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118ª Leva - 03/2017 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Iolanda Costa

 

Foto: Kristiane Foltran

 
sortilégio

 
Um geômetra dos sólidos, vago
gira, embaraçado
à linha, ao diâmetro da carne:
suas figuras vazadas de plano e espaço.

Não vê a mulher, a ruína
a doce espádua nua e coruscante
das que copulam
as sete luas que lhe fulguram o pescoço.

Ela quer o testículo, o seminal
o esfero contíguo e providencial
das Causas Primeiras
transubstanciado.

O colo ungido em ceia mística.

 

 

 

***

 

 

 

brasil

 
A rã do ar invertido
de teu nome não salta:
coaxa como rãs, anãs
a fêmea muda que não coaxa
a língua longa que não alcança
o acento, o inseto, o insulto.

Teme o enxame, órbita-cócora
de brejo em brasa:
sapo sapa sepo
ipiranga tímida que não asa
itininga fúlgida que não flora.

 

 

 
***

 

 

 
ófris

 
do aéreo ao mediterrâneo
sibila a orquídea
seu voo de sépalas.

também a palavra
tem formato de moscas
e zune

sibila em sépia poesia tinta
sua escritura rumorosa:

asa-fulva-flor
de céu interior.

 

 

 
***

 

 

 
ceifa

 
não pinta tanto o lábio
a morte desfaz a boca, a cor
a escarlata do fruto
o rosa encarnado nos sexos

cuida da mortalha, do feno
a vida, bem se vê
não é uma gramínea
de flores nuas
abertas ad infinitum

arranca, do quadril
o colar de absinto

 

 

 
***

 

 

 
outono

 
arde em folha
seus degredos:
casco fóton salso
ulvas-vulva
céu sargaços

quisera do amor
a mão sobre o sexo
a textura do véu
a blusa florada
o indie folk de sais

renascidos ares, abril
onde a pele propulsa
encardida
e a tudo o sol ilumina

 

 

 
***

 

 

 

tear

 
meada
entre
meada

o algodão em flor

gosma, do liço
seu amarume
de estames

 

Iolanda Costa (Itabuna-BA), graduada em Filosofia, é arte-educadora e especialista em História Regional. Editou, artesanalmente, folhetos de poesia “Às Canhas as Palavras Realizam Mil Façanhas” (1990), “A Óleo e Brasa” (19991) e “Antese” (1993). Tem poemas editados em jornais, antologias, revistas eletrônicas e blogs. Participou do Livro da Tribo (2013). É autora de “Cinema: Sedução, Lazer e Entretenimento no Cotidiano Itabunense” (2000), “Poemas Sem Nenhum Cuidado” (2004), “Amarelo Por Dentro” (2009), “Filosofia Líquida” (2012) e “Colar de Absinto”, no prelo. Coordena a Coleção de plaquetes “Pedra Palavra” (2012 -2017).

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81ª Leva - 07/2013 Ciceroneando

Ciceroneando

 

Ilustração: Mario Baratta

 

Passadas as celebrações de 7 anos da revista, um questionamento se faz presente: quais expectativas nutrimos em relação ao que está por vir? Por mais que projetemos o futuro de nossas ações da forma mais positiva possível, nada terá mais sentido do que valorarmos o que nos acontece por agora. Mesmo sabendo que uma boa espera governa os objetivos dum amanhã, estamos certos de que a poética dos bons encontros e descobertas atua a cada instante. É, por exemplo, o que vislumbramos quando organizamos uma nova edição em meio às perspectivas criadas pela exposição dos trabalhos de Mario Baratta, artista que nos cativa pela singularidade e simplicidade de seus registros. Suas ilustrações, por sua vez, estruturam pontes de diálogo com os versos de Iolanda Costa, Elizabeth Hazin, Alberto Lins Caldas, Mônica Mello e João Urubu. Noutro ponto dessa jornada, há também a interação das imagens com as prosas de Lizziane Negromonte Azevedo, Rosa Pena e Tere Tavares. Para falar um pouco sobre outras especiais e poéticas dimensões propiciadas pela fotografia, entrevistamos Peterson Azevedo. Sob os olhares atentos de Guilherme Preger, testemunhamos as complexas reflexões do filme francês “Augustine”. O livro de poemas “Memórias de um hiperbóreo”, de Oleg Almeida, é objeto das sensíveis observações de Rejane Machado. Dentro do novo panorama da música brasileira, Larissa Mendes destaca os predicados de Vazio Tropical, mais recente disco do cantor e compositor Wado. A resenha de Luciana Oliveira percorre as vias obscuras de “Os encantos do sol”, segundo romance de Mayrant Gallo. E assim surge a 81ª Leva, marcada pelo ritual das esperas que se fazem algo concreto e palpável quando você, caro leitor, deitar olhos sobre tudo e conduzir as leituras a partir de seu lugar no mundo, condição esta que nos impulsiona adiante, rumo a uma saborosa sensação de misterioso devir. Evoé!

 

Os Leveiros

 

 

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81ª Leva - 07/2013 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Iolanda Costa

 

Ilustração: Mario Baratta

 

De joelhos

 

O amor cãibra sobre o assoalho
dá voltas em torno da sua inadequação
e rala os joelhos.
Não transita. Não se ergue.
Não se transforma em a asa ou em barco.
Da porta mesmo volta
e macera.
Ele é aprisionado no corpo, o amor
e quase nunca conhece
a maneira dos pássaros.

 

 

***

 

 

Subtraído

 

teu coração de exíguo
e indefinido amor
descansa entre um domingo e  outro
põe a água para ferver
e esfria.
não espera o equinócio, o saldo
o próximo aniversário
o cabelo crescer pelas costas
enquanto vaga nas proporções
e quedas previstas pela exaustão.
meu coração
sobrancelha sobressaltada
no teu vulto
“cogito, ergo sum” sem a prova dos nove
meu batom terra glaise 74.

 

 

***

 

 

Acordo

 

não lhe faria mal algum pela manhã.
deixaria o saldo
………………. ….o ocaso
o escaldo da colheita
………………….tardia e enunciada
e a centena de mal-traçados
escritos em breves
e em permanentes polissílabos.
me devolveria o livro
…………………………….o centauro
a minha concuspicência.
sem olharmo-nos.
com o distanciamento
recomendável
aos que se amam em demasia
e se arremessam.

 

 

***

 

 

Anímico

 

anuncia o princípio anímico
e todas as coisas se enchem
de alma.
vela o Verbo
espia a pena
ratifica as Escrituras, o Talmude,
………………………………………………o Tao.
Deus imana e eu amo as hortaliças
de verde enluarado.
e o centeio e o peixe e o orvalho
e  a pedra e  a trovoada e a magnólia.
tudo exala. nada transcende.
o vácuo é composto de falenas.

 

 

***

 

 

Vigília

 

Havia ternura:
a cor da fruta
sombreava as palavras
o cavalo-marinho
ia de amarelo
e sem ver
todos os nossos braços
suspensos em tempo irregular
de afago e festa.

Então, reiventarei
por necessidade
novas guardas.
Trazes o crisântemo
e a ófris esquecida
e a alma
desalinha-se no leito:
minhas horas são feitas
de inseguro tear.
Antecipas o agosto
em tempo hábil
e o talha em jaspe:
a melifluidade
do amor raro
resvala na pedra.
Tuas mãos cheiram
a silício e abandono.

Nenhum louva-deus.
Nenhuma flor imprevista
salta das letras.
De madrugada
assim tão tarde
nem as tangerinas maduram
e nem o céu responde.
Tua metafísica monitora
o fólio, a promissória
e a minha poética insiste, azul
como anil dissolvido na água.

 

 

***

 

 

Amarelo Por Dentro

 

A tua letra é amarela
como a nêspera, a gema
o fruto em véspera e ocre
saltando da árvore, da página
da costura no dobrado do paletó.
Devolveu-me a vida enquanto escrevias
e sublinhavas o termo, a epígrafe
a semântica clara de cuidados.
Trouxeste o castiçal, o sol
a lâmpada
a última literatura.
O teu amarelo a escorrer-me, por dentro.

 

(lolanda Costa (Itabuna-BA) é graduada em Filosofia e especialista em História Regional. Editou, artesanalmente, folhetos de poesia Às Canhas as Palavras Realizam Mil Façanhas (1990), A Óleo e Brasa (1991) e Antese (1993). Tem poemas publicados em jornais, antologias e blogs. É autora de Cinema: Sedução, Lazer e Entretenimento no Cotidiano Itabunense (2000), Poemas Sem Nenhum Cuidado (2004), Amarelo Por Dentro (2009) e Filosofia Líquida (2012))