“Dame ilusion, esperanza, ganas de vivir y no me olvides”. (Frida Kahlo)
sustento apenas
o status de sobrevivente
o dia que é azul no alto
a febre na maçã do rosto
o dito que por medo não saiu
o ar filtrado em filme termoplástico
são sintéticas as redes em que me fabrico
há um adesivo em meu peito que diz:
não modular a vida
tudo transparece quando violado
o amor o perdão a mágoa o inferno
conservar-se irrita e descontinua
a origem do cuidado pode ser o ferimento
elefante e pomba têm o mesmo peso nas nuvens
***
A CONSTRUÇÃO DO DIA
para Ana Lúcia Sorrentino
seja como for
tomar a arma dos punhos
e cometer questões
contra toda possibilidade
exigir de si o plano essencial
dos tentares
a tal grau de cuidado
dotar o coração de pássaros
para refratar os prontos
ser vivo o bastante
para morrer pelo êxtase
das coisas até mesmas
servir abismos aos olhos
nos esmagos de inverdade
e padecer de interminâncias
***
FERIDAS FERIDAS
na vastidão do que vivemos
(os dias correm sem nos consultar),
há algo que não nos deixa ser pó:
um rumor contínuo dentro de nós
(só o amor desafia a morte da alma).
os pés caminham para o incerto,
o coração para o único destino que conhece,
o amor é a graça de ser simples e
o privilégio das lágrimas não é dos fracos.
o amor não passa ileso
(passamos amor nas feridas
e ferimos o amor com mágoas).
olhamos além e o medo não foge.
resistimos (vamos comemorar as nossas resistências?)
e cambaleamos em sonhos.
os olhos cansados não nos deixam ver
a flor no asfalto, ao dobrar a esquina
o texto é o mesmo na boca do morto
que nos alarga a esperança
(“o mais sórdido dos sentimentos?”).
vagueamos em vertigens sãs.
a alma pedindo pão,
os olhos pedindo céu,
os ombros pedindo chão
(pelo correio: nuvens de papel).
desabamento de chuva sem fim:
o amor pedindo perdão.
***
O SIMPLES AMOR
amor meu imaculado
única matéria irretratável
impossível de ser detida
manipulada ou destruída
amor meu
céu de proporções ideais
canal de abismos
acesso de revoluções
de amor
***
ESSAS TARDES NENHUMAS
na implacável badalada das horas
(agredindo o universo com agouros de morte),
ouve-se um tímido ressoar de rebeldia: o corpo
(ora desperto, ora entorpecido por repetição)
regurgita o cansaço e – vomitando regras –
ensaia uma humilde resistência.
em segundos, une-se à alma dizendo não.
as mãos afrouxam os laços, os pés deixam
os sapatos: olhos contam nuvens.
e quase que se consegue chegar a si.
mas as horas gritam derrubando os ombros,
espalhando náusea. então pisamos o chão das coisas mortas.
o relógio bate forte, as horas levam o sangue.
Germano Viana Xavier, 31, nasceu na Chapada Diamantina, é mestrando em Letras, bacharel em Comunicação Social/Jornalismo em Multimeios e licenciado em Letras/Português e suas Literaturas. Possui textos publicados em diversas revistas eletrônicas. É colunista nos portais Página Cultural, Entrementes e idealizador/coordenador editorial do Jornal de Literatura e Arte “O Equador das Coisas” (ISSN 2357 8025).
Macho de cavalo
que galopa trovas
do pensamento,
engole as águas
de pasto e de feno.
Há terror nos ventos
do cavalo magoado,
que perdido rompe,
alado, as trincheiras
e cai como anjo
de tormento.
Há éguas rondando
pratos de esquecimento.
Há rodas e correias
na carruagem violenta.
Naquela crina
de ferraduras negras
um cavalo
de patas ralas:
Os sete abismos da vida.
***
DA INVENÇÃO DA VIDA
Do mar que se inventa
emerge uma rocha.
Do que se inventou fora disso
há rumores de um tempo
há cavalos de água
que nunca pude galopar
heróis de alga
que nunca me salvaram.
***
FÁBULA
No teu aprisco imenso
sempre houve uma ovelha
pequena, cinzenta, desajeitada
aquela que frente ao cajado,
ao latido do cão também imenso,
fugia e não se guiava
aquela que diante do espelho d’água
não cria na imagem que se revelava
nem na eternidade de que ouvia
aquela que nua, de lã cortada,
sussurrava cantos às irmãs.
Uma ovelha: tal qual tantos bodes.
***
SEGREDO
Pouco sente o ruído das sombras
ou a linguagem dos pássaros.
A língua é matéria adiada
assim como a morte
é a queda dos que divagam
o velho magro adotado
penetra na mesma terra
em que heróis choraram.
Segue a vida: sutil perenidade
mesmo timbre, mesmo lamento.
E o firmamento que nos cobre
não ouve a língua das sombras
ou o ruído da morte.
***
UMBILICAL
As casas que me habitaram
nunca disseram adeus.
No meu corpo de desenganos
cada madeira, cada farpa.
Entre o menino que se foi
e o homem que não chegara,
impõe-se cada cômodo…
alguns sonhos, ambas fraquezas.
Às vezes penso que quem
me pariu não foi a mãe ida,
mas o concreto com frestas
que iluminou planos de pipas,
minha última barba.
A casa que agora me vive
é um cubículo, um palácio
de pedras agras.
***
CONCERTO PARA CAVALOS
Despidos de crinas que não se reconhecem
Cravados de marcas de ferro
Fugidos pela palha que nega o que desejam
Mortos pelas pirâmides que migraram
Surdos pela sinfonia que não se nomeia
Loucos de manadas de dragões que cospem estrelas
Vivos pelas correntes que berram astros
… assim são os cavalos do concerto do meu coração
crianças que preparam o primeiro verso,
feras que não se sujeitam.
***
LANCINANTE
Guardados os tentáculos
o que aflora no orvalho
são os males indivisíveis,
cicatrizes não costuradas.
O que tumultua a partida
é o horário errado, um
relógio de ponteiros gastos.
Lançadas as sombras no lixo
guarda-se para a próxima coragem
um depois que não virá.
Clarissa Macedo nasceu em Salvador e vive em Feira de Santana, Bahia. É licenciada em Letras Vernáculas (UEFS), mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela mesma instituição e doutoranda em Literatura e Cultura pela UFBA. Atua como revisora e professora. Ministra oficinas de escrita criativa. É autora de “O trem vermelho que partiu das cinzas” (2014). Sua poesia está sendo traduzida para o espanhol. Os poemas aqui publicados fazem parte do mais novo livro da autora, “Na pata do cavalo há sete abismos” (Ed. 7 Letras).
Poço químico
Tristezas em risco
Limpo, águas em fúria
Deixar o socorro à natureza
Ou pintar estrelas no muro
Monte de nervos à solta
Em desonra à criança
O vício da cólera
Contra a própria cabeça
…
Peito trancado cuidado: risco de morte
Diz a caveira
Navego onde não posso aportar
O cínico embargo
Do desejo sem fronteiras
…
Noite, casa vazia
Alguém me bate à janela
Teu beijo
Ou a doce chama
Do fim
***
ANTICRISTO
A ferida que tenho na mão
Não é de um prego, eu mesmo a puncei
Em outra circunstância aguda, em meio
À perturbação
Não perdoei ladrões, prostitutas, o desvalido
Juntou-se a eles para roubar um banco
Mas sem render ninguém, que somos
Gente de bem
Quero ser julgado apenas pelo que não fiz
Definhar entre paramédicos
No espelho negro de Alice
Doar meus órgãos pra quem não me suporta
Deixar livros e discos para os amigos
Entre as incertezas que sigo
As águas andaram sobre mim levando
Alguma coisa que restava de esteio
Sei que quando Lázaro,
Violinista bêbado falido que toca em frente ao
Conjunto Nacional,
Viu-me chorando sorriu
Dei-lhe dois reais para que tocasse a
Música de meu cortejo
Como oração de um infeliz
Que se esqueceu a que veio
E se perdeu por aí –
Ao final do passeio
Enquanto se fechava um olho
O outro viu o sinal se abrir
Quero ressuscitar em teus braços
Assim como morri
***
MONTANHA-RUSSA
Cume: teus olhos
Linha do chão: o que sempre fui
Antes de teus olhos
Esse ir e vir infinito
Entre estrela e poeira morto
Na velocidade do que não me
Pertence
…
Na insaciável mudez do verme que
Espreita
Expectativa enquanto trajeto
No pé da colina
Ultrapassando nuvens como pedras no limite
Da trilha
…
No instante em que tudo se
anula
Entre voo e queda
Enredo e cisma
Arrebento redes e cintos
Morte vencida
…
Criança
Em nave-balanço
Que olha acima
Por sobre os ombros do espaço
Estrada além do cume
Ponto de partida
…
Teus olhos, meu chão: o que
Serei
Sem volta
Em longa estada
Novo impulso de
Vida
***
I – ABSTRACIONISMO
(Sortilégio)
O que o osso
Apreende da carne
E incorpora à sapiência
Do chão
(há chão, enquanto)
Reentrâncias
O não dito do caule
Brota nas folhas
Umidade esquecida
Prenúncio
Voz da partida
(eterno retorno: pintura refeita)
Arroubos pictóricos do clima –
Saúda-te ao chegar
O paralítico entorno, campina de
Tua revoada
(o ajoelhar de um pôr do sol)
Perplexidade, miasma
(Teu pouso faz o meu voo)
Era eu natureza morta
Sombra a pinceladas
Redivivo
O além-esboço
Perfeição falseada
– um traço que se regenera –
Preconizados na paleta
Vermelho que ornamenta a fala
Moldura ciliada que pisca e entrevê
A dinâmica do abismo
– então, essa, verdadeira –
Insensatez da ponte
Nunca dantes cruzada
E as quedas do mesmo, incontido, inconteste
Ecos da explosão primária
– tudo você e eu e o sol e o osso surgidos do nada –
(a cegueira do contraluz)
Cor o persistir na procura
Do original perdido
No tom inapreensível da tua
Arte abstrata
***
PONTES
Abstrata
Aquela minha pergunta
Esqueleto da conexão
Sem lastro
De um verso solto
A métrica imaginada
O vão sem os pilares
Letreiros apagados
No acostamento
A contramão dos fatos
O desnível
Entre o corredor e o quarto
– Hiatos –
Quem amou bem sabe
Que a resposta ao amor
Está fora do prumo
No que a moldura esconde
Daquele trecho não restaurado
Do quadro.
Edson Valente é jornalista e autor dos livros Refluxos (Ateliê Editorial, 2010) e Pow-emas e outros jabs líricos (Editora Patuá, 2014). Seus poemas e contos já foram publicados nas revistas literárias Arte e Letra: Estórias, mallarmargens e Walking in Briarcliff e no jornal mexicano Despertar.
Olhos que gritam
Miados de amor
Noite gelada
Meus seios serpenteiam
Enroscam
Nosso fogo cruzado.
Cristina Arruda
Desenho: Cristina Arruda
Lamento
……………
.mia
vasculha muro
carteira vazia
esquece a lua
odeia o miado
do gato, engole o rato
sapo no furo do queijo
espera
lata vazia
agrada
ronrona a gata
enquanto só
e vadia
arranha brisa.
Adriana Aneli
***
Mulher polvo
Cabeça forte
Na luta do cotidiano
Tinge o mundo
Que não quer
E foge para se esconder
Na força de seus braços
que desejam.
Cristina Arruda
Desenho: Cristina Arruda
Ultrapassagem
……………………
sai da toca
cruza mares
caprichosos pensamentos
escapam ………………..presa
ou caça
mimetiza
fundo de céu ………………………em mar de
estrela
a sua hora.
Adriana Aneli
***
Mulher Pássaro
Flores no corpo
Penas que cobrem
Braços não tem
Chegaram asas
Acordou o afeto
Que motivou o voo
Pode saltar.
Cristina Arruda
Desenho: Cristina Arruda
constrói poesia
com pés de vento
grito cortado
coração a pena
silêncio fala
cala
a vontade
em sonho
peixe do mar ….nada?
: voa.
Adriana Aneli
***
Lagarteio
Aonde vai mulher?
Com estes olhos de borboleta
Se ainda vive lagarta
Morreste sem perceber
Arrastando asas
Por um amor qualquer
Aonde vai mulher?
Cristina Arruda
Desenho: Cristina Arruda
Cilada
despejada do casulo
aposta em asas
rotas
costura destinos
fabrica redes
felizarda
desde menina sabe
cair.
Adriana Aneli
***
Sobrevivência
Corpo de mulher
Recortado se esvaindo
Alma ferida
Num lento ritmo
Move a nova vida
Protege a cria
Diz adeus
E entra no mar.
Cristina Arruda
Desenho: Cristina Arruda
Corpo lunar
onda gelada
castelo de cartas
perdoa
e não esquece
um dia volta
casca quebrada
para recuperar o ninho.
Adriana Aneli
Mineira de Belo Horizonte, Cristina Arruda é formada em ciências biológicas e odontologia pela UFMG. Artista plástica autodidata há mais de 15 anos, vive em Belo Horizonte onde realizou exposições individuais “Universo Feminino” e “Rebento”, ambas no Centro Cultural Lagoa do Nado, além de exposições coletivas.
Adriana Aneli é escritora e dramaturga do grupo Baila Comigo. Membro Correspondente da UBE-RJ e do Coletivo Marianas. Idealizadora do projeto Tempestade Urbana, comunidade que reúne artistas e trabalhos de várias partes do mundo. Ao lado de Chris Herrmann, é editora da página literária Boca a Penas. Formada em Direito pela USP e pós-graduada em Direito de Família e Mediação de Conflitos familiares.
Por que nada permanece inteiriço
em sua casca,
protegido?
um dia racha
e pela fenda
passam peixes e navios
fantasmas que na noite ganham vulto:
fogo, chama, fumaça
nada permanece inteiro
tudo se esgarça
assim é o intervalado texto do destino,
forrando a mesa
por que não se estende eterno,
se é tão fino?
por que não dura a inteireza?
***
FELICIDADE
É essa sombra que me passeia
essa possibilidade ………………………de ser
esse ser não sendo
alforje quase cheio
(menos que isso. Menos.)
nuvem oblíqua
em um céu de papel e tule
é essa consciência, talvez, de incompletude
ou da vida, reticente e vaga
é esse fio de navalha em que me equilibro ……..sem asa que me suspenda ……..ou mão que me segure
é essa trama em ouro e cobre …….que na solidão do quarto se urde.
***
MAR DA CHINA
a minha mãe
Por sobre as ondas da China
onde se inscrevem palavras
todo o alfabeto navega
só pra você e pra mim
no oceano amarelo
–- puro caminho de água –
tudo é papel e nanquim
da China toda a beleza
(não fosse o mar, que seria?)
passa ao Japão das cerejas:
a porcelana e a seda
as invenções e a arte
(que norte enfim haveria
não fossem bússola e letra?)
***
POUR CAMILLE
A Camille Claudel
Quem modela a vida
(se tudo é forma
e belo
como flui o Sena) ?
Olha quanto é duro o mármore
e quebradiço
mas teu cinzel
sob o martelo o dobra
– é teu feitiço –
revelando segredos lá fincados.
Quantas vezes olhaste o rio
em frente à tua casa
e em que pensavas
rebelde menina apaixonada pelo Amor?
Esqueceste que não se molda o Amor:
sua matéria é vil
sua matéria é o nada.
Mas não estás só.
De certa forma
enlouquecemos todos ………………………..em asilos ………………………………..exílios …………………………………………idílios.
Somos todos loucos
não tu só
com teus olhos azuis escancarados
olhando-nos do lado avesso do vidro
– tolo artifício:
não existe abrigo
contra a luz da loucura.
Deixa queimar até os ossos
(e não será tudo mesmo
reduzido a cinzas?)
Deixa arder fundo
pois só essa brasa
– que nos traz a morte –
nos ilumina.
***
LUX DELENDA EST
LUX DELENDA EST, alguém disse
e houve a escuridão
– ……………………..esse apocalipse –
manhãs e noites em confusão.
Era chegada a vez do Homem
– oh quão dessemelhante! –
homem e mulher, deles chegara a vez.
Onde o Paraíso …………………………….– esta maçã –
no melhor pedaço, arrancada aos dentes?
era tudo agora pelo avesso
e viram como a vida é vã ……………………………………….. (é sempre vã)
e que tudo tinha fim ………………………………………. (como começo).
(Fosse um domingo talvez?)
Alguém sentenciou:
Não mais multiplicai-vos
e que não haja mais ódio sobre a terra
nem amor.
Dispersai-vos dispersai-vos
sem todavia esquecer a minha imagem!
Restavam, porém, os bichos
e o mesmo alguém falou:
Não mais seres vivos ………………………………………. – basta com tudo isso! –
não mais voem aves por sobre a terra
nem haja mais serpentes rastejantes ………………………………… ….segundo sua espécie.
Não mais animais domésticos ………………………………… ……………nem feras
de olhar faiscante.
Alguém achou que isso era bom
e como tudo mesmo fora já confundido
e já não havia precisão
de lua sol e estrelas …………………………………… – a governar luz e trevas –
com um gesto
todos os astros foram abolidos ………………………………… ……….eternamente.
Aí cessou a erva verdejante
e não houve mais árvores
nem frutos com sua semente, …………………………………. nem flor.
E as águas tornaram a mergulhar nas águas
não mais houve mares ………………………………….. – nem lágrimas –
nem terra de continente.
Desfez-se enfim o firmamento
e só aí então
esse alguém descansou.
Elizabeth Hazin (Recife-PE, 1951). Publicou Poesias (1974), Verso e reverso (1980), Casa de vidro (1982), Arco-íris (1983), Espelho meu (1985), Martu (1987), O arqueiro e a lua (1994). Em 2006, a Vieira & Lent reeditou uma segunda edição — revista e ampliada — de Martu, livro vencedor do Prêmio Rio de Literatura (1986) e foi publicado Lêgo & Davinovich (7Letras) escrito a quatro mãos com Davino Sena. Em 2010, a Vieira & Lent republicou Arco-íris e em 2014 publicou Mágica de Carrosel (infantil). Atualmente é professora Associada Plena junto ao Programa de Pós-Graduação da UnB, líder do grupo de pesquisa Estudos Osmanianos.
Que resvala de você
sem deixar rastros
que não compactua com o cotidiano –
a música inexecutável
a promessa inexequível
a víscera mais escondida
incutida no hálito de café e cigarro
Que não te nomeia
os muitos braços e pernas e bocas e gritos
aquilo que às vezes se traduz em lágrimas
algo embaçado que te fixa o olhar
num dia comum de semana
Que foge e te retém
enquanto você ri e sangra
e me olha
e me abraça
[já são tantos lenços ensanguentados]
ato-me a moldes fugazes
da tua alma inestancável.
***
Toda vez que for escrever
colocar ao lado este porrete
bater à toa
de olhos vendados
como o choque dum corpo no mar
à deriva
Toda vez que for escrever
bater forte
como aquilo que abriu minha cabeça
outro dia
uma pancadaria
cujo barulho
infernal
é tanto maior silencia.
***
Verhoeveniana II
Despi uma estação indomada
com protuberâncias de infinito na pele
e afora as violentas mordidas
a desintegração dos átomos da boca
as bifurcações luminosas das nádegas
as secreções nervosas como piche quente
o consentimento convulsivo
dos dedos entrelaçados
era mais um episódio
de um peito escavacado
pelo amor.
***
Por onde tua presença me chega
não sei
uma música incrustada na parede
dos ouvidos
um país arrancado de algum autorretrato
Não sei mesmo dos teus
passos mordidas
violentas insolações
não sei como cospe
leopardos sanguíneos em meu peito
nem de como em minhas virilhas
maçãs podres acumulam à revelia
De toda febre
em meus pelos
teu rosto muito forte
se contrai em arpões
rixas taras arrepios
vermelhos
líquidos magmáticos
pássaros coagulados
trepidando na ponta dos dedos.
***
Abertura para um sol em tuas costas
um pomar na ponta dos teus dedos
tua cútis uma música sibila arrepios
a boca transeunte trespassada de águas
as palavras ardendo em silêncio eriçadas
motim de dilúvios enluarados lábios
assento de frêmitos olhando atônitos
teu rosto esta costura em meu coração
assediado por minhas vísceras famintas.
Estou sentada no limiar da casa
Inteira e magra
A rua abre-se no vidro cheio de reflexos
Tecidos por aranhas diurnas
Anoitecendo
Seguro o quotidiano quieto
Como um bicho de asas frágeis entre os dedos
Um pássaro de porcelana viva tinge a manhã
Do ocre da parede imaginado abre-se um esgar de humidade
O sorriso de uma velha ausente
Ou o caminho deserto descendo
O gato jaz no centro inavegado da sala
Dentro dos meus ossos faz imenso frio
Já só poderia segurar uma violeta nas mãos descarnadas
E atrás de mim uma amiga nua
Um sonho desenrolado
No papel roto da parede
***
Desabrocha-me uma flor no estômago
Um lírio expandido de água morna
Que me marca o centro líquido do corpo
Depois arquejo e solto-me no umbigo de água
Meridiano em volta da terra
Em volta da bolsa minha dos alimentos
Isto não é a escrita
Uma massa cega murada ao verso
Tão só a linha brilhante
Um nascimento inteiro pedindo água
***
Mastigo a maçã…
O dia é polido como um espelho
Mas impuro
Tingido pelos sons da minha boca
Pela curvatura voluptuosa do fruto que o preenche
Na quina dos dias há sempre o redondo de uma forma comestível
Não posso estar sentada que uma folha me não fira os dedos lisos
Clorofila indelével marcando a pele
Se a sombra da maçã é suave e fria sobre o solo
O estômago desfaz o suco amarelo do fruto
Os intestinos lavados
Prendem-te ao sulco lavrado na terra
E tudo isto é talvez uma mesma luminosidade
Ancorada debaixo dos olhos
***
Arte Poética
Sono
Abro o olho silente da palavra
As coisas monologam infindavelmente consigo próprias
Opacas com o halo vaporoso do meu sono
Reconduzo as palavras ao seu lugar mais ínfero
Mas deixo-as sujas de terra: inteiras
Esse é um desenho pleno, rugoso,
Um desenho de barro e cal em que nos sabemos
Sem nome
Entre as linhas
Esse pequeno toque
Sombreação ligeira da mudez
Um cavalo desenha-se no vidro fosco do meu sonho
Mas não lhe sei o corpo
Isso
O flanco
Era já só pressentimento lasso da mão
Dor
Talvez memória côncava de pele
Mas ainda…pertença
O vácuo dos dedos aflige o futuro inteiro com o interior opaco do animal
E este era o momento presente
***
Nenhuma dor latente nos mina:
Somos apenas percorridos por um pequeno animal agudo.
Ana Horta nasceu em Lisboa, em 1975. Estudou Filosofia e Literatura na Universidade Nova de Lisboa e Fotografia e História de Arte no Ar.Co (Centro de Arte e Comunicação Visual). Escreve poesia desde que se lembra e nunca mais conseguiu parar. Estes poemas pertencem ao seu primeiro livro: “Inventa uma voz no rodopio do corpo”, Black Sun Editores, Lisboa, Dezembro de 2002. Tem colaborado em diversas revistas de poesia e um segundo livro de poemas no prelo: “Ínfimo Vento, Volta d’Mar”, Outubro de 2015.
Tenho cabelos que alcançam o teto
a ordem inversa das coisas cravada no peito
a gravidade do gozo
o temor dos pés no chão
o último suspiro além boca
Trago gotas de alcatrão na memória
e uma pífia retórica
coisa de quem nasceu antiga
blefa com a vida
e não tranca as portas da alma
***
Adicta
Não menos que o vento
que te lambeu agora
não mais que as horas
que custam passar
soo o interstício
principio o precipício
que dorme em cada célula
libélula diplomada
em jornada atemporal
Adicta de insetos
veto monstros alheios
meu veio é agridoce
como a vida
qualquer semelhança
não é mera coincidência
é conivência de sol
e sal
***
Auto retrato
Tenho esta espera
estampada no rosto
um lusco fusco na voz
martírio de inquietos
fechadura conferida mil vezes
praga que não se entrega
Sou o que fica
a tiririca na grama
sou o acordo necessário
quando todos foram
o voluntário das palavras
a larva dos dias
a agonia sabor chocolate
que late late
e abocanha vazios
Sou o cio em carne
promessas descumpridas
feridas cicatrizadas
desvarios
***
Ungida
Ela gritava impropérios
cacos na boca
rouca e descabelada
Ela gritava impropérios
não há critérios em desanuviar
cingiu a testa marcada
saiu da engorda
negou o abate
fez alarde
acertou o tom
batom na boca
vermelho na veia
quente
Ela gritou impropérios
e o império de ajustes caiu
Ela juntou os pedaços
de coração quebrantado
desajustada e desmedida
ungida em amor
Próprio
***
Nômade
..pinçar coágulos encravados
redesenhar alentos
rede
moinhos de todos os matizes
perder a conta que acrescenta
sustentar-se por tentáculos
abraçar variáveis que mudam de estação
um porto volúvel
um corpo aparente
de crescentes naufrágios
imensidão de rascunhos
um ser inscrito em palavras
Nilcéia Kremer é gaúcha, ariana nascida em 80. Das Letras por formação tornou-se conjuradora de palavras. Apaixonada pela arte já provou um pouquinho de várias linguagens, e descobriu que o melhor sabor se dá no encontro entre elas. Crê na arte comunhão. Tem poemas publicados nas revistas Plural (Scenarium), Mallarmargens, Limbo e O Emplasto.
Eu leio nos teus lábios que a noite não virá
A noite não se deixa molestar por ti
A violência com que te resguardas de ti mesmo
Tática jurídica ou religiosa para que permaneças entre nós
O teu êxito precário e a evidência desproporcional de seu vazio
Saímos contigo inocentados para a noite
Não há negação de nada em nossa convivência
Perdemos uma boa razão para nos educarmos a todos
A noite revelada como um sacrário de conveniências
Nossas preocupações desaparecem ao minguar do dia
Não vemos vantagem alguma em nos atingirmos
Somos uma desordem guardada em vantagens
Eu quero rir de tudo à noite inteira
O teu silêncio não me recupera senão o riso
A tua ausência me estimula a rir por todos nós
A sombra é como uma morte acidentada em frases
Aos poucos te alimentas da tragédia que há em ti
O teu corpo cansado de rir de si mesmo
A tua noite querendo ser a negação de teus sentidos
A máscara de êxitos de uma noite envergonhada
Imagem: Floriano Martins
2.
Eu estou diretamente caindo em ti e não sei como evitá-lo
É tão rápido o movimento que mal posso identificá-lo
Nós todos precisamos de uma vida mais lenta para saber que é nossa
Estamos sempre à espreita de nossas falhas
Um perigo comum a todas as angústias
A sorte desfalecida
Por onde as linhas de tua lucidez começam a se desentender
A noite sem saber ao certo se é falta ou excesso
Em que parte de tua harmonia pode haver um inferno
Eu rio de tuas noites de horror que se imaginam esplêndidas
Seguimos caindo porque não encarnamos a queda
Como alguém que não consegue matar-se
A ideia da morte como um refúgio onde o riso não tem abrigo
A morte se ri ante a preocupação de leito ou túmulo
Eu beijo a tua noite sem repouso
Tuas lágrimas riem da tempestade de meus anseios
A noite não exige para si nenhum poder
Eu não sei por onde passas com tua queda desatada em sorte
Não conheço senão o infortúnio e sua falsa glória
Os versos com que cobres o olhar
A miserável alegria com que te renovas
Cair por um momento
Rezar além das forças
Tomar armas
Meter-se no cultivo mesquinho de piedades
Desfigurar a ingenuidade
Nenhum de nós sabe quantas noites pode morrer esta noite
Temos esta dificuldade milenar
Jamais eliminaremos todos os inimigos
O homem está composto pelo que sabe e o que não sabe de si
Não há outra ciência
Imagem: Floriano Martins
3.
O idealismo da morte de Deus é um bom verso
A metáfora do eterno retorno se confunde com a do eterno pecador
Agora eu não quero senão beijar-te
Tua morte cai por terra a cada beijo meu
Por onde a noite cai já não se pode amá-la e em meio a tantas …..quedas não há triunfo da parte de obra alguma
O equilíbrio é sempre uma maneira de negar-se
Como quem intimamente salta de uma ruína a outra e não se satisfaz …..com os espectros de sua derrota que lhe vão corroendo a alma …..inteira
O inferno nunca foi uma boa temporada para nenhum de nós
Eu pude ver a agonia encharcando teu olhar enquanto meu corpo …..explodia e se misturava aos destroços de tudo quanto me cercava
Eu vi a tarde toda refletida aos bagaços em teu olhar
O lugar inteiro sendo refeito em estilhaços
A loucura de um gesto arruinando as nossas vidas
Meu corpo mil vezes abrindo crateras de ódio
Vítimas por traduzir
Não haverá uma única pergunta
Nenhuma obra jamais soube remontar os retalhos daquilo que …..destruiu
Muitos nem sabem a qual espécie de sacrifício aludir quando ostentam os símbolos de sua arte
Eu vi o meu corpo detonado por dentro e nenhuma visão foi mais …..íntima daquela tarde se extinguindo em multiplicadas explosões
Nenhum fragmento percebeu a dimensão do sacrifício
Nenhuma nova tarde se reergueu dos escombros de meu corpo
Nós somos os pedaços de Deus retalhados dentro da linguagem
Nenhuma farsa consegue destruir-se por completo
Ainda carregamos conosco o resíduo de toda fé
Imagem: Floriano Martins
4.
Enquanto escreves me ponho no interior de teu corpo inacabado
Vejo como me corróis por dentro em meio à vitalidade da crença nas ….imagens
Teu pensamento se ocupa de sacrificar minhas convicções
Habito-me em plena consumição de princípios
Nenhuma evidência se livra de suas faíscas de agonia
Em tuas anotações percebo o quanto te perturba riscar os pontos ….trágicos em que a escrita não se realiza como uma saída além da ….assiduidade do presente
Talvez por isto não me reconheças em ardis que ainda imaginas ….poder suprimir
As vertigens se multiplicam a lotar comboios em tua imaginação
Eu tenho que te sufocar por dentro até que divises o abismo a que ….nos entregamos
Não terás como ignorar meu esforço enquanto segues escrevendo em ….espantoso frenesi as tuas supostas ciladas
Eu grito um nome enquanto escavo o horror de tantas crônicas
Uma estranha palavra que repercute como quem se desgarra de si ….mesmo como se fôssemos elucidados por tudo aquilo que nos falta
Já não se trata de uma simples bordoada do acaso e sim da intrigante ….rede de sofrimentos que o jogo requer
Nenhum de nós pode mais simplesmente dizer o próprio nome
O que escreves aos poucos se revela como sendo a morte de nossa ….secreta identidade
Um punhado de imagens debilita tua relação com o mundo e já não ….te encontras aqui para confirmar quem
Imagem: Floriano Martins
5.
Se não estás aqui eu já não tenho como desamparar-te
A astúcia é uma lancinante categoria da linguagem
Confundir a imensidão com um pequeno tumulto
E agora abrigar teus escritos em meu corpo enquanto a solidão se ….precipita sobre tua garganta a ponto de rasgar-te o vozeio dos ….nomes
Deito meu corpo para que sondes o que ali faz sentido
Qualquer um riria de nós agora que se descobre que não temos o que ….dizer
Ensaiamos a miséria humana até que ela se estenda ao sol e ….dissimulada anote os assuntos que jamais entenderemos
A singeleza de meu corpo nu pode ser um atrativo para a escrita sem ….que desesperes e queiras me transformar em método de tua ….solidão
Nós somos os nossos diferentes erros sempre conciliados da pior ….maneira
Meus olhos correm por dentro da falsa imagem que fazes de ti
Eu não posso beijar-te agora porque me evitas
Os corpos saltam de uma presunção a outra e as dores resvalam por ….um corredor sem fim onde a vontade é sempre negada em nome ….da natureza
A dor não vai acabar nunca e não me dirás teu nome
Eu não passo de uma vida explosiva que te acoberta
Adormecerás entre uma deformação e outra de teus sentidos e ….seguirás sem me dizer teu nome
Imagem: Floriano Martins
6.
Bater e bater e esganar segredos e espancar infortúnios e arrasar ….pequenos ideais e violentar e arrombar e retorcer e avariar ….angústias e depredar tolices e torcer o sentido de miudezas e ….sequer rir de tudo isto como se fosse um requerimento da ordem ….local
O meu corpo gélido não passa de uma evidência
A memória se mostrará imprevisível sob tortura
O meu corpo está ali dizimado por reticências e sem que aceites teus ….limites
Um instante que seja eu não me poria de pé senão para saudar-te a ….dedicação ao extravio
Mensagens são transmitidas de uma fonte a outra e já ninguém pode ….dizer que não sabe o que pensar a respeito
Estás diante da pobre sociedade de teu corpo vitimado
Os teus meninos fora de cena
Longe de tudo, a dor do mapa foragido de suas dimensões
O desastre noturno de gemidos vigiados e gritos derramados na mesa ….dos limites
Aqui se pode morrer à exaustão e compartilhar a morte como um ….estranho vício
O olhar se arrasta por uma imensidão voraz que escama vícios como ….peixes migratórios que alimentam a sofreguidão do mundo
Quando o mapa se esvazia das marcas de tua perversão então ….podemos tatear as pequenas sombras fatigadas que ….espantosamente resistem
Imagem: Floriano Martins
7.
O mundo progride por um efeito de perspectiva
De onde me vês eu posso garantir tua revolução ou quebrar a banca ….de apostas ou denunciar-te a alguma agência de notícias ou tornar- ….me comparsa de teu fingimento ou:
Trata-se de uma roupa sinuosa a da perspectiva e quando me despes ….teus olhos imensos podem não me encontrar mais em parte ….alguma
Não é certo que jamais sabemos para onde caminham nossos mortos
Estamos devastando tudo dentro de nós
As tuas ilusões se deixaram impregnar por imagens plantadas
Um mesmo catálogo de bustos anônimos e o esplendor da miséria ….com suas igrejas sepultadas no descampado da memória
Um fósforo à espera do incêndio
Um beijo à espera da conspiração
Árvore cujas folhas são olhos de serpente
Um novo cenário de vísceras pré-moldadas estimado para que todos ….nos sintamos bem
A câmara focando o rosto desfocado dela – meu nome é rosa eu fui ….espancada porque vi três homens um deles colocava algo no carro ….pipa que veio abastecer o bairro outro me batia muito e espalhava ….sal por onde me doía no corpo todo e nem precisava me dizer nada ….eu fui afligida pelo que compreendi – um rosto de evidências ….quebradiças
Não há um eu sublime
Identificamos crimes pelos quais não podemos responsabilizar ….ninguém, nem nos cabe amenizá-los
Não há justiça sem justiceiro ou regime político sem a saciedade de ….seus métodos
Eu tenho um nome um eco um fala-me e ninguém me diz nada
Há um relógio que brota de cada suspiro e me distrai com horas ….suspeitas como se a minha vida estivesse por um fio
Imagem: Floriano Martins
8.
Há uma cobiça de gozos degenerando um jeito mais livre de ser
Uma fiação de regras que são a base de todo constrangimento e ….fonte de aliciamento
Teus mortos esperam em longas filas por pequenos volumes ….indecifráveis e suas pétalas de racismo e genocídio
Prosperam à espera desses pacotes de vômitos e ejaculações ….ressecadas
Flores famintas mastigam os restos calcários de tua memória
Corpos arrastados sob medida
Calvário de pratos concebidos com seus lamentos elétricos
A miséria ressumando como um abismo acidental
Ninguém sabe mais por que nome chamar a si mesmo
Nem mesmo escavando em escombros encontraríamos a ….transparência perdida
A dor multiplicada por mares descorados que se agitam em ….casarões de formas emudecidas
Lugares que se desfalecem aterrorizados por apenas soletrarem teu ….nome
Postos de comando & faixas de greve & cercos policiais
A humanidade já não guarda segredo de si
Imagem: Floriano Martins
9.
A memória se reparte ao visitar escombros negros e índios em seu ….paiol metafísico
Habituada à sedutora condição de modelo vivo acabou por desterrar ….efeitos contrários
De que lado a carne se espelha no real sentido de tudo quanto toca é ….algo que não se sabe
O que foi repartido devorou a metade que ingenuamente aceitou tal ….condição
Falso dualismo que orienta a existência quer tenhamos ou não razão
E não a teremos nunca
Toda razão perdida se transfigura em deplorável quando reabilitada
É alto o preço que pagamos por haver sempre esperado alguém que ….indicasse o caminho
Eu espero
Tu esperas
As vísceras passam por aqui
O morticínio bate à porta invisível
A angústia afia seus estiletes e sonha com safenas fantásticas
Nós esperamos a espera perder o controle das horas
Em um mundo assim até os relógios oscilam entre a insônia e o ….pesadelo
Imagem: Floriano Martins
10.
Desfigurados pelo nome e sua circunstância
Lições de abismo com endereço certo
Ensinar aos filhos que a história se faz assim
Um enxame de deuses aguardando a noite
Eu queimo de vislumbres que me descrevem com uma minúcia de ….desapontamentos
A noite não foi parar em parte alguma enquanto estivemos aqui
Eu tenho essas marcas em meu corpo que são as tuas palavras ….queimadas em vão
Revelar o teu nome já não resolve nada
Não há código civil ou justiça divina
O flagrante sempre foi o grande prestidigitador
Morremos exatamente aqui: dissidentes: relutantes: indecisos:
As versões cinematográficas se expandem
O grande negócio das quedas
Jurisdição de trevas
O Estado sou eu em qualquer estado
Eu olho em teus olhos buscando meu erro
Não nos molestamos mais
Destilamos uma frialdade absoluta
Qualquer que seja a metáfora desenhada por um de nós
Um resquício último de humanidade
Eu leio nos teus lábios que a noite não virá
Floriano Martins (Fortaleza, 1957). Poeta, tradutor, ensaísta e editor. Dirige a Agulha Revista de Cultura e o selo ARC Edições. Contato: floriano.agulha@gmail.com.
senta-te na vida
como no suicídio,
somos feitos de metal febril,
responde-me com a garganta iluminada,
és o espectro nómada
das noites que passo com o tagame,
um Rimbaud cansado
já aos quinze.
existes-me nos becos sinuosos
da mente, não sei se
o teu espírito rodou pela direita ou pela esquerda
mas foi Dante quem te ensinou a subir montanhas.
ainda não consegues compreender
o esforço que Max Brod fez para divulgar Kafka depois da sua morte.
és a penumbra secreta
quando te vigio a morte.
um amigo nas trevas
que percorre caminhos transparentes
onde a solidão se transforma
na música demorada dos teus pensamentos.
***
Há uma luz selvagem
há uma luz selvagem que me percorre o nome
e que enlouquece lentamente
no interior húmido da memória.
o espaço da voz
expande-se até à idade irrespirável dos objectos.
sento-me a observar a praia
e a forma como a água tem medo de se aproximar demasiado
e pousar nas perguntas.
as pálpebras escorrem-me até aos nervos.
há um frio insuportável na passagem escorregadia das horas
no gesso de cada nome,
e um sítio febril onde a inteligência consegue deteriorar
todos os vestígios decifráveis de vida.
cada nome, no interior imóvel do seu ventre,
no sangue fervido das noites,
transporta uma luz pesada,
impronunciável.
***
Cheguei demasiado cedo
ao colo da floresta,
quando falei,
falei extremamente baixo
sobre as mitologias
da linguagem.
se alguém me ouviu
foi porque este oceano pedestre
a que chamas existência
me deixou mergulhar
nas vertigens dos campos.
deixa-me conduzir
esta voz
até à intimidade do céu.
***
Anuncie aqui
anuncie aqui,
temos o que procura,
clientes de existências quentes,
astros estendidos no comprimento da boca.
anuncie aqui a sua solidão
o seu medo assimétrico,
o seu bom coração.
havemos de lhe encontrar
alguém sensível
com ossos audíveis,
botões em zonas estratégicas,
onde pode parar ou começar
os violinos,
as cortinas,
a paisagem.
a cortina paisagística
e um soneto capaz de cobrir a visão.
anuncie aqui
e anuncie ali
quanto mais se explorar
mais hipóteses tem de ganhar.
tudo amadurece,
até o silêncio
aquele que ressoa por esta febre
febre que se arrasta pelo poema,
poema que se verga
para o seu interior de mar.
as rosas brotam
o leite envenenado
dos nossos direitos mais antigos.
o avião transporta o peso
da luz
e a água da manhã atravessa
o brilho abandonado das mulheres
selvagens que te tecem o sono.
amanhã as fábricas recomeçam
a queimar os seus mortos
e deus ressuscitará entretanto.
***
A conquista da Polónia
a tua fala loira desdobra-se em pedaços brancos de pele
esta música goteja com o teu sangue,
o apetite dela do tamanho do meu.
orgulho-me das tuas veias tão salientes,
da altura assustadora dos instintos.
chove por dentro do desejo
e eu quero enterrar-te ainda esta noite,
quando passar o próximo comboio
terei o teu peito molhado,
os teus ossos transpirados
por aquela vontade de viver
mas antes do comboio passar
navegarei na tempestade azul dos teus olhos
e terei os teus lábios gelados
como o norte,
sentir-me-ei a rainha da Polónia.
Sara F. Costa (1987) Natural de Oliveira de Azeméis, Portugal. Licenciada em Estudos Orientais e Mestre em Estudos Interculturais: Português/Chinês pela Universidade do Minho e Universidade de Línguas Estrangeiras de Tianjin, China. Tem publicadas as obras poéticas: “A Melancolia das Mãos e Outros Rasgos” (Prêmio Literário Serra da Lousã, Pé de Página editores), Uma Devastação Inteligente (Prêmio Literário João da Silva Correia, Atelier Editorial) e “O Sono Extenso” (Prêmio Literário João da Silva Correia, Âncora Editores).