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143ª Leva - 03/2021 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

Por Guilherme Preger

 

Notturno. Itália/França/Alemanha. 2020.

 

 

Notturno (2020), de Gianfranco Rosi, é uma obra não-ficcional que aborda a guerra da Síria. O filme foi montado pelo diretor ítalo-americano com material recolhido durante três anos de gravação na região do Curdistão entre Turquia, Iraque, Líbano e Síria. A obra foi apresentada no festival de Veneza de 2020 e disponibilizada pela plataforma de vídeo sob demanda MUBI recentemente.

O tema de Notturno é o sofrimento das populações civis com o desastre humanitário da guerra da Síria, sobretudo em relação à ação bárbara e genocida do grupo extremista Estado Islâmico (conhecido pelo acrônimo ISIS). Mas também aborda os atingidos pelo extermínio étnico do governo de Saddam Hussein, que precedeu a guerra da Síria, sobretudo em relação à população curda, mas não apenas ela.

No entanto, Notturno não é realmente um documentário, como frisa seu diretor na entrevista com o diretor mexicano Alejandro Iñarritu que acompanha a versão do filme na plataforma MUBI. O diretor faz questão de dizer que não documenta, mas filma. Em boa parte de seu testemunho no making off ele enfatiza sua opção pelo registro direto da imagem contra a ideia de que faz um documentário.

E, de fato, não há roteiro aparente nesse filme. Apenas as cartelas de abertura nos situam no conflito que acontece numa região outrora ocupada pelo império Otomano e que, após a sua queda, passou por diversas guerras e conflitos de reclamação territorial. O povo Curdo, de imensa população, até hoje não tem um estado nacional, sendo uma região dividida entre pelo menos 5 países (Irã, Iraque, Turquia, Síria e Líbano).  No restante do filme, no entanto, sem qualquer tipo de narração, somos apresentados a uma montagem disparatada de cenas cujo contexto e localização não conhecemos. Temos que nos localizar apenas pelos testemunhos (nos quais se incluem os de crianças órfãs). A deslocalização faz com que o Curdistão seja uma terra sem geografia e fronteiras e Notturno um filme fronteiriço, no qual o deslocamento é seu motivo cinematográfico principal.

 

Cena de “Notturno” / Foto: divulgação

 

A dificuldade do espectador de se localizar nas cenas vem justamente desse aspecto fronteiriço que formalmente (in)determina o filme. Pois a obra explora também a fronteira entre a ficção e a não ficção. Somos levados a refletir sobre a função da perspectiva nesse caso. No cinema ficcional, sobretudo nas produções mais comerciais, a câmera fica dissimulada como se não existisse. O que aparece na tela quer se impor como se não houvesse sido filmado, por mais inacreditável que apareça. Num certo sentido, a câmera é a própria tela e além dela não existe mais realidade. O espectador está diante da tela como se também ele não existisse. A câmera do cinema comercial aponta para o espectador a sua metralhadora de 24 ou 30 imagens por segundo para atingir sua sensibilidade. Mas no cinema não ficcional, a câmera invade a cena e é uma parte dela. A câmera é uma intrusa e traz junto com ela o olhar do espectador. É a técnica do “kino-eye”, da câmera-olho de Dziga Vertov, na qual a câmera não focaliza objetos, mas é ela mesma objetiva. Ela participa da cena, transformando-a. Por intrusa, a câmera deforma parte da cena, mas sabemos que além dela há mais imagem, imagens do mundo, que é mais “defletido” do que “refletido” pela câmera-objetiva.

Nas primeiras cenas de Notturno, acompanhamos um guarda-guerrilheiro por uma estrada em sua motocicleta. Depois ele entra num bote e vai para o meio de um lago. Anoitece e torres de petróleo no horizonte jorram fogo. O guarda age como se a câmera não estivesse ali próxima, em outro bote. Esse modo de operar se repete ao longo de todo o filme quando os não atores são filmados em suas atividades diárias, sem se importar com a câmera que está próxima deles os enfocando.  Há uma espécie de pacto ficcional entre o diretor Giafranco Rosi e suas personagens. É assim que ele pode entrar na intimidade das guerrilheiras curdas, verdadeiras encarnações das amazonas guerreiras, não só nas suas atividades de vigilância constante, mas também na intimidade do dormitório. Esse pacto ficcional entre diretor e retratados mostra que esta obra recorta também ela uma fronteira, desta vez entre a ficção e a não ficção. É por isso que Notturno não é um documentário. Ele é, antes de tudo, como no cinema de Dziga Vertov, uma montagem de cenas. É também a prova que, da realidade mais crua e nua, a ficção pode se instalar não como uma obra de arte estética, mas como uma operação de dar sentido ao que não tem sentido, de organizar o absurdo da guerra civil, do genocídio, da tortura e do sofrimento extremo e desumano.

Por isso a gravação no sanatório psiquiátrico de Bagdá é tão importante. Lá há o registro da encenação de uma peça teatral entre os internos sobre a história do Oriente Médio. Esta peça no filme de Gianfranco é um verdadeiro “mise en abyme”, uma ficção dentro da ficção, mas que traz a verdade mais real. A terapia cênica é uma oportunidade aos internos do sanatório de se situarem em meio ao caos e à desordem extremos e é também a forma com que os espectadores de Notturno podem se situar na montagem aparentemente desconexa. A ficção é, nesse sentido, mais real do que a realidade, cuja destruição provoca traumas psíquicos e dissonâncias cognitivas.

 

“Notturno” / Foto: divulgação

 

Entre as cenas iniciais de Notturno, há duas bem contrastantes. Num primeiro momento, soldados, nas luzes iniciais da aurora, correm em círculo em torno de um pátio no meio de um quartel militar. A câmera está parada e registra a circulação em blocos dos soldados que a cada passada de seu treinamento gritam pausadamente “uh”, como um grito de guerra e de esforço. A circulação precisa como um relógio da marcha não se interrompe, como num circuito infernal. A seguir, o filme de Gianfranco acompanha mães islâmicas numa visita a um presídio no Iraque onde Saddam Hussein colocava seus inimigos para torturá-los. Saberemos que aquelas são mulheres que perderam seus filhos assassinados naquele presídio. Elas circulam aleatoriamente nas alas do presídio abandonado e se concentram afinal numa das salas onde ficou preso o filho de uma delas. Lá entoam um canto fúnebre. A cena nos emociona para o que tem de universal: a dor inconsolável das mães que perderam seus filhos numa guerra injusta e absurda. O que essas duas cenas têm de contrastante entre os soldados que se preparam para a guerra e as mães que lamentam suas mortes e desastres é a oposição entre o circuito infernal dos primeiros e a dança fúnebre das mães. Ou seja, a oposição entre a repetição e o irreparável.  Assim, o título Notturno nos vem com sua carga metafórica concreta: não apenas a noite sombria da dor, mas também a exigência de um not-turno, a recusa do retorno ao conflito absurdo.

O filósofo Walter Benjamin dizia que a fotografia torna bela até a fome e a guerra. Não devemos ler isso como uma crítica necessariamente negativa do filósofo alemão que, como sabemos, era um amante da arte fotográfica. Notturno, de Gianfranco Rosi, também faz usos de filtros de cores tarkovskianos para tornar sublimes as paisagens desoladas e devastadas do Oriente Médio. Em vez de embelezar a guerra e o sofrimento, ou de dar sentido ao absurdo, a sublimidade das imagens opõe a vastidão cromática da paisagem à pequenez da irracionalidade humana. É um filme sobre a intimidade daqueles que sofrem a guerra, que fizeram um pacto ficcional com o diretor para permitir que a câmera percorra as linhas humanas da História.  Essa História tem algo de absurdo, mas não de aleatório. Ela decorreu de escolhas e ações humanas. Suas consequências dramáticas também são humanas. A paisagem física é assim retratada como um horizonte de fuga do absurdo. A amplidão do horizonte é também a amplitude das alternativas humanas e das possibilidades da História, que deve se libertar dos seus ciclos infernais de repetição para enveredar por caminhos múltiplos de devires outros.

 

 


 

Guilherme Preger, carioca, é engenheiro e escritor, doutor em Teoria Literária pela UERJ (2020). É autor de Capoeiragem (7Letras, 2013) e Extrema Lírica (Oito e Meio, 2014). É organizador do Clube da Leitura, coletivo de prosa literária do Rio de Janeiro, atuante desde 2007 e foi editor das quatro coletâneas do Coletivo. É autor do blog Fabulação Especulativa e seus trabalhos acadêmicos podem ser visitados aqui.

 

 

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86ª Leva - 12/2013 Drops da Sétima Arte

Drops da Sétima Arte

A Grande Beleza (La Grande Bellezza). Itália/França. 2013.

Por Larissa Mendes

 

 

Viajar é útil, exercita a imaginação. O resto é desilusão e fadiga.
A viagem é inteiramente imaginária. Eis a sua força. Vai da vida para a morte.
 Pessoas, animais, cidades, coisas, é tudo inventado.
É um romance, apenas uma história fictícia. Disse Littre, e ele não erra.
Porém, qualquer um pode fazer o mesmo.
Basta fechar os olhos. E está do outro lado da vida.
(Louis-Ferdinand Céline)

 

O prólogo do pensador Céline, em Viagem ao Fim da Noite, antecipa que as mais de duas horas do novo filme de Paolo Sorrentino são dotadas de verdades e ilusões desse ‘blábláblá’ que é o ínterim que separa vida e morte. Seja qual for seu conceito de beleza, em algum momento, ele estará em cena: uma paisagem, uma escultura, uma canção, um diálogo. Seja qual for sua idade, em algum momento, você sentirá certa nostalgia, um clima de fim de festa, uma saudade de não-sei-quê. Exótico e ímpar, A Grande Beleza é uma comédia dramática – com elementos do realismo fantástico de Fellini – que celebra os expoentes do cinema italiano dos anos 60 e fotografa como ninguém a Cidade Eterna. Com uma trilha sonora que passeia do clássico ao eletrônico, da ópera ao pop, o filme aborda o envelhecer de uma maneira crítica, festiva e moderna.

Jep Gambardella (Toni Servillo) chegou à Roma aos 26 anos com a expectativa de tornar-se “o rei dos mundanos”. E de fato conseguiu. Hoje, já sexagenário, é um escritor e jornalista bem-sucedido, mesmo sem concluir nenhuma outra obra após a publicação de seu best-seller O Aparato Humano, lançado há décadas. Vivendo da reputação de outrora em sua bela cobertura com vista para o Coliseu, sua rotina é um vai-e-vem de festas e jantares da alta sociedade. A boemia, porém, não exime o bon vivant, que acaba de saber da morte de seu grande amor de juventude, de refletir — sempre em conversas sagazes e existencialistas com os estereotipados amigos intelectuais, especialmente com sua editora anã Dadina (Giovanna Vignola) — sobre o tempo, a vida, a morte, o amor, a religião (destaque para a etiqueta de um funeral e a sequência da “santa” Irmã Maria, interpretada por Giusi Merli) e, é claro, a beleza. Afinal, o elegante escritor é “um homem destinado à sensibilidade”.

 

Jep Gambardella (Toni Servillo) em seu aniversário de 65 anos / Foto: Divulgação

 

O roteiro, assinado por Paolo Sorrentino e Umberto Cantarello, tece uma infinidade de críticas à superficial e decadente sociedade contemporânea, seja na representação dos “nobres de aluguel” — condes falidos contratados mediante cachê para aparições em reuniões sociais, na sessão de botox coletivo ou mesmo na necessidade de registro de tudo que é visto/vivido, a exemplo do turista japonês da primeira cena ou da mulher que acaba de fazer amor com Jep e ainda assim quer mostrar a ele suas fotos nua. Ao mesmo tempo em que ironicamente adula, A Grande Beleza aponta cada defeito do jeito Berlusconi (sem máfia) de ser: em determinado ponto, um dos amigos do escritor afirma que a velha bota é “um país de tecelões e pizzaiolos”, em alusão ao que lhes dá notoriedade no exterior.

Aclamado em Cannes (foi até mesmo comparado à La Dolce Vita) e premiado em diversos festivais por onde passou, o primoroso sétimo longa-metragem de Paolo Sorrentino acaba de ser eleito como o melhor filme europeu do ano pela European Film Award. Além disso, recebeu uma indicação ao Globo de Ouro como Melhor Filme em Língua Estrangeira e é o representante italiano (e forte candidato) ao Oscar 2014, na mesma categoria. Se os trenzinhos das festas de Jep não vão a lugar nenhum, o mesmo não se pode dizer de sua inspiração e d’ A Grande Beleza do cinema de Sorrentino.

 

(Larissa Mendes, partilha da mesma melancolia de Jep e, em se tratando de beleza, concorda com Vinicius de Moraes)

 

 

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83ª Leva - 09/2013 Aperitivo da Palavra

Aperitivo da Palavra

Ressaibo de uma geração de chuteiras douradas

Por Sérgio Tavares

 

 

 

Subindo o primeiro lance da escada com degraus de mármore rajado, é possível divisar a imagem do bebê com um boné de pano sobre a cara larga, um menino bem fornido para os primeiros meses. Esse bebê sou eu. A imagem é um desenho feito a lápis numa folha de papel manteiga, acomodada sob uma lâmina de vidro retangular que se fixa no alto da parede revestida por folhas de lambri pardacento por conta de uma moldura resistente. É ela que recepciona aqueles que avançam para o segundo andar da casa dos meus pais. O autor é o meu padrinho, irmão da minha mãe, que, embora fosse um mero entusiasta, reproduziu com impressionante talento os traços da minha fisionomia, os olhos vagos de criança amamentada.

Durante muitos anos, esse quadro permaneceu no quarto dos meus avós, localizado no primeiro andar da casa. Depois que eles faleceram num espaço de tempo comum daqueles que convivem uma vida inteira e se apressam para se reencontrar, minha mãe o cambiou para o living no segundo andar. Recordo-me, salvo engano, de ter escutado que foi a minha avó quem encomendou o desenho ao meu padrinho. Contudo não me custa acreditar que a muito gosto do meu pai. Na imagem, o bebê está vestindo uma camisa do Botafogo. Por alguns anos, meu pai paparicou a ideia de ter um filho botafoguense, que cresceria compartilhando da mesma paixão que enroupa seu coração de alvinegro. A questão é que meus pais sempre foram pessoas trabalhadoras, de modo que fui criado por meus avós. Meu avô, clandestinamente, convenceu-me tricolor. Sou Fluminense, torço pelo time tantas vezes campeão. O quadro, portanto, passou a ser uma espécie de totem para o meu pai, um símbolo sagrado de um afeto que não se perpetuou.

Eu nasci em 1978, poucos meses antes da Copa em que a seleção Argentina eliminou o Brasil por conta do saldo de gols, naquele jogo suspeito em que Passarella & Cia derrotaram o Peru por 6×0. Obviamente (e fortuitamente) não me ocorre nada daquele mundial. Quatro anos depois, por outro lado, havia uma onda de entusiasmo que eletrizava o ar. Tenho a imagem difusa e um tanto granulada da minha família (como de hábito) em festa. Elepês de samba, cerveja, fogos de artifício e gente fantasiada, eu fantasiado. Mas o que trago de mais caro daquele ano de 1982 está novamente relacionado à habilidade artística do meu padrinho. Lembro-me de um varal de bandeirolas enfeitando a fachada feia da primeira casa em que moramos. Cada retângulo trazia a caricatura de um dos integrantes do escrete canarinho. Falcão, Sócrates, Zico, todos estavam lá retratados de maneira ímpar. Por isso tanto me marcou presenciar, mais tarde, os desenhos sendo rasgados como um tipo de mau agouro. Algo próprio daquela casa insalubre, com piso de tacos soltos e teto conformado por telhas de cerâmica espessas que, anos depois, desabou, por circunstâncias estranhas não matando a todos nós.

Hoje eu tenho 35 anos e essas recordações exumadas do manto transicional da minha memória me revisitaram terminada a leitura da preciosa antologia 82 – Uma Copa/Quinze histórias, editada pela baiana Casarão do Verbo. O volume, organizado por Mayrant Gallo, com assistência de Tom Correia e Lima Trindade, reúne interpretações, confissões e pontos de vista imantados pelo dia cinco de julho de 1982, em que a seleção brasileira de futebol foi eliminada do Mundial na Espanha, por um desacreditado time italiano. Aliás, pelo franzino Paolo Rossi que decretou o placar de 3×2, batendo um time glamorizado, onze jogadores no auge de suas carreiras, um Davi toscano que, com uma funda de couro, derrubou um gigante de chuteiras douradas chamado Brasil. O desencanto, o travo provocado pela derrota, é o eixo que conduz as quinze histórias, embora nem sempre o luto é o verniz que define o tom das narrativas. Conforme um bom escrete, o livro conta com diversas qualidades, soluções para o riso, o choro, o grito retumbante de gol.

Incomum em antologias, aqui há uma relação harmônica entre os contos. Fazendo uso do exercício de reminiscências, do humor ferino, do nonsense, da crônica jornalística ou mesmo tomando emprestado a estrutura da narração esportiva, os autores encontram versões interessantes para o tema, sem forçar contextualizações ou torná-lo um intruso no fluxo narrativo. A Copa e/ou especificamente a partida contra a Itália tampouco figuram como intransmutável elemento central. Do olhar pueril que alguns escritores resgatam da infância a personagens cativantes, ao exemplo do taxista verborrágico e do sujeito que incorpora nacionalidades, o recorte trágico do tempo ora ganha a textura de pano de fundo, ora é apenas sugerido, dando espaço para inspirados enredos que se substanciam, sobretudo, no arranjo familiar e na infiltração do cotidiano pelo extraordinário da circunstância. A lamentar apenas a ausência de escritoras, ainda que entenda (caso seja um argumento plausível) que estávamos bem distantes da Geração Marta naqueles anos.

Se no espaço narrativo a antologia se sai bem, o mérito se estende a dois golaços, digamos, fora das quatro margens. O primeiro é a escalação de Tostão, meio-campo campeão do Mundial de 70 e hoje craque da prosa, que assina a orelha. O outro é a escolha da capa, a histórica imagem do menino com a camisa do Brasil chorando no Estádio de Sarriá, onde ocorreu a fatídica partida. A fotografia de Reginaldo Manente, reproduzida na capa do Jornal da Tarde no dia seguinte, foi laureada com o Prêmio Esso justamente por capturar, no semblante compungido do hoje advogado José Carlos Villela Jr., a fratura do lúdico, do deslumbramento que provocava a seleção ao embarcar do Brasil rumo ao sonho do tetracampeonato. Como aquele menino (e aproximadamente com a idade daquele menino), quatro anos depois, nas quartas de finais da Copa de 86, era eu quem chorava atracado à grade da janela da casa de um tio, segundos depois que, na dramática disputa por pênaltis contra a França, Fernandez venceu o goleiro Carlos, enfiando a bola no canto esquerdo.

Post scriptum: Quinze anos após meu nascimento, meus pais tiveram o segundo filho e, para esse, meu pai não deu brecha e o tornou botafoguense. Hoje, ele tem com quem compartilhar a paixão alvinegra, embora, mesmo torcendo pelo tricolor das Laranjeiras, eu guarde simpatia pelo clube da estrela solitária. Inclusive uma das minhas caras lembranças relacionadas ao futebol vem da conquista do campeonato brasileiro pelo Botafogo, em 1995. Mas essa já é outra história, que fica para uma futura ocasião.

 

(Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Cavala” (Record, 2010), vencedor do Prêmio Sesc Nacional de Literatura. Também foi premiado no Concurso Literário da Fundação Escola do Serviço Público (Fesp/RJ) e tem textos publicados nas revistas “Cult”, “Arte e Letra: Estórias M”, e no jornal “Cândido”, entre outros. O livro de contos “Queda da própria altura” (Confraria do Vento, 2012) é sua obra mais recente)