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134ª Leva - 01/2020 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

André Luiz Pinto

 

Foto: Hermes Polycarpo

 

Ouvi-los.
Fixa no tempo
a forma
remediando
…………………..o branco.

Guardá-los.
Quantos forem os bocados.
Deixa na planura
um gesto,
mais parece socorro.

Ouvi-los
depois que o repetir
sob o acorde
de aranhas.

Um nexo.
Um corrimão avulso.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Pior, no plano
do cordeiro,
sabendo o homem,
eis o lobo.

O cruel da carne,
acredite,
zero a zero,
imenso o rosto.

Amadurece,
podendo advir
quando um bote
ave de rapina.

E o que retorna
ao sabor das mãos:
livre é o medo
no intercâmbio das coisas.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Mas como fugir dessa linguagem
impoluta, sufocada dia após dia,
intercedendo sobre tais minérios?
E como, arrisco-me por conhecer
nenhuma lei, alivia-se a boca
sob a estase dos ventos? Mais se parecem
do que negam, o verdadeiro valor
da conta, cântico dos quânticos
no descortinado meio-dia; aliás,
Sofia engole a cidade, convenhamos
que Sofia é morta e nos atende por Antônio
Gonçalves Dias, nosso primeiro narciso.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Primeiro arrebenta,
desemparelhado em sua fúria.
Um problema comum
ao ministério de todos, até mesmo
em suas abstrações: um galho que venha romper;
depois, no dia seguinte, análogo
ao anterior, você o encontra, naquela posição
inócua, promíscua, reposto ao ministério
da árvore. Como reagiria a esse beco?
Encerra os olhos, ali, na hora
de encontrá-lo, como um galho que pensou.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Quero da palavra sua ruga,
a mancha da camisa sem sossego,
os tempos louros
que só cheiravam a jasmim.
É sempre o mesmo desespero,
o mesmo pé de valsa
sobre o capim.
Quero a palavra ‘carne’,
verbo que ilumina,
labirinto sem Deus.
Quero a palavra ‘morte’
o terreno da sorte
zero à esquerda
até nos momentos de gol.
Inescapável
como a fome
baixo e vil até no nome
é certo que o Rio não é mais.
A regra
é o que reza pedir.
Quero a palavra ‘cobra’
com suas
dobras e rugas.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Eu sou o chaveiro, mais do que
a chave de Só se passar por mim

O que atrai
a tantos
ou é tão covarde
que morde os donos?

E tem também
o oráculo de Delfos
esculpido
em tuas mãos.

No canto
da página
como água parada

o amor – sob custódia.

 

André Luiz Pinto da Rocha nasceu em 1975, Vila Isabel, Rio. Doutor em Filosofia pela UERJ, leciona na FAETEC e SEEDUC. É autor de: “Flor à margem! (1999), “Um brinco de cetim / Un pediente de satén” (Maneco, 2003), “Primeiro de Abril” (Hedra, 2004), “ISTO” (Espectro Editorial, 2005), “Ao léu” (Bem-te-vi, 2007), “Terno Novo” (7Letras, 2012), “Mas valia” (Megamíni, 2016), “Nós os Dinossauros” (Patuá, 2016), “Migalha” (7Letras, 2019) e, em parceria com Armando Freitas Filho, “Na rua” (Galileu Edições, 2019). Seus poemas foram tema para os documentários “André Luiz Pinto: Prazer, esse sou eu” e “Autobiografias poético-politicas”, em 2019, ambos de Alberto Pucheu.

 

 

 

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133ª Leva - 05/2019 Janelas Poéticas

Janela Poética III

André Rosa

 

Pintura: Canato

 

O poema da dor

À Heitor Brasileiro

 

O poema nasce da dor
Da indizível dor
A dor precária e suja

O poema é a própria dor
Narrada em desespero
A dor calada e velha

O poema traduz a dor
Sem rimas
A dor miúda e desvalida.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Giroscópios

 

Entretanto vigio a frase
Escorregadia membrana
Sob chuva de amarelos
Que preparam o dia
Vai-se o corte, a espera
A frase de magnólia
Que apodrece
As plantas, os giroscópios,
A escama, o chumbo do dia.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Faca do Sol

 

Me fiz rio navegável,
Faca do sol.

Nasci peixe feio
Sob as trovoadas de junho.

Banho as patas do gado,
Alimento seu existir.
Converso em água e sal,
Convulso o caminho
Em que me arrasto.

Sou verde, castanho ou negro.
Dependo dos olhos que fitam.

Sou agora rio: antes e depois.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Hábito

 

Onde os meus olhos
Eram noite e transitórios,
Julgo a tessitura do tempo
E transitório serei
Aos teus olhos suspensos.

Perdoa se me invento
A cada espelho,
A cada sumo da rudeza.

Ao arrepio dos pelos
Desprezo a demasia do hábito.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Nu

 

Durmo nu
Apesar dos latidos.
Sou ermo e rotina,
Spleen nos ilhéus.
Durmo nu e
Ninguém me anuncia
Mesmo que grite
O líquido da rua.
Durmo nu
E invisível.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

Vento agrário

 

Quem detiver o tempo nos dentes
Irá quedar o desejo,
Conduzir águas ao extremo
No sereno em furta-cor,
No desmaio sumário do sol.

Quem guardar as ruas nas unhas
Irá dedilhar os rastros da noite
Antes que a morte navegue
O seu barco sírio.

Há um vento agrário no ranger da flor.

 

André Rosa é Ilheense, nascido na Maternidade Santa Isabel. Autor de “Morte e gênero: um estudo sobre a obra de Jorge Amado” e “Quintais do Tempo”.  Coordena o Prêmio Sosigenes Costa de Poesia e compõe a comissão organizadora da Festa Literária de Ilhéus.  Atualmente está presidente da Academia de Letras de Ilhéus.

 

 

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133ª Leva - 05/2019 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Bárbara Bittencourt

 

Pintura: Canato

 

a contragosto
.do relógio
cujos ponteiros
só apontam
em uma direção
decidi andar
pra
trás
e encarei espelhos
me olhando
…..de frente

o caminho
é este
……aponto

 

 

 

 

***

 

 

 

 

o verso
às vezes
surge do avesso
querendo ser
palavra contra
meus pensamentos

n…só quem entende
n…meus problemas
n…são os próprios
.n..poemas inteiros

 

 

 

 

***

 

 

 

 

meu poema favorito
tem no título
o mês do seu aniversário
tem na capa do livro
de capa dura
o teu rosto
que nem está ali
de fato
mas tem

tenho estado comigo
tenho pensado muito
tenho dormido mal
tenho nós num porta retrato
…………….empoeirado

 

 

 

 

***

 

 

 

 

tudo dói
inclusive teu nome
..que salga
..minha boca
…..seca
.e meus lábios
ásperos
de tanto
repetir vogais

 

 

 

 

***

 

 

 

 

vejo um caminho
de formigas
pelos vãos
da casa
carregam um pouco
de mim
em suas costas rasas
quantas voltas
até levarem
todo o meu eu ?

 

 

 

 

***

 

 

 

 

é fina
a linha do teu traço
que marca
a tua mandíbula
e o contorno
das gengivas
como o rejunte
que cola
e sustenta
nosso quarto

 

 

 

 

***

 

 

 

 

nas extremidades
dos meus dias
lembro de nós
..de
………..ponta
…….a
ponta

 

 

Bárbara é capixaba, mas mora no Rio de Janeiro. Médica Veterinária de formação, escreve contos e poesia na tentativa de fugir do caos cotidiano.

 

 

 

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133ª Leva - 05/2019 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Alex Simões

 

Pintura: Canato

 

um poema para Oxóssi


a Augusto Soledade, a partir da lenda yoruba recolhida por Pierre Verger
 

certa feita, o Rei de Ifé,
vulgo Olofín Odudua,
como era de costume
fez a festa dos inhames,
proibindo que seu povo
comesse desse alimento
antes da celebração
mais esperada do ano

não que fosse um rei cruel.
essa tal interdição
se fazia necessária
garantindo que a colheita
fosse próspera e seu povo
tivesse acesso ao alimento
importante para o reino
que hoje fica na Nigéria.

e eis que chega o grande dia:
Olofín estava sentado,
vestido pra ocasião,
cercado de suas mulheres
– um rei podia ter muitas –
e também de seus ministros
cujos conselhos valiam
tanto quanto uns bons inhames.

como fazia calor
que atraía muitas moscas
os escravos de Olofín
– um rei podia ter muitos –
ao mesmo tempo o abanavam
e espantavam as tais malditas
de modo que o rei tivesse
o conforto merecido

e pudesse apreciar
toda a beleza da festa,
tudo feito em seu louvor:
os tambores que tocavam,
os cantos que entoavam,
os incensos que queimavam,
as mulheres que bailavam,
homens dançavam também.

todo mundo reunido,
conversando alegremente,
fofocando e paquerando,
festejando a vida farta,
comendo os novos inhames,
bebendo vinho da palma,
uma bebida africana,
até não mais aguentar.

só que um fato muito estranho,
antes nunca acontecido
em nenhum reino de África
se abateu sobre essa festa.
de repente escureceu
quando ainda era dia
e quando olharam pro céu
todos ficaram espantados

um pássaro gigantesco
sobrevoando Ifé
resolveu, assim, do nada,
pousar bem exatamente
sobre o teto do palácio
justo no prédio central
onde ficava o pátio
em que a festa ocorria.

acontece que o abutre
lá não estava por acaso
ele obedecia as ordens
das terríveis feiticeiras
as Ìyámi Òṣòròngà
donas de todos os pássaros
que usavam ao bel prazer
pra fazer suas maldades

logo que caiu a ficha
de onde veio a maldição
mais ainda apavorado
o povo de Ifé ficou.
o conselho de ministros
logo se reuniu com o rei
para resolver de pronto
a terrível situação.

matutaram, matutaram
e lembraram dos “odé”
– em iorubá, “caçador” –
que também são os “oxó”
– “guarda”, em língua iorubá,
já que o caçador tem armas
e a destreza para usá-las,
deles vinha a solução.

foi então que convocaram
o temível Oxotogun,
caçador das vinte flechas,
oriundo de Idô,
que chegou paramentado
com uma bela vestimenta,
seu grande arco e suas flechas
miradas ao alvo em vão

mas alguém lembrou que tinha
outro odé mais temeroso.
foram buscar em Moré
o bravo Oxotogí,
o das quarenta flechadas
atiradas para nada.
nem de raspão uma delas
atingiu o grande pássaro.

a terceira tentativa
veio lá de Ilarê:
o das cinquenta flechadas
chamado Oxotadotá.
igual aos anteriores,
chegou se achando o tal,
tirou onda e prometeu
o que não logrou cumprir.

acontece que uma caça
não depende tão somente
de destreza e habilidade
de um nobre caçador
tem de pedir proteção,
saber a quem de direito,
que comidas, que palavras
entoar e oferecer.

foi quando Oxotokanxoxô,
o de uma flechada só,
veio acudir Ifé
ao tempo que sua mãe,
lá na vila de Iremã,
pediu a um babalaô
que protegesse seu filho
e que o mal não lhe abatesse.

na consulta ele lhe disse:
“o seu filho está a um passo
da morte ou da riqueza,
faça uma oferenda e a morte
há de se tornar riqueza”.
ela pegou uma galinha
e a ofertou em sacrifício
às terríveis feiticeiras.

fez a oferta na estrada,
abrindo o peito do bicho.
com o respeito à natureza
e às ordens do Orun,
ela repetiu três vezes
o que o sábio lhe ensinou:
pois “que o peito do pássaro
receba esta oferenda”.

e foi que na mesma hora
que ela despachava o ebó,
seu filho lançava a flecha ,
a sua flechada só.
e eis que o pássaro gigante
abre o peito pra oferenda
feita pela mãe do Odé
de modo que relaxou

e ao invés da oferenda
recebeu de peito aberto
de Oxotokanxoxô
a sua flechada certeira
se debatendo de um lado
caindo pesadamente,
fazendo a terra tremer
e logo depois morrendo.

foi assim que o odé oxó
aclamado pelo povo
foi chamado popular,
que é o que quer dizer seu nome:
“Caçador é popular”
Oxóssi, okê arô,
caçador que é Rei de Kêtu,
viva Oxotokanxoxô!

 

 

 

 

***

 

 

 

sessão de poesia para a tropa[1]

 

a Gilberto Natalini

 

eu era muito jovem e escrevia
poesia e as minhas poesias… tinha
poesias românticas, de protesto
contra o regime. eu era um poeta
razoável. depois eu desisti.
escrevia poemas que cobravam
dos generais, dos coronéis e tal…
escrevia sobre a libertação
do Brasil, sobre a liberdade, sobre
a tal democracia… até que um dia
ele me pegou, que dia foi, não
lembro…me despiu, me colocou
em pé sobre uma poça d’água, o fio
desencapado e atado em meu corpo
foi ligado por ele, que chamou
pessoalmente a tropa, a sua turma:
torturadores, uns soldados que
tomavam conta ali, eis a plateia,
a quem supostamente eu deveria
fazer declamação de poesia.
uma sessão de poesia para a tropa
na qual eu declamasse o que escrevia
contra o regime para os que a favor
me escutassem. e ficou lá por horas
com uma vara na mão que eu não lembro
exatamente o que era: um cipó,
alguma coisa com que me batia,
ele mesmo, pessoalmente, ali,
enquanto coordenava os outros a dar
choque, o fio desencapado e atado
no corpo do que era então poeta
recebendo telefones que não
aparelhos de comunicação,
mas muitos tapas dados com as mãos
sobre os ouvidos em posição côncava
numa sessão de poesia e eletrochoque
em que não declamava, mas ouvia
zumbidos de tortura e as risadas
que hoje só escuto parcialmente.
uma democracia por um fio
desencapado e atado em um corpo
que já não mais escreve poesia,
porém ouve os zumbidos da tortura.

_______________________________

[1] shorturl.at/np489

 

 

 

***

 

 


damarianas

 

 

I

se o habitat faz o monge
quem visitou a oca do poeta
outorga-se o habite-se da taba
onde a palavra mora se não nela
mesma pergunta que outra me deflagra

 

II

se a casa da palavra fica ao longe
lá onde mora agora o que não nela
a moça barda que é uma monja às pressas
se não habita lá a vida é bela
ela inter(p)ela:
longe de onde?

 

III

eu nem sabia nada
nada de onde aquilo ia dar
o que importa é que ele estava lá
antes que eu era
grafando nos cartazes mal me lidos
por entre umas vitrines tinha livros
e uns versos feitos pra dependurar:
deu-me origamis de papéis dispersos
não só suspensos: fáceis de(s)dobrar

 

IV

poemóbiles
orai pros natos nobilis
e as folhas podres dos bares avulsos
postando cibersóbrios veredísticos
sobre a nossa eterna embriaguez
de que só doma a razão em sendo louco
caso algo morra que não seja a plêiade
que só tenho certeza o seu talvez

 

V

e pelo exposto me interessa menos
acertar de onde viemos
do que errar para onde nós v(o)amos

 

 

 

***

 

 

 

pólen de flor

 

para Blande Viana

 

uma vez a
professora de botânica
estranhou
o fato de ter visto
uma placa
que dizia
VENDEMOS PÓLEN DE FLORES.
“de que mais haveria de ser?”,
ironizou.

o que me fez pensar primeiro
em polens das flores de plástico
alimentando gerações de abelhas mecânicas,
substitutas das suas matrizes
em adiantado processo de extinção.
elas, as extinguíveis, vão nos levar a todos,
dizem
.
.
.

um par de semanas depois,
lembrei que livros de poemas
gostam de miolos com papel
pólen
……………………………….soft
……………………………….&
……………………………… bold

nome que talvez se deva a sua cor
amarelada
e que reflete menos luz,
proporcionando uma leitura mais confortável.

oxalá
estas palavras percam sentido
num futuro cheio de
polens
de
flor

abelhas
&
leitores.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

era

 

para Antonia Avelina Ninha, in memoriam

era
3 anos mais velha
10 quilos mais gorda
um tanto mais alta
gostava de me pegar pelos braços
girar girar girar
………………………………&
…………………………………..s…………o…… l……t…..a…..r
um dia
……………………..as costas na pedra grande da rua

estrelas piscando num fundo vermelho
soltaram faíscas

e então
perdi o medo
……………………..de
re
……..vi
………….dar

 

 

 

 

***

 

 

 

 

A Educação pela Pedrada

 

para Jorge Augusto

 

Porque a pedrada é pra: pegar visão;
para aprender na tora, é uma bala
a queima-roupa, um cachação verbal
(um cínico litotes, uma fala
neg-afirm-ativa, pedagogia
da dura, do chepo, não burilada,
nem bostética, a ideia reta
sem nada de caô, que vai na lata),
lição da pedrada que vai pro centro
da periferia e a tudo empala.

Outra pedrada educativa: o não,
(do centro pro gueto, bem antipática)
pra aquele que não sabe se ligar
(e talvez não adiantasse nada)
que dar pedrada na selva de pedra
é faísca no paiol da barricada.

 

 

alexsim é um poeta criado na avenida Bahia, número 1, Fazenda Grande do Retiro, Salvador, meu amor, Bahia. é também performer, professor de português para estrangeiros e revisor de textos alheios, entre outros. publicou alguns livros, o último intitulado trans formas são. às vezes traduz, critica, resenha, edita e torna público o que faz. às vezes, troca de pele e de nome.

 

 

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133ª Leva - 05/2019 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Clarissa Macedo

 

Pintura: Canato

 

Desconhecida

 

As utopias acabaram
em nome da televisão,
um erro feito
pelo preço do petróleo

Eu te amo, tu me amas
e o verbo já não pode mar

Em nome de Cristo
muitas guerras foram dadas
em nome da dívida
uma tristeza no tronco do país.

Todos os mestres morreram
e na tua carne se desenha
traços que inauguram um título
baralho aberto no avesso da palavra,
asa feita de corpo e de coragem

O mundo agora
cruza um lago sem memória
e em alguns anos
estaremos mais pobres
mais burros
mais tristes
na alma e no prato (    )

Cresce um rasgo
em massa e sem história
na palavra-passe chamada pátria –
essa nódoa, essa traça
esse vazio imenso do nome
no mito de um tempo chamado aflição.

 

 

 

***

 

 

 

Faísca 

 

Ontem havia esperança
toda a esperança do mundo.
Hoje sou um estilhaço
um catálogo de dúvidas
e desejo.

Os pássaros não voam mais
e o dia que nasce
é o luto ordinário, grave,
posto sobre a mesa.

A boca diz o que o coração fala
e a dor é antiga:
chega, se instala
abre ocos na aorta, devagar,
para o aprendizado –
………………………………………do enigma

……………………………………….. da sutura
……………………………………………………..da ferida
……………………………………………………………………..da beleza.

Os fracassos… saúdam uns aos outros;
o que fica é o peso
a humilhação calcada nos olhos.

Digam que perdi:
que faltei às classes de empreendedorismo
e visitei às de angústia e miséria;
que não vou ao shopping
que rasguei os papéis e os comi.

Digam que perdi tudo:
a fé, o sonho, o dinheiro que não sobra

mas amo como se fosse eu o país
essa cavidade aberta
exposta, sangrando até a morte.

 

 

 

***

 

 

 

Versículo

 

1º Evangelho do Capital, 1, 1º. não derramarás coca-cola
em vão: / tomarás todo o néctar da garrafa não-reciclável;
/ não catarás os meninos e suas tampilhas, / ao risco de
ser apedrejado / ante a primeira vitrine; / patrocínio do
produto cuja etiqueta cobre o líquido do tiro perfurado.

 

 

 

***

 

 

 

Carnê

 

logo cedo a caminho do trabalho
olho a lista de coisas pregada na geladeira de 10 prestações
……………………………………………………………………………..[que não foram pagas
a mesma que congela ovos e óvulos da casa
a mesma que assiste na tv a cidadã que reza,
corta e mata em nome da moral etc. e tal
e que aparece no outdoor da cidade – esse espelho de
………………………………………………………………………….[simulacros;
geladeira que congela, escorre,
que não refresca a água da casa onde vive quem uiva sem
[presas a lista de coisas e a violência no coração seco do mundo

 

 

 

***

 

 

 

Arado

 

Nesta contrição feita de nuvem
o seixo que a conforma
é um sortilégio de canções
um sem fim que aflora
e deita à fera
um fio de água
que dos olhos brota

; assim entra no limbo
deixando fora as contas,
o salário baixo, a feira pobre
e até mesmo a nação
– esta que dói
por sangrar o cofre
deixando a nu os que plantam
e não colhem.

 

 

 

***

 

 

 

Rito

 

Sou uma tripa de pedras
que se escoam na ciclovia
das aves a morder o tempo
e seu desvão de tic-tacs

uma esfinge que choraminga
sem oráculo e sem os cactos
que não dormem;

tudo o que vive
é esta parede sem reboco
que observa, vigilante,
a goteira da sala
e se confunde com meu choro
a tomar as unhas, os canos
o cimento da massa;

quatro cantos
e os signos do calvário.

 

 

 

***

 

 

 

Certidão

 

Se pudesse
arrancaria meus nomes
um a um
para desbaratar
a lápide que me cobriu
na vida.

 

Clarissa Macedo (Salvador – BA), licenciada em Letras Vernáculas, mestra em Literatura e doutora em Literatura e Cultura, é escritora, revisora, professora e pesquisadora. É autora da plaquete O trem vermelho que partiu das cinzas (Pedra Palavra – 2014) e do livro Na pata do cavalo há sete abismos (7Letras – Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia – 2014, em segunda edição pela Penalux, 2017 – 3ª reimpressão, 2019), ambos de poesia. Entende a literatura como ferramenta para um mundo melhor.

 

 

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132ª Leva - 04/2019 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Stefano Calgaro

 

Foto: Luiz Bhering

 

Ouça, rosto ungido pelo vento
as menores cascas estão secando a umidade dos canais
não era mentira quando disseram que a barreira iria mudar a rota e a construção de nossas casas de areia
mas mesmo assim o hibisco preso atrás da sua orelha representa a sua ordem imperativa de paz
combina suas marcas vermelhas com o dourado cerrando suas pálpebras de ferro
e não se deixe fugir
ouça,
não se deixe fugir como uma forma de medo pela aniquilação
não deixe de ouvir o vento empurrando sua franja para os montes
não deixe de bater os dias com um pé e com as mãos que recolhem as farpas
não deixe fugir sua vantagem

 

 

 

***

 

 

 

roo e agradeço às pequenas coisas
por expulsar os estertores da memória
que deixam num facho os dias congelados
como que de púrpura
e a memória aberta
não estanque……………………ao sol aberto
vendo com olhos semicerrados que uma pessoa é sempre a minha melhor ferida
e por isso tenho vivido sempre entre os seres inanimados e os animais domésticos para ver amar de novo
ver outra cor espraiar do terceiro hemisfério
ver outra cor espraiar dos horizontes
quase sempre semicerrados
mas ainda abertos

 

 

 

***

 

 

 

É chegada a hora que você se espanta com o osso que sai do meu peito
eu confiro a profundidade do seu umbigo com meu dedo fura bolos
por baixo do lençol a história de suas estrias de quando você cresceu rápido demais
por baixo dos meus pelos a história de minhas estrias de quando emagreci rápido demais
a altitude dos meus calos faz novas linhas na tua mão como brancas tatuagens de hena
suas cicatrizes que se encontram nas mesmas partes que as minhas cicatrizes se encontram
a sua mancha de limão na barriga formando um mapa da américa latina
Você vê agora até que ponto aguentam meus cabelos
corpo a corpo
medindo as travessias e até que ponto aguentamos as distancias a nado à ausência e à euforia
enquanto cambiamos entre a primeira a segunda a terceira pessoa
como alguém que é e foi e já não é
e vemos que parte é inteiramente nossa
irreproduzível
em todos os corpos que achamos ao longo de nossa curta vida até aqui
o meu arrepio o teu arrepio se encontram
seremos os desconhecidos mais íntimos que já pousaram os olhos nesta terra
serei muito em breve a tua sombra indômita

 

 

 

***

 

 

 

Aos que herdaram essas terras
deixaremos buracos e sustos
ensurdecendo seus talhos em nós
lasseia agora o amor esquecido
pelos sismos diários e uma jornada
mal posso acreditar que sobrevivi ao domingo
mal posso acreditar no ruído acoplado à candura
deixaremos um dilúvio
para o planalto
e um alívio
para as moscas
e com nosso peito exposto
saberemos que este amor
fabrica nossas armas
e o nosso grito plana nas ruas
avisando

 

 

 

***

 

 

Sinto que quando falamos medo
Tem sempre alguma outra coisa em que estamos esquecendo

 

 

 

***

 

 

 

acha-se em farpas como um dom que não sabe por onde irá romper
quando os obeliscos nos apontam feridas as estradas virgens
não é nenhuma má intenção perguntar dos quatro compassos que já não são
rompo as levadiças para ver se acham nessa cidade o que buscam em outra
só para então forçá-los para fora do meu sistema e do meu canal
aqui nenhuma peça está faltando
o mais difícil mesmo será correr olhando os anúncios
achar o pulso pensando se há sangue pelo lado de dentro e de fora
e se já não é mais o mesmo do que corre por dentro
já é um sistema externo um passado
já não tem um ritmo
eu deveria me preocupar com a minha dieta e comparar com a dieta de alguns mamíferos em particular …………..da baleia e do morcego
por que cantam e fluem
por que espremem a espinha dorsal às cores
por que precisam de um meio.……………e de um som

 

Stefano Calgaro (1991) nasceu em Porto Alegre e vive em São Paulo. “Pequena volta” (Pátua, 2019) é seu primeiro livro.

 

 

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132ª Leva - 04/2019 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

André Merez

 

Foto: Luiz Bhering

 

cromatografia da dor

 

Tudo isto é dor:
o que falta,
a miséria do mundo,
a miséria do homem.

As horas longas entre as luas,
uma luz absurda que absorve
a calma dos meus olhos vivos
e fia com uma agulha essa dor.

Sim, tudo isso é dor.
Toda essa cor de faltas
e de vazios, cor nada, cor nunca,
a cor incompreendida das horas.

Nenhuma cor em meus olhos
nenhuns olhos nesse rosto,
só uma dor perene sem cor,
só uma figura distorcida pela dor.

Próxima, inteira, latente e fixa.
Dor por ser dor em estado real,
aquilo que é acumulado aqui
onde não sei bem se o acaso
ou se a vida tratou de manter.

Porque a carne dói,
dói viver em silêncio,
dói a vida cotidiana,
quando escorre dos olhos a dor
e sua solubilidade
resulta em analito,
sem medida exata.

 

 

 

***

 

 

 

um dia vai alto

 

O dia vai alto
vai alta a rua,
ladeira longa que se vai
marcada no sem tempo,
memórias antigas,
varanda encerada
de chão vermelho.

Um homem sobe a rua,
um homem anda lento,
todo o seu corpo é sombra e alumbramento.

Casas olham indiferentes,
indiferente o calçamento
de pedra resiste ao vento,
nada é mais justo que o dia alto sobre a rua alta,
na ladeira alta em que um homem caminha lento.

Casas e pessoas se misturam,
vozes vindas de lá de dentro
anunciam um futuro estranho e cheio de dúvidas.

Fosse a vida só contentamento,
fosse tudo o que fosse esse pó
que vai cobrindo casas e pessoas na lida do tempo.

O homem ainda vai lento,
não há pressa. Todos os homens anunciam o dia alto.
É realmente um dia alto, dia pleno de acontecimento.
Sim, é um homem e suas pernas e braços e ventre
estão deslizando sobre as pedras desse calçamento.

Há silêncios e vozes no vento, misturados à rua alta,
misturados ao que um dia foi a rua
agora coberta de pó no sem tempo.

 

 

 

***

 

 

 

na última sessão do dia

 

Dorme,
dorme tudo o que se retira,
a fatia do dia, a faca, a fala
e o que é da vertigem real.

Dorme,
dorme o que queria, alçava,
a morte esquecida na tarde,
a triste tarde de sonolências.

Dorme,
Morfeu versado em Tânato,
esquece o dia, abraça a noite,
a sua mãe desesperada e fria
também dorme e, ao dormir,
alcança a eternidade desejada.

Como jamais se dormiu,
dorme todo, dorme inteiro,
fecha esses olhos definitivos,
encerra o mundo e seus ares,
encerra a fome de vida, a lida
e vai descansar de si mesmo.

Procura no sono absoluto
a absoluta ausência de si,
habita o longe, o longo e
vive esse mistério póstumo.

Medita, monge transfigurado,
na última sessão do seu dia e
no lótus perdido já reclamado,
dorme
………e morre
……………….e descansa
……………………………e mais nada.

 

 

 

***

 

 

 

do que é perdido

 

Mas fica esse silêncio,
o desdito, a ausência.

Fica o que não ficou
jamais entre as horas,
essas horas absurdas,
horas passadas a fio.

Fica o que nunca foi,
o suposto, imaginado.
Aquilo que seria mais
se não fosse passado.

Mas não foi, não era.
Ora ora, minha bela,
que dizer do perdido?

Que o jamais havido,
depois não se perde,
não há o que perder.

Nunca houve, não foi,
nem resto me restou,
nem o acabar acabou.

Nada,
ou quase nada,
só esse silêncio
ficou.

 

 

 

***

 

 

 

a fonte de Orides

 

para Orides Fontela

 

A fonte de Orides
seca
coberta de folhas
secas.

Resto do respiro
a um passo
do pássaro:
Orides resseca.

Deixa a tua mão
bater dura a tecla
-num tec tec tec-
de tudo um tanto.

Deixa, Orides,
que eu te engulo
como se engole
outra verdade.

 

 

 

***

 

 

 

Valor

 

Vazo de mim
e espalho-me
no chão seco.

Escolho olhares,
seleciono vozes,
avalio as dores.

Violentamo-nos
e tristes vamos
ao ato insensato.

Apenas o valor
esse ditador, e
sempre a injustiça,
essa triste puta,

seguem protegidos
à sombra do gigante
morto que putrefaz
na Avenida Paulista.

 

André Merez cursou Letras e fez pós-graduação em Língua Portuguesa na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Leciona Teoria da Literatura e Gramática há mais de 18 anos e desenvolve pesquisas sobre música, artes plásticas e poesia.  Autor dos livros Vez do Inverso (Editora Patuá, 2017) e Perfeição Acidental (inédito). Também teve seus poemas publicados nas revistas Mallarmargens, Poesia Primata, Gueto, Germina e Poesia Avulsa.

 

 

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132ª Leva - 04/2019 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Bruna Mitrano

 

Foto: Luiz Bhering

 

sentei perto dos urubus
o homem que passava disse
eu tenho nojo de você
expliquei a ele que os urubus
procuram na carcaça
as partes moles e quentes
ele deu as costas xingando
e sacudindo as mãos
olhei pros urubus
eles também me olharam
complacentes com aqueles
olhos sem branco
o homem o seu corpo inquieto
era como o animal que
esperneia antes de morrer
sabíamos no entanto que ele
não morreria que ele estava
mais vivo que nós que não
temos mãos nem pedras
nas mãos pra atirar em quem
nos causa repulsa apenas
alguma intuição de encontrar
partes moles e quentes.

 

 

 

***

 

 

 

nasci com dentes podres
coisa de família
minha avó ficou banguela aos 26
os tios todos têm dentadura
criança diziam tão bonita mas assim
não vai arrumar namorado
eu não queria arrumar namorado
arrumei nove ossos quebrados
ossos fracos coisa de família
disseram bruna você parece que pode
partir ao meio a qualquer momento
eu quebrei muitas vezes
mas ninguém quis ver
que não quero namorados
e que meu mau hábito de
não escovar os dentes é por
que nunca paro de comer
porque o que sinto não é fome
é o sentimento da fome que talvez seja
coisa de família nunca entendi
o que é essa coisa de família.

 

 

 

***

 

 

 

vila kennedy, 2 de julho de 2019

 

*pra érica magni

 

na noite passada eu vi
um homem sem cabeça
não um ser mitológico
nem um desses zumbis de seriado
um homem que sangra
decapitado na vila kennedy
um homem de peito aberto
sem metáfora ou outra figura de linguagem
que emprestasse beleza (ainda que dessas
belezas terríveis) à imagem
do homem de coração arrancado
e enfiado na boca – a cabeça um ser
independente de
nervos
músculos
vértebras
apoiada sobre a barriga
como um porco à pururuca de desenho animado
a maçã perfeitamente encaixada
a maçã exageradamente vermelha
colhida no próprio corpo
estirado no asfalto
na noite passada eu vi
e ver pode ser pra sempre
o homem morto
com a cabeça solta
o peito aberto
e o coração entre dentes
as partes todas
remontadas
como numa instalação artística
na noite passada eu vi
e senti (o coração na boca)
uma dificuldade de respirar
que ignorei em respeito à mãe do morto
(ao coração arrancado da mãe do morto)
e a todos que conhecemos o terror
por dentro –
não foi na noite passada
que ela disse: olhando de longe
a favela parece até uma árvore de natal.

 

 

 

***

 

 

*com nick Drake

 

toda noite deus puxa meu cabelo
única parte não imersa
até arrancar a pele do rosto

não tenho mais espelhos

please give me a second face
a voz engasgada de nick

toda noite ouço a louca fugiu
e agarrou desconhecidos dizendo
olha minha garganta está fechada
e meus dentes foram colados

eu que não tenho mais dentes
como a minha avó
chupando ossos de galinha

please play me your second game

toda noite a menina grita o pai
lambeu o lóbulo da minha orelha

e a mãe lembra que é preciso
esquecer que a louca que o pai que
a mãe nunca lembrou
de acordar a menina pra escola

please tell me your second name

toda noite vem o homem
vestido de branco e
conto a ele do pintor
que disse não gosto de aquarela
é impossível domar a água

que foi o pintor com quem vivi
que foi o pintor que me bateu
num hotelzinho na angélica

please give me a second grace

toda noite vem o homem
vestido de branco e
digo a ele
é impossível domar a água

I just sit on the ground in your way

o homem vestido de branco
anota a minha doença num papel.

 

 

 

***

 

 

 

lembra quando eu subi na janela
fiquei de pé e chovia
eu quis que você tivesse medo
e me pegasse por trás como fazem os policiais com os suicidas da golden gate
mas você fez o santo de rabo de olho
a boca caiu o cabelo cobriu a testa
eu não entendo eu quis entender
o pau duro na minha bunda criança o que era aquilo
se era de eu ser diaba ou se eu acidentei
os pelos grossos e o hálito pesado do trabalho sujo
agora é a fila do mercado e o celular despertando
a parte que escapa
à rotina:
café com leite arroz tipo 1 sexo com o vizinho
segredos cimentados nas calçadas dos subúrbios –
o homem ainda estava com o rosto deitado nas minhas pernas
feto de pele velha ossos largos pelos brancos
quando eu disse eu não mais darei nomes aos meus filhos
e eles não mais serão escravos.

 

 

 

***

 

 

 

hoje limpei a casa
tirei traças das paredes e asas
de insetos do chão do quarto

R. não conseguiu dormir aqui
não foi por causa da sujeira
foi por causa do cachorro
e porque não tinha queijo
R. não vive sem queijo – anotar

a dona Neia disse que
pra conseguir dormir
é preciso pensar pra dentro
e pensar nas coisas do dia

como a mulher que vende café na estação
penso na mulher vendendo café
na chuva ela tem uma capa azul

penso nos restaurantes baratos
nos velhos tomando sopa
com a cara perto do prato

e nos homens na calçada
mastigando as sobras com uma lentidão que
nem parece fome parece elegância

penso que os homens mastigando lentamente
as sobras sabem
que amanhã os restaurantes estarão fechados
que a mulher venderá café na estação
e que é impossível viver sem queijo.

 

Bruna Mitrano (1985) nasceu e vive na periferia do Rio de Janeiro. Filha de camelô e neta de lavadeira, é mestre em Literatura pela UERJ, poeta, desenhista e articuladora cultural. Tem textos publicados da Revista Pessoa, na revista Cult, na revista Palavra, no jornal Plástico Bolha, dentre outros. Participou de 17 antologias. Teve textos traduzidos para o inglês e o espanhol.  É autora do livro Não (Ed. Patuá, 2016).

 

 

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131ª Leva - 03/2019 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Isabela Sancho

 

Desenho: Felipe Stefani

 

 

No sétimo subsolo
há um pequeno alçapão
para o inferno.

A luz que o transpassa
se parece com esta.
Para abri-lo
basta

empurrar com um pé.

 

 

 

***

 

 

 

Essas coisas parecidas
consigo,

eu me pareço
cada vez mais comigo

e me saturo.

A essa altura,
meu corpo em rusga
já me tem

como corpo estranho.

 

 

 

***

 

 

 

Autoimune, o nome
daquilo que tenho,

tão mágico, tão certeiro
quanto a leitura
de um velho horóscopo.

 

 

 

***

 

 

 

Se eu puder arrancar
de mim o que me faz mal,

o que sobrará?
Uma centelha de teimosia
em meio

a uma ventania

sobre o campo seco
de meus gotejos.

 

 

 

***

 

 

 

Venta
com a força de uma pergunta
prestes ao paraquedas

Tens certeza?
Ouça,

eu não vou me jogar fora.
Vou apenas me desfazer
da sacola.
Troco-a
por uma bobagem qualquer.

Eu a doo,

quero nada em troca.

 

 

 

 

***

 

 

 

Os dedos em pinça
de um asco

que não ignoro.

Eu não consigo abater
a sacola.
Tem o valor
e o nojo de dez relíquias.

Com suas unhas crescendo

depois de mortas.

 

 

 

***

 

 

 

As dobras afinadas pelo tempo
se destacam sozinhas

e o papel me vincula
a estes pertences.

Que espécie de documento
não tem nem mesmo
uma data?

Vinco-o com minhas dúvidas,
eu procuro

pelo meu nascimento.

 

Isabela Sancho nasceu em Campinas, em 1989. Integra o corpo de poetas do portal Fazia Poesia e segue o Curso Livre de Preparação do Escritor na Casa das Rosas. É autora e ilustradora dos livros de poemas “As flores se recusam” (Editora Patuá, 2018 – finalista no Prêmio Literário Glória de Sant’Anna 2019, Portugal) e “A depressão tem sete andares e um elevador” (Editora Penalux, 2019). Ainda em 2019, terá sua primeira plaquete publicada pela Editora Primata e seu terceiro livro pela Editora Urutau.

 

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131ª Leva - 03/2019 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Pedro Moreira

 

Desenho: Felipe Stefani

 

 

somente aquele que desavisadamente
dançou sozinho pode sentir na pele
um ameaço de explicação do mundo,
no corpo,
uma repentina liberdade.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

desencantamento
é o ato de engolir
de uma só vez
todo canto que foi cantado
desdizer toda palavra de amor,
refazer os passos,
desmanchar as lágrimas,
é um ato de retomar
a terra distante de todo coração partido
nenhum pássaro é capaz
de desencantar
porque sua vida depende disso:
ele é voz que voa
que ecoa pelo planeta
e ele não pode comer
de volta o mundo inteiro
que ele cuspiu
o amor é um atentado contra si
e os pássaros não são capazes de se suicidarem
a gente é que mata
e mata tanto que até de amor
a gente morre.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

no tempo em que eu quisera
uma paisagem outra – eu desconhecia
o significado da palavra deslumbrante:
um canavial esverdeado, árvores empoeiradas,
crianças debaixo do sol, vendaval de brincadeira,
uma tempestade, uma água tão açude, uma terra
vermelha – eu desatento, mal percebo que o
instante é o que temos, só o que temos
e logo ele vira algo que se passou – uma memória bela de algo
subestimado.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

O meu silêncio é, antes,
um atentado contra mim mesmo.
Uma comunicação que sendo para mim óbvia,
para os outros, mistério. Não um segredo.
Uma rocha que deitei em cima da minha fala.
Cerrada minha língua num nó de desajuste,
caminho e sigo com a boca entreaberta
– sempre há um ameaço de palavra.
Contudo, o silêncio pede que exista, que exista.
O silêncio não quer ser rasgado por uma língua calejada,
por uma boca envenenada, de alma danada.
Ele clama que exista, que exista. Deixe-o viver.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

tem coisas que continuam
sendo segredo mesmo depois de ditas
porque em sua natureza guardam
uma característica
nada verbal,

uma coisa que se sente na pele ou não,
não é transmissível,
não pode ser, são partes de nós

que quando alguém tenta compartilhar arranca de si
talvez uma parte vital que mantivera tudo em pé

cometi por você um suicídio parcial
quase tudo veio abaixo

rachaduras enormes surgiram
no meu rosto envergonhado
de repente goteiras escorrem
por elas, ou era infiltração.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

atravesso o inferno que há em mim
com a coragem que me falta, com a luz que me falta,
com a virtude que não tenho, faço do que me ausenta
a minha força pouco elaborada

a maldade é mais evidente

quando no núcleo dos infernos, todos os cinco
que há em mim, trago nas mãos um copo
de bebida 70 por cento de álcool,
deixo, por um descuido mal-intencionado,
todo o copo cair na pequena chama de meu inferno interior
uma chama azulada, um fogo triste

quero-me um inferno inteiro
não me aceito pela metade.

 

Pedro Moreira nasceu em Itaí no dia 18 de abril de 1995. Desde pequeno se interessou pelos livros e antes de escrever já fabulava. Aos 14 escreveu suas primeiras crônicas, depois passando aos poemas. Reuniu alguns contos em um livro que editou em 2014 chamado “Embora o mundo tivesse cor”, pela Multifoco. Em 2016 saiu um volume de poemas, “Oitenta e três idades”, pelo Clube de Autores.