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103ª Leva - 06/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Samuel Malentacchi

 

Ilustração: Caroline Pires

 

“E sempre no meu sempre a mesma ausência”
Drummond

 

 

Um soco
….na cara do estômago
ele sentiu cedo
….aos três anos da tarde

levantou torpe
….destituído de fins
desastrando goles
….contra a gravidade

pois se sabe grave
….das agudezas císticas,
….rotundas profundezas
das cavernas malabitadas
….que cultivou
….no tempo escorrido
….& sem parentes
….daquilo que foice;

estancado, além
….dos vazamentos rudes
ele se sentou
….& abraçou o estar entre.

 

 

 

***

 

 

 

Variações Grotescas

 

“O poeta canta/mesmo morto/ a carta da morte.”
Eduardo Lacerda

 

 

I

é encaixotado pra dentro
e retendo meus medos
que ;paradoxalmente; exponho
-n’um tipo de tomografia estranha-
a metalinguagem do meu horror,

eu repito repeço reflito reitero
o excesso que repito repeço
reflito reitero; repeadicção
dos repeditos que lambi
durante toda a existência
entesourada dos meus cortes;

 

 

II

/colori o dolorido do mundo
que conheci sem dó alguma,
dolori como que vindo
daquilo que eximi no enigma
colorido de mim, exibido
em noite de fala, na grande hora
da novela que nos enforca\

 

 

III

;algo como foliões desesperados;
………(…)
a folia indo
folha por folha
a outro destino que não
o fruto da fruição multicor;
………(…)
sou o ator doado à coisa carne
caolha, homem clandestino
e refratário de toda conjugação
e traduzibilidades; do molde
rimístico cancioneiro-cansado
ao que multifaceto no ilusório
receptáculo d’um eu que dói,

(tenho noção disso, da
ilusão, nem tanto da dor)

há o depósito,
pandoresco e limitado,
de minhas tripas desditosas;
escrevo com elas agora;

;desespero – algo como folia;

 

 

 

***

 

 

 

Formas de Chão

 

De quando em vez me acode o avesso
e vejo o lado desexposto da existência,
este exuberante erro bem colocado;

nas derrotas que pratico predico pedidos
para, quem sabe, vestir a insistência panta-
nosa e aveludada de todos machucados vivos;

na melhor das hipóteses, sigo; ferido; sibilino,
silabando fulgores cínicos por duro desejo
impuro de destino. Sem cura, cuspido,

(no entanto ido), fragmentalmente .
Em vez dos quandos me veem os prantos,
é no buraco que me atravessa que sou visto.

 

 

 

***

 

 

 

não tenho pretensão de querer saber tudo;
no que me ensinaram |ensimesmaram| não fui cooptado;
eu apreendo das nuances desavisadas,
é na insinuação que desenraizo o mundo;

flerto com a fresta dita em linha reta;
faço curvas na sombra da tarde rubrica;
brinco sedento de morte empoçada para
,quem sabe |quem abre?|, morar na eternidade;

trago comigo um gole de abismo
daqui vejo & vou ao corp’alma do universo;
se volto serei poeira se volto espaço consideral
se vejo: destino sempre em desatino
………………………../mas ainda Destino\

não tenho a ambição de saber querer tudo;
o que sei? desensimesmar versos suores
nudeza lírica duvidosa rima-matriz-lúdica;
& desatar des(a)tinos para o caminhonar-me;

..:laço poesia para fazer instantes no momento do próprio acontecer:

 

Samuel Malentacchi Marques, 30 anos, paulistano, dentre poucas-muitas coisas soul poeta; cometi três crimes de fazser poesia & o quarto está no p(r)elo; ei-los: poemas nortunos/autofagia/minimáximas  & miscelâminas, respectivamente; no maiscommenos: também costumo existir enquanto músico, baterista da banda chalk outlines & psicanalista; e1/2: malentacchi.samuel@gmail.com.

 

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102ª Leva - 05/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Matheus José Mineiro

 

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Foto: Ana Pérola

 

ALERGIA A COR CINZA

 
a vida manuseia a gente com foice e facão, fervoroso boia fria.
Sabe que o coração
é material corrosivo o qual exige-se luvas para tocá-lo.

Desembestada, a vaca erupção.
…………………………esmaga verduras e hortaliças,
…………………caniveta a carótida, lesiona a panturrilha ,
………………………..gás propano no olho da faísca.
Contudo
……………………………..cotidianamente
…………uma força resistente, com ímpeto de búfalos e bisões,
prossegue subindo a minha cabeça
………………………esta ladeira com o calçamento de terra e bloquetes de pedras.
O medo a insegurança são substâncias tóxicas no fígado da gente.
Entre o suflê e a fuzilaria entre o mudra e a lâmina da serraria
…………………………………..aturamo-nos.
amor, rapé alucinógeno no meio do coma e dos transtornos do alumínio.
………………….o poema é aquele que oxigena o sangue
………………………..quando encontra-se esmagado
……………entre os ferrões de aço inoxidável da formiga saúva
…………………….que mede o tamanho de uma cidade.
……………….o poema é o analgésico o poema é o sedante.
…………………..vida, diária colheita de jiquiris e urtigas.

carreta que transporta querosene tombando numa rodovia .
…………………………..Com esta sensação prossigo
sensação de barranco e chuva
diante do galpão da indústria de material bélico;
…………………esfregar de folhas de cansanção nas mãos ;
………..fogos de artificio chuva de raios piruetando na sobrancelha ;
………………………..uma outra espécie de horizonte
………………………mais cor mostarda no nascer do sol
…………………………mais cor beterraba no por do sol
…………………mais cor de jabuticaba estelar na madrugada
…………………….chovendo debaixo dos seus supercílios.

 

 

 

***

 

 

 

FULIGEM ESMURRA AS SAMAMBAIAS

 
..o operador da retroescavadeira, a caixa de e-mails
..o fuzuê de bytes o pau a pique eletroeletrônico
sondas radiofônicas, quilohertz & farmacologia no furdunço cotidiano
maquinário industrial na beira das nascentes do meu rio;

atrito, abrupto abutre
…………………….no silêncio vermelho do pós parto de uma rinoceronte branca.
Como o sossego do minério encrustado no intestino do rochedo
.o estresse almeja
…….milhões de volts, noventa mil cavalos, trinta mil gigabytes
que há no tráfego calmo sanfonado cor de cores fantásticas da lagarta .
Arco íris apresentando-se na Terra com o seu formato que rasteja.
..enquanto a vida trata a alma e o coração da gente
……………………usando movimentos de um açougueiro .
…………………………Disso o estar-se sempre ensopado
……………………….com a alucinação de um carvoeiro
………………….encantado ao ver o canário chover amarelo
………………………e o azul babar verdes maritacas no céu.
..locomotiva movida a vapor e euforia fumegando dentro da espinha.
solda durex durepox
naquelas coisas que já não aproximam-se mais por meio de um abraço.
………………implante de tártaros e arames farpados na boca
………………..e luxações em algum tendão da silaba mão .
……………..retorno a missa de beatificação da palavra Ânimo
……………….este analgésico, este sedativo, este entorpecente
……………….em meio a massoterapia e o alicate de pressão.
…..Pretendo ser medido por um sextante e ser visto por telescópios
e mesmo com esta tarântula de bário
…………………………………..metal alcalino
………………………cuja picada causa febre e delírio
…………………..é corte no supercílio do meu horizonte.
sobrevivo,
momento de estalo que a nuvem descarrega uma chuva de raio
………………ou mão que desfolha um galho de manjericão.

 

 

 

***

 

 

 

PARTÍCULAS DA GALÁXIA PUPILA

relâmpagos, raios e trovoadas se hospedando no céu da minha boca.

*
aqui por dentro de mim
está tão luminoso
que até mariposas me sobrevoam.

*
dentro do pão sovado não se passa mais manteiga de Minas,
depositam fios de gilete e navalhas.

*
estou no quadril de uma zebra, e sinto
pressionado pelo maxilar de uma onça parda inoxidável.

*
um rinoceronte branco entra pela axila
para ir rugir no castanho das pupilas

*
ouço um rottweiler apelidado de cidade
com seu metálico ranger de ferro
milimetricamente mira um bote na minha coxa.

*
às vezes
o verde musgo do meu peito
fica comprimido dentro da mandíbula de um jacaré do papo amarelo.

*
que as verduras e as estrelas nos usem como vastidão.

*
já que o silêncio, enfermo e abandonado no branco sujo
cirúrgico do mundo
deita agonizando sobre a maca hospitalar.

*
procuro uma bicicleta Poti
para pedalar dentro da palavra afeto.

***

 

 

TODO DIAMANTE BROTA NO ESCURO E PERPASSA O ESMERIL

 
todas estas inquietações e apreensões,
……….cromado tatu canastra que escava a região do pescoço
………………………..Máquina triturando nossa calma.
dentes de titânio de um labrador
e a mandíbula de brita da moreia
disputam a primeira mordida na textura deste coração crocante.
ser cãibras
..na mecatrônica pata deste javali que pisoteia nossos alfaces e nossas rúculas.
…………………….embutir o sono de um carrinho de bebê
………………….e a procissão de um jabuti nas vias públicas
……………………..onde o sossego é desossado por hienas
………………………..e olhos são arrancados por abutres .
…..Toda vez que sangro ou me queimo junto com o diesel de um caminhão
…………………………o Poema aproxima-se de mim
………………………………….me coloca na garupa da sua bicicleta
…………….e pedala pelas estradas de terra da palavra Ânimo;
velotrol colidindo com um tanque de guerra israelita;
…………………………………….desengordurante;
enxada roçando este terreno íngreme que é a vida;
água mineral lençol freático escorrendo do tórax diante da aridez dos dias;
proteína esmurrando a enfermidade;
…………..embrião fervido nas caldeiras da Usina da Jatiboca.
Até aquele momento de não sentir mais a sua altura,
…………………comprimento e nem espessura no Planeta,
………………ver o corpo como propulsão de um jato de luz
………………………………………………………………………….de calor de cor parda.
…………………………Em meio a anemias e toxinas
………….abocanho a vida com ímpeto de maxilar de hipopótamo.
……………….Nuvem que pela primeira vez relampeja.
….dentes empolgados de cabra diante dos grãos desta ração que é viver.

 

Matheus José Mineiro é autor do livro A Cachoeira do Poema Na Fazenda Do Seu Astra (2013, Selo Petrópolis Inc.). Produz os fanzines Estrondo Na Bolsa Fetal, Galáxia Pupila, Apologia Poética, Mais Um Cadim de Poesia Aí, Costelinha Com Quiabo e Poesia.

 

 

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102ª Leva - 05/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Michelle Mendonça

 

Ana Pérola
Foto: Ana Pérola

 

Uma breve energia dessas células,
amor, mortas, geneticamente
sua própria eletricidade.

Enquanto

você dizia o gato lambe a pia,
debaixo o porteiro conspira.
Éramos linhas paralelas à espera do infinito.

 

 

***

 

 

 

decidia de vez aquele dia!
na sua melhor roupa
de loucura, enquanto
marcava os passos
de mágoas, e adeus.
do lado montanha,
do lado água,
tudo se movia, e ela parada.

 

 

 

***

 

 

 

além high tech, tele transporte, e ciborgues,
chipes, discos rígidos e vigiam;
escrita dura sobre a vida, surras de
realidade, doenças progressivas.
o material humano. subempregos, chefes
hostis, acabou tomando água do banheiro.

 

 

 

***

 

 

 

pulsação, sangue e respiração nunca saberei o
que se deu em minha garganta a maré se
fechou em um abismo de pedras da onde as
folhas caem das árvores e a areia dança para
o fim.

 

 

 

***

 

 

 

vazio entre os móveis
as ausências passeiam
é o que essas páginas
sabem há várias tardes.

 

 

 

***

 

 

 

Assim a superfície se via
Tomada de antíteses num
mergulho retilíneo.

 

 

 

***

 

 

 

Poema de pedra
Pedra restante de espera;
do tempo que se imagina
de alma habitada, viva!

Você é Pedra estendida
esfera larga em sorrisos
para o céu em seus aclives/declives.

O que há em mim de minério é você,
pois pedra há de estar no céu e no mar.

 

Michelle Mendonça (São Paulo, 1983) é licenciada em Letras e Estudos Literários. Técnica em Processos Fotográficos. Já participou das exposições Casa Mafalda, Parque Gabriel Chucre, Mostra Samsung SP 2013. Publicou dois títulos literários independentes: Intervenção Urbana e Fotografia de Paisagem e Arte Urbana. É colaboradora da Revista Escrita Pulsante.

 

 

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102ª Leva - 05/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética VI

Camila Charry Noriega

 

Ana Pérola
Foto: Ana Pérola

 

La palabra ha muerto,

 
sin ella
¿Cómo nombrar a Dios?
En el silencio,
en la ausencia de palabra
el mundo flota como una idea
ensombrecida, virtuosa
y también Dios,
su lenguaje hecho de capricho humano
de humana incertidumbre.
Ahora, cuando no hay palabra
cuando el lenguaje abandona
su servidumbre,
su súplica, aún digo:
–Dios, sálvame de tu furia, dame luz y sed
protégeme de mí misma,
aunque sea haz que en mí las palabras digan algo
traigan algo
revelen alguna verdad
si es que acaso existes–.

 

 
***

 

 
El Aro

 

Rodaban por la montaña
eran un solo río
que atrás dejaba
la carne flagelada de sus padres.
Como un río eran una sola herida
que vagaría por las ciudades
hasta la época de la ceniza.
Un río que florecía como un largo puñal eran.
Traían en las manos
amados
afilados huesos
armas o amuletos
tallados con el brillo de los dientes
por si la sombra los volvía a encontrar
ahora huérfanos,
curtidos.

 

 
***

 

 

Se acostumbra el cuerpo a ser muñón

 
y desea de lo perdido su verdad, su belleza fulminante.
Se hace más presente el deseo que el muñón,
su latencia de carne mutilada.
Esta cruel servidumbre:
descreer del hombre,
para otros,
esperar al Buitre
dios, de todos,
el domador más cruel,
negrura del pan
el otro continente, el muñón que palpita
atado al cuerpo roto.
Una palabra en llamas para el hambre de este mundo.
Un escupitajo contra el andén caliente.
El pan que en las manos del que espera
se descompone,
hiede.

 

 
***

 

 

Bojayá

 
Les trozaron las manos
y en el pellejo de otros muertos, los labios les hundieron.
Para comer
después de tres días
les llevaron las tripas de sus perros.
Detrás de los árboles
unos cerdos esperaba las sobras
las falanges
los tendones quemados
que aún temblaban
pues las balas
dentro de estos pedazos de cuerpo,
de mundo,
seguían calientes y sacudían la piel partida
por el plomo final.

 

 

***

 

 
Entre la red el pez aguarda,

 
estaca la red que impide su huir.
Agua y pez socavan el hueco del tejido
en un bello intento de fuga.
Perpetuidad su vuelo entre la nube de mar que lo consume.
El pez reconoce pronto en la entraña del agua
el espejo que lo reclama;
bebe su instante de verdad
sin alegría.
Vuelve del otro lado de la red cocido.
Igual los hombres acá,
regresan del otro de la calle
cocidos, su hambre intacta.

 

Camila Charry Noriega nasceu em Bogotá, Colômbia.  Tem formação em estudos literários e é professora de literatura. Publicou os livros “Detrás de la bruma” (Común presencia editores, Bogotá, Colombia), “El día de hoy” (Garcín editores, Duitama, Colombia), “Otros ojos” (Elángel editor, Quito, Ecuador) e “El sol y la carne” (Ediciones Torremozas, Madrid, España). Participou de diversos encontros de poesia na Europa e América. Alguns de seus poemas foram traduzidos para o inglês, francês e romeno. 

 

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102ª Leva - 05/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética I

Susanna Busato

 

Ana Pérola
Foto: Ana Pérola

 

 

Cindida no tempo resgato o meu rumo no passo a descoberto das pegadas sempre invisíveis que faço nas pedras. Caminho rota entre as rotas que traço louca no papel de riscos: linhas sobrepostas às margens violadas pelas letras, sempre enormes, abastadas de esperança. Cindida pelo tempo do fim gasto meu rumo descompassado às margens frescas da próxima folha de papel, namorando a tenra superfície de pedras invisíveis para as pegadas dos trilhos que me levarão a você.

 

 

 

***

 

 

 

Socorro

 

Ao menos uma fresta,
um ar, uma réstia,
uma salva de promessas.
Qualquer coisa qualquer
que salve bem
depressa.

 

 

 

***

 

 

 

A aguda serpente finca e dobra o corpo dormente nas tramas da pele fina e branca, linho de algodão, leve no vento e no roçar da fria camada serpentina da agulha que se finca a cada hiato da pele, dócil trama que plasma o leve e a aspereza do toque e se entrega à aguda e violenta investida do seu roteiro de estradas e trilhos a céu aberto.

 

 

 

***

 

 

 

on part

 

 

part
ida

à espera e à deriva
como um lenço ao longe
a cena assina

sino úmido
lusco-fusco
som pregueado no branco
punho abrupto de pedra

réstia de tempo
que se engole
sem pressa

 

 

 

***

 

 

 

Éramos nós em cada ponta do lençol. Nas dobras, as sobras de nossa pele. O dia ia longo e o branco do tecido cada vez menor. O gesto repetia o compasso. Olhares de corpo. De um avança o segundo que retorna. Lento o lance das mãos. Leve o lençol entre os dedos. Nas dobras feitas, o tecido de nós.

 

Susanna Busato é uma gaivota no rastro do rasgo roto da palavra. Com a poesia na rota da vida, constrói seus voos e só consegue aterrissar nas pedras, única terra firme que lhe oferece a verdade de que tudo é fingimento até mesmo a realidade. Deixou suas pegadas no livro “Corpos em Cena”, Patuá, 2013, que lhe valeu figurar como finalista do Prêmio Jabuti de Poesia em 2014. Deixou rastros em outras terras como nas páginas da Revista Cult, Revista Brasileiros e nas revistas eletrônicas  Zunái, dEsEnrEdoS e Aliás.

 

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102ª Leva - 05/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética II

Ricardo Paião

 

Foto: Ana Pérola

 

Drama-
tis personæ — mão — inversos toupeiros sem corpo — zuze — varanda aqui ao lado — Solitude Alfa — couraças múltiplas da insónia

 

27’6—2014

 

 

A
mão estende se abertamente, es-
tende-se na plenitude dos cinco dedos desocupadíssimos d’objeto,
estende-se a tatear com muita força o vazio inteiro, estende-se
enquant’as falangetas fremindo acerca de superfície nenhuma.
Perfeita ausência de texturas. Perfeita ausência de queimaduras.
A
mão estende-se abertamente, es-
tende-se a idealizar afagos no amplo dorso
do indomável nada.

 

 

 

31’12—2014

 

 

De-
monstrar
que as virilidades funcionam num modo subterrâneo
que as asas são escavando o vento
que as nuvens consistem no cérebro
d’inversos toupeiros sem corpo.

De-
monstrar
as profundas galerias do surdo olvido sideral
onde os cânticos se abortam
eternamente.

De-
monstrar
o interior do peito
o bunker do coração.

 

 

[3] 19’1—2015

 

 

Chamava-se
zuze simplesmente zuze

um raio de nome
tão fácil
tão onomatopeico — insetí-
fero.
Chamava-se
zuze simplesmente zuze

e na sua extrema gula cumpriu de-
vorar cidades inteiras.

 

 

[3] 27’1—2015
receando o inestético

 

 

Quão
luminosa a manhã.
Na
varanda aqui ao lado
uma abundância de cuecas estendidas
a querer ridicularizar-me o poema.

 

 

[4] 10’3—2015
Solitude Alfa

De
que vale alguém como eu rascunhando Solitude-Alfa passageiramente na muita azáfama de um caderníssimo diário oh perguntinha filhadaputa cuja resposta sabe-se lá. Nunca alcanço as importâncias daquilo que escrevo.

 

 

[4] 13’3—2015

 

Con-
juntura de
pálpebras sobre pálpebras sobre
pálpebras
couraças múltiplas
da insónia
ou arremessos de fosforescência
contra o noturno estuque
situacional.
É
como que o próprio quarto a regurgitar-me
nunca saberei
dizê-lo de outro modo
que resulte menos sísmico.
Os
meus cobertores
num vértice de tudo e de nada.

 

Ricardo Paião Oliveira nasceu a 23 de maio de 1983 em Lisboa.

 

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102ª Leva - 05/2015 Destaques Janelas Poéticas

Janela Poética III

Carla Diacov

 

Carla Diacov
Arte: Carla Diacov

 

ela anda com as solas das
mãos para fora
vermelha
anda como quem pede
e se dormir andando
e se espirrar andando
ela dorme como quem peca
vermelha
e se um caco de vaso a segurar pelas mãos?
e se um rouxinol a atropela?
e se lhe resolve pesar o vermelho no coração?

 

 

 

***

 

 

 

a leviandade por ser presença
fica
teu vulto evolui e se encrespa a ser novo vulto através das pontas dos meus dedos
há já algum resíduo
na inocência e na violência é minha
a pressa
envelheço me ajoelho tiro a sorte na posição dos dias
você vem?
na inocência e na acedência
a leviandade
você vem fica
há o resíduo penando no fundo do poço
você vem?
há um pássaro em repouso
se você não chega
como tudo que vibra por baixo do gesto
respira voa é violenta inda cisca
há uma ave que eu não
há alguns metros que eu não
há uma esferográfica e há um século e meio sobre
a mesa se você chegar antes

 

 

***

 

 

o raio é posto, parada e rio
não chegam os olhos ao nó da garganta
quando de lado a vida
o corte é trilha carcomida e zarolha
inda me sobra te dizer assim:
venha comigo, deixe o cavalo ao meio, de nada adianta, deixe o cavalo comigo.

 

 

 

***

 

 

 

Anatomia Forense

era pra eu ser mulher de morar, mas sou amável.
era pra eu ser deparável.
mas sou odiável.
sou serial e sou adjetiva demais. era pra eu seu de morar, mas sou oxidável.

 

 

 

***

 

 

 

pela combustão

 

o vento enche a minha cara dos fios dos meus cabelos
tento outra posição
porém o vento
me agacho
junto ao tronco da palmeira

carco fogo nas velas
o céu da boca não orna com a boca que não souber o que é uma boa fogueira
eu por exemplo ou falsidade envernizada
sou essa capela em chamas
à beira-mar
desejo redes e só sei queimar

 

 

* Os poemas integram o livro AMANHÃ ALGUÉM MORRE NO SAMBA pela Douda Correria (Portugal/ Abril, 2015)

 

Carla Diacov (1975), São Bernardo do Campo – SP. Publicou “Fazer a Loca” (e-book) pelo selo Ellenismos. Tem poemas na Coyote número 25 (Kan Editora com distribuição pela Iluminuras).Integra a coletânea 70 POEMAS PARA ADORNO, Editora Nova Delphi (Portugal).Em Abril de 2015 lançou AMANHÃ ALGUÉM MORRE NO SAMBA, livro de poesias pela Douda Correria (Portugal).Tem participações no site Cronópios, nas Revistas Germina Literatura, Zunái, Mallarmargens, Usina, Diversos Afins, Ellenismos, Cruviana, Musa Rara e integra o Escritoras Suicidas. 

 

 

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101ª Leva - 04/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética III

Leonora Rosado

 

Victor H. Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

 

Há um alçapão no fundo do mar
Subsolos imaginativos de orquídeas
Que ardem e submergem ainda
Mais fundo
Onde a luz é dilatada pelo rumor
De algas mortíferas peixes ferozes
Ao brilho gasto de cada grão
A areia traça nas mãos um indelével
Golpe
O sangue emerge
E o mar incendeia-se
Num sobressalto
Ecos vindos das planícies sob
Dunas marítimas
Dizem que há pássaros
Mais além e que ainda se pode voar.

 

 

 

***

 

 

 

No começo
De um luto
Lavado,
Impuro,
Tecer
De pano
As cinzas
De uma
Teia,
Há flores
Vindas
De longe
Que escutam
Os meus passos
Em branco
Como o assentir
De outras mortes,
Que inclinadas
Sobre vidro,
Quebram-se.

 

 

 

***

 

 

 
Ficou do meu corpo
Apenas o ensaio das curvas
A pressa de ir ao fundo
Onde a porta se fecha
A boca de anzol
Onde morrem as perguntas
Translúcidas e vazias de vago
Em cada respirar.

 

 

 
***

 

 

 
No começo da linha
Há uma curva imaginária
Uma sombra incendiada
Um sofisma gritante
Uma estrofe muda
Um desistir veloz
Que nos perpassa
O ponto de início
É uma flor em cinzas
É o amor essa emergência
Que pulsa
Veias para o garrote
Estreito
A linha perde-se no contexto.

 

 

 
***

 

 

 

As mãos descuidadas
Os dedos mordidos
Como um Inverno quente
Em que estalam as folhas
O corpo uma extensão de areal.

 

 

 
***

 

 
Na pressa de queimar cicatrizes
Deixo-me ficar na penumbra.

 

 
***

 

 
Só tenho um sentido de vida:
O do caos.

 

Leonora Rosado nasceu no concelho de Sintra em 1971. Desde muito cedo revelou interesse quer pela leitura assim como pela escrita, poesia, sobretudo. Teve o privilégio, de ainda em criança, cruzar com poetas nomeadamente, Ruy Cinatti, Joaquim Ferrer entre tantos outros… A escrita é a sede que ávida tenta saciar incessantemente em eterno retorno. Insaciedade de Tântalo. Em vertigem constante.    

 

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101ª Leva - 04/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética IV

Paola D’Agostino

 

Victor H . Azevedo
Desenho: Victor H. Azevedo

 

Esta esplanada não existe
é mais um sonho marcado
para acontecer talvez num Setembro
mas entretanto avista faróis
do último piso de um estacionamento.
Clandestinidade de luxo
que a cidade sabe oferecer
ao delírio de sair de si
nas horas mortas
encontramo-nos aqui
em lugar abusivo
o único sítio onde te consigo

Quando arrancares
o relógio da carne
não te esqueças de sorrir
ao virares
a clepsidra do oblívio.

E depois lava bem as mãos
que está um tempo sujo cá fora.

 

 
***

 

 

A vida às tantas se parece com aquela grande loja de artigos para o lar
que toda a gente conhece na Baixa mas entretanto
alguns sobem ao último piso para aproveitar a vertigem do panorama
e beber uma imperial no reino das águas furtadas
enquanto outros só procuram mesmo a secção das flores de plástico
e compram cascatas de glicínias
para enfeitar a sala e eventualmente um gancho
que prenderá o cabelo em dias bonitos

e todos juntos
uns e outros
encontramo-nos no espelho do elevador
e sorrimos.

 

 

 

***

 

 
Vício, forma mais violenta de estar vivo

 
A lei do espanto mandava em tudo
e nem tudo obedecia às leis.
De resto nada tenho a assinalar

Eu quis
voltar a entretecer-me de raiz
com outra curiosidade.

 

 
***

 

 

Um lugar ao sol e um tempo na sombra

 

Eu vim pactuar com o crime a esta praia
porque a geada aperta no hemisfério
do continente gasto
aqui no cérebro.
Porque sair de casa a meio da noite
em busca de sacrilégio
é arte
de aventureiro
que se deve provar
uma vez pelo menos.
Por essa gota de adrenalina suja
que fomenta a inconsciência
de Prometeu
como um revérbero
ao sair de si.
Eu vim
desafiar a imortalidade
do mal
que havia em mim.

 

 

 

***

 

 

 

Quantos cais este oceano permite?

 
Como um papel de parede
que descolando amarrota na queda
todas as vidas anteriores
e repõe no espaço dos fantasmas
a candura das paredes nuas
perfeita casa
como
tabula rasa.

 

Paola D’Agostino aprendeu a caminhar por volta de 1976 e desde então nunca mais voltou para casa. De momento reside em Lisboa. Seus livros chamam-se “Largo das Necessidades” (2006), “Este Frio e Outras Histórias de Amor” (2011), “Dançam; Dançam” (2014) e o mais recente “Catar Catataus”, um diálogo ideal com o Catatau de Leminski (três últimos poemas desta seleção). Tem textos espalhados por revistas e antologias em Itália, Portugal, Alemanha. Um dia tocará acordeão, talvez.

 

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101ª Leva - 04/2015 Janelas Poéticas

Janela Poética V

Vander Vieira

 

Desenho: Victor H. Azevedo

 

Parece-te mais uma faca cravada em meu crânio

 

Parece-te mais uma faca
cravada em meu crânio.
Quando levanto-me do teu sonho
não ouço o rumor dos
………………………. [pássaros.
Como beijos embotados,
tua boca lança silêncios ao vazio;
palavras morrem antes que tu as balbucies.
Parece-te uma avó desalmada
com o agravante do assassínio letral.
Estavas ontem mesmo em minha estante;
eu a fitar-te e tu, brilhante, de soslaio,
a comer-me a visão.

Se plantasse cheiros nenhum deles daria em ti.

 

 

***

 

 

O espantapássaros

 

qual o lar do espantapássaros?
quem sorri a ele? os senhores? os vermes? as viúvas?
se ele trocasse de roupas, nós o reconheceríamos?
na capa do jornal de domingo
escondido entre as feras, alheio
ao reto do caminho, caminha
o espantapássaros.
mastiga ele a areia fina dos temporais
e sua caixa de fósforos
está encharcada de visões solitárias.
alguém ouve o espantapássaros? suas fendas?
seus fecundos sonhos intranquilos?
as sensíveis assembleias camponesas
ouviram seus apelos por um guarda-sol?
se a solidão torce os ossos dos não-vivos
o que faremos com quem tem coração?

 

 

***

 

 

Levarei ao chão todas as bicicletas cor de fogo

 

Levarei ao chão todas as bicicletas cor de fogo.
Jogarei no lixo os buquês de flores cor de vinho.
Apagarei todas as imagens coloridas.

Nada disso, no entanto, afagará a ferida aberta
pelo escoar do tempo no corpo.
Um corpo todo desmedida,
todo bifurcação de possibilidades,
todo abraço dado ao acaso.

Nada disso dá conta das fissuras vazias na tal parede
do tempo – nem mesmo mil pás de cal estancariam essa hemorragia.

Passo em frente a uma boutique:
manequins me olham e seus olhos não guardam expressão alguma.

(Uma mesa diante de mim expõe uma laranja partida em duas)

 

 

*** 

 

 

O espantapássaros II

 

O espantapássaros pendurou seus ossos
nas janelas ocres do seu passado.
Longamente meditou sobre a dor que o crucia.
Um escravo tísico, desses sem-vida,
perguntou ao espantapássaros
em qual braço do horizonte o sol faz a curva
que nos queima a pele eternamente?
Um homem comeu minha língua, ele disse
enquanto volvia os olhos às colinas
que mantinham entre os seios hirtos
os últimos dedos de luz.
Sem os acenos da noite, em qual cômodo da casa
o espantapássaros chora seus dias?
qual a sua bússola? e seu relicário?
sobra-lhe mãos e tempo para espantar as moscas
que lhe cobrem a face lúgubre?
ou seu senhor lhe ordenou que mantivesse
os braços abertos mesmo em dias sem abraços?

 

 

***

 

 

Parassempre

 

Hoje eu quero apenas uma pausa de mil compassos
Paulinho da Viola

 

 

Enquanto vivermos
seremos parassempre
bem como as canções, o engano e as pedras.
Pedras não são provisórias.
Tudo o que se pode ser, um pouco menos,
um pouco além, um pouco lago, é
impreterivelmente no tempo, que alumia.
Não se vê só com os olhos
mas só com os olhos é que se vê.

Rebento incréu, pobre e
marginal
lodo e nicotina
vias falais meio entupidas.
Por vezes
um entardecer.

 

Vander Vieira é poeta, mineiro do interior do estado e tem 25 anos. É bacharel em Filosofia e vive em Vitória/ES desde 2009. Venceu o prêmio UFES de Literatura Portuguesa 2013/14 na categoria Coletânea de poemas, tendo 10 poemas publicados na coletânea de mesmo nome, oriunda do prêmio. Tem também poemas publicados em revistas literárias como Samizdat, Desenredos e Mallarmargens.