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125ª Leva - 03/2018 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Carolina Spyer

 

Ilustração: Sadrie

 

Nota sobre uma curva

 

Meus olhos já tão miúdos quanto os seus
imersos nessa cidade de gestos
tão
inusitados

Eu desenhei olhos de ar no papel
extasiada

O ar nu como eu
tão exposto
tão
alterado

Eles picotaram o ar pelo papel dos olhos
deixaram-me o vácuo
deitado minúsculo sobre meu colo
insistente
tão desfeito quanto eu

 

 

 

***

 

 

 

Terroso o seu corpo

 

insistente matéria atravessada no estômago
prepotente que revolve seu cabelo
branco como que autorizado a triturar
seus fios para impor seus vinte mil hectares
de canaviais ou mais fazendo seguir a gentileza
da proposta para que seja uma entre seus quinhentos
funcionários ou mais a esquecer seu pé de jabuticaba
farto como se não houvesse as vozes incrustadas
as vozes do saco barreiro cantando no barro
tóxico alastrando seu tronco no chão

 

 

 

***

 

 

 

Enquanto falávamos de ritmo

 

Éramos três músicas
à trinta minutos de distância
das mesas eu e você
três constrangidas
por linhas e figuras
ignorando as buzinas as mesas eu e você
éramos três músicas mortas
pouco displicentes
porque fenecidas
éramos três dobradas
no tanto de corpo que se tinha
descartadas sem que notássemos
três coisas
pairando
sobre o chão

 

 

 

***

 

 

 

O banho era diário

 

Minhas pernas se encolhem logo de manhã
eram talvez 7 tons de xixi e variadas combinações de cor coágulo e mais
eu apurei 37 graus morre de frio moradora de rua na zona leste

são quem sabe 2 de minhas saídas
quem sabe todas elas ideais
desde tão cedo acordada Fernanda

levou um tiro no peito enquanto dormia sob uma marquise na zona sul
ninguém cuidou da cor e da temperatura dos dias sob o teto infiltrado
de registros e pedaços de pele

e coágulos em fluxos variados logo antes da manhã começar
na zona norte enquanto moradora de rua de 22 anos é atacada
a golpes de gargalo de garrafa toda cheia de mucosa ureia

e água que não cessam de esguichar
enquanto apoio meus pés na parede do banheiro
enquanto cuido de tentar manter meus pés apoiados

os nervos e músculos intrauterinos comprimidos
chorando pelos rins bato na minha barriga
de fluidos na zona oeste

 

 

 

***

 

 

 

O encontro

 

Nós dois um cardápio tímido e a mesa
dispondo nossos cotovelos as sombras
as perspectivas o ritmo da conversa
a abrangência da nossa visão a estética
do tempo cruzando a mesa parada
toda parada enquanto organiza
discretamente
nossa noite que passa

 

 

 

***

 

 

 

Solos cobertos de giros

 

I

Perde a cabeça no ombro
A mão na testa
O umbigo no dedo
O chão na goela
Faz caminho cruzado
Coloca pé com pé
Mede tamanho de tempo
Lambe intervalo do peito
Tosse em silêncio
Abre de mão dada
Bunda com bunda
Enquanto ficaram os olhos alagados

 

II

Corre dedo na rua pra conhecer o maciço do chão
Atravessa pedra, ponte, peito
Hoje é quinta feira
Percorre túneis sondando seus círculos intermináveis
Olha curto, curso
Hoje é quinta feira
Rastreia linhas topográficas
Toca
Finge rosto desforme curvando pescoço
Se lambe imensa
Lado, lastro
Lapso
Ela nunca pensou em atravessar essa via à noite
Hoje ainda é quinta feira

 

III

Roda céu: então chora (então escapa)
Tanto se pôs à superfície que agora é quase toda língua
Quase toda anel viscoso dela mesma
Rasteja à revelia do corpo
Com seu corpo

 

IV

Sensível às vibrações exteriores
Reajo entre expansões e contrações
Escavo galerias e canais
Me alimento de detritos de diversas origens
Enquanto constantemente excreto terra
Já não tenho pulmão
E me regenero

 

Carolina Spyer nasceu e vive em Belo Horizonte, Brasil. Possui graduação em Direito pela PUCMINAS e mestrado em Filosofia do Direito pela UFMG. É poeta, publicou “vrás” pelo Selo Leme (Editora Impressões de Minas, 2016) e tem poemas publicados em revistas virtuais.

 

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125ª Leva - 03/2018 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Leonardo Bachiega

 

Ilustração: Sadrie

 

construção geométrica

 

resistência
garante o povo
o que a imaginação entrega
ao ventre
depois de atirarem
a pedra
não é a dor
que se vê
mas os círculos
se
ampliarem
no meio
do
riacho

 

 

 

***

 

 

a poeira fragmenta a água

 

o primeiro desafio inclinar a cidade
uma chaminé perfura a casa como a consoante
de um coração que sabe os homens bons
são feitos de pólens
e as bordas ficam mais lentas com
as passarelas de mão
algum limbo decifrou o canto do sol
e as tristezas de uma cesta de cordão
que guarda os ossos da fala
dizendo é mais difícil desfiar
as relações dos homens

 

 

 

***

 

 

você ainda não leu os ossos

 

o chão é sério
formigas rasuram de tanto trabalhar
a cortina parece um fole
se o ar tem uma caixa harmônica
e um tórax
se você desalinhar a métrica
você diminuirá a saudade

 

 

 

***

 

 

 

o primeiro poeta disse não

 

não é de causar estranhamento
ou erosão nos olhos
ou febre no caviar das mãos
a oscilação das calçadas
desde sempre
a poesia foi apenas parte
de uma linguagem cotidiana
mas ela sabe de cor tudo
que existe dentro
isso porque ela diz uma coisa
e faz outra

 

 

 

***

 

 

 

auto relevo

 

entortei um dialeto engenhosamente
de muito inventar máquinas de fazer
planícies e calmarias
entulho suplicando entulho
conduz a água
esfarinhei tantos dedos
e os rochedos são as cartas do tempo
injetei desespero na veia
de uma sujeira cavando uma vala
que uma quase infância
descia a uma depressão

 

 

 

***

 

 

 

as lições das margens

 

não é fácil compreender a pedra
só os rios o fazem e quando
nasce de uma cidade
esquecer músicas quase
nas cidades areias
onde amar é uma pesquisa
arqueológica

 

Leonardo Bachiega é poeta, arquiteto e urbanista, pós – graduado em Barcelona. Nasceu em 1980 na cidade de São Paulo – Brasil, onde mora hoje, é autor de “Poema Número Um” (Chiado Ed. 2016), seu livro de estreia, também publicado em Portugal. O seu segundo livro “A cidade desabotoada”, está previsto para 2018. Tem poemas publicados nas revistas InComunidade e Literatura e Fechadura.

 

 

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124ª Leva - 02/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Luiz Frazon

 

Foto: Tati Motta

 

ARCHYTAS OF TARENTUM

 

O que sabemos
de nós mesmos
é um pouco mais
do que uma chave de fenda sabe
sobre um parafuso:
é um jeito abissal
de enroscar o mundo
e prendê-lo, firme.
Um íntimo conhecer, profundo,
do seu nome ferroso,
a matéria que se abraça.
É lançar-se adentro
e entretecer o aço
sob pressão
da mão alheia.

 

 

 

***

 

 

 

COSTURA

 

“Quanto mais eu, que nu nasci, me encontro nu:
nem perco e nem ganho.”
Cervantes

 

Guardo com zelo,
numa das gavetas de minhas vísceras,
a primeira roupa que vesti.

Era eu, não muito mais
que um nome
e um mosto de minha mãe e de meu pai.

A roupa trançava seu algodão no meu torço,
tecia-me uma língua,
aquecia-me um gesto,
e enxugava todos os choros
do resto de minha vida.

 

 

 

***

 

 

 

ITINERÁRIO ESTILETE

 

Num vão de tempo,
esquecida
e prenha
de sabores salinais,
a lágrima
é a cicatriz solúvel,
iluminada,
pública,
engasgada
no caminho
de um ismo choro.
Agora,
outra percorre uma vereda
já de antes desbravada:
um rastejo cítrico
no encalço da benção.
Em dorso derme
no rodapé da folha-face
a cópula:
fusão de gotas
atemporais.

 

 

 

 

***

 

 

 

 

COMEDOURO

“Mourão, mourão
Tome teu dente podre
Dá cá meu são.”
parlenda de autor desconhecido

 

barganhamos com nossos nomes
a imagem
do que esperamos ser

no entanto, à conta-gotas,
somos traídos

o nome é a palavra que nos come

 

 

 

***

 

 

 

ESTATUTÁRIO

“Olha tua obra.
Olha a obra que é tua por ser feita à tua revelia.”
Rodrigo Petrônio

 

Seguramos o sol
com força, na unha.
Não lhe damos folga abonada,
nem licença ou férias;
não lhe permitimos atestar
doença ou praga
na pele do seu nome de luz.
Queremos o sol
analfabeto em Marx,
quase escravo.
E são poucos os que o imaginam
rebelado,
vigorando seu ardor
e retorcendo a madrugada.
Forjando no fogo
imagem lúdica da meia-noite.

 

 

 

***

 

 

 

POEMA PARA HEIDEGGER CORRIGIR

 

“Flerto com o mundo enquanto o calunio”
Victória Monteiro

 

Chove lá fora,
no entanto, uma janela, com laivos de vidro,
e estigmas de aço,
lacra meu corpo
para o mundo.

Desejo arremessar minha consciência
o mais longe que posso.
Na chuva, ela ensopa-se de rios selvagens nas ruas
e empossa águas de outro continente
em seu quintal.

Se depois procura abrigo
se saltita pelas poças, encharcada e com medo
se adentra à primeira embarcação, plausível
não me convém espionar.

 

Luiz Frazon é Educador Social na cidade de Ribeirão Preto, SP. Cursou letras, apesar de não concluir o curso e hoje faz bacharelado em Educação Física e Esporte pela USP. Coeditou o Zine “O circense” entre os anos de 2003 e 2007. Participou de algumas antologias poéticas, publicou seu primeiro livro de poemas, “Roçando água”, em 2009 e em outubro de 2017 seu segundo livro, O nome pela metade, pela Editora Patuá.

 

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Janela Poética IV

Flávia Péret

 

Foto: Tati Motta

 

Estudos para um acidente

 

Dentro das cobertas
do lado esquerdo da cama
quase encostado na parede
fria e branca
do nosso quarto de dormir
você escuta música com os fones de ouvido
que nunca me empresta
porque você acredita
que eu estrago suas coisas
mas você se esquece
enquanto escuta
esses compositores desconhecidos e obscuros
que quem quebra as xícaras
desta casa
é você

 

 

 

***

 

 

 

Manhã com nuvens

 

Acidentes acontecem diariamente
nos quartos e nas cozinhas
não apenas nas via de circulação
mas em espaços pequenos e áridos
ou naqueles fortemente irrigados
como as plantações de arroz
ou dentro das panelas onde cozinhamos feijão
numa manhã nublada de terça-feira
dia duro como um corpo com roupas

 

 

 

***

 

 

 

Cartilha-de-cura

(para Ana C.)

 

Eu queria que meu filho fosse mais livre
brincasse na chuva
como os indiozinhos que vi ontem à noite
naquele documentário na televisão
eu queria que a mãe do meu filho fosse mais livre
nunca desistisse de afundar navios
comesse um pouco mais devagar
desaprendesse a ler e a escrever
tocasse a vida
não com a cabeça ou com as palavras
escafandrista dos sentidos
obtusos, incertos, agitados
mas com as plantas dos pés
os olhos bem abertos
os dedos das mãos

 

 

 

***

 

 

 

Abrigo Nuclear

 

Um dia
eu quis
me separar

acordei
decidida
era de manhã cedo
a cidade ainda em silêncio

você
estava
na cozinha

fervia
água
para fazer
um chá

olhei para
os seus pés
descalços
sem meias
nem medo

sentei-me
ao seu lado
pedi
um beijo
tomamos
em silêncio
nosso chá

 

 

 

***

 

 

 

Ikebana

(Para Simone Brantes)

 

Quase todas as noites
antes de dormir
prometo que na manhã seguinte
ao me levantar
colocarei
sobre a mesa
não apenas as xícaras
mas tudo aquilo
que ficou por dizer
(as coisas difíceis, as coisas bonitas)
e meu cansaço
infinito
de repente se dissolverá
serei equilibrada como
certos arranjos de flores
audaciosa como as salamandras
pequenos bichos que mesmo arrastando-se
nunca fogem do fogo

 

Flávia Péret é escritora, faz livros e é professora de literatura e de escrita. Publicou: Imprensa Gay no Brasil (2011), 10 Poemas de Amor e de Susto (2013), Outra Noite (2014), Novelinha (2016) e Uma Mulher (2017). Em 2018, publicará pelo selo Leme (editora Impressões de Minas) a novela Os Patos. Vive e trabalha em Belo Horizonte.

 

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124ª Leva - 02/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Verónica Aranda*

 

Foto: Tati Motta

 

Tradução: Edson Oliveira
Revisão: Clarissa Macedo

 

Estrangeira

 

Tem dias que entro em uma confusão
precipitadamente, enquanto busco
o pulso da cidade, o mesmo pulso
do Cairo na hora marcada pelo muro
da cidadela ocre ou em um dezembro
na multidão de Nova Deli.

Busco avenidas com o cais ao fundo,
diante daqueles velhos armazéns
e casas de embarcações onde antigamente
se perdia, Biralbo, o pianista,
com o impulso quase policialesco
daquele que foge de um amor, e ao mesmo tempo,
deseja encontrá-lo em vielas
onde volateiam os pombos,
e não para de andar e se percebe
diante do Cais de Sodré que é um estrangeiro.

 

Extranjera

 

Hay días que me adentro en el bullicio
precipitadamente, mientras busco
el pulso a la ciudad, el mismo pulso
de El Cairo en la hora punta desde el muro
de la ocre ciudadela o de un diciembre
en la aglomeración de Nueva Delhi.

Busco avenidas con el muelle al fondo,
al pie de aquellos viejos almacenes,
y oficinas de barcos donde antaño
se perdía Biralbo, el pianista,
con el impulso casi policiaco
del que huye de un amor y, al mismo tiempo,
se lo quiere encontrar en callejones
donde revolotean las palomas,
y no para de andar y se da cuenta
frente al Cais do Sodré que es extranjero.

 

 

 

***

 

 

 

Armazéns Mouraria

 

Os comerciantes chineses embaralhavam as cartas
na conspiração de um filme noir.
Os golpes das fichas trouxeram a derrota
dos que jogaram numa cartada
o amor e a vida: dois de espadas.

Se afundaram para sempre os navios de pimenta.

 

Armazens Mouraria

 

Los comerciantes chinos barajaban los naipes
en la conspiración del cine negro.
Los golpes de las fichas trajeron la derrota
de los que se jugaron a una carta
el amor y la vida: dos de espadas.

Se hundieron para siempre las naves de pimienta.

 

 

 

***

 

 

 

Mirante de Santa Catarina

 

Eu nao sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.
MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Contam as velhas crônicas que outrora
o povo subia até aqui
para esperar os navios
e seu regresso incerto da rota
das especiarias e das tormentas,
até o alto onde se forjava
toda resignação, com a paciência
de argilas modeladas na sombra
das promessas junto às ermidas.

Hoje espero, não sei muito bem o que,
assomada ao contágio secular.
E os versos que leio
de Mário de Sá-Carneiro já anunciaram,
desde os botequins parisienses,
o tédio pós-moderno, a ressaca ilustrada
que flutua sobre o rio e os telhados.

 

Miradouro de Santa Catarina

 

Eu nao sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.
MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Cuentan las viejas crónicas que antaño
subía hasta aquí el pueblo
a esperar a las naves
y su regreso incierto de la ruta
de las especias y de las tormentas,
hasta este alto donde se forjaba
toda resignación, con la paciencia
de arcillas moldeadas a la sombra
de las promesas junto a las ermitas.

Hoy espero, no sé muy bien el qué,
asomada al contagio secular.
Y los versos que leo
de Mário Sá-Carneiro ya anunciaron,
desde los cafetines parisinos,
el tedio posmoderno, la resaca ilustrada
que flota sobre el río y los tejados.

 

 

 

***

 

 

 

Estação de Santa Apolônia (Alfama)

 

Desci em uma daquelas estações
onde ninguém pendura uma guirlanda
de cravos laranjas ao chegar.

E ao longe, a cidade que se iluminava
entre pontes metálicas e hotéis
com cheiro de toalha e salitre,
nessa hora precisa
em que os vendedores desaparecem
deixando unicamente amontoado
o milho e os restos da feira.

Então, nesse momento
na sala de espera repleta
de viajantes sentados sobre suas malas
tive a lucidez do desencontro.

Olhei para o azul celeste colonial
pintado nos muros, evocando
velhas cartas de amor escritas em La Habana.

 

Estação de Santa Apolonia (Alfama)

 

Bajé en una de aquellas estaciones
donde nadie te cuelga una guirnalda
de claveles naranjas al llegar.

Y fuera la ciudad, que se encendía
entre puentes metálicos y hoteles
con olor a toallas y salitre,
en esa hora precisa
en que los vendedores se diluyen
dejando únicamente amontonados
los restos de la feria y el maíz.

Entonces, sólo entonces,
en la sala de espera rebosante
de viajeros sentados en maletas
tuve la lucidez del desencuentro.

Miré el azul celeste colonial
que tenían los muros, evocando
viejas cartas de amor fechadas en La Habana.

 

 

 

***

 

 

 

Miradores

 

Os múltiplos Pessoas sugeriam
ir lê-los aos miradouros
diante do primeiro café contemplativo.

 

Miradores

 

Los múltiples Pessoas sugerían
ir a leerlos a los miradores
ante el primer café contemplativo.

 

 

 

***

 

 

 

Navegantes

 

As noites partiam, desdobradas
sobre os mapa-múndi do desejo,
aqueles em que tu marcavas
os países em forma de postais,
onde havia feito escala,
enquanto me perdia
por essas latitudes de teu corpo
que anunciam as ilhas e alcançava
o centro do teu peito
com instrumentos de navegação.

 

Navegantes

 

Se nos iban las noches, desplegadas
sobre los mapamundi del deseo,
aquellos donde te iba señalando
los países en forma de postales,
donde había hecho escala,
mientras me detenía
por esas latitudes de tu cuerpo
que anticipan las islas y alcanzaba
el centro de tu pecho
con instrumentos de navegación.

 

* Poemas do livro Alfama (Centro de Poesía José Hierro, Getafe, 2009)

 

Verónica Aranda nasceu em Madrid, Espanha. É licenciada em Filologia Hispânica e realizou estudos de doutorado em Nova Deli. Recebeu diversos prêmios de poesia, dentre eles o Miguel Hernández e o Ciudad de Salamanca. Publicou vários livros, como Poeta en India (Melibea, 2005), Alfama (Centro de poesía José Hierro, 2009), Postal de olvido (El Gaviero, 2010), Lluvias Continuas. Ciento un haikus (Polibea, 2014), Épica de raíles (Devenir, 2016) e Dibujar una isla (Reino de Cordelia, 2017). Também é tradutora.

 

Edson Oliveira da Silva é poeta, doutor em Teorias e Críticas da Literatura e da Cultura pela Universidade Federal da Bahia, em consórcio com a Universidade Autônoma de Barcelona. Atualmente é Professor Adjunto da Universidade Estadual de Feira de Santana, ministrando disciplinas na área de Literatura Espanhola e Literatura Latino-americana.

 

 

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Janela Poética I

Flavio Caamaña

 

Foto: Tati Motta

 

DIFERIR NA DURAÇÃO

 

o mar um dia me descobriu mas eu nunca descobri o mar
estávamos apartados por gírias por orçamentos
estávamos desunidos e desgrudados
éramos divididos por muros e fileiras
de campos minados e arames farpados
éramos dois desossados
esparadrapo sobre esparadrapo
eu e o mar

não havia sequelas visíveis não havia sístoles
não havia o amor amortecendo quedas
não havia sinais de trajetos ou de dejetos
no percurso de um alvo à salvo
dos atiradores de palavras
condicionados e incontinentes
treinados para enganar
treinados para fechar a geral

pode ser que um dia alguém conte essa história
e o mar desabe sobre as minhas costas
o mar sancionado e em estado de ressalva
o mar abraçado de burocracias
abocanhado até a ponta do último cais

e o mar nunca se descobre de igual pra igual
algo sempre se perde na hora da desova
algo de sobrenatural e aquela coisa e tal
eu e o mar aferidos na pressão
máquina contra carne
vontade sem vontade
verdade sem verdade
eu e o mar

 

 

 

***

 

 

SERVIL

 

se eu estou no fogo
e sou esta lenha

perdido no mato
um cachorro à solta

minha bagunça não cabe
nos bagulhos do doido

minha vida renega
o poema que afago

 

 

 

***

 

 

 

CURTO PRAZO

 

não é pela força que se mede um salto
cumpre-se a missão do corpo no espaço
desforram no ar as hélices parasitas
cumpre-se o que é dado e desmentido

não é pelo salto que se mede a força
o que perfura a sangue e violência
o que se desdobra de lúcida veemência
e um apurado silêncio de permuta

de tudo é a surpresa que se infiltra
de tudo a boca compra o alto risco
e a validade perde a justa forma
e a forma encontra um voo frágil

não é pelo voo que se traça um salto
e o leopardo morde-se na fissura
a mais primitiva forma de violência
os olhos não capturam na aterrisagem

 

 

 

***

 

 

 

PARTILHA

 

talvez ele seja abençoado por conhecer
a índole de seus carrascos/ talvez apenas
por falar uma língua e entender que quando
coçam os sacos não autorizam um perdão

que eu não consigo esquecer que ainda existe
o amor/ enxame de bolinações cravadas
que eu não consigo esquecer a luz acendendo
talvez ele seja abençoado por conhecer seus

carrascos/ trapos luxuosos beiços molhados
mendicantes de um beijo fuçando a garra
melindrosa de deus/ um feiticeiro e vidente

apunhalado pela lábia sapiente de odara ilê
pela caçada penitente/ um reles na trapaça
sua vida é um lamber de fogo esmaecendo

 

 

 

***

 

 

 

ORIDES

 

elevar o cavalo
a uma estatura
de ave

o tijolo
e o seu peso:
libélula

pelas rugas
fundas da face
florir a seda

os dedos
rígidos e murchos
despetalar

a beleza
atravessada:
espinho na cereja

 

 

 

***

 

 

 

DO QUE NÃO DISSE

 

 

arrependo-me das palavras que não disse
das latas que não senti o cheiro
da bebida diluindo-se nas poças de lama
aquecida pelo sol de sertões apodrecidos
na carcaça de secas esfomeando a rolinha
isso é alento isso é conversa
embrenhando-me no fumo amargo
de um amor letárgico
graveto no meio da sinuosa estrada
onde pneus sapeiam

goza se o veneno que vem do poema desvia-se da boca
e as palavras não sinalizam um retorno
nem despojo sei que cada frase não dita surrupia o ovo
de uma coisa que poderia ser grandiosa
e se recolheu num betume se esfarelou na estranheza
de antiquário e santo homem
de palavras eternas e perebas faltando
com a educação com o zelo cutâneo
pregado na apostasia

 

Flavio Caamaña é um trabalhador braçal e poeta nascido em Tamboril, desertão do Ceará. Atualmente residindo em Fortaleza, obteve primeiro lugar no XVI Prêmio Estadual Ideal Clube De Literatura, participou da coletânea “Golpe” e revistas eletrônicas. É autor de “Aquedutos” (Patuá, 2016).

 

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Janela Poética II

Isabela Rossi

 

Foto: Tati Motta

 

UM CANTO

 

dos pássaros
honradas todas as plumas
rimos com dentes de nada
próximos choramos
Grandes telas de cinema
estações de tratamento
As ratas de esgoto também não conhecem aberto
o céu
Toquemos pra elas, Viviane
Com as palavras no azul
o violão cello
em comum nós temos um coração
patas
e pêlos cheirando azedo
ou sangue
quando a chuva infiltra
palcos planos
porões cândidos
Todos
desertos loucos da nossa alma

 

 

 

***

 

 

 

seria pássaro
a máscara caindo em rasa água
uma língua em pleno voo
trocar as penas que sinto de mim
por uma plumagem nunca antes inaugurada
pássaro átimo
desentendida da fome
invenção do étimo a
alinhavar o bico
onde
bocas já não falam mais,
assovios se afinam
busco este alimento, frutas em
olhos de virgem,
as folhas secas
que o jardineiro acomodou antes de fugir

 

 

 

***

 

 

 

COM A MÃO ESQUERDA

 

I

raiva acumulada nos anos
doce revólver mirando ânus
não quero nada disso
goteira de água morna
enxofre do desejo
não parece
mas meu corpo é feito no bronze

 

II

Par de olhos se despindo frente a frente
sombra ante sombra
luz fosca na verdade oculta
porrete na invenção do que se quer pra sempre
límpido cristalino sem violenta irrupção
Hora do espelho
Não me vejo taciturno e
uma chaga dantes tema misericórdia
é agora sangue urdindo
Em dó menor
Morrer todo dia cansa
estilhaçada a
nudez dos anjos
eu quero agora Cantar

 

III

que imagem é aquela desfeita
contratempo da charada
que rosto é esse pincelado
na astuta margem da página
cospem-nos as esfinges em ossatura

do espelho que estilhaça
Em todo poema
colo cacos
A procura do alguém que responda
o antiquado chamado
do Eu

 

IV

válvula
vibra vermelha vulva
essa mulher
verborrágica
vai gozar
mão esquerda em euforia
doce
vesicante prazer
ruindo
não há pesadelo
penetrar fecunda
a Vida

 

 

 

***

 

 

 

AREIA E CASTELO

 

areia e castelo
semente e casca
aço e sertralina
eu estava ficando louca
até no front
da pele com a pele
explodir
o sal
de uma Manhã

 

 

 

***

 

 

 

CANTO DA VIDA COMUM

 

I.

por que me destes Deus este segredo da Pedra?
por que não olhaste para minha cara
dente de leão nos lábios da criança
e legasse a febre ou
sóbrio
o caminho dos leitos
que levam à Lete?

foi-me aventurado granitos
minérios
a levedura do chumbo

mas sou uma mulher
e todos os fuzis
são velas nas minhas mãos

 

II.

dedos da pianista
Lizst era um soldado
que gostava de açúcar
nós estivemos a ponto de partir
mas aquelas notas
melodias do incomum
desarmaram a vaidade

Filarmônica de trapos
preenche nossas horas
lugares onde descansamos
tecidos nos ninguéns

 

III.

nunca coube
nesta solidão
o vazio da estrela torta
recolhidas ao fogo
partilhamos apenas
os cacos
das vitrines opostas

refém dos caramujos
o Eu é insolúvel nos espelhos
muralhas contornantes da vida comum

 

Licenciada em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas e, atualmente, aluna da Escola de Arte Dramática da USP, Isabela Rossi é atriz e autora na Companhia Balé de Pancadaria. Um dia, num suspiro, tomou de assalto os versos do samurai Paulo Leminski, “não discuto / com o destino/o que pintar/eu assino” e desde então tem seguido com a pólvora e poesia que se pode experimentar a Vida.

 

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123ª Leva - 01/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Cibely Zenari

 

Foto: Kelly Cristina dos Santos

 

frútero

 

12 contrações
compassadas
despressurização
caem as máscaras
primeiro as mulheres
depois as orgias
celestes

 

 

 

***

 

 

 

astro

 

navego na tez dessa pele
astrolábio
avesso à razão da direção

fundo com o oceano
mares profundos

sem fronteiras entre
donos
terreiros
terras
tornozelos
e saveiros

perdidas docas
lábios e bocas

remam incansáveis
ilhas inalcançáveis
flutuam
latitude zero

trapiches largados
birutas
balangamos ao vento

ao fundo escafandro
Ó2 acabando

jamais achados
escombros náufragos
pegadas na água
em únicos rastros
úmidos
de lábios cúmplices

trovões silenciam
há salvos?

 

 

 

***

 

 

 

botânica

 

o rizoma de nossas raízes
gira rodas cinéticas
em forças centrípetas
e ao centro estripulias
de dois quadrúpedes
de sensibilidades termostáticas
incendeiam variáveis distônicas.

o resultado atômico
pulsa sangue aos ventrículos
banhando estruturas
músculo-esqueléticas
em névoas harmônicas
onde vejo nebulosas
emanarem formatos
amorosos-biônicos
geneticamente interessados.

 

 

 

***

 

 

 

woman

 

minhas sardas e rugas
minhas saias sem nesga
minha brancura com olheiras
você vem e me toma pelo que pareço

meus tons vivos
meus sons graves
meus dons inexplicáveis
você me retoma quando anoiteço

meu doce café
meu bom tempero
meu extraordinário pé
você me adora quando te teço

estou tua,
sempre que pela manhã caminho nua
na nossa imaginada e exclusiva rua.

 

 

 

***

 

 

 

corra lola

 

ela vestida
em vestido ela era
em corrida ela vestia
esvoava e ela corria de vestido e voava
voada de chão
cabelo, cabelo santo, era cabelo
era vestido vestida e cabelo pendia
um desespero lhe corria
nas veias gotas vazias corriam
suor e lágrimas, rápidas
corria de si, de se machucar
corria e perdia
lhe saiam cabelos
lhe ficavam nuas
saias saiam, pelos corriam
despencavam pernas e braços
peitos des-pe-da-ça-vam
flutuava aos pedaços
torpes pegadas lhe seguiam
o que sobrava dela
era ela, fumaça chamuscada
em reflexo na fachada
e ainda ela
ela no dia do hoje
ainda pingava
talvez veneno doce
talvez carne passada
era um vestido rendado
esburacado de frio
no meio fio corria, desequilibrava
ela morrida de corrida cansada

 

 

 

***

 

 

 

cozinha*

 

uma certa mania de fazerem das cozinhas, brancas
é preciso colocar cor, os cheiros têm cor
as casas de aluguel azulejam branco até o teto
dá uma mania de escrever e pendurar coisas
na casa antiga a torneira é uma avó que se lembra em alguém
as cozinhas são os quartos adolescentes dos adultos
algumas panelas dependuradas para exibir
aqui é uma cozinha
um pano cai aleatoriamente sobre o botijão para dizer
aqui é quente, sai fogo
as formigas em seus caminhos naturais
nunca os interrompo
aqui a natureza se desenha em fome
quando transamos na pia
fiquei com vontade de dizer que te amava
mas não sabia se era a mesma coisa que amar
o desejo de falar que ama
e depois veio
o amor
veio o desfile de moda íntima pela cozinha
e copo d’água pelado da madrugada
depois veio o desamor
ele não comia mais na cozinha
mas me comia
ainda há fome no desamor
a cadeira amarela agora um trono vazio
apressa-se um bolo no forno
enche a casa de chocolate
aquece por um curto tempo o oco branco e quadrado
dessa mania de azulejo frio
sentar à mesa
afundar estofado de cadeira
tantas e tantas vezes na rotina
até que o rejunte encarda mas continue re-juntando
o que nasce separado
vira carne de pele quente
cozinha é uma fábrica
depois se repousa na cama
e depois some com a fome
a cozinha é tão enorme
hoje trago a cama e moro nela
deito com as panela

 

*poema parafraseado de algum da poeta Carla Diacov sobre banheiro

 

Cibely Zenari é poeta, psicóloga e psicodramatista. Sua produção poética já transbordou os formatos tradicionais, como objeto poético e produção de cartazes escritos com sangue menstrual. O universo feminino é produto e produtor de sua pesquisa na escrita em seu universo anatômico e simbólico. Auto-publica zines de poesia chamados Tril’orgia – escreve, diagrama, costura e vende.

 

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123ª Leva - 01/2018 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Analice Martins

 

Desenho: Raquel Piantino

 

RUÍNAS

 

O que se decompõe
também conta uma história.
Outra:
pelo avesso.

As cores que esmaecem
têm brilho próprio.
Outro:
lusco-fusco.

As paredes trincadas
reverberam suas nervuras.
Outras:
cicatrizes.

O tempo que se contorce
se ergue em ruínas.
Outro:
natimorto.

 

 

 

***

 

 

 

LA CITTÀ

 

Percorrer uma cidade,
derrubar seus muros,
furar suas paredes,
arrancar sua pele,
até que,
núbil,
ela se curve
como o mapa
roto
que se dobra
e se guarda.

 

 

 

***

 

 

 

CROMOTERAPIA

 

Por todos os lados,
um verde incrédulo
atravessa janelas e paredes.

Come traças e ruínas,
deita luz
em corações silentes.

E grita uma alegria
espantalha.

 

 

 

***

 

 

 

AMPULHETA

 

Para o que tarda,
não há mais tempo
no célere deslizar dos dias.

Tempo não há para esperas.
O amanhã sempre chega
antes.

Parem os ponteiros.
Quebrem os relógios.
Clamem o tempo da gestação.

Não roubem da fruta
nem da flor
sua delonga.

Deixem que o remoto e o ermo
comam da estrada
a poeira.

 

 

 

***

 

 

 

ABRACADABRA

 

Na parede branca e lisa,
a realidade
escorrega
sem contornos,
inexistente.

Dentro da moldura,

na parede branca,
a realidade
se ergue
outra.

A que é entrevista

pela janela,
essa,
não a inventamos.

Mas a que aprisionamos,

em cores e linhas,
é a que nos inaugura
a vida e os desejos.

 

 

 

***

 

 

MAGIA

 

O traço na página em branco
cava a palavra,
que tomba em gruta
profunda.

O eco da palavra escavada
distorce o sentido.
Inventa uma outra
vertigem.

A página em branco é caverna
de paredes e ásperas entranhas.
Precisa da teima e da urgência
de quem a percorre.

A sombra do traço entrevisto
ganha a cor do desejo imaginado.
Eis a magia que propicia
a coisa.

A coisa que – sólida –
o desejo inventou,
e o traço riscou
na parede branca e muda.

 

Analice de Oliveira Martins nasceu em Campos dos Goytacazes (RJ), é Doutora em Estudos de Literatura pela PUC-RIO. Leciona Literatura Brasileira e Literatura Comparada no IFF campus Campos Centro e atua também, como professora e orientadora, nos Programas de Mestrado e Doutorado em Cognição e Linguagem da UENF. Pesquisadora e ensaísta, é autora do blog Rumores e Ruídos, no qual publica crônicas e poemas.

 

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Janela Poética V

Adrian’dos Delima

 

Desenho: Raquel Piantino

 

A DANÇA

 

Há uma poesia
de tal tamanho
querendo pôr
meu corpo em movimento
Que saio
sem rumo certo
para a rua
por esta tarde
agradável de inverno
onde algumas folhas
balançam
orelhas ao vento

 

 

 

***

 

 

 

SUBURBE

 

A tarde tinha um ar grisalho ao terminar
Onde as lâmpadas mais altas
Acendiam cabeças
De vaga-lumes pálidos

Eram os pescoços desta cidade baixa
Que se esticavam nos postes
Talvez para ver além dos telhados
Presos que estavam na borda da calçada

Se pudessem se lançavam
Por cima do chapéu do morro
Para o céu estrelado que à noite
O teto das metrópoles usa

Para iluminar com os poetas
Os vultos que a lua projeta
Os vãos escuros entre os edifícios
E a sombra da miséria sob os viadutos

 

 

 

***

 

 

 

PHATO

 

Fato exposto (FRATura)
TRACtor feito feito TRACto
faTOR-faTURA

PRAto posto

R
uralmente
rURp

 

 

 

***

 

 

 

O VOTO DO SILÊNCIO

 

Escute um discurso contemporâneo

O verdadeiro nadador
é aquele que cruza os braços
diante da água.
A estrela mais bela
ainda está por ser descoberta.
O grito
que vale a pena ser ouvido é o do mudo.

Incorre em erro
aquele que diz o que acha que sabe
porque a verdade está escondida
e em constante movimento.

Se você repete estas frases, você tem alguma chance

 

 

 

***

 

 

 

OS PEIXES

 

Tocando com os dedos no vidro,
Os peixes dentro do aquário
Se movimentam, seguindo-os.

Ao contrário, com peixes dentro,
A um toque invisível no monitor
Se movem os peixes do lado de fora.

 

 

 

***

 

 

 

TURVBILHÃO

 

O ventilador olhou dois lados
Eu dormi
Ele virou pro outro
E enterrou fundo
As hélices pela janela
Numa nuvem de chuva

 

Adrian’dos Delima (Canoas, RS), pseudônimo para Adriano do Carmo Flores de Lima, é poeta, tradutor, teórico de poesia e compositor. Cursou Letras, habilitação Tradução na UFRGS, onde não se graduou em função de dificuldades econômicas. Publicou em revistas impressas e online, como a Germina, a Babel Poética e a Sibila. É autor dos livros “Consubstantdjetivos ComUns (Vidráguas e Gente de Palavra, 2015)” , “Flâmula e outros poemas (Gente de Palavra, 2015)” e “Aqui fora o olholhante (Vidráguas, 2017).