Categorias
106ª Leva - 09/2015 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

 

Premedito o encontro com meu entrevistado sem que ele sequer desconfie. Aguardo paciente, porém não menos ansioso, pelo momento de conversarmos. O ano de 2015 já começa a desferir seus últimos golpes. É uma tarde quente de sexta-feira e, enquanto espero o meu alvo de interlocução findar suas tarefas profissionais, vislumbro cenários possíveis para nosso diálogo.

Há uma certa magia a envolver a pessoa de Adalmiro Leôncio da Silva. Estamos na litorânea cidade de Ilhéus, no sul da Bahia, e nessas paragens ele não é conhecido pelo nome de batismo que acabo de mencionar. Ao se pronunciar o nome Sabará, é difícil encontrar alguém, sobretudo no meio cultural daquela região, que pelo menos não tenha ouvido falar da representatividade desse consagrado artífice da música.

Contabilizando, como ele mesmo sustenta, seus bem vividos 81 anos, Sabará iniciou a vida artística em torno dos 11 anos de idade. Entrou no mundo da percussão, especialmente na bateria, em Ilhéus. Como baterista, acompanhou grandes nomes da música brasileira. Colecionou encontros com figuras de relevante expressão artística, o que o fez expandir seus horizontes profissionais. Há mais de 50 anos, aprofundou-se nos estudos e vem dando aulas de bateria, ofício que sem dúvida alguma ocupa um sentido especial em sua trajetória.

No contexto da música da Bahia, a reverência à expressão de Sabará é algo patente. Uma atmosfera de refinamento e sabedoria ronda a imagem desse artista, tornando-o alguém notadamente popular. Ao mesmo tempo, o modo como ele se dedica ao incessante ato de ensinar bateria a pessoas de todas as idades, driblando os arremates do tempo, chega a assumir uma feição eminentemente poética.

Nesse diálogo que agora fica aberto aos leitores, Sabará compartilha saberes e sabores de sua trajetória. Entende a música como sua genuína forma de oração pessoal e ressalta o compartilhar do conhecimento como um dos traços fundamentais de sua existência. É conversa que emprega um ânimo renovado, principalmente para quem concebe a vida como um ciclo dinâmico e espirituoso.

Sabará
Sabará / Foto: Fabrício Brandão

DA – Num determinado momento, você identificou a necessidade de sistematizar o estudo da bateria, incluindo o aprendizado da teoria, mudando um modelo que andava meio obsoleto na região em que vivia. Como se deu esse processo?

SABARÁ – Era realmente uma necessidade fazer. Na época, eu tocava no Lorde Hotel, do saudoso Nelson Muniz Barreto, e recebi uma visita de um músico russo famoso, chamado Henry Polar. Ele e a esposa. Henry fazia o violino; ela, a coreografia. Então, na sala de visitas do hotel, onde eu era o baterista, haveria um show com esse violinista consagrado. Foi nesse momento que eu percebi que tocar apenas não era o bastante. Era preciso aprender a teoria musical, a linguagem do instrumento, e fazer aí a base para se tornar um músico profissional. Quando Henry trouxe as partituras, eu fiquei sem saber o que fazer, não consegui tocar no show. Foi quando eu decidi aprender algumas coisas, fiz alguns cursos e falei com muitos bateristas da região sobre a importância de se dominar aqueles conhecimentos, pois imaginava que as exigências do mundo iriam mudar a maneira de ser dos músicos do interior. Pessoas competentes e com capacidade musical superior ao que fazíamos iriam chegar até nós e precisaríamos ficar sabendo sobre aquilo. Foi aí que eu instalei um curso de bateria do qual saíram alunos músicos que hoje estão espalhados por diversos cantos do país e do mundo. Era imperativo realizar isso, pois não se justifica ser um profissional sem estar capacitado para tal.

DA – Naquela época, essa mudança de paradigma causou algum estranhamento, uma espécie de resistência entre os músicos?

SABARÁ – Sim. Alguns chegaram a dizer que não era necessário aprender porque julgavam que já tocavam bem e sabiam acompanhar as músicas da época. No entanto, aos poucos, eles foram mudando de opinião, perceberam a necessidade e passaram a estudar. O princípio de estudo que eu lancei em Itabuna ajudou a mudar esse panorama.

DA – É uma grande fantasia supor que um músico conduz sua carreira apenas com os ouvidos, sem ter uma noção teórica ou saber ler uma partitura?

DA- Exatamente. É necessário se informar e formar consciência do conteúdo com o qual se trabalha. Quando eu falo da interpretação, digo que quando um músico tem uma partitura em mãos ou não, ele tem que tocar com sentimento. Isso leva o músico a expressar o que vem de dentro. Como digo sempre, as interpretações estabelecem os contextos onde os elementos da música ganham significado. Aquele que está executando a música tem, antes de tudo, consciência de causa, ou seja, de conteúdo. Juntando isso ao sentimento, o músico cresce. O que está ali escrito é algo inanimado, sem vida, e quem vai incitar aquilo a ganhar corpo é o músico, o intérprete. Isso é o óbvio ululante (risos). É uma questão de sensibilidade.

DA – Em sua trajetória, você acompanhou diversos músicos, cada um com sua devida importância. O que dizer dessa experiência?

SABARÁ – É justamente nesse ponto que eu ressalto a importância do conhecimento a respeito da teoria. Foram muitas as experiências, mas cito algumas delas, como é o caso de ter tocado com artistas como Cauby Peixoto, Wanderley Cardoso, Adriana, Joelma, Tito Madi, Nelson Ned, Wando, Osvaldo Fahel, Miltinho, dentre outros mais.

DA – Sua formação vem do contexto de banda de baile, não é?

SABARÁ – Exato. A banda de baile, para quem não sabe, é uma verdadeira escola na qual se tem o conhecimento de todas as estruturas musicais ou rítmicas, sobretudo dos estilos populares brasileiros. Você toca do maracatu ao axé. Hoje, por exemplo, o axé é um movimento que tem uma interferência muito grande na coisa da dança de rua, e o baterista tem que saber tocar. Inclusive, o baterista tem que ser eclético, pois o baile exige muito, da valsa ao axé, sem falar em ritmos como a salsa, dentre outros tantos. Até o hino nacional brasileiro nas comemorações cívicas a banda de baile toca (risos).

DA – O grande desafio do músico é ser versátil?

SABARÁ – Sim, e estar sempre a par do que acontece, pois o Brasil, por exemplo, é um país que sempre lança coisas novas. Eu costumo dizer, em algumas oportunidades, que a arte inaugura, de tempos em tempos, formas de tornar presente o inexplicável. O que é que é isso? Você está aqui hoje, vivendo o axé, o arrocha, e daqui a algum tempo vai perceber um outro ritmo, uma outra denominação, outra maneira de tocar e dançar gerada a partir desse conhecimento e enorme variedade de ritmos que o artista tem a sua volta. De repente, ele consegue construir uma consciência cultural ampla pelo fato de experimentar essas várias estruturas rítmicas.

Sabaraii
Sabará / Foto: Fabrício Brandão

DA – A gente sabe que vive num país onde a cultura popular tem um apelo muito forte. E há questionamentos antigos que acabam implicando em juízos de valor sobre o que presta ou não nessa seara. O que você pensa a respeito disso? Não há ritmo ruim?

SABARÁ – Sua pergunta é pertinente. Existem músicas que estão aí fazendo sucesso pela capacidade de observação mal orientada do povo brasileiro. Há músicas de péssima qualidade, do ponto de vista de harmonia e melodia. Existem músicas intelectualmente pobres, com letras vazias e há também aquelas apelativas dizendo coisas que nada têm a ver em relação a um trabalho de arte. A arte é única. Não existe arte pior nem melhor. Agora, quem sabe fazer mais, faz mais.  Como dizia um músico, do qual não me recordo agora, não existe música ruim, existe música mal tocada. Não tenho nada contra nenhuma forma de manifestação artística. Qualquer manifestação artística é ótima, válida. Se é bem feita, realizada com inteligência, ou se é algo que se merece gostar e apreciar, é uma questão de gosto, é diferente. Tem gente que fala mal de músicas tocadas em dois tons. Conheço canções tocadas em apenas três tons e que são ótimas. A coisa está na forma, na capacidade de quem produz. Essa que é a realidade.

DA – Na sua vivência com a música, tanto do ponto de vista da escuta, da percepção, quanto da experiência de ter tocado com artistas de todo os estilos, o que essencialmente marcou o seu trabalho?

SABARÁ – Tive o prazer de tocar com Humberto Clayber, um dos maiores gaitistas do mundo, e para mim foi um sonho realizado, até porque ele era também o baixista do Sambalanço Trio, compondo o conjunto com Airto Moreira, na bateria, e César Camargo Mariano, no piano. Era um grupo que ali, na época da bossa nova, me emocionava demais. Certa vez, em Ilhéus, eu e Clayber fizemos um show juntos e foi um verdadeiro sucesso. A casa estava lotada e, do lado de fora, ainda tinha muita gente querendo entrar. Foi uma experiência que me marcou demais por poder tocar com um músico como ele. Outros também foram importantes, como foi o caso de acompanhar Cauby Peixoto, que fazia um sucesso e tanto na década de 60. Talvez as pessoas de hoje não lembrem muito bem, mas havia também o Nelson Ned, que era conhecido como o “pequeno gigante”. Para mim, que fui criado numa localidade pequena de Ilhéus, chamada Banco Central, na fazenda de meu avô, e depois poder conhecer pessoas de relevância musical, evoluir na profissão e testemunhar também o crescimento de músicos que foram meus alunos, hoje espalhados em diversos cantos do mundo, é uma emoção muito grande. Por tudo isso, me sinto realizado. E quisera eu ter podido dar uma canja com os Beatles, com George Benson (risos).

DA – Você passou um período tocando no Rio de Janeiro. Como foi essa fase?

SABARÁ – Eu tocava numa boate chamada Balalaika, em Copacabana. Muitas vezes, depois das apresentações a turma saía em direção ao famoso Beco das Garrafas. Foi nesse contexto que eu troquei ideias com bateristas muito bacanas, como Dom Um e Milton Banana. Não cheguei a estourar e ficar famoso, mas me sinto realizado. Quando retornei à Bahia e vim morar em Itabuna, fui conquistando reconhecimento a ponto das pessoas me chamarem de mestre Sabará, isso e aquilo. Quando as pessoas me chamam de mestre, digo que isso se dá por reconhecimento e respeito, não por desempenho acadêmico que o possuísse por direito. Tenho consciência disso.

DA – Ali no Rio você teve a possibilidade de acompanhar a efervescência da Bossa Nova. O que significou testemunhar tudo isso de perto?

SABARÁ – Eu morava em Realengo, era bem jovem e, naquele momento, não tinha noção da importância daquele movimento. Nem mesmo aquela turma que se juntava no apartamento da Nara Leão, com João Gilberto e tantos outros, sabia o que era a Bossa Nova, até porque não se sabia o que se estava fazendo. Mais adiante, o termo surgiu de modo informal. Eu mesmo só fui sentir a grandeza disso tudo algum tempo depois, quando a coisa estourou e, na maioria das grandes cidades brasileiras, se fazia o chamado power trio, que era composto de piano, baixo e bateria para tocar o gênero. Nem mesmo o próprio João Gilberto, que saiu lá de Juazeiro, tinha ideia de onde o movimento iria chegar. Eu só lamento que a coisa tenha se perdido um pouco hoje em dia, talvez pela enorme quantidade de ritmos que surgiram no país. O próprio Tio Sam, naquela época, ficou com receio daquilo tudo, até mesmo quando abriu as portas do Carnegie Hall. A Bossa tem seu lugar hoje em dia, mas me parece que para poucos.

DA – Assim como a Bossa Nova, o Tropicalismo também fincou suas bandeiras. De que modo você acolheu esse movimento?

SABARÁ – O Tropicalismo foi importante porque quebrou estruturas musicais. E o novo, além de ser diferente, provoca curiosidade. Era uma bandeira forte. Vou até fazer uma brincadeira: o Brasil por ser um país tropical é tropicalista sempre (risos).

Sabará
Sabará / Foto: Fabrício Brandão

 

DA – Você é saudosista?

SABARÁ – Todos nós somos. Quem disser que não, está mentindo. De uma maneira atávica, você volta ao passado.

DA – Aquele menino que nasceu em Banco Central tinha a mínima ideia de que trilharia um caminho com a música?

SABARÁ – Não. Eu, menino correndo as roças de cacau, subindo em pés de jaca, tomando banho de rio, brincando de picula, jamais poderia imaginar.

DA – O rádio compôs a sua primeira memória musical naquele período?

SABARÁ – Sem dúvida. E vou dizer uma coisa que marcou e que não é música. Lá na fazenda, ainda garoto, meu avô comprou um rádio que na época era ligado numas baterias que mais pareciam essas de carro. Nunca esqueci a marca do rádio. Era Mullard, com dois ganchos que se ligavam à bateria. E a minha família se reunia em torno do rádio para ouvir uma novela chamada “O Direito de Nascer”. Olha que coisa! Ficou na minha mente até hoje. Assim como ficou também a paisagem, aquele cheiro de roça, ambientes que nem existem mais. Portanto, não vá em busca do passado porque ele não mais existe. Está dentro de nós.

DA – O nome Sabará vem de onde?

SABARÁ – Ah! Que coisa incrível! Essa é uma das coisas que não entendo porque aconteceu comigo. Eu torço pelo Flamengo. Quando cheguei para jogar na praia em Ilhéus, havia os famosos babas, que era como se chamavam as partidas. Eu, modéstia à parte, era bom de bola e, pela ponta direita, era um raio, driblava bem. As pessoas começaram a me apelidar de Sabará porque havia no Vasco da Gama um ponteiro direito com o mesmo nome e características de jogo. Ficou esse nome. E na música também pegou.

DA – Nessa sua faceta de professor, o que foi determinante para você criar um método próprio do ensino de bateria?

SABARÁ – Quando eu descobri a possibilidade de estudar bateria, fiz cursos com Reinaldo Martinelli Filho, que era um músico de formação acadêmica, Phd em música na Alemanha. Fiz também um aprendizado sobre divisões com o professor Florisvaldo, que era o mestre da filarmônica de Ilhéus. Esse conhecimento me deu a oportunidade de passar as informações. Então, o que eu aprendi nesse contexto, além de ter estudado em livros e outros materiais, me deu condição de passar exercícios aos meus alunos. Agradeço muito ao professor de música Aderbal Duarte, da Universidade Federal da Bahia, que me enviou um livro de suma importância na aplicação dos exercícios.

DA – Há um sentimento especial no resultado desses mais de 50 anos de ensino?

SABARÁ – O de ver alunos meus tocando profissionalmente em diversos lugares do mundo. Fico satisfeito porque o trabalho deu a alguns perspectivas de vida.

DA – O quanto Sabará conhece Sabará?

SABARÁ – É uma pergunta profunda demais. Conhece-te a ti mesmo, já disse o homem lá. E não é tão simples conhecer a si próprio. Ninguém se conhece inteiramente. Então, eu diria que sou um cão que ladra para os que me amedrontam, adulo os que me tratam bem e mordo os maus (risos).

Fabrício Brandão é um dos editores da Revista Diversos Afins. Cultua livros, discos e filmes com amor táctil e espiritual.

Categorias
92ª Leva - 06/2014 Destaques Pequena Sabatina ao Artista

Pequena Sabatina ao Artista

Por Fabrício Brandão

Tantas eras já atravessadas e o caminho das palavras continua a se  guiar pelos imperativos da liberdade. Podemos aqui falar em liberdade a abranger tanto o campo criativo quanto o editorial. No primeiro caso, a conjunção entre forma e conteúdo confere vigor a todo e qualquer escrito. Com relação ao outro, novas investidas são pensadas como estratégia de trazer ao lume do mundo vozes muitas vezes nunca dantes percebidas.

O fato é que editoras não funcionam sem que tenham em suas mãos algo valioso. De nada adiantaria todo um trabalho de garimpagem de escritos os mais diversos possíveis se os sujeitos que os representam não trazem a marca da qualidade em suas expressões. O tempo em que vivemos tem trazido alternativas significativas no que se refere a publicações de obras. Nesse ínterim, um ânimo renovado irrompe. Na contramão dos ditames puramente mercadológicos, os quais segregam muitas obras a espaços confinados ou as enquadram num círculo duvidoso de preferências, o papel das pequenas editoras tem proposto novas reflexões sobre o tema.  Através do uso de tiragens reduzidas e de ferramentas de comercialização e divulgação diferenciadas, tais empresas intentam não somente um lugar ao sol, mas também servirem como espaços de democratização de expressões.

Um dos exemplos vivos dessa nova aurora editorial é o da Mondrongo Livros. Sediada em Itabuna, no sul da Bahia, a editora tem como seu fiel condutor o escritor paulista Gustavo Felicíssimo. Há pouco mais de vinte anos, Gustavo, que é natural de Marília, escolheu as paragens baianas como seu novo espaço no mundo. Sempre foi um obstinado ativista cultural e durante muitos anos fomentou a recuperação de obras de relevantes nomes da poesia baiana, bem como colaborou com a divulgação de outras tantas vozes. Sem dúvida alguma, sua vivência de poeta e de apaixonado pela literatura é que faz dele um homem mais preparado para enfrentar as vias editoriais. Dentre suas obras, estão os livros Outros Silêncios (2011), Procura & Outros Poemas (2012), Blues Para Marília (2013), todos pela Mondrongo. Experimentando um outro momento em sua feição de editor e prestes a lançar seu mais novo rebento poético, Gustavo nos recebe para um diálogo cujo tema maior não poderia ser outro: a marca indelével da literatura.

 

Gustavo Felicíssimo / Foto: Fausto Roim

 

DA – Num determinado ponto de sua trajetória com a literatura, eis que surge a Mondrongo Livros. A partir daí, sua feição de editor, já acostumado a projetos diversos, ganha um substancial impulso. Que tipo de necessidade marca a origem da editora?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – A Mondrongo nasceu de uma imensa e profunda insatisfação que eu vivia com tudo o que me cercava profissionalmente há anos. Posso dizer que foi o Teatro Popular de Ilhéus, através do Romualdo Lisboa, que em 2011 livrou a minha alma de um infarto fulminante ao me convidar para o desafio de fundar a editora com o objetivo claro de fomentar a literatura no sul da Bahia. Agora a Mondrongo está em voo solo, desvinculada do grupo, e batendo suas asas para além das fronteiras sulbaianas, mas a gratidão é e sempre será imensurável. 

 

DA – Como está sendo o processo de expansão da editora? Há uma clara intenção de abrir espaços para autores de outros recantos do país?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – Há uma assertiva atribuída a Tolstói, que diz mais ou menos o seguinte: se queres ser universal, começa por cantar a tua aldeia. Eu digo que para tornar a Mondrongo uma editora de relevo nacional, primeiramente ela precisa, além de tempo, ser importante para o local em que nasceu. Assim, após três anos de existência e já tendo consolidado uma posição de relevo na cultura sulbaiana, começamos a pensar na ocupação de um espaço estratégico na Bahia. Para tanto, criei a “Série Horizontes”, que vem, desde o final de 2013, publicando alguns dos principais poetas baianos da chamada “Geração Anos 2000”, como o João Filho, Henrique Wagner, Silvério Duque, Nívia Maria Vasconcelos, Patrice de Morais e Herculano Neto. Esse nosso empenho em prol de uma geração vem dando bons frutos, atraindo público satisfatório para os nossos eventos, e olhares interessados tanto das academias quanto do próprio meio literário, o que comprova o acerto das nossas escolhas. Até o final de 2014, somente nesta série, teremos 10 obras publicadas. Criei também a “Série Mondronguinho”, exclusivamente para a publicação de obras infantis e infanto-juvenis. Fruto de uma demanda natural, a Mondronguinho tem dado um retorno muito positivo e alargado os nossos horizontes, pois é uma seara nova para mim e com a qual venho aprendendo muito e consolidando parcerias estratégicas. Já em um plano mais amplo, mas nem por mais importante, trabalharei para tornar a Mondrongo uma referência nacional para o Haikai, essa forma poética tão importante, mas ao mesmo tempo tão marginalizada, publicando, inclusive, autores de relevância. Para isso tenho em desenvolvimento a edição das cinco primeiras obras que deverão ser lançadas até outubro deste ano. Enfim, a expansão está acontecendo de maneira natural. Ou seja: de acordo com o que avançamos no cumprimento das metas planejadas, outras metas vão se impondo naturalmente. 

 

DA – Na sua avaliação, quais características marcam a nova face da literatura baiana?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – A face é sempre a mesma. Em “Oropa”, França e Bahia, como em qualquer lugar, a literatura é multifacetada. Não há características que a possam definir. O que existem são os bons e os maus escritores. Os primeiros são capazes de escrever obras que marcam nossas vidas; outros, mal conseguem preencher os espaços vazios na estante.

 

DA – Cada vez mais, as editoras independentes vêm ganhando espaço no Brasil. Uma das alternativas de atuação delas está no uso de tiragens reduzidas como estratégia de sobrevivência e também de reação ao mercado editorial vigente. De que modo você percebe esse processo?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – Cada dia mais me parece que ser independente é, necessariamente, depender de todo mundo. Mas o que aqui se deve entender como “independente” é o fato de ser uma editora pequena, de poucos recursos financeiros, que valoriza o autor e tem um olhar diferente para projetos inusitados, muito embora, como qualquer empresa, necessite trabalhar com os pés no chão para não quebrar por conta do entusiasmo. O capitalismo nos deu tecnologias, possibilitando pequenas tiragens com boa qualidade, custo acessível e canais de venda via internet, possibilitando que nos distanciemos cada vez mais das livrarias convencionais, muitas vezes parecidas a cemitérios de livros. Deu-nos ainda, em certa medida, a condição de ignorar a mídia tradicional, que sempre nos quis ver com pires na mão. Parece-me que o caminho dessa “reação” passa por aí. 

 

DA – Desde 1993, você elegeu a Bahia como morada. E seu livro “Blues para Marília” é algo pungente na medida em que pontua a sua travessia como escritor até aqui.  Como você vislumbra esse seu exílio íntimo de poeta? 

GUSTAVO FELICÍSSIMO – Minha ligação com a Bahia é algo muito especial, transcendental, diria. E Marília é a base da minha gênese. Em 1970, meu pai, que era Caixeiro viajante, esteve em Salvador a trabalho e trouxe consigo a minha mãe. Quando retornaram, ela estava grávida. Daí por diante, sempre que ele se lançava no mundo dizia: “Mulher, cuida bem do nosso baianinho”. E na volta, inevitavelmente, perguntava: “E aí, mulher, como está o nosso baianinho?”. Daí que para mim não há mistério algum ter vindo parar ocasionalmente a trabalho na Bahia, em 1993, e daqui não ter saído mais. A par disso, posso dizer, literalmente, com as palavras do Gilberto Gil, que a Bahia me deu régua e compasso, que aqui, graças a todas as influências, sobretudo culturais, fui forjando o homem que sou, o entendimento de mundo que tenho. Foi aqui que entendi que sem a literatura a minha vida não poderia mais acontecer. E o que me é mais caro: aqui nasceu a minha filha, esse ser que amo tanto e que me mostrou o quanto sou pequeno. É à margem do que sou que sei exatamente o que não fui.

Sobre Blues para Marília, penso que essa pungência atribuída à obra se deve pela inserção de um forte componente emocional, minhas mais alegres e dramáticas reminiscências. Com elas me fiz e me desfiz nos caminhos da vida. Foram dez anos de escrita, dez anos tentando entender as minhas agonias para traduzi-las em imagens, algo que somente a poesia, com sua potência verbal, pode dar conta.  Isso se o autor trouxer consigo uma profunda consciência literária e o respeito pela tradição. Somente assim é possível manter a poesia liberta, em pleno voo. O livro foi lançado em abril de 2013 e vendeu os 500 exemplares iniciais, o que me forçou a providenciar uma segunda edição ainda mais caprichada, disponível para aquisição.

 

DA – Criar é notadamente uma confissão de pertencimento?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – Em todos os sentidos. E mais: é uma questão de identidade. Afinal, nossa escrita é o reflexo do que somos. Mas criar é também uma espécie de defesa, uma forma do ego repelir a angústia e a ansiedade, sublimando-os.

 

Gustavo Felicíssimo / Foto: Fausto Roim

DA – A memória afetiva pode ser também um terreno melindroso para o poeta?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – Se, como afirmo anteriormente, nossa escrita é um reflexo do que somos, logo a “memória afetiva” é parte da identidade do autor. É ela que repudia os contrários gerando tensão. Essa oposição gera a necessidade de se diluir a tensão, proporcionando a força motriz da criação. O Anthony Storr, em “A dinâmica da criação”, explica que uma pessoa criativa necessita de um mergulho incomum no seu interior para conter e fazer uso do que descobrir ali.

 

DA – Em “Procura e outros poemas”, você experimenta o gosto de uma maturidade literária. E há ali também uma, digamos assim, alusão ao uso responsável do verso livre. Diante dessa atmosfera, quais reflexões lhe parecem mais relevantes?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – Embora transite por diversos gêneros literários, sempre fui conhecido, ou mais conhecido, como poeta. Talvez por isso a Mondrongo venha se firmando e merecendo atenção por conta dos projetos e publicações nessa área. Quanto a meus livros, o que posso dizer é que sempre tive a consciência de que um compêndio de poesia precisa ser formado por uma unidade, um aspecto qualquer que o perpasse como uma espécie de fio condutor, afinal, um livro do gênero não deve ser um ajuntamento aleatório de poemas, mas antes de tudo uma proposta conceitual, seja ela discursiva ou formal. Daí eu ter levado, em média, dez anos para aprontar cada um dos meus livros. Mas sejam em versos medidos ou não, me parece importante que os volumes de poesia reflitam essa proposta estética, muito embora não tenha muita esperança quanto a isso, pois os poetas, de um modo geral, historicamente interpretaram de maneira inadequada o modernismo, permitindo que a sua influência lhes prestasse, em verdade, um desserviço na medida em que se confundiu liberdade com permissividade e até mesmo vulgarismo. É como disse o Elliot: não existe verso livre para quem quer fazer um bom poema.

 

DA – No conjunto de sua obra, há uma busca consciente por uma unidade formal?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – O termo “formal” da pergunta parece vir revestido de um significante pejorativo, no entanto é necessário considerar que todo poema é uma unidade formal se levarmos em conta que não poderá ser considerado como tal se não conseguir amalgamar em seu bojo elementos como “imagem”, “melodia” e “ideia”. O problema é que termos como “forma”, “métrica” e “versificação” se transformaram em verdadeiros xingamentos para os poetas na modernidade. Só que não conheço nenhum bom poeta que não domine esses elementos fundamentais, até para quem se identifica mais, ou mais especificamente, com o chamado verso livre. Todavia, como afirmou Ildásio Tavares, esse é um processo dialético e o esvaziamento de um conduz à valorização do outro. À parte essas considerações, o importante é que, seja em verso livre ou concebido dentro de alguma forma, se faça poesia. No entanto, é necessário lembrar aqui um provérbio latino que diz fit orator, nascitur poeta.

 

DA – Você está prestes a lançar seu mais novo livro, “Desordem”. Com qual clamor estes versos surgem?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – Mesmo não tendo nenhuma certeza quanto a isso, posso dizer que “Desordem” foi se construindo permanentemente assistido por um rigoroso discernimento crítico. Nele, através do uso da metalinguagem, estão contidas diversas das minhas reflexões sobre a poética e o fazer poesia, também há uma suma importante de reflexões sobre a morte, resumidas em um capítulo formado apenas por elegias, e, por fim, há um capítulo intermediário em que floresce muitas vezes o meu lado combativo em poemas de feições diversas, normalmente de características obscuras e até mesmo pessimistas.   

 

DA – Nesse universo de percepções que abriga o poeta e o homem, o quanto Gustavo Felicíssimo conhece Gustavo Felicíssimo?

GUSTAVO FELICÍSSIMO – A única maneira que tenho para responder à pergunta é com um antigo poema, intitulado Autorretrato.

 

Sou como o invisível céu
que não vos inspira cuidados,
pois retorno depois das névoas
sobre os campos abandonados;

sou finito e celebro o fogo
infindável do grande jogo

a nos enlaçar a garganta;
creio no vórtice da voz
sacrossanta que a tudo encanta:

trago os haveres desse mundo;
sou terra, sou campo fecundo.

 
– 3 POEMAS INÉDITOS* –

 

À POSTERIDADE

 

Ocorreu-me de escrever
um poema à posteridade.
Um poema que assegure
a permanência do meu nome,
seja lá o que isso signifique.
Um poema tão claro e puro
quanto essa exclamação:
posteridade, vá se foder!

 

 

***

 

 

EU NASCI DECLARANDO GUERRA A VOCÊ

Para Cristiano Jutgla

 

Dane-se essa onda do politicamente correto,
essa mania de não poder desagradar nunca,
afinal, a existência não é mais que um incêndio.
Que importa restarem cinzas depois das chamas?*
Que importa a bondade dos liquidados?
Não procurar a verdade na imensidão da verdade,
senão na força falsa de um imbecil diplomado
é o mesmo que não se aplicar em traduzir
o que a vida mesma está sempre a nos dizer.
Não tecerei alvíssaras a mais pura mediocridade.
Não vencerei o tolo jogando o seu jogo.
Ele surge como se fosse o novo,
mas é o farol apagado no meio da imensidão.
Assim ele marcha: num cortejo fúnebre.
Assim se mantém: com muletas que não o sustentam.
Nenhuma filosofia o alimenta ou ampara.
Estúpido, que na estupidez se espelha,
eu nasci declarando guerra a você:
eu nasci odiando a tua mediocridade.

 

* O verso é de Mário Quintana

 

 

***

 

 

UMA FAGULHA

 

Essa corda que vibra
no poema é a vida
pois se nela um sopro insiste
se um fio de esperança
……..ainda resiste
é por que enquanto houver gente
haverá sempre o sonho
uma fantasia qualquer
que fará da poesia tão somente
…………….o sol na face
…………….o sorriso da criança
…………….o seio da amada
– e porque não –
um domingo de futebol
e a torcida na arquibancada.
É que enquanto houver no homem
a sede de afrontar a angústia
e a fome
……..implacável
………………….de viver
haverá por certo uma explosão
algo fazendo tinir
o cristal que nos move
e não deixa morrer a ilusão
de que a poesia
……..– para sempre –
……..continuará a ser
uma fagulha que inflama a existência.

 

 

* Os poemas acima fazem parte do livro Desordem, a sair pela Mondrongo em 2014.