o professor mandou que desenhasse a Monalisa igualzinho a Monalisa do Leonardo. Onde já se viu? Igualar as coisas? Professor mandar?

Pisoteou a faculdade de artes visuais em 2004 pelos mesmos motivos, ora, onde já se viu?! Onde?!

Desenho: Bárbara Damas

Desenhou, seguiu desenhando e foi parar na faculdade de direito no mesmo período, onde, porque ninguém mandou, graduou-se. Nesse tempo torto, deu-se sua primeira exposição e Bárbara encontrou-se com seus traços. Foi em 2007, no SESC AMAPÁ, no evento “Aldeia SESC Povos da Floresta”.

No ano seguinte, convidada para ilustrar seu primeiro livro infantil, lançou-se no “Macapá – a capital do meio do mundo” pela Cortez editora. De lá, então desenha ali, resenha aqui. E aqui está: Penso que Bárbara Damas tem a arquitetura lúdica, os traços mais leves que conheço. É um estado. Pois que é de se estar debaixo duma árvore muito da chapeluda, verdíssima, quando se tocam os olhos nos traços de Bárbara. É de se estar, mas também pode-se estar a precisar dum lugar assim, sim, porque Bárbara é fornecedora. (Tenho pra mim, tenho para dar, que as linhas de Bárbara Damas elevam a qualquer estado de se estar.)

Há quem desenhe para expurgar, há quem desenhe para se ornamentar, há quem, há quem. Bárbara Damas, como se vê logo ao pingar vistas num de seus desenhos, Bárbara Damas desenha para que o mundo aconteça. O mundo e tudo o que há no mundo: pele de coisa, urubu, estado, gente-coração, minhoca vendida, violão velho, gato fedido, pensamento doente, pedra jogada e pedra contente, Monalisa estragada, tudo-tudo. É de se estar e Bárbara sempre estará, pondo tudo pra voar.

Quem disse que gente não é coração?

Desenho: Bárbara Damas

* Os desenhos de Bárbara Damas são parte integrante da galeria e dos textos da 79ª Leva.


(sou carla diacov. de qualquer forma. não me importa tanto ser. e também vou e volto e babo durante. nasci (09/04/1975) e moro em São Bernardo do Campo e brinquei na praça-dos-meninos. morei a Londrina e ela a mim. fiz teatro e me desfiz. então escrevo e sei que vou, mas volto. de qualquer forma. e gosto tanto de pão de forma com amendocrem. de qualquer forma, que é como eu sou, mas volto. Babando)


Categorias
77ª Leva - 03/2013 Destaques Olhares

Olhares

TRAVESSIAS

Por Fabrício Brandão

Ilustração: Thaís Arcangelo

Um instante partido no tempo e alguns passos rumo ao infinito. No meio do caminho, a sutileza das cores flagrando a vida, atenuando-lhe certo peso da alma. Existir, somados os seus imperativos, precisa se configurar um flerte com os tons sublimes que governam o espaço abstrato através do qual desfilamos nossos rompantes. Existir, nos desenhos e ilustrações de Thaís Arcangelo, é pacto de escutas, rompendo a redoma da grande noite que insiste em nos abraçar.

No limiar entre o real e o inventado, a artista funda territórios e instaura entre nós a percepção marcantemente poética sobre uma delicadeza que esquecemos nalgum ponto da jornada. Assim, viver torna-se um arremesso incerto, porém desejoso de uma transformação a mais humana possível. Ao nos revelar dimensões por vezes etéreas, Thaís desafia zonas de conforto, rejeitando-as e nos impelindo a reescrever nossas errantes trajetórias.

Ilustração: Thaís Arcangelo

Em seus trabalhos, a artista devota especial atenção a uma múltipla representação do universo feminino. A partir daí, surgem personas das mais variadas possíveis diante de nossos olhos, todas elas inscrevendo seu traçado numa tentativa serena de redenção. Nessa perspectiva, Thaís caminha para além da materialidade das coisas, erguendo um vasto e denso painel de sensações.

Se por um lado somos seres reconhecidamente duais por natureza, por outro, nos é dada a chance de revermos nosso velho e desgastado costume de repetir. E isso nos é lembrado a todo tempo nos cenários propostos por Thaís. Com sua ciranda de sentimentos pueris e ao mesmo tempo também maduros, a artista recria mundos no mundo, fazendo do atributo onírico de suas criações uma passagem permanente para o centro de nós mesmos. Nesse trajeto de autoconhecimento, talvez a única certeza que carregamos seja a da dúvida, essa sedutora senhora a nos acalentar insistentemente em todo tempo e lugar.

 

 

 

Ilustração: Thaís Arcangelo

 

 

* As ilustrações de Thaís Arcangelo são parte integrante da galeria e dos textos da 77ª Leva.