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115ª Leva - 09/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

João Gabriel Pontes

 

Desenho: Re

 

entre certos instantes de brahms e uma cloaca, III

 

O curumim se pendura no avental de Hera
para tentar escalar suas tranças graciosas.
E são fundadas acrópoles a partir dos inefáveis
desejos humanos,
as caçarolas de alumínio
sobre bocas de dragões furiosos.
O contorno da romã se desfaz
em linhas,
e o curumim consegue, afinal,
vislumbrar os paralelos que fatiam
a superfície do planeta.
Como é fácil se encantar pelos Trópicos!
Gira-se a torneira
e a água molda o espaço,
e a água molda as ideias & os sentidos
do curumim.
O ralo da pia bebe vastos açudes de provações
e desaparece.
A carne plástica das dobras do sifão
recobre o túnel de aros de uma tranqueia
esganada.

………………………………. “Incêndio em mares de água disfarçado!
…………………………………..Rio de neve em fogo convertido!”

Hera senta
o curumim à mesa, serve
o almoço e reza
pela alma do marido,
que deu o couro às varas
faz poucas semanas.
……………………………………………………………..Sim:
todos respondemos pelas escolhas
daqueles que pisaram estas campanhas
estéreis antes de nós.
……………………………………………………………..Sim:
nossos escritos são medíocres
reproduções dos palimpsestos que abarrotam
a biblioteca suspensa pela sobreposição
dos anos.
……………………………………………………………..Sim:
este cheiro de serragem molhada,
que tanto me incomoda as narinas
sensíveis ao fracasso, também atordoará
os belos deuses do futuro.

E o curumim marcha entre trovões.

 

 

 

***

 

 

 

Copérnico

 

Com o intuito de estancar a sede irresistível
que me pôs acordado
………………….no momento exato do alvorecer,
recorro ao catálogo das variedades
………………………………anarquicamente dispostas
…………nos compartimentos da geladeira.

Deparo-me com uma jarra de vidro
…………………………………………quase vazia.

No fundo desse crisol ilegítimo,
………….a emular o resultado
………….de ensaios químicos frustrados,
………….o resto do suco de laranja
………….que eu mesmo havia preparado
………….antes de dormir.

Uma quantidade ínfima do líquido
em cuja acidez estão concentradas
……………………todas as minhas perversas manias.

…………………………….Ralho comigo.

Por que não bebera tudo de uma só vez?
Por que guardara o último gole
………………………………para depois?

Preocupo-me somente
……………………com as sobras,
……………………com os resíduos,
……………………com os resquícios.
……………………A abundância das horas, deixo-a

aos que ainda esperam muito da vida,
aos que anseiam por algum clímax
ou por alguma absolvição,
aos que não puderam estar presentes
no velório de Ivan Ilitch.

Meus inimigos dizem que não tenho ambições.
……….E eles têm razão.
……… (Eu não quero ter razão.)

Prefiro o resto do suco de laranja
à revolução da laranjeira,

…………………..espécie ímpar em um bestiário
…………………..de leviandades,
…………………..utopia petulante a servir-se
…………………..de uma filigrana lexical

que ora descreve
a mecânica dos corpos celestes,
ora retém
o anelo dos corpos históricos
por mudanças drásticas.

Mal sabem os filólogos ocidentais que,

em termos ontológicos,

não há diferença
entre a lente arguta do telescópio
& a lâmina implacável da guilhotina.

………………………………A tradução da liturgia
………………………………na diagonal deve ser feita
………………………………porque graça não há
………………………………em seguir da ordem canônica
………………………………a tradição (da liturgia).

……..Se a guerra & a poesia
……..constituem, por excelência,
……..os espaços de negação
……..do tempo e dos arquétipos
……..partidos que veneramos,

……………………..os restos já são, por si, revolucionários.

 

 

 
***

 

 

 
Apocalíptica

 

O silêncio da madrugada & minhas confusas
vaidades inundam a sala de jantar.
Sobre a mesa de tampo redondo, o copo
farto de uísque.
Apenas o odor do malte já me embriaga.

Meus pensamentos se transfiguram
e você surge diante de minhas vistas
cansadas.
As pernas como colunas de mármore,
os braços em um abraço de fogo,
das ancas, larga baía,
& a boca convidativa
& os olhos que me desafiam, esfíngicos.
Sua voz, suave melodia de realejo.
Seu perfume, o escrúpulo dos oceanos.

Ouço as trombetas de mil anjos caídos
e você chove de fora para dentro.
Quimera bamba. Falsa musa.
Sua beleza me leva a descumprir todas
as promessas que fiz a meus fantasmas.

 

 

 
***

 

 

 

Relógios

 

All those times I was bored
out of my mind.
Margaret Atwood, Bored

 

Em cima do piano, eis um relógio. A cada rotação,

………………………………..seus ponteiros
……………………………………….me massacram.

………Alguém me fala sobre doenças
………e sobre consultas médicas,
………sobre planos de saúde
………e sobre seguros de vida.

Alguém me fala sobre os preços dos remédios,
………………que aumentaram por causa dos altos índices
……………………………………………..de inflação.

…………………….Alguém me fala sobre meus amigos;
e, ao que parece, quase todos já honraram
…….o famigerado axioma bíblico: ao pó retornaram.

……………………Alguém me fala sobre reencarnação.

……………E salienta que, de acordo com determinadas
…………………………………………………… [religiões,
o fenômeno do crescimento vegetativo a nível mundial
………………………………explica-se
………………………com base na transmigração dos espíritos.

………Confesso: com o fim do espaço público,
………a ideia de um amplo câmbio interplanetário de almas
………(versus a intimidade de minha casa)
……………………………………….me tira o sono.

……………..Prefiro ser enganado pelas manchetes
……………..e pelos anúncios publicitários
……………..de meu próprio planeta.
……………..Prefiro os mortos
……………..de meu próprio planeta.
……………..Prefiro também os relógios cruéis
……………..de meu próprio planeta,

muito embora suas engrenagens,
gáveas de presas anônimas,
ainda conspirem por minha capitulação,
independentemente de qualquer teoria fabulosa
acerca do além-túmulo.

……………………..A arquitetura da tabacaria
……………………..é rude, quase vulgar,
……………………..mas preciso reconhecer: tê-la,
……………………..em sua frouxa metafísica, põe
……………………..minhas cicatrizes em estado
……………………..de graça.

……..Olho para mim.
……..Olho para meus mortos.
……..Olho para o relógio em cima do piano.
……..Que tédio.

 

João Gabriel Madeira Pontes é um poeta carioca nascido em 1992. Seu livro de estreia, “Indiscrição”, foi lançado este ano pela Editora Kazuá.

 

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115ª Leva - 09/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Hanna Halm

 

Re
Desenho: Re

 

Vão

 

Fecham-se em tamanhos miúdos
caixas de desgraça e poeira, rotas claves
do passado em pausa.
Lágrimas marcadas no negativo da fotografia,
São as dúzias de brincos perdidos em festas
como a fase terminal da doença
Embrulham-se em milhas de pacotes nunca postados
elásticos apodrecidos
Brilham como cacos remendados
no espelho escuro pelos fungos da casa vazia
e pastos inteiros incendiados.
É morte gratuita, sujeira presa
nos olhos do vento, desvairado.
Falta lei e proteção devida às unhas que sangram…
o dinheiro corre as ladeiras da rua
como o pó caído de um cinzeiro.
Fica a pólvora do armamento esquecido nos arquivos.
Punhos fecham-se em tamanhos miúdos
sem direito de guardar escolhas em armários de aço
nem se podem levantar por covardia
a exemplo dos homens que escrevem mudos
sobre suas mesinhas demasiadamente limpas
da liberdade moderna. Do sonho popular
calados diante o som oco que se faz
nas palmas das secas mãos
presas pelo descuido dos símbolos de perda
e das músicas jamais tocadas nas rádios.
Fecham-se em tamanhos miúdos
são como as línguas soldadas ao céu
das bocas frias e incapazes
Escondem-se pelas calças de bolsos fundos
e se alcançam, por uma estranha ventura, as lâmpadas
que pendem nos postes de cada espasmo necessário
às bambas pernas, petrificam-se na recordação do músculo
como um tumor gerado no infinito.

 

 
***

 

 
Cabide

 

depois de tanto morder meus olhos e
proteger os pés da minha frieza,
falava de mim feito fantasma
envenenada em seus próprios dentes
na escuridão dos seus dias
completos, ricos de palavras
incompreensíveis.

e corria estórias
pelas esquinas,
estrofes e gargalhada
em vão, batuques
nas panelas de casa

como fazia crer
falava de mim
e ouviam os desconhecidos
doenças anciãs de minha carne
dita suja
odiosa
carne

falava de mim
sorrateira como o trigo ao vento e
sufocada em meu seio
cuspia bolas de pelo roto

seca

falava de mim, rouca
invalida pelas garras de
um carma inventado

nua
exausta
falava de mim.

 

 
***

 

 
Ramal Japeri

 

se tão cedo sou massa
me aquieto
no canto que me cabe
em trilho reto sigo
curvo meu caminho ao
ganha pouco, pão
indigno dos dias tantos

ossos gemem,
estalam pobres
a febre embalada a
vácuo.

finda a tarde, gado
me atiro à não-vaga e
com menos pressa chego
a casa, permito graça a noite
já se afasta prum dia

aplico
a favor de mim e meu bem
sonhos órfãos
surreais
a posição que me
agride o trem.

 

 
***

 

 

Deixem abertos os meus olhos

 

deixem abertos os meus olhos, e
sobre o meu peito
feche minha mão
como uma cuia a espera de
lágrimas repreendidas.
compreenda minha altura,
metragem antiquada de índia
(misto de sangue e confusão)
calce-me com botas moles
gastas pelo couro judiado
que andei a vida.
quero sussurros de adeus
ditos ao pé do ouvido surdo
quero meus cabelos penteados
com a calma da escrita
e minha camisa branca
de botões e gola livres
casando minha
íris fosca,
seca feito a boca
que se há de morder.
não hei de perder no breu
tal antropofagia
declarada no berço
que cedo me deitei
e retorno em perímetro maior
para até onde dura
a poeira na vista
que agreguei durante os dias.

 

 
***

 

 
Clandestina

 

sim. eu quero ficar
o refúgio nesse caos é a sua própria construção
não pretendo descolar a marca úmida
a entrega da sua pele a minha estadia
pode ser que encontre num terreno impróprio
mas nunca em rotas paralelas da vida
um termo entre o meio e a desgraça
nesse labirinto estreito
de estar sempre respirando as tuas sobras
em copinhos de café expresso no corredor escuro
e manhãs corridas para não ser vista
passo os moveis estalam junto minha coluna
dolorida, a calma já não parece alternativa
se desço de carros apressada e deito
sobre lençóis a serem trocados
sem força para desvendar o koyosegi do nosso futuro
adoeço pretensiosamente ao escovar os dentes
e ouvir conversas de uma voz e meia
em silêncio morro um pouco a cada racionado toque
mas morro esquecida no espelho do armário do banheiro
ao provar a pasta de menta
e saber de ti em outro quarto
arquétipo que não me cabe, reconheço
meu espaço entre as quinas da caixa
sufoco toda vez em minha permanência

 

 
***

 

 
Sexta-feira

 

perdi as contas dos telefonemas
você dizendo que viria ao meio
dia de mala e cuia
pra bater na porta e me chamar
exclusivo, único
as unhas arranhando a madeira
cantareira batucando o
tempo que levo apressado
do sofá da sala ao armário
da cozinha onde deixei
a cópia das chaves
que já eram tuas
faz mais de um mês
fiz na esquina de casa
acompanhando a maquinha
compor pra você o poder
de entrar quando quiser
pantograficamente
sem ser chamado
mas vi tantos sois a pino
quanto pude enfrentar
a superfície lunar
trezentos e oitenta e quatro mil
quatrocentos e três quilômetros de
distância pro nó de nossas pernas
sobre a cama descoberta
ainda assim contei minutos
chequei as pilhas do relógio
voltei a vestir minha camisa
de dormir e liguei
a tv no canal nove
a mesma coisa, desimportância
inquietação interna
a extravasão das pálpebras
conta-gotas no travesseiro
fronha branquinha que troquei cedo
de manhã, os pombos batem na janela
arrulham a pior música para a
reforma que não programei,
mudei armário de lugar
aquela mesinha fica no canto, agora
mas talvez eu jogue fora,
ocupar a cabeça é difícil – o que houve?
até te comprei sobremesa
mais uma vez – pra
preencher a geladeira e
colecionar embalagens de papel – choveu forte
tive problemas com o carro
o pagamento não caiu na conta
não tive folga
tá uma confusão, chegando aí te conto – sim…
mas quando você vem?
eu espero.

 

Hanna Halm (1993) é poeta, musicista e historiadora nascida em Queimados, Rio de Janeiro. Participa do coletivo de publicações independentes Drunken Butterfly e do selo fonográfico fluminense Efusiva. Tem poemas publicados no blog Poema Diário, no jornal Plástico Bolha e na revista eletrônica Avenida Sul.

 

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114ª Leva - 08/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Sandrio Cândido

 

milton-boeira
Foto: Milton Boeira

 

Antífona

 

evoco o teu nome em silêncio
de joelhos entro na linguagem.
debaixo das imagens resiste
algo do que foste um dia.

outra borboleta não soube o oficio
de desatar em mim a melodia.

só por isso ainda creio

 

 

***

 

 
Exílio

 

tenho as mãos sujas,
a flor da vida ferida.

não pertenço a este jardim
regressar as fontes de nada adianta,
a memória trai-me.

só, adiante!
estou esperando por mim.

não posso fugir
não posso adiar o silêncio
não posso desatar os cipós.

aceito a minha condição!
devo deixar cair as pálpebras.

amanhã,
depois de rasgar todas as barcas
talvez eu me encontre.

 

 

***

 

 

Quatro variações imagéticas

 

I

a casa é frágil
cuidar como cuida um pomar
nem sempre é primavera
nem sempre os frutos podem ser colhidos.

antes da flor existe a semente,
é preciso calma ao escavar a terra
deixar o corpo no escuro
adormecer no exercício da espera.

não cortar a asa dos pássaros
ser apenas ninhos
estar inteiro no ventre da prece.

 

II

há flores lâminas aparando olhares.

 

III

eles partiram do meu corpo
ao mar escorreram
fiquei sozinho

ouço os violinos tocarem
“se eu roubei, se eu roubei teu coração, tu roubaste,
……………………………………………………………………….[tu roubaste também o meu”.

é outono
sou a flauta assoprada pelo tempo.

a mesa em meu corpo está vazia
aguardo regressar os deuses
iremos concluir a liturgia da vida.

 

IV

os telhados cantam
debaixo dos alicerces as ruínas
estou cercado de monturos.

chove em meus lábios
o poema trabalha em meu rosto
costura a eternidade.

 

 

***

 

 

Primeira meditação

 

tenho me deixado seduzir pela esperança. espécie de flor agasalhando as chagas. as vezes o tempo é de frio. falta o sorriso de Deus. o mundo fica estranho e triste. há também momentos de alegria. quando a mão de Deus me toma. ao som dos pássaros dançamos. embalando o vento. há dias assim; quando o sussurro do eterno me compõe um jardim. aqui dentro, eu sei: somos sinos dobrando distantes!

tenho morrido aos poucos, estou aprendendo outra música

 

 

***

 

 
Exílio II

 
os mortos regressam ao meu corpo
bebem a minha existência
estendem a mesa na memória

ouço as rosas partirem a terra
já não posso alcançá-las

pertencem a um tempo arcaico
de cirandas perdidas
e córregos represados no corpo

nenhum caminho sabe os passos
para a idade daquela praia.

 

 
***

 

 

Espiritualidade

 

Engoli tantas estradas e nenhum pão
as vezes não caibo nos olhos de Deus.
As rezas sussurram em meu corpo
um longínquo sabiá me chama.
Bendita sina aquela dos desesperados
beber todo o mar e continuar vazio
ser a mão escavando o silêncio
tentando desterrar a lâmpada afogada.
Tem hora para tudo nesta vida
diz o Eclesiastes.
A mão roça que roça os meus cabelos
traz a enxada entre os dedos
carpir é o signo da reza
plantar no silencio algo de beleza.

 

Sândrio Cândido (Minas Gerais, 1991) é poeta e missionário católico.  Graduado em filosofia e estudante de teologia. Atualmente reside em Cali, Colômbia, onde acompanha os processos pastorais da comunidade Afro Colombiana. É autor de Epifania (Ed. patuá, 2014). Os poemas acima pertencem ao livro Breviário dos Lírios (Inédito).  Sandriocp@yahoo.com.br

 

 

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114ª Leva - 08/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Otávio Campos

 

milton-boeira
Foto: Milton Boeira

 

O ESPELHO

 
não se mede
tempo e espaço pelo tamanho da cidade
vila adentro
cidade velha
hoje a tarde e eu
mais velho do que as casas e as ruas de pedra
penso que amanhã
talvez não exista outra solução
que não a fuga

um rio corre calmo
eu não mergulho mãos
pra aprender a calma
eu corro
mais do que os carros
e os anos que ficam trancados
dentro da cidade murada
não cabe
o que pensei em fazer nos dias
em que lá em casa a luz era amarela
e anna chegava dizendo que agora sabia
a razão de eu ser poeta

e era
1. ser mais alto do que as montanhas
que protegem a cidade
(como se existissem montanhas além da linha do mar)
2. ser menor do que a vontade
de desistir do barco e dos furos no fundo do barco
durante a chuva
3. não ter pressa em conhecer os outros
mundos e as pessoas que existem dentro deles
4. conhecer antes de tudo a mim mesmo
e os mundos e as pessoas que existem dentro

por isso hoje
enquanto voltava a casa
escrevi uma carta
que apesar de branca carrega no remetente o impulso grande de voltar

por isso hoje
no caminho de casa
comprei um espelho
e o coloquei na porta
da sala
virado
pra rua

(e envelhecemos a casa
eu e a cidade
enquanto é dia

o espelho não)

 

 

***

 

 

FENDA

 
visitamos cidades destruídas
asilos abandonados nos quintais
teu rosto uma fenda – por enquanto
desistimos de ser tristes

você acredita não existe outra palavra
mais bonita que triste
enquanto isto é uma fotografia,
um postal de Budapeste e suas
cinco mil luzes azuis – será
que ele te encontra hoje em casa:

uma cidade que te povoa na infância
algures teu nome nalguma porta
quem te disse um dia para sair com as chaves
e as coisas que despencam – por enquanto

isto é uma queda
isto é uma seta

quando eu falo em seta você pensa
em seta ou em flecha
você pensa em uma seta como uma
flecha

você pensa em uma flecha como um
desastre

estar de pé tem sido uma aventura,
uma escavação ou uma tragédia
arrancar aos peixes nem tanto,

na data o postal um ano escondido
teu nome alhures: você ouve barulhos
das pedras que descem murmúrios
mas isto é um acidente

uma flecha que atravessa o poema
escuta como ele pulsa devagar

discutimos sobre precipícios
os fados que me ensinaram
de não tornar ao chão – por enquanto
isto é um aviso,

a porta que ainda não caiu
a última casa que resiste irônica
os azulejos que invertem
a ordem do mito.

 

 

***

 

 

ANTIODE AO PAI NATAL

 
deverias ler mais os portugueses e aprender
o que é o poema sério – ainda não sei
muito menos o nome de verdade da Catarina
de Escócia, mas que era uma rainha
que gastou os últimos dias em cima da terra
abençoada pelos deuses escoceses cultivando
um enorme pé de erva
estas coisas são imperdoáveis
ou era outra história que inventavas
para usar o nome de Deus, temer a Deus
a todas as coisas
hoje é dia de condenar os pecados
um vento não fala de árvores empalhadas
nem é vento e não passa
alguns jornais noticiam rituais pagãos,
o euro aumenta nesta época do natal,
montaram um presépio em que o miúdo deitava ao chão
e ninguém sequer sentenciou
as coisas mudam e os homens se perdem todo dia
uns morrem e depois morrem de novo todo dia
e as luzes continuam acesas
e piscam
parece que inventaram hoje, olha lá que ainda
é tempo de cometer absurdos
dar cabo aos jogos das cartas seria uma aventura
imperdoável
ser útil ao amor e aos desejos de fim de ano
enquanto o outro desenha teu nome
na testa encharcada da menina chinesa
que não dorme
é duro feito pedra
a latitude é 3
não se mede a densidade relativa do ar
as asas que me meteram às costas ela confunde
com ironia e a terra da China é fértil
disseram que pra lá já passa de 2016
e já se foi o ano do porco
não se brinca com astrologia
isto não ajuda
isto não perdoa um monte afastado
de cultuar certos deuses

 

 

***

 

 

A ESPERA

 
enquanto o cigarro esvazia e no porto
a temperatura cai sem deixar vestígios
pensamos que a cidade sente por nós
ali não estivemos
mas nosso amor sim

pelo menos em palavras e silêncios
e o que somos hoje não ultrapassa a barreira disso

você de costas para a champs-élysées
uma fotografia clara tão mais bonita do que as minhas
eu deveria te escrever um poema
que terminaria com um desenho calmo e saudações
da vida portuguesa

mas nunca fui bom em desenhar a espera.

 

 

***

 

 

O VERBO

 
já podemos sentir de novo a casa vazia
algumas palavras perderam o sentido
outras arranham as paredes como um bicho
você as deixa fechadas

foi então que começamos a anotar as coisas
nas cortinas me pega a mão faz um desenho
temos um cubo de gelo e escreve: gelo
temos uma casa e escreve: casa

o carteiro já não vem e a isso
somam-se meses pela vizinhança
espalha-se um boato de que aqui
dentro estamos todos mortos

se te desse agora uma fotografia
exatamente de agora
sentada como está
quanto tempo levaria até que
escrevesse na parede
o nome de lugar

algum?

 

Otávio campos é um poeta e editor nascido em 1991. É autor dos livros “Distância” (Aquela Editora, 2013); “Outros tipos de disparos” (Edições Macondo, 2016) e “Os peixes são tristes nas fotografias” (Bartlebee, 2016).

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114ª Leva - 08/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Yasmin Nigri

 

milton-boeira
Foto: Milton Boeira

 

Mais forte que o açoite dos feitores

 

Uma sombra vespertina me contagia
Não se trata de mandar ou não notícias
O único modo de governar cada brecha
Desse tempo falho é interrompendo-o
Minha boca é morada ácida
Quero uma figueira sem pássaros
Para gozar dos frutos e anseios
De querer ser grande
A colher já não cabe no bule
Sua espada já não cabe em meu ventre
E atravessa cortando sua manhã
Perpassa grades
Parte chaves
Assim invisível incorpórea
Vou ao termo
Posto de pé o próprio amor inflamado
Vai a pique
Você se queima
Mas sou eu quem sai ferida

 

 
***

 

 

Até que a fenda desabe

 

Movida por invisíveis galopes
Busca agônica pelo divino
Dentro de mim tudo é tão apertado
Espaço de mundo imenso
Onde me sinto cercada
Você carvalho e seiva
Labaredas em trânsito
Fogo incontido lambendo o peito e tudo
Ripa seca enquanto seus gumes
Inscrevem em mim o impossível:
Aquele que não para de se não inscrever

 

 

***

 

 

De algum modo próximos de algum modo isolados

 

“Onde não puderes amar não te demores”

 

Cada um demonstra amor
À sua maneira
Se o meu ressoa em você
Como trovoada
Inverno noite ou relâmpago
Então me amar não deve ser
Trabalho fácil
Enquanto você se esforça
Quero apenas me demorar
Na sua pele
Celebrar nossa fertilidade
Inventar novos modos
De ser no mundo
Lado a lado
Assistir aos teus cabelos secarem
Compartilhando planos e projetos
Imagino que o futuro a dois
Seja uma felicidade irrecusável
Sentimento doce
Que ressoe azul
Solar e morno
Meu amor,
Aproxima-se e vê
Ou as coisas são claras
Ou não são

 

 
***

 

 

Gaslighting

 
I
Hoje é dia de festa no céu do útero
Ser deposta do trono
Eletrocutada
Catapultada
De mim

 
II
Esse amor
Um luxo
Agua translúcida de Bora Bora
Acalenta e aquece
Enquanto me afogo à deriva
Nessa vista linda e estéril

 
III
Por vezes confiante
Outras tantas catastrófica
Nesse terreno inóspito

 
IV
Nada me consola e seu toque me causa repulsa
Engulo a colher de sopa levada à boca
Sequer gosto de sopa
Talvez eu goste e não saiba
Talvez odeie
De todo modo permaneço engolindo

 
V
Contemplo as ilhas da Polinésia
Lágrima após lágrima
Endureço
Seu sorriso me quebra
Até quando?

 
VI
Me posto exausta em seus lábios
Prenda de gosto agridoce

 
VII
Se ao menos a língua rompesse a barragem desse oceano
Permaneço inavegável

 
VIII
Nesse desejo
Reside a promessa
Vindoura
De um gozo
Que a cada vez
É negado

 
IX
O que em mim se fecha ao seu mais leve toque se te amo?

 
X
Nem sempre o não demarca o fim
Acendo a lamparina
E permanece escuro

 

 
***

 

 

Síndrome de Manoel de Barros

 

Começou no vigésimo quarto aniversário
Apequenei-me de imensidões
Deu furo o meu vazio
Repleta de imanências
Passei a desperdiçar fala
Ocupei-me em desconhecer coisas e seres
Desletrei-me
(Ainda assim chamejava luxúria)
Colecionei desutilidades
Varada de acúmulos
Imprestável para o silêncio
Pessoa apropriada para nadas
Abandonada por dentro e por fora
Preteri ser gente
Pra andar com os bichos
Devotei-me às borboletas que devotam túmulos
Quis ser túmulo
Não sendo pessoa subterrânea
Tentei árvore
Depois ninho
Também não funcionei pra madeira
Ou verso de folha
Tentei pedra
Não fui comum com pedras também
Assumi compostura de água
Me acomodei incolor que é mais que infinito
Haveria de ficar no concluir das águas
Que pra mim tinha sentimento longínquo
Ampliava solidão
De coisa esquecida na terra

 

 

***

 

 

Um poema para Angélica Freitas

 

Uma mulher sem qualidades

Cozinha em tramontinas descascadas

Especialista em largar panelas no fogo

Foi abandonada

No 109º dia de casamento

Ao jogar água fervente com sapólio

Na cara do macho escroto

 

Yasmin Nigri (1990) é carioca, poeta, artista visual e bacharel em filosofia pela UFF, onde atualmente cursa o mestrado na linha de estética e filosofia da arte. Trabalha com mediação educativa em exposições de arte, elabora e ministra oficinas de criação poética, é crítica de arte, integrante e co-fundadora do coletivo feminista Disk Musa, onde trabalha na produção de conteúdos audiovisuais e performance.

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114ª Leva - 08/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Cândido Rolim

 

milton-boeira
Foto: Milton Boeira

 

FIBRA

 

Arranca do corpo a
camisa listrada levemente
defumada de suor e salga
Nas ranhuras da pedra
água e detritos de um
sabão de cor azul –
tempo inestimável
Até prender-se à grade
da janela deixando que
a gravidade e o vento
refaçam esse afinco: arrancar
fio por
fio
a memória dura de esvair-se

 

 

***

 

 

ESTE CAMINHO

 

este caminho
ninguém sabe onde
começa só
nós – suspensos – entre
um pressentimento e
outro

 

 
***

 

 

Desculpe, but

 

Desculpe, mas pertenço a um mundo desvirtuado
Também não me sinto moralmente apto a
tirar da experiência um lema
Desculpe, mas minha formação musical é promíscua
Desculpe, infelizmente essa metáfora não me atinge
Obrigado, mas não vivo de ênfase
Desculpe, não planejo dizimar a ideia contrária
Desculpe, mas não concluí a tarefa com êxito

 

 
***

 

 

A RAZÃO PERIFÉRICA

 

Esses só
vistos quando e
onde in
visíveis

Esses ausentes
estofos da
razão que os
alveja

Esses que
por motivos bem
diferentes
nascem

 

 

***

 

 

FICHÁRIO

 

Aquela vida que não
serve de presente nem traz uma
lição ou clareza de propósito.
Sem um proceder moralmente aproveitável lições
virtudes adquiridas.
Aquela vida sem fato
digno de nota.
Aquela
vida.

 

 

***

 

 

Essa leveza

 
Tipo peso se
ausenta
da cama
e………….. é
percebida: o corpo desloca
a transparência

 

Cândido Rolim nasceu na região do Cariri, sul do Ceará. Morou em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Atualmente trabalha em Fortaleza. Tem poemas, resenhas e ensaios publicados na internet, em revistas e jornais (clareiranaselva, cronópios, germinaliteratura, corsário, sibila, jornaldepoesia, Continente Sul, etc). Publicou os livros “Arauto” (Edições Dubolso, Sabará/MG, 1988), “Exemplos Alados” (Letra e Música, Fortaleza/CE, 1997) e “Pedra Habitada” (AGE, Porto Alegre, 2002), “Camisa qual” (Èblis, Porto Alegre, 2010). E-mail: candidorolim@hotmail.com

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114ª Leva - 08/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Liv Lagerblad

 

milton-boeira
Foto: Milton Boeira

 

entrecerro os olhos e o olho trans-consciente gira
cerro os olhos e o estrondo do sonho sacode-me as omoplatas
um pio baixo / um silvo / a nuvem prata no horizonte
deito-me com ícelo e morpheus ao lado
é como deitamos todos mas a metamorfose de aromas
não mente .
animal ferido gane nas redondezas

as coisas respiram em ondas volumosas de calor
em oscilações e um momento é frangalho, outro faca
pudera corresponder à grandiloquência
esse tutano plúmbeo, essa pedra incrustrada no peito
lá fora alguém cantarola um funk

onde útero um concílio de vespas
frequência um marasmo e à volta chistes
coincidente o calo na garganta, foz do bolor no verbo
e a derme arredia de algumas relações poucas

 

 

***

 

 

Amo sem dono / meu corpo-casa
Sem dono a casa que me faz sólida
Desaba qual n’O Espelho
O reboco do teto. Sobre meu corpo nu
Meu corpo nu embaixo das vestes
Sempre, com todas as ranhuras : nu
Retinindo sua marca na terra

Meu corpo nu e sujo sobre a grama
Sobre os ciprestes sujo, nu, repulsivo
Sobre o asfalto, coberto de relva
Na mata, no cimento, no mar
Nu. Imundo. Esverdeante pele clara
Esse corpo ainda & nunca outro.

 

 

***

 

 

todo impropério é o por quê da fome amarga
dia turvo da hora turva como magma que se resfriasse
açoite que se fizesse perene de uma luz abundante
carvão transmutado em diamante
são o mesmo
disse–me joana d’arc palpitando entre as labaredas
o abismo era cavado com os pés
estômago,
é de aço pra caber o plúmbeo dos braços que sopesam
desejar ardente uma chaga
que fizesse parte do estado das coisas latentes
rasgasse entre os dentes
despontar ilesa do outro lado do labirinto
sólida como pedra que há no meio do caminho
há no punho cerrado que se desvela e erra o alvo
há no coice na foice na voz amedrontada e firme
há no vínculo desconexo e frouxo qual laçarote desfeito
ah no fumo que trago e trago como fosse sanar–me o vazio

 

 

***

 

 

quando se espreme uma esponja suja
em cima de um papel, ela:

 

1. mancha as folhas
2. fica mais leve
3. libera um líquido asqueroso
4. continua parcialmente úmida

 

 

***

 
1

honey baby está tão cansada que também não acredita em si
mesma
o livro-cinza ao seu lado exala um cheiro de cera
apareceu na escada um recorte de papel com a letra A
como fazer um texto sem essas premissas?
esse texto branco, como a letra seca da lei se pretende
quando começo, azeda linha
agora plácida, inteiriça
nenhuma língua que eu não possa desossar me é válida
nenhum poeta ganha os créditos no reino das referências
se preciso refaço os caminhos
pra chegar ao mesmo ponto as entranhas
tão um só pedaço de carvão úmido
discretamente secretam certas fuligens opacas
restam algaravias mal–ajambradas
cá estão fleumáticos os grampos como frames que se colam
[às retinas
pudera ser touro me lembro do rapto de europa:
a imagética figura do colonizador era uma musa fragilíssima
e que ornou de flores a testa de zeus
transmutado em touro branco : não tendo medo é que teve
fim posto que dançava nua à beira–mar
e carregada pr’além mar
foi mesmo colonizada, dilacerada

 

 

***

 

 

Today

 
cada um que me passa pela rua é um soco no estômago
demasiado strong
to my sensitive stomach : they say smack they say boa noite e
cachaça
they say num lasco da tua carne eu passo a faca
mai lirou bitxe letis renguin aut togeder
and i’m saindo pela culatra e dizendo no no no
let’s fuck until we die in the moment of the orgasm
diz no meu ouvido
i’m
always
like
no
no
tanks

 

Liv Lagerblad, poeta e artista plástica, nascida em 89, serpente no horóscopo chinês, um livro publicado, com pdf disponível online no site da editora Cozinha Experimental na coleção kraft, onde foram publicadas as primeiras recolhas poéticas de dez poetas. Outro no prelo pela editora Urutau, chamado “o crise”.  

 

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113ª Leva - 07/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Tiago Dias

 

rety-ragazzo
Desenho: Rety Ragazzo

 

Os poemas seguintes são uma singela homenagem a Orides Fontela, o verdadeiro pássaro de sol que ainda existe.

 

Nunca amar o que não vibra nunca crer no que não canta*

 

deixar a porta aberta para varrer o chão
com a voz entardecida ter no canto a cigarra
a escrever um haicai sabido que da vida
leva-se as chances de ter cantado.
no movimento dos braços a fé no suor
a construir a dança fecunda
como os pés apoiados no chão
varrer o chão com a porta aberta
ter as primaveras para lembrar
da procrastinação ou não
esquecer para olhar o céu
agrestes pássaros de sóis

 

 
***

 

 

Ouvir um pássaro agora ou nunca*

 

feitos de fotografias e espadas
penduradas na parede branca
seus gestos são o pêndulo
a oscilar natural
o prego
por detrás das fotografias e espadas
tal como a sacada
as flores de álcool e vozes
sob a sacada ainda
todas as cabeças planetas
sob a sacada axiomas

 

 
***

 

 
Mais vale o canto agreste do que o vívido silêncio branco além do humano sangue*

 

a nossa voz vive
no oco do oco
de onde levanto os olhos
mesmo que ofusque
as retinas e siga
desfocando tudo talvez
essa seja a solução
quero beber da mesma água
em que me banho
a correnteza arando as minhas costas
esfoliando a pele preparando
quero ser solo sempre

 

 
***

 

 
Ouvir um pássaro é sempre*

 

há uma linha indizível
dentro de cada um de nós
por onde escorregamos
um paradoxo que bebemos
comemos como tremoços
não há nada mais fluido
do que a vida uma linha
não virgem
mas intensamente
…………….prenhe
de outras linhas mais finas
que desenham motores
ventanias tufões alaridos
cores até cores

 

 
***

 

 
Mais vale o pássaro mais vale sangue*

 

o anti-pássaro carrega
em suas asas o olhar
sobre o seu tempo nada
é mais urgente nada
do que o seu voo
manipulando a luz
na nossa face e pensa
que é muito fácil ser adorado
o anti-pássaro é o sangue

 

 
***

 

 
A estrela da tarde é infecunda e altíssima*

 

carrego no bolso uma folha
de erva-cidreira para aceitar
o vermelho da rosa entre espinhos
carrego o bolso furado
e o coração atento
para o que posso dar
quando faltar-me o chão
novamente o que posso dar
como pingos de chuva a cair
no mar somos água
enchendo e vazando carrego
no bolso uma folha

 

 (* )Orides Fontela

 

Tiago D. Oliveira, de Salvador-BA, professor e pesquisador, estudou letras na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e na Universidade Nova de Lisboa (UNL). Tem poemas publicados em blogs, portais, revistas e jornais especializados como Avenida Sul, Canal de Poesia, Cronópios, Cultverso, Enfermaria 6 (Portugal), Escamandro, Hyperion (UFBA), Literatura Br, Mallarmargens, Musa Rara, Revista Saúva, Janelas em Rotação e Jornal Livre Opinião. Em 2014 teve seu primeiro livro editado de poesia, “Distraído”.

 

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113ª Leva - 07/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Clarissa Macedo

 

Rety Ragazzo
Desenho: Rety Ragazzo

 

Alguma coisa de fé

 

Eu não tenho religião
(senão a poesia que me leva aos céus)
mas tremo com os sinos
que uivam badaladas
em todo dorso de tarde.

Eu não tenho religião
embora acolha a pompa dos templos
na solidão de algum dilema.

Eu, que não tenho religião,
me sacralizo
com os guizos do tempo
e me purifico
com a ausência de um deus feito de homem.

 

 
***

 

 
Oásis

 

O deserto é uma janela aberta:
o que escapa de seus camelos,
forjados n’água de vapor e sal,
é o calcanhar de todos os desejos.

Nas areias feitas de mistério
conta-se de terras que jamais fui.
Lá, os fantasmas de meu rio seco.

 

 
***

 

 
Aceno

 

Lâmina afiada
dobrada no peito

Fenda aberta
onde escapam
deuses

Lua que derrama
um deserto
de agulhas

Chamas que queimam
estrelas

Tudo reunido:
a dor do adeus.

 

 
***

 

 
Aborto

 

As redes lançadas não trouxeram peixes
Tragaram luzes e pomos abandonados.

Os peixes que não vieram estão mortos
Como o poema que acaba de nascer.

 

 
***

 

 
Fenda

 

Há tempo o menino ficou lá fora.
Espera, espreita a barra da porta,
mas já não pode passar.

Todos os longos anos de preparo –
escola, dentista, boxe –
e a busca pelos jogos de montar,
pelo seio roído da mãe que já foi.

Uma vida de busca e solidão,
a passagem do peito fechada:

só o túmulo aberto da infância.

 

 
***

 

 

Irmandade

 

Qual a cor do teu drama?
Quantos lares saem de teus cabelos?

Com quantos homens se reparte
o último fio de desespero?

Em tempos de paixão e fome
os credos são maiores que as roupas
os voos maiores que as asas.

 

Clarissa Macedo, doutoranda em Literatura e Cultura, é escritora, revisora, professora e pesquisadora. Apresenta-se em eventos pelo Brasil e fora do país, integrando diversas coletâneas, revistas, blogues e sites. Publicou “O trem vermelho que partiu das cinzas” e “Na pata do cavalo há sete abismos” (Prêmio Nacional da Academia de Letras da Bahia, 2014).

 

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Janela Poética V

Marília Floôr Kosby

 

rety
Desenho: Rety Ragazzo

 

a terra prometida

 

salvem a pátria dessas estrelas
pois minha terra natal acabou de ruir
sem cortejo ou cerimônia
meus mortos me trouxeram
os panos sujos de limpar memórias

vieram até minha casa
não comeram
nem sorriram
verde
como sorriem as serpentes
de tristeza

os mortos rastejaram até a janela
viram que o céu não cabia mais no mundo
e cantaram seu choro cósmico de notas repetidas

esquecer é da vida
o único milagre

 

 

 
***

 

 

 

beduína

 

a cidade leu a minha mão
e descobriu que ela não tinha linhas
que o meu destino era traçado
a pinceladas curtas

impressionando ou não
o que for feito de mim
só se saberá já pronto
só terá sentido pra quem olhar de longe

 

 

 
***

 

 

 
inconveniências

 

coração em pedra
ferida é

me preocupo com
esse órgão vital
no corpo fóssil

 

 

 

***

 

 

 
demônios

 

as sombras tropicais
sobrevivem à hora mais triste do dia
mas só as sombras tropicais

de resto
todo mundo morre um pedaço
entre uma e duas da tarde

à parte a vantajosa desmatéria
há um esconderijo secreto
debaixo dos pés do mundo
onde cada sombra
guarda seu rosto
e o extinto gozo
de poder ser contraditória

 

 

 

***

 

 

 
o beco

 

incólume cometa,
desembainha a tua fábula
e o negro porto do teu hálito
explodirá vestígios
do metro em que nossos passos foram mímica

 

 

 
***

 

 

 
prenda

 

meridional
por força das entranhas de minha mãe,
nasci de onde falo

mediterrânea,
por vazão da honra
que coube aos meus homens,
a mim e as minhas prestou-se apenas a desonra

tocamos no pó de um segredo
o calafrio de um sul febril
o sul das sangrias desatadas
de índios que viraram vento
velando e varrendo esse chão raso

chão que devorou negrinho
solo que carcomeu negrões.

                              

Marília Floôr Kosby nasceu em Arroio Grande, extremo, extremíssimo, extremoso sul do Brasil, em 1984. Poeta, compositora, antropóloga. Entre os anos de 2008 e 2012, alimentou os blogs de poesia Salamancas Supersônicas e A Sanga das Patavinas. É autora dos livros de poemas Os baobás do fim do mundo (2011; 2015) e Siete colores e Um pote cheio de acasos (2012). Os poemas selecionados para esta edição de Diversos Afins compõem o livro “Os arroios não voltam”, obra ainda inédita.