Categorias
129ª Leva - 01/2019 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Ricardo Escudeiro

 

Ilustração: Joana Velozo

 

se tal não vai à montanha à que vão já as montanhas

 

“A menos que con afán, que con afán conserves
Tus inquietudes y así nunca envejecerás”

 

transtorna as geografias
os planaltos as planícies
as depressões
as intempéries vêm em dois tipos
de dentro
pra fora e de fora
pra dentro
pega de punhado
tudo o quanto geomorfa e deduz pra si
um rosto não inquebrantável
que soe quase como se fora
manufaturado por um deus perspicaz
ou assim parecesse ao menos

a maturação um dos envelheceres mais inacabados

longe dos céus tanto almas quanto pássaros
livres e já próximos muito próximos
do paraíso como todo o resto

um silêncio de milhos nas calçadas

e chega
tremem
as rótulas quando querem tudo
não me dói
nos joelhos a montanha
agachada em perjúrio

 

 

 

***

 

 

 

ab sentia

“[…] a mão é um pentagrama,
mesmo morta.”
(Andréia Carvalho Gavita)

 

e foi que perdi

e fiquei só
com aquela parte mais bonita

tipo

uma música
e o silêncio que ela provoca

 

 

 

***

 

 

 

contra conjunto ou neon sobre fumaça

 

 

“Olhos míopes inúteis
obrigam-me […]”
(In: “Inconfidência primeira”, de Natália Ribeiro da Conceição)

 

 

o olhar mais se detém mesmo é quando falha
noutras vistas as minhas
descansadas param com isso de

ultrapassa pelo acostamento
vai

tatear os mundos pelas suas córneas e pelas suas cordas
pois

dói na garganta o tanto seu nome nos pulmões
e nos descansos
e nos cenários
e numas pedras com umas sílabas
à tiracolo

ficar perguntando pra janela
quando a gente nem tá mais no carro

já chegou

não não
falta ainda alguns aniversários

ver mais mesmo é quando longe

leio
claro tipo
um miopismo inexato

na fumaça do cigarro toda a esquiva tragada
o cotovelo na mesa a cabeça entre os tabacos
como num balãozinho de hq daqueles de pensamento sabe
uma interrogativa
ou uma inlabial desleitura

faz quanto tempo desde a última
vez que sua boca nunca

 

 

 

***

 

 

 

garganta do diabo

 

“[…] I finally died which started the whole world living
Oh, if I’d only seen that the joke was on me […]”
(Single by Bee Gees, 1968)

 

 

desse teu imenso e venerável e húmido

não era dizer ainda
da nossa alma olhando pra dentro
enquanto grandeza mensurável a fúria do mundo tem mais peso
e ainda
em nossos
estados mais primitivos é que nos tornamos
mais rápidos mais furtivos
do sublime ou da lição de arquitetura dos tempos

silêncio

 

 

 

***

 

 

 

fraturar as raízes duma ilha

 

“[…]
Ou a enxuta memória de quem não sofreu, não morreu –
apenas olhou.
E gravou a visão do demónio no quintal.”
(In: A dolorosa raiz do Micondó, de Conceição Lima)

 

 

daí uma vez
não
não gosto do
era
uma vez ela me perguntou

se você pudesse ser alguém
da literatura quem seria

respondi eu seria
a susan sontag
a conceição lima
a hilda hilst
a carolina maria de jesus
a paulina chiziane
eu seria
a stela do patrocínio

e era só isso mesmo
histórias à parte e também entropias
encontramo-nos noutra forma
encontramo-nos noutro modo
encontramo-nos noutro sítio

 

 

 

***

 

 

 

Ordália

 

 

“Se deus der rolê com cartão magnético
nem por marca de nascença
reconhecem no exame médico
[…]”
(-In: “Direto do campo de extermínio”, Facção Central, 2003)

 

menos o ônibus chacoalha mais livres as mãos
perceber não só com o corpo mas
com o corpo inteiro
a organização dos ódios ainda que desses de pequeno porte
e a maneira lenta
lentíssima bem lenta pela qual nossas formas a um só tempo
abrangem a terra e desatam da terra
as maneiras pelas quais os determinados chãos onde cremos nem sempre
funcionam nos mesmos termos ou permitem
os embarques os desembarques aqueles
aos quais queremos
o aviso é claro o aviso é objetivo
fale com o motorista somente o necessário
bem como os outros do tipo
esse assento é de uso exclusivo e ou preferencial
ou fique atrás da faixa amarela
talvez soassem melhor se fossem não pisoteie lugares místicos
de caminho no corredor vamos uns aos outros
nos evitando mas nos ouvindo

oh
que será de nossos filhos de cem anos depois de tudo isso
terão eles também alguém nos acentos aos lados pra dialogar
perguntar e aí valeu
mas por que um céu tão baixo
mas por que abaixaram tanto esse céu
é pra poder tocar sem as ajudas de aparatos levadiços será
e ainda que o céu se quebre não condenaremos nossos

opa no próximo eu desço satisfação te encontrar
precisamos nos ver com mais tempo
queride fica bem agora com licença enquanto eu mato o céu

ali espia
o gambé com o negócio coldre neh que fala
desabotoado

aham
dizem nos transportes públicos eles têm que tá sempre de pé

menina mas cê ouviu quando ele falou
do milagre do barro como portento divino
mas se há todos esses outros de porte pequeno
as fomes as sedes as linfas
e o principal deles esse milagre
o da brita

oxe pior ainda
e se o enquanto vamos apertando botões puxando cordinhas
é o enquanto vamos anulando-nos uns aos outros enquanto criaturas
de caminho no corredor aniquilando-nos

pois é
ainda que aqui donde a gente tá
parece tudo meio calmo um pouco
ih olha lá
o pivete estrebuchando no chão esse aí
deve tá na abstinência da pedra
certeza

ou não
pode ser na abstinência do pão talvez
tomara chegue logo nosso ponto
que de bucho cheio talvez a gente expia umas certezas
dessas mais bestas
os quinze minutos de rango hoje deu nem pra metade da marmita

no pano de fundo desses diálogos muito muito imprecisos
um cão pixa com mijo ao pé da letra no poste
estamos será a quantas refeições do colapso cívico
debaixo desse sol tremendo

 

Ricardo Escudeiro (Santo André-SP, 1984) é (ex) metalúrgico e (ex) professor. Autor dos livros de poemas “rachar átomos e depois” (Editora Patuá, 2016) e “tempo espaço re tratos” (Editora Patuá, 2014). Graduado em Letras na USP, desenvolve (ou não) projeto de mestrado com interesse em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa e Estudos de Gênero. Possui publicações em mídias digitais e impressas: Escamandro, Germina, Jornal RelevO, Mallarmargens, Flanzine (Portugal), Enfermaria 6 (Portugal), Tlön (Portugal), entre outras. Participou das antologias “Os pastéis de nata ali não valem uma beata – antologia de 2017” (Enfermaria 6, 2018), “29 de abril: o verso da violência” (Editora Patuá, 2015), entre outras.

 

 

Categorias
129ª Leva - 01/2019 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Wanda Monteiro

 

Ilustração: Joana Velozo

 

 

o pensamento não completa o voo no corte das asas
no calar do nome a palavra vagueia esparsa
esmaece névoa-memória
sem nome tudo se esvai
no traço perdido
do não dito

esquecer é silenciar o ser

 

 

 

***

 

 

 

na janela o espelho
no espelho o tempo
preso no silêncio da imagem
vítrea imagem
que no átimo do olhar
não nos reconhece

 

 

 

***

 

 

 

de súbito
lhe corto o curso à foice
meço a inteireza de seu propósito
lhe enterro estacas
para cegar vindoura estação
jogo-lhe a inerme isca da palavra

inútil intento domar o tempo
ele sempre volta ao cume
conjuga-se à revelia
de minha desmedida vontade

com olhos de escárnio
mira-me
de dentro da areia
como irrefutável sentença

 

 

 

***

 

 

 

em campo aberto de afetos
ferir-Se
no deslimite

sob
êxodo
transpor fronteiras

===

pisar no auto-exílio

 

 

 

***

 

 

 

paredes opulentas de vazio
sobre portas e janelas – o mofo das ausências
no rodapé – a poeira dos afetos
no limo dos azulejos – o pretérito das cotidianas tarefas

no-mínimo-círculo-de-calor-da-ultima-lâmpada-acesa
insetos dançam e fenecem em queda espiral

um feixe de malograda luz
tenta atravessar o vidro rachado
com intento de irromper o vão da sala

já é tarde para o sol
tudo se cala ao abandono

lá fora a história seca na casca da cigarra

vai chover

 

 

 

***

 

 

 

Há um movimento frio e feroz movendo-se na história da humanidade. O humano apartado do céu e da terra, portanto, apartado de si mesmo. O humano rendido e preso em sua dissonante esfera – num viver distanciado das significâncias da vida.

 

Wanda Monteiro, advogada, escritora, uma amazônida nascida à margem esquerda do rio Amazonas no Pará, tem seus textos publicados em várias revistas literárias, virtuais e impressas, tais como: Acrobata, Diversos Afins, Gueto, Ruído Manifesto, Mallarmargens, Zona da Palavra, Intacta Retina, Relevo, In Comunidades, LiteraturaBr e outras. Obras publicadas: O Beijo da Chuva, Ed. Amazônia, 2008; ANVERSO, Ed Amazônia, 2011; Duas Mulheres Entardecendo, Ed. Tempo, 2015; Aquatempo, Ed. Literacidade, 2016.

 

 

Categorias
128ª Leva - 06/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Camila Assad Quintanilha

 

Foto: Adelmo Santos

 

O que não está aqui não está em lugar nenhum

 

A injunção do cronômetro
nos faz esquecer
que o tempo linear é
uma abstração
recente
e insidiosamente deletéria

O calendário ordena
e materializa o passado,
o relógio faz tic tac
ornamenta a cozinha,
conta os segundos que eu passo
a espera de sua ligação
mas de que morremos,
senão de tempo?

E toda a areia dessa minha ampulheta
corrói nossa vida
antecipa a desordem
arremessa nossa cara
contra a parede
sem reboco.

Nada aqui é limitado
E é sempre mais tarde do que você pensa.

 

 

 

***

 

 

 

Tudo o que está aqui está lá

 

eu me abaixei entre as pernas de
um camelo
esculpido em um
pedra gigante
que emergia de
um muro
deixando a onda passar
a onda infernal
me revelou um novo aspecto
completamente íntimo
da morada dos deuses:
– não há ninguém em casa

 

 

 

 

***

 

 

 

[poema do porto ao tibete – terceiro movimento]

 

não era água. era areia.
talvez fosse só o tempo.
talvez fosse muita coisa porque era o tempo.
eu fiquei sedenta, mas resignada.
quem ousou encarar o tempo não retornou à margem.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

[um pasito bailante]

 

seu coração na altura exata das minhas orelhas
pra ouvir a nebulosa dos que andariam a pé
por todo o campo
em busca de uma flor rúbea,
dos que anseiam a revolução
& repartem pão e ideias
multiplicando líquidos e conceitos
nessa cidade catatônica
pedindo esmolas
de tempos mais brandos
que nunca vão chegar.

ontem nós dois vimos
o mesmo desenho
numa mesma nuvem
e isso é a mais profunda troca que pode haver
entre dois seres humanos

 

 

 

***

 

 

 

[poema pra driblar o inferno]

 

eu construo uma antessala
com balões de gás hélio e reciprocidades
fico apanhada ao seu dedo mindinho
como se um furacão nos cingisse
e você é esperança derradeira;
as mesas estavam postas mas foi tudo derrubado.
bagunça, tingiu meu coração com manteiga e mel
e na boca gosto de fim de feriado.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

[notas sobre o sutiã de renda preto]

 

Simetrias rendadas que se bifurcam ao centro. Hipocrisias rendidas que sustentam prazer e alimento. Ele segura um par de estrelas, astros que orbitam em cabeças mal-intencionadas, mesmo sendo sempre estáticos (desafiados apenas e inevitavelmente pela gravidade que faz com que tudo amaine). Aperta a anatomia, oprime desejos, amarga sentimentos. Limita, esmaga, maltrata; por vezes empina, levita pomos sobrepondo volúpias carnais ao mantimento sagrado. É feito de panos, aros, bases, bojos. Mundanos desejos repousam em suas camas semicirculares. Duas medialunas cingidas comprimindo lunas llenas perfeitas.

 

Camila Assad Quintanilha nasceu em Presidente Prudente/SP, Brasil, em 1988. Escreve, traduz, desenha e pinta. É autora do livro de poemas Cumulonimbus (Quintal Edições, 2017) e do Desterro, projeto comtemplado pelo Programa de Ação Cultural (ProAC) da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo/2018, a ser lançado no próximo ano. Já publicou em diversas mídias literárias no Brasil e em Portugal.

 

Categorias
128ª Leva - 06/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

José Pascoal

 

Foto: Adelmo Santos

 

LUTO ANTECIPADO

 

Reina suave tumulto
No meu cérebro cansado
De funerais adiados
E tenho medo dos mortos
Com longos avisos prévios
E abro os livros com facas
Em protesto piedoso,
Frágil e silencioso,
E vejo-me de fugida
No espelho dos teus olhos.

 

 

 

***

 

 

 

O BENEFÍCIO DA DÚVIDA

 

Dai-me o benefício
Da dúvida
Metódica
E farei com ela
Uma certeza instável:
Casa desabitada,
A ruir
Lentamente,
Em silêncio,
Como um barco a afundar-se.

 

 

 

***

 

 

 

AS MÃOS DO VENTO

 

As mãos do vento agarram-me pelo pescoço
E obrigam-me a ver
O mar morto de fome,
A cidade incivil,
O campo infértil,
O fumo do fogo que não arde,
O fumo do forno crematório,
A cama onde me vou deitar
Para depois ficar acordado
Com medo do escuro.

 

 

 

***

 

 

 

EXCESSO DE VELOCIDADE

 

Corres para a desgraça dos mendigos,
Dos que vivem debaixo de lusíadas
Pontes, dos que vivem as ilíadas
A olhar para os seus pobres umbigos,
E vais rapidamente, como um atleta
Dos cem metros, desmedidos, tal a pressa
De chegares não sabes a que meta,
Sentes que vais cumprir uma promessa
A uma virgem louca sem altar
E vais, desalinhado, sem parar.

 

 

 

***

 

 

 

CONTAGEM DECRESCENTE

 

Não é da minha conta
O que acontece
Nos bairros periféricos,
Nos bares alternados,
Nos becos esotéricos,
Nos barcos encalhados;
Não é da minha conta
O sal rosa dos muros,
O sol rubro dos túneis,
O sul roxo dos túmulos.

 

 

 

***

 

 

 

SEM TIRAR NEM PÔR

 

Não tiro uma vírgula,
Não ponho um acento a mais,
Tenho de ter cuidado
Com as cordas vocais
Com que enforco
As palavras mais banais,
Vida, morte, amor,
E, acreditem-me,
Faço um esforço danado
Para sobreviver a tudo isto.

 

José Pascoal, 1953, Torres Vedras, Portugal. Bibliografia poética activa: Sob Este Título, 2017, Antídotos, 2018, Excertos Incertos, 2018, Ponto Infinito, 2018, todos na Editorial Minerva,Lisboa.Inéditos em várias revistas digitais e impressa. Mantém o blogue Gazeta de Poesia Inédita.

 

Categorias
128ª Leva - 06/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Sel

 

Foto: Adelmo Santos

 

ODE

 

Canto 1

 

1

que dizer a mais do que já dito
desse obscoso formato, ornamental?!
o que para alguns tem de maldito
a outros certamente de imortal

 

2

qual etna entre tempos se revela
num espetáculo, arco tortuoso
narra a olhos sem pudor sua querela
afligindo até mesmo o virtuoso

 

3

como quem ardendo se exaspera
lança-se’m pensar, ao mar, ao fundo
eu vi dentre mim nascer a fera
errante animal, vil moribundo

 

4

que em seu canto, fresco odor, se enleia
chagando o que chamamos de razão
quanto mais fugir tenta d’ sua teia
mais consome, definha esse brasão

 

5

marca iluminista inda eminente
embora já freud tenha descrito
que esse, subjugado ao inconsciente
fica, apesar do apelo d’ seu mito

 

6

skinner, com objeto bem diverso
ao relatar sobre essa abrangência
nega ao abstrato, neste universo
delegando-o para a contingência

 

7

boltzmann e gödel noutra vereda
tangendo aquele vau impossível
criam o que à lógica faz-se azeda
nau onde o contrassenso é compossível

 

8

nessa via, loucura voluptuosa
em quo acaso ao causo sempre é mote
volvido vou com a agre mucosa
carne na carne, sorvendo o pote

 

9

satisfação que maslow predizia
ser da boa pirâmide a sua base
cuja carência formula uma azia
corpo transfigurado em estase

 

10

mesmo q’ depure, reveja o tema
tal rato rói, e o verme o defunto
esse imã, atroz que não queda, rema
disforme, em massa, rompendo junto

 

Canto 2

 

11

empinado o glúteo, a língua em bis
sua sombra encerrada como cela
o ânus à manteiga simula um xis
bel tango, masoch, eu, marquês e ela

 

12

oposto a descartes, q’ pelo juízo
quis tocar metódico o que é real
a episteme, atribui, sem prejuízo
hume, pro empírico, achando-o leal

 

13

enthousiasmos que em mim só se agrava
afronta pois o ensino d’aquino
o qual ao gênio ofende, deprava
também d’ luther, hipona, Calvino

 

14

se a marx o fetiche é mercadoria
o capital opressor do infeliz
aqui, donx, escravx, em coautoria
convertem a dor no valor motriz

 

15

bem mostra-nos aquela multidão
que no ato com françois observara
sanson primeiro torturar-lhe a mão
tronco, o resto após, a tarde cara

 

16

queimam, vertebras, equus n’alcova
alegorias, comuns arquétipos
homolka, bundy, bodil, malkova
bispanking claire, fados, édipos

 

17

conquanto comece, exija o perfil
mártir, catella, de hermética ou rés
seu molde revira, perfaz-se em til
amiúde, avessa, reviça, revés

 

18

perdoe-me leitor se cá me extravio
abuso das figuras pra aduzir
mas é flama a memória, ou um pavio
ora compraz-me o fluxo e faz luzir

 

19

crua, devassa, nessa contradança
la bruja vislumbra, desfere o fel
de lua, dourada, a bátega, avança
o tédio da última, oblitera, o mel

 

20

harpia, vampir, agita o chicote
agarra, rebuça, esgatanha o osso
oblíqua, carmina, a própria sorte
cava, retrava, profondo rosso

 

Canto 3

 

21

antes d’ seguirmos cabe explicação
ao uso dum termo citado acima
porventura não seja obrigação
contudo dou versão q’ qro que exprima

 

22

se “obscoso” nd encontra, em lugar nenhum
é devido seu viés ‘xtraordinário
obscuro e viscoso agrupados num
neologismo pro vocabulário

 

23

prossigo nesse instant donde parei
co’ a femme fatale a minha frente
que, em frenesi deixou-me, na sua lei
miragem, substância evanescente

 

24

nessa forja onde a pedra amarra o sol
e a legião celebra o próprio fim
ta’ o sábio que na montanha é farol
condenado o dragão ressurge em mim

 

25

este tão logo se manifesta
“venho a ti, e ‘tu deves’ é meu nome”
grito “satã! diabo! mal que infesta!
belzebu! levai p/ lá a vossa fome!”

 

26

ao que sorri e, soberbo, assim me diz
“ouve, compreendo essa tua precaução
porém os que compõem minha matriz
são os mesmos que povoam teu coração

 

27

mil faces tenho e mil faces há em ti”
conclui dessa maneira a sua língua
reajo, então, “vós, de mim, ide, parti!”
“inútil é a ação, nada se míngua

 

28

hidra sou, dessas testas que possuo
fulguram os preceitos que as sustêm
se uma é decepada, duas, sem recuo
crescem no lugar e o ocaso detêm”

 

29

qual dura sonora onde o índio clama
soa, ressoa, atirado sou àquela voz
retorno, a visão imersa em lama
para a mulher que é xama, bruta foz

 

30

mas nesse imo, fragílimo cristal
zona cujas piras não são breves
áspero, esse monstro, sua digital
troa, “tu deves, tu deves, tu deves…”

 

Canto 4

 

31

saliva a besta ao desiderato
enqnto, espreita, essoutro d’ várias tranças
caos sobre caos, causando o substrato
menocchio, sua gênese às lembranças

 

32

degola a mãe, pierre, por compaixão
eu, de mim, um maço que reprime
todavia para ambos a maldição
no cáucaso à ave pelo meu crime

 

33

tecem as irmãs nosso destino
nós, amalgamados, feitos em ser
consoante d’ parmênides o atino
indiviso, omnis, perpétuo haver

 

34

de maneira diferente o devir
heráclito crê real, legifera
conceito que introduz ao perquirir
panta rei, fogo, tudo se altera

 

35

pra tales entretanto em início
a água, da natureza, se traduz
igual fêmea, bravio mar, um vício
líquida nave gera e nos conduz

 

36

já anaximandro o ápeiron insere
valsa invisível como proposta
infinito q’ derrama, (re)ingere
pasta donde a physis é composta

 

37

razoável o ar remeter outrossim
àquilo que transmuta a matéria?!
segundo anaxímenes faz-se assim
o antropo, o mineral, a bactéria

 

38

empédocles afirma por sua vez
que é das quatro raízes essa função
unas com o amor e o ódio em lucidez
tramam da nascença à putrefação

 

39

pitágoras idem inaugura
o número indubitavelmente
p/ xenófones é a terra, assegura
a demócrito, o átomo, “somente”

 

40

inobstante, seja enfim essa arqué
não o noûs de anaxágoras q’ move a idea
destart’, qual dorso daquela em mim é
paisagem, pasto, ninfas ou medea

 

Canto 5

 

41

a manceba amante inda que tele
pois alfim só plantou grave espectro
fere-me a boca, a boca à mia pele
conserva-se acre, látego plectro

 

42

tal perenelle flamel, lendatriz
logrou longa vida com a magia
crepita, velada pua ou beatriz
ora turra dulcis, ora em algia

 

43

águia de sangue, rebenta o fruto
seiva nossa, das escápulas, voa
xenomórfico ose, dissoluto
morta madre na des-figura ecoa

 

44

nobre sal, item oma signo seu
pela treva age, prodigioso orbe
da abóbada, entona sina, androceu
sua vinga prepara nesse alforbe

 

45

“eu que de mary à cria me assemelho
largo orto em serro da calipígia
sou, de hades, rei, sacro escaravelho
ou vulgo um, verbero desta lígia?!

 

46

de ifigênia, a forte, rubro manto
que avulta-se algures pra deidade
ou o bico, à turba, do falsanto?!”
vão… verbo é impossibilidade

 

47

entre bósons, estelas, onde o grão
a prima obra, ny, raro etimodeus?!
por grossa fuga pulsa seu cifrão
em sólitons verte neuroproteus?!

 

48

oumuamu’alto e silente cetáceo
paz nenhuma demonstra esse enigma
traspassa o céu, infausto rubiáceo
rangem consigo as almas do origma

 

49

suspenso negrume ao sono induz
cobre de angkor frontes impassíveis
quem fácil não cede luna seduz
mas uivam em mim coisas horríveis

 

50

das vespas a peçonha igualmente
quos ortópteros cativos torna
envenena, a solidão, seu cliente
abasta essa raiva que, o senso, orna

 

Canto 6

 

51

ouabaína aplaca e regenera estro
quebra espada, esfaz a malfazeja
asperge o falcão sua febre, destro
molesta, circunda, ankou solfeja

 

Sel é poeta e artista visual. Possui textos publicados nas revistas literárias Arcana, Diversos Afins, euOnça e Benfazeja. É autor dos livros: Autopse (ed. Multifoco – 2012) e [Sel]vageria (ed. Urutau – 2016). Ambos de poesia.

 

Categorias
128ª Leva - 06/2018 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Isabella Ingra

 

Foto: Adelmo Santos

 

Escama

 

Café da esquina
Pouca temperatura
agora muita temperatura
quem chega e quem está indo
quem desmonta e se monta
mantém a compostura
finge não ser
a podridão do século
festival de cremes hidratantes
clareamento dos dentes
um amontoado de desamores bem resolvidos
próxima esquina
tira esse outono de mim
tira minha roupa
tira minhas escamas
me pesca sem isca
próxima esquina me fazem de isca
todo mundo morde
todo mundo morde e morre
a isca continua viva
próxima esquina: não vira.
Encosta e finge que
por enquanto

 

 

 

***

 

 

 

Contos de fadas parte dois

 

Nada foi real,
mas doeu como se fosse.
E aí o silêncio.
Eu não quero silenciar
Mas o primeiro grito
Sempre sai de mim
Na torre da gente
Na serpente que diz
Que o fruto do conhecimento
É atrevimento sem volta.

 

 

 

***

 

 

 

Um disparate:

 

atirar-me contra o vidro. atirar-me no teu colo. atirar-me meio tiro e meio pétala. atirar-me numa curva, numa selva de seca e terra. atirar-me contra o amor romântico amando e me atirando. Atirar-me repetidas vezes em diferentes cores e coisas. atirar-me em teu sexo, no seu intelecto e não sair de mim. atirar-me numa tela de tinta e lubrificação do que se vê mas não se toca. atirar-me agora fora do meu juízo. atirar-me para fora do golpe como se fosse possível, como se o estilingue pudesse me arremessar e me colocar fora para que eu possa olhar tudo por dentro.
atirar-me em outros corpos e copos
atirar-me em outras camas e lamas
atirar-me dentro de um filme ao vivo
atirar-me ao vidro
e como estilhaços
ir pra todo canto.

 

 

 

***

 

 

 

Degraus:

 

é que eu me sentia cair degrau por degrau
sentia a nutrição de força por força
sentia desejo de corpo por corpo
é que eu não sabia sentir e ter que sair de mim
era tudo aqui dentro.

Adicionar legenda
e secreto.
Tão secreto que qualquer um poderia entender
era notável, pegajoso, sujo.
Essa coisa de me sentir caindo
foi me dando altura
noção de espaço
noção desesperadora dos espaços que eu posso
noção de dor. Noção de dor é umas das piores noções que se pode ter.
Sei que dói
e caio pra me valer da dor
pra manter distância dos que não caem nunca.

 

 

 

***

 

 

 

Balança devagar

 

Me assaltaram a alma
Numa esquina entre o que eu acho
e entre o que eu penso.
Coloco na balança tudo
olhares, cartas, enigmas, chuva, cabelo bagunçado
sorrisos, bom dias, cuspe, beijo, penetração, fracasso
desejo
coloco na balança tudo
espera:
balança tudo.
Balança o mundo
e a gente não supera
coloco na balança a falência do estado
a falência do meu estado
o socorro cochichado
um pé estalado
corrida
medo coragem vontade
colidimos no tempo,
quando olhei pra tudo
já era 64 de novo
a balança quebrou
dividimos os ombros pra pesar
dividimos os ombros em pesar.
Meu coração agora tem pressa.
Sem metáforas
é
pressa
de balançar pra demolir.

 

 

 

***

 

 

 

Nós somos os potes de ouro

 

Seremos nossos próprios potes de ouro no fim do arco-íris,
ou no fim de um disco,
nas últimas sílabas das palavras que quase foram ditas.
Seremos o rebuliço causador,
os primeiros desejos ainda que antigos, esses dias simbolizam o nosso número da sorte ainda que golpeados, ainda que exaustos, ainda estamos excitados pela vida, inundados, molhados, aquecidos, um dentro do outro, nós dentro de todos, beijos, lascívia e umas esquinas.
Fumamos um cigarro depois do estrago.

 

Isabella Ingra ( Brasília, 1993) escreve poesias desde que leu seu primeiro poema (quadrilha, Drummond) na escola. É professora de literatura, atriz, contadora de histórias e poeta. Publicou dois livros infantis e agora se prepara para publicar seu primeiro livro de prosa e poesia. Suas maiores inspirações nasceram da poesia marginal e da escritora lendária Clarice Lispector. Acredita que poesia é pura bruxaria e não há inquisição que a pare!

 

Categorias
128ª Leva - 06/2018 Destaques

Janela Poética II

Marcelo Ariel

 

Foto: Adelmo Santos

 

COSMOGRAMA 8

 

Eles eram como nuvens
de sangue
dentro do sonho
Havia uma tela no início
e ele estava perto de desertar
do sonho para o infinito efêmero
das imagens fixas
que escondiam algo
ele havia sonhado
que era uma bala perdida
e acertaria seu próprio coração
dez anos depois
como num conto
argentino
ou tcheco
havia um padrão
dentro do sonho
criado pela impossibilidade
de ver a si mesmo
ele era
como um pássaro
transparente
voando
na direção
de um céu
de carne
com ossos
no lugar
de estrelas
a bala havia
perfurado
seu tórax
ele ouviu
o enfermeiro
cantar
essa ária
para o médico
de plantão
na medida
em que a morte
se aproximava
ele ia se esquecendo
do seu próprio nome
e desertando de dentro
do sonho
o fundo branco
das paredes
mudava
para prateado
de acordo
com a intensidade
do som
de um oceano
cada vez mais perto
perfurando seu pulmão
ele ouviu sua voz
misturada
com a voz de
seu avô
dizer a fumaça
oceânica
haviam
duas águas-vivas
grudadas nos seus braços
e uma arraia
no teto
flutuando
por cima
de seu corpo
dela
saiam
orquídeas
vermelhas
que ficavam
paradas no ar
estas flores
são o tempo
ele se ouviu dizer
e depois
acordou novamente
dentro da água.

 

 

***

 

 

PARA MARIELLE FRANCO E ANDERSON PEDRO GOMES

 

O sangue
não pode voltar no tempo

como o orvalho
seca e avança
até o Sol

O grito
não pode parar a rajada
de uma metralhadora

como a água
dentro da onda
avança
e retorna sempre

 

 

 

***

 

 

 

ANTÍFONA *

ANTÍFONA

 

 

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras

E aí, branquitudes, purezas, certezas

De luares, de neves, de neblinas!…

De clareiras, nuvens, névoas

Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas…

E aí, branquíssimas peles lapidadas

Incensos dos turíbulos das aras…

nuvens brancas atravessando avenidas cercadas

 

Formas do Amor, constelarmente puras,

Modos de se matar, celestiais estáticos

De Virgens e de Santas vaporosas…

Em estados líquidos, enevoados

Brilhos errantes, mádidas frescuras

Fosforescências efêmeras

E dolências de lírios e de rosas…

e melancólicas orquídeas vaporosas

Indefiníveis músicas supremas,

Inefáveis  mixtapes esquecidas

Harmonias da Cor e do Perfume…

perfeitas mas sem cheiros e sem lume

Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,

vindo em ondas de  sangue  que o Sol queima

 

Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume…

Velórios da luz no vidro que o projétil quebra

Visões, salmos e cânticos serenos,

Delírios, funks,  risos, celas

Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes…

Ecos de toques de celulares nas biqueiras

Dormências de volúpicos venenos

Sonabulismos do beck com doce batendo na viela

Sutis e suaves, mórbidos, radiantes..

vagos e violentos, santos rostos faíscantes

Infinitos espíritos dispersos,

Duplos vetorizados, capturados  logo adiante

Inefáveis, edênicos, aéreos,

encurralados ao revés por  ancestrais , mortos, indigentes

Fecundai o Mistério destes versos

florescendo em galáxias distantes

Com a chama ideal de todos os mistérios.

na parte azul do sangue, nenhuma verdade

Do Sonho as mais azuis diafaneidades

alucinações em vermelho, nos olhos que se fecham

Que fuljam, que na Estrofe se levantem

que se dissolvam no refrão gritando não

E as emoções, sodas as castidades

com o sentimento sonoro, vertendo em espuma a interdição

Da alma do Verso, pelos versos cantem.

nas ruas as almas dos internos, crianças-onças-pardas

Que o pólen de ouro dos mais finos astros

germinando o sonho do mais fino grão do ser

Fecunde e inflame a rime clara e ardente…

sejam  flores, os que desabrochando debaixo do  chão e

Que brilhe a correção dos alabastros

como baleias  nadando no mar de esgoto , em sua amplidão

Sonoramente, luminosamente.

entoando para a luz , a ultima canção evocando

Forças originais, essência, graça

forças de dentro que jamais avançam em vão

De carnes de mulher, delicadezas…

através da pele mestiça e negra , docemente

Todo esse eflúvio que por ondas passe

dos rios soterrados,  subindo em ondas quentes

Do Éter nas róseas e áureas correntezas…

sobem, crescem, todos sentem

Cristais diluídos de clarões alacres,

tudo se refletindo em tudo, sem alarde

Desejos, vibrações, ânsias, alentos,

Eros regendo o ritmo das carnes

Fulvas vitórias, triunfamentos acres,

E aí, Branquitudes, a hora é agora!

 

Os mais estranhos estremecimentos…

a mais feroz doçura

Flores negras do tédio e flores vagas

desce até a piscina a matéria escura

De amores vãos, tantálicos, doentios…

de tristezas cósmicas, sem vagueza

Fundas vermelhidões de velhas chagas

fendas, falésias, fios, chamas, feras são

Em sangue, abertas, escorrendo em rios…..

sangram , fluem, pela água , antes represada

Tudo! vivo e nervoso e quente e forte,

cristalina fome de ser que vem do fundo, como a morte

Nos turbilhões quiméricos do Sonho,

vórtices, espirais de outra realidade

Passe, cantando, ante o perfil medonho

engolem vossos corpos, como  o  sono

E o tropel cabalístico da Morte…

chega para reger a manhã da insurreição

 

 

 

***

 

 

 

SIDERAÇÕES

GRAVITAÇÕES

 

 

Para as Estrelas de cristais gelados

Para os oceanos que vagam na matéria escura

As ânsias e os desejos vão subindo,

os sentimentos  vastos são atraídos

Galgando azuis e siderais noivados

como no casamento do Sol e da Lua

De nuvens brancas a amplidão vestindo…

a anterioridade de contrários se fundindo

Num cortejo de cânticos alados

num ritmo , pulsação e vibração contínuos

Os arcanjos, as cítaras ferindo,

crianças na ocupação cantam esse hino

Passam, das vestes nos troféus prateados,

dançando com seus corpos negros azuis e cabelos prateados

 

As asas de ouro finamente abrindo…

de uma revoada de pássaros no peito tatuado

Dos etéreos turíbulos de neve

fortes em porosidade etérea

Claro incenso aromal, límpido e leve,

doçuras moventes , risos firmes permanentes

Ondas nevoentas de Visões levanta…

atravessam o sereno

E as ânsias e os desejos infinitos

agem derrubando muros, tropas, policias, fascistas

Vão com os arcanjos formulando ritos

da insurreição dos proscritos

Da Eternidade que nos Astros canta…

ecoando a força infinita de um grito

 

 

* Poemas do livro inédito ESCUDOS BROQUEIS onde dialogo linha a linha com o livro de Cruz e Souza, criando através desse diálogo um novo poema formado pela união de dois poemas. É minha homenagem ao legado do poeta negro Cruz e Souza, que considero meu Mestre maior.

 

Marcelo Ariel é poeta e performer, autor dos livros “Tratado dos Anjos Afogados” (LetraSelvagem, esgotado), “Retornaremos das Cinzas para sonhar com o silêncio” (Editora Patuá, esgotado), “Jaha Ñande Ñañombovy’a”(Editora Penalux), entre outros. Em breve será lançado “Ou o Silêncio contínuo” – Poesia reunida 2007-2017 que está no prelo pela Kotter/Patuá.

 

Categorias
127ª Leva - 05/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Matheus Arcaro

 

Ilustração: Ana Matsusaki

 

É insuportável
não sentir
a dor do mundo.

A incompletude
inunda a vida
de tal modo
que o pasmo
esconde o rosto
sob o silêncio do instante.

A fresta de cada frase
o hiato do amor
o vácuo do olhar
engolido a seco.

Todos os sentimentos
acumulados na curva da alma:
lama tóxica que enrijece
a dança do tempo.

 

 

 

***

 

 

 

Silêncio

 

Não fere os amantes
as frestas
entre as frases.

Na língua em repouso
o desejo se dilata
até tocar o incontestável.

A ausência das palavras
é o palco dos olhos,
dos hálitos,
dos hábitos despidos.

Peles, pelos e peitos
entrelaçados,
bêbados de presente.

Um espetáculo
em que as proposições
são espectadoras.
E aplaudem atônitas
a eloquência dos corpos.

 

 

 

***

 

 

 

Temporais

 

Há os que estão sentados na esperança,
aguardando o fim de semana,
o mês seguinte,
o ano em que os astros se alinharão.
O alívio dos dias úteis.

Na casa das máquinas ao lado,
há os acorrentados.
Mastigando as migalhas
endurecidas de Cronos.
Suspirando pela ferrugem dos ponteiros.

Há, por fim,
os que intuem o instante.
Os que dançam
sobre a mortalha da eternidade.
Há os que vivem.

 

 

 

***

 

 

 

Despedida

 

Senti o perfume da saudade nos teus olhos.
Pressenti que não passaríamos de um passado
desprovido de peso,
nos teus beijos empoeirados,
nos teus abraços em branco e preto.

No lençol,
ato consumado,
eu não era mais do que um retrato,
um fato
avesso a argumentos.

Tu sabias que eu sabia.
Mas sempre preferiste os palcos à ciência.
Eu também.
Que bem nos fez esse fingimento mútuo:
o que é o amor, senão uma farsa partilhada?

O sol subiu e afundou meus minutos:
era tempo, tinhas que ir,
fazer-te completa como uma libélula.

Saíste sem mala
sem palavra,
sem sorriso,
deixando-me aos vãos da vida.

Desde aquela noite,
Evito pensar em ti.
Talvez,
Pra não gastar as lembranças
que tenho de mim.

 

 

 

***

 

 

 

A criança é uma noite
seca
na veia da cidade.

Com o vazio
encostado na vitrine,
derrama o futuro
pelos olhos:

Quando terá,
em seu estômago,
um pedaço mísero
daquela padaria?

 

 

 

***

 

 

 

Poesia Pura

 

Não aprendi a roubar do outono uma tarde virginal.
Não encontrei a organicidade da pétala no sorriso da mucama.
Não percebi a puberdade incrustada em cada amanhecer.

Por isso não faço poesia.

Procuro por causas e efeitos
e deslembro dos defeitos,
dos hiatos
que impulsionam a criação.

Sou filho da definição,
súdito do porquê,
dependente sintomático do juízo.

– Doutor, e o tratamento?
Não há desintoxicação.
Não há antídoto.
Não há haverá.

É tarde. Tardíssimo!
A criança que me habitava
esvaiu-se no labirinto da certeza
sem saber como cobrir o verbo de cor.

Não sei fazer poesia
porque cadaverizo os sentimentos
numa página pálida.

 

Matheus Arcaro é mestrando em filosofia contemporânea pela Unicamp. Pós-graduado em História da Arte. Graduado em Filosofia e também em Comunicação Social. É professor, artista plástico, palestrante e escritor, autor do romance “O lado imóvel do tempo” (Ed. Patuá, 2016) e dos livros de contos “Violeta velha” e “outras flores” (Ed. Patuá, 2014) e Amortalha (Ed. Patuá, 2017). Também colabora com artigos para vários portais e revistas.

 

Categorias
127ª Leva - 05/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Julia Bac

 

Ilustração: Ana Matsusaki

 

existe um jeito certo
de arrumar a cama:

deve
puxar bem o lençol
nos cantos
deixar o tecido firme
passar a mão
para alisar os vincos
não deixar espaço
ou ar
entre uma superfície e outra

existe um jeito certo
de arrumar a cama:

deve
ser feito com calma
circundando o estrado
logo depois de acordar
para não querer voltar
e depois de pronta
olhar com satisfação
a cama lisa
perfeita

existe um jeito certo
de desarrumar a cama:

e isso depende.

 

 

 

***

 

 

 

a primeira coisa que fiz
quando você saiu pela porta
foi colocar uma pequena toalha
com flores bordadas
– aquela que você não gosta –
na mesinha de cabeceira

troquei os lençóis
para tirar o seu cheiro
varri o chão
para que não sobrasse
nem um fio
de cabelo seu

limpei as portas
as janelas
os azulejos
podei as plantas
tudo
para não sobrar nenhum rastro
nenhuma partícula
que tenha tocado o seu corpo

 

 

 

***

 

 

 

já gastei umas sete páginas
com este poema
este poema que não vem

ontem gastei
cinco horas fazendo faxina
para uma visita
que não veio
e de você
de você eu só
esperava duas linhas
que também não vieram

 

 

 

***

 

 

 

nove e meia da manhã
são nove e meia da manhã e
já fiz o café
já lavei a louça
estendi a roupa no varal
já levei o cachorro pra passear
respondi e-mails
e perdi meu tempo nas redes sociais

são nove e meia da manhã e
terminei de ler o livro do Beckett
varri a garagem
tomei banho
e esqueci propositadamente de secar os cabelos

são nove e meia da manhã de um domingo e
já tive três crises existenciais:
a primeira quando acordei de ressaca
a segunda quando vi o meu reflexo no espelho sujo
e a terceira quando comecei a escrever esses versos

 

 

 

***

 

 

 

marcas de café
na mesa que você construiu
suja com farelos de pão
um livro marcado com lápis
na centésima página
exatamente no número 100
das 585, li ontem essas cem
as mesmas marcas de café
na mesa da cozinha
uma abelha
voava e zunia
batendo na janela fechada
insistia em querer
atravessar o vidro
hoje o corpo dela
caído e deitado
no azulejo da pia

 

 

 

***

 

 

 

[um copo americano
2 cm de cerveja]

uma mosquinha
voava ao redor do copo
assoprei para que fosse embora
mas o inseto caiu
na cerveja
com o indicador tirei
a mosquinha
que boiava no líquido
e a coloquei no guardanapo
ela limpou as patas
como se fosse humana
balançou as asas
com intensidade

 

Julia Bac é formada em História (PUC/2004) e Artes Visuais (Centro Universitário Belas Artes/2009). Fez o CLIPE/Poesia 2017 da Casa das Rosas e estudou no núcleo de ficção do Curso de Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz (2018). Em 2013, publicou o livro “os dias” (Ed. Giostri) e em 2018 o zine “olha aí olha aí a promoção só paga 10 reais senhora é poema a partir de 10 reais” de forma independente.

 

 

Categorias
127ª Leva - 05/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Vítor Teves

 

Ilustração: Ana Matsusaki

 

……………………………..…NÃO CORRESPONDIDOS

 

O oleiro cansado já não molda a forma. As
enrugadas mãos pousam sobre a mesa os
poros da pele do desejo. Calado espera, o
Velho sonhador, pelos tempos que lenta-
mente passam. Não mais outra tentativa!

A. A informe sensação desaparece, lenta-
M. mente, em fios de sangue. Parado, já
O. não desloca o grosso grão de areia da
R. argamassa inútil à mesa. Oca, a forma
E. não mais nasceu perfeita. Vive hoje

S. entre a espera e a imobilidade eterna.

 

 

 

***

 

 

 

POEMA FEITO COM FITA-COLA E ESFEROVITE

 

À falta de rica matéria-prima, a mão
que desenha já não escava a forma
pura. O rosto e o corpo mutilados
unem-se em fita-cola e esferovite.

Reinventada a carne moribunda
com mingadas e fracas palavras,
a fealdade intensa do monstro,
abre lentamente a grande boca.

O crânio feito em metal reusado,
abrindo e fechando, propaga o som
desarticulado na planície plana.

Pousada Huma perna sobre a folha
o corpo articulado cospe farpas
pontiagudas e Bhabha a quem o vê.

 

 

 

***

 

 

 

DON’T FUCK WITH ME FELLAS!

 

THIS AIN’T MY FIST poem!
Dizia o poeta, baixinho, gordo,
com a cara irritada, vermelha,
como se fosse um peixe retirado
do mar e que respirava a custo.
Realmente, quem lhe dera ter
a boa intenção de se misturar
com os melhores dos melhores?

Aprender era o que dizia
querer, um querer sincero,
sem qualquer macua ou vil
malícia. Mas, bem sabemos,
a sinceridade pouco acrescenta
à grande e nobre literatura.

E, assim irritado, uma espécie
de Joan Crawford arrancando
a roupa dos cabides a meio da
noite e batendo na filha pequena,
era ele atirando farpas afiadas
a todos os seus colegas à mesa.

Tudo porque não conseguia
ver que por detrás da sua
pequenez existia um ego
maior que o último modelo
de balão quente, um que
dizia insistentemente:
Eu Eu Eu Eu Eu e Eu.

No fundo, todos gostavam
dos seus pequenos poemas,
cheios de ironia e síntese,
mas não suportavam aquele
seco olhar fotográfico que
registava todo e qualquer
arroto literário dos literatos.

 

 

 

***

 

 

 

O MEU NOVO NAMORADO

 

Everthing is contained
Herman Bas

 

Egon passeando pela Steplansplatz olhava a catedral
e imaginava-se na pele de uma pequena rola que, em
tardes quentes, caminhava, lentamente, como se fosse
um rato ou uma barata, no ziguezagueado do telhado.
Nada disso tem a ver com o meu novo namorado,
sentado aqui no sofá, perdido em pensamentos que
não consigo ler. É quando me debruço sobre o rosto
que me vem à retina os olhos de Egon, a sua pele
desbotada a pincel e começo a imagina-lo entre
as pombas de Steplansplatz. Aqui no sofá, vejo o
meu novo namorado, calado, de perna cruzada e
imagino-o, por momentos, ser ele o próprio Egon
aqui sentado entre a confusão do meu estúdio.
Como a um bolo, vou sobrepondo homens como
as camadas de tinta, imagens e aprendizagem,
porque para o meu caótico pincel nada tem entre
si fronteira definida. Por isso, arrasto o meu pincel
em zonas de luz e me demoro na escuridão da sala.
Pintando no silêncio o pensamento daquele que,
agora, amo, dou por mim, sem querer, a fazer do
lume da lareira a chama sobre as suas suspensas
e grandes mãos, como se alguma luz divina me
pudesse dizer em epifania: Este é o verdadeiro
Amor. Eu limito-me a pintar esta que é a minha
Vida e espero pelo eminente colapso de tudo,
dos meus olhos, do meu corpo e desta chama.

 

 

 

***

 

 

 

DO IMPULSO OU DA DELICADESA, COM S.

 

O poeta altermoderno não pode errar a palavra,
nem alterar a sintaxe da frase, abolir a vírgula.
Deve, como convém à máquina, passar por todos
os estados de formação do espírito: andar, apenas,
cronometrado com o cânone vigente, ler o bardo
A e o bardo C, ser formado em literaturas, línguas,
Química, ter licenciatura, mestrado, doutoramento,
Pós-graduação, pós-pós-graduação em vegetarismo.
Deve comer figos em vez de cenouras, dizer advér-
bios e usar sempre o Nós. Deverá amar a cidade,

apenas a cidade, e citar dez poetas estrangeiros
nos seus poemas, saber dez ou vinte rótulos de
bolachas, músicas estranhas e ter voz de trovão.

E, se isso não chegar, deverá tentar dizer o mes-
mo em todos as línguas, mas com delicadeza. Se
usar o Eu, sem que ninguém o veja, que seja um
eu colado, fictício e nunca autobiográfico. Deve,
sobretudo, escrever para satisfação do público.

Ao anticorpo só lhe resta escrever palavras com
delicadeza e, se possível, numa delicadesa mínima.

 

Vítor Teves naceu em 1983 em Ponta Delgada, Açores. É licenciado em História da Arte pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, sendo atualmente aluno no Mestrado de Estudos Culturais e Interartes na mesma Faculdade. Publicou poemas em diferentes revistas (Trama #1,#2, Apneia #2,#3) e sítios de poesia (Bacana; Enfermaria 6; Gazeta de Poesia inédita). Reuniu os seus primeiros poemas em “Dentes Tortos”, edição de autor que comporta poemas de 2007 a 2017. Além de participar regularmente com a editora Enfermaria 6 e escrever poesia, desenha e pinta.