é porque o mar se desfaz no nosso ventre
como um deserto intemporal
espalhado pelas vísceras
de cada sílaba.
não me acuses de melancolia,
quando na representação da realidade
as vozes dos peregrinos
são arrepios escritos entre a pálpebras,
a melodia infinita que se esvai em sangue
quando ligamos o spotify.
hoje à tarde vou ser poeta outra vez
e amanhã vou ser mar,
depois deserto de vertigens.
dá-me uma metáfora que me salve a vida.
***
Na capital
de avental, à espera de limpar a casa
ou este labirinto inteiro a que chamo casa.
a limpeza deverá ser profunda,
mas como conseguirei vir à superfície,
debater-me contra todo este tédio de musgo.
sinto-me a afogar em cada lembrança de ti,
sei que vou ver-te mas espero até lá
já ter tudo limpo.
a capital é lírica
como o voo longínquo entre nós
como a tensão de bruma
ou o desencanto inevitável
entre nós.
deixei-te umas quantas mensagens sem sentido
quando estava sob o efeito das benzodiazepinas.
quero esconder uma paixão atrás de outra paixão,
atrás de outra paixão para que ninguém me veja.
mas a evidência da minha insignificância
mistura-se com o pó da casa:
discreto mas tóxico.
***
Lugares
este é um lugar de acidentes,
objetos arrefecidos no esquecimento.
esta é uma voz de vidro
que corta a paisagem.
queria ser a resposta às tuas perguntas
mas o açúcar das horas drenou a linguagem.
o lugar deste texto é entre a insónia e Cesariny.
***
São os teus gritos leves e radioativos,
são as tuas têmporas de aço
e os testículos idiomáticos dos teus poemas.
deixa-me sobreviver naturalmente
à vida furada que trazes às costas
podemos fazer planos
à volta da luz do medo
mas a vida é curta e a escrita é extensa
este é um nome que espreita
de todos os poros do meu corpo
o teu nome e o de outros animais
o ritmo desconcertante da espera,
as chamadas que rejeitaste,
os dedos transfigurados
pela radioatividade.
***
Doutora Fedúncia
vou escrever este poema com o que restar da culpa,
das várias culpas que vamos deixando amadurecer
junto à carne até que brotem raízes de luz
na escuridão que todos temos atrás dos olhos.
este é um poema responsável
sabe estar,
sabe mais do que
a imaturidade dos títulos porque a doutora sabe que
os nomes de código que a mulher da limpeza nos oferece
num ato de generosidade
são as alcunhas miseráveis
que melhor nos definem,
somos nomes de código que nunca saberemos
em bocas de consistência aleatória.
aquilo que nos chamam,
aquilo que os outros secretamente nos chamam
isso é que devia figurar na lápide.
***
Se precisares de mim,
sabes que estou disponível entre a faca e o coração,
o verão é incerto mas a minha mão
tem sempre o suor dos pulmões
sabes que a vida é simples
mas os movimentos da terra são longos.
hoje despeço-me de ti
vamos fumar a noite uma última vez
esconder-nos nas trevas que nos afastam,
nos símbolos que não nos pertencem,
nas religiões que nos separam,
a uma distância continental.
se precisares de mim
estarei no fogo e no sangue,
estou nas entrelinhas das coisas
que nunca deixaremos de partilhar.
***
Transfiguração da fome
escrevo ritualisticamente sobre as omoplatas da folha,
e há estrelas de solidão entre as palavras.
ao pernoitarmos na montanha do século
fomos adiando a terra
entre os aromas frágeis dos gestos.
há carne noturna nas nossas vozes,
impérios de tortura
e amigos tenebrosos.
perguntas-me se confio no furor do tempo,
quando sabes que a nossa glória
não passa da transfiguração da fome.
há um caos que irrompe da espera
e uma espera luminosa
nos espelhos provadores.
a tua ausência infindável
escorre desta folha.
Sara F. Costa (1987) nasceu em Oliveira de Azeméis. É licenciada em Estudos Orientais e Mestre em Estudos Interculturais: Português/Chinês pela Universidade do Minho em parceria com a Universidade de Línguas Estrangeiras de Tianjin, China. Tem recebido vários Prémios Literários nacionais na área da poesia. De momento reside em Pequim. Tem publicadas as obras poéticas: “A Melancolia das Mãos e Outros Rasgos” (Pé de Página editores, 2003); “Uma Devastação Inteligente” (Atelier Editorial, 2008); “O Sono Extenso” (Âncora Editora, 2012); “O Movimento Impróprio do Mund” (Âncora Editora, 2016) e “A Transfiguração da Fome” (Editora Labirinto, 2018).
Chovia a cântaros pássaros do céu
No chão não sabiam ser pássaros
O encantador de fortunas, o rato
Mirava satisfeito seu intento
De fazer chover pássaros.
***
Ferida
Chegaram aqui as cercas de arame farpado
O arame roçava os bracinhos mestiços
E quando tentavam transpor os pastos
À dor do arame retrocediam
Encolhidos os braços
Deitavam-se à sombra
Excediam-se em valsas
De quinhentos anos.
***
Currais concretos
Celebrar a vida e seus horrores
Viver do torrão
Nada há para ser dito em linguagem humana
Amor só é possível o dos passarinhos
Mulheres-gado viajam em caminhões
Olham pelas frestas olhares de transe
Dia após dia alugamos nossa liberdade
(É dentro de mim que me perseguem).
***
Ossos
Ficam os cães porque querem
Por inteira vontade
De ao teu lado estarem
Mesmo com a intragável solidão
Teus estragados humores
Teus dias de câncer e tomografia
Tuas teorias existenciais
Ontologias não desanimam os cães
Ficam por tua carne ainda
Pelos dias em que exporás tua beleza
Pelo que podem ser de companhia
Nessa transitória feira de razões.
***
No hospital
Costuram há dias minhas asas
Danificadas
A longas distâncias e ao vento
Submetidas
Encontram-se em mau estado
Retido ao chão como besouro
Emborcado
Como abelha grudada no cabelo
Nada com o que atravessar os dias
Além do trespassar da agulha na carne
E observar o pavilhão dos amputados.
***
Nanquim
Aprendi com as árvores
A escolher um dia de chuva para tombar
E pôr a culpa no vento
Para que ninguém desconfie
Da minha imensa vontade de cair.
“Currais Concretos” é o quarto livro do poeta Marcelo Benini que vive em um núcleo rural próximo a Brasília-DF, Brasil. A poesia de Benini fala de suas experiências em contato com o Cerrado e de seus encontros com os passarinhos, as abelhas, a literatura e a filosofia. No prefácio, o escritor Ronaldo Cagiano escreve: “Currais Concretos encontra um poeta no auge de um fecundo exercício da condição artística. Sua voz poética parece reverberar um solo em que o artista transfere à palavra uma impactante melodia, um repertório de pura transubstanciação da realidade a partir de uma percepção nitidamente onírica e metafísica”.
sou a sombra de mim desmedida
enroscada nos remendos alinhavados do tecido gasto
imensurada nos cortes profundos
das fendas deixadas à mostra: carne sã
das brechas acidentais das saliências vãs
enlaçada nos egos que teimo em descosturar
eu,
vestida de outras texturas e outros textos
Nem me reconheço.
***
alago estiagem
inundo seco
transbordo rio
escoo ralo
Pra fora calo
Pra dentro falo
***
entediada
das falácias
falas pelos cotovelos
das tagare-tolices
dos verborrágicos
verbos raivosos
dos disse-me-disse e das blá blá blasfêmias
a palavra pede licença
e vai silenciar
no dicionário
***
diáfana
avoada
evaporada
em partículas
vocálicas:
Eis a palavra
fonemamente livre
das estruturas morfo-sintáticas
sem verbo
escrita e fala.
Sem aspas vírgula ponto
Sem rumo
Desenfreada
leva na mala
somente prefixos de negação
e oposição.
***
caminho curtortuoso
bifurcaçõestreitas
labirintoscos
estradatalho
poça dágua no meio:
atravesso e ando
atravessando
travessa
vereda
viela
vila
via
Paraliso
no piso
escorregadio
da esquina
me curvo à curva
desisto do risco
mantenho desestância
desvio
silencio
sou refém do espaço
refaço o passo.
***
Em tudo
entorno
em torno
contorno
em todo
retorno
em tudo
engodo
em torno
entulho
em todo
embrulho
em tudo
encolho
em torno
me encolho
todo
Meire Viana é professora de Português e Literatura, com Mestrado e Doutorado em Letras. É poeta experimental neoconcretista. Dialoga com o Concretismo, o Neoconcretismo e a Poesia Marginal dos anos 70, suas referências. Tem material inédito para publicação em livro, mas por ora é frequentadora de saraus poéticos na cidade. Mora em Fortaleza.
O amor será para o corpo
o que a contemplação é para a alma?
Esse sossego?
Essa intuição
do todo no instante?
Esse relâmpago no qual
o real se revela
consonante com seu eco?
A suspensão fugaz
que pressente tudo,
e tudo compreende?
Será aquele hiato no fluir do tempo
o único lar e pátria verdadeira?
Lar e pátria:
Chamo assim o possuir-se,
o olhar-se e ver-se refletido
em uma água
confiável e serena.
Corpo de luz
Corpo de bem
Hiperbólica pétala remando
entre uma e outra margem.
E se não forem duas as margens?
Se tudo for um?
Se não forem dois nem um
senão um glissando de espelhos
em direção e a partir da luz —ou do lodo?
Cada estação com seu afanoso demiurgo
mais confuso que cruel
ofuscado, mergulhado
no excesso
de um reino que ignora e que o ignora.
Regente, príncipe e menino —tudo ao mesmo tempo,
tudo a destempo.
E se não fosse tudo mais
que uma viagem
pelas idades congeladas desse príncipe
em direção à luz —ou ao lodo?
XI
¿El amor será al cuerpo
lo que la contemplación al alma?
¿Ese sosiego?
¿Esa intuición
del todo en el instante?
¿Ese relámpago en el que
lo real se revela
acorde con su eco?
¿La suspensión fugaz
que presiente todo,
y todo lo comprehende?
¿Será aquel hiato en el fluir del tiempo
el único hogar y patria verdadera?
Hogar y patria:
Llamo así al poseerse,
al mirarse y verse reflejado
en un agua
confiable y serena.
Cuerpo de luz
Cuerpo de bien
Hiperbólico pétalo bogando
entre una y otra ribera.
¿Y si no son dos las riberas?
¿Si todo es uno?
¿Si no son dos ni uno
sino un glisando de espejos
hacia y desde la luz —o el fango?
Cada estación con su afanoso demiurgo
más confundido que cruel
obnubilado, hundido
en el exceso
de un reino que ignora y que lo ignora.
Regente, príncipe y niño —todo a un tiempo,
todo a destiempo.
¿Y si no fuera todo más
que un viaje
por las edades congeladas de ese príncipe
hacia la luz —o el fango?
***
XV
O poema é o rosto no espelho
mais verdadeiro que o rosto e que o espelho.
O poema é o fluxo do sangue
para além do corpo,
o ritmo do sangue para além do sangue
—seus leitos rigorosos, seu latejar surdo e unitário.
O poema é o ritmo do outro em mim
para além de mim, sempre, além,
onde meu silêncio topa com teu ritmo
e repercute em mim, que solfejo no poema
um ritmo numinoso,
cifra que faz eco no eco
que é corpo verdadeiro
—o numinoso em ti e em mim—
o ciclo das esferas tocando-se e abandonando-se
—distanciando-se, sim, uma da outra,
mas soltando-se de si também
cada qual
em sua dourada, fecunda negligência.
Em seu ritmo me desdobro.
Em seu metrônomo
caprichoso e fugaz
desdobra o universo suas fantasmagorias
—sua verdade.
Não há tradução possível.
—ou sim, há:
de si próprio a si mesmo,
de si a aquele que tateia e vence
do que sabe de si
—seu pobre império.
O poema, digo,
digo a música, digo o movimento
da dança no corpo, o da pedra esculpida…
E a música no traço e na pedra, digo,
e o movimento sinuoso e firme do poema,
douta cadência, felicíssima queda no cruzamento
de todos os sentidos.
XV
El poema es el rostro en el espejo
más verdadero que el rostro y que el espejo.
El poema es el flujo de la sangre
más allá del cuerpo,
el ritmo de la sangre más allá de la sangre
—sus cauces rigurosos, su latido sordo y unitario.
El poema es el ritmo de lo otro en mí
más allá de mí, siempre, más allá,
donde mi silencio se topa con tu ritmo
y repercute en mí, que solfeo en el poema
un ritmo numinoso,
cifra que hace eco en el eco
que es cuerpo verdadero
—lo numinoso en ti y en mí—
el ciclo de las esferas tocándose y abandonándose
—alejándose, sí, una de la otra,
pero desasiéndose de sí también
cada cual
en su dorada, fecunda negligencia.
En su ritmo me despliego.
En su metrónomo
caprichoso y fugaz
despliega el universo sus fantasmagorías
—su verdad.
No hay traducción posible.
—o sí la hay:
de lo uno a sí mismo,
de lo uno a aquello que tantea y vence
de lo que sabe de sí
—su pobre imperio.
El poema, digo,
digo la música, digo el movimiento
de la danza en el cuerpo, el de la piedra esculpida…
Y la música en el trazo y en la piedra, digo,
y el movimiento sinuoso y firme del poema,
docta cadencia, felicísima caída en el cruce
de todos los sentidos.
***
XX
Queda não houve.
O alto está aqui. É aqui.
Dentro.
Queda não houve.
Distrações há. Ventos. Fugas.
Maquinárias. Grandes, grandes.
Jogos de sombra, preocupação e olvido. De si.
Sempre houve.
Cada época. Cada
civilização
retratada em sua própria engrenagem
de humilhações e esquecimento. De si.
Roubar o fogo não é roubar nem é fogo.
Recordar é remontar-se, preservar para si o acesso
ao resplandor custodiado por
—não seus guardiães, mas seus inimigos.
Vertedouro de sombra e sangue.
Quanto maior pobreza, mais esquecimento.
Quanto mais prepotência, menos luz.
Em si e fora de si
—tudo é um—
única morada de pura geometria
e luz regendo
mansa, inexoravelmente, generosa-
mente banhando
tudo de si.
Luz estético-ética.
Esquecida de si —entregue.
Fórmula-Mãe.
E ainda há Algo. Algo, fora
que não se pensa.
Outro tom. Outra
modulação da luz.
Lá na origem.
XX
Caída no hubo.
Lo alto está aquí. Es aquí.
Adentro.
Caída no hubo.
Distracciones hay. Vientos. Fugas.
Maquinarias. Grandes, grandes.
Juegos de sombra, preocupación y olvido. De sí.
Siempre los hubo..
Cada época. Cada
civilización
retratada en su propio engranaje
de humillaciones y olvido. De sí.
Robar el fuego no es robar ni es fuego.
Recordar es remontarse, preservar para sí el acceso
al resplandor custodiado por
—no sus guardianes, sino sus enemigos.
Vertedero de sombra y sangre.
Cuanto mayor pobreza, más olvido.
Cuanta más prepotencia, menos luz.
En sí y fuera de sí
—todo es uno—
sola morada de pura geometría
y luz rigiendo
mansa, inexorablemente, generosa-
mente bañando
todo de sí.
Luz estético-ética.
Olvidada de sí —entregada.
Fórmula-Madre.
Y aún hay Algo. Algo, fuera
que no se piensa.
Otro tono. Otra
modulación de la luz.
Allá en origen.
***
XVII
Além dos ventos
rumorosos
além da aurora
transitam
dispersos
retalhos de uma história
—centelhas
resplendores—
arrancada do vazio
(a sua voz
a sua mudez)
enlaça-os
uma mão mestra
ou a história
em si
impõe seu ostinato
*
De um modo ou de outro
depois da alvorada
ou
dos rumores do vento
amanhece
—diáfano
leve
pertinaz—
um sujeito e seu verbo
XVII
Más allá de los vientos
rumorosos
más allá de la aurora
transitan
dispersos
jirones de una historia
—destellos
resplandores—
arrancada al vacío
(a su voz
a su mudez)
los hila
una mano maestra
o la historia
en sí
impone su ostinato
*
De un modo u otro
tras el alba
o
los rumores del viento
amanece
—diáfano
leve
pertinaz—
un sujeto y su verbo
***
XVIII
vasilhas do nada
somos
—disse—
derramando-se
no escuro
bexigas do nada
derramando
—disse—
urinas, óxidos, rubis
centelhas
—disse—
que na sua queda
(nossa)
encontram
sua hybris
sua obsessão
anil dignificado
somos
—disse—
pelo alado
voo da alma
entre ser e não ser
XVIII
vasijas de la nada
somos
—dijo—
derramándose
en lo oscuro
vejigas de la nada
derramando
—dijo—
orines, óxidos, rubíes
centellas
—dijo—
que en su caída
(nuestra)
encuentran
su hybris
su obsesión
añil dignificado
somos
—dijo—
por el alado
vuelo del alma
entre ser y no ser
***
XIX
um fim, uma forma, uma queda
uma espera obediente
uma ferida
a brancura bordada sobre o branco
e a matéria muda
atrapada e derramada
suspensa
na tela
áspera
vibrante opacidade que circunda, cega,
a história cega que ampara
o território
e os nomes enterrados
flamejantes ainda
como archote
projetando sua sombra sobre este
tórpido feroz
certeiro
irrenunciável
aqui e agora
XIX
un fin, una forma, una caída
una espera obsecuente
una herida
la blancura bordada sobre el blanco
y la materia muda
asida y derramada
suspendida
en el lienzo
áspero
vibrante opacidad que ciñe, ciega,
la historia ciega que cobija
el territorio
y los nombres enterrados
llameantes aún
como candelas
proyectando su sombra sobre este
tórpido feroz
certero
irrenunciable
aquí y ahora
* Poemas dos livros Las linternas flotantes e Vislumbres (Madrid/México, Vaso Roto, 2014)
Mercedes Roffé é uma das vozes mais reconhecidas da poesia latino-americana atual. Alguns de seus livros foram traduzidos e publicados na Itália, Quebec, Romênia, Inglaterra, França e Estados Unidos. Desde 1988, dirige o selo Edições Pen Press. Obteve as bolsas artísticas John Simon Guggenheim (2001) e Civitella Ranieri (2012).
Diana Araujo Pereira é Professora de Literatura Latino-Americana da Universidade Federal da Integração Latino-Americana. Doutora em Literaturas Hispânicas (UFRJ). É tradutora e poeta. Foi Presidenta da Associação Brasileira de Hispanistas (2014-2016), Coordenadora do Instituto Mercosul de Estudos Avançados – IMEA-UNILA e Coordenadora do Curso Letras, Artes e Mediação Cultural do Instituto Latino-Americano de Arte, Cultura e História (ILAACH-UNILA). É líder do grupo de pesquisa " Construções socioculturais da Tríplice Fronteira". Entre suas publicações, estão Horizontes Partidos (NY: Artepoética Press, 2016) e La piel de los caminos y otros poemas (Bogotá: Biblioteca Libanense de Cultura, 2017).
Aprende novos truques. O ritual do
chá, o ikebana. Pratica o silêncio.
Prepara o ofurô, espalha as pétalas,
veste um quimono. Observa como
a gueixa massageia o mestre. Como
ele rende-se, relaxado, à pressão
dos dedos. É um domínio a entrega.
O guerreiro repousa, e escala o monte Fuji.
Akira nas Alturas. Arqueira das artes do tatame.
***
Jogam sobre ti uma névoa.
Dissuadem, maquiam. Mas são
como marionetes de ambições
e fetiches estranhos. Qualquer
desculpa serve a um tirano.
Porém não sabem dos porões
onde estiveste, e de como fugiste,
condessa-menina, com o íntimo
Intacto e os pés alvíssimos.
***
Para bunny rope não nasci, mas se
quiseres, suspendo-te de bom grado
num shibari. Serei tua rigger. Tenho
prática, minhas cordas são de seda.
Prazer igual nunca tiveste. Tantas
submissas no mundo, e encontras
uma dominante, não é sorte? Pois
hoje eu irei polir meu látex. Visto-me
de ringmaster e conduzo a cerimônia.
***
Fingir não perceber o corte, o talho nas costas, o mesquinho gesto. Há silêncios violentos, mais sinceros que sorrisos falsos. Há adiamentos. Há esquecimentos. Aperta o corpete para proteger-te. Endurece. A era é medieval.
***
Pois espreitava seus escritos para debochá-los, com ar de soberana.
Despudorada, sua íntima armadura camuflava uma cínica solidão.
Natasha Lins nasceu em Curitiba, cursou Letras, e vive há muitos anos na Europa. Trabalha com turismo. Vive entre o Algarve e a Sícilia. É inédita em livro.
Inútil
inútil o gesto o plexo o beijo
inútil o desejo e o não-desejo ………………….[igualmente
Inútil inútil o salto e a pausa
Inútil a mão no ombro alheio …………………………. [e próprio
Inútil soberanamente inútil
o gesto o plexo o beijo
nas campinas afiadas de verde
nas geometrias escuras da mente
e essa vontade de amar.
***
o amado que toca os pulsos mornos
de seu amado
e o braço e as mãos
tremulargênteas
e o rosto toca e o sexo
quente e afiado
o amado que toca os pulsos mornos
de seu amado
e sabe de repente o que é um ensolarado riso e
a noite antiquíssima que o olha
de volta.
***
PRIMEIRO
O toque mesmo nas coisas
para lembrar as mãos da
arquitetura limpa daquilo
que o mundo gestou.
A mão limpa, cartesiana, reta
pelas coisas
para tirar o pó sobre os nomes
sol, xícara, casca, ladrilho, pêssego, miséria
e tocar outra vez
como no Dia Primeiro
algo dos nomes
que vibre.
***
CANTO DE DISSOLUÇÃO
Sepultadas no tempo
deitam-se as coisas todas,
que já nem coisas são,
mas memória de coisas.
Sepultados no tempo
afundam-se os rostos
todos, ou quase todos,
e as datas, risos, gostos.
Sepultadas no tempo
jazem as nossas vidas,
num tempo em que não são
nem gozo nem ferida.
Sepultados, enfim,
no tempo, todos nós.
Onde não há nem feito,
nem pessoa, nem voz.
***
CANTO APAZIGUADO
O que sobra das mãos são as sombras de gestos
que, já feitos, nos jazem nas mãos sepultados.
O que sobra de olhares: o breve relance
que, de breve, se perde entre o feito e o lembrado.
O que resta de risos são luzes de dentes
entrevistos por entre a cortina do lábio.
O que resta da vida é a vida que fica
e ficando é que parte ao eterno adiado.
***
POEMA EXTREMO
Pega na mão a pedra
pega na mão a cadeira
pega na mão o pão
mesa escada copo d’água
pega
puxa pro lado ………………………..e descobre ali
a poesia.
Matheus Guménin Barreto (1992) é um poeta e tradutor brasileiro. Nascido em Cuiabá, é doutorando da USP. Estudou também na Universität Heidelberg. Traduziu Bertolt Brecht e Ingeborg Bachmann. É autor dos livros de poemas “A máquina de carregar nadas” (2017, 7Letras) e “Poemas em torno do chão & Primeiros poemas” (2018, Carlini & Caniato, no prelo). Foi publicado no Brasil e em Portugal (Escamandro, plaquete do “Vozes, Versos”, Enfermaria 6, Revista Escriva e Diário de Cuiabá; entre outros). É um dos editores do site cultural mato-grossense Ruído Manifesto e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne.
As andorinhas existem!
Saíram das páginas do livro
E resolveram viver
Nas alvenarias
Do invisível.
Mas a tua ausência dentro de mim é puríssima dor.
Não há voo que dissipe minha esperança.
Nem vento, nem rosa, nem crença
Que suavize a melancolia parasita nos ossos.
Alheios desejos nos levaram
Para ilhas opostas:
Tu foste para Creta.
Eu, para o Crato.
E do anonimato dos dias
Tenho feito poesia secreta
E prosadura.
***
CÂNHAMO
O tempo envelhece o telhado
E desola os meus ovários.
Teço cânhamo em São Luís.
Teço o dia inteiro,
Teço a noite inteira,
Teço em todas as horas do meu dia
O tecido que não vestirei.
Invado rios em busca
Das dunas e me acanho diante
Do teu nome de assombros
Diante da tua boca de veleiros
Que não me deixa falar
Diante da tua presença
Que não me deixa existir.
Minha terra tem buritis
E no meu coração
Há um curso de cicios silenciados.
Discursos emudecidos.
Há emaranhados de maranhões em mim.
***
LANGOR
Há sol demais na paisagem.
Moinhos de vento
Atormentam meu dia.
O casario recolheu o rutilar
Da minha vontade,
E eu, à sombra, deitei minha vocação
De campesina.
Minha boca pede água,
Somente meus pés pedem língua.
Tenho cansaço nas veias
De tanto deixar tecidos
Soltos no caminho.
Pescoço dança violoncelo,
Cintura requebra em violinos,
O meu vagar já é tão certo
Quanto a infelicidade dos dezembros.
Vem! Rega meu baixo ventre
Com aquilo que, em ti, é abundância.
Mas não venhas com esperas!
Estou mole, mole.
Quero abrir-me as pernas ao vento.
***
RECEPTÁCULO DA BONDADE
A minha infelicidade vem da tua casa à beira-mar
Vendo-me correr o meu vagar pela praia.
Sei da tua ausência pelo cheiro,
Pela falta de vida nas ondas.
Eu, cega em antigas saídas da alma,
Não quero meus textos frouxos na tua película
De vinhática virilidade servil.
Tampouco quero o teu francês na minha língua,
Tramando aturdimentos.
Não quero a tua delicadeza fingida
Dedilhando minha vagina expressionista.
Bem certa estou de que tu és
O delator dos meus delitos.
Não quero o teu anel roçando
O meu desejo lírico com promessas,
Nem profecias proféticas
De outra vez amar,
Amar o mar da nossa terra.
Não quero meu livro de versos íntimos
Entre teus dedos,
Imunes à eternidade das ostras negras,
E aos lírios lilases do meu quintal.
Nem quero saber dos teus dias de suntuosidade,
Durante a minha ausência paladina.
Sou a mulher por quem a tua esfinge procura
Nos pesadelos cheios de gozo e fortuna de afeto.
Sou toda brusquidão e rudezas de amor,
E rezo por nós dois à toa, sem estações,
Sem toadas nem eras, nem bolos de carimã.
Quero pousar no teu dia vez ou outra
Para assoprar tua gravata,
E desatar os nós do teu sapato lustroso.
És bárbaro,
Na arrogância dos diamantes
Que escapam do teu palato duro.
Deixa-me dormir em paz!
Sem que interrompas o meu sono
De exaustão operária.
Dez horas depois,
Está a acariciar meu sono de menina eterna,
Ao som da tua desgraça de poeta sem portas,
Sem machados nem cancelas.
Quero ofertar minhas soluções e meus soluços
À face do que em ti é Absoluto e é Eterno.
À face do que em ti é Amatividade e Amavios.
Apesar das derrocadas, das implosões,
E dos mistérios escolásticos da penitência.
Quero, hoje, ter saudade de qualquer vertigem
Que tenha sido nossa,
Qualquer ilusão
Que tenha saído da tua honradez absoluta
De macho curioso por meu mutismo.
O meu pai morreu sem te ter à mesa
Ofertando ao velho a minha condição de ser tua,
E de querer de mim o meu grande ventre
De mulher bem parideira e fazedora de sonhos.
Deixa-me dormir nas calçadas,
Sem teu ódio vencido
De macho traído
Mil vezes por esta fêmea que te adora.
E que por isso busca em teus pares
Relíquias do teu cheiro.
Busca em teus pares a tua pele nobre de rei etíope.
Busca, na verve dos teus discípulos,
Vestígios de tua fome sobre o meu corpo exausto.
Por isso, busco nos teus consanguíneos
Alguma razão para o caos da tua inapetência
Diante dos meus propósitos de mulher.
Eu, este receptáculo da Bondade.
***
BÊNÇÃO
Apeio o peito sobre a saudade que arde a carne,
Sem consolo possível no solo das desesperanças.
Herdei de meu pai pujanças, bravezas,
E de minha mãe a fragilidade animal das fêmeas.
Por isso tenho tudo!
Posso despregar o afeto como macho cansado faz,
Posso abandonar as armas, trêmula, porque morro.
Tenho grandes, pequenos e verdes medos,
Sou mulher de agora, de hoje,
Tenho hábitos de galo e caprichos de galinha.
Falta o dicionário farto em suas doações doces de fonemas,
De raízes, arcaicas presenças de verbo.
Doarei o dia à paz, ao abandono das preocupações.
Tratarei da poesia, minha parceira de demolições e alvenarias.
Quem me dera só ser, sem bruscas mutações,
Mas o corpo oscila na regularidade do ciclo.
Endoideço alguns dias porque virá a sangria
E entrarei no templo das penitências,
Fitando meu Deus com acusações humanas.
Sou esse fruto peco das diásporas,
Minha veemência é minha mordaça,
Assim têm sido meus dias de santa, casta, pacata,
Senhora de um Deus-homem.
Desacato porque sorvo substantivos, substâncias,
Essências de nomes, dores, fantasias.
Desacato porque sou poeta.
Tenho língua de fontelas, hildas.
Sou muito brava para donos
E afeita a clamores de desprotegidos.
Tenho tudo sob meu viaduto-castelo.
Sou rata e rainha.
***
LIVRO
Lanço-te, marujo!
Urge o arremesso do desbravamento,
O amansar da fúria contida nos dicionários.
Estende o teu olhar pras gentes e vê o que querem.
Vê o paladar apurado do povo,
Agita os braços ante o infante de leituras.
Dou-te todo o meu mar salgado,
Minhas mulheres que choram e riem alto,
Minhas noivas dispostas ao divórcio das prendas,
Arquétipos da minha avó cabocla.
Vai, marujo!
Arrisca teu perfil às tintas, ao incesto das editoras,
Aos naufrágios à beira da porta,
Aos críticos que rasgarão teu ofício de dias.
Vai, portuoso!
Beija na boca todas as mulheres que querem teu beijo,
Todos os homens dispostos ao risco,
Abre teu pórtico de páginas aos servos, aos escravos,
Aos que vivem sob vigências de feudos modernos.
Vai, marujo! Gruda nas casas novo ato de liberdade,
Conspira com os nossos,
E toma da noite sua embriaguez,
Sua inspirada subversão de Musa.
Vai, marujo!
Lança-te ao Mar com tudo que nele há
De Pessoa, de Neruda, de Carlos, de Adélia,
De Cora, de Bandeira, de Clarice, de Lorca.
Vai! E afoga meus navios velhos, viola minhas certezas,
Viola minhas mentiras, meus fingimentos de Poeta,
Viola minha caixa de Pandora,
Meu anonimato, meu suicídio diário,
Minha textura de negra, minha candura de puta.
Vai! Antes que eu me lance sem âncoras,
Pois que deixo velas, remos e medos muitos.
Rita Santana é atriz, escritora e professora de Língua Portuguesa na Rede Estadual de Educação do Estado da Bahia. Em 2004, foi uma das premiadas no Braskem de Cultura e Arte para autores inéditos com o livro de contos Tramela. Logo depois, o seu livro Tratado das Veias (poesia) foi publicado pelo extinto selo Letras da Bahia, em 2006. A Editus publicaria o seu Alforrias (poesia) em 2012. Participa da antologia Outro Livro da Estante organizada por Herculano Neto e publicada pela Mondrongo em 2015, com o conto Ondas, Trânsitos e Trilhos, além de ter o seu poema Adusto publicado na revista organismo, projeto do Editor Jorge Augusto, organizada por Ederval Fernandes e Alex Simões.
Cordas no grito da chave
que o corpo que nada
sabe do pulso que pulsa
e que passa
Deixa o brilho do canto
que a gente grita
suaviza a corda
que não mata
Belezas não se acalmam.
Verdades são caladas.
***
O amor ri das glórias e dos insones.
Multiplica o tempo,
abre as portas,
brinca de esconder-se
em altas horas.
O amor gargalha,
estanca as mágoas.
***
Quem quer viver faz mágica
Levanta mortos, junta luz
Lambe corpos, lambe escrita
Devora anjos, perdoa lobos.
Nas labaredas do intenso
Nas cadeias do gozo.
***
SOPHIA
Ela vai deixar os cabelos brancos, brancos
vai se deixar
estriar, enrugar, desbotar
Vai deixar a pele sinalizar
pontos, peitos, prantos
Vai cansar
vai deitar
vai deixar
Deus falar.
***
ORAÇÃO
É vício a palavra
com que falas
de crueldades
delicadezas
É vício a palavra
no meu corpo
minha escrita
que não te rouba
É vício a palavra
com que calas
no meu invento
minhas feridas
É vício que eu volte sempre
De delicadezas
Crueldades
É vício, amor
“Deuses só comem palavras”.
***
PRIMEIRO PASSO
Caminhei, caminhei, caminhei
mudei os móveis de lugar
sem pedir conselhos
eu mesma cortei
unhas e cabelos
e as cortinas
eu mesma pintei
a casa de branco
e as unhas de vermelho
tudo para afogar
tuas iniciais
nos meus lençóis tão brancos
tuas iniciais
sibilantes e serpentinas
no meu sacrossanto peito.
E perdoei.
Ana Paula Olivier nasceu em Natal (RN) em 1971 e está radicada em São Paulo (SP) há dezesseis anos. É licenciada em Letras pela Universidade Potiguar (UNP-RN) e é mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC (SP). Também é atriz e escritora, com diversos prêmios literários e participação em antologias poéticas publicadas no Brasil. Atualmente é professora de ensino superior (Literatura Portuguesa, Literatura Brasileira, Produção Textual e Formação de Leitores – Letras e Pedagogia) e doutoranda em Ciências Sociais pela PUC (SP). “Infinito sobre o peito” é o seu primeiro livro de poesia.
realidade virtual
que desvirtua
o real
– e que o expõe, também
associal, em rede,
o ódio é mais forte
***
falta
antes Niemeyer tivesse projetado a moral de Brasília.
nem em seu maior devaneio faria linhas tão curvas,
nenhum lápis teria grafite mais sujo,
nenhuma tinta seria mais permanente,
nenhum concreto, mais duro.
faltam os traços de Niemeyer nos homens,
faltam o sonho, a dedicação e o outro.
falta sempre alguma coisa,
dinheiro sempre dizem que falta.
ou falta no orçamento,
ou falta no bolso.
e como faz falta.
antes Niemeyer soubesse que projetava uma pocilga,
evitando, eu, falar promiscuidade,
e teria, ele, projetado pastos,
baias mais adequadas,
confinamento, e abatedouro.
***
nas malvinas
no peito da feira
lateja uma chaga purulenta
crianças vendem sonhos e infância,
pessoas vagam desalmadas
entre crimes e monturos
a lama – mistura de chuva, chorume e reuma
e salmoura das carnes e peixes –
que banha os pés dos ambulantes absortos
é o icor que escorre daquele lugar
o negócio é tão grave
que o piso tremula de frio e pavor
e da cobertura vazam suor e lágrima
***
dobraduras
barcos de papel viajam
nos rios intermitentes das sarjetas
com sonhos escritos nos costados
ágeis, no talvegue,
entre ondas do curso irregular de raso álveo,
ignoram que a esquina encerra
o sumidouro de tudo que navega
– barco, sonho, água e terra
***
o preço fora do mercado
30 mil reais.
esse foi o preço que o judiciário deu à minha perna.
ela, que foi boa, levou-me por aí,
pedalou bicicleta e fez tantos gols
ela, que saltou a poça naquele dia chuvoso,
esforçou-se pela minha saúde
e bailou com a pessoa
por quem eu me apaixonaria
ela, que foi má, provocou pênalti no futebol,
dilacerou o bicho e machucou outras pessoas.
30 mil reais.
esse foi o preço que o judiciário deu à minha perna.
ela, que me faltou no dia da audiência
para vencer os obstáculos do fórum,
e continua me faltando na hora do banho,
do café e do trabalho…
30 mil reais.
esse foi o preço que o judiciário deu à minha perna.
ainda tenho esperança de ter perna de novo.
não sou um louco que espera que ela cresça como rabo de
[lagartixa.
tenho esperança de um dia ter dinheiro para comprar uma
[perna mecânica, isso sim.
e, se o desenvolvimento da medicina seguir bem,
ainda verei pernas naturais serem implantadas com
[sucesso.
nesse dia, perguntarei ao juiz se ele me vende a dele.
Geraldo Lavigne de Lemos é graduado em Direito (UESC), especialista em Direito Notarial e Registral (Anhaguera/Uniderp) e em Gestão Pública (UESC) e mestre em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente (UESC). Membro da Academia de Letras de Ilhéus, autor dos livros À Espera do Verão (2011), amenidades (2014), alguma sinceridade (2014) e Massapê: Solo de Poesia (2016), todos de poesia e pela Editora Mondrongo. Tem no prelo o livro Poemas furta-cores, pela Editus – Editora da UESC. Foi curador do II Festival Literário de Ilhéus.
o animal em mim
morto
fede
mas não abandona o corpo
que segue
ereto
na medida do orgulho
os pés
cansados
fingem
uma humanidade
desmedida
enquanto
a cabeça
molde perfeito
sorri
do inferno
que a sustenta
***
desassossego
se desperto, ânsia
clarão desassossego
luz que entra
devora-me/ devoro-a
anseio o fim
canção diária chamada desejo
martelando os dias
um turbilhão
arrasta-me para longe
ainda estou dentro de mim
***
construção
demoliram a casa:
desenho tristezas nos escombros memorialísticos,
[minha obra humana]
pés cansados percorrem o terreno,
já não são os mesmos,
incharam.
os sapatos apertam,
estão vivos,
caminham sem mim,
bailam com o passado,
[enquanto me enchem de calos perversos]
não poderei usá-los no futuro…
***
tempo
a velha cicatriz ainda coça
compete com a novíssima
[duas semanas de vida]
uma,
nas mãos [infância]
outra,
no joelho [adulta]
um corpo
qual coçar primeiro?
***
moinho
verto poemas esquizofrênicos
enquanto vomito saudade
tenho medo da perda
lambo o chão
já não sou eu
não sei quem sou
[ele disse: “um dia de cada vez”]
um enorme espaço de tempo
separou o abraço
solidão a dois é mais latente
tritura
tudo
***
leitura
não encontro no teu rosto o que preciso,
teus olhos incolores filtram o brilho dos meus,
teu cansaço diário pesa em mim,
a força que destina ao tédio me abala.
não encontro em tua atenção um espaço,
espaço confortável com móveis audíveis,
a negritude dos teus cômodos tira minha visão.
abro as janelas, a luz do sol se afasta,
num movimento de estar sem estar,
brinca de esconde-esconde.
a procura é infinita,
perdi-me em tua vida.
isto não é poético,
apenas uma prisão em forma de poema,
prisão-lar.
Renata Ferreira nasceu e vive em Duque de Caxias(RJ). Formou-se em Letras pela UERJ— onde cursa jornalismo—, e é mestranda em Estudos de literatura pela UFF. Prepara seu primeiro livro, “Clarão Desassossego”.