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109ª Leva - 03/2016 Destaques

Janela Poética II

Adriana Versiani

 

Helena Barbagelata
Arte: Helena Barbagelata

 

Misericórdia

 
Jandira sorri para os meus olhos opacos.
Abstraio.
A..M.A.R.E.L.O:
a cor preferida de Van Gogh.

Toda manhã,
Ameixa esquecida na árvore à espera do vento,
..Ela.
Palavra antiga brotada sozinha na terra do quintal,
curiosa dos meus sonhos,
Vem
saber da algazarra das cigarras, dos girassóis da Holanda,
do pigmento que colore a tela.

A escrita racional de Jandira arranca o mato que cresce no canteiro de hortelã,
mata todas as formigas do formigueiro e não gosta de metáforas.

Jandira oxigena o ar do quarto com a serenidade de seus dentes brancos
Os dentes brancos de Jandira não querem saber da morte.

Meus olhos opacos boiam na água da pia,
quando Jandira fecha a porta.

 

 

 
***

 

 

 

A Louca e o Cinzel

 

Para Maura Lopes Cançado

 

 

Mais uma vez, uma voz doce convida para a descida:
– Venha Maura, você é linda é uma flor, é minha menina!
Venha me beijar a testa e aquecer com o bico do seu seio o dorso da minha mão fria!
Venha Maura, você é linda, é uma flor, é minha menina!

Primeiro o crepúsculo, depois a angústia:
De onde veio a palavra
Hos-pí-cio?
Nem quando tudo manifesto:
os muros, o arame farpado, os azulejos brancos da enfermaria,
nada sossega a falta que ela resume.

O nome, a noite, o sexo.
A pedra da loucura tocou de leve minhas têmporas, desceu pela maçã do rosto e com som oco perfurou minha clavícula.

O gosto do álcool experimentei na sua boca, pai!
Devagar tirei das casas os sete botões.
Depois vertigem e o desejo de manga madura roçando a carne dos meus dentes.
Mais álcool, mais sete casas se desfazendo dos botões.
Sei o travo do sal na língua quando penso a palavra hospício, mas ela não diz os azulejos brancos da enfermaria, as injeções, os remédios coloridos.
– Venha Maura, venha caminhar no pátio e ouvir comigo o som dos bichos!
Você é linda, é uma flor, é minha menina!
O ritual da morte do porco não me diz.
Os guinchos que ele solta sua pele rosada, as marcas de sangue na faca, a separação dos pertences, a sobra…
N A D A
A concretude da palavra
CITO,
não
DIGO.
Para além das grades da janela,
NADA

Os azulejos da enfermaria guardam a suprema forma de escrever.
Sufoco minha vítima com o travesseiro:
o poema escolhe para si a melhor forma de morrer.
Pedra da loucura que dobro e é recortada, que afio e pelas coisas é afiada.
Raposa nos campos do Senhor.
Gozo no tatame,
grafito o tapume,
escondo as provas,
dentro dos sacos de lixo.
-Venha Maura!
– Ambígua, sou prosa e sou poema.
– Venha Maura!
– Sou força e sou sistema.
– Venha Maura!
– Eu , Maura, sou escrava da sintaxe e do desejo.
– Venha!

A etimologia, o sentido, o equilíbrio, mais uma dose,
sou escrava.
Além das grades:
mar sereno,
relva,
alimento.

Eu , palavra impura
Eu, meu delírio
Eu, matéria turva
– Venha Maura!
Venha memória, crista do cristal, carne da carne da palavra hospício, carne da carne da palavra sentido, carne da carne da palavra palavra, carne da carne da palavra ofício, carne da carne da palavra azulejo, carne da carne da palavra .
Venha !

O real não me substancia,
sou Maura,
a fibra que envolve o fio no poste que ilumina a rua.
Enredei-me de Deus, estou nas vísceras do porco.
Peço vistas ao processo que se dobra sobre mim.

Eviscerada, não ouço o meu próprio guincho, não vejo dor no sacrifício, quero jogar esse avião no chão e ser terra, verme, adubo nas plantações do meu pai. Meu pai, corda tênue, casa dos sete botões que me alimentam. Por isso fico nua. Já me foi concedido falar, então FALO. O resto é a pele rosada do porco e o mistério refém dos azulejos. CALO.

Palavra por onde desliza frenética a minha língua má que anseia por seu guincho.
Escrevo com tinta e vomito sobre a textura do que foi dado.
Sei bem o travo do sal nos lábios.
Descortina-se o mar e o mar é dentro de mim.
Bato com a mão no fundo e bebo os organismos minúsculos que vivem nos arrecifes.
Não era minha intenção despertar.
A vida tornou-se grande e apertou o nó da corda que trago presa ao pescoço.
Por amor sou capaz de matar.

Matei.

 

 

 

***

 

 

 

Herança

 

 

I

Tudo que havia para ser dito, já foi dito.
Sentada em frente à escrivaninha que pertenceu ao seu avô, Adriana dos Anjos pensa na palavra vísceras.
Na biblioteca as flores são trocadas todos os dias e não importa se crisântemos ou rosas. Flores continuam flores e o importante é que estejam frescas.
Adriana dos Anjos tem paladar apurado e está sempre atenta ao movimento dos insetos e ao cheiro de mofo que os livros exalam.
Com muito esforço consegue se lembrar da salada de frutas que comeu ao meio dia, mas exposta, é capaz de sentir o cerne da palavra vísceras.
Sentada em frente à escrivaninha, diariamente, vê as flores serem trocadas e ouve o som das traças desenhando mapas em antigos romances.
Não vai dar em nada, a Adriana dos Anjos.

 

II

Vivo nesta casa com Adriana dos Anjos.
À minha frente vejo um vaso de ervas mergulhadas em água.
Sonâmbula, Adriana dos Anjos fala em línguas:
há três séculos acordo assustada com seus gritos.
Ela está sempre comigo e ontem parecia feliz.
Hoje, dorme para sempre.

 
III

Envelhece Adriana dos Anjos, em meio à azáfama.
Engole o turbilhão e transpira o líquido da sua má digestão.
O vento depois da vidraça e tudo que havia antes já foi dito.
Sobre ela, a única coisa que precisamos saber é que a encantam as pontas dos lápis.

 
IV

Neste quarto onde me visto com Adriana dos Anjos, volto ao sonho de intuição e beleza.
Com um caco de vidro, disseco os músculos do seu pescoço.
Sou as flores mergulhadas no vaso e ela, seiva indeterminada em minhas veias.
Sei que tudo que tinha para ser dito, já foi dito.
Restam-me apenas cem palavras.

 

V

Desde que desistiu da multidão, Adriana dos Anjos se finge de morta no coreto da praça.
Escondidos no vestido, guarda as agulhas de tricô que recebeu de herança de sua bisavó e um estilete para apontar o lápis.
Enquanto sonha, bebe água da poça e come as folhas amargas do cipreste.
Fingindo-se de morta, Adriana dos Anjos dança descalça sobre as brasas.
Os mendigos se recusam a beijá-la.

 

VI

Com Adriana dos Anjos busco pelo escritor americano no parque da cidade.
Suas pegadas nos guiam.
Paramos uma ao lado da outra, em frente à sequoia gigante.
Eu não vejo Adriana dos Anjos.
Adriana dos Anjos não me vê.
Nenhum som nos nossos corpos.
A “sequoia gigante” é apenas uma palavra composta por duas imagens.
O escritor americano segue pela trilha armado com o estilete que Adriana dos Anjos usa para apontar o lápis.
Grafo esse bilhete na carne da árvore, para que o veja o escritor americano que está aqui, atrás de mim:

“A canção da sequoia, estranhamente, mesmo que muito antes, não me remete ao escritor americano.
A canção da sequoia, estranhamente, mesmo que muito antes, esquenta meus dedos na brasa do fogão.”

 
VII

Por algumas horas, olha para a xícara que sua mãe trouxe da Jamaica.
A xícara que sua mãe trouxe da Jamaica é de louça japonesa e nela há a imagem de um camelo e de uma pirâmide.
No pires que acompanha a xícara há a imagem de um camelo, de uma pirâmide e de um coqueiro.
Adriana dos Anjos aponta o lápis faber castel número dois com o estilete que guarda dentro do vestido e despeja leite na xícara.

 

VIII

Nesta escrivaninha onde sinto meus nervos a flor da pele, Adriana dos Anjos folheia o antigo livro de química orgânica que herdou de seus ancestrais e escreve compulsivamente.
Não se lembra da última vez que lhe beijaram a testa antes de dormir.
Tem ossos de vidro Adriana dos Anjos, que tenta afinar a ponta do lápis para que fique da espessura de uma agulha.
Teimosa, fere o pulso com o estilete e não derrama lágrima.
Ao meio-dia, abre a porta da geladeira.
Tem muita fome a Adriana dos Anjos.

 

(Adriana Versiani dos Anjos é mineira de Ouro Preto. Tem cinco livros de poemas publicados, dentre eles, A Física dos Beatles (2005) e Conto dos Dias (2007) e o virtual Explicação do Fato (2008 – Germina literatura – Revista Virtual) e Livro de Papel (2009). Foi co-organizadora da Coleção Poesia Orbital e do Jornal Inferno. Fez parte do conselho editorial da Revista de Literatura Ato. É editora do Jornal DEZFACES)

 

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108ª Leva - 02/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Leandro Rodrigues

 

Ricardo Laf
Foto: Ricardo Laf

 

1915

 

desconheço cada resistência/ os golpes em vão
o grito amargo dos cavalos ao meio-dia
a impressão inexata do que é cáustico
louco
a inexpressiva exatidão do que é risco
sombra/ espasmo
livre ressonância do espelho fragmentado
opressivo/ esfacelado
mil cacos pontiagudos na face do nada
na face do nada

e em frente ao rever os cavalos & seus gritos
o meio-dia fragmentado exposto cru entrelaçado
corte recorte sombras opressivas
gritos despojados em arestas.

 

 
***

 

 
ESPECTRAL XV

 

Poucos espelhos se mantêm intactos
e em cada rosto que se quebra
a marca fria da cicatriz disforme
caleidoscópio antigo em que outras faces
se cruzam como espectros soturnos

Apunhalei girassóis com minhas palavras trincadas
e os dentes servis degustaram ódios e crimes
com pompas de quem salpica a noite com versos do mais impuro sangue

mas estive mesmo pleno – em vôo e concisão
nessa lua avulsa e desmedida:

traga teu punhal para desferirmos juntos os golpes precisos
nessa poça avermelhada em que todo sangue derramado
encarna a luminosidade branca do satélite rústico
que paira inútil sobre nossas ocas cabeças tristes
como a demarcar as imaginárias fronteiras.

 

 
***

 

 

RAÍZES

 

Escrevo torto em desmedida decomposição
Não tarda abreviarmos tudo
Reinvento desenhos com simetrias descentralizadas
Não descendo de nada
Agora apenas traduzo as formigas e o que mais arrastam
Ciprestes imóveis em horas mudas
Descascados túmulos em que os insetos adentram
Para criar raiz nos mortos.

 

 
***

 

 
MORDAÇA

 

Sem cor, sem tez, sem pulso
Rareiam as palavras
Mas não os golpes/ a tortura
Receio
Cada outro porto que não se atraca
Cordilheiras de um fauno intacto
Despojados de sua carne e vísceras,
Como outras requentadas agonias fúnebres
Homens chegam sedentos, cuspindo fuligens-terçãs
Em San José um mártir recita versos e se cala subitamente
frente ao muro caiado
Em San Martín uma camponesa estende a sopa rala
para quem puder pagar
Depois recolhe a toalha, pois a noite já vem.

 

 
***

 

 
METODOLOGIA DO NADA

 
estendo as palavras no curtume
as que ainda respingam sangue
servem para o poema.

 

 
***

 

 
ESTETINO (OU NO CAMINHO COM BUKOWSKI)

 
Anoiteço
Com longos versos de bukowski
Num caminho aberto
de chumbo e cipreste,

Com a boca turva/ calada
mortalha desfiada
pelo uivo da matilha,

Nos golpes precisos/
aniquilada-
matéria finda.

Todos sabem quem são os ladrões
desse inverno.

Quem furta a noite, o soco
E vomita seu limbo
na fresta da lua às mínguas/
lua restrita/ dura,
exilada no porão.

Todos sabem.
Ou fingem saber
dessa tragédia monótona/ manchada
desprovida de carne/ esfacelada
pelo antepassado açoite de metal,
ranhuras profundas/ espirais de aço
jardins de fuligens.

dos galhos secos enfeitados
o grito aflito-presente/ ressente
poema torto – em alto-relevo,
desdobrada agonia/
………….. ..corrosivo-desprezo,

………………………..nas obscuras pétalas de óleo
………………………..improváveis marcas de sangue
………………………..da cidade muda/ disforme.

 

Leandro Rodrigues nasceu em Osasco, São Paulo, onde reside. Formado em Letras – Pós-Graduado em Literatura Contemporânea. Professor de Literatura Brasileira. Sua poesia busca traduzir parte da fragmentação e fuligem de uma São Paulo sombria, opressora, mas efervescente. Também é autor do blog poético nauseaconcreta, e um dos autores da Revista Zona Da Palavra. Possui poemas publicados em diversos sites e revistas literárias.

 

 

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108ª Leva - 02/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Lelita Oliveira Benoit

 

Ricardo Laf
Foto: Ricardo Laf

 

O OCULTO

terras sob terras ocultadas de mim
se alçam à magia do visível
sem aviso sem aviso

de você olho paisagens por mim ignoradas
tingidas de luz fervescente em indecifrável brilho
espetáculo do oculto secreto segredo
agora desvelado aos meus olhos
em inacreditável fulgir
desde sempre para sempre

ah me cegam! cegam tanto!
os meus vacilantes olhos desavisados
de tais ondulações frenéticas luz enigma
a habitar em terras de você subsolo longínquo
por mim dantes nunca visitadas

***

AURORA E CREPÚSCULO

sou eu a aurora plena de luz
o iluminado dia sou eu
poucos segredos guardo
olhar aberto ao mundo
acolher o outro espero

o crepúsculo é você percebo
em penumbras e horas silenciosas
noites chegando sem fim
em sombrias névoas esvoaçantes
segredos secretos segredos
nebulosas esquinas ocultas

vezes há que percebo intuindo
escura nuvem sorrateira invadindo
entrando em porta da solar luz
não quero resisto suplico
aurora é o meu iluminar penumbras
aurora é acolher o crepúsculo em belos dias

***

 

 

OCO DO MUNDO

 

era você aquele anjo escondido atrás da porta envenenando minhas horas tão encoberto parece que era esse anjo assustado fugindo de mim talvez me querendo ainda escondido atrás da porta me olhando em fugas em retornos no tempo que escorre pelas paredes da vida do anjo enfeitiçado vindo de algum inferno detrás de outras portas ocultando de mim maléfico segredo nem sei nem sei ainda nem sei se saberei algum dia se era você aquele anjo de asas vermelhas a voar a voar voando até se perder em mim até o oco do mundo

***

 

 

SEM ASAS

 

há palavras assim saudadeslá nem sei onde élonge sempre muito longelá ficam
as saudades sentidas….aqui no meu coração pulsam apressadas saudades feitas de
carne e sangue….sendo a eternidade que insiste em ficar paradaqual qualquer nada
me envolvendo em vazios ofegantes…..saudades de você confundem atropelos dos
meus pés aladosassim estando sem voos….sem asas

 

 

 

***

SENTIDO OPOSTO

enquanto escrevem pedra
corpo eu escrevo
enquanto escrevem morte
asas eu escrevo
enquanto escrevem vazio
coração eu escrevo

corpo asas coração
a vida resistindo persistente
no sentido oposto à vaga frieza
e vazia e endurecida e morta
do mundo petrificado em múltiplos nadas

***

EM ABISMOS DE SER OUTRO

a dança dos meus leves poemas livres velas ao vento
aporta em distantes países enigmas de você!
azul seta a levar suave meus estilhaços poéticos a teu triste coração ferido
em alegrias jubilosas em graciosas palavras doces
assim são acolhidos os meus líricos versos
no regaço do teu intenso coração
e sei bem que isso acontece
para mim porém o teu coração em melancolias desfeito está
eis você inalcançável em abismos de simplesmente ser outro
ah amado amor desconheço como caminhar para bem pertinho
até tocar o teu sensível coração solitário
desejo tanto lá aportar hora qualquer em madrugadas talvez
igual aos meus românticos versos

 

Lelita Oliveira Benoit aproximou filosofia e poesia. Escreveu tese de Doutorado na Universidade de São Paulo – Sociologia comteana: gênese e devir, publicada no Brasil (Discurso Editoral, 1999), com indicação ao Prêmio Jabuti e vertida ao francês (Harmattan, 2007). Publicou o Livro da Madrugada (e de outras enigmáticas horas amorosas) (Iluminuras, 2013). As incursões na filosofia e na poesia resultaram em estudos no Instituto Sedes Sapientiae e na formação em psicanálise na Clínica Lacaniana de Atendimento e Pesquisas em Psicanálise(Clipp).

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108ª Leva - 02/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Israel Azevedo

 

Ricardo Laf
Foto: Ricardo Laf

 

TALLINN

 

The XX, Intro

manhã onde ao sul o sol se abole
revoam folhas ao rastro frio dos teus pés
chuva amarga, acinzentada, ziguezagueia
de perfil, teu rosto, austero sob a marquise
espera a volta de horas perdidas.

 

 

 

***

 

 

BÉLA TARR
A Torinói Ló

 

para Attila Szalmás

 

teu filme
é uma foto
que para o vento
acena
um lance
de claro-escuro
e carbono
as cenas
como cinzas
apenas
no tempo
se espalham.

 

 

 
***

 

 

 
RÉQUIEM PARA PAUL CELAN

 
outrora ou agora
teu silêncio encerra meu canto
para sempre, e além do antes
socorro, te rogo
suplico:
dá-me a flor
que das cinzas renasce
fênix.

 

 

 
***

 

 

 
TUAREG

 
atai aos lábios,
..o silêncio de mil desertos

moldai aos ventos,
……………..dois olhos de areia.

 

 

 
***

 

 

 
YAO CHEN

 
— labora
a flor, que desfaz-se
em melífluas
pétalas, tua
face.

 

 

 
***

 

 

 
BERN

 
prenhes de neve
iluminados
ora, estreitos
ora, largos
seus telhados
………….perfilados.

 

Israel Azevedo (São Paulo – SP, 1979). Integra as antologias: Seis Poetas Jovens no Papel de Rascunho (Lumme Editor, 2006) e QASAÊD ILA FALASTIN – Poemas para a Palestina (Selo Zunái Edições, 2012). Publicou a plaquete Breves Postais do Oriente (Lunar Books, 2013). Prepara seu primeiro livro, Dragão de Rá.

 

 

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Janela Poética I

Carol de Bonis

 

Ricardo Laf
Foto: Ricardo Laf

 

Uma espécie de perda

 
Foi-te uma espécie de perda
Começo como se perderam os dias
De uma infância. Falo-te assim como
Quem se despe do corpo e chega
Recém-nascida. Aprendestes a respirar

Debaixo d’água e anos depois
Quando as folhas mudaram as estações
Mesmo emergisses dos ares
Para pousarmos em teu abstrato
Tudo que fosse relativo –

Os segredos encolhiam-se nas areias
– o mar inteiro dentro da voz – Se venho
De uma espécie terrestre, é por conhecer a terra
Se me confundo com as ostras, é por guardar
Demasias de sentimentos. Mudos e silêncios.

Uma longa história de pirâmides e desertos
Furtos às montanhas. Mas nas ruas todos seguiam
Acontecimentos decadentes, quando a ciência morria
Outra espécie de perda, você disse
Nos fica uma assombração
Uma disritmia respira sobre os pântanos
Essas botas enlameadas a efêmera partida
Hoje, voltaríamos com as chaves para a casa
Pela rua do sol da infância.

 

 
***

 

 

Monotonia submersa

 
Entrar no teatro pelas portas dos fundos
Esperar até que as cortinas se fechem
Sentar-se numa cadeira detrás do palco
Baixar os olhos e soletrar um verso
Heroico com as formas de adeus.

Mas o que queríamos era antes acreditar
Saber que detrás do palco se encenam outro
Espetáculo: vida, suas
Guelras sanguíneas em separações

Entrar pela casa sem que a soleira
Conte-lhe a presença de seu ranger noturno
Os objetos tão presentes querem ser olhados
Pela ausência e ter nome de pertencimento.

A carnadura dos móveis estala
É um estar em si
Que já é de si esse saber
De estar inteiro
Diante de nossa presença

Mas o que queríamos eram seres abissais
Abismos, no corpo
Filamentos imemoriais
Que sem voz estalam

Feito a lenha seca, o fogo da lareira
Essas coisas falam e destravam
Os porões da memória

Ir até a parede de azulejos frios e suspirar
Roucamente sem que fosse você
Que pronunciasse a perda
Antes que os olhos estivessem partidos.

Entrar pela casa como se fosse todo dia.

 

 

 
***

 

 
Estrangeiro

 

Em mim o outro lado
Metade enigma quando do atlas
Os países me acobertam em ruas
Embandeiradas de meus refúgios
O gosto de nata nas algas de alguns sonhos
Como se ao abrir a janela as neblinas fossem
Respostas das antigas máscaras da sinceridade
Amanhecendo azul e alguma ilusão de calma
Recordasse a expressão branca do último personagem
Que morreu em mim. Antes da gaveta aberta o outono
Quase-memória escorrendo por tudo que ainda não fui,
Mas é vida esse elo perdido, dentro de mim o rosto
A espera da mão que adormecerá meu sonho.

 

 

***

 

 

Contornar o fino fio

 
Eu não sou o que digo
Mas é como se fosse
Digo gaivotas asas feridas
Em queda dentro de duas brancas
Pupilas ao vento. Elas voam.
Num ato de deslocamentos
Entre o instante e o antigo
Entre a terra e o céu
Como se dizer estivesse fora do que eu digo
Como se quando eu falasse
Algum recorte de mim
Fosse um fio sobreposto de imagens
E fosse esse céu
Onde avisto gaivotas
Regressando dentro da língua
Essa espécie de duplicidade
Presentes em duas asas abertas
Presentes ao dizer assim contornar
As sílabas pelo fino fio
Será um jogo de alegrias
Seria jogo de tristezas
Ou um jogo de alma e corpo
Prévia anunciação
A algum recorte que fita
Dentro desse meu olhar, teu olhar.

 

 
***

 

 
As dádivas entregues

 
Quando pensas no mundo
Aonde levas o destino de delírios
Ou curva-te serenamente
Às dádivas entregues?

Amanhece como a forma condensada
Em chão de terra vermelha
Segue a orfandade
Espelhada pelo mapa

Onde fumaças de nuvens como mísseis
Eram países entre um oceano
A linguagem destituída da origem
Em que se apreende
No teu próprio corpo.

 

 

***

 

 

Desterro

 
Teu canto
Território de raiz
No arquejo das estações.
Em pousos irregulares
Ouço o murmurar
Encosto a face ao solo ancestral
Ressoando a língua
Tateando no escuro
A terra morada
Gruta de movimentos
Ondulantes no céu da boca.
No corpo, entre fogos e canções,
O rapto das danças selvagens
Incessantes passos erigem ruídos
Nos refúgios da noite.
Entre o gesto e o risco no ar
Aparição do instante
Moldado ao barro,
A espera do nascer de um sol
Uma ilha sem rota sem mapa
Desliza ao centro
Onde se ilumina,
O canto, alquimia remota
Um mar indiviso rio.

 

Maria Carolina De Bonis é autora do livro Passos ao redor do teu canto (Editora Patuá, 2015).

 

 

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108ª Leva - 02/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Cazzo Fontoura

 

ricardolaf
Foto: Ricardo Laf

 

Arranjabuso

 

Para Antônio Abujamra

 
palco é precipício
passo raso falso risco
quando possível
incerto e plástico
de impacto previsível
ou talvez
dor inteira
no instante mínimo
em que se faz laica
………………….a vida
entre risos, rumores,
vaias, choros, mitos,
é ainda assim
o silêncio interno
fingir explícito
a múltiplos cúmplices
e por fim
sedento de aplausos
o pé tão firme
em chão descalço
exige de si
o alívio, o delírio
de ir além do recuo
– à queda imprescindível.

 

 

***

 

 
Leitura neon-reciclada

 
Despetalo
do olfato
o gosto pelo cheiro
de livro velho
livro novo
e adapto-me
a um novo formato
do qual a brochura
– outrora
imprescindível
enfeite cabível na estante – já ñ vincula páginas
pq hj
discorro os olhos
sobre a luminosidade
………agressiva
sem cheiro ou tato preenchido posto q a matéria
ñ mais palpável
morre
imune
a rabiscos riscos
dobras rasuras
fixada que está em tela
luzes cliques

 

 

***

 

 

assim é caetano
vez ou outra
..amargo
avesso a quase
…..tudo
e até no papo
solto
que se bate
qualquer murmúrio
uma frase.

amar
..o caetano
dom de poucos
pq difícil
separá-lo
da arte
tragá-lo
sem som
deixar o público
……sujeito
à parte.

e quando cai
caetano
no júri moral
do populaço
o que fora amado
em singelas canções
sofre agouro
…..inflamado
de quem detesta
quando ele testa
numa ideia
num compasso.

preferem vê-lo
ao mar
naufragá-lo
para se houver
talvez braços

achar ilha
em que se ache
[isolá-lo]
ver o caetano
delirado
mirar-se n’águas
a perguntar:
e pq não amá-lo?

 

 
***

 

 

Quentura

 
Esta quentura
suor e queimaduras
q o sol impõe e apavora
nos dias de verão
só não me causam
o subversivo gosto
de reivindicar
paulistanas garoas
ou horário marcado
….preciso
das chuvas q assolam
Belém do Pará
pq a luz q irradia
em Salvador
torna suave
meu olhar cansado
nas esquinas
de onde brotam
seios
quadris e coxas
q me convertem
o ensolarado grito: “Não acabe na mulher a menina
………………………….– Deus queira: a deleitosa estação
………………………….– nunca termine.”

 

 

***

 

 

Sem brechas para Brecht

 
Ter a irresponsabilidade
de Dalton Trevisan
– sem a necessária Curitiba –
é mais revolucionário que a bandeira de Brecht.

O cinismo urbano de Machado de Assis
é infinitamente mais oblíquo
que qualquer personagem proletário
de Brecht.

Até mesmo a proposital podridão de Bukowski
fede mais que os uniformes nojentos
dos dramas de Bertold Brecht.

(tudo,
pisando a grama,
como quem não sabe de placas).

 

 
***

 

 
Ofício

 

poesia é ofício de alto risco
que aos dedos do poeta
sofre embaraço
do inacabado esboço
teimosia do diamante
…………quase pronto
sempre apto a ser lapidado
ou por desacerto
súbita menção a dilacerá-lo
lançar sem pudor
todos os versos ao lixo
pelo nobre motivo
do eterno recomeço
– nunca desperdício.

 

Cazzo Fontoura é poeta e escritor; escorpiano corrompido; pai de João, filho de Eva, tem uma mulher que é só dele; publicou um livro de poemas: Leitura neon-reciclada (editora organismo, 2014) e um de crônicas: Anticarta de Dona Lúcia – crônicas da fatídica copa do mundo no Brasil (Amazon, 2014); assina hoje o projeto Selfie Poesia (entrevistas com poetas), no youtube.

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107ª Leva - 01/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Marcus Vinícius Rodrigues

 

Deborah Dornellas
Desenho: Deborah Dornellas

 

Depois de nós

 

nada ficou

depois de nós

só este pássaro que atravessa a cidade

depois de nós dois

todas as ruas vazias
nada sobre o asfalto gasto

depois de nós dois feridos

nem isso de saudade
nem um aviso

nada

só este pássaro perdido
que ainda insiste suas asas.

 

 

 

***

 

 

 

Uivo

 

Já não escuto o que é agudo ou grave
Mesmo as aves são mero voo obscuro.
Ouço apenas os mudos,
estes lobos de olhares ocos
a percorrer bosques de fome,
onde tateio uivos.

 

 

 

***

 

 

 

De como morder

Meu amor não me beija os pés.
Ele morde meus calcanhares.

Eu nunca escapo, embora tente,

e quase sempre engasgo
de também o ter entre os dentes.

 

 

 

***

 

 

 

Tudo que sei

 

Posso saber do mar distante
Pelo barulho longe

e do sol que brilha
pela sombra que o esconde.

Posso saber que a terra gira
só de olhar para o alto

e, tonto, olhos fechados,
ainda o sangue em correnteza

pela erosão do corpo gasto
na marcha da vida,

sei o que você não disse
na hora da despedida:

– Somos nossa única certeza.

 

 

 

***

 

 

Mensageiro

 

Era como um guerreiro
por entre as farpas do destino,

ia perdido e em seu caminho
colhia espadas que caíam,

o fio cortante de uma lembrança,
a lâmina cega de uma paixão,

o corpo em talhos de quem curar-se
sempre e em vão ainda tenta,

nesta sina de mensageiro
que em si leva a sentença.

 

Marcus Vinícius Rodrigues nasceu em Ilhéus-BA e vive em Salvador. Escreve ficção e poesia. Publicou os livros “Pequeno inventário das ausências” (Poesia, Prêmio Fundação Casa de Jorge Amado, 2001); “3 vestidos e meu corpo nu” (Contos, P55 Edições, 2009), “Eros resoluto” (Contos, P55 Edições, 2010), “Cada dia sobre a terra” (Contos, Ed Caramurê/EppPublicidade, 2010), “Se tua mão te ofende” (Novela, P55 Edições, 2014) e “Arquivos de um corpo em viagem” (poesia, Editora Mondrongo, 2015). Seu conto “A omoplata” venceu um dos concursos Newton Sampaio, edição 2009, promovido pela Secretaria de Cultura do Estado do Paraná.

 

 

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107ª Leva - 01/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Ellen Maria Vasconcellos

 

Deborah Dornellas
Desenho: Deborah Dornellas

 

O espetáculo da pedra

 

selvagem ela
levanta, cuida das folhas das plantas
tira os nós dos cabelos
as raízes dos dias cheias de umidade
trabalha em silêncio
até a noite quando avança
pelo chão da sala e olha o teto
dedos entrelaçados atrás da cabeça
cresce sem perceber
também se alimenta de luz
até que não se cabe.

 

 

 

***

 

 

 

Sereníssima

 

Sento e espero. Não posso respirar fundo. Me dá tontura e sinto que se antes de afogar, desmaio. Escuto desde aqui a máquina fazendo seu trabalho. Ela gira a um lado e outro sem sair do lugar, as roupas magicamente clareiam. O volume baixa e depois volta a subir. Enche o tanque e mergulho de olhos fechados. Tudo submerso em água macia. Não sinto minhas lágrimas desde o chão da sala. Veneza. Parto limpa a torcer peça por peça. Vou ao quintal. Estendo em corda bamba e outra vez, me estiro. A forma como o vento leva em gotas este silêncio das mangas não se repete.

 

 

 

***

 

 

 

Mergulho impossível

 

Tem um pouco de lava
Tem um pouco de gelo
lava endurecida
gelo derretido
e o silêncio das pedras reina
na encubadora das perguntas
sobre o início e o fim de tudo.

 

 

 

***

 

 

 

Poesia menor

 

Quando estou meio cheia
uso canudos em casa
Bolhinhas no fundo do copo
de requeijão

E a certeza íntima
E a dúvida exposta
Parte de mim, líquida
Outra, gasosa.

 

 

 

***

 

 

 

Dança ou Luta (girl power)

 

Eu já tenho o não antecedido
a indiscrição da inércia
o “privilégio” da derrota
o enunciado aceso que impõe o passo
e a verdade herege do tablado
que teima em tentar me controlar.

Mas eu também tenho
a possibilidade ainda que reprimida do sim
a força que desacata o fracasso
a vingança que corta a memória
o movimento entre o improviso
e o fandango que insisto, delicada e furiosa, em bailar.

 

Ellen Maria Vasconcellos. Natural de Santos, formada em Letras na USP, onde finaliza o mestrado em literatura contemporânea. Autora do livro de poemas Chacharitas & gambuzinos, publicado bilíngue (português e espanhol) pela Editora Patuá (2015). Tradutora do livro “Ângulo de guinada”, do autor Ben Lerner, publicado em ebook pela e-galáxia (2015). Tem seus textos publicados em diversas revistas e antologias no Brasil, Chile, Espanha e México. Toma fanta uva e café sem açúcar. Acredita em fantasmas e desconfia dos vivos. Enxerga muito bem, mas às vezes fecha os olhos. Não tem o coração de pedra.

 

 

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107ª Leva - 01/2016 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Tanussi Cardoso

 

Deborah Dornellas
Desenho: Deborah Dornellas

 

PAISAGEM INÚTIL

 
porque não haverá segunda vez
meus domingos hão de ficar
plantados
na terra ou nos fios
onde se aninham os pássaros

errar não é humano – é santo

pecar é carregar nos ombros
os erros de Deus

 

 
***

 

 

 

AUTORRETRATO

 

 
O tigre, em silêncio,
é o que penso.

Quando ataca,
é o que posso.

 

 

 

***

 

 
A HORA ABSOLUTA

 

 

“Sou como o corifeu medieval
que percorre as aldeias e vai embora.
É necessário que quando eu partir
o palco não fique vazio.”
Franco Basaglia

 

 

Estranhos
meus mortos abrem as janelas
penetram em meu quarto
e me sufocam.
Insinuantes
me beijam e sangram em mim
alegrias e pecados
acariciando, sem pudor
meus sonhos, minhas partes
e meus ossos.
Meus mortos e seus gemidos
têm rostos, sinais
e olhos que fagulham
calafrios.
Ousados
vêm no breu do sono
e dormem em minha cama
e me despem
e se debruçam sobre meu corpo
silentes e queridos
e rezam
e choram por mim
como a lua clamando
sua outra metade
como um espelho
colando os próprios vidros.
Meus mortos sem censura
meus delicados mortos
que, à noite, penteiam meus cabelos
e, solidários, preparam o meu jardim.

 

 

 

***

 

 
QUADRO

 
As moscas impacientes
da rodoviária
espantam o sono
das estátuas.

 

 

 

***

 

 
RETRATO

 
Sou o que escrevo.

A busca permanente
da palavra exata.

E sua ausência.

 

Tanussi Cardoso nasceu e vive no Rio de Janeiro. Formado em Jornalismo e em Direito. É poeta, crítico, contista e letrista de MPB. Tem poemas publicados em diversos países e 11 livros lançados.

 

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107ª Leva - 01/2016 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Alex Simões

 

Deborah Dornellas
Desenho: Deborah Dornellas

 

oh ménage

 
porque existe a meta física
e é tua carne que procuro
foda-se a tradição lírica
saio de cima do muro
e se a reta é meio oblíqua
e viver não tão seguro
lhe proponho uma promíscua
relação a dois e juro
sermos tão multiplicados
nosso encontro tão fictício
que bastamos prum animado
sexo grupal vitalício.
quantos vivem em você?
com quem posso me entender?

 

 

 
***

 

 

 

meu canto pras paredes

 
o preconceito é uma parede enorme
contra a qual desde sempre me empurraram
mas se tentaram e não me executaram
é que aprendi bem cedo que não dorme
o apontado: preto bicha pobre
no paredão cresceu e ficou forte
em que pese a dor que o véu da morte
bem do seu lado alguns amigos cobre
e é por eles que não me vitimo
nem quero mais derrubar a parede
apenas canto para além de um íntimo
desejo: reforçar rizoma e rede
cheia de nós, que não estou só, sou vivo.
picho a parede: verso afirmativo.

 

 

 

***

 

 

 
e viva à liberdade de opressão
na terra onde quem tem muitos direitos
exerce o seu direito à opinião
de ser melhor que quem não tem direitos
porque direitos há, não pra insolentes,
aqueles que reclamam sem saber
que nesta terra os bons e os inocentes
são assim definidos ao nascer
e quem nasceu no meio de pessoas,
que são consideradas de segunda
classe, tem chances de viver de boa:
falar a língua deles ou da bunda
viver mexendo pra escapar do abate.
entre a guerrilha e a festa, deu empate.

 

 

 
***

 

 

 

se queimamos
(soneto alexsandrino e vândalo)

 
se queimamos neurônios fazendo poesia
em manifestação, em protesto, em-progresso,
deitado em rede em casa no sofá congresso
no altar no chão da praça, bar, tabacaria
sim queimamos neurônios fazendo poesia
ganhaperdemos tempo bloqueando o acesso
ao projeto do decréscimo do ingresso
do contingente em excesso à perolaria
porque escrever é contra porque escrever é incerto
porque o poema só existe em um livro aberto
e não há nada que cale a boca do poeta
não há juiz que dê um outro veredito
se o poeta-réu deixou em seus escritos
um pouco de sangue ou Pandora, na boceta.

 

 

 
***

 

 

 

bursite, tradição e tá lento, o individual

 
doem-me os ombros, tantos são os pesos.
línguas mortas e vivas misturadas,
a plêiade no peito embaralhada,
os esquecidos como contrapeso.
mil vozes confundidas no desejo
de ter consigo a minha entrelaçada
e o medo de parar na encruzilhada,
entre rimas ideias e solfejos.
a folha em branco amarelada está.
há sempre um risco de perder-se, há
sempre um mesmo fantasma em breve assomo.
o mundo derretendo-se em milênios:
poetas trôpegos, prestos boêmios,
eu e você cantando velhos nomos.

 

 

 

***

 

 

 

sóbria declaração

 
não me inspiras vãos clichês caducos,
versos de amor com intenções de morte,
linhas inúteis mas com tom de porte
palavras tolas para o amor de eunucos.
não me inspiras mais do que tu és
e és o que vejo, nada mais que isto,
sou o que quiseres e por ter-te visto
lanço-me a ti, mas não te beijo os pés.
é que no amor não me contenta a espera
nem mesmo a dor inútil de não ter.
prendo-me à vida, não curto quimeras,
dou-me por partes, se tiver prazer.
neste soneto que a ti dedico
peço que leias o que não, escrito.

 

 

 

 

***

 

 

 
à literatura em si

 
este soneto não quer ser a obra
de um autor desesperado e circunspecto
que produz aos magotes poemetos
para neles caber o que foi sobra
de outro poema que não se quis sobra
do nariz entalhado por Gepeto.
este soneto não é um soneto
e este quarteto não é do outro a dobra,
nem sexteto os tercetos em sequência
de rima interpolada, aqui cosendo
a virtuosa e vazia inexperiência
em um registro que vai, num crescendo,
da língua que se fala sem ciência
a um saber que se constrói: fazendo

 

 

 

***

 

 

 

os versos? esconderam-se no escuro.
portanto, sempre dizem mais, que eu saiba.
esperam decantar, para que caiba
a poesia nos corações duros.
palavras não significam somente
o que delas esperar. poemas
não são meras conjunções de monemas.
não os entendas, apenas os sente.
abre o coração mais que os ouvidos
e recebe a poesia com amor,
sem pressenti-la, deixa-a, por favor,
pronunciar-te o mal dos consumidos
e ainda os prazeres incontíveis.
e expurgarás a dor com que convives.

 

Alex Simões é poeta, tradutor e performer. Publicou “Quarenta e Uns Sonetos Catados” (2013) e “(hai)céufies” (2014). Tem participações em diversas revistas e antologias literárias nacionais e internacionais. Os poemas aqui publicados integram o livro “Contrassonetos: catados & via vândala”, lançado em 2015 pela Editora Mondrongo.